Yassin al-Haj Saleh: “A revolução síria falhou porque não houve esforço global para eliminar um regime genocida”

Prisioneiro durante 16 anos, testemunha dos crimes da dinastia Assad, ele acreditava que a sublevação de Março de 2011 restituiria a liberdade ao povo. Oito anos, meio milhão de mortos e 12 milhões de refugiados/deslocados depois, chora a tragédia do seu país. Entrevista por e-mail, a partir de Berlim. (Ler mais | Read more…]

“Nestes oito anos, o regime não demonstrou vontade de negociar com nenhum revolucionário, nem mesmo com os opositores domesticados”, diz Yassin al-Haj Saleh. “Não aceitou renunciar sequer a 2% do seu poder”
© Maurice Weiss | Wissenschaftskolleg zu Berlin

Para muitos sírios, Yassin al-Haj Saleh é uma referência moral, o “guru” ou a “consciência” da revolução, iniciada em março de 2011. Médico, dos mais importantes pensadores e intelectuais do seu país, ajudou a fundar, em 1972, um partido comunista crítico de Hafez al-Assad, o ditador que governou três décadas até fazer do filho Bashar o herdeiro da primeira dinastia republicana árabe.

Detido em 1980, quando tinha 19 anos, esteve até aos 35 nas cadeias do regime, o último dos quais na infame prisão de Tadmur (no deserto de Palmira), a que ele chama “campo de concentração” ou “o pior lugar na Terra”.

Nos primeiros dois anos da sublevação, Saleh e a mulher, Samira al-Khalil, também ela ex-prisioneira e dissidente, viveram na clandestinidade em Damasco, organizando a oposição em comités populares, documentando violações de direitos humanos. Samira e Firas, um dos irmãos de Saleh, foram raptados por jihadistas em 2013, e ele não mais teve notícias deles.

Nascido há 58 anos em Raqqa, “capital do califado” do Daesh, Saleh vive agora na Alemanha e aqui ficará três anos, como fellow no Wissenschaftskolleg zu Berlin (Instituto de Estudos Avançados de Berlim. Não sabe “ainda” se regressará a Istambul (Turquia), onde ajudou a fundar o centro para o diálogo e cultura Hamisch e o jornal online al-Jumhuriya.

É autor de vários livros, a maioria em árabe, o último dos quais Imperialistas Conquistados, sobre islamistas contemporâneos. Em francês publicou Récits d’une Syrie oubliée: Sortir la mémoire des prisons e La Question syriennne. Em inglês (também com edição francesa), The Impossible Revolution: Making Sense of the Syrian Tragedy é uma obra fundamental para perceber uma luta, que começou pacífica, contra uma implacável tirania.

Crianças sírias brincam em Deraa, berço da revolução em 2011 e uma das várias cidades destruídas pelo regime de Bashar al-Assad
© Reuters

Que memórias guarda dos primeiros dias da revolução? No primeiro capítulo do seu livro, nota-se um enorme otimismo. Por que estava, naquela altura, tão confiante de que o regime de Bashar al-Assad acabaria em breve?

Guardo na memória o funeral dos sírios mortos pelo regime em Douma e Ghouta Oriental, perto de Damasco, na primeira semana de Abril de 2011. Eu estava entre milhares de pessoas que assistiam ao funeral. As minhas lágrimas caíam enquanto erguia a fotografia de uma das vítimas.

Só mais tarde, vim a saber que também ali estavam, sem combinação prévia entre nós, a minha mulher, Samira Khalil, e a minha amiga Razan Zaitouneh [advogada e uma das mais importantes activistas sírias, raptada em 2013 pelo grupo extremista Jaish al-Islam , tal como o marido, Wael Hamada, Nazim Hamadi, e Samira.  Ficaram conhecidos como “Os Quatro de Douma”.]

O meu otimismo era realmente imenso. A revolução síria surgiu num amplo contexto revolucionário que derrubou dois crónicos regimes despóticos, na Tunísia [Zine El Abidine Ben Ali ] e no Egito [Hosni Mubarak]. Caminhava-se também rumo à mudança na Líbia e no Iémen. E a mudança no Bahrein só foi frustrada por uma intervenção saudita, apoiada pelos Estados Unidos.

Pareceu-me, e a muitos de nós naquele tempo, que nada seria capaz de parar essa onda revolucionária. Barack Obama chegou até a pedir a Bashar que renunciasse ao poder, porque calculou que, inevitavelmente, ele iria cair.

Hoje, olhando para trás, não me parece estranho o nosso otimismo. Estranho é a continuação do regime, protegido apesar de usar armas químicas e cometer inúmeros massacres. Apesar de mais de meio milhão de mortos e de um terço da população estar fora do país.

Umm (mãe de) Hatem foi forçada a abandonar a sua casa, apenas com alguns bens pessoais, em Maaret al-Numan, no leste rural da Síria
© AFP | cdn.siasat.com

Por que é que Deraa, descrita como “uma cidade que mantinha laços financeiros e militares com a família Assad”, se tornou no “berço” da sublevação popular em Março de 2011?

Não é verdade que Deraa tivesse laços militares e financeiros especiais com a família Assad. Alguns burocratas do partido Baas [no poder] e ministros de Assad são originários de Deraa, mas esta é uma realidade que pertence ao passado e acabou destruída por uma mistura de políticas económicas neoliberais e de ditadura política.

Uma realidade abalada também pelas “primaveras árabes”, que nos trouxeram a esperança e, depois, pelo incidente que foi a detenção e a tortura de crianças que escreveram nas paredes frases ameaçando o regime com um mau destino.

O que correu mal para que a revolução se tivesse tornado “impossível”, uma “tragédia”?

Primeiro, a revolução era impossível porque estávamos perante um regime que, uma geração antes, matara dezenas de milhares de pessoas, minou a sociedade síria com serviços de segurança e medos interconfessionais. Depois, aconteceu outro impossível: [O regime] rompeu a revolução com massacres e armas proibidas, convidou iranianos e russos a participar no banquete dos assassinatos.

A vitória seria possível com uma oposição desunida, desorganizada e sem uma liderança eficaz?

Este é um regime genocida, e os regimes genocidas não são apenas problemas para os governados de um modo exclusivo, mas também problemas globais. São regimes que matam centenas de milhares e milhões de pessoas para perpetuarem o poder.

Não existe um povo ou uma oposição que consiga resistir a um regime com uma tal determinação e armas letais. Qual foi a liderança eficaz de uma oposição unificada na Alemanha nazi, na Rússia estalinista ou no Camboja dos Khmer Vermelhos?

Milhões ou dezenas de milhões foram mortos e os regimes permaneceram, ou a sua queda aconteceu graças a um esforço global coordenado. Na Síria, o esforço global coordenado concentrou-se em não ameaçar o regime genocida, em vez de o eliminar.

Socorristas na cidade de Aleppo, norte da Síria, resgatam crianças de escombros, um dia depois de um ataque do regime de Assad com bombas de fragmentação, em Maio de 2015
© Karam al-Masri | AFP | Getty Images

Por que falharam as negociações para acabar com a guerra?

Um regime genocida não negoceia, nem aceita soluções políticas. Só sabe fazer a guerra contra os mais fracos. Nestes oito anos, o regime não demonstrou vontade de negociar com nenhum revolucionário, nem mesmo com os opositores domesticados. Não aceitou renunciar sequer a 2% do seu poder.

Em 2000, quando Bashar sucedeu ao pai, muitos acreditaram numa “Primavera de Damasco” capaz de reformar o regime. Por que havia essa esperança, sabendo-se que ele estava a ser preparado desde a morte do irmão Bassel, em 1994, para ser o herdeiro da primeira dinastia republicana árabe?

Houve uma esperança ilusória de mudança nessa curta “Primavera de Damasco”, porque, como sociedade e opositores, ficámos sufocados durante vinte anos e sem autoconfiança.

O desaparecimento de um terrível tirano [Hafez al-Assad, que em 1982 ordenou um massacre na cidade de Hama – pelo menos 20 mil mortos -, para se vingar de uma insurreição da Irmandade Muçulmana] foi uma oportunidade para respirar, reunir e falar, isto é, recuperar um mínimo de política. Mas foi uma esperança ilusória, pois fazer de Bashar herdeiro tinha como objetivo impor um presente infindável aos governados, lutar contra o futuro e a mudança.

Infelizmente, a construção de uma dinastia republicana na Síria teve apoio francês e americano. A nível internacional, não se ouviu qualquer voz criticando a transformação da mais antiga república árabe numa monarquia hereditária.

Éramos fracos, estávamos isolados, sem apoio de ninguém, enquanto o regime era apoiado por todos.

Crianças sírias brincam em Homs, uma das cidades destruídas por Bashar al-Assad
© Sergey Ponomarev | The New York Times | The National

No seu livro condena o “niilismo do regime” e o “niilismo dos islamistas de linha dura, em geral, e dos salafistas, em particular”. Qual é o denominador comum entre estes dois niilismos?

O denominador comum é a rejeição da política e a equação de “ou … ou…”; Assad ou ninguém! O Islão ou ninguém! Tudo ou nada. Um conflito político entre forças e programas transformou-se num conflito entre absolutos, cujo resultado é zero ou nada.

O deus dos niilistas islamistas e dos niilistas ateus é o poder absoluto, não acreditando em mais nada. Só o poder, nada mais que o poder. Os islamistas retiram sentido ao mundo; o regime nega o sentido inerente dos humanos – só adora o poder.

Era inevitável que sectarismo e religião viessem a privar a revolução do seu triunfo?

Teria sido possível evitar o sectarismo se o regime não tivesse sido sectário [usando os alauitas, como os Assad, e e outras minorias contra a maioria muçulmana sunita] . Um regime que depende, em larga escala, de órgãos sectários e que favorece uma parte da sociedade alheando outra.

Isto acontece desde que há 40 anos foram destruídos partidos políticos e organizações sociais. Isso deixou a porta da política aberta apenas à religião. E por esta porta entraram os niilistas islamistas.

Uma família de refugiados numa tenda em Saadnayel, no Vale de Bekaa, Líbano. A ONU estima que cerca de cinco milhões de pessoas fugiram da Síria desde o início da guerra em 2011
© Mohamed Azakir | Reuters

Depois de reconquistar quase 90% do território, Bashar está agora novamente a ser cortejado por outros líderes árabes. Há especulações de que a Síria poderá ser readmitida na Liga Árabe. Como avalia esta mudança?

Desde a década de 1970 que os regimes árabes são tiranias e estados retrógrados. Veem as revoltas populares e as tentativas para um público mais amplo entrar na arena política com um perigo existencial. Nisto, são apoiados por interesses ocidentais na região, que dão prioridade à segurança de Israel, país com armas nucleares, e à segurança das dinastias que protegem o petróleo.

Existe uma parceria entre a tirania regional e o imperialismo, para haver estabilidade no Oriente Médio sem democracia. E conseguem isto com a participação direta da nova Rússia czarista de [Vladimir] Putin. Estes regimes sabem que, hoje, é melhor venderem-se no Ocidente como elites modernas contra sociedades conservadoras, reacionárias e agressivas.

O extremismo religioso, aqui, parece ser um produto da natureza das sociedades e não um produto do seu estrangulamento político, económico e moral. Lamentavelmente, os governos ocidentais apoiam fascistas de gravata contra fascistas, mais fracos, de longas barbas, recusando-se a ver qualquer outra coisa nas nossas sociedades.

O regime de Assas prometeu reconstruir as infra-estruturas arrasadas durante a guerra, mas todos sabem que o mais difícil, ou impossível, é reconstruir a sociedade
© AP | theglobepost.com

Como imagina o futuro da Síria?

A curto prazo, o país está dividido e o regime foi transformado num protetorado por russos, iranianos e suas milícias sectárias. A sociedade está extremamente cansada e dividida.

Para uma verdadeira reconciliação nacional, torna-se indispensável a responsabilização, o julgamento dos principais assassinos. A Síria precisa de uma paz baseada na justiça, não de um silêncio baseado no monopólio por parte do protetorado ‘assadista’.

Em 2001, nos tempos da “Primavera de Damasco”, e tinha eu acabado de sair da prisão há poucos anos, propus o princípio de uma reconciliação nacional, mas o regime e seus seguidores negavam a existência de qualquer problema.

Hoje, o regime tem um “Ministério da Reconciliação Nacional”, que pertence aos serviços de espionagem, os mesmos que impõem uma humilhante submissão àqueles cujas regiões foram reocupadas pelo regime e pelos seus protetores sob a fachada de reconciliação. No entanto, muitos defensores da reconciliação foram presos, torturados e mortos, em Deraa e noutras regiões.

Poderão os refugiados regressar em segurança?

Não vemos um retorno maciço dos refugiados à Síria, porque eles não confiam no regime. Não descarto o regresso de alguns, mas a possibilidade de retornarem em maior número parece-me dependente de uma verdadeira transição política e de uma vida política baseada na confiança e na posse, pelos sírios, do seu país.

Uma família síria num abrigo subterrâneo próximo de Idlib, no noroeste da Síria e na fronteira com a Turquia: o último reduto dos rebeldes que combatem o regime de Assad
© Yahya Nemah | AAP | EPA | The Conversation

A vitória de Bashar não parece ter desencorajado outros povos de se revoltarem contra os seus líderes. Como avalia os atuais protestos na Argélia e no Sudão [que derrubaram Abdelaziz Bouteflika e Omar al-Bashir, depois de 20 e 30 anos no poder, respectivamente]?

Bashar e os seus protectores podem [ter tentado] esmagar a revolução com armas mais potentes, mas não venceram. Uma vitória é política, legal e moral, e eles estão totalmente falidos a todos estes níveis.

A revolução no Sudão e os protestos na Argélia mostram o fracasso do ‘Assadismo’, como forma de aterrorizar o povo e exemplo dos perigos da revolução.

É uma boa mensagem para os sírios, e talvez possa ser uma mensagem para os egípcios, jordanos e iranianos, cujos regimes os intimidam dizendo: ‘Vocês querem que sejamos como a Síria?’ Eles usam-nos para educar os povos, mas parece que os povos recusam lições de assassinos.

Tem planos para concorrer a presidente numa Síria sem “Assadistas” e “Aslamistas” [termos usados por Saleh para designar os que usam os slogans “Assad ou ninguém”; “al-Aslam (em vez de al-Islam) ou ninguém].

Não sou político. Gosto é de escrever artigos, livros e lê-los. O que me preocupa, hoje no exílio, é vencer a batalha intelectual e moral contra “três monstros”: a tirania do Estado, os islamistas devotos do poder e as potências internacionais de controlo – russos, americanos e seus seguidores.

Tenho a certeza de que vamos vencer esta dura luta, e espero que isto seja a face de uma revolução cultural, cujo conteúdo essencial é a humanização, a transição do tempo dos monstros para o tempo humano.

Yassin al-Haj Saleh, com uma fotografia da mulher, Samira al-Khalil, desparecida desde que foi raptada por um grupo extremista islâmico
© The Bosphorus Review Of Books

O Daesh foi derrotado na Síria. Espera que Samira, a sua mulher, o seu irmão Firas e os seus amigos raptados voltem em segurança?

Samira não foi raptada pelo Daesh, mas por uma outra formação salafista – Exército do Islão [Jaish al-Islam] –, ao serviço do governo turco desde a ocupação de Ghouta Oriental, há um ano. O Daesh sequestrou e fez desaparecer o meu irmão Firas e outros amigos.

Os americanos e seus apoiantes no terreno não parecem interessados ​​em revelar a verdade sobre o destino dos desaparecidos e em fazer justiça. Há prisioneiros do Daesh, e ninguém parece querer um processo legal, sírio ou internacional, para o julgar e fazer justiça às suas vítimas.

O que preocupa os americanos e as potências ocidentais é o perigo de segurança que estes [jihadistas/salafistas] representam para eles. A ideia de um julgamento parece não lhes ter passado pela cabeça.

Que alegrias e tristezas guarda de Raqqa, a sua terra-natal e autoproclamada “capital” do “califado” do Daesh?

Raqqa foi o último lugar que habitei na Síria antes do meu exílio. Aqui vivi, clandestinamente, durante quase dois meses e meio, quando o Daesh reforçava o controlo sobre a cidade. Este foi um dos muitos impossíveis a que a Síria assistiu.

É triste que muitos acreditem que o Daesh se impôs a Raqqa por a cidade ser extremista na sua religiosidade e acolher favoravelmente doidos da religião. Foi o oposto.O Daesh dominou Raqqa porque esta era uma colónia interna, sem estrutura e auto-coesão. Faltava-lhe até mesmo liderança religiosa.

O meu sonho é voltar para onde Samira e Firas foram raptados, Ghouta Oriental e Raqqa. Seguir os passos de ambos e dos que desapareceram com eles. Um mundo inteiro destruiu as nossas vidas e os nossos sonhos. Mas continuamos a lutar de outras formas.

* Agradeço muito a Badr Hassanein, professor na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, que traduziu de árabe para português as respostas de Yassin al-Haj Saleh.

 

Este artigo, agora actualizado, na versão integral e com um título diferente, foi publicado originalmente na revista SÁBADO, em 14 de Março de 2019 | This article, now an updated and extended version, and under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, March 14, 2019 edition.

Irão: 40 anos da revolução que abalou o Médio Oriente

A queda do último Xá Pahlavi em 1979 foi comparada, em magnitude, às revoluções francesa, no século XVIII, e russa em 1917. Como os jacobinos e os bolcheviques, Khomeini pôs fim a uma monarquia decadente. Mas ao contrário de outros revolucionários contemporâneos, como Mao ou Nasser, não ofereceu aos iranianos um Estado secular ou socialista. Instaurou uma República Islâmica que tem resistido a todos os prognósticos de colapso iminente. (Ler mais | Read more…)

Teerão, 1980: Uma fotografia do Ayatollah Khomeini enfeita armas dos Pasdaran, ou Guardas da Revolução, hoje um dos principais pilares do regime
© Abbas | Magnum Photos

Roya S.* tinha 29 anos quando Ruhollah Khomeini derrubou Mohammad Reza Pahlavi e mais de dois milénios de monarquia. Simin M.** tem hoje 29 anos e não conhece outro sistema de governo que o dos mullahs, dos pasdaran e dos basijis.

Os pais de Simin foram dos primeiros a aderir à revolução que, em 1979, transformou o Irão na primeira República Islâmica. Roya, pelo contrário, recusou-se desde o início a participar nas greves e protestos que contribuíram para a queda do Shahanshah (“Rei dos reis”).

“Os meus pais não suportavam a ditadura do imperador, mas [quatro décadas depois] estão desiludidos, porque o regime actual é pior”, diz-me Simin, numa entrevista por WhatsApp, implorando que apaguemos as mensagens trocadas imediatamente após serem recebidas.

É maior o desencanto de Roya. “Perdi tudo, destruíram a minha vida e a da minha família, forçaram-me a abandonar a pátria”, conta-me, por telefone. “Fomos banidos por sermos Bahá’ís [uma minoria perseguida pela fidelidade a Bahá’u’lláh, um nobre persa que, no século XIX, fundou uma religião monoteísta posterior à de Maomé].

Simin M. nasceu depois da guerra Irão-Iraque (1980-1988), que causou cerca de um milhão de mortos. Num país onde todas as famílias têm um “mártir”, também a sua mãe perdeu um irmão neste brutal conflito.

“As pessoas protestam porque as sanções são cada vez mais penosas e nós queremos que o regime se abra ao mundo. Apesar de viver “num inferno”, Simin continua em Shiraz, capital da província de Fars, no sudoeste, berço e túmulo de dois dos mais venerados poetas persas, Hafez e Saadi. Licenciou-se em Geologia, mas tem de ganhar a vida a promover o património local, não na sua área de formação. Porque, apesar de mais de 60% dos estudantes universitários serem mulheres, estas representam menos de 20% da força activa.

Teerão, 1978: Manifestação contra o Xá Mohammad Reza Pahlavi, no ano anterior à a revolução, que, para muitos activistas, fez regredir os direitos das mulheres
© Abbas | Magnum Photos

Em Teerão, onde era jornalista numa rádio estatal, casada e com uma filha, Roya pertencia à classe média e nada lhe faltava. “Eu esperava um futuro estável, mas, assim que os revolucionários ocuparam o poder, não mais me deixaram exercer as minhas funções”, lastima-se. “Primeiro, desterraram-me para a biblioteca, sem contacto com ninguém. Depois fui aconselhada a não mais voltar.”

Vitoriosa a revolução de Khomeini em 1979 e ambos desempregados, Roya e o marido pegaram no que restava das suas poupanças e, no ano seguinte, compraram uma loja no Khuzestão natal, na fronteira com o Iraque.

Em 1980, quando Saddam Hussein iniciou a invasão, tudo ficou em ruínas. A família tentou reunir-se em Inglaterra, mas depois da ocupação da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, em 4 de Novembro de 1979, não os deixaram entrar. Vieram para Portugal, que não exigia vistos aos iranianos, e aqui ficaram. Apenas com a roupa que traziam no corpo e na mala.

Hoje, Roya e o marido são comerciantes e figuras respeitadas da comunidade Bahá’í portuguesa. Um dos maiores desgostos dos últimos 40 anos? “Quase esqueci a minha bela língua farsi”.

Simin e os pais, ao contrário de Roya, não deixaram Shiraz, a 600 quilómetros de Ahvaz, capital do Khuzestão. Roya está convencida de que a teocracia não tem salvação. Simin acredita que o regime “ainda tem potencial para se reformar, em termos de política interna e externa, desde que haja uma separação do Estado e da religião”.

Teerão, 1979: Milicianos armados junto à Embaixada dos EUA, onde 52 diplomatas americanos ficariam reféns durante 444 dias, de 4 de Novembro de 1979 até 20 de Janeiro de 1981
© Abbas | Magnum Photos

“Por que é que um país que tinha em marcha um dos mais rápidos projectos de industrialização, um país que anualmente registava um aumento de 20% do seu produto nacional bruto (PNB), optou subitamente por uma revolução e escolheu como líder um teólogo que rejeitava a modernidade e a modernização como perniciosa conspiração colonial?”, pergunta o historiador iraniano Abbas Milani, na sua monumental obra The Shah.

“Por que é que uma revolução, liderada de facto pela classe média e ocorrendo na crista do que tem sido designado por Terceira Vaga de democratização [inaugurada pelo 25 de Abril português], resultou num despotismo clerical e não numa democracia?”

Nos 37 anos de poder do Xá, constata Milani, director do Programa de Estudos Iranianos na Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA), houve “quatro paradigmas concorrentes de modernidade”:

1) Os nacionalistas seculares queriam democracia, estado de Direito, sociedade civil forte e economia de mercado. 2) Os religiosos a favor da modernização queriam “um mínimo de democracia, no contexto de um xiismo que oferecesse à sociedade firmeza moral e uma economia de mercado.” 3) Os marxistas radicais tinham um projecto de modernização que passava por “uma economia planificada e uma aproximação à Rússia”. 4) O Xá achava que a mudança no Irão “necessitava de uma concentração de poder autoritário nas suas mãos”; que a democracia era “um obstáculo”; que os “maiores inimigos” eram os comunistas, os democratas e os nacionalistas seculares, enquanto o clero xiita moderado era o seu “aliado ideológico e estratégico”.

“O paradoxo” da queda da dinastia Pahlavi, salienta Milani, reside na “estranha realidade de que todos os defensores da modernidade acabaram por formar uma aliança contra o Xá e escolheram como líder o maior inimigo da modernidade” – o Ayatollah Khomeini.

Os planos de modernização do Xá passavam por libertar os camponeses do feudalismo, emancipar as mulheres, reforçar a classe média (que incluía os influentes comerciantes do bazar), os tecnocratas e os novos industriais. O “clero moderado” serviria de “cimento moral” contra os comunistas. O Exército e a polícia secreta SAVAK garantiriam a segurança.

Teerão, 1980: Durante as celebrações do primeiro aniversário da revolução, em 11 de Fevereiro, um jovem desmaia e é carregado em ombros por uma multidão compacta
© Abbas | Magnum Photos

Para Mohammad Reza, a prosperidade económica oferecida pelas receitas do petróleo “era suficiente para satisfazer as aspirações políticas do povo”. A sua única solução para a dissidência era a repressão. Não tolerava a mínima crítica. Os conselheiros garantiam-lhe que era amado por todos.

Alheado de tudo no seu palácio, com um linfoma em fase terminal (morreria em 1980), o homem a quem a CIA devolvera o Trono do Pavão em 1953, quando derrubou o popular primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, ficou atónito com a “revolta da sociedade contra o Estado”, como a definiu outro historiador iraniano, Homa Katouzian.

Alguns dizem que o Xá caiu porque enveredou por um desenvolvimento muito rápido e “submisso ao imperialismo ocidental”. Outros culpam o “ostensivo secularismo” do imperador, “insensível aos valores tradicionais” iranianos. Abbas Milani acha que um dos grandes erros do Xá foi ter usado a religião como “antídoto ao marxismo”, eliminando outras formas de organização cívica.

Em 1977, com os preços do petróleo a caírem a pique e a subirem as críticas da Administração Carter às violações dos direitos humanos no Irão, as forças mais bem organizadas para desafiarem um imperador em perda de aliados eram as de Khomeini.

Teerão, 1979: Numa manifestação a favor do Xá Mohammad Reza Pahlavi, no Estádio Amjadiyeh, uma apoiante exibe uma nota com a foto do deposto imperador
© Abbas | Magnum Photos

No dia 16 de Janeiro de 1979, o Xá abandonaria para sempre o país. A 1 de Fevereiro, Khomeini regressou do exílio em França, acolhido em triunfo por “mais de cinco milhões” de iranianos, segundo a BBC. No final de Março, num referendo, 97% de iranianos disseram “sim” a uma república islâmica.

Em Maio, foi criado o Corpo de Guardas da Revolução (Sepah-e Pasdaran), para servir de contrapeso ao antigo exército do Xá e complementar os gangues de rua Hezbollah (Partido de Deus), mais tarde reforçados pelos milicianos basijis. As riquíssimas propriedades da Fundação Pahlavi foram transferidas para as novas Bonyad-e Mostazefin (Fundação para os Oprimidos).

No Outono, quase todas as outras ideologias – liberais, democratas, nacionalistas, comunistas e até figuras religiosas reverenciadas como o Ayatollah Shariatmadari – tinham sido marginalizadas ou silenciadas. Milhares de activistas foram presos, torturados e executados sumariamente às ordens de tribunais revolucionários. Mais de dois milhões de iranianos fugiram do país.

A imagem do Irão, como escreve Robin Wright em In The Name of God: The Khomeini Decade, ficaria doravante associada à de sequestradores (52 diplomatas americanos reféns durante 444 dias), bombistas suicidas, mulheres de chador negro, cânticos de “Morte à América e a Israel”, crianças usadas como limpa-minas em campos de batalha…

Em 1979, “o que se sobrepôs foi uma visão particular de islamismo, centrada na ideia de uma liderança clerical, que eliminou física e/ou politicamente indivíduos e grupos identificados com outras ideologias”, diz-me a analista iraniana Farideh Farhi, professora de Ciência Política na Universidade do Hawai, em Manoa.

“No entanto, as ideias e visões dos outros grupos não morreram – foram até incorporadas, na maior parte das vezes por acaso, na antagónica estrutura da República Islâmica”, acrescenta a autora de States and Urban-Based Revolutions in Iran and Nicaragua.

“Por exemplo, as mulheres perderam direitos no seio da instituição familiar, mas os seus direitos políticos e sociais foram reconhecidos. Também a busca pela justiça social permanece uma componente central da República Islâmica, apesar da contínua supressão dos direitos dos trabalhadores.”

Retrospectivamente, observa a académica iraniana, “é fácil perceber por que ganharam os islamistas: porque integravam redes mais bem organizadas e achavam que tinham um ‘direito justo’ de governar. Invocando esse ‘direito justo’, não tiveram escrúpulos em usar de violência contra os rivais. Apesar do cariz islâmico, não é uma história diferente da de outras revoluções.”

Teerão, 1979: Uma mulher envergando o chador e erguendo uma metralhadora Uzi controla uma manifestação contra o Iraque de Saddam Hussein, que, em 1980, iniciou uma guerra que só terminou oito anos depois. No cartaz lê-se: “Os amigos de ontem são os inimigos de hoje”
© Abbas | Magnum Photos

O que torna diferente a Revolução Islâmica – por muitos comparada na sua magnitude à Revolução Francesa no século XVIII e à Revolução Russa em 1917 – é que ela “fez cair por terra certas ideias que as pessoas tinham do Médio Oriente”, diz-me, em entrevista por telefone, Michael Axworthy, autor de dois livros de referência, Revolutionary Iran e Empire of the Mind: A History of Iran.

“O resto do mundo achava que todas as revoluções deveriam conduzir a instituições democráticas semelhantes às do Ocidente”, explica o antigo diplomata britânico em Teerão e hoje director do Centro de Estudos Iranianos e Persas na Universidade de Exeter, no Reino Unido. A revolução de Khomeini era “conservadora e religiosa”.

Khomeini era olhado como “uma aberração” e a sua ideologia era vista como “obsoleta”, adianta Robin Wright, investigadora no Wilson Center, em Washington. “A sua revolução não era burguesa nem proletária. Pretendendo restaurar a glória e os valores do império islâmico do século VII, estava longe do espírito da era moderna.”

O septuagenário ayatollah também “não encaixava, política e fisicamente, nos moldes revolucionários” de figuras do século XX como Mao, na China, Fidel, em Cuba, Ben Bella, na Argélia, ou Nasser, no Egipto, que instauraram regimes “seculares e socialistas”.

Esperava Michael Axworthy que a República Islâmica durasse 40 anos? “Poucos previam esta longevidade”, responde, mas a teocracia “sobreviveu a múltiplos desafios – o maior dos quais a guerra Irão-Iraque; anos e anos de sanções americanas; relações hostis com a única superpotência; uma guerra civil em Teerão entre Khomeini e os Mujahedin-e Khalq [protegidos de Saddam]. Num país onde o Islão xiita mantém uma grande força política, acho que o regime sobreviverá enquanto retiver lealdade e autoridade religiosa”.

Os oito anos de conflito com o Iraque, um ameaçador inimigo externo, “foi uma oportunidade dourada para o novo governo solidificar o seu poder, mas a verdade é que Teerão sempre tem demonstrado resiliência e flexibilidade no modo como lida com os desafios sócio-políticos e com as mudanças”, destaca, por seu turno, o académico iraniano Alam Saleh, numa conversa por e-mail.

“A República Islâmica sempre se mostrou pragmática, disposta até a prejudicar os seus próprios interesses e ideologia para se proteger [como quando assinou um acordo sobre o seu programa nuclear em 2015]”, adianta Saleh, professor do Política do Médio Oriente na Universidade de Lancaster (Reino Unido).

Ou como diz o iraniano Karim Sadjadpour, do think-tank americano Carnegie Endowment for International Peace, “este regime pode ser homicida mas não é suicida.”

Teerão, 1977: A corte do imperador Mohammad Reza Pahlavi saúda-o, durante a cerimónia comemorativa do seu 58º aniversário, no Palácio de Golestan
© Abbas | Magnum Photos

Michael Axworthy e Alam Saleh concordam que os mullahs cumpriram a promessa de salvaguardar a independência nacional, mas falharam outras, como a liberdade, a justiça, a igualdade social, o combate à corrupção – algumas das razões que conduziram à queda do Xá em 1979.

Poderá um regime que se vem distanciando do legado de Khomeini sobreviver às crescentes pressões internas (protestos e manifestações de sectores que apoiaram a revolução de 1979) e externas (duras sanções impostas pela Administração Trump; ataques de separatistas em regiões com minorias árabes sunitas; planos para uma nova guerra por parte de sauditas e israelitas, para quem as intervenções iranianas na Síria, no Iraque, no Líbano e no Iémen são “planos de expansão hegemónica” (e não mecanismos de “protecção existencial”, como alega Teerão)?

O regime “continua desconfiado das liberdades políticas, a corrupção ameaça a sua legitimidade”, anota Axworthy. “A economia está num caos. O desemprego sobe, e com ele aumenta o abuso de drogas, a prostituição, doenças mentais. Ao contrário do tempo do Xá, porém, o Estado hoje é forte e a oposição, fragmentada, não tem um chefe carismático. O sucessor do Supremo Líder, Ayatollah Ali Khamenei, poderá emergir dos Guardas da Revolução.”

Alam Saleh chama a atenção para o sistema de segurança, “único e complexo”, que tem impedido uma sublevação popular. “Ao contrário de outros países, o Irão tem de facto dois exércitos, um equilibrando o outro: o exército regular e os Guardas da Revolução – que são um império militar, ideológico, económico e cultural. Há ainda 12 serviços de espionagem que vigiam o povo e se vigiam entre si.”

“Este sistema multifacetado assegura um plano de segurança caso a população se revolte”, avalia Saleh. “Qualquer mudança será maciça e súbita. O regime está consciente de que terá de aceitar uma maior abertura dos chamados valores islâmicos, porque os iranianos estão cada vez mais a caminhar numa direcção oposta.”

A professora Farideh Farhi constata que a República Islâmica “está prestes a enfrentar um desafio fundacional devido à idade avançada dos seus líderes revolucionários”, mas alerta que o ritmo das mudanças poderá acelerar “não necessariamente na direcção política e económica desejada pelos que se sentem infelizes com a actua situação”.

“Apesar dos esforços concertados dos EUA e seus aliados na região para, através de uma guerra económica, encorajarem os iranianos a sublevarem-se e reduzir a influência regional do Irão, a liderança em Teerão sabe que a população, vendo o resultado de desastrosas intervenções estrangeiras no Iraque e na Síria, não está em modo revolucionário [como em 1979], mesmo que continue a resmungar em voz alta e a tentar mudar a situação a partir de dentro.”

No exílio em Portugal, Roya não perde a esperança. “Acredito que haverá um futuro glorioso para o Irão, ainda que mudar o rumo da História possa significar muito sofrimento.”

*Roya S. e **Simin M. são nomes fictícios, a pedido das entrevistadas, por temerem pela sua segurança.

O iraniano Abbas Attar, conhecido apenas pelo seu primeiro nome, cobriu várias revoluções e guerras, no seu país natal e noutras partes do Médio Oriente, no Vietname, no Biafra, no Bangladesh, no Chile e em Cuba. Documentou também a África do Sul do apartheid. Trabalhou para a agência Sipa, de 1971 a 1973, para a Gamma, de 1974 a 1980, e para a Magnum, a partir de 1981. As fotografias aqui partilhadas constam do seu livro Iran Diary: 1971-2001, uma “interpretação crítica” da revolução que derrubou a dinastia Pahlavi para a substituir pela teocracia islâmica de Khomeini. Abbas morreu, aos 74 anos, em 25 de Abril de 2018
© Magnum Photos

Dias de Fúria

1977

JANEIRO-JULHO:

Jornalistas, intelectuais, advogados e activistas políticos publicam uma série de cartas abertas criticando a acumulação de poder nas mãos do Xá Mohammad Reza Pahlavi.

NOVEMBRO:

No dia 15, uma manifestação de iranianos contra o Xá, durante uma audiência na Casa Branca, em Washington, é dispersada pela polícia com gás lacrimogéneo.

DEZEMBRO: No dia 31, uma breve visita a Teerão, o Presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, elogia o Irão da dinastia Pahlavi como “uma ilha de estabilidade numa das regiões mais problemáticas do mundo”.

1978

JANEIRO:

No dia 6, o jornal iraniano Ettela’t publica, na primeira página, um editorial insultuoso para com o Ayatollah Khomeini supostamente escrito por ordem do Xá. No dia 9, o maior bazar na cidade de Qom, onde se localizam os principais seminários, fecha portas em protesto contra “a difamação de Khomeini”. Milhares de manifestantes atacam símbolos da monarquia. Agentes de segurança matam pelo menos cinco pessoas. Em várias cidades iranianas repete-se o ciclo protestos-repressão-violência-rituais fúnebres.

JUNHO:

No dia 7, o Xá substitui o general Nematollah Nassiri, chefe da temível polícia política SAVAK. A primeira decisão do sucessor foi libertar cerca de 300 religiosos xiitas que estavam presos.

Agosto: A detenção de um líder religioso provoca tumultos em Isfahan que rapidamente se espalham a Shiraz, Qazvin, Tabriz, Abadan e Ahvaz, nos dias 9 e 10. Cerca de 100 pessoas são mortas. No dia 19, num fogo posto no Cinema Rex, em Abadan, 477 iranianos perdem a vida. A oposição culpa a SAVAK; depois da revolução de 1979, um islamista confessou o crime e foi condenado.

SETEMBRO:

No dia 8, forças de segurança disparam sobre uma multidão na Praça Jaleh em Teerão. Pelo menos 100 pessoas são mortas nesta “Sexta-Feira Negra”.

OUTUBRO:

No dia 3, pedido do Xá, o Governo iraquiano deporta Khomeini. Impedido de entrar no Kuwait, o ayatollah instala-se em Neuphle-le-Château, um subúrbio parisiense, onde atrai os media estrangeiros e de onde faz sair as cassetes com as prédicas que mobilizam os revolucionários nas mesquitas iranianas.

NOVEMBRO:

No dia 6, Khomeini impede a formação de um governo de unidade nacional com a oposição. Num discurso à nação, Mohammad Reza Pahlavi promete não repetir os erros do passado: “Ouvi a voz da vossa revolução.”

DEZEMBRO:

Em 10 e11, depois de Carter ter dado a entender que os EUA deixariam cair Mohammad Reza Pahlavi, milhões de iranianos manifestam-se por todo o país exigindo a destituição do Xá e o regresso de Khomeini. No dia 29,  imperador nomeia para a chefia do governo um dos seus maiores críticos, o nacionalista Shapour Bakhtiar, confirmado pelo Parlamento duas semanas depois.

1979

Janeiro: No dia 12, em Paris, Khomeini forma um Conselho Revolucionário para coordenar a transição de poder. No dia 16,  Xá e a família real partem “de férias” para o Egipto. O imperador diz a Bakhtiar: “Deixo o Irão nas tuas mãos e nas de Deus.”

Fevereiro:

No dia 1, Khomeini regressa ao Irão e as ruas de Teerão enchem-se de milhares de manifestantes. No dia 4, Khomeini nomeia Mehdi Bazargan primeiro-ministro de um Governo interino. Bakhtiar insiste em que é o primeiro-primeiro legítimo. No dia 10, Bakhtiar impõe a lei marcial e o recolher obrigatório. Khomeini apela a uma revolução nacional. No dia 11, as Forças Armadas declaram a sua neutralidade e cai o que resta do governo do Xá. Bakhtiar foge para França (onde é assassinado, em 1991, por agentes iranianos). No dia 14, a  Embaixada dos EUA em Teerão é ocupada por estudantes revolucionários, 52 diplomatas ficam reféns durante 444 dias.

Março: No dia 8, dezenas de milhares de mulheres iranianas protestam contra a obrigatoriedade de usar o véu (hijab), como exige Khomeini.  Nos dias 30 e 31, num referendo nacional sobre se o Irão deveria ser uma república islâmica, o “sim” ganha quase por unanimidade.

1980

JULHO:

No dia 27, o Xá morre, de cancro, no Cairo.

Setembro:

No dia 22, o Iraque de Saddam Hussein invade o Irão, desencadeando uma guerra que durari oito anos e causaria cerca de um milhão de mortos em ambos os campos.

Fonte: Brookings Institution

Teerão, 8 de Março de 1979: Mais de cem mil  iranianas aproveitaram o Dia Internacional da Mulher para protestar contra a lei que tornaria obrigatório o uso do hijab. A autora desta imagem foi uma das primeiras fotógrafas iranianas
© Hengameh Golestan | The Guardian

Sociedade em números

População:

Em 1980, no ano seguinte à Revolução Islâmica, o Irão tinha cerca de 39 milhões de habitantes; em 2018 este número mais do duplicou para cerca de 83 milhões.

Esperança de Vida:

Em 1980, a esperança de vida dos homens no Irão era de 50 anos e a das mulheres de 59; em 2016, a primeira subiu para 77 e a segunda para 75.

Educação:

Em 1976, a taxa de literacia dos adultos no Irão era de 37%; em 2015, aumentou para 86%. O ensino primário é obrigatório e gratuito em todo país. Nas mais de 50 universidades públicas não se paga propinas.

Urbanização:

Em 1979, menos de metade da população vivia em cidades. Em 2017, cerca de ¾ residiam em áreas urbanas.

Fonte: “The Iran Primer”, United States Institute of Peace

Dias depois de me dar a entrevista incluída neste artigo, Michael Axworthy morreu, de cancro, em 16 de Março de 2019, em Roma

Farideh Farhi, Professora de Ciência Política na Universidade do Havai, em Manoa, e uma das maiores especialistas no Irão, onde nasceu

Alam Saleh é professor do Política do Médio Oriente na Universidade de Lancaster

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Março de 2019  | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2019 edition

República Democrática do Congo: Uma oportunidade perdida?

Félix Tshisekedi é o 5º presidente em Kinshasa, depois de eleições que muitos consideram a primeira fraude do regime a favor de um candidato da oposição. Joseph Kabila ofereceu-lhe o título, não o poder. Martin Fayulu, que clama ser o legítimo vencedor, apela à desobediência civil. Mas os vizinhos africanos, que querem pacificar as fronteiras, reconheceram o novo líder – tal como a restante comunidade internacional. (Ler mais | Read more…)

A vitória de Félix Tshisekedi foi, apesar de tudo “uma vitória da oposição”, realça o analista Pierre Englebert. “Não era este, seguramente, o desfecho preferido do regime”, mas o candidato de Kabila “sofreu uma derrota tão humilhante [menos de um cada quatro congoleses votaram nele] que nem enredos eleitorais o salvariam”
© Luis Tato | Agence France-Presse

A oposição ganhou, pela primeira vez, as eleições presidenciais na República Democrática do Congo (RDC).

Não o candidato preferido pela maioria dos que foram à urnas em 30 de Dezembro de 2018 – como asseguram milhares de observadores da Igreja Católica e outras fontes independentes – e sim o que terá feito um pacto com o regime de Joseph Kabila.

A 19 de Janeiro, Martin Madidi Fayulu, seguro de ter conquistado o primeiro e não o segundo lugar, perdeu um recurso para forçar uma recontagem de votos.

O Tribunal Constitucional (CC) validou os resultados preliminares da Comissão Eleitoral Nacional Independente (CENI) – duas instituições leais a Kabila – e determinou que Félix Antoine Tshisekedi Tshilombo seria o quinto presidente do país. [Tomou posse no dia 24.]

“Estou empenhado em reconciliar todos os congoleses”, garantiu um exultante Tshisekedi, conhecido o veredicto final. “O Congo que vamos construir não será o da divisão, do ódio ou do tribalismo. Será o da reconciliação, centrado no desenvolvimento, na paz e na segurança.”

Os nove juízes do CC consideraram “sem fundamento e sem provas” o recurso de Fayulu. Descreveram como “autênticos e sinceros” os números oficiais, que dão ao representante da coligação Lamuka (“Acorda”) apenas 34,8%, contra 38,57% de Tshisekedi, da Cap por le changement (Cach)/União para a Democracia e Progresso Social (UDPS), e 23,8% de Emmanuel Ramazani Shadary, o impopular “delfim” designado por Kabila, este pressionado a desistir de um terceiro mandato, que já havia terminado em 2016.

Horas depois da decisão judicial, o poderoso bloco regional SADC, de que, designadamente, fazem parte Angola, África do Sul e a Zâmbia, vizinhos do Congo, saudaram a vitória de Tshisekedi e apelaram à “unidade, paz e estabilidade”.

A União Africana, dominada pelo Ruanda, desistiu de uma programada visita para tentar suspender os resultados.

Reafirmando que obteve mais de 60% dos votos – certificados pela Conferência Episcopal (Cenco) que formou e mobilizou 38.824 observadores –, Fayulu proclamou-se “único presidente legítimo” e denunciou “um golpe constitucional”.

Mantendo-se fiel aos princípios de não violência que nortearam a sua campanha, apelou a “manifestações pacíficas por todo o território nacional”.

Martin Fayulu garante ter sido o vencedor das eleições, e os milhares de observadores da Igreja Católica deram-lhe razão
© AFP | Le Soir

As palavras de Fayulu não diferem muito das que Étienne Tshisekedi – pai de Félix – pronunciou em 2011, quando o rival Joseph Kabila foi oficialmente declarado vencedor das eleições em 2011, com 49% dos votos contra 32%.

Também o carismático fundador da UDPS, se declarou “presidente legítimo”, renegando os resultados como “uma provocação ao povo congolês”. As reacções de violência, naquela altura, foram imediatas.

Porque Étienne nunca transigiu face a Laurent-Désiré ou a Joseph Kabila, nem a Mobutu Sese Seko, foi uma surpresa quando Félix, herdeiro do defunto pai na liderança da UDPS, dividiu a oposição de livre iniciativa, sem precisar de incentivo do regime à deserção.

Em Novembro de 2018, Tshisekdi aceitou uma reunião em Genebra com Fayulu e outros seis pesos-pesados, entre eles Jean-Pierre Bemba, ex-vice-presidente, e Moïse Katumbi, antigo governador da província do Catanga, ambos no exílio, excluídos por Kabila da corrida eleitoral.

“Fatshi” (a abreviatura para os seus três primeiros nomes) queria ser o candidato único contra Kabila, mas perdeu a votação para Fayulu.

Não querendo dar parte de fraco na presença dos outros, esperou vinte e quatro horas para renegar o acordo, alegando pressões dos “combatentes” (militantes de base) da UDPS. Uma semana depois, formou a Cach com Vital Kamerhe, que em tempos dirigira a campanha de Joseph Kabila.

Talvez consciente de que jamais venceria Fayulu, e que se este reabilitasse Bemba e Katumbi não mais teria hipótese de ganhar, Tshisekedi “terá calculado que concorrer sozinho lhe daria a possibilidade de negociar com Kabila uma espécie de convivência”, diz-me, em entrevista por e-mail, o académico americano Pierre Englebert, autor de Africa: Unity, Sovereignty and Sorrow.

Joseph Kabila terá assinado “um acordo secreto com um opositor dócil” (Thisekedi), para preservar o poder político, controlar o aparelho de segurança, manter a sua fortuna e até a guarda e o palácio presidenciais, “propriedade privada, comprada a Mobutu”. Uma protecção que lhe seria negada por Fayulu, “um dos mais corajosos críticos do regime”
© John Wessels | AFP | Getty Images

Kabila, por seu turno, “escolheu Shadary [sem uma base política própria] porque tinha medo de um cenário tipo ‘JLo’”, adianta Englebert, aludindo ao novo presidente angolano, João Lourenço, que tem vindo a renegar as políticas do antecessor, José Eduardo dos Santos.

“Duvido que Tshisekedi esperasse ser declarado vencedor”, salienta o professor de Política Africana em Pomona College, Claremont (Califórnia, EUA), e senior fellow no Africa Center do think-tank Atlantic Council.

Talvez se tivesse proposto para primeiro-ministro de Shadary. Mas, posteriormente, vendo o regime numa “impossível situação negocial”, e encorajado pelo experiente Vital Kamerhe, terá exigido a presidência em troca de uma aliança com a Frente Comum para o Congo (FCC, a coligação de Kabila). “É difícil acreditar que sairá beneficiado deste negócio.”

Na madrugada de 10 de Janeiro, apresentados os resultados provisórios que o colocavam à frente de Fayulu, o filho de Étienne prestou “homenagem” a Joseph Kabila: “A partir de hoje, já não o vemos como adversário, mas como parceiro para a mudança democrática no nosso país.”

“Apesar de tudo, a vitória de Tshisekedi foi uma vitória da oposição”, realça Pierre Englebert.Não era este, seguramente, o desfecho preferido do regime. Mas o seu candidato sofreu uma derrota tão humilhante [menos de um cada quatro congoleses votaram nele] que nem enredos eleitorais o salvariam.”

Kabila percebeu que cometeu “um erro catastrófico” ao nomear Shadary e teve de preparar um “plano B”: virar-se para a UDPS, de onde vieram os seus dois últimos primeiros-ministros – que o partido expulsaria, daqui resultando quatro diferentes facções.

Englebert acredita que Kabila assinou um acordo secreto com um opositor dócil, para preservar o poder político, controlar o aparelho de segurança, manter a sua fortuna e até a guarda e o palácio presidenciais, “propriedade privada, comprada a Mobutu”. Uma protecção que lhe seria negada por Fayulu, dos mais corajosos críticos do regime.

Quem mais exultou com a vitória de Tshisekdi foi o povo Luba na região de Kasai, a que pertence “Fatshi”. Escreveu a revista Foreign Affairs: “Aos olhos de muitos partidários de Tshisekedi, os Luba mereciam o poder nacional que já foi de outros grupos étnicos e regiões”
© Agence France-Presse

Líder de um partido com apenas três deputados, Fayulu mobilizou e cativou movimentos de cidadãos, sobretudo jovens, precisamente por ser um outsider. Economista de 62 anos, nasceu na antiga Leopoldville, nos derradeiros dias do Congo Belga, sétimo dos oito filhos de um operário e uma vendedora em mercados de rua.

Formado em Paris e nos EUA, graças à generosidade de uma família numerosa, fez uma longa carreira de executivo na companhia petrolífera Exxon, que lhe permitiu correr o mundo sem nunca se desligar da RDC – o maior país da África subsariana, do tamanho da Europa Ocidental.

O único ponto em comum entre Fayulu e Tshisekedi será a igreja pentecostal que ambos frequentam ao domingo, em Kinshasa. Félix, 55 anos e cinco filhos, raramente saiu da sombra do pai, “um mestre” que nunca pretendeu imitar.

Terá sido a mãe, Marthe Kasalu, que o encorajou a seguir as pisadas paternas, embora desde criança acompanhasse o activismo de Étienne.

Quando a UDPS foi criada em 1982, a família Tshisekedi foi forçada por Mobutu a refugiar-se na província-natal de Kasai, até 1985.

Félix partiria então para Bruxelas, onde se licenciou em marketing e comunicação. Críticos fazem notar que nunca exerceu um cargo de topo. Detractores sugerem que o diploma belga é forjado (a ser verdade, a Constituição impede-o de ser presidente).

Em 2008, Tshisekedi tornou-se secretário nacional para as relações externas da UDPS. Em 2011, foi eleito para a Assembleia Nacional pela terceira cidade do país, Mbuji-Mayi.

Nunca ocupou o lugar por não reconhecer que Joseph Kabila derrotara o pai nas presidenciais. Em 2017, um mês após a morte de Étienne, por embolia cerebral, Félix ascendeu à liderança do partido.

Como candidato ao posto que o pai nunca ganhou, “Fatshi” jurou “perpetuar o sonho” de Étienne: fazer do combate à pobreza “uma causa nacional”, erradicar a “gangrena da corrupção” e levar a paz ao Leste do Congo onde várias milícias permanecem activas mais de 15 anos após a “Grande Guerra de África”, que causou 5,4 milhões de mortos e 2 milhões de deslocados internos, segundo a ONU.

Apoiantes de Martin Fayulu, o líder de um partido com apenas três deputados que mobilizou e cativou movimentos de cidadãos, sobretudo jovens, porque é um outsider
© BBC

Em Kinshasa, onde começou a estudar Teologia em 2001 e vive desde há cinco anos, o padre Marcelo Almeida não acredita nas promessas de Tshisekedi. Em seu entender, ele “será uma marioneta nas mãos de Kabila”, o único que controla o exército, provável futuro presidente do Senado (membro vitalício) – segundo na linha de sucessão à Presidência – com uma maioria no Parlamento e nas assembleias provinciais depois de a FCC ter obtido outra questionável vitória nas legislativas.

“Com Fayulu”, diz-nos, por telefone, o administrador das 14 comunidades dos Missionários Combonianos na RDC, “Kabila seria entregue ao Tribunal Penal Internacional, para julgamento por crimes de guerra e genocídio. Os seus opositores no exílio, como Bemba e Katumbi, regressariam ao país, o que seria uma afronta pessoal.”

Certo é que, na capital congolesa, desde o anúncio dos resultados provisórios, os partidários de Tshisekedi não páram de festejar.

“[No dia 10 de Janeiro], saí de casa às 5 da manhã para celebrar missa, e nas ruas e bares era só música e dança, muitas pessoas eufóricas, erguendo ramos de árvores, um enorme engarrafamento de motas”, relata o missionário comboniano, ressalvando porém que, noutras áreas da cidade também houve violentos protestos.

Num país onde “cerca de 60%” dos mais de 80 milhões de habitantes são católicos e onde a Igreja tem sido “uma família que fala a uma só voz”, Marcelo Almeida nota que os seus paroquianos estão divididos politicamente. Confessa que receia “uma explosão de tensões”.

“As pessoas ouviram os apelos de Fayulu e foram pacientes quando o regime adiou eleições (se esperaram 18 anos para se livrarem de um bandido, poderiam esperar mais algumas semanas), inventou um misterioso incêndio que queimou máquinas electrónicas de voto, reprimiu brutalmente activistas e recorreu a todo o tipo de provocações”, destaca o padre Marcelo.

Indiferentes à chuva torrencial e a longas e caóticas filas, milhões de pessoas confiavam que, com a ida às urnas, mudariam o regime. “Sentem-se enganadas.”

Um homem examina boletins de voto na sede da Comissão Eleitoral Nacional Independente (CENI) em Kinhsasa, a capital
© Baz Ratner | Reuters

Quem exultou foi o povo Luba na região de Kasai, a que pertence “Fatshi”. Como escrevem Tatiana Carayannis e Herbert Weiss na revista Foreign Affairs, as “políticas identitárias” reforçaram-se ainda mais no Congo.

“Aos olhos de muitos partidários de Tshisekedi, os Luba mereciam o poder nacional que já foi de outros grupos étnicos e regiões – os Bakongo, depois da independência da Bélgica em 1960, com o presidente Joseph Kasavubu, [a província do] Equador, com Mobutu Sese Seko, e o Catanga, com os Kabila, pai e filho”.

Apesar de recuperado um aparente equilíbrio regional e étnico, Carayannis e Weiss não descartam um crescendo de instabilidade.

“Muitos deputados da UDPS que não conseguiram lugares no Parlamento terão dificuldade em aceitar esta derrota e poderão acusá-lo de ter negociado um acordo que só o favorece a ele. Se o descontentamento aumentar, o seu círculo de fiéis poderá estreitar-se e o seu partido, o único que há muito mantém uma base nacional, poderá ficar reduzido a Kasai ou apenas aos Luba.”

“Kabila, ao escolher Shadary, também desapontou alguns membros da sua coligação que têm ambições políticas”. Além disso, “a decisão de entregar a Presidência a um opositor irá alienar mais aliados, o que o enfraquecerá” dentro do seu Partido do Povo para a Reconstrução e a Democracia (PPRD), parte da FCC.

A Foreign Affairs e outros analistas admitem que a RDC, ameaçada por uma epidemia de Ébola e onde proliferam mais grupos armados do que movimentos pacifistas, “tem todos os ingredientes” para uma sublevação violenta. Mas Patrick Litanga, antigo aluno da Universidade Católica em Kinshasa, tem “esperança no futuro” da pátria.

“Fui um pessimista durante muitos anos, até chegar à irrefutável conclusão de que o Congo é uma tragédia de Shakespeare, não uma tragédia grega”, diz-me Litanga, a partir de Louisville (Kentucky), nos Estados Unidos, país para onde emigrou em 2003.

Uma assembleia de voto em Kinshasa
© Getty Images | Esquire

“Ao contrário do que acontece nas tragédias clássicas gregas, os congoleses não estão predestinados a viver em tumulto e na miséria, independentemente do que fizerem os principais actores. Pelo contrário, tal como numa tragédia de Shakespeare, os protagonistas congoleses têm agora a oportunidade de guiar as mãos do destino.”

“Como ele nunca falou abertamente sobre o ‘cálice envenenado’ que recebeu, talvez possamos especular que Tshisekedi tenha planos para afastar Kabila a longo prazo”, explica o actual doutorando em Relações Internacionais.

“Se aproveitar o ‘mandato popular’ para fazer acordos quer com a FCC ou o Lamuka, Tshisekedi poderá adoptar medidas contra um poderoso Kabila (presidente do Senado). Apesar dos constrangimentos, não podemos subestimar o simbolismo que uma presidência de Tshisekedi representa para os seus seguidores.”

Tshisekedi poderá “galvanizar o povo se começar por se aproximar de Jean-Pierre Bemba e Moïse Katumbi”, anota Litanga. Aqueles dois homens “não abdicaram de ter uma carreira política, e certamente que não a irão prejudicar para ficar ao lado de Fayulu.”

O estudante congolês acredita que “uma tragédia pode ser evitada” no país que poderia ser o mais rico do mundo – tem as maiores reservas de cobalto e significativos depósitos de diamantes, ouro, cobre, urânio, coltan (minério que alimenta os nossos telemóveis) –, mas onde metade da população vive com menos de um dólar por dia, empobrecida por décadas de colonialismo, escravatura e corrupção.

“Desde o assassínio do primeiro-ministro Patrice Lumumba, em 1961, o principal problema no Congo tem sido uma acentuada centralização de poder presidencial”, avalia Patrick Litanga. Nestas eleições, foi criada a oportunidade de o governo, o parlamento, os tribunais e a sociedade civil conquistarem um certo grau de autonomia e de independência face ao órgão executivo.”

Talvez os próximos cinco anos de mandato de Tshisekdi, se ele estender a mão a Fayulu, possam ser os de uma verdadeira transição para a democracia.

A Igreja Católica, actor incontornável, com uma vasta rede de escolas e hospitais, não absolveu o “pecado original” de Félix. Conscientes da repressão mortífera de actos de desobediência civil, os bispos mostram-se conciliadores:  “Os resultados eleitorais mostram que, ela primeira vez na história recente do nosso país, abre-se a porta a uma alternância na hierarquia do Estado.”

CRONOLOGIA

De Diogo Cão a Kabila

“Os resultados eleitorais mostram que, ela primeira vez na história recente do nosso país, abre-se a porta a uma alternância na hierarquia do Estado.”, dizem os bispos católicos congoleses.(Na foto, um apoiante de Martin Fayulu ergue a bandeira nacional numa manifestação de protesto em Kinshasa, em frente ao Tribunal Constitucional, que validou a vitória de Thiskedi)
© Baz Ratner | Reuters

1481: O navegador português Diogo Cão é o primeiro europeu a chegar ao Reino Kongo, um império fundado no século XIII, estendendo-se por uma grande parte do sudoeste da actual República Democrática do Congo (Kinshasa), pelo norte de Angola, pelo Sul da República do Congo (Brazzaville) e por uma parcela do Gabão.

1483: Diogo Cão visita o Manikongo (rei) Ntinu Nzinga Nkuwu (1470-1506) na sua capital, Mbanza-Kongo. É um primeiro contacto pacífico que permite estabelecer relações diplomáticas e firmar acordos de cooperação. Com a ajuda dos portugueses, por exemplo, o monarca congolês consegue vencer um povo rival, os Tékés.

1490-1491: Ao Reino Kongo começam a chegar missionários católicos. No ano seguinte, Nzinga Nkuwu é baptizado e passa a chamar-se Ndo Nzuawu (“D. João”, na língua kongo). O seu exemplo foi seguido pela família real, incluindo o filho primogénito, Nzinga Mbemba (1456–1542), baptizado Ndo Funsu (Afonso), e outros nobres.

1506: Morre João I e os anciãos do reino escolhem para lhe suceder um dos filhos, Mpanzu, que não era cristão e havia convencido o pai a exilar Afonso. Este regressa para assumir o poder e, com a ajuda de grupos cristãos, derrota o exército de Mpanzu, captura e executa o irmão. Apoiado pelo rei de Portugal e vendo no Cristianismo um meio de modernizar o país, Afonso encoraja a evangelização. Fica conhecido como o “Apóstolo do Congo”.

1508: Um grupo de congoleses é enviado para Lisboa para iniciar estudos em seminários, entre eles Lukeni Lua Nzinga (Henrique), filho de Afonso, que é ordenado sacerdote em 1521 e com permissão pontifícia, se torna no primeiro bispo africano da Igreja. Serve como Auxiliar no Funchal (Madeira), da qual depende o Reino do Congo.

1521: Preocupado com o despovoamento do seu reino devido à intensificação do comércio de escravos para o Brasil, o Manikongo escreve a D. João III de Portugal, pedindo o fim deste tráfico. O rei português ignora-o. Os laços bilaterais degradam-se. Quando o monarca congolês morre, em 1548, o seu país está enfraquecido, os vizinhos cobiçando as suas riquezas.

1877: O Rei Leopoldo II da Bélgica (na foto), “megalómano e monstruoso”, envia o explorador americano Henry Morton Stanley à África Equatorial com ordens para “adquirir o máximo de terras”. Stanley negoceia com 450 chefes tribais do Congo “tratados” que estes não reconhecem.

1884-1885: Numa Conferência em Berlim, Leopoldo II convence as potências coloniais ocidentais de que tem “direito legal” à bacia do Rio Congo, uma área 50 vezes maior do que o seu reino – e assim nasce o Congo Belga e um regime de “pilhagem genocida”, responsável por dez milhões de mortos. Os belgas extraem borracha, marfim, diamantes e urânio (usado nas bombas lançadas sobre Hiroxima e Nagasaki), mas nada oferecem em troca.

1960: Em Junho, o Congo torna-se independente; Patrice Lumumba (na foto), líder do Movimento Nacional Congolês (pan-africanista), é eleito primeiro-ministro e Joseph Kasavubu assume a presidência; em Julho, o exército amotina-se e Lumumba pede ajuda aos soviéticos quando os EUA e a ONU lhe recusam apoio para travar os secessionistas no Catanga, liderados por Moïse Tshombé e incentivados pela Bélgica.

1961: Em Fevereiro, depois de demitido por Kasavubu, Lumumba é preso, torturado e assassinado, por ordem do chefe militar Joseph Mobutu, alegadamente com o beneplácito da Bélgica e dos EUA.

1963: Tshombé aceita pôr fim à secessão do Catanga e, no ano seguinte, é nomeado primeiro-ministro por Kasavubu.

1965: Mobutu assume o poder num golpe de Estado.

1971: O Congo muda de nome, para Zaire, e o novo líder passa a chamar-se Mobutu Sese Seko (na foto).

1990: Com o país endividado, Mobutu aceita pôr fim à proibição do multipartidarismo e nomeia um governo de transição, sem reduzir os seus poderes.

1991: Depois de motins em Kinshasa por parte de soldados com salários em atraso, Mobutu forma uma coligação governamental com líderes da oposição, mas continua a controlar o aparelho de segurança e importantes ministérios.

1996-1997: Começa a “I Guerra do Congo” – invasão ordenada pelo Ruanda contra milicianos Hutu, entrincheirados em campos de refugiados no Leste do Zaire desde o genocídio da minoria Tutsi em 1994; Mobutu é substituído pelo líder rebelde Laurent-Désiré Kabila (na foto), que tem o apoio de Kigali, Kampala e Luanda; o Zaire é agora a República Democrática do Congo (RDC).

1998: Joseph Kabila perde o apoio do Ruanda e do Uganda depois de lhes exigir a retirada das suas tropas da RDC; em Agosto, nove países africanos e cerca de 25 grupos armados, pró e contra Kabila, envolvem-se na “Grande Guerra Africana” – o mais mortífero conflito deste a II Guerra Mundial: 5,4 milhões de mortos e 2 milhões de deslocados internos, segundo a ONU.

1999: Em Julho, os países e rebeldes envolvidos na “Grande Guerra de África” assinam um cessar-fogo em Lusaca.

2000: As Nações Unidas autorizam o envio para o Congo de uma “força de estabilização” – o seu maior contingente de sempre de manutenção da paz (18.333 “capacetes azuis” de 123 países).

2001: Em Janeiro, Laurent-Désiré Kabila é morto a tiro por um guarda-costas, no palácio presidencial em Kinshasa. Sucede-lhe o filho Joseph Kabila, escolhido pelo Parlamento; em Abril, a ONU denuncia que a guerra no Leste está a ser deliberadamente prolongada, para “saquear recursos lucrativos”, como ouro, diamantes, cobalto e coltan (mineral omnipresente nos telemóveis, e de que a RDC possui as maiores reservas mundiais).

2002: Em Julho, o Ruanda compromete-se a retirar os seus 20 mil soldados do Leste do Congo e a RDC promete desarmar e prender a milícia Hutu Interahamwe, cúmplice do genocídio Tutsi; em Setembro, é assinado outro acordo, para retirar os soldados ugandeses.

2003: Em Junho, Joseph Kabila forma um governo de transição, prometendo eleições num prazo de dois anos; em Julho, líderes dos principais grupos rebeldes tomam posse como vice-presidentes.

2006: Em Fevereiro, entra em vigor uma nova Constituição e uma nova bandeira; em Julho, realizam-se legislativas e presidenciais; em Novembro, numa segunda volta, é declarada a vitória de Joseph Kabila, contestada pelo líder da oposição, Étienne Tshisekedi.

2011: Em Novembro, Joseph Kabila renova o mandato presidencial, mas os resultados eleitorais são criticados pela oposição interna e pela comunidade internacional.

2013: Em Fevereiro, representantes de 11 países africanos assinam um acordo prometendo ajudar a pôr fim ao conflito na RDC. O maior grupo rebelde, M23, declara o cessar-fogo; em Julho, 3000 homens de uma Brigada de Intervenção da ONU são enviados para o leste, com licença para combater e desarmar os rebeldes.

2015: Em Janeiro, dezenas de pessoas são mortas em protestos contra uma lei eleitoral que a oposição suspeita ter sido concebida para perpetuar Joseph Kabila no poder.

2018: Em Dezembro, depois de dois adiamentos, realizam-se presidenciais e legislativas (para preencher 500 lugares no Parlamento e 750 nos conselhos provinciais),

2019: Em Janeiro, a Comissão Eleitoral anuncia a vitória presidencial de Felix Tshisekedi e o triunfo da coligação de Kabila nas legislativas. Emmanuel Shadary, ex-ministro do Interior e “delfim” de Joseph Kabila, fica em terceiro lugar. Martin Fayulu, candidato rival na oposição, favorito nas sondagens e presumível vencedor (segundo os 40 mil observadores da Igreja Católica e outras fontes independentes), denuncia um pacto entre Kabila e Tshisekedi e pede a recontagem dos votos. O Tribunal Constitucional valida a vitória de Thisekedi, que toma posse em 24 de Janeiro.

Fontes: BBC; congo-autrement.com; “O Fantasma do Rei Leopoldo: Uma história de voracidade, terror e heroísmo na África colonial”, de Adam Hochschild; “Nouvelle histoire du Congo: Des origines à la République Démocratique”, de Isidore Ndaywel È Nziem.

Cartazes eleitorais na remota aldeia congolesa de Bonde
© Luis Tato | AFP | Getty Images

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Fevereiro de 2019 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, February 2019 edition

Masih Alinejad: “Não permito que me silenciem por me acharem inconveniente”

Os seus caracóis tornaram-se um símbolo da luta contra o uso obrigatório do hijab no Irão. Ameaçada de morte e forçada ao exílio, ela vive agora em Nova Iorque. É uma das mais influentes – e controversas – activistas pelos direitos humanos. “Lidar com o perigo é muito mais fácil do que fugir. (Ler mais | Read more...) 

Masih Alinejad: “O hijab obrigatório não é apenas um pedaço de tecido. É uma questão de dignidade humana e de escolha. É o meu corpo, a minha escolha. Se uma mulher não pode decidir como usar o seu cabelo, como poderá controlar o que vai dentro da sua cabeça?”
© Jesse Dittmar | Foreign Policy

Masih Alinejad escreveu um livro extraordinário – The Wind in my Hair: My Fight for Freedom in Modern Iran –, para melhor explicar a sua revolta contra um regime que força as mulheres iranianas “a baixar a cabeça”. Ela que “sempre quis ser única” é hoje uma das mais influentes activistas pelos direitos humanos.

Presa, forçada ao exílio, ameaçada de morte, tornou-se num dos inimigos principais da teocracia. Em 2014, a sua fotografia correndo livre por uma rua de Londres ladeada de cerejeiras em flor, os seus longos caracóis sem véu, inspirou milhões a aderirem às campanhas My Stealthy Freedom e #WhiteWednesdays, contra o uso obrigatório do hijab.

Não pode retornar à aldeia de Gomikola, na província de Mazdaran, no norte, onde nasceu em 1976. Não pode rever os pais, pobres e devotos da Revolução Islâmica, coagidos a renegá-la. Não pode visitar o filho, que vive no Reino Unido porque, se sair de Nova Iorque, onde reside, Donald Trump não a deixará regressar.

Há quarenta anos “na sombra da revolução islâmica”, Masih não se deixa atemorizar: “A luta continuará até que todas nós possamos sentir o vento no nosso cabelo”. De-me esta entrevista por email:

Algumas das fotografias que vemos no seu livro dão a ideia de que o hijab já era uma obrigação na sua casa, antes de ser imposto pela revolução islâmica. Com que idade começou a usar o véu? E quando é que começou a tomar consciência de que não apenas o seu cabelo mas também o seu corpo se tinham tornado “reféns”?

Aos 7 anos [como exige uma lei de 1983], fui forçada a esconder o meu cabelo. E, a partir dessa idade, tive de ocultar também o meu corpo. O hijab foi-se tornando uma coisa normal, não o sendo. Mas não havia alternativa.

Eu já era uma jornalista de política e conformei-me com o hijab obrigatório, em prol de ideais mais elevados, como a liberdade de expressão, uma mais justa distribuição económica, maior justiça social.

Só fora do Irão me foi possível denunciar que a República Islâmica trava uma guerra contra as liberdades das mulheres e destrói os seus direitos. A revolução islâmica [de 1979] foi também uma revolução contra os direitos das mulheres.

A sua mãe, mais do que o seu pai [que pertence à milícia Basij, auxiliar dos Guardas da Revolução] defendeu-a sempre. Quando a Masih foi expulsa da escola [depois de dizer que Deus é uma criação dos seres humanos] ou quando foi presa [por integrar um grupo universitário que lia obras consideradas subversivas]. Até que ponto, os seus pais e irmãos são, também eles, reféns do regime?

Os meus pais acreditavam na República Islâmica, mas a sua fé no sistema tem sido posta à prova por uma campanha perversa lançada pelo governo contra mim. Por motivos óbvios, não podem expressar abertamente as suas dúvidas.

Há nove anos que estou impedida de regressar ao Irão. A minha família também não tem o direito de sair do país. Os meus pais são frequentemente convidados a aparecer nos media estatais para me criticarem publicamente.

Ainda este ano, a minha mãe foi filmada a participar numa manifestação contra os Estados Unidos e a minha irmã repudiou-me na televisão nacional.

O ex-presidente iraniano Mohammad Khatami (à esq.) fala ao telefone com a mãe de Masih Alinejad, depois de um encontro com jornalistas em Teerão, 13 de Julho de 2005. No exílio, ela deixou de confiar nos políticos reformistas com quem colaborava
© Hasan Sarbakhshian | AP

O que mudou, para o melhor e para o pior, sobretudo no que diz respeito aos direitos das mulheres, desde que deixou o Irão de Mahmoud Ahmadinejad em 2009? Num passado recente, a Masih colaborava com publicações e políticos reformistas. No exílio, todavia, tem sido muito crítica do Governo do presidente Hassan Rouhani, ao ponto de no Twitter usar a hastag #regime change. Porquê?

As mudanças sob a presidência de Rouhani são cosméticas para encobrir a ausência de direitos humanos. De maneira nenhuma tem havido melhorias substanciais desde que Ahmadinejad se foi embora. Pelo contrário, vemos cada vez mais autocensura nos media – quando a imprensa faz a cobertura de um escândalo de corrupção ou qualquer acto de injustiça, os jornalistas são imediatamente silenciados.

A imprensa iraniana está a reduzida a nada mais do que um grupo de animadores. Activistas como eu não podem regressar ao Irão. A expressão política permanece reduzida – só os que pertencem à elite política, os insiders, é que têm voz –  e limitada. Os que não fazem parte deste grupo de elite não têm qualquer voz. A minoria bahá’í continua a ser perseguida.

Quanto à condição da mulher, nada mudou – às mulheres ainda é negado o acesso a estádios desportivos para assistirem aos jogos, as mulheres não podem ser juízas ou viajar para o estrangeiro, sem autorização do marido, ou do pai se não forem casadas. E, é claro, as leis que impõem o hijab obrigatório continuam em vigor.

Quando eu vivia no Irão, pensava que os reformistas era a melhor alternativa a uma mudança gradual. Eu acreditava na reforma do sistema. Estava próxima da liderança reformista e tinha fé numa agenda progressista.

Fui forçada a abandonar o Irão em 2009, porque as forças de segurança me consideravam uma jornalista reformista. Mas, uma vez no exílio, percebi que os reformistas só cuidam deles próprios e dos seus próprios interesses políticos em vez de se preocuparem com todo o movimento da oposição.

Por exemplo, os reformistas não querem saber das minorias religiosas, como os judeus ou os bahá’ís. Só lhes importa os presos políticos reformistas, mas ficam em silêncio quanto ao destino de outros prisioneiros, sejam de esquerda ou monárquicos. Também ignoram a minoria curda.

Os reformistas não querem desafiar a ditadura inerente no sistema, como a ingerência religiosa no Governo. Interessa-lhes apenas ganhar poder para poderem distribuir cargos e riqueza entre os seus apoiantes.

À semelhança de muitos outros, como [a Prémio Nobel da Paz] Shirin Ebadi, cheguei à conclusão de que não é possível reformar o regime. A República Islâmica coloca o Corão acima da vontade do povo. Por outra palavras, não é possível uma democracia enquanto a classe clerical tiver a última palavra.

Esta fotografia de um encontro de Masih Alinejad com o secretário de Estado americano, em 4 de Fevereiro, levou muitos reformistas e seus apoiantes a criticá-la. Mike Pompeo é um dos artífices de uma dura política de sanções que penaliza sobretudo o povo iraniano. O chefe da diplomacia de Donald Trump agradeceu à activista “a coragem de condenar 40 anos de abusos de direitos humanos” por parte do regime em Teerão
© Robert Palladino | Twitter

Como jornalista, como avalia a oposição à teocracia? Há, de momento, alguma alternativa viável?

No Inverno de 2017 (Dezembro 2017-Janeiro 2018), vimos gigantescos protestos em mais de cem cidades [iranianas]. Embora as pessoas se queixassem da economia, a verdade é que elas sentem que, depois de 40 anos, a República Islâmica é uma experiência falhada.

Os protestos acabaram depois de mais de 20 pessoas terem sido mortas e umas 5000 detidas. Outra razão [para o seu fim] foi a falta de uma oposição unida aos clérigos. Há muita oposição, mas a sua falta de unidade impede-a de ter bem sucedida.

Há demasiada gente a querer ser chefe! Dito isto, tem havido esforços para unificar as forças da oposição. Ainda está tudo numa fase inicial, mas tem havido reuniões para formular uma série de políticas unificadas entre os grupos da oposição.

Na oposição há tantos grupos antagónicos, dos que apoiam Reza Pahlavi, o filho do último Xá, aos Mujahedin-e Khalq [MEK, odiados pela maioria dos iranianos por terem apoiado Saddam Hussein na Irão-Iraque de 1980-1988]. Como os unificar? Vê-se a si própria como futura presidente ou primeira-ministra do Irão?

Muito em breve espero lançar uma nova campanha, Every Woman is a Leader [“Todas as Mulheres são Líderes]. Eu quero dar poder às mulheres para que cada uma delas possa ascender a uma posição de liderança. Deste modo, eu serei redundante!

Em vez de me preocupar com cargos e posições futuras, a oposição precisa de se unir à volta de um conjunto de princípios e mostrar coesão e objectivo, de modo a convencer os que estão dentro do Irão. Eu já estou convencida de uma coisa – não haverá mudança política sem a participação das mulheres. 

Masih Alinejad com e sem véu, no Irão e no exílio
© Caroll Taveras | The Observer

Numa altura em que o Irão está sob a ameaça de uma nova guerra e pelo mundo impera a islamofobia, há quem questione os seus objetivos, dizendo que a Masih deveria lutar por outros direitos sociais e políticos antes de exigir o fim do hijab obrigatório. O que lhes responde?

No Irão, diziam-me para não levantar muitas ondas, quando denunciava casos de corrupção ou violações de direitos humanos, porque o Irão poderia enfrentar sanções ou porque eu poderia abalar a resistência popular ao Ocidente.

Durante as negociações sobre o programa nuclear [em 2015], avisavam-me constantemente para não escrever sobre as famílias dos que tinham sido mortos nos protestos, porque isso enfraqueceria a posição dos diplomatas iranianos.

Depois do acordo nuclear, advertiram-me para ficar quieta em relação ao hijab obrigatório, para não prejudicar oportunidades de negócios. Há sempre alguém que nos recomenda nada fazer, quando se trata de direitos humanos. Mas estou convencida de que é a aplicação de leis religiosas, antiquadas e desacreditadas, que fomenta a islamofobia.

O hijab obrigatório contraria a legislação do século XXI. O hijab obrigatório não é apenas um pedaço de tecido. É uma questão de dignidade humana e de escolha. É o meu corpo, a minha escolha. Se uma mulher não pode decidir como usar o seu cabelo, como poderá controlar o que vai dentro da sua cabeça?

As mulheres devem ter direitos iguais. Há 40 anos que nos dizem para ficarmos quietas até que as condições internacionais se acalmem e as tensões diminuam. Mas há 40 anos, desde a crise dos reféns na embaixada dos EUA em Teerão até agora, só tem havido tensões.

Não podemos continuar a adiar a reivindicação dos nossos direitos. Algumas pessoas dizem que o hijab obrigatório é uma questão menor que será resolvida assim que forem conquistados outros direitos mais importantes, políticos e sociais. Se é esse o caso, então comecemos por solucionar o problema mais pequeno.

Acontece que o hijab obrigatório faz parte do ADN da República Islâmica. É a pedra angular da teocracia. Eu sou porta-voz das mulheres vítimas de uma lei antiquada e contestada.

Antes da República Islâmica, tínhamos mais direitos do que temos agora. Não permito que me silenciem por me acharem inconveniente.

Na campanha contra o véu obrigatório que se seguiu à iniciativa My Stealthy Freedom, Masih Alinejad encoraja as mulheres iranianas a partilharem fotografias e vídeos nas redes sociais erguendo um hijab branco com a hastag #whitewednesdays
© Reuters

Como mede o impacto popular das suas campanhas My Stealthy Freedom e #WhiteWednesdays [que encorajam as mulheres a erguer um hijab branco em público, partilhando os seus vídeos nas redes sociais]? Quem são as mulheres que lhe enviam imagens de desobediência?

A minha conta no Instagram tem 1,8 milhões de seguidores, mas alguns dos meus vídeos têm cerca de 9 milhões de visualizações! Há várias maneiras de medir o êxito das minhas campanhas.

O número de ameaças de morte ou o volume de insultos que me são dirigidos são indicadores de como elas têm sido bem sucedidas. Até conseguimos que o Supremo Líder [ayatollah Ali Khamenei], muito desgostoso, se refere a elas.

O que aterroriza as autoridades é que estas mulheres, e alguns homens, pertencem a todos os estratos sociais. São ricos, pobres e de classe média. Vivem em grandes cidades, como Teerão [a capital], e em pequenas vilas e aldeias. É um movimento nacional genuíno. Não se limita às elites.

Quantos vídeos recebe por dia e como certifica a sua autenticidade?

Recebo dezenas de vídeos diariamente. Por vezes, este volume é avassalador! Quem me envia fotografias ou vídeos está consciente das consequências. Querem desafiar as autoridades e não têm medo.

Como garante a segurança das mulheres que confiam em si?

Eu faço todos os possíveis para proteger as suas identidades. Às vezes não divulgo certos vídeos por temer que sejam demasiado radicais ou perigosos para as minhas seguidoras. Mas elas zangam-se comigo e exigem a sua difusão, frisando que não são cobardes.

É minha responsabilidade ser mais cautelosa do que elas. Para mim, é fundamental impedir que lhes façam mal ou as prendam. Se são detidas, tento arranjar-lhes representantes legais – o que nem sempre é possível.

Deixo bem claro que elas são livres de dizer o que for preciso para saírem da cadeia [o regime recorre frequentemente a confissões forçadas]. Até agora, foram presas cerca de 50 mulheres. Pelo menos 30 ainda não foram libertadas.

Mulheres europeus como Ann Linde, ministra sueca dos Assuntos Europeus (à esq.), aqui numa visita oficial a Teerão, em 11 de Fevereiro, têm sido criticadas por Masih Alinejad, por “legitimarem a imposição do hijab obrigatório” ao não recusarem o véu
© aftonbladet-cdn.se

Se as mulheres iranianas que aderem às suas campanhas a deixam orgulhosa, as líderes políticas europeias e outras parecem envergonhá-la por aceitarem o hijab obrigatório quando visitam o Irão. Como espera convencê-las a mudar de atitude?

Espero embaraçar estas feministas ocidentais até elas agirem correctamente. Ainda há pouco tempo, num vídeo evocativo do primeiro aniversário do movimento #MeToo, o Supremo Líder aconselhou as mulheres ocidentais a usarem o hijab para não serem assediadas sexualmente ou violadas. Para ele, as mulheres são culpadas de serem assediadas e violadas porque não usam o hijab. Ele culpou a vítima!

É esta a mentalidade da República Islâmica, e eu espero que as feministas [estrangeiras] percebam claramente que não devem ter esperança de um diálogo sobre esta matéria.

Se o Governo português exigisse às mulheres de uma delegação iraniana que retirassem o hijab quando chegassem a Lisboa, decerto haveria protestos. Mas a República Islâmica continua a dizer às [mulheres em] delegações estrangeiras que têm de usar o hijab obrigatório, e ninguém mexe uma palha. Eu quero que as feministas e as mulheres políticas europeias defendam os seus direitos.

No dia 8 de Março de 1979, ano da revolução islâmica, mais de cem mil mulheres iranianas protestaram nas ruas contra a introdução do véu obrigatório – uma luta que dura há 40 anos
© Hengameh Golestan

A Masih descreve-se como “dupla vítima”, do Irão, que não lhe permite reencontrar os seus pais e irmãos, e dos EUA de Donald Trump, que a proíbem de visitar e receber a visita do seu único filho, a viver no Reino Unido. A sua luta vale todos estes sacrifícios?

A minha maior dor é estar separada do meu filho e da minha família, não poder regressar a casa. Mas conservo uma enorme esperança, porque o melhor está ainda para vir. Acredito num futuro melhor para o Irão, porque mais e mais pessoas, mulheres e homens, estão a defender as suas convicções e a reclamar os seus direitos.

Lembro-me frequentemente do exemplo de Rosa Parks, a ativista afro-americana que recusou ceder o seu lugar [a um passageiro branco, como exigiam leis segregacionistas] e ir para os bancos traseiros do autocarro. Isto aconteceu em 1955, mas deste protesto foram lançadas as sementes da presidência de Barack Obama.

Dá-me esperança o facto de algo tão pequeno como um lugar de autocarro, em Montgomery (Alabama), ter ajudado a transformar uma sociedade. A apatia das elites, por outro lado, causa-me desespero. Mas não tenho tempo nem posso dar-me ao luxo de me sentir desesperada.

“A minha mãe costumava dizer que a escuridão é um monstro, um demónio negro e disforme que alimenta o nosso medo. (…) ‘Abre bem os olhos o mais que puderes’, dizia-me ela quando eu era miúda.” Até que ponto este conselho, que refere no seu livro, influencia as suas decisões?

Mantém os olhos abertos sempre que algo de assustador te aparecer no caminho. O que a mãe me dizia tornou-se o lema da minha vida. Sinto pavor e terror, como outras pessoas, mas prefiro enfrentar o perigo de cabeça erguida do que fugir ou virar-lhe as costas.

Desde criança que sigo o conselho da minha mãe. Nem sempre resulta. Longe disso. Mas aprendi que lidar com o perigo e as dificuldades de cabeça erguida é muito mais fácil do que fugir.

Este artigo, aqui actualizado, na versão integral e com um título diferente, foi publicado originalmente na revista VISÃO, na edição de 10 de Janeiro de 2019 | This article, here an updated and extended version, under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on January 10, 2019.

Asia Bibi: Longo caminho para a liberdade

O “crime” desta mãe católica paquistanesa foi beber um copo de água de um poço reservado a muçulmanos. Condenada à morte em 2010, por “insultar Maomé”, foi absolvida em 2018 – veredicto histórico do Supremo Tribunal de um país onde a lei contra a blasfémia permanece arma de vingança contra minorias religiosas. (Ler mais | Read more...)

Em 15 de Junho de 2009, Asia Bibi foi arrastada para um “julgamento popular”, onde a forçaram a confessar-se culpada de insultar Maomé, profeta do Islão. Presa nesse mesmo dia, despejaram-na numa cela, imunda e solitária, onde os guardas a humilhavam diariamente e onde só a fé a impediu de se suicidar
© grandinmedia.ca

A vida de Aasiya Noreen Bibi, pobre e analfabeta, fluía sem grandes solavancos, como o esgoto a céu aberto que corre pela esburacada aldeia natal de Ittan Wali, província paquistanesa do Punjab. Até que o pouco que tinha se desmoronou num domingo tórrido, 14 de Junho de 2009.

Saiu de manhã cedo, sem ranger a porta de casa para não despertar o marido e os cinco filhos, no entusiasmo de ganhar 250 rupias (menos de 1,60 euros) por uma jornada laboriosa a apanhar bagas de fruto. Com este dinheiro, compraria dois quilos de farinha, o suficiente para alimentar a família com o tradicional pão chapati.

A tarefa era árdua. Porque exigia um esforço físico extremo, sob um calor abrasador. Só receberia a quantia ajustada se enchesse o cesto da colheita.

Mas o seu era maior do que os das companheiras de trabalho, pelo simples facto de estas serem muçulmanas e ela cristã. Não protestou. Estava habituada a ter de baixar a cabeça. A ser tratada como “intocável” cidadã de segunda classe.

Ao meio-dia, já desidratada, aproximou-se de um poço e usou um velho copo de metal para beber água fresca, que retirara com a ajuda de um balde. Começou então a ouvir vozes a resmungar. Ignorou o burburinho e voltou a encher o copo, para o oferecer a uma colega, também ela sequiosa.

O gesto foi interrompido pela vizinha Musarat, costureira e coscuvilheira da aldeia, que gritou: “Não bebas dessa água – é haram [proibida]!”

Asia Bibi, como todos a conhecem, estava longe de imaginar que, naquele domingo de Junho, os seus gestos e palavras a fariam agonizar nove anos em duas prisões.

O tormento é relatado em Blasfémia: Condenada à morte por um copo de água (Alêtheia Editores, 2011). Ela foi a voz e a jornalista francesa Anne-Isabelle Tollet a caneta.

As filhas de Asia Bibi, com uma fotografia da mãe, em 2018, pedindo ajuda para que ela fosse libertada [o que aconteceria apenas no final de 2019]
© Adrees Latif | Reuters | The Spectator

“Ouçam, todos vós, esta cristã sujou a água do poço quando a bebeu do nosso copo”, sentenciou a hostil Musarat, frisando que Asia pertence a uma “casta poluente” (chuhda musali). “A água está agora impura e não a podemos beber.”

A acusação era tão injusta que Asia ousou defender-se: “Creio que Jesus agiria de maneira diferente de Maomé.” Musarat disparou: “Como te atreves a pensar pelo profeta, seu animal imundo? Deves converter-te ao Islão e redimires-te!”

A cristã contrapôs: “Acredito que Jesus morreu na cruz pelos pecados da Humanidade. O que é que o teu profeta Maomé fez pela Humanidade? E por que tenho eu de me converter e não tu?”

Os que apanhavam fruta aliaram-se a Musarat, bradando: “Não mereces viver! Vais pagar caro o que acabaste de dizer sobre o nosso santo profeta.”

E assim aconteceu. Em 15 de Junho de 2009, Asia Bibi, hoje com 53 anos, foi arrastada para um “julgamento popular”, onde a forçaram a confessar-se culpada de insultar o “Mensageiro de Alá”.

Presa nesse mesmo dia, despejaram-na numa cela, imunda e solitária, onde os guardas a humilhavam diariamente e onde só a fé a impediu de se suicidar.

Em 2010, um tribunal em Sheikhupura, distrito a que pertence a sua aldeia, condenou Asia à forca, acusada de blasfémia, ao abrigo da “secção 295-C” do Código Penal do Paquistão, que prevê um único castigo – a morte – por “difamar o profeta Maomé”. Um outro tribunal, em Lahore, rejeitou um recurso e confirmou a pena.

Em Janeiro de 2011, Salman Taseer, o governador do Punjab que pedira o perdão presidencial para “uma vítima inocente de uma lei injusta”, foi morto a tiro pelo seu próprio guarda-costas.

Dois meses depois, o católico Shahbaz Bhatti, ministro para as Minorias Religiosas – único cristão no Governo e quem sensibilizou o Papa a interceder por Asia Bibi – foi igualmente assassinado.

Em Novembro de 2010, Salman Taseer, governador do Punjab, deu uma conferência de imprensa ao lado de Asia Bibi (à esq.) pedindo perdão presidencial para “uma vítima inocente de uma lei injusta”. Em Janeiro de 2011, seria morto a tiro pelo seu guarda-costas
© Christian Science Monitor

As ofensas à religião começaram a ser criminalizadas em 1860, dois anos depois de a Coroa Britânica ter assumido o controlo da maior parte do subcontinente indiano.

Quem “perturbasse uma assembleia religiosa, conspurcasse cemitérios, ferisse sentimentos religiosos ou destruísse lugares /objetos de devoção” corria o risco de “um a dez anos de cárcere”.

O Paquistão não só adoptou a legislação colonial, quando se separou da Índia em 1947, como a endureceu, a partir dos anos 1980, por ordem do general Zia-ul Haq, empenhado em “islamizar” o país e perseguir a comunidade Ahmadi, renegada como “não-Islâmica”.

Inicialmente, as “leis contra a blasfémia” impostas pela ditadura militar previam um máximo de três anos de cadeia por “comentários depreciativos sobre personalidades muçulmanas”. A partir de 1982, uma nova cláusula passou a prever prisão perpétua para os que profanassem o Corão. Em 1986, outra cláusula, distinta e vaga, foi introduzida para punir com a morte injúrias a Maomé.

As leis contra a blasfémia têm sido como uma espada de Dâmocles sobre as minorias religiosas, mas também sobre os muçulmanos – as maiores vítimas, segundo a Amnistia Internacional. “Violam os direitos humanos e encorajam ajustes de contas pessoais.

Uma vez acusados, os suspeitos ficam enleados num sistema que os presume culpados até provarem a inocência.”

Entre 1987 e 2014, mais de 1300 pessoas foram acusadas. Desde 1990, pelo menos 65 foram mortas – não pelo Estado, mas por vigilantes enraivecidos. Actualmente, pelo menos 900 pessoas estarão presas.

Em Março de 2011, o católico Shahbaz Bhatti, ministro para as Minorias Religiosas – único cristão no Governo e quem sensibilizou o Papa a interceder por Asia Bibi – foi também assassinado, num acto de vingança
© Missione Shahbaz Bhatti Onlus

Só em 31 de Outubro de 2018, num veredicto considerado “rigoroso, corajoso e histórico”, é que o Supremo Tribunal do país ordenou a libertação de Asia Bibi, concluindo que a acusação não apresentou “provas irrefutáveis” que justificassem a pena capital.

A decisão judicial foi recebida com violentos protestos, organizados pelo partido Tehreek-e-Labbaik Pakistan (TLP), o mais irredutível dos defensores das leis contra a blasfémia, que quase paralisou o país.

No dia 8 de Novembro, Asia Bibi saiu, finalmente, da prisão de mulheres de Multan, em Rawalpindi, transportada num avião especial para Islamabad, a capital. À hora do fecho desta edição, ainda não era livre de deixar o país.

“Asia Bibi está agora em paradeiro desconhecido, nas mãos do exército e com segurança máxima”, revela-me, a partir do Paquistão, Josué Villalón, porta-voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

“Por enquanto, não pode rever o marido e filhos, também eles num lugar sob protecção. A família está a ser cuidada pela Igreja, embora não possam sair de casa nem falar publicamente. Os filhos frequentam a escola e o marido tem trabalho.”

“Continua, porém, a temer-se que, caso Asia Bibi consiga a liberdade plena e sair do país, possa haver represálias contra a comunidade cristã e contra o Governo”, refere Villalón.

“Os bispos paquistaneses confiam no novo primeiro-ministro, Imran Khan. Já se encontraram com ele, e descrevem-no como um homem sincero, próximo e determinado a solucionar os grandes problemas do país, sobretudo a corrupção, a falta de emprego, especialmente entre os jovens, e o acesso à educação dos pobres e marginalizados, entre os quais se encontram os cristãos.”

Eisham Ashiq, a filha mais velha, e Ashiq Masih, o marido de Asia Bibi, fotografados no dia 5 de Outubro de 2018, numa igreja em Chester, Inglaterra
© Simon Caldwell | thetablet.co.uk

No dia 24 de Novembro, inesperadamente, Imran Khan decidiu mandar prender o líder do TLP, Khadim Hussain Rizvi, e outros 3000 membros/simpatizantes do seu partido.

A 1 de Dezembro, Rizvi e outros três dirigentes extremistas foram acusados de “terrorismo e traição”, depois de exortarem soldados a revoltarem-se contra o chefe das Forças Armadas e funcionários do Supremo Tribunal a matarem os magistrados que absolveram Asia Bibi.

A advogada e activista dos direitos humanos paquistanesa Ayesha Ijaz Khan é crítica do novo chefe do governo em Islamabad.

“Um governo que erra mais do que acerta e que não estava preparado para lidar com o veredicto do Supremo Tribunal”, lamentou, numa entrevista que me deu, por e-mail.

“Inexperiente, [Imran Khan] acabou por fazer um acordo com o TLP, para o apaziguar, aceitando que o caso fosse novamente revisto [pelos juízes] e que Asia Bibi fosse colocada numa lista de controlo de saídas, o que a impede de ser totalmente livre.”

Apesar de tudo, Ayesha Khan exultou com a prisão de Rizvi e seus discípulos. “Eles violaram a lei. Os seus protestos ultrapassaram as regras da decência e causaram imensos danos ao erário público.”

“Deveriam, no entanto, ter sido acusados de incitamento à violência. Porque esta acusação pode ser avaliada de maneira muito mais tangível. Terrorismo e traição são sempre acusações dúbias. Podem abrir um precedente indesejável.”

Asia Bibi, em liberdade, exibe o seu diploma de Cidadã de Honra da Cidade de Paris, na companhia as filhas e do marido
© Michel Euler | AP

Na primeira entrevista após a sua libertação, Asia Bibi disse ao programa Today, da emissora britânica Radio4, que perdoou os seus acusadores
©churchtimes.co.uk

Por que é que o TLP, movimento sufi, inicialmente moderado e inimigo dos talibã deobanditas, ambos sunitas, se tornou um grupo temível, capaz de mobilizar multidões de fanáticos? “Esta é uma questão complicada”, responde a advogada nascida em Rawalpindi, hoje a viver e a trabalhar em Londres.

“Não podemos dizer que o TLP é popular, se tivermos como base o número de lugares que conquistou nas eleições [de Julho último] – apenas dois, e estes no parlamento de Sindh. Mas podemos dizer que, apesar de não serem há vários anos os mais votados, os partidos religiosos continuam capazes de demonstrar o seu poder nas ruas.”

“É por causa desta força que os partidos políticos tradicionais tendem a tolerar os religiosos”, acrescenta Ayesha Khan. “Mais relevante, porém, tem sido o papel do ‘Estado profundo’ na utilização dos religiosos para enfraquecer os seculares”

“O TLP, por exemplo, foi transformado em partido político antes das eleições de 2018, principalmente para que o voto dos [sufi] Barelvi pudesse enfraquecer o partido [do anterior primeiro-ministro] Nawaz Sharif, que o establishment já queria naquela altura afastar do poder.”

Face à pressão do TLP e de outros radicais patologicamente obcecados com a “honra do profeta”, é reduzida a margem de manobra dos partidos seculares representados no Parlamento para rever, e menos ainda revogar, as leis contra a blasfémia.

Em 2020, mais uma vez em parceria com a jornalista Anne-Isabelle Tollet, Asia Bibi publicou o seu livro de memórias Enfim Livre!
© François Thomas | éditions du Rocher | The Guardian

[Em 8 de Maio, mais de seis meses depois de ter sido absolvida pelo Supremo Tribunal, Asia Bibi deixou finalmente o Paquistão, acompanhada do marido, Ashiq Masih, que nunca desistiu da batalha legal pela sua liberdade. Partiu para o Canadá (que lhe ofereceu asilo e proteção), onde já viviam as filhas, na cidade de Calgary.]

Em 2020, mais uma vez em parceria com a jornalista Anne-Isabelle Tollet, Asia Bibi publicou as suas memórias, “Enfim Livre!”, descritas como “um retrato poderoso do clima de intimidação a que os cristãos podem estar sujeitos no Paquistão especialmente quando sobre eles recai a infame lei da blasfémia”. O livro, que em Portugal pode ser comprado através da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), relata vários casos de perseguição nos últimos anos, e revela que a antiga cela de Asia Bibi na prisão de Multan é agora ocupada por outra cristã, mãe de quatro filhos, Kausar Shagufta.]

Uma Igreja “activa, visível e viável”

O dinamismo da Igreja paquistanesa em muito se deve a Joseph Coutts, ex-bispo de Faisalabad (1998-2012) e arcebispo de Carachi que, em Junho de 2018, o Papa Francisco escolheu para ser um dos 24 novos cardeais
© National Catholic Register

O Cristianismo no Paquistão remontará aos primórdios da Igreja, com a chegada do apóstolo Tomé à região. Ganhou raízes a partir de 1570 quando missionários portugueses se fixaram em Lahore, capital do Punjab.

Eusébio, Bispo de Cesareia (263-339 d.C.), relata na sua História Eclesiástica que Tomé e Bartolomeu foram os primeiros discípulos enviados por Jesus a evangelizar a Índia e a Parta (actual Irão).

Uma tradição apoiada nos Actos de Tomé, texto gnóstico do Novo Testamento achado na Síria em 1822, adianta que o emissário de Jesus terá entrado, por volta de 52 d.C., em Taxila, a cerca de 32 quilómetros de Islamabad (hoje capital do Paquistão), onde converteu Gondofares, fundador do Reino Indo-Parta, e seus súbditos.

Nem todos crêem nesta narrativa, mas nada parece abalar a devoção ao “Apóstolo (e mártir) da Índia”, sobretudo desde que, em 1935, foi encontrada no campo arqueológico de Sirkap a “Cruz de Taxila”, que se mantém exposta na Catedral de Lahore, capital do Punjab.

Foi a Lahore que chegaram os primeiros missionários católicos – portugueses – no século XVI, embora o Cristianismo só aqui se tenha firmemente estabelecido no final do século XIX e início do século XX, com a presença de missionários protestantes.

Começaram por atrair as castas hindus mais elevadas, esperando que estas convertessem as mais baixas. Isso não sucedeu e os evangelizadores decidiram então privilegiar os esquecidos no último lugar da escala social, oferecendo-lhes a esperança de escapar a um sistema opressivo.

É do Punjab, planície aluvial ocupada pelo Paquistão e pela Índia até à divisão do território em 1947, que é originária a quase totalidade (97%) dos cerca de quatro milhões de cristãos paquistaneses.

Quando os britânicos deixaram o subcontinente, o Paquistão ficou com 62% do Punjab, hoje uma província onde vivem 60% dos seus mais de 197 milhões habitantes. A restante parcela foi atribuída à Índia, que a dividiu em três estados – Punjab, Haryana e Himchal Pradesh.

Em 1947, a maior parte dos cristãos no Punjab optou por viver no novo país muçulmano, e não na Índia, confiando que o Islão rejeitaria divisões com bases teológicas.

A realidade é que continuaram a viver na pobreza e a trabalhar onde ninguém quer. As castas nunca desapareceram.

Oração na Igreja de Santo António, em Lahore, Paquistão
© Mohsin Raza | Reuters

“Os cristãos paquistaneses são uma comunidade marginal”, descreve, em entrevista que me deu por e-mail, a partir do Paquistão, Josué Villalón, porta-voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). “Por lei, são cidadãos de segunda classe. Não podem aceder a determinados cargos públicos, políticos ou militares.”

“São discriminados no mundo laboral. Apenas podem desempenhar trabalhos de servidão, no cultivo das terras, na fabricação de ladrilhos, na limpeza de sanitários e outros serviços domésticos. Além disso, sobre eles pende a cultura da impureza. Não podem tocar em bens de muçulmanos, porque os ‘contaminam’.”

Apesar de tudo, Josué Villalón está confiante: “Há uma tradição cristã desde há pelo menos três gerações. São fiéis muito praticantes. Uns 90% frequentam a missa aos domingos. A sua fé é forte e simples.”

A Igreja Católica também tem feito “uma aposta grande no sentido de melhorar o nível educativo da comunidade, através de colégios, institutos, centros de formação profissional e universidades”, adianta Villalón.

“Pouco a pouco, começa a haver um número maior de cristãos mais qualificados, em particular nas zonas urbanas. Vão-se rompendo estereótipos e preconceitos a seu respeito. A diocese de Faisalabad, por exemplo, dirige 46 colégios primários, três hospitais, dez institutos e seis centros de formação profissional”.

Este dinamismo em muito se deve a Joseph Coutts, ex-bispo de Faisalabad (1998-2012) e arcebispo de Carachi que, em Junho de 2018, o Papa Francisco escolheu para ser um dos 24 novos cardeais.

A sua nomeação foi por ele interpretada como um sinal de que, apesar das muitas perseguições, continua a haver no Paquistão “uma comunidade cristã activa, visível e viável.” Coutts, de 73 anos, nascido em Amritsar, na antiga Índia britânica, é o quinto cardeal com raízes em Goa e o segundo “príncipe da Igreja” do Paquistão. O primeiro foi Joseph Cordeiro, em 1973, também de ascendência goesa, “a elite” dos grupos cristãos.

Coutts, agora titular da igreja de San Bonaventura da Bagnoregio, tem sido muito elogiado, em particular por teólogos e políticos muçulmanos, pelo seu trabalho ecuménico e humanitário no Paquistão. As 56 escolas geridas pela arquidiocese de Carachi, tal como as de Faisalabad, admitem alunos de todas as classes sociais e religiões, subsidiando a educação dos mais pobres.

Um mosaico religioso

Estudantes na madrassa Jamia Muhammadia, em Islamabad, a capital paquistanesa
© Dia Hadid |NPR

O Paquistão – único país criado em nome do Islão – foi incluído, em Dezembro último, pelo Departamento de Estado americano, numa lista de países “culpados de graves violações à liberdade religiosa”, da qual fazem parte a Arábia Saudita, a China, a Coreia do Norte, a Eritreia, o Irão, Myanmar (Birmânia), o Tajiquistão e o Turquemenistão.

Embora Washington não tenha aplicado sanções, as autoridades em Islamabad criticaram esta decisão, por desconsiderar “uma sociedade plural onde vivem juntas pessoas de diversas crenças.”

  • O Islão é a religião oficial do Paquistão, observada por mais de 96% dos habitantes. A ortodoxia sunita é maioritária (82%). Os xiitas, a maior minoria religiosa, serão cerca de 11,8%.
  • Os hindus paquistaneses (mais de 9 milhões saíram da Índia após a divisão do subcontinente em 1947 e mais de um milhão perderam a vida nesta transferência) constituem 1,85%.
  • Os cristãos representam 1,59%, metade dos quais são católicos.
  • Os ahmadis, seguidores de um “messias prometido” Mirza Ghulam Ahmad (1835-1908), nascido depois de Maomé, não são, por isso, considerados muçulmanos pelo Estado. Totalizarão 1,8%, estimativa difícil de comprovar por serem muito perseguidos.
  • Outras minorias são os bahá’ís, os sikhs, os zoroastras ou os kalash.

Fonte: worldatlas.com

Os Ahmadyya ou ahmadis são uma das minorias mais perseguidas no Paquistão, que não os reconhece como muçulmanos
© Mangobaaz.com

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Janeiro de 2019 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, January 2019 edition

O príncipe das trevas

Já ninguém duvida que Mohammed bin Salman “ordenou e supervisionou” o assassínio do dissidente Jamal Khashoggi. Este crime repugnante e uma invencível guerra no Iémen enfraqueceram o mais jovem e poderoso herdeiro do trono saudita. Ameaçado com sanções sem precedentes por parte dos Estados Unidos, quem garante a sobrevivência política do rei de facto da “Casa de Salman”? (Ler mais | Read more...)

Mohammed bin Salman à chegada ao “numero 10” de Downing Street, em Londres, para uma audiência com a primeira- ministra britânica, Theresa May, em 7 de Março de 2018
© Leon Neal | Getty Images

Mohammed bin Salman chegou à cimeira do G20, em Buenos Aires, trajando um imaculado conjunto de thobe (túnica) e bisht (manto) debruado a fio de ouro.

A alvura das requintadas vestes não conseguiu, porém, branquear a reputação manchada pelo assassínio de um dos seus maiores críticos, o jornalista Jamal Khashoggi, e pelas dezenas de milhares de mortos da guerra no Iémen.

A presença do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, conhecido pelas iniciais MBS (ou MbS), na reunião que juntou as vinte maiores economias do mundo era vista como um pesadelo político, diplomático e legal.

Quem iria apertar a mão a um homem que, a qualquer momento, poderia ser detido ao abrigo da jurisdição universal, prevista na Constituição argentina, que permite prender, em qualquer parte do mundo, suspeitos de execuções extrajudiciais e crimes contra a humanidade?

O anfitrião, Maurício Macri, deixou o príncipe à espera até encontrar tempo para o receber. O americano Donald Trump, seu escudo protector, só lhe dirigiu “palavras de circunstância”. É certo que MBS trocou um efusivo e mediático “high five” com o senhor do Kremlin, Vladimir Putin. E também mereceu a atenção dos líderes da China e da Índia.

Mas Emmanuel Macron repreendeu-o em público, por “não ouvir” os seus conselhos, e a primeira-ministra britânica, Theresa May, reafirmou a exigência do presidente francês de uma investigação internacional à morte de Khashoggi, “um incidente deplorável”.

O maior embaraço estava guardado para a tradicional foto de família, com MBS ignorado e relegado para o último lugar da última fila. Terminada a cerimónia, o príncipe partiu em passo apressado, regressando à fortificada embaixada do seu país, onde se refugiara desde a chegada. Talvez com receio de que o procurador-geral argentino pudesse acionar um mandado de captura, como requerido pela organização Human Rights Watch.

O rei saudita preparou MBS desde criança para chegar ao trono. Enquanto Salman for vivo, dificilmente  o seu filho favorito será afastado da linha de sucessão
© Agence France-Presse (AFP)

MBS foi tratado como “um pária”, mais por líderes democráticos europeus sensíveis às suas opiniões públicas do que por líderes autocráticos sem escrúpulos, admite, numa entrevista telefónica, James M. Dorsey, o primeiro correspondente estrangeiro (ao serviço do Wall Street Journal) na Arábia Saudita. “E o pior está ainda para acontecer: a imposição de sanções sem precedentes, por parte dos Estados Unidos.”

Na quarta-feira, 5 de Dezembro, um projeto de resolução do Senado americano, da autoria de republicanos e democratas, elaborado após uma audiência com a chefe da CIA, acusa MBS de cumplicidade na morte de Khashoggi. Responsabiliza-o também pelas atrocidades cometidas no Iémen, exorta-o a negociar diretamente com os rebeldes Houthis para pôr fim a uma guerra invencível, apela ao fim do bloqueio ao Qatar e exige a libertação de prisioneiros políticos.

“Se o Congresso aprovar esta resolução, duramente crítica de um velho aliado, mudará a dinâmica no Médio Oriente”, acredita Dorsey, hoje senior fellow na prestigiada S. Rajaratnam School of International Studies, em Singapura.

“Trump até pode usar o seu direito de veto, mas se a resolução voltar a ter o voto favorável [da nova maioria democrata] na Câmara dos Representantes, será empurrado para uma posição defensiva. Nos bastidores, terá de forçar MBS a dar-lhe algo de tangível, talvez libertar activistas, levantar o embargo ao Qatar e facilitar progressos nas negociações de paz para o Iémen que decorrem na Suécia.”

“Será difícil a Mohammed bin Salman reabilitar a sua imagem internacional, porque as informações sobre o assassínio de Khashoggi vão continuar a aparecer, e os seus aliados na Casa Branca não mais poderão continuar a negar o envolvimento de MBS”, diz-nos, por seu turno, Kristian Ulrichsen, investigador do Médio Oriente no Baker Institute, think-tank em Houston (Texas) e autor de Insecure Gulf:. The End of Certainty and the Transition to the Post-Oil Era.

MBS tem em Donald Trump e no genro deste, Jared Kushner (à esq.), dois grandes aliados na Casa Branca: nem o assassínio de Jamal Khashoggi diminuiu o apoio do presidente dos EUA ao príncipe herdeiro saudita, que prometeu gastar milhões em armas americanas
© mintpressnews.com

Como é que o filho favorito de Salman bin Abdulaziz al-Saud se tornou, num ano, o rei de facto e como é que, num mês, deixou de ser um “reformista visionário”, louvado por tantos, para se tornar num “símbolo de tirania”, vilipendiado até pelos que antes o glorificavam?

Nascido em 31 de agosto de 1985, em Jidá, considerada a mais liberal das cidades sauditas, Mohammed bin Salman é o mais velho dos cinco filhos da terceira mulher com quem o pai se casou aos 50 anos – princesa Fahda bint Falah bin Sultan al-Hathleen.

Cada mulher tinha a sua própria mansão. Mohammed cresceu com a mãe os irmãos num palácio rodeado de muros, do tamanho de um quarteirão, no bairro de Madher, em Riade, a capital, segundo a revista The New Yorker. Na casa da família trabalhavam cerca de 50 pessoas: criados e criadas, cozinheiros, jardineiros e motoristas.

Fahda pertence à tribo beduína Ajman, hoje uma confederação espalhada por vários países árabes do Golfo Pérsico. Admirados pela bravura em batalhas contra os turcos otomanos, os Ajman uniram-se à Ikwan (Irmandade Muçulmana) e revoltaram-se em 1912 contra Abdulaziz ibn Saud. Mas o fundador da moderna Arábia Saudita derrotou-os em 1930, na decisiva Batalha de Sbillah.

“MBS odeia a maior parte dos seus primos, que troçavam dele na infância, por causa das raízes tribais da mãe, e também dos seus tiques nervosos”, revela-nos, por e-mail, Ali al-Ahmed, ativista xiita da província de Khobar que, aos 14 anos, em 1981, se tornou no mais jovem prisioneiro político da Arábia Saudita.

No entanto, se os primos o hostilizavam, os colegas na academia Al-Ryadh Schools que ele frequentava tratavam-no como “uma pessoa especial”. Aos fins-de-semana, os choferes particulares que, aos dias úteis, conduziam o príncipe às aulas, escoltavam-no até ao deserto, onde eram montadas tendas gigantes para observar as estrelas.

Nestes faustosos folguedos noturnos, os convidados declamavam poemas, venerando MBS como “Karim” (o generoso), um dos 99 nomes atribuídos pelos muçulmanos a Deus.

Se MBS é “implacável e maquiavélico”, aprendeu com o pai, também ele impiedoso, que o preparou desde criança para um dia chegar ao trono e a todos exigir lealdade
© Luca Locatelli | bloomberg.com

Depois de concluído o curso de Direito na Universidade Rei Saud, onde terá sido “o segundo melhor classificado”, Mohammed aproveitou-se do estatuto privilegiado para enriquecer. Muitos empresários abastados foram intimados a investir em várias empresas que ele criou. Em poucas semanas, refere a New Yorker, terá angariado 30 milhões de dólares.

Conta-se em Riade, apesar de desmentidos oficiais, que um dia MBS pediu a um funcionário saudita no departamento de registo de terras que o ajudasse a confiscar uma propriedade. O funcionário rejeitou.

No dia seguinte, recebeu um envelope contendo apenas uma bala. A partir daqui, o príncipe passou a ser designado por Abu Rasasa – “O pai da bala”. Ninguém poderia dizer não ao filho de Salman, que era governador de Riade (cargo que ocupou durante 48 anos).

Se MBS é “implacável e maquiavélico”, aprendeu com o pai, também ele impiedoso, que o preparou desde criança para um dia chegar ao trono e a todos exigir lealdade.

Visitantes estrangeiros recordam-se de, na década de 1990, ver um rapazinho, atento e arguto, acompanhando Salman em negociações importantes. “Ele nunca interferia, mas estava sempre vigilante, a tirar notas”, conta Joseph Westphal, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita. “Percebi de imediato que este miúdo iria ser muito mais do que um conselheiro silencioso do rei.”

Salman, hoje com 82 anos, era meio-irmão e príncipe herdeiro de Abdullah, o anterior monarca que governou entre 2005 e 2015, ambos filhos de Ibn Saud, o fundador do reino que se gabava de ter desposado “pelo menos 135 virgens”, mães de 42 rapazes e 55 raparigas.

Destes 42 rapazes, seis foram reis (Saud, Faisal, Khaled, Fahd, Abdullah e agora Salman). Mas nem sempre foram relações fraternas.

Mohammed bin Salman visita uma fábrica da Lockheed Martin Corporation, em San Francisco, EUA, no dia 6 de Abril de 2018, durante uma viagem que o levou aos principais fornecedores de armas à Arábia Saudita
© alarabiya.net

Ao contrário de Abdullah, filho de Fahda bint Asi al-Shuraim, membro da tribo Al Rashid, outrora rival da dinastia Al Saud, Salman é um dos sete filhos da influente Hussa bin Ahmed al-Sudairi (1900-1969), oitava e supostamente preferida mulher do rei fundador, descrita como “um misto de Margaret Thatcher e Madre Teresa de Calcutá”.

Além de Salman, os outros irmãos Sudairi são o rei Fahd, os príncipes herdeiros Sultan e Nayef; os vice-ministros da Defesa Turki e Abdul Rahman – já todos falecidos; e o ex-ministro do Interior Ahmed (que terá sido chamado de Londres, onde vivia, para moderar o temperamento de MBS).

“Após a morte dos quatro grandes Sudairi [Fahd, Sultan, Nayef e Turki], a geração seguinte, os netos de Ibn Saud, começaram a disputar avidamente o trono”, constata o ativista Ali Ahmed, exilado desde 1991 nos EUA, onde fundou e dirige o Institute for Gulf Affairs. “Salman queria simplificar a monarquia e dar primazia aos seus próprios filhos, um deles em particular, o mais-querido Mohammed.”

Ora, os planos de Salman colidiam, aparentemente, com os dos descendentes de Abdullah. Em Janeiro de 2015, quando Abdullah, diagnosticado no ano anterior com um cancro nos pulmões, entrou em estado de coma, parentes e conselheiros próximos não informaram imediatamente o governador de Riade e príncipe herdeiro.

Talvez na ambição de que Mutaib, filho do rei moribundo e ministro da Guarda Nacional, viesse a suceder ao pai, revela David Ignatius no diário The Washington Post.

Abdullah morreu a 23 de Janeiro, mas neste dia em que Salman o foi visitar, o chefe da casa real, Khaled al-Twaijri, conhecido como “Cardeal Richelieu” pois nada se fazia sem o seu consentimento, impediu-o de entrar no quarto, alegando que o rei estava “a descansar”.

Quando o irmão soube a verdade, ficou furioso, refere Ignatius. A partir daqui, não mais pararam os atos de vingança.

“Não há ninguém que possa competir com MBS”, diz o analista saudita Ali al-Ahmed. “Os membros mais jovens da família real “talvez ambicionem o poder, mas todos têm medo de demonstrar esse interesse e perder tudo” – a fortuna e a vida
© Luca Locatelli | bloomberg.com

No final de Janeiro, Salman afastou dois filhos de Abdullah, Turki e Mishaal, dos cargos de governador de Riade e de Meca, respectivamente. O sobrinho Mohammed bin Nayef, do clã Sudairi, foi investido como adjunto do príncipe herdeiro e antigo chefe dos serviços secretos, Muqrin bin Abdulaziz.

MBS, com apenas 29 anos, filho do novo rei e seu “conselheiro especial” desde 2009, foi designado ministro da Defesa e presidente de um novo Conselho Económico para o Desenvolvimento, responsável pelo controlo do gigante petrolífero estatal Aramco. Em Abril, o rei retirou Muqrin da linha de sucessão, trocou-o por Mohammed bin Nayef e elevou MBS a herdeiro adjunto.

Em 2017, com Trump na Casa Branca empenhado em rasgar o acordo nuclear com o Irão e em dar carta branca aos sauditas (que prometeram adquirir 110 mil milhões de dólares de armamento), Salman consolidou o poder já absoluto do filho.

A 21 de Junho, numa “usurpação de poderes”, Mohammed bin Nayef deixou de ser príncipe herdeiro, ministro do Interior, vice-primeiro-ministro e presidente do Conselho para os Assuntos Políticos e de Segurança – todas estas funções transferidas para MBS.

“Na Arábia Saudita, nada se compara à meteórica ascensão de Mohammed bin Salman”, salienta o académico Kristian Ulrichsen no instituto que deve o nome a James Baker, o antigo secretário de Estado do defunto Presidente George H. W. Bush.

“Ele eliminou todos os checks and balances informais que existiam no seio de um grupo de cinco ou seis príncipes veteranos que há décadas exerciam posições de autoridade [no ‘Conselho da Obediência’, criado pelo rei Abdullah]. Todos esses príncipes morreram, entre 2011 e 2015, o que deixou um vazio de poder rapidamente preenchido por MBS.”

“Além de ser o favorito do pai, MBS também usou a mãe para reivindicar poder, uma vez que ela era igualmente a preferida de Salman”, acrescentou Ulrichsen.

Ali al-Ahmed, o ativista xiita em Washington, sublinha que “não há ninguém que possa competir com MBS”. Os membros mais jovens da família real “talvez ambicionem o poder, mas todos têm medo de demonstrar esse interesse e perder tudo”. A fortuna e a vida.

“No passado, os monarcas sauditas governavam por consenso, mas isso mudou com MBS”, comenta Randa Slim, diretora do Programa de Resolução de Conflitos do Middle East Institute, prestigiado think-tank em Washington. “De momento, não creio que alguém na família real ouse desafiar Mohammed bin Salman. Pelo medo, ele forçou alguns a serem submissos. Com subornos, obteve a colaboração de outros.”

A invencível guerra no Iémen, com dezenas de milhares de mortos, 85 mil dos quais crianças vítimas de fome, foi iniciada por MBS assim que o pai o nomeou ministro da Defesa
© Sky News

A primeira decisão de MBS como ministro da Defesa, apoiado pelo seu “tutor”, o omnipotente príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed (MBZ), foi iniciar uma campanha de bombardeamentos aéreos no Iémen, onde rebeldes Houthis apoiados pelo Irão forçaram, em Março de 2015, a queda do presidente pró-saudita, Abdrabbuh Mansour Hadi.

Em três anos, os combates terão causado, segundo estimativas da ONU, mais de 17 mil mortos. E a pior fome no mundo nos últimos 100 anos matou mais de 85 mil crianças iemenitas, segundo a organização Save the Children.

Em Abril de 2016, MBS apresentou a sua Visão 2030, um ambicioso projeto para diversificar a economia do reino, que só exporta petróleo e gás, principal fonte de receitas, e importa tudo o que consome, incluindo água potável.

Impôs medidas de austeridade, como novos impostos e cortes nos subsídios, baixou os salários na função pública e abriu a porta à privatização da Saudi Aramco.

MBS prometeu apostar em novas tecnologias e num desenvolvimento sustentável, com energias renováveis, mas também na modernização de uma sociedade refém do rígido cânone islâmico wahhabita.

Pregando um “Islão moderado”, restringiu severamente as competências da temível polícia religiosa. Mandou encarcerar vários teólogos que seriam próximos da Irmandade Muçulmana, a confraria que os sauditas culpam pelas sublevações árabes que, em 2011, derrubaram os ditadores da Tunísia e do Egito e ameaçavam as monarquias do Golfo.

MBS deu licença às mulheres sauditas para conduzirem, mas antes de as novas regras entrarem em vigor, em Junho de 2018, mandou prender algumas das principais activistas que lutaram por esse direito, como Loujain al-Hathloul (ao centro, fila de cima) ou Eman Al-Nafjan (à esquerda, fila de cima. Algumas foram entretanto libertadas.
© aftruth.com

Em Junho de 2017, MBS e MBZ abriram, juntos, uma nova frente de hostilidades: o Qatar. Sob pretexto de que o emir Tamim bin Hamad al-Thani se estava a aproximar do inimigo Irão e patrocinava a “terrorista” Irmandade Muçulmana, Riade e Dubai cortaram relações com o vizinho e selaram as suas ligações terrestres.

Planearam até invadir Doha, a capital, alegadamente com a bênção de Jared Kushner, genro de Trump e amigo pessoal do príncipe saudita. O Pentágono travou a aventura.

Em Novembro, MBS mandou raptar e deter o primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, furioso por ele não conter a influência do movimento xiita pró-iraniano Hezbollah. Ordenou também a prisão de Mutaib, o filho de Abdullah que, supostamente, aspirava ao lugar de Salman.

Foi o início de uma saga de humilhações familiares. A Mutaib juntaram-se outros 200 príncipes, dezenas deles membros da casa real, e milionários influentes.

Acusados de corrupção, foram encarcerados no luxuoso Ritz Carlton Hotel, em Riade, as suites transformadas em celas, todos obrigados a abdicar da maior parte das fortunas. Alguns terão sido torturados. Um deles terá sido morto.

Nem a repressão interna, nem o boicote ao Qatar, nem a carnificina no Iémen, nem os avisos de agências de espionagem de que MBS é uma figura “paranóica e irascível” impediram que o príncipe fosse recebido com honras quando, em Março de 2018, visitou Washington, Londres, Paris e Madrid – os principais fornecedores de armas –, para “vender” as suas propostas de “reforma do Médio Oriente”.

Jamal Khashoggi era um dos mais importantes dissidentes sauditas. O seu assassínio no consulado saudita em Istambul, fez cair por terra a imagem de “reformista visionário” do herdeiro da “Casa de Salman”
© Emrah Gurel | AP

A “lua de mel” com o resto do mundo começou a esfriar, a partir de Maio, em vésperas de entrar em vigor a licença para as mulheres conduzirem, quando algumas das principais activistas que lutaram arduamente por este direito foram detidas. Tem havido denúncias de abusos físicos e sexuais. Uma delas terá tentado suicídio.

O divórcio está à beira de se consumar, depois do brutal assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, em 2 de Outubro, no consulado saudita em Istambul. Os investidores estão assustados. As promessas da Visão 2030 estão muito aquém das expectativas. Há descontentamento nas ruas, apesar da repressão.

Conhecedor das virtudes e vícios das várias facções da família real, ele próprio um nobre do reino, Khashoggi foi correspondente de diversos media árabes em vários países, do Afeganistão ao Sudão. Despedido do diário saudita Al Watan e banido do Twitter por condenar as prisões de dissidentes, a guerra no Iémen e o boicote ao Qatar, viu-se forçado ao exílio em Setembro de 2017.

Muito se especulou sobre as razões que, presumivelmente, levaram MBS a despachar um “esquadrão da morte” de 18 pessoas do seu círculo restrito para “torturar, matar, desmembrar e dissolver em ácido” o corpo de Khashoggi, no dia em que ele foi buscar documentos para se casar com a noiva turca.

Para alguns, os artigos de opinião publicados por Khashoggi no jornal The Washington Post tornaram-se demasiado incómodos para um príncipe que não tolera a mínima crítica. Outros adiantam agora que MBS terá ficado colérico com os planos de Khashoggi e de um outro dissidente, Omar Abdelaziz, exilado em Montreal (Canadá), para criar um movimento juvenil online, espécie de “ciber-exército” para “travar” o príncipe que muitos comparam ao iraquiano Saddam Hussein.

Mais de 400 mensagens trocadas, via WhatsApp, entre Khashoggi e Abdelaziz terão sido interceptadas, segundo a CNN, graças a um sistema de spyware desenvolvido por uma empresa de Israel, que passou a informação a MBS.

Riade fez tudo para ocultar a morte em Istambul e ilibar o filho de Salman. Em vão. Um dos comentários mais demolidores foi feito pelo senador (republicano) Lindsay Graham: “Se o Governo saudita continuar nas mãos deste homem durante muito mais tempo, será difícil fazer negócios com ele, porque creio que ele é louco, é perigoso e pôs em risco a ‘relação [especial’ com os EUA, estabelecida em 1945 entre Ibn Saud e Franklin Roosevelt].”

Mohammed bin Zayed (MBZ), o poderoso príncipe herdeiro e líder de facto dos Emirados Árabes Unidos, é o aliado estratégico de MBS contra o Irão: juntos, terão planeado invadir Doha, a capital do Qatar. O Pentágono travou a aventura
© Reuters

“O reino perde a face quando o herdeiro do trono é chamado de louco”, observa James M. Dorsey, o académico que conhece bem a Arábia Saudita, onde “quem sabe não fala e quem fala pouco sabe”.

Irá MBS dar ouvidos aos que exigem uma mudança de rumo ou manter-se-á irredutível? “É uma incógnita. Ele é impulsivo e não tem a noção dos limites do seu poder, o que é, de certo modo, um sinal de fraqueza. Temos de estar atentos ao que vai fazer MBZ, o ambicioso príncipe herdeiro dos Emirados, que tem muito a perder se as acções do seu protegido prejudicarem a aliança com a América e os interesses estratégicos – políticos, económicos e militares – que tanto quer preservar.”

Poderá MBS sobreviver politicamente sem o apoio dos EUA?   “Sim, pode, mesmo enfraquecido”, assegura Dorsey. “Mesmo que o Ocidente não lhe estenda a passadeira vermelha, ele continuará a receber convites para visitar a Rússia, a China e países árabes que arrecadam os seus dólares.”

“Enquanto Salman for vivo, não há a possibilidade de um golpe por parte de outros membros da família real”, adianta a analista Randa Slim, em Washington.

“Porque há uma convicção de longa data de qualquer oposição interna ao rei conduzirá, inevitavelmente, à queda da Casa de Saud. Se o rei morrer no próximo ano, é provável que o príncipe herdeiro venha a ser desafiado por parentes mais velhos que o querem impedir de suceder ao pai. No entanto, quanto mais tempo o rei viver e for capaz de proteger o filho, mais difícil será destronar MBS.”

© Luca Locatelli | bloomberg.com

Este artigo foi publicado originalmente no semanário EXPRESSO, edição de 15 de Dezembro 2018 | This article was originally published in the Portuguese weekly newspaper EXPRESSO, December 15, 2018 edition.

Um presidente fora-da-lei

A “guerra às drogas” de Rodrigo Duterte terá causado, em dois anos e meio, quase 20 mil mortos nas Filipinas. Não é um número que pareça incomodar os partidários do “Trump da Ásia”, populista, iliberal, violento. Que razões o levaram ao poder? E o que poderá conduzir à sua queda? (Ler mais | Read more…)

Rodrigo Duterte, um presidente a quem os críticos chamam serial killer
© Financial Times

Em 2015, mais de ¾ dos filipinos estavam satisfeitos com o modo como a democracia funcionava; havia estabilidade política e crescimento económico; a criminalidade, o tráfico e consumo de drogas não eram grande preocupação. Então, como explicar a eleição, em Maio de 2016, de Rodrigo Duterte, um “senhor da guerra” simpatizante de Hitler e saudoso do ditador Ferdinand Marcos?

“É tudo uma questão de óptica”, diz-me, em entrevista por telefone, Mark R. Thompson, director do Centro de Investigação do Sudeste Asiático na City University of Hong Kong. “Mesmo que, em termos estatísticos, os factos não apoiassem a mensagem de Duterte – a de que as Filipinas se estavam a tornar um narco-estado –, ele foi ao encontro dos medos das pessoas.”

“Havia a percepção de que [o anterior presidente] Benigno S. “Noynoy” Aquino III era incapaz de manter a lei e a ordem, perante escândalos como o da maior prisão filipina estar sob controlo de barões da droga”, acrescenta o autor de Anti-Marcos Struggle.

“Algumas sondagens indicavam que a principal preocupação dos cidadãos era o crime, não o desemprego. Ora, Duterte apresentou-se como o único capaz de resolver estes problemas. E funcionou bem a estratégia de securitização.”

“Um político para quem a ditadura não é uma coisa má apresentou um país em crise em que ele precisava de ser duro e os mauzões tinham de morrer”, tal como fez quando era presidente da Câmara de Davao, refere o cientista político Thompson.

“Num contexto de instituições fragilizadas, perante o fracasso do liberalismo reformista, Duterte aparece como salvador, não apenas para eliminar a criminalidade mas também combater a pobreza, com o argumento de que a economia floresce uma vez restauradas a disciplina e a paz. Muitos, desesperados, acreditaram nele”.

Para Walden Bello, que foi membro da Câmara dos Representantes das Filipinas de 2009 a 2015, “a principal razão para a vitória de Duterte foi a incapacidade de, nos últimos 32 anos, o sistema democrático liberal cumprir as promessas de reforma política, social e económica”.

Diz-me ele, em entrevista por e-mail: “As elites sequestraram o processo eleitoral para poderem competir entre elas e perpetuar um poder de classe, enquanto a pobreza e a desigualdade atingiam picos impressionantes.”

“A democracia tornou-se sinónimo de corrupção generalizada. Havia também uma sensação de insegurança física, sobretudo entre a classe média, o que ofereceu a Duterte um passaporte para o poder.”

Tal como Thompson, também Bello, hoje professor de professor de Sociologia na State University of New York, nos EUA, e investigador na Universidade de Quioto, no Japão, observa que, “para numerosas pessoas, só um líder autoritário poderia purificar um país que, segundo elas, se transformara num pântano de corrupção, injustiça e crime.”

Jasmine Durana, 16 anos, perdeu o marido na “guerra às drogas” de Rodrigo Duterte
© James Whitlow | pulitzercenter.org

Rodrigo “Digong” Duterte nasceu em 1945 em Maasin, em Visayas Oriental. É o filho mais velho da professora Soledad e do advogado Vicente, que foi presidente da câmara de Danao/Cebu e governador da antiga província de Davao, na ilha de Mindanao, no sul.

A violência – em casa, na escola primária jesuíta, no bairro onde se envolvia em rixas e onde aprendeu as expressões rudes que hoje polvilham os seus discursos – sempre fez parte da vida de Rodrigo, conta o irmão, Emmanuel, ao jornal The New York Times.

A mãe costumava castigá-lo com tanta frequência que “desfez o chicote com que o espancava”. Por mau comportamento, foi também expulso de dois liceus.

Em 1972, formou-se em Direito, depois de obrigado pelo pai a ser advogado para custear as despesas legais dos seus imbróglios. No último ano do curso, feriu a tiro um colega que o teria insultado. Desde os 15 anos que andava armado, segundo o irmão.

Apesar dos castigos maternos na infância, a má conduta de Rodrigo era quase sempre desvalorizada, por ele ser “o filho do governador”, admite a irmã, Jocellyn. A carreira política de Duterte começou precisamente por ele ser um privilegiado.

Em 1986, quando a mãe que participara em marchas contra Marcos foi recompensada pela sucessora do ditador, Corazon Aquino, com o cargo de vice-presidente da câmara de Davao, Soledad pediu que o posto fosse atribuído ao filho Rodrigo, já assistente do procurador. Dois anos depois, seria eleito presidente do município.

Ganhou com a promessa de combater a criminalidade. Para isso, impôs o recolher obrigatório e criou grupos de vigilantes conhecidos por “Esquadrões da Morte Duterte”, que em duas décadas mataram mais de 1400 presumíveis traficantes de droga e membros de gangues, mas também crianças de rua e jornalistas críticos.

Um funcionário de uma agência funerária cobre o corpo de um homem morto durante uma operação policial contra as drogas em Pasai City, a sul de Manila
© EPA | dailymail.co.uk

Cognominado “O Castigador”, Duterte entrou na corrida para a chefia do Estado no final de 2015 depois de inicialmente ter excluído candidatar-se. Começou por defender um governo parlamentar federal e a revitalização da indústria do aço, mas rapidamente o seu programa se centrou nas políticas que lhe deram sete mandatos e o popularizaram em Davao.

Poucos se escandalizaram quando ele jurou “exterminar todos os criminosos” ou quando jocosamente lamentou a oportunidade de não ter violado uma linda missionária australiana antes de ela ter sido assassinada.

Como 16º presidente das Filipinas, Duterte continua a não filtrar a retórica, o que levou Mark R. Thomson a chamar-lhe “o Trump da Ásia”.

Em Setembro de 2016, dois meses após tomar posse, comparou ao Holocausto a sua “guerra às drogas” que já terá causado, segundo a Human Rights Watch, cerca de 20 mil mortos. “Hitler massacrou três milhões de judeus. Aqui há três milhões de viciados em drogas. Ficarei feliz por os matar a todos.”

“A sua linguagem é grosseira, desrespeitadora dos direitos humanos, mas muitos vêem Duterte como alguém que não é hipócrita”, afirma o ex-congressista Waldo Bello.

“Ele criou uma persona de pai severo que não hesita em disciplinar os filhos extraviados, usando os meios que acha necessários. Há um termo filipino-espanhol que define bem a sua relação com o povo: “cariño brutal”.

Uma criança olha para um agente das forças especiais SWAT durante uma rusga em busca de consumidores e traficantes de droga em Manila
© Damir Sagolj | Reuters

Por que é que os filipinos que em 1986 derrubaram o tirano Marcos agora idolatram Duterte, que Waldo Bello define como “um fascista original”, por ser uma “figura carismática, com uma fervorosa base popular, estar envolvido em actos repressivos a nível nacional e ter um projecto incompatível com a democracia”?

“A revolta contra Marcos foi há trinta anos e a maioria dos filipinos, uma população muito jovem, não tem memória disso”, responde Thompson. “Até entre os mais velhos há uma certa nostalgia dos tempos da ditadura, porque Marcos construiu, por exemplo, muitas infra-estruturas, o que não mais aconteceu depois dele.”

Marcos tinha “uma personalidade muito diferente” de Duterte, especifica Thompson. “Era advogado, extremamente cauteloso e metódico. Só impôs a lei marcial quando achou oportuno. E, embora tenha assassinado milhares de pessoas, não o fez na forma extravagante de Duterte. Em vez de depender da Polícia, como Duterte, confiava no Exército.”

“Ao contrário de Marcos, Duterte visa mais os criminosos do que os inimigos políticos. Sim, vários presidentes de câmara e outros críticos internos têm sido intimidados, silenciados, presos e assassinados. Mas Marcos encarcerou milhares de opositores durante muitos anos. Era um ditador clássico, o que Duterte não é.”

Thompson, que recusa qualificar Duterte de “fascista”, porque o líder filipino “não é suficientemente ideológico e metódico” para assim ser descrito, diz que a melhor definição é a de um “populista iliberal extremamente violento, que recorre a assassínios em massa”. É, basicamente, “um senhor da guerra que governa o país, improvisando, como se ainda fosse presidente da câmara”.

Uma mulher filipina chora a morte do marido, junto de um cartaz onde se lê “Sou um drogado”. O homem foi alvejado por um atirador desconhecido, em Pasay City, a sul de Manila, a capital
© EPA | dailymail.co.uk

O que pode fazer cair Duterte, o political boss que neutralizou a oposição (os principais partidos juntaram-se a ele) mas cuja taxa de popularidade tem vindo a cair, de mais de 80% para os 65% actuais? “Creio que serão as promessas económicas não cumpridas”, diz Thompson.

“Os filipinos têm um modelo de crescimento muito limitado. Dependem de dois motores da globalização: a mão-de-obra emigrante (cerca de dez milhões de pessoas) e os trabalhadores dos call-centers. Ora, a emigração tem vindo a afrouxar e os call-centers estão a ser gradualmente substituídos por [dispositivos de] inteligência artificial. E não há outras áreas a substituí-los.”

Outra questão problemática, refere Thomson, é o investimento externo. “Há diferenças entre o que foi apregoado e o que está a ser concretizado. Os investidores ocidentais mostram-se assustados com a ‘guerra às drogas’. Também os filipinos no estrangeiro, cosmopolitas e com acesso às redes sociais, começam a perder a fé num homem que denigre a imagem do país, outrora associado à democracia e ao progresso.”

“Se vier a provar-se que Duterte é desonesto e protege os amigalhaços corruptos, todas as mortes terão sido em vão e o pêndulo a seu favor poderá recuar. Em resumo, não serão os assassínios extrajudiciais que enfraquecerão Duterte e sim a sua política económica.”

Haverá o risco de um golpe militar? O ex-parlamentar Waldo Bello está convencido que o exército não tem interesse em destituir o presidente, porque já o convenceu a afastar a extrema-esquerda do governo. O professor Thomson partilha a opinião.

“Duterte corteja os militares, ainda presos à mentalidade anticomunista da Guerra Fria, e sabe que não pode pisar as linhas vermelhas que eles definem. No entanto, se houver um grande escândalo, uma grave crise económica, não é certo que ele conserve a lealdade dos militares.”

O septuagenário Duterte admite publicamente os seus problemas de saúde. Quem poderá ocupar o seu lugar se sair de cena? Thompson desvaloriza a gravidade das “doenças prolongadas sem risco de vida” do presidente, e anota: “Não deixa de ser irónico que um tipo que comanda uma ‘guerra às drogas’ seja viciado em Fentanil [um medicamento 50 vezes mais potente do que a heroína], que matou, por dose excessiva, o artista Prince”.

Sobre eventuais sucessores, o académico em Hong Kong não exclui que Ferdinand “Bongbong” Marcos Jr., filho do deposto ditador, venha ainda a reclamar a vice-presidência que perdeu, em 2016 (numa eleição separada), para a líder da oposição Leni Robredo, ou a disputar as próximas presidenciais. “Tem uma base política e imenso dinheiro”.

Mas Thomson prefere chamar a atenção para Sara Duterte-Carpio, filha de Rodrigo e actual presidente da câmara de Davao. “Ela tem adoptado uma posição discreta, mas faz o que lhe apetece, tal como o pai, e é seguramente o poder por detrás do trono – há a possibilidade de uma sucessão dinástica.”

Duterte contra Deus

Rodrigo Duterte num encontro com o arcebispo de Davao, Romulo Valle , na igreja de São Francisco de Assis, em Davao City, 27 de Agosto de 2016
© philstar.com

O Catolicismo chegou às Filipinas em 1520 com Fernão de Magalhães. Quase 500 anos depois, a Igreja que ajudou a derrubar Ferdinand Marcos enfrenta dois grandes desafios: como combater outro ditador e manter a glória do passado numa sociedade “mais evangelizada do que catequizada”?

Patricia Fox, superiora regional da congregação Irmãs de Nossa Senhora de Sião, dedicou 27 dos seus 72 anos à defesa dos pobres e oprimidos nas Filipinas. Acusada de “envolvimento em actividades políticas ilegais”, foi detida no dia 16 de Abril.

A 3 de Novembro, foi expulsa do país, onde não mais poderá regressar como missionária. Ao chegar a Melbourne, após perder uma dura batalha judicial, a freira australiana denunciou o “reino de tirania” do presidente Rodrigo Duterte.

“Não têm o direito de me criticar”, disse Duterte, que ordenou a deportação de Patricia Fox, indignado com a presença dela num protesto contra o assassínio de agricultores, mas sobretudo por ter participado numa missão de inquérito às execuções extrajudiciais por ele ordenadas quando era presidente da câmara de Davao, na ilha de Mindanao, no sul.

A provação de Patricia Fox e a de outros membros da Igreja Católica (três sacerdotes foram mortos a tiro, em Abril e Junho deste ano, e em Dezembro de 2017) revelam bem os riscos que uma das mais influentes instituições filipinas enfrenta desde que Duterte conquistou a chefia do Estado nas eleições de Maio de 2016, mantendo uma popularidade de quase 80% apesar dos seus milhares de mortos.

O presidente, que renegou o Catolicismo e se terá aproximado de uma seita local, Iglesia ni Cristo, orgulha-se da sua linguagem obscena e ofensiva. “O vosso Deus não é o meu Deus, porque o vosso Deus é estúpido”, proclamou.

A freira Patricia Fox recebe flores à chegada à igreja do Redentor, a sul de Manila, antes da sua partida para a Austrália, depois de ter sido expulsa das Filipinas
© Bullit Marquez | Associated Press

Duterte justifica os ataques ao clero com abusos sexuais de que terá sido vítima por parte do padre americano Mark Falvey, quando frequentava o liceu Ateneo de Davao. Em 2007, a ordem dos jesuítas a que Falvey pertencia pagou 16 milhões de dólares a nove pessoas, depois de provado que o reverendo as molestou quando eram crianças, na Califórnia, para onde foi transferido e morreu em 1975.

“Como advogado e procurador, Duterte poderia ter processado o abusador”, diz-nos, por e-mail, o missionário comboniano filipino Edgardo Alfonso Vizcarra. “Não acredito que a animosidade em relação à Igreja se deva apenas a um ressentimento pessoal.”

“É também uma questão política. Porque ele sabe que a Igreja Católica é a única instituição religiosa verdadeiramente crítica. Ele sabe que numerosos fiéis ouvirão a Igreja se esta vier a apelar a uma acção de massas contra o modo como Rodrigo Duterte governa.”

“Uma colaboração vigilante não é suficiente para responder às provocações e à arrogância” do presidente, afirma o padre filipino, encorajando mais expressões de crítica. “Só orações não bastam. A Igreja deve fazer mais de modo a despertar os fiéis para o que se passa no país.”

É por a Igreja “criticar a estratégia da ‘guerra às drogas’” que Duterte a hostiliza, refere, por seu turno, o padre português António Carlos, director da revista comboniana World Mission, publicada em Manila.

“Por que não uma guerra à corrupção e à pobreza? Porquê fazer da guerra às drogas uma matança à margem da lei de pessoas a quem não foi dado o direito de se defender ou apresentar a sua versão dos factos?”

Sob a ditadura de Marcos, várias comunidades eclesiásticas foram atacadas por forças militares, os seus líderes religiosos encarcerados e até mortos. Em 1986, a Igreja filipina, dirigida pelo carismático cardeal Jaime Sin (1928-2005), foi uma peça-chave na revolução popular que acabou com 21 anos de um regime plutocrático e cruel.

Três décadas depois, como é que a hierarquia e os fiéis católicos lidam com um autocrata cujas políticas são contrárias à doutrina cristã?

Católicos filipinos em vigília de oração , depois de uma missa no Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Baclaran, cidade de Paranaque, região de Manila, 18 de Setembro de 2016
© Romeo Ranoco | Reuters

Expliquemos primeiro o Catolicismo filipino. Em 1520, ao serviço da coroa espanhola, o português Fernão de Magalhães convenceu o rei da ilha de Cebu, Rajá Humabon, e a sua mulher a converterem-se ao Cristianismo.

O navegador que deu a volta ao mundo ofereceu-lhes uma imagem do Menino Jesus e, desde 1565, que a mais antiga relíquia das Filipinas está em exposição permanente na Basílica Menor del Santo Niño de Cebu, uma devoção tão arraigada como a do Nazareno Negro ou a tradição da crucificação na Quaresma.

“Oitenta por cento dos filipinos são católicos e não apenas graças aos esforços dos missionários espanhóis”, que continuaram as suas expedições apesar de Magalhães ter sido morto por um líder rebelde na ilha de Mactan em 1521,  diz-me Jayeel Cornelio, sociólogo de religiões na Ateneo University de Manila.

“O Catolicismo tornou-se uma religião tão local que as Filipinas têm sido caracterizadas como uma nação católica, mas o que distingue o Catolicismo filipino é mesmo a sua religiosidade”, adianta o autor de Being Catholic in the Contemporary Philippines.

“Esta é uma das sociedades mais religiosas do mundo. O Catolicismo tornou-se também o identificador da nação e, para isso, foi crucial o papel que desempenhou para a restauração da democracia em 1986. A Igreja era a antítese do regime autoritário de Marcos.”

“De um ponto de vista institucional”, analisa Jayeel Cornelio, “a Igreja é totalmente una, mas de uma perspectiva sociológica, é claramente diversa, a expressão da fé moldada por condições sócio-económicas, geográficas, culturais e políticas. Ao reconhecer o carácter secular do Estado, a Igreja, através do clero e dos leigos, entrou na esfera pública como defensora, por exemplo, dos mais pobres.”

“Influenciadas pelo Concílio Vaticano II de 1961, freiras filipinas começaram a envolver-se em protestos dos marginalizados, incluindo mulheres trabalhadoras, apesar das proibições durante a lei marcial [imposta por Marcos de 1972 a 1981]. Noutros casos, a Igreja tem sido triunfalista, com uma voz privilegiada e maioritariamente masculina.”

A Igreja filipina, constata o académico em Manila, “enfrenta um dilema democrático perene: vê-se a si própria com substancial influência sobre quem legisla e sobre quem vota, ainda que esta influência esteja a diminuir, como ficou demonstrado em 2012, na aprovação da Lei para a Saúde Reprodutiva. A forte oposição da Conferência Episcopal [ao planeamento familiar e métodos contraceptivos] não teve eco entre a população.”

Apesar das “tensões, divisões e vulnerabilidades”, os templos continuam a encher-se aos domingos porque, diz Cornelio, “é preciso distinguir entre a Igreja Católica, como instituição pública, e o Catolicismo, como religião.”

“A filiação católica”, sublinha Cornelio, “permanece robusta [apesar de uma crise de vocações e de menos praticantes nas cidades, sobretudo entre os jovens, segundo o padre António Carlos]. A ascensão das mega-igrejas evangélicas e de outros grupos religiosos não parece afectar estatisticamente o número de católicos.”

“Mas a paisagem religiosa está a tornar-se competitiva. O Catolicismo romano não avançará se apenas se concentrar no seu passado glorioso. Terá de estar mais próximo das comunidades.”

Numa igreja em Manila, o bispo católico Broderick Pabillo lidera uma vigília pelas vítimas das execuções extrajudiciais ordenadas por Duterte
© Zeke Jacobs | NurPhoto | Getty Images

A opinião do comboniano Edgardo Alfonso Vizcarra não difere muito da do compatriota Cornelio. Nas Filipinas, um dos dois únicos países de maioria cristã na Ásia (o outro é Timor-Leste), “o Catolicismo é uma fé que evangelizou a maioria do povo, mas não o catequizou inteiramente para formar uma consciência católica plena”, comenta.

“Não há sequer o que possamos chamar de voz e mentalidade de voto católicos como um todo. Somos profundamente religiosos, mas só em termos de devoção e piedade.”

“Os católicos filipinos já não se limitam a sentar-se nos bancos da igreja aos domingos. A maioria procura mais. E uma maneira de procurar a renovação religiosa é ir ao encontro deles, criando um fórum onde pastores e fiéis se reúnam e debatam temas que interessem à juventude, à família, à sociedade. Temos de ouvir. A Igreja é acusada de, por vezes, não ouvir os seus fiéis.”

“A Igreja tem de desistir da tendência de ‘sacramentalizar’ tudo”, aconselha o padre Edgardo. “Coloca demasiada ênfase nos ritos e rituais. É preciso que a Igreja responda às necessidades dos pobres não apenas na sua pobreza material, mas dando-lhes poder de desenvolvimento. Finalmente, como o Papa recomenda, o clero tem de ir para as periferias. Como pastores, temos de estar onde está o rebanho e não na sacristia.”

Sara Duterte-Carpio, filha de Rodrigo Duterte e actual presidente da câmara de Davao. Ela tem adoptado uma posição discreta, mas faz o que lhe apetece, tal como o pai, e é seguramente o poder por detrás do trono – há a possibilidade de uma sucessão dinástica
© EPA | South China Morning Post

Estes dois artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Dezembro 2018 | These two articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, December 2018 edition

Espíritos inquietos no Império do Meio

Os católicos na China enfrentam vários desafios: o êxodo para as cidades que esvazia as suas comunidades rurais; mais funerais do que baptismos, políticas repressivas, a “sinização” das religiões… É para manter viva uma Igreja há tantos anos dividida que o Papa Francisco firmou um “acordo histórico” com o regime de Xi Jinping, que lhe reconhece legitimidade na nomeação de futuros bispos. A próxima etapa poderá ser uma visita oficial a Pequim. (Ler mais | Read more…)

Missa de Domingo de Ramos numa igreja “clandestina” na aldeia chinesa de Youtong, província de Shijiazhuang, em Abril de 2016
© Adam Dean | The Telegraph

Há um “renascimento religioso” na China e o Governo “está preocupado”, diz-nos o sociólogo Richard Madsen, antigo missionário Maryknoll em Taiwan, um dos maiores estudiosos da cultura chinesa. “O Cristianismo, tal como o Islão e o Budismo tibetano, são especialmente problemáticos, devido à sua aspiração à universalidade, sob um Deus cuja lei é superior à de um governante temporal, e às suas ligações internacionais.”

Autor de obras de referência, como China’s Catholics: Tragedy and Hope in an Emerging Civil Society, Madsen constata que “tem havido um esforço contínuo para reprimir o Cristianismo”, que representará cerca de 10% da população, e agora ainda mais com um “plano de sinização” imposto pelo presidente, Xi Jinping, no último congresso do Partido Comunista.

Trata-se de uma campanha para “nacionalizar” as religiões, exigindo-lhes que se adaptem às tradições chinesas. Como o Confucionismo, que o governo espera “poder vir a suplantar o Cristianismo” – porque promove a lealdade ao líder e não fornece bases morais para o criticar. Não é de estranhar, atenta Madsen, que quase 50 por cento dos dissidentes presos por defenderem direitos humanos e democráticos sejam cristãos. “Isto inquieta Xi.”

No âmbito da “sinização”, muitas igrejas não registadas (uma obrigação legal) têm sido destruídas, cruzes removidas das suas torres sineiras, imagens de Jesus substituídas por fotografias de Xi, fiéis sujeitos ao pagamento de pesadas multas ou penas de prisão, como testemunhou o jornal South China Morning Post. O regime justifica estas acções com a necessidade de garantir “harmonia social”.

Missa de Natal numa igreja católica em Xangai, em 24 de Dezembro de 2016
© Aly Song | Reuters

É muito difícil identificar o número exacto de cristãos na China. O regime estima que sejam 25 milhões, 18 milhões dos quais protestantes e 6 milhões católicos. Em 2010, o Pew Research Center contava 58 milhões de protestantes e 9 milhões de católicos. Outras fontes apontam para 100-130 milhões de protestantes e 10-12 milhões de católicos.

Segundo o Center on Religion and Chinese Society da Purdue University, em West Lafayette, Indiana, EUA, o Cristianismo é a religião que mais cresce na China “a um ritmo anual superior a 10%”, sobretudo desde há quatro décadas, depois que a “tolerância” do reformista Deng Xiaoping substituiu a era de perseguições de Mao Zedong. Mesmo que aquele ritmo abrande para 7%, “a China poderá tornar-se no maior país cristão do mundo em 2030, com 247 milhões de fiéis” – a maioria protestantes.

“Os católicos perderam, em número, a sua predominância em relação aos protestantes e este é um dos seus grandes desafios”, diz-me o historiador David E. Mungello, autor de várias obras, designadamente, The Catholic Invasion of China: Remaking Chinese Christianity.

Em 1949, havia cerca de 3,5 milhões de católicos e apenas meio milhão de protestantes. Em 2012, as duas religiões tinham crescido, mas os católicos apenas três ou quatro vezes mais, enquanto os protestantes registaram um aumento exponencial.”

Por que é que o Protestantismo, que chegou à China apenas no início do século XIX, quando Robert Morrison, da Sociedade Missionária de Londres, aportou em Macau em 1807, está a suplantar o Catolicismo com que o jesuíta Matteo Ricci (ver cronologia) cativou o imperador da dinastia Qing no século XVI?

Explica o sinólogo Mungello: “O Catolicismo é uma igreja universal com uma autoridade central em Roma, embora esteja mais ou menos dividido entre uma igreja com bispos aprovados pelo governo e uma igreja não oficial com bispos obedientes ao Papa”

“O Protestantismo tem uma autoridade decentralizada e não uma estrutura unificada, uma flexibilidade que ajudou ao seu rápido crescimento. As house-churches protestantes não oficiais são difíceis de o governo controlar.”

“Não há uma hierarquia definida, com bispos ou um papa com os quais o regime possa negociar. Isto deu liberdade às igrejas protestantes para desenvolverem espiritualidades distintas.”

As autoridades chinesas não reconhecem as “house churches” que funcionam independentes do Estado, como esta em Puyang, na província de Henan, no centro do país
© Greg Baker | AFP | Getty Images | The Washington Post

A “sinização” tem visado, particularmente, os protestantes, que a Freedom House em 2017 considerava enfrentarem “um grau mais elevado de perseguição”. No entanto, David Mungello está convencido de que o objectivo do regime é “dominar elementos rebeldes em todas as religiões, sejam católicos, protestantes ou muçulmanos uigures, sujeitos a um encarceramento em massa em campos na província de Xinjiang, no noroeste”.

A redução no número dos que se referem a Deus como Tianzhu (Senhor dos Céus) não se deve apenas ao aumento no número dos que O veneram como Shangdi (Senhor nas Alturas). Outras razões explicam que haja “mais funerais do que baptismos” entre os católicos, como observa Richard Madsen, director do Fudan-UC Center on Contemporary China, na Universidade da Califórnia, San Diego, EUA.

A grande maioria dos católicos chineses vivia em zonas rurais, pobres e isoladas. Em regiões como Xi’an, por exemplo, constituíam 90% da população. Nos últimos dois anos, um êxodo para as cidades, impulsionado pela transformação da China numa potência económica, abalou profundamente estas comunidades, que Madsen define como muito conservadoras, desconfiadas do Governo central, da modernidade e do secularismo.

A baixa natalidade causada pela política do filho único, que vigorou do fim da década de 1970 até 2015, afectou muito as famílias católicas, que transmitiam a fé de pais para filhos. A média de idades, refere Madsen, é agora de 75 anos, o que agudiza uma crise de vocações.

“Os católicos gostariam de evangelizar, atrair novos conversos, mas a repressão por parte do Governo e a divisão da igreja em uma facção ‘oficial’ [Associação Patriótica Católica Chinesa] e uma ‘clandestina’ dificultam esta missão”, salienta Madsen.

O Cristianismo é a religião que mais cresce na China, sobretudo desde há 4 décadas, depois que a “tolerância” do reformista Deng Xiaoping substituiu a era de perseguições de Mao Zedong
© Asia News

A repressão continua a ser praticada porque o Catolicismo “ainda é visto, por muitos líderes governamentais chineses, como uma religião estrangeira e invasora”, afirma David E. Mungello.  “Quando os missionários católicos chegaram à China em 1579, foram obrigados a negociar de uma posição de fraqueza com um forte Governo imperial em Pequim. Hoje, mais uma vez, a China e o seu Governo central são fortes. Xi Jinping é um líder autoritário que impõe restrições às religiões. Não se trata de uma nova tendência, mas a reafirmação do tradicional autoritarismo chinês.”

A resposta católica à repressão, sobretudo a partir de 1600, recorda Mungello, tem seguido dois padrões. “O primeiro, desenvolvido pelos jesuítas, privilegiava a acomodação, isto é, a disponibilidade para responder às exigências oficiais na esperança de melhorar a capacidade de praticar a fé. O outro padrão enfatizava o martírio, na convicção de que o sangue dos mártires seria a semente para novos cristãos e as conversões permitiriam aos católicos crescer para combater a opressão.”

“Estes dois padrões, de acomodação e martírio, ainda hoje prevalecem”, adianta o historiador americano. “Cada padrão tem os seus proponentes, mas a história não apresenta provas claras de que um seja mais eficaz do que outro, por isso, muitos católicos tentam imitar Cristo combinando os dois padrões de acção, ainda que ambos tendam a divergir.”

Uma bandeira da China é erguida por alguns dos fiéis que o Papa Francisco saúda, na Praça de São Pedro, na Cidade do Vaticano, em 2016
© AFP | South China Morning Post

Estes padrões talvez ajudem a contextualizar as reacções aos esforços do Papa Francisco para reaproximar o Vaticano e a China, de relações cortadas desde 1950. “A tentativa de diálogo dividiu ainda mais os católicos chineses, muitos dos quais consideram a Igreja ‘clandestina’ um refúgio que os protege dos lobos no Governo”, admite Mungello.

Depois de dez anos de preparação, um acordo que muitos não hesitam em considerar histórico foi anunciado a 22 de Setembro, reconhecendo a legitimidade do Vaticano na nomeação de futuros bispos da Igreja chinesa.

No dia 26, em resposta aos críticos, o Papa Francisco clarificou: “Este é um diálogo, mas será o Papa que nomeará [os bispos]. Que isto fique bem claro. (…) Penso na resistência dos católicos que sofreram. E sim, irão sofrer. Há sempre sofrimento num acordo, mas eles têm muita fé.”

No dia 16 de Outubro, dois bispos católicos chineses, Joseph Guo Jincai e John Baptist Yan Xiaoting, convidaram o Papa a visitar Pequim, depois de terem participado pela primeira vez – com permissão do regime – num sínodo no Vaticano. “Esperamos por ele”, disse Guo ao diário da Conferência Episcopal italiana, Avvenire. “A nossa presença aqui [em Roma] era considerada impossível, mas tornou-se possível.”

Uma visita papal à China terá uma grande importância, dado que não há relações formais entre o Vaticano e Pequim desde 1951. Taiwan, pressentindo que o acordo recém-firmado poderá levar ao corte de laços com Taipé, também convidou Francisco a visitar Taipé.

Joseph Zen, antigo cardeal de Hong Kong, nascido numa família católica de Xangai, acusou o Papa Francisco de “trair” os fiéis chineses
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As iniciativas do Papa deixam apreensivos muitos católicos. Um dos principais críticos tem sido Joseph Zen, antigo cardeal de Hong Kong, nascido numa família católica de Xangai, que acusou Francisco de “trair” os fiéis.

A oposição de Zen, que foi repreendido pelo Vaticano, merece a simpatia de Anthony E. Clark, professor de História Chinesa na Universidade de Whitworth University, em Spokane, Washington, e autor de China’s Saints: Catholic Martyrdom during the Qing, 1644-1911.

“Estou muito desapontado”, lamentou Clark, numa entrevista que me deu, notando que Francisco, ao assinar um acordo com Pequim, “está a seguir “um caminho muito diferente” do dos predecessores, em particular João Paulo II, que considerava os regimes comunistas uma ameaça ao mundo. “Parece-me que a Santa Sé está agir com ingenuidade e a aceitar um compromisso perigoso”.

Recém-regressado da China, Clark diz que a maioria dos católicos com quem se encontrou, embora se mostrem ansiosos por uma visita do Papa, “sentem-se confusos por Roma alinhar, aparentemente, com um governo que se tem mostrado inconsistente no tratamento dos cristãos” e que “afirma abertamente pretender eliminar a religião.”

Clark desconfia das “mensagens contraditórias” enviadas pelos líderes chineses, mas o sociólogo Richard Madsen olha para os esforços do Vaticano como “um risco que vale a pena correr”, para fazer “renascer a evangelização”, mesmo que o Partido Comunista “espere um resultado oposto”.

Para Madsen, o acordo anunciado em Setembro “foi o primeiro passo numa complicada negociação sobre as relações entre a China e o Vaticano”, numa área específica “onde convergem os interesses” de ambas as partes.

“Ao contrário das negociações que fracassaram no passado, quando se tentou resolver ao mesmo tempo um amplo pacote de questões – incluindo o reconhecimento diplomático da República Popular da China e não de Taiwan –, desta vez os negociadores concentraram-se num pacote mais pequeno – a nomeação de bispos que servem a Igreja registada oficialmente.”

Católicos na aldeia chinesa de Paowo, na província de Shaanxi, dirigem-se para o “Monte da Cruz”, um lugar sagrado construído pelo missionário Liu Jialu para ser uma réplica do Calvário
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Até agora, embora “mais de 95% dos bispos” já fossem aprovados pelo Vaticano e pelo Governo chinês, este era “um processo informal e complicado”, refere Madsen, especificando: “Um representante do Vaticano, num gabinete descaracterizado em Hong Kong, recolhia informação sobre possíveis candidatos a bispos e remetia-a ao Vaticano.”

“Havia depois discussões informais com responsáveis locais e nacionais para se chegar a um consenso sobre um candidato aceitável a ambas as partes. Havia aqui uma natureza ad hoc. A informação recolhida pelo representante do Vaticano – que não podia viajar para a China Continental – era necessariamente imperfeita.”

O acordo anunciado em Setembro, que “vai ao encontro da Lei Canónica, como a Igreja reclamava”, parece abordar também outra questão, relacionada com o estatuto de oito bispos ordenados sem autorização do Vaticano e, consequentemente, excomungados.

“A China quer que eles sejam reconhecidos e o Vaticano aceitou ‘perdoá-los’”, informa Madsen. “Suspeito que alguns deles poderão ser ‘convencidos’ a resignar. Atualmente, 100% dos bispos oficiais já são aprovados pelo Vaticano.”

O que fica por resolver, adianta o sociólogo americano, é o estatuto dos bispos da “Igreja clandestina”, aceites pelo Vaticano mas não pelo regime. “Eu pensava que este assunto ficaria encerrado, mas não. Além disso, o acordo também é ‘provisório’, ou seja, poderá ser revogado se uma das partes não gostar do rumo seguido.”

Para o historiador das relações sino-católicas David E. Mungello, o acordo “é mais uma promessa do que uma solução a longo prazo, para servir, sobretudo, os interesses das hierarquias” do Vaticano e da China.

“É uma vitória provisória das forças da acomodação a que resistirão os que se inspiram na memória dos mártires santos chineses”. Para estes, o compromisso “não vale o sacrifício dos católicos que foram presos ou perseguidos pela sua fé”

No entanto, conclui, “se a curto prazo, Xi Jinping é uma grande ameaça à Igreja Católica, vista a longo prazo, uma história de mais de quatro séculos marcada por tantos actos de devoção e milhares de mártires deixou, provavelmente, a Igreja Católica na China capaz de resistir a tudo.”

“A China reconheceu legitimidade ao Vaticano na nomeação dos bispos e isso é um progresso muito importante”

Padre Benôit Vermander, um dos mais importantes estudiosos da China, onde vive desde 1992

O padre jesuíta francês Benôit Vermander é um dos mais importantes estudiosos da China, onde vive desde 1992 e é professor de Antropologia Religiosa na Universidade (estatal) de Fudan, em Xangai. Doutorado em Ciência Política (em Yale e Paris) e em Teologia (em Taiwan, onde dirigiu o Taipei Ricci Institute), é consultor do Concelho Pontifical para o Diálogo Inter-religioso. Pintor (sob o nome artístico de Bendu), caligrafista, poeta, é autor de vários livros, como Les Jésuites et la Chine (2012), Chine brune ou Chine verte, les dilemmes de l’État-parti (2007) e Le Christ chinois, héritages et espérance (1998). Deu-me esta entrevista por e-mail:

O que é ser católico na China? Como define as relações entre as igrejas “oficial” e “clandestina”? O Catolicismo na China é ainda visto como uma religião estrangeira, uma ameaça ao Estado e ao Partido Comunista, ou já é tolerada como uma igreja “indígena”?

O actual estatuto do Catolicismo na China continua a ser, em grande medida, o de uma religião “nas margens”.

A partir do século XIX até ao êxodo em direcção às cidades no primeiro decénio do século XXI, desenvolveu-se um catolicismo dos campos, popular e rural, que manteve fortemente as suas próprias tradições.

O êxodo abalou profundamente a estrutura tradicional do catolicismo chinês, desconhecendo-se ainda se os golpes desferidos ao catolicismo rural estão a ser ou serão compensados pelo aparecimento de um novo catolicismo urbano.

Numa carta pastoral, [publicada] em Dezembro de 2007, Monsenhor Aloysius Jin Luxian, bispo de Xangai, evocava o fraco crescimento do número de católicos, comparado com o das igrejas protestantes, e discernindo as razões da ausência de espírito missionário dos leigos.

Estes olham ainda, frequentemente, para o trabalho de evangelização como sendo domínio exclusivo do clero (padres e religiosos), quando este mesmo clero, segundo o bispo de Xangai, mostra o perigo de dependência da televisão e da Internet.

A divisão entre igreja clandestina e igreja oficial não é assim tão nítida como habitualmente se diz. A oposição pode ser forte em certas províncias e mitigada noutras, e assistimos até a uma certa “divisão de trabalho” em algumas localidades.

As tradições locais, as feridas do passado, por vezes ainda não cicatrizadas, desempenham um grande papel. Não é uma questão de dogma, mas uma diferença na apreciação de oportunidades, de concessões aceitáveis ou não, que dependem em parte da atitude das autoridades locais.

A igreja oficial contará com cerca de 1900 padres, enquanto a igreja clandestina terá uns 1200. Várias estimativas apontam para um total de 10 a 12 milhões de fiéis católicos. Anthony Lam Sui-ki, [investigador] do Holy Spirit Center em Hong Kong, compilou e relacionou dados públicos com entrevistas no terreno.

A sua conclusão: em 2005, havia 12 milhões de católicos, um número que foi diminuindo ao longo dos anos e agora está em declínio. Ele estima que, actualmente, a população católica seja cerca de 10,5 milhões.

Entre 1996 e 2014, segundo os cálculos de Lam, o número de vocações masculinas passou de 2300 para 1260, enquanto o de vocações femininas caiu de 2500 para 156. O número de ordenações desceu de 134, em 2000, para 78, em 2015. Uma política nacional muito restritiva e a crise do catolicismo rural diminuirão mais acentuadamente o número de ordenações futuras.

Na edição de 3 de Março de La Civiltà Cattolica [revista jesuíta], escreveu um artigo em que aborda a campanha de “sinização” das religiões, que muitos comparam a “um esforço para reprimir o Cristianismo” na China. O que entende por “sinização” e porque apoiou este projecto?

Eu não apoiei! Escrevi claramente que os católicos na China devem evitar dois perigos. O apelo a uma “sinização religiosa” coincidiu com a aplicação de regras mais restritivas à prática da religião e, de um modo geral, com uma nova ênfase no papel dirigente do Partido [Comunista] em todos os aspectos da vida social e cultural.

Neste contexto, podemos entender que o apelo tenha enfrentado resistência por parte de muitos sectores religiosos: há perigos óbvios associados ao cumprimento cego de uma política ditada a partir de cima, que poderá conduzir a uma perda de substância na verdadeira essência da fé e identidade pessoal.

Nenhuma religião pode tornar-se mero instrumento de um aparelho político. As igrejas cristãs têm caído por vezes nesta armadilha, em contextos culturais e históricos, acabando por sofrer as consequências seja qual for a natureza do sistema político que lhes exige subserviência.

Por outras palavras, decência básica e fidelidade ao âmago das convicções pessoais têm de, necessariamente, guiar o modo como os cristãos (e provavelmente os fiéis de outras religiões) reagirão ao que as autoridades lhes exigem. Seguir de forma cega e irreflectida directrizes cujo conteúdo permanece vago é a primeira armadilha a evitar a todo o custo.

No entanto, é preciso prevenir também uma segunda armadilha: as igrejas cristãs não podem negligenciar o apelo à “sinização” só porque ele emana do governo.

É verdade que estas comunidades, porque têm de se defender contra todo o tipo de intrusões, são mais propensas a adoptar uma atitude defensiva, que impossibilita mudanças e inovações. A atitude certa, para os cristãos, é provavelmente ouvir o apelo e avaliar as mudanças, imaginárias e reais, mantendo-se conscientes dos perigos que daí possam advir.

Ainda não está claramente definido o que o governo espera que seja a acção das organizações religiosas e dos crentes. Ainda há espaço para o diálogo. As comunidades religiosas precisam de se adaptar a uma conjuntura em mudança – um contexto social urbano, muitíssimo diferente do ambiente rural em que a Igreja tradicionalmente funcionava.

A “sinização” de todas as religiões é um princípio adoptado pelo Partido [Comunista] em 2015 e solenemente reafirmado por Xi Jinping [o líder] no 22º Congresso, em Outubro de 2017. Esta política vai mais longe nas exigências e constrangimentos que impõe do que inicialmente se previa.

Em todo o caso, mesmo que esta política levante questões, é preciso ter em conta que na China tudo está sempre em evolução. Até mesmo no interior do partido começam a ouvir-se vozes para que as medidas prometidas sejam consideravelmente abrandadas ou amenizadas, porque é real o risco de ver multiplicados rancores e tensões.

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Nos últimos dois anos, o Governo chinês tem sido acusado de uma “ofensiva contra o Cristianismo”, incluindo a demolição de igrejas, por exemplo. Será que a “sinização” vai pôr fim a esta alegada perseguição?

As directivas e políticas tornam-se cada vez mais e mais rígidas. Estão a criar e criarão mais tensões. No entanto, devemos evitar uma descrição apocalíptica da realidade. A dramatização de todas as notícias que vêm da China não ajuda os cristãos chineses, que tentam “safar-se” e viver a sua fé no dia a dia.

A maioria das comunidades continua a encontrar-se e a rezar em igrejas oficiais. A situação difere de lugar para lugar, por motivos que continuam a não ser claros. Mas deve ser sublinhado que a situação actual não se compara às perseguições sofridas durante a Revolução Cultural [1966-1976].

Como avalia a importância e o impacto do recente acordo (anunciado em 22 de Setembro) entre o Vaticano e Pequim sobre a nomeação dos bispos chineses?

O acordo estabelece um mecanismo para a nomeação de bispos ‘no futuro’, o que deverá eliminar uma grande fonte de tensões no passado. Obviamente que ambas as partes querem chegar a um entendimento sobre as nomeações – e isso será posto à prova com as primeiras escolhas que forem feitas.

Ambas as partes querem também manter a possibilidade de ajustar o processo de acordo com as dificuldades que poderão vir a encontrar no caminho. O mecanismo exacto não se conhece, mas naturalmente que visa um consenso sobre os candidatos mais apropriados. Este é um mecanismo para consolidar a confiança, permitindo novas e mais profundas discussões.

Eliminar esta fonte específica de tensão (o que não significa que todas as fontes de tensão sejam eliminadas!) poderá ajudar o diálogo entre o Vaticano e a China em temas como os refugiados e o aquecimento global. Para o Vaticano, é preciso envolver a China, de uma forma activa e positiva se quisermos fazer avançar questões da governação global.

Num contexto de acrescidas limitações e tensões religiosas, este acordo é visto como um sinal de que as rígidas políticas recentemente aplicadas pelo Governo [chinês] poderão ser mitigadas e equilibradas. É claro que tudo isto precisa de ser comprovado. Ainda não foi clarificado o estatuto dos atuais bispos da Igreja clandestina.

Poderá haver um acordo não escrito, ou um entendimento, com vista a uma maior tolerância para com estes bispos por parte do Governo chinês, ou sobre a possibilidade de eles virem a integrar uma futura Conferência Episcopal unificada. Esta poderá ser a parte mais difícil do que ainda falta fazer, o que talvez explique a ênfase no facto de o acordo ser provisório.

Ainda há, pois, muito trabalho a fazer e armadilhas a evitar. Contudo, o facto de, pela primeira vez, a China reconhecer a legitimidade do Vaticano na nomeação dos bispos representa um progresso muito importante.”

O Vaticano parece centrar-se em objectivos eclesiásticos enquanto a China provavelmente ainda espera um acordo político, com o restabelecimento de relações diplomáticas, em detrimento de Taiwan. Qual a sua opinião?

A política chinesa visa simultaneamente vários objectivos, e esses objectivos podem ser contraditórios ou expressos de forma diferente por um ou outro interlocutor chinês. É preciso evitar uma percepção monolítica da China e dos seus objectivos.

Quando certos limites são ultrapassados, é preciso dizê-lo claramente e, mais uma vez, poderão surgir no futuro problemas mais graves do que os actuais. É necessário, todavia e com todo o vigor, continuar o diálogo, para dar aos católicos mais espaço na sua própria sociedade.

É preciso permanecermos lúcidos, mas não ajudaremos em nada os católicos chineses se diabolizarmos sem cessar a China, como fazem alguns media americanos, por motivos que não são apenas religiosos.

História de encontros e desencontros

O missionário jesuíta Matteo Ricci, que ofereceu ao Cristianismo “cidadania na China”, e o seu amigo e discípulo Paulo Xu Guangqi, astrónomo, matemático, alto oficial do império no final da dinastia Ming
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1294: Os primeiros missionários católicos chegam à China com o franciscano italiano Giovanni da Montecorvino (1246-1328), graças à autorização do imperador Kublai Kahn, neto de Gengis Khan, da dinastia mongol Yuan (1271-1368). O cristianismo entrara no país em 635, com a Igreja Nestoriana do Oriente, no início da dinastia Tang (618-917);

1582: Após a morte de São Francisco Xavier, às portas da China, em 1552, é Matteo Ricci (1552-1610) quem inaugura as importantes missões jesuítas no final da dinastia Ming (1368-1644). Este homem que estudou em Coimbra e, em Macau, começou por compilar o primeiro dicionário de chinês-português, já tinha aberto residências missionárias em Zhaoqing (1584), em Shaozhou (1589), em Nanchang (1595) e em Nanjing (1598), quando se instala definitivamente em Pequim, em 1601. Tem autorização do imperador Wanli que, impressionado com os seus conhecimentos de linguista, geógrafo e cartógrafo, e o esforço de conciliar o pensamento católico com o património cultural chinês, incluindo os ritos do confucionismo, lhe oferece não apenas alojamento, mas permite a evangelização e conversão das elites. Para o jesuíta Giuliano Raffo, este encontro representa “a primeira vez que o Cristianismo obtém cidadania na China”;

1656:  Luo Wenzao (posteriormente conhecido como Gregório López), torna-se o primeiro padre chinês. Embora convertido e baptizado pelo franciscano António de Santa Maria, é admitido na Ordem Dominicana em Manila (Filipinas), onde estuda e é ordenado. Em 1673, o Papa Clemente X nomeia Luo vigário apostólico de Nanjing, para suceder ao francês Ignace Catolendi. Luo recusa, mas em 1679 não pode desobedecer a um decreto do Papa Inocêncio XI. O seu superior consente, na condição de o novo bispo ser “um sábio e erudito”, aconselhado por missionários dominicanos, porque estes se opõem à tolerância por parte dos jesuítas da prática de ritos ancestrais chineses. Por não aceitar a requerida supervisão, Luo é consagrado em Cantão (Guangzhou) e não em Manila, em 1685, pelo franciscano Bernardino Della Chiesa. Tem mais de 70 anos. O segundo bispo chinês só é consagrado em 1926 – 241 anos depois;

O “édito da tolerância”, assinado em 1692 pelo imperador Kangxi (na imagem), foi
muito influenciado pelo padre jesuíta português Tomás Pereira

1692: O imperador Kangxi (1654-1722) decreta que todas as igrejas, “onde quer que se encontrem, devem ser preservadas”, e que “não haverá qualquer oposição a que os que desejem adorar a Deus entrem nesses templos”. Este “édito da tolerância” é muito influenciado pelo padre jesuíta português Tomás Pereira, que mantém uma relação privilegiada com o imperador, como conselheiro pessoal, mestre musical e emissário diplomático. É ele o tradutor nas negociações que conduzem ao primeiro tratado sino-russo, em 1689.

1704: O Papa Clemente XI interdita, formalmente, a inclusão dos ritos chineses na prática religiosa, vistos como “idolatria herética”, e o imperador Kangxi, considerando a ordem do Vaticano “uma afronta”, expulsa a delegação papal e a maioria dos missionários católicos. As perseguições aumentam, sobretudo após 1724, quando o imperador Yongzheng proíbe o oficialmente o Catolicismo. Sobrevivem comunidades católicas em zonas rurais, mas a Igreja entra em crise;

1814: O imperador Jiaqinq vai mais longe e proíbe todo o Cristianismo, condenando à morte os europeus, por proselitismo, e desterrando para regiões remotas os chineses que não revertam as conversões. Só em 1858, com o Tratado de Tianjin, é que a enfraquecida dinastia Qing volta a aceitar missionários, e o Catolicismo ressurge em força;

Chiang Kai-Chek, um cristão metodista (à esq.) estabeleceu relações entre a República da China e o Vaticano em 1942, mas, em 1951, Mao Zedong, fundador da República Popular da China (à dir.), corta os laços com a Santa Sé, desencadeando uma vaga de perseguições e repressão

1900: Cerca de 30 mil cristãos, missionários e convertidos são assassinados durante a Revolta dos Boxers como são apelidados os membros da Sociedade dos Punhos Harmoniosos, grupo que contesta o domínio estrangeiro da China;

1926: O Papa Pio XI (1867-1939) convida seis padres chineses a visitarem Roma e ordena-os bispos na Basílica de São Pedro, apesar do desacordo do episcopado missionário na China. São então criados vários vicariatos apostólicos, administrados por bispos chineses;

1942: O Vaticano estabelece relações diplomáticas com a República da China, liderada pelo cristão metodista Chiang Kai-shek, do partido nacionalista Kuomintang, que formaria um governo no exílio na ilha de Taiwan depois de derrotado na guerra civil chinesa;

1949: Em 1 de Outubro, Mao Zedong, rival comunista de Chiang, proclama a República Popular da China. Três milhões de católicos chineses e um milhão de protestantes são forçados a aceitar o novo regime, que professa o ateísmo;

1950-1955: A República Popular da China corta relações com a Santa Sé (em 1951). Missionários, padres, freiras e outros fiéis cristãos são forçados ao exílio. Muitos são presos, acusados de “sabotagem ideológica”. O Vaticano mantém relações diplomáticas com Taiwan;

Y. T. Wu (Wu Yaozong, 1893-1979), o líder protestante que, com o Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA, autogoverno, autossustentação e autopropagação), procurou “harmonizar” Cristianismo e Maoísmo

1954: Um grupo de 138 líderes protestantes chineses publica o “Manifesto Cristão”, inaugurando o Movimento Patriótico das Três Autonomias (MPTA, autogoverno, autossustentação e autopropagação). Um dos fundadores é o pastor Y. T. Wu (Wu Yaozong, 1893-1979), que procura “harmonizar” Cristianismo e Maoísmo;

1957: Criação da Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC), à semelhança do protestante MPTA. A resposta do Papa Pio XII (1876-1958) é a encíclica Ad Apostolorum Principis, publicada em 1958, com a qual condena as actividades da APCC e ordena a excomunhão dos bispos que esta escolher;

1966-1976: A Revolução Cultural de Mao intensifica a perseguição a todas as religiões. Milhares de clérigos e fiéis são presos, enviados para campos de trabalhos forçados ou executados. Igrejas são atacadas, confiscadas pelo regime e reutilizadas para fins não religiosos;

1981: Os católicos chineses são proibidos de jurar lealdade à Santa Sé, embora possam considerar o Papa “líder espiritual”, sem autoridade administrativa sobre a Igreja oficial;

Em 2017, o Vaticano estendeu a mão à China de Xi Jinping, o líder que tomou posse um dia depois da eleição de Francisco em 2013. Um acordo provisório sobre a ordenação de futuros bispos foi assinado em 22 de Setembro de 2018

1994: O Estado chinês impõe o registo obrigatório de todos os lugares de culto;

2000: O Papa João Paulo II (1920-2005) canoniza 87 mártires chineses. O regime em Pequim acusa o Vaticano de ingerência nos seus assuntos internos;

2007: Bento XVI escreve uma carta pastoral aos católicos da China, exprimindo interesse numa reaproximação a Pequim, mas as autoridades ressentem-se do facto de o Papa se dirigir aos fiéis e não directamente ao regime;

2014: A China abre, pela primeira vez, o seu espaço aéreo a um avião papal, durante a visita de Francisco à Coreia do Sul;

2017: O Vaticano estende a mão à China de Xi Jinping, o líder que tomou posse um dia depois da eleição de Francisco em 2013, procurando um acordo sobre a ordenação de futuros bispos;

2018: Todas as dioceses católicas da China recebem ordens dos bispos alinhados com o regime, para delinearem, até 2022, uma estratégia de “sinização”. O Partido Comunista Chinês e a Associação Patriótica passam a controlar não só clero e leigos, mas também documentos e interpretações históricas, teologia, doutrina social, arquitectura, arte sacra, liturgia e livros litúrgicos. Em 22 de Setembro, no dia em que a China e a Santa Sé assinaram o Acordo Provisório sobre a Nomeação dos Bispos, o Papa Francisco decidiu “readmitir na plena comunhão eclesiástica” oito bispos chineses que tinham sido ordenados “sem Mandato Pontifical”.

© Kevin Frayer | Stringer | Getty Images

Estes artigos, agora revistos e actualizados, foram publicados originalmente na revista AlÉM-MAR, edição de Novembro 2018 | These articles, now revised and updated, were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, November 2018 edition. An English summary of these articles can be read here.

Etiópia-Eritreia: A paz inesperada

Um conflito fronteiriço de duas décadas chegou ao fim em poucos dias. Que dois vizinhos deixem de ser inimigos para voltar a ser aliados muito se deve a Abiy Ahmed, o “Nelson Mandela etíope”. O fim do estado de guerra vai redesenhar o mapa geopolítico regional. A grande incógnita é saber o impacto que a reconciliação terá na “Coreia do Norte de África”, o país do tirano Isaias Afwerki. (Ler mais | Read more…)

As irmãs Azmera Addisalem e Danait Addisalem choram e abraçam o pai, o jornalista etíope Adisalem Abu, à chegada ao aeroporto internacional de Asmara, no dia 21 de Julho de 2018, o seu primeiro reencontro em 20 anos
© Maheder Haileselassie Tadese | AFP

As sangrentas batalhas corpo a corpo que a Etiópia e a Eritreia travaram entre 1998 e 2000, soldados atravessando campos minados para ataques frontais em grande escala às trincheiras inimigas, foram comparadas à I Guerra Mundial.

A súbita reconciliação, anunciada em Julho deste ano após um encontro histórico entre o novo primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, e o velho presidente eritreu, Isaias Afwerki, foi comparada à queda do Muro de Berlim – “mil vezes ampliada”.

“Há muito se dizia que a Etiópia estava a reavaliar a sua política para a Eritreia, mas a rapidez com que este processo de paz se desenrolou foi uma enorme surpresa”, diz-me, em entrevista por e-mail, Omar S. Mahmood, investigador em Adis-Abeba do Institute for Security Studies (ISS), com sede em Pretória, África do Sul.

“Milhares de pessoas saíram à rua, numa atmosfera de júbilo, impressionante depois de tantos anos de más relações. O entusiasmo imediato da população demonstra o quão impopular se havia tornado a disputa entre os dois países.”

Etíopes e eritreus lutaram juntos pela liberdade contra o ditador Mengistu Hailé Mariam em Adis-Abeba (ver cronologia), mas os rebeldes que conquistaram o poder, de um lado e do outro, não demarcaram a fronteira comum. Rapidamente começaram escaramuças junto a Badme, aldeia rochosa e poeirenta, sem recursos e com uns 50 habitantes, de valor apenas simbólico para ambos.

Isaias Afwerki reivindicou as fronteiras coloniais definidas em 1902 entre o imperador etíope Menelik I e o governo colonial italiano. Meles Zenawi, que sucedeu a Mengistu, exigiu que a fronteira fosse traçada com base no statu quo de 1993, ano da independência da Eritreia, deixando Badme na Etiópia.

Depois de um longo e mortífero conflito, Abiy Ahmed, o primeiro-ministro etíope, e Isaias Afwerk, o presidente eritreu, assinam a paz em Julho de 2018
© Al Jazeera

Em Junho de 2000, depois de quase 100 mil mortos e um milhão de deslocados, foi assinada uma trégua, que seria incorporada no Tratado de Paz de Argel, em Dezembro.

Em 2001, uma força da ONU ficou a separar os beligerantes numa zona-tampão desmilitarizada, em território eritreu. Formou-se uma comissão de arbitragem internacional para delinear a fronteira, os dois países prometendo aceitar as suas conclusões como “finais e vinculativas”.

Em Abril de 2002, quando a comissão atribuiu Badme à Eritreia, invocando os tratados coloniais de 1900, 1902 e 1908, e a lei internacional, a Etiópia recusou retirar-se do território disputado, fomentando uma situação de “nem guerra nem paz”, que se prolongou até 5 de Junho de 2018, quando Abiy Ahmed aceitou, sem condições, o que Meles Zenawi sempre rejeitou.

O analista Omar S. Mahmood não tem dúvidas de que o caminho para a paz ficou aberto “assim que mudou a liderança na Etiópia”. Abiy Ahmed ascendeu à chefia do Governo em Abril, depois de uma revolta popular contra a Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT), que tem dominado o poder desde 1991.

Os tigré são a mais pequena minoria da Etiópia (6% dos 102,4 milhões de habitantes), mas são eles, integrados na coligação Frente Democrática Revolucionária dos Povos Etíopes (FDRPE), que também inclui a Organização Democrática do Povo Oromo/ODPO e o Movimento Nacional Democrático Amhara/MDNA, que tudo controlam, das forças armadas à economia.

A FLPT é acusada de usar o seu poder desmedido para esmagar a sociedade civil, oprimir a oposição, limitar as liberdades de imprensa e de religião, e de concentrar enormes riquezas graças a corrupção e redes de tráfico de influências.

O abraço de familiares que há muito não se viam, no Aeroporto Internacional de Asmara, na Eritrea, à chegada do voo ET314 da Ethiopian Airlines, em 18 de Julho de 2018
© Tiksa Negeri | Reuters

No início de 2018, com o país à beira do colapso, os maiores e marginalizados grupos étnicos, Oromo e Amhara, bloquearam estradas, fecharam lojas e mobilizaram milhares de manifestantes em protesto contra a má governação. Com a capital a enfrentar escassez de alimentos e combustíveis, a FDRPE teve de ceder.

Abiy Ahmed foi nomeado para substituir Hailemariam Desalegn, que sucedera ao defunto Meles Zenawi, e bastaram 100 dias para que o primeiro líder nacional oromo e o mais jovem de África (42 anos), já comparado a Nelson Mandela, levasse a cabo uma transformação radical da segunda nação mais populosa de África, depois da Nigéria.

Assim que tomou posse, Abiy levantou o estado de emergência, revogou leis que permitiam às temíveis forças de segurança classificar e prender opositores como terroristas, demitiu vários responsáveis pelo aparelho militar e de espionagem (a maioria dos quais da minoria tigré) e apelou à instauração de uma democracia multipartidária – a FDRPE ocupa há 27 anos todos os lugares do Parlamento.

Também pôs fim a monopólios governamentais em diversos sectores estratégicos, como os da energia e das telecomunicações, que terão permitido o enriquecimento ilícito de muitos dirigentes da FLPT.

Esta “limpeza da casa” e a ênfase em reparar os laços com a Eritreia não estão isentos de perigos. Abiy sabe que tem inimigos. A 23 de Junho, foi alvo de uma tentativa de assassínio, quando um desconhecido lançou uma granada para a Praça Meskel, em Adis Abeba, onde discursava perante dezenas de milhares de pessoas.

“O amor vence sempre”, assegurou o sobrevivente primeiro-ministro. “Matar os outros é uma derrota. Aos que tentam dividir-nos, deixem-me dizer-vos que não sereis bem sucedidos.”

Passageiros de um voo com destino a Asmara, na Eritreia, cantam e dançam no avião
© CNN

“Numa significativa mudança de statu quo, há sempre vencedores e vencidos”, observa o investigador Omar S. Mahmood. “Certamente que há quem não esteja contente com as decisões de Abiy, mas ele pôs em marcha uma série de acontecimentos que, de momento, já parecem irreversíveis.”

“Isso viu-se na reacção de alguns políticos da região Tigré, que inicialmente se mostraram hesitantes, mas entretanto foram exprimindo apoio ao acordo com a Eritreia. Ajuda muito o facto de a vasta maioria da população ser favorável à resolução do conflito.”

Os gestos de Abiy agradaram a Isaias Afwerki, 72 anos, que embora sendo da etnia tigré, vê na FLPT um rival implacável. Os dois líderes foram acolhidos calorosamente nas respectivas capitais, depois de decisões históricas como o reatamento das ligações aéreas entre Adis-Abeba e Asmara, que permite o reencontro de famílias separadas pela guerra.

“Do lado eritreu, a grande questão que persiste é saber quais as mudanças que poderão ocorrer internamente”, refere o investigador Omar S. Mahmood.

A Eritreia, descrita como a “Coreia do Norte de África”, 5,1 milhões de habitantes governados quase como escravos sem direitos, “tem definido muitas das suas políticas em oposição à Etiópia; se a ameaça desaparecer, essas políticas deixam de fazer sentido”.

Umas das políticas é o serviço militar, obrigatório e indefinido, para defender a fronteira. Cerca de 5000 eritreus fogem por mês deste recrutamento, segundo a Amnistia Internacional. Muitos morrem no Mediterrâneo, tentando chegar à Europa.

“Até agora, não há informações de grandes mudanças” adoptadas por Isaias, constata Omar Mahmoud. “O impacto interno é o que mais curiosidade suscita. Na realidade, há poucos pormenores sobre o que se passa nos dois países.”

“De momento, estão definidas as grandes linhas-mestras de uma nova política, mas há numerosos detalhes técnicos relacionados com a fronteira, a presença militar e as relações económicas bilaterais que ainda não foram aclarados. Deverão ser mais nítidos nos próximos meses, mas não é de excluir que os que se opõem ao acordo de paz venham a mostrar-se desmancha-prazeres.”

O presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, e o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, são acolhidos, em Jidá, com todas as honras pelo Rei Salman da Arábia Saudita – país que foi fundamental para que a paz fosse assinada
© Saudi Press Agency

Positiva estará a ser a intercessão de dois países: os EUA, que financiam a Etiópia na luta antiterrorista na Somália, e os Emirados Árabes Unidos, interessados em reforçar a sua influência no Corno de África.

“Resolver o conflito entre a Etiópia e a Eritreia é benéfico para todos, porque elimina um dos grandes conflitos regionais”, salienta Omar S. Mahmood. “A hostilidade mútua não era apenas fronteiriça, mas também uma guerra por procuração usando países vizinhos.”

Um dos contenciosos tem sido a presença militar etíope na Somália, onde a Eritreia é acusada de apoiar o grupo islamista al-Shabab. O conflito também alastrou ao vizinho Djibuti, aliado de Adis-Abeba, envolvido numa guerra com Asmara pelo controlo da Ilha de Dumeira – das mais movimentadas rotas de navegação mundiais.

“Uma maior cooperação entre a Etiópia e a Eritreia ajudará a dissipar receios de que certos grupos subversivos venham a procurar futuramente refúgio na região”, afirma Mahmood. Isaias Afwerki pode, por seu turno, aspirar ao levantamento das sanções que lhe foram impostas pela ONU em 2009.

Há também incentivos económicos, destaca o investigador do ISS. Nos últimos anos, tentando contrariar a hegemonia iraniana no Golfo Pérsico, os Emirados têm vindo a fazer grandes investimentos no Corno de África e na África Oriental. À Etiópia forneceram, por exemplo, acesso aos portos que não tem.

Dançarinas tradicionais etíopes actuam numa cerimónia de boas-vindas ao Presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, no aeroporto internacional de Bole, em Adis-Abeba, 14 de Julho de 2018
© Tiksa Negeri | Reuters

O Dubai e Abu Dhabi, em particular, estão a ajudar Adis-Abeba a diminuir a sua dependência em relação ao porto do Djibouti, que representa 95% das suas importações e exportações, procurando alternativas como Port Sudan, no Sudão, Berbera, na Somalilândia (uma república de facto independente desde 1991) e Mombaça, no Quénia.

Em Julho, firmada a paz com Asmara, os Emirados anunciaram planos para construir um oleoduto ligando o porto eritreu de Assab à capital etíope.

Nascido no ocidente da Etiópia, Abiy Ahmed juntou-se à resistência contra Mengistu Hailé Mariam ainda na adolescência. Foi depois oficial nas forças armadas e fez parte dos serviços de ciber-inteligência.

Só há oito anos entrou na política, subindo rapidamente na hierarquia do partido oromo da coligação governamental. As suas reformas são celebradas com música e dança nas ruas, mas será que lhe basta carisma para continuar a reformar o país?

“Ainda que a democracia possa chegar com uma liderança benevolente, só será consolidada através de instituições democráticas”, avisa Mekonen Mengesha, professor na universidade etíope de Wolkite, citado pelo diário britânico The Guardian. “O que estamos a ver agora parece mais um culto de personalidade.”

Um outro académico, Nic Cheesman, da universidade inglesa de Birmingham, diz ao mesmo jornal: “Abiy nada fez, por enquanto, para ameaçar o regime. E até que este corra o risco de perder o poder, não sabemos o que poderá acontecer.”

Soldados eritreus de vigia numa nova linha de defesa na frente de Bure, em 30 Maio de 2000, próxima do porto de Assab, no Mar Vermelho – a fronteira foi finalmente reaberta em 2018
© Reuters

Uma vizinhança atribulada

  • 100 d.C. – século X: O território da Eritreia integra, neste período, o Império Axum (ou Aksum), dominante em vastos territórios do Corno de África e um dos primeiros reinos cristãos na região;
  • 1890: A Itália cria a sua primeira colónia na costa do Mar Vermelho e chama-lhe Eritreia, versão italianizada de uma palavra grega com o significado de “terra vermelha”. Roma usaria esta colónia como base para invadir a Etiópia seis anos depois, mas as suas tropas seriam derrotadas pelo imperador Menelik I, em Adwa – a primeira vez que um exército negro africano vence uma potência europeia. A Eritreia permanece colónia italiana durante mais quatro décadas;
  • 1941: Forças britânicas ocupam a Eritreia;
  • 1952: Uma resolução da Assembleia Geral da ONU integra a Eritreia numa federação com a Etiópia;
  • 1962: O imperador Hailé Selassié anexa a Eritreia, transformando-a numa província da Etiópia, revigorando a luta pela independência iniciada em 1958 pela Frente de Libertação Eritreia (FLE);
  • 1974: Hailé Selassié é derrubado num golpe e uma junta militar marxista-leninista, chamada Derg, liderada por Mengistu Hailé Mariam, estabelece um reino de “terror vermelho” que, nos anos 1980, usaria a fome como arma política (oito milhões de pessoas afectadas) e seria responsável por 1 milhão de mortes;
  • 1977: Começa a Guerra do Ogaden, quando a Somália invade esta região somali que os britânicos haviam integrado na Etiópia. A derrota foi evitada graças ao apoio militar da URSS, de Cuba e da RDA;
  • 1991: A Frente de Libertação do Povo Eritreu (FLPE), nascida de uma cisão na FLE em 1970 e liderada por Isaias Afwerki, conquista Asmara, capital da Eritreia, forma um governo provisório e ajuda a Frente Democrática Revolucionária dos Povos Etíopes (FDRPE), chefiada por Meles Zenawi, a derrubar Mengistu;
  • 1993: Uma maioria esmagadora de eritreus (quase 99%) vota, em referendo, a favor da independência; Isaias Afwerki é nomeado presidente;
  • 1998-2000: A disputa da povoação fronteiriça de Badme origina uma guerra total entre a Etiópia e a Eritreia que terá causado uns 100 mil mortos;
  • 2000: Assinatura de uma trégua (Junho) e de um acordo de paz (Dezembro);
  • 2002: Uma comissão internacional encarregada de definir a fronteira entrega Badme à Eritreia, mas a Etiópia continua a ocupar a povoação, gerando uma situação de “nem guerra nem paz”;
  • 2012: Morre Meles Zenawi, o aliado que se tornou inimigo da Eritreia;
  • Fevereiro 2018: Incapaz de travar uma vaga de protestos, Hailemariam Desalegn, sucessor de Meles Zenawi, demite-se para facilitar reformas;
  • Abril de 2018: O ex-oficial do Exército Abiy Ahmed é nomeado primeiro-ministro da Etiópia e estende a mão à Eritreia;
  • Em Junho de 2018, Abiy Ahmed anuncia que a Etiópia honrará os compromissos do acordo de paz de 2000 e a decisão da comissão de arbitragem de 2002;
  • Em Julho de 2018, Etiópia e Eritreia anunciam o fim do “estado de guerra”, trocam embaixadores, restabelecem as ligações aéreas.

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro de 2018 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2018 edition