Do comunismo ao capitalismo: a transformação de um “kibbutz”

Em 1916, os 12 fundadores de Kfar Gila’di, no norte de Israel, decidiram imitar o modo de vida dos árabes que os hostilizavam. Para sobreviver. Em 1993, a comunidade judaica espartana e utópica, elogiada como “a forma mais pura forma de socialismo”, teve de ser privatizada. Para não se extinguir. (Ler mais | Read more…)

Um pioneiro judeu prepara um campo para vegetais próximo do Kibbutz Urim, no deserto do Negev, Palestina do Mandato britânico. (São raras e de fraca qualidade as fotos de Kfar Gila’di, que hoje é hotel de luxo)
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Cansados do exílio e dos guetos da Europa Oriental, 12 judeus, homens e mulheres, entraram um dia na Palestina, em 1916, quando britânicos e franceses ainda partilhavam o espólio do derrotado Império Otomano.

Na Galileia, a um quilómetro de distância da fronteira do actual Líbano, ergueram um kibbutz (comunidade e cooperativa agrícola), a que chamaram Kfar Gila’di.

Assim que chegaram, os pioneiros compreenderam que só poderiam sobreviver se imitassem os vizinhos árabes. Vestiram-se como eles, aprenderam a trabalhar a terra, a irrigar o deserto, a drenar pântanos, a manejar as armas.

“O objectivo não era só imitar, mas ser melhor, para nos impormos sobre os autóctones”, conta Ayelet Shavit, neta predilecta de Shimon Zamiri, um dos primeiros kibbutzniks de Kfar Gila’di.

A maior parte dos árabes reagiu mal à chegada dos imigrantes, e muitos foram encorajados pelos sírios a hostilizar os novos habitantes.

Kfar Gila’di tornou-se numa das bases do HaShomer, antecessor do Haganah, o grupo de resistência judaica onde militaram Yitzhak Rabin e Shimon Peres – e mais tarde das actuais Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla inglesa).

Um esconderijo de armas, mantido em segredo durante muitos anos, é hoje um museu de guerra deste kibbutz, o primeiro no Norte de Israel.

Os tempos iniciais foram difíceis. Ayelet recorda que a mãe pediu como prenda do seu Bar Mitzvah, ritual hebraico da adolescência, uma fatia de pão com margarina.

O avô, Shavit, que em 1930 desertou do Exército Russo na Letónia, lembra-se das epidemias de malária, da repressão das autoridades mandatárias britânicas e dos ataques de árabes.

Crianças judias brincam no recém-construído Kibbutz Holon, perto de Telavive, em 1 de Julho de 1946, na Palestina do Mandato Britânico
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Até à guerra de 1967, quando Israel ocupou os Montes Golã, a artilharia síria no cimo do planalto costumava alvejar os trabalhadores kibbutzniks nos campos de algodão. Posteriormente, seria o movimento xiita Hezbollah a lançar rockets Katyusha das aldeias fronteiriças no Sul do Líbano.

Habituadas a correr para os abrigos subterrâneos, cinco segundos depois de accionados os alarmes, as crianças de Kfar Gila’di passaram a enfrentar estas situações com normalidade.

Um estudo de uma psicóloga verificou que não havia diferenças significativas no comportamento dos miúdos de Telavive e dos que viviam no kibbutz, mas os desenhos destes assemelhavam-se mais aos das crianças de Belfast.

Depois da hostilidade árabe, Kfar Gila’di e outros kibbutzim passaram a enfrentar outro desafio: a adaptação ao sistema capitalista de uma sociedade em tempos elogiada como “a mais pura forma de comunismo”.

Paradoxalmente, muitos pensavam que, após o colapso do socialismo estatal do Bloco de Leste, as comunas socialistas em Israel prosperassem como uma alternativa ao capitalismo. Mas não foi isso o que aconteceu. As pessoas são agora mais práticas e menos ideológicas.

Principal base de desenvolvimento e defesa do Estado de Israel, os cerca de 270 kibbutzim [estatística de 1993] foram uma importante instituição: albergavam cerca de 125 mil pessoas, ou seja, 3% da população; os homens representavam um terço dos oficiais do Exército, 20% dos deputados do Knesset e 25% do Governo.

Pioneiros judeus erguem uma vedação de arame farpado à volta do novo Kibbutz Dovrat, em 31 de Outubro de 1946, na Palestina do Mandato Britânico
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No princípio, o kibbutz era propriedade comum. Partilhava-se tudo, até a roupa interior. O kibbutznik não possuía sequer um relógio, porque não era dono do seu tempo.

Neste tipo de comunidade não havia lugar para o gosto ou estilo pessoal. Tudo pertencia ao colectivo e o colectivo pertencia a todos. A vida organizava-se na base de “a cada um consoante as suas necessidades, de cada um conforme as suas capacidades”.

Em cada kibbutz havia uma só televisão, um só jornal, um só carro. Todos comiam na cantina. Era a comunidade que decidia se um membro podia comprar uns jeans, as crianças dormiam nos infantários e aos 10 anos deixavam a casa dos pais para viverem em “centros juvenis”.

Em Kfar Gila’di, cada kibbutznik possui agora o seu aparelho de TV, tem liberdade para comprar o jornal que preferir, as crianças ficam no jardim infantil apenas das 7h às 16h e os adolescentes só deixam de morar com os pais se quiserem. Caso as refeições na cantina não agradem, há sempre a possibilidade de comer na cozinha do apartamento.

Há membros que trabalham fora da comunidade, como o pai de Ayelet, licenciado em Bioquímica. Ele ganha mais num mês do que os seus colegas kibbutzniks num ano, mas contribui com o seu salário para o bem comum.

Todos, independentemente das suas tarefas, arrumador do refeitório ou médico, recebem um mesmo orçamento mensal, que pode oscilar consoante os lucros ou prejuízos. A diferença é que cada um pode agora comprar o que quiser, sem pedir a autorização do colectivo.

Antigamente, não era permitido a um membro deixar o kibbutz, mesmo que por um período temporário. Perdia automaticamente o seu lugar. Agora tem dois anos para experimentar outro tipo de vida e será recebido como um filho pródigo se, no final, decidir regressar.

Os kibbutzim viram-se obrigados a introduzir mudanças radicais, em parte para estancar o êxodo das gerações mais novas, que não querem ver os seus horizontes limitados. A inflação e elevadas taxas de juro obrigaram, por seu turno, a uma reformulação do sistema de produção.

Pioneiros judeus e membros do Haganah – o movimento de resistência que precedeu o exército de Israel – num posto de vigilância no Kibbutz Givat Brenner, em 3 de Novembro de 1938, na Palestina do Mandato Britânico
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Em Kfar Gila’di, a pedreira, o hotel e a fábrica de aros para óculos são geridos segundo linhas capitalistas, com conselhos de administração e consultores, muitos deles recrutados fora do kibbutz.

As exportações continuam, a ritmo acelerado, para os mercados interno e externo. A comunidade chegou a comprar acções, mas não foi um bom investimento, porque um corretor ganancioso quase conduziu à falência todos os kibbutzim existentes no país.

Incapaz de imaginar outro tipo de vida, Ayelet, 26 anos, espera um dia aplicar o seu curso de Física e Biologia nos projectos agrícolas da comunidade. Por enquanto, estuda na Universidade Hebraica de Jerusalém e vai uma vez por mês ao kibbutz, para trabalhar onde a colocarem.

Nitzan Ashoach, cinco anos mais nova, não partilha do mesmo entusiasmo. Acabou de cumprir o serviço militar obrigatório. Assim que puder, diz ela, compra um bilhete para Telavive. Está cansada de viver num lugar “onde as pessoas conhecem o [nosso namorado] antes de nós” e anseia por uma vida “normal”.

[Em 2012, o diário israelita ‘Ha’aretz’, dava conta de espaços novos e mais graciosos no ‘Kibbutz’ Kfar Gila’di, depois deste ter sido privatizado, o que permitiu aos residentes “ajustarem as suas casas a seu gosto” e não se conformarem com as “regras rígidas” do passado.

Um outro projecto foi também posto em marcha, iniciativa da Sociedade para a Preservação dos Lugares Históricos de Israel: o restauro de casas quase centenárias (à base de pedra da Galileia e materiais importados do Líbano), construídas nos primórdios da comunidade.

Uma maioria de 60% dos ‘kibbutzniks’ aprovou a decisão “mas só depois de uma discussão acesa ter exposto os dilemas que a privatização coloca aos ‘kibbutzim’”. Um exemplo: “a assembleia-geral deixou de ser tão importante quanto era; poucos são os membros que comparecem.”

Desta vez, todavia, apareceram muitos para inquirirem se, depois da reabilitação arquitectónica, as propriedades se tornaram individuais ou permaneceriam colectivas. As casas, recordou o jornal, foram erigidas em 1922, seis anos após a fundação desta comuna e serão das poucas desse tempo que restam intactas.

Muitas famílias, “como os Shohat, Giladi, Zaid, Kroll e Hurvitz, sonharam que um dia seriam donos delas. Algumas alojaram “gente famosa como o escritor Haim Nahman Bialik”. Durante o debate, houve quem argumentasse que o kibbutz já havia preservado edifícios suficientes e que as casas antigas deveriam ser vendidas a particulares.

Citado pelo ‘Ha’aretz’, Amnon Levin, responsável pela preservação do Conselho Regional da Alta Galileia, qualificou a privatização como “a maior ameaça à sobrevivência dos  ‘kibbutzim’, realçando um declínio no número de imóveis restaurados entre 1992 e 2007. No final, venceram os guardiões da memória.

Começaram já as obras para transformar as casas antigas em museu de fotografia local; a oficina de artesanato; parque de diversões para crianças…. “Há coisas que não podem ser privatizadas”, observou a residente Ilana Ashuach. “Esta é a infra-estrutura da nossa história. Se abdicarmos dela, não seremos mais o ‘Kibbutz’ Kfar Gila’di, e não nos distinguiremos de outros”.

Ler mais aqui.]

Entrada de Kfar Gila’di: principal base de desenvolvimento e defesa do Estado de Israel, os cerca de 270 kibbutzim [estatística de 1993] foram uma importante instituição: albergavam cerca de 125 mil pessoas, ou seja, 3% da população; os homens representavam um terço dos oficiais do Exército, 20% dos deputados do Knesset e 25% do Governo
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 3 de Outubro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on October 3, 1993

Yeshayahu Leibowitz: “O fim da ocupação é a libertação de Israel”

Os discípulos chamam-lhe “profeta da esquerda” e a “consciência da nação”. Ele, que inventou o escandaloso conceito de “judeu-nazi” e defendeu a deserção ou a recusa do serviço militar na Cisjordânia e Gaza, foi sempre um provocador, abalando os mitos mais sagrados da sociedade. (Ler mais | Read more…)

Yeshayahu Leibowitz, editor da grande Enciclopédia Hebraica, defensor de uma separação entre religião e Estado
© LobeLog

Em Janeiro, foi atribuída a Yeshayahu Leibowitz a maior distinção nacional, o Prémio Israel, mas o coro de protestos foi tão audível que ele achou melhor recusar o galardão.*

É numa casa modesta, no bairro tipicamente judaico de Rehavia, em Jerusalém Ocidental, na Rua Ussishkin (nome de um dos primeiros sionistas a chegar a Israel) que Leibowitz mora.

A sua figura simples, enterrado no cadeirão de um minúsculo escritório repleto de livros até ao tecto, comoveu-nos. Definitivamente, a riqueza deste homem não é material.

Nascido em Riga, capital da Letónia, em 29 de Janeiro de 1903, Leibowitz partiu, em 1919, para Berlim, onde estudou Química, Medicina e Filosofia. Chegou à Palestina sob o Mandato Britânico, em 1939. Durante várias décadas foi professor de Ciência e Filosofia na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Autor de numerosas obras (destaque para Judaisme, Peuple Juif et Etat d’Israel, 1985; La Foi de Maimonide, 1992; Judaism, Human Values and the Jewish State, 1948-1988), o velho professor permanece um dos maiores pensadores do Judaísmo moderno, editor da grande Enciclopédia Hebraica, defensor de uma separação entre religião e Estado. Muitos renegaram-no como ateísta por rejeitar convenções religiosas, como as de que os judeus são “o povo escolhido por Deus”.

Fui ter com ele após a assinatura dos Acordos de Oslo, e o entusiasmo com que me recebeu, apesar da fadiga visível do seu corpo curvado, era a prova de que o facto de ter renunciado, de livre vontade, ao Prémio Israel, a mais alta distinção do país, não o tinha abalado. Era um homem habituado a gerar controvérsia e nunca se arrependia das suas palavras.

Yeshayahu Leibowitz com a mulher, Greta
© hummusforthought.com

Em Julho de 1967, um mês após a Guerra dos Seis Dias em que Israel derrotou os exércitos da Jordânia, do Egipto e da Síria, Leibowitz condenou a euforia dos compatriotas com a frontalidade que lhe era característica.

Sugeriu que o sagrado Kotel, ou Muro Ocidental, fosse designado “A Discoteca da Presença Divina”, uma expressão que, assim, “poderia agradar, simultaneamente, a laicos e a religiosos”.

A ofensa maior terá sido quando Leibowitz, depois da invasão israelita do Líbano de 1982, usou a expressão “judeus-nazis” para criticar os juízes que legitimavam o uso de tortura nos interrogatórios de prisioneiros árabes.

Advertiu também para a “fascização do Estado judaico” e, apesar de nomeado para o Prémio Israel, não se conteve e comparou aos milicianos do Hamas uma unidade de elite do Exército cujos agentes se disfarçam de árabes para se infiltrarem na Cisjordânia e Gaza, onde detêm homens, mulheres e crianças.

Perante uma subsequente vaga de insultos pessoais, o grande pensador reagiu deste modo: “Não pensei que fosse causar tantos problemas. Agora, não desejo nem quero receber [o prémio]. Já fui reconhecido e a minha honra está intacta.”

Sentados num sofá quase tão velhinho como o dono da casa, cores esbatidas e tecido rasgado de acolher numerosos visitantes (muitos deles gente que aparecia sem ser convidada só para o ouvir e se inspirar) comecei então a conversa com o professor.

A sua mulher, a sorridente Greta, foi buscar refrigerantes para todos (incluindo o fotógrafo que me acompanhava, José Manuel Ribeiro) e, poucos minutos, juntar-se-ia a nós.

Alguma vez pensou que, um dia, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat apertariam a mão, na Casa Branca ?

Bem, este foi o primeiro passo, mas um passo muito importante na direcção certa. Você vai rir-se, mas Mao Zedong disse que uma viagem de mil milhas começa sempre com um primeiro passo.

Como explica que depois de tantos anos de suspeições, e até ódio, os israelitas tivessem aceitado tão bem as negociações com a OLP, que foi um anátema para várias gerações?

O primeiro passo para a paz tinha de passar pelo reconhecimento da OLP [Organização de Libertação da Palestina].

Mas não está surpreendido por os israelitas terem aceitado tão bem todo este processo?

Fui uma das primeiras pessoas aqui, desde [a guerra de] 1967, a compreender que a única solução deste terrível conflito era o reconhecimento mútuo e a divisão deste país entre dois povos.

O Governo de Israel recusara, até agora, esta solução. O Governo de Rabin ainda não aceitou a divisão, a criação do Estado da Palestina lado a lado com o Estado de Israel.

Temos o nosso Estado e os palestinianos também o terão, mas ambas as partes vão ter de renunciar à reivindicação de um só Estado nas fronteiras de toda a Palestina histórica.

Como interpretou as mensagens de Rabin e Arafat em Washington?

Foram mensagens carregadas de promessas, mas não temos a certeza se serão cumpridas.

Numa recente entrevista, exprimiu “confiança limitada” em Rabin, que ele compreendia bem a situação, mas não tinha a coragem de um De Gaulle…

Veja, pessoalmente, eu não conheço bem Yitzhak Rabin. Não posso fazer um julgamento claro sobre a sua personalidade. Mas há duas possibilidades. Uma é a de que ele queria fazer a paz, mas a foi adiando; a segunda é a de que ele realmente sofreu uma mudança. Uma mudança radical.

Leibowitz (terceiro a contar da esquerda) com alunos em Tichon Beit Hakerem, 1947, antes da criação de Israel
© hummusforthought.com

Será que os palestinianos encontraram o De Gaulle que procuravam?

Eu não sou porta-voz dos árabes. Não tenho o conhecimento suficiente. Só posso falar pelos judeus.

Este acordo impede o desastre político, a destruição do “Estado judaico”, que o senhor previa se Israel mantivesse a ocupação dos territórios?

Agora há indicações de que Israel vá renunciar ao domínio de outro país e há uma oportunidade de paz, que durante 26 anos [até 1993] não existiu.

O Estado de Israel não duraria muito mais tempo se persistisse em manter o aparelho de dominação de outro povo.

Na verdade, este é um problema de libertação do Estado de Israel e não de libertação dos palestinianos. Libertar o Estado de Israel da tarefa maldita de dominar outro povo pela violência.

Os franceses tiveram um grande estadista, um grande patriota e um grande nacionalista: Charles De Gaulle libertou a França da Argélia. Ele não libertou a Argélia, libertou, sim, a França da Argélia.

Tal como Portugal se libertou de Angola e Moçambique. Talvez Yitzhak Rabin venha a libertar Israel da violência deste exercício de domínio violento que exerce sobre outro povo.

Será que Israel está a fazer a paz com os líderes árabes ou com o povo palestiniano?

Estamos a fazer a paz com os representantes do povo palestiniano, tal como o Governo de Israel é o representante do povo.

Há muitos radicais, judeus e palestinianos, que ameaçam este processo de paz. Quais os que mais teme?

Não receio os radicais. Eu temo os governos. O nosso governo e o potencial governo dos palestinianos.

Conhece aquela frase de São Justo, o Jacobino? “O povo só tem um inimigo perigoso: é o seu governo”. Os governos de Israel e da OLP têm de chegar a um acordo para a divisão [do território].

© The Daily Beast

Então quer dizer que não teme uma situação em que judeus lutarão contra judeus?

Por que devemos considerar uma guerra civil pior do que uma guerra entre nações? Os verdadeiros pacifistas estão contra qualquer guerra. Não há justificação para qualquer guerra.

A direita israelita exige eleições, alegando que não pode haver paz com os árabes se os judeus não estiverem em paz com eles próprios. Qual é a sua opinião?

Tolice. Temos conflitos internos muito profundos, mas são independentes da guerra ou da paz com os árabes. São assuntos que apenas dizem respeito aos judeus.

Os conflitos internos são um enorme fenómeno na História da humanidade. Pergunte a uma criança americana qual foi o acontecimento mais importante na breve história dos Estados Unidos, e a sua resposta imediata será: a guerra civil de 1861 -1865.

Uma guerra em que 600 mil americanos morreram a lutar contra americanos, mas foi esta guerra que estabeleceu a democracia e aboliu a escravatura.

A parte mais complexa deste compromisso histórico parece ser o estatuto de Jerusalém, cidade reclamada como capital por dois povos…

É prematuro delinear os pormenores de uma divisão, mas creio que, provavelmente, até Jerusalém terá de ser dividida. Provavelmente.

O governo israelita não cairá se ousar propor a divisão da cidade, que considerou “una e indivisível”?

Se o governo quer mesmo a paz entre os dois povos, a condição para a paz é a divisão de Jerusalém.

Para o senhor não é um problema?

Problema? Mas nós queremos paz entre dois povos ou queremos uma guerra permanente entre nós? Não tem sentido uma guerra para manter o nosso domínio sobre outro povo.

É difícil, depois de já termos falado com tantos israelitas, imaginar como podem eles aceitar a divisão de Jerusalém.

Ninguém imaginaria, há um ano, que o Governo de Israel reconheceria a OLP como único representante do povo palestiniano e, no entanto, assim aconteceu.

Será fácil aos israelitas viver lado a lado com um Estado palestiniano?

Claro que não! Na nossa vida privada somos obrigados a aceitar tantas coisas difíceis. A paz é possível sem amizade, sem amor. Mas sem tiros!

© cdn.classiccinemas.com.au

[* Em Abril de 2013, o Conselho Municipal de Jerusalém autorizou que a cidade tivesse uma rua com o nome de Yeshayahu Leibowitz. A proposta tinha sido apresentada há quase uma década mas, ao tomar conhecimento que o rabi Ovadia Yossef, líder espiritual do partido ultra-ortodoxo Shas, tinha sido criticado no passado pelo grande intelectual que iria ser homenageado, o presidente da Câmara, Nir Barkat, andou aos ziguezagues, ora dizendo que sim ora que não. Desta vez, a polémica favoreceu Leibowitz – há uma placa com o seu nome perto do ‘campus’ da Universidade Hebraica. (…)

(…) Após a morte de Yeshayahu Leibowitz, o Canal 8 da televisão israelita emitiu um documentário sobre a sua vida. A introdução à segunda das três partes do programa começa com uma carta que Leibowitz endereçou a outro judeu, também nascido em Riga, Isaiah Berlin (1909-1997).

Para este filósofo britânico, inimigo de nacionalismos e totalitarismos, Israel “não é um processo metafísico, uma luz entre as nações; é um Estado e não uma causa”, como disse ao seu biógrafo Michael Ignatieff.

Na carta a Berlim, escreveu Leibowitz:.

Sinto que pensas que sou uma espécie de intelectual liberal ou talvez um pacifista. De modo algum. Não sou nada disso. Eu acredito em guerras, se elas forem absolutamente necessárias. As minhas razões para estar em Israel são muito simples.

Na minha opinião, é aqui que Deus deseja que estejamos, e eu queria ser cidadão de um Estado judaico, e democrático, de preferência. E mesmo, lamentavelmente, não democrático, se a maioria assim quisesse.

O que eu não quero é viver num Estado que governa e oprime os árabes. Para mim, isto é imperialismo e é hediondo. Aceitem-se as minorias e não se permita que sejam maltratadas e desprezadas e odiadas da maneira como nós odiamos os árabes, e eles nos odeiam.

© The Times of Israel

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 18 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 18, 1993

Anatomia de um aperto de mão

Psicólogos israelitas não têm dúvidas: Em Washington, Rabin e Arafat foram obrigados a cumprimentar-se. Não há comparação com o entusiasmo visível e palpável quando Begin e Sadat se abraçaram, em Camp David, em 1979. (Ler mais | Read more…)

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A linguagem corporal de Yasser Arafat “era a de alguém que procura o reconhecimento e uma resposta”, enquanto o comportamento de Yitzhak Rabin mostrava que ele “não queria reconhecer” o chefe da OLP “mas não tinha alternativa.

Foi este o comentário do psicólogo israelita Michael Yarosky, convidado pelo jornal The Jerusalem Post, a avaliar os gestos dos principais signatários dos Acordos de Oslo [em Setembro de 1993].

“Rabin parecia devastado, como se quisesse fugir dali”, observou, por seu turno, a psicóloga Susan Kutz, de Telavive.

O seu colega Miki Hauser concordou: “Rabin estava muito hirto e tenso, de punhos cerrados, movimentando-se para trás e para a frente. Esta é uma forma de autoprotecção muito própria de crianças autistas.”

Rabin só se sentiu verdadeiramente descontraído depois do aperto de mão, quando teve a certeza de que não teria de suportar um abraço de Arafat. Só então se permitiu um sorriso, notaram os psicólogos.

Arafat, pelo contrário, esteve sempre alegre durante a cerimónia. Olhou insistentemente para Bill Clinton, como que para ter a certeza de que estava mesmo ao lado do Presidente dos Estados Unidos. “A sua postura era a de um vencedor, e tem muto significado o facto de ter sido ele a tomar a iniciativa do aperto de mão”, referiu Hauser.

Quanto a Clinton, os psicólogos constataram que ele “desempenhou muito bem o papel de mediador”, ao puxar Rabin para o seu lado, de modo a que o líder israelita não se afastasse de Arafat, que se mantinha “grudado” ao fato do Presidente.

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Rabin, Clinton e Arafat, em Washington: Um aperto de mão forçado

A única espontaneidade nesta cerimónia coreografada foi quando Clinton, Rabin e Arafat receberam T-shirts dos participantes num programa juvenil israelo-palestiniano.

Como que sincronizados, os três homens colocaram as camisolas à frente do peito e sorriram para as câmaras. Entre os jovens do programa Seeds for Peace (Sementes para a Paz), encontrava-se um israelita que perdeu o pai num ataque de guerrilheiros palestinianos e um palestiniano a quem o Exército israelita matou um tio.

Para alguns analistas políticos israelitas, embora Arafat se tivesse destacado pela iniciativa do aperto de mão, foi Rabin quem fez o discurso mais brilhante: “breve, simples, poético e magnânimo”.

À euforia, Rabin preferiu “um misto de esperança e apreensão”. Definiu bem o contexto da cerimónia: a esperança do fim do conflito mais do que uma harmonia total.

Depois de ler uma passagem bíblica do Eclesiástico, “Para tudo há uma estação” – tempo para a guerra, tempo para a paz –, o líder israelita, que ameaçou, enquanto ministro da Defesa, “partir os ossos” das crianças na  Intifada [1987-1994], pediu aos palestinianos que rezassem todos os dias pelo dia do adeus às armas.”

O discurso de Arafat “foi conciliatório, mas menos visionários”, segundo comentadores israelitas. Evitou remexer no passado e falou dos Acordos de Oslo como um passo para a recuperação de todos os direitos palestinianos.

Pela primeira vez, o líder histórico da OLP falou da independência palestiniana não em termos absolutos, mas “compatíveis com os temores” de Israel: “O nosso povo não considera que o exercício do direito de autodeterminação deva violar os direitos dos seus vizinhos ou infringir a segurança deles.”

Arafat discursou em árabe, para que os palestinianos espalhados pelo mundo ouvissem falar de conciliação e não de confrontação. Mas o mais significativo foi a sua mão estendida a Rabin e a ao ministro dos Negócios Estrangeiros Shimon Peres.

O seu gesto, os israelitas nunca o ousaram fazer.

Egyptian President Anwar Sadat, left, and Israeli Prime Minister Menachem Begin, embrace as President Jimmy Carter looks on during a White House announcement of a Middle East peace agreement reached at the Camp David Summit in this September 18, 1978 file photo. @AP Photo)

O egípcio Anwar el-Sadat (de costas) e o israelita Menachem Begin abraçam-se perante o olhar feliz do Presidente dos EUA Jimmy Carter, no final da cimeira de Camp David, em 18 de Setembro de 1978. O entusiasmo aqui foi visivelmente maior do que quando Rabin e Arafat apertaram as mãos, em Setembro de 1993, em Washington
© Associated Press 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 15 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 15, 1993

Kfar Gil’adi está cansado da guerra

O dia de assinatura de um acordo com os palestinianos, em Washington, foi vivido com emoção num kibbutz pioneiro no Norte de Israel. Há dúvidas no horizonte, mas também a certeza de que se “pode viver em paz com os vizinhos” (Ler mais | Read more…)

Festa num kibbutz (não identificado) em Julho de 1951, três anos após a criação de Israel
© Wikimedia Commons | Jacobin

No kibbutz de Kfar Gil’adi, uma pequena comunidade judaica encravada entre o Líbano e a Síria, um pioneiro idoso mas robusto aguardava [a 13 de Setembro de 1993], com o coração palpitante, a assinatura de um acordo entre israelitas e palestinianos.

É que, pela primeira vez desde 1930, quando fugiu ao Exército Russo na Letónia e entrou na “Terra Prometida”, Shimon Zamiri sente que “é possível a coexistência com os vizinhos árabes”.

“Não há alternativa à paz; temos de arriscar e não podemos voltar atrás”, sussurrou Zamiri, com a mão direita batendo no peito e um enorme sorriso a iluminar as rugas de 80 anos de vida.

Funcionário dedicado da lavandaria colectiva, este kibbutznik ainda se lembra do dia em que recebeu um certificado do Movimento Juvenil Judaico para se instalar na Palestina do Mandato Britânico.

Não podia viajar sozinho e então arranjaram-lhe uma mulher a quem ele se apresentou: “Olhe, não nos conhecemos, mas disseram-me que sou seu marido.” Partiram os dois juntos e quando chegaram à Galileia, pela Síria colonial francesa, disseram adeus e nunca mais se viram.

Zamiri foi viver para Kfar Gil’adi, o primeiro kibbutz no Norte de Israel, uma das bases do HaShomer, antecessor do grupo de resistência judaica Haganah. Foram tempos conturbados, de luta constante contra um calor sufocante, uma epidemia de malária, a hostilidade dos aldeões árabes e a repressão das autoridades britânicas.

Trabalhadoras de um kibbutz (não identificado). Longe vão os tempos em que estas comunidades judaicas era consideradascomo "exemplo de socialismo perfeito": hoje estão transformadas em hotéis de luxo e/ou centros industriais. @Naftali Oppenheim Collection, Yad Itzhak Ben-Zvi Photo Archive

Trabalhadoras de um kibbutz (não identificado) em Israel. Longe vão os tempos em que estas comunidades judaicas era consideradas como “exemplo de socialismo perfeito”: hoje estão transformadas em hotéis de luxo e/ou centros industriais
© Naftali Oppenheim Collection | Yad Itzhak Ben-Zvi Photo Archive

É com os braços estendidos até ao infinito que Zamiri traduz a sua alegria pela criação do Estado de Israel, em 1948. Ele tinha 37 anos, uma idade que não era propícia para combater, mas não se envergonha da tarefa de que foi incumbido – a protecção do “equipamento” do kibbutz: os burros, os cavalos e um tractor.

Depois de tantos anos de guerras e animosidades, Zamiri teve de ver para acreditar o aperto de mão entre Yitzhak Rabin e o chefe da OLP. “Se fizemos a paz com Yasser Arafat também faremos com os outros líderes árabes.”

Ayelet Shavit, a neta de 26 anos de Zamiri, interrompe: “O problema é se vamos fazer a paz com os líderes e não com o povo. O que acontecerá, por exemplo, se o presidente Hafez al-Assad morrer de um ataque cardíaco depois de assinar um acordo? Os sírios continuarão a obedecer-lhe?”

[Assad morreu em 2002 sem assinar um acordo com Israel, por não aceitar ficar sem os recursos de água do Mar da Galileia/Lago de Tiberíades, mesmo recuperando os Montes Golã. Ao homem conhecido “Esfinge de Damasco” sucedeu o seu filho Bashar, envolvido numa sangrenta guerra civil desde 2011].

Nascida e criada no kibbutz, estudante de Filosofia e Biologia em Jerusalém, casada com um militar, Ayelet está 100% ao lado de Rabin. Votante no Partido Trabalhista, ela crê ser necessário dar uma oportunidade à paz, mesmo à custa de “dolorosas concessões” territoriais. “Temos vivido sempre num ambiente hostil”, explica.

“Mantemos alguns laços de amizade com aldeões vizinhos, mas tudo se passa a nível individual. Aprendi a manejar uma arma aos 13 anos e vivo sob tensão permanente.”

Crianças aprendem carpintaria no Kibbutz Givat Brenner, Israel, por volta de 1950
© Getty Images | dw.com

Ainda há dois meses [Julho de 1993], rockets Katyusha disparados pelo Hezbollah, a partir de aldeias xiitas no Sul do Líbano [que esteve sob ocupação israelita desde 1984 até 2000] caíram bem junto do jardim infantil onde Ayelet trabalha no intervalo do seu curso universitário.

Anteriormente, era a artilharia síria nos Golã, a Leste, que fustigava os trabalhadores nos campos de algodão. Israel conquistou aquele planalto na guerra de 1967 e anexou-o em 1981. Devolveu apenas, sob pressão dos EUA, a cidade de Quneitra, que os sírios não reconstruíram depois da guerra de Outubro (ou do Yom Kippur) de 1973.

Os kibbutzniks já se habituaram a ter um máximo de cinco segundos para correr até aos abrigos subterrâneos assim que as sirenes são accionadas. Falam disso sem complexos. “É capaz de ser mais arriscado viver em Nova Iorque ou Telavive”, diz Ayelet. “Aqui [em Kfar Gila’di] nunca fecho a porta à chave e posso sair à rua às 0h400 da madrugada sem ser molestada.”

No entanto, a entrada do kibbutz parece um posto militar, cercado por uma rede electrificada. Se a paz acontecer, não terão dificuldade em adaptar-se a uma vida “normal”?

“Oh não!”, assegura a neta de Zamiri. “Estamos ansiosos por manter relações de boa vizinhança. O volume de negócios da pedreira e da fábrica para óculos aumentou recentemente, na perspectiva de um cooperação económica com os libaneses e os sírios.”

Ao contrário dos colonos na Cisjordânia, Ayeket não tem problemas ideológicos ou religiosos. Para ela, a terra não é sagrada. “Adoro passear de bicicleta pelos riachos nos Montes Golã, mas não me importo se, para lá voltar, de uma retirada israelita, tiver de pedir um visto à Síria.”

Kibbutz Kfar Gila’di: Casa de repouso da comunidade, Março de 1946
© Zoltan Kluger | Wikimedia Commnons

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 14 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 13, 1993

Jerusalém: Os nervos à flor da pele

Uma manifestação a favor da paz no sector oriental da cidade, conquistado por Israel na guerra de 1967, terminou em violência. Pedras de um lado, balas de borracha e gás lacrimogéneo, do outro. Não foi um incidente excessivamente grave. Mas é premonitório dos perigos de um caminho sinuoso. (Ler mais | Read more…)

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Jerusalém Leste parecia um campo de batalha, evocativo dos primeiros confrontos da Intifada [1987-1994]: civis palestinianos a lançarem pedras e soldados israelitas a disparar cartuchos de pólvora seca, granadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha.

Tudo começou com uma manifestação a favor da paz, e ninguém sabe como acabou num acto de violência. Era quase meio-dia, quando dezenas de jovens palestinianos se concentraram na Rua Salah-e-Din [Saladino], em resposta a um convite dos seus líderes para declararem apoio a Yasser Arafat.

Quase simultaneamente, apareceu um jipe com soldados que, com altifalantes, tentou ordenar o tráfego, já caótico, empurrando os transeuntes para os passeios.

De repente, no mesmo momento em que balões coloridos e pombas brancas se cruzavam no céu límpido da “Cidade Santa”, um grupo de rapazes começou a cantar e a gritar, no tejadilho de um carro: “Abu Ammar, Abu Ammar” (referência ao nome de guerra de Arafat); e “Fatah, Fatah” (a maior facção da OLP).

Das janelas de hotéis, turistas tiravam fotografias. Nas lojas, comerciantes interrompiam os seus negócios.

Num abrir e fechar de olhos, erguida por quatro rapazes numa frenética correria, apareceu uma primeira bandeira palestiniana, no meio da multidão. À passagem do largo pano vermelho, verde, preto e branco, os soldados permaneceram imóveis, sem obstruir o caminho – um deles até perdeu a boina.

Depois, à medida que a manifestação ganhava novos adeptos, apareceram outras bandeiras, entoaram-se outros hinos, exibiram-se fotografias de Arafat.

© ibtimes.co.uk

Da Orient House, uma mansão da família Husseini que serve de sede à delegação de negociadores palestinianos, saiu outra bandeira, ainda maior. Nesta altura, porém, já tinham entrado em cena agentes da temível Polícia de Fronteiras (Border Police) de Israel.

Primeiro, eles usaram bastões para admoestar os manifestantes; em seguida, perante o desafio contínuo dos jovens, dispararam para o ar cartuchos de pólvora seca. Centenas de pessoas enchiam a rua. Ninguém se mostrava amedrontado.

O cortejo seguiu então até à Porta de Damasco, em cuja muralha foi hasteada uma grande bandeira. Os palestinianos aclamaram, mais uma vez, Abu Ammar, a Fatah e também Abu Jihad, o comandante militar da OLP que transformou a Intifada de uma sublevação popular espontânea numa revolta organizada. Foi assassinado em Tunes por um dissidente da organização.

No regresso à Rua Salah-e-Din, tudo se precipitou. Junto à Porta de Herodes, soldados viram-se cercados pela multidão e começaram a lançar granadas de gás lacrimogéneo.

Em poucos segundos, a rua encheu-se de fumo e transformou-se num palco de confrontos, com jovens a lançar pedras e forças de segurança a disparar balas de borracha.

Centenas de pessoas começaram a correr, em busca de abrigo, procurando proteger-se do gás, que irrita os olhos e a boca, e das espingardas, que disparavam em todas as direcções. Registaram-se várias detenções e um número não determinado de feridos.

Pouco mais de uma hora após ter começado, a manifestação chegou ao fim, dispersa por um enorme contingente de polícias e militares.

© Ha’aretz

Jerusalém é uma cidade verdadeiramente estranha. Enquanto ao cimo da rua soldados e civis se digladiavam, a meio da mesma rua, num carro enfeitado com fitas de várias cores, uma noiva palestiniana aguardava, pacientemente, que as barricadas fossem levantadas para se poder casar num hotel nas redondezas.

Ninguém conseguia entender o que correu mal. Uns culparam os manifestantes de terem cercado os soldados que, em pânico, se viram obrigados a disparar para o ar.

Outros acusaram colonos judeus, hostis aos Acordos de Oslo, de terem começado a atirar pedras do cimo das muralhas da Cidade Velha, para provocar os militar e fazê-los cair na tentação de usar armas.

Os nervos estão à flor da pele em Jerusalém. Mas também em Ramallah, na Cisjordânia, onde duas manifestações, uma a favor e outra contra o acordo com  OLP, degeneraram em confrontos violentos com o Exército, daí resultando dois mortos e vários feridos.

Disse o pai de um rapaz que perdeu a vida: “O meu filho foi a primeira vítima da paz de Arafat”.

 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 12 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 13, 1993

Rabin e Peres: A reconciliação dos siameses

Yitzhak Rabin reconciliou-se com dois adversários políticos: o palestiniano Yasser Arafat e o israelita Yitzhak Rabin. (Ler mais | Read more…)

Na cerimónia de reconhecimento da OLP, Yitzhak Rabin, antigo general que conquistou os territórios árabes na guerra de 1967 agradeceu, com emoção contida, ao seu eterno rival, o “ministro dos Negócios Estrangeiros, Shimon Peres”, os esforços para que ambos fizessem História no Médio Oriente.

Em retribuição, Peres convidou os mediadores noruegueses, que nos últimos meses trabalharam com ele em segredo, a levantarem-se das suas cadeiras, numa sala repleta de máquinas fotográficas e câmaras de televisão, para felicitar o “primeiro-ministro de Israel”.

Foi Peres quem forçou e conduziu os contactos secretos com a Organização de Libertação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat, permitindo a assinatura dos Acordos de Oslo, o compromisso provavelmente mais importante desde o tratado de paz firmado entre Israel e o Egipto em 1979.

Rabin e Peres são dois septuagenários, discípulos dos “pais da nação”, David Ben-Gurion e Golda Meir. Ninguém sabe bem quando começaram a detestar-se, mas rapidamente ganharam a alcunha de “irmãos siameses unidos pelo traseiro”.

Yitzhak e Shimon conheceram-se no Haganah, um dos exércitos clandestinos que os judeus criaram para combater o Mandato Britânico na Palestina. Desde logo revelaram a sua vocação: Rabin soldado e homem de acção; Peres político e homem de pensamento.

Enquanto Peres lia Marx no seu kibbutz na Galileia, Rabin tornava-se, aos 23 anos, o comandante mais jovem do Palmach, batalhão de elite da resistência judaica.

Em 1948, quando Israel foi criado, Peres foi encarregado por Ben-Gurion de adquirir material militar para defender o novo Estado dos exércitos árabes. Teria sido nessa altura, segundo o jornalista francês Patrice Claude, que ele começou a gostar de missões secretas.

Foi graças à diplomacia clandestina de Peres que Israel se dotou de indústrias aeronáutica, electrónica e nuclear. Foi com as armas de Peres que Rabin lutou contra os árabes e com as “armas” de Peres se prepara para fazer a paz.

Em 1974, quando abandonou a chefia do Governo, Golda Meir escolheu Rabin como sucessor, mas foi um posto fugaz, abalado por um escândalo político.

No final de 1976, a coligação governamental que incluía partidos religiosos foi alvo de uma moção de censura, por parte do  Agudat Yisrael (União de Israel) por o primeiro-ministro ter “violado o Shabat”: a chegada a uma base aérea de quatro caças F-15, fornecidos pelos EUA.

O Mafdal (Partido Religioso Nacional) absteve-se na votação e Rabin dissolveu a aliança no poder, convocando eleições para Maio de 1977.  

Peres, o apparathick, que aguardava a sua vez e não perdoou ter sido ultrapassado pelo novato Rabin, ascendeu então à liderança do Partido Trabalhista. A partir de 1977 [quando o Likud, de Menachem Begin chegou ao poder, no que constituiu um verdadeiro “terramoto político”], porém, os herdeiros dos fundadores do Estado de Israel nunca mais ganharam eleições.

Conscientes de que só um “duro” poderia pôr fim a 15 anos de coligações de direita, o Labor afastou o “moderado” Peres da direcção do partido, abrindo caminho à vitória de Rabin nas eleições legislativas de Junho de 1992. Foi um verdadeiro choque para Shimon.

Logo após a sua eleição, Rabin assumiu os cargos de primeiro-ministro e titular da Defesa, e ainda a pasta das negociações bilaterais com os árabes. Subalternizando o seu rival, deixou Peres como chefe da diplomacia e responsável pelo dossier das multilaterais, ou como um embaixador ironizou, “a cooperação económica no ano 2000”.

 

Em todo o caso, Rabin prometeu um acordo com os palestinianos, “num prazo de seis a nove meses”, segundo regras estabelecidas na Conferência de Paz de Madrid, em Outubro de 1991.

Peres sabia que isso era impraticável, porque Yitzhak Shamir, o anterior primeiro-ministro, do Likud, tinha imposto aquelas regras “para chegar a lado nenhum”. O diplomata incansável chegou então à conclusão de que era necessário negociar “com o diabo de kaffiyeh”.

Discretamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros foi reatando contactos antigos e, graças a três amigos judeus norte-americanos, entrou em contacto com responsáveis da OLP, no final de 1992.

Seis meses depois de tomar posse, Rabin reconheceu que não estava a cumprir as promessas que fizera ao eleitorado. As negociações com os palestinianos “bons” dos territórios ocupados atingiram um impasse, porque eles não tinham autoridade. Viu-se forçado a admitir que era melhor dialogar com os “maus” da OLP.

Inicialmente desconfiado dos contactos secretos de Peres, Rabin acabou por lhe dar luz verde: “Estou de acordo, mas proceda cautelosamente”.

De Janeiro a Maio de 1993, Peres fez numerosas viagens e manteve Rabin sempre informado da evolução dos acontecimentos. Os colaboradores de ambos comentavam, atónitos, quando os viam reunidos: “Provavelmente querem insultar-se em privado.”

O protagonismo de Peres assustou Arafat que, antes de se comprometer, procurou averiguar se Rabin estava a par da situação. Este, por seu turno, investigou também, para saber se os homens que negociavam com o seu ministro tinham carta branca de Arafat.

Dadas as garantias, ambas as partes se precipitaram para o epílogo que ontem [10 de Setembro de 1993] aconteceu.

Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat receberam em 1994 o prémio Nobel da Paz pelos Acordos de Oslo, assinado no ano anterior

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 11 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 11, 1993

Viagem virtual à “Terra Prometida”

Israel e a OLP assinaram o reconhecimento mútuo nos Acordos de Oslo. Se Yasser Arafat regressar à pátria, que caminhos irá percorrer? Este é um exercício de ficção. (Ler mais |Read more…)

Yasser Arafat no regresso a casa, na Faixa de Gaza, em 1994
© Middle East Eye

Há muitos, muitos anos, na Palestina, ele rapou o bigode, pediu emprestada a mulher e o filho de um amigo e, assim disfarçado,  passou, despercebido, por entre a coluna militar que o tentava  capturar.

Agora, sem mudar a sua imagem de marca – com o seu  inseparável kaffiyeh e a barba desalinhada – Yasser Arafat regressa  à Terra Prometida. E os soldados israelitas, na Ponte Allenby,  reconhecem-no e deixam-no passar, sem ser perseguido, revistado,  detido.

O líder da OLP pode considerar-se um privilegiado. Oito quilómetros  adiante, na cidade de Jericó – onde esta viagem começa – pode ver  dezenas de palestinianos concentrados numa área militar, penosamente  à espera de uma autorização para atravessar a pequena ponte que une  as duas margens do Rio Jordão. E todos são revistados.

Mesmo em frente ao posto do Exército, Arafat avista a residência que  lhe foi reservada. É a última casa antes da fronteira com a Jordânia  e foi escolhida sobretudo pelo seu local estratégico em termos de  segurança.

Na cidade mais baixa do mundo (cerca de 300 metros abaixo  do nível do mar), o “Palácio” do Presidente da Palestina está situado  no ponto mais alto.

A primeira paragem não será, porém, em casa, mas no campo de Aqabat  Jaber, onde permanecem cinco mil dos 60 mil refugiados da guerra de  1948. Os outros fugiram para o vizinho reino hashemita, depois da guerra de 1967, mas não perderam o estatuto de desalojados.

Os refugiados de 1948, que Arafat usou como principal base de apoio em  quase 30 anos de luta da OLP – eles eram a espinha na garganta de  Israel – são hoje a sua grande dor de cabeça, porque se recusam a  aceitar uma solução de autonomia que nega o direito de retorno.

Campo de refugiados palestinianos de Aqabat Jaber, na Jordânia
© zochrot.org

Um guia perspicaz levará o líder palestiniano à casa de Fátima, uma  velhinha de 70 anos, duas vezes refugiada, que perdeu dois filhos em  combates com os israelitas, na Batalha de Karameh e na Intifada. Ficará desiludido se vier em busca de apoio, porque esta mulher de olhos tristes não esquece as humilhações.

“Em 1948, os israelitas demoliram a minha casa, em Mansoura, próximo  de Ramla [que hoje faz parte do Estado de Israel]; em 1967,  destruíram o meu refúgio no campo de Al Jiftlik. Os meus filhos foram  obrigados a trabalhar nos colonatos judeus e dois tornaram-se  mártires. Paguei um preço muito elevado. Não quero nada de especial  de Arafat. Só quero saber o que ele andou a negociar. O que nos vai acontecer? Ele era um bom líder. Agora já não sei!”.

Uma canção que os meninos aprendem na escola diz que Palestina e tragédia são almas gémeas. Na casa de Fatima, as moscas, os gatos e os humanos partilham o mesmo espaço. Os excrementos dos animais misturam-se com os pepinos e os malmequeres.

Vai ser preciso muito para convencer os refugiados a aceitar “Gaza e Jericó primeiro“. Até porque, explicou Fatima, “mesmo que deixemos a terra, a terra nunca nos deixará”.

Soldados israelitas travam uma manifestação contra a ocupação em Al-Agvar, conhecida como “Aldeia de Arafat”, na região de jericó, na Cisjordânia
© Issam Rimawi | Anadolu Agency | Middle East Monitor

Mas deixemos os caminhos poeirentos e putrefactos do campo para ir à sede do município de Jericó. Será que Arafat vai falar com o presidente da Câmara, Jamil Khalaf, um palestiniano nomeado pela administração militar israelita, que recusou obedecer às ordens da liderança da Intifada? Bem, seria um sinal de reconciliação.

Do centro da cidade, excepcionalmente calmo mesmo em efervescentes dias de mercado, é obrigatória a passagem pela avenida de palmeiras e buganvílias, onde os restaurantes turísticos renovam as fachadas à espera de novos clientes. Estes saudarão Arafat sem reservas.

Na mesma rua, o antigo e decadente Palácio de Inverno, dos reis  jordanos Abdullah I e Hussein, – paredes decrépitas repletas de graffiti, janelas partidas e portas semi-abertas presas com  cadeados – aguarda restauração, por trás de um muro de arame farpado.

Com Arafat nas redondezas, as elites árabes poderão retomar os velhos  hábitos de passar férias em Jericó, como faziam antes da ocupação em  1967.

Depois deste passeio, Arafat pode então descansar na sua casa junto à fronteira, com vista para o Mar Morto, o Rio Jordão e os montes onde monges e eremitas procuraram abrigo ao longo dos séculos.

É difícil imaginar como é que um homem que nunca passou duas noites seguidas no mesmo sítio, por razões de segurança, se poderá habituar a dormir numa cama branca, de madeira lacada com flores cor-de-rosa e azuis, em lençóis de linho e uma brilhante colcha de chintz.

Umas tâmaras para adoçar a boca e um café com forte sabor a cárdamo retemperam as forças e, antes de retomar a viagem, Arafat pode subir ao sótão, estender o tapete e rezar, virado para Meca.

Vai precisar de toda a ajuda divina, porque do paraíso de Jericó – onde, diz a Bíblia, Jesus Cristo resistiu às tentações do demónio e curou o cego à beira do caminho – está prestes a partir para o purgatório de Hebron e para o inferno da Faixa de Gaza.

Os Acordos de Oslo não suspenderam, pelo contrário aceleraram, a expansão dos colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada, como o de Ma’ale Adumin (na foto)
© Mamoun Wazwazi

Logo à saída da cidade, ergue-se o imponente colonato judaico de Ma’ale Adumin, uma espécie de fortaleza no caminho de Jerusalém.

Nas imediações, as povoações árabes da Cisjordânia ocupada contrastam pela sua degradação. Se for dia de o cobrador de impostos passar, os portões de ferro das lojas estarão seguramente trancados a sete chaves.

A Cidade Santa, por dois povos reclamada como capital, está vedada,  por enquanto, ao Presidente da OLP. Por isso, em direcção a Hebron, terá de percorrer uma perigosa estrada secundária.

Quando chegar a Belém, poderá saborear uma sanduíche de hummus no redondo e macio pão árabe, conversar com o seu amigo Elias Freij, o velho presidente do município, um cristão que sempre defendeu a coexistência, e olhar o artesanato local em madeira de oliveira.

Em Beit Sahour, verá o monte onde, acreditam os cristãos, a estrela apareceu aos pastores indicando-lhes o caminho do presépio.

A atmosfera torna-se mais tensa à medida que se avança para Hebron, uma das mais antigas cidades do mundo, venerada por judeus e muçulmanos.

Na parte velha, palestinianos e colonos cruzam-se com olhares de desprezo mútuo, nenhum deles abdicando do direito à terra do seu antepassado comum, Abraão – o pai de Isaac e Ismael.

Os colonatos, no centro e arredores, assinalados com a bandeira da Estrela de David e protegidos por militares e civis armados, afrontam os palestinianos.

Na Mesquita de Abraão (Haram al-Khalil), um santuário onde também os judeus prestam homenagem à família do Patriarca, militares vigiam no cimo de torres todos os movimentos dos transeuntes.

Hebron está a tornar-se num bastião de muçulmanos fundamentalistas. Raras são as mulheres que não cobrem a cabeça com um lenço, e é total a obediência às greves decretadas pelo Hamas, acrónimo árabe de Movimento de Resistência Islâmica.

Atef, professor de Física, não gosta da opção “Gaza-Jericó”, porque ela é limitada e não resolve o seu maior problema: “os colonos, que são piores do que os soldados”.

“Arafat vai parar aqui, sim, mas não será bem-vindo”.

A primeira Intifada em Hebron, na Cisjordânia ocupada, uma das mais antigas cidades do mundo, venerada por judeus e muçulmanos
© Middle East Eye

Noutra parte da cidade, pela mesma estrada que conduz ao colonato de Kiryat Arba, os palestinianos construíram casas novas, preservando ao mesmo tempo as habitações herdadas da família na zona velha.

Em duas destas casas, no meio de hortas e pomares, vive Zuhdi, pai de três filhos, um dos palestinianos que há cinco meses está impossibilitado de entrar em Israel, desde que os territórios ocupados foram encerrados.

Sem o seu emprego de mecânico, em Jerusalém Oriental, ele vive da generosidade dos quatro irmãos. O seu cunhado, de 37 anos, é um dos deportados no Líbano – deixou sete filhos, o mais novo com sete meses, quando foi preso por pertencer a uma associação islâmica próxima do Hamas.

À sombra das frondosas videiras dos irmãos de Zuhdi, Arafat poderia beber um chá de hortelã-pimenta e dormir uma sesta, mas na casa do desempregado e do deportado não há lugar para o líder da OLP.

“Não fomos nós quem o escolheu como presidente. Foi-nos imposto. Se ele vier e me pedir, não lhe negarei um copo de água. Mais do que isso não farei”.

Os vinhedos de Hebron e a Cisjordânia ficam para trás e agora Arafat tem que seguir por território israelita, passando por Beersheba, no deserto do Negev, até Gaza.

No futuro, um corredor terá ligar os dois territórios para que possam formar uma “entidade palestiniana” – uma ponte, uma estrada, mas mais provavelmente um túnel subterrâneo.

Durante o percurso, se tiver dúvidas, pode pedir informações aos soldados à beira do caminho. De preferência em hebraico.

Tal como aconteceu na Ponte Allenby, também no checkpoint de Nahal Oz, os militares não deverão molestar o velho do kaffiyeh, Abu Ammar de seu nome de guerra.

Mas, atenção! Ele não deve entrar num carro de matrícula amarela (exclusiva dos israelitas e habitantes de Jerusalém), porque se arrisca a receber uma chuva de pedras como primeira saudação.

O que até é divertido, se as pedras não partirem o pára-brisas e o carro não se despistar, porque ir a Gaza e não ser apedrejado é quase como ir a Roma e não ver o Papa.

Deve acelerar, então, até ao clube de vídeo mais próximo, sobrepor cartões com os números de matrícula sobre a chapa amarela e colocar um lenço palestiniano num dos espelhos retrovisores laterais.

Campo de refugiados de Jabalya, na Faixa de Gaza, onde começou a primeira Intifada em 1987, o ano em que Israel permitiu a criação do movimento islâmico Hamas, do Xeque Yassin, como contrapeso à secular Fatah-OLP, de Yasser Arafat
© UNRWA

É claro que Arafat é inconfundível, mas Gaza já se tornou um território hostil para o líder da OLP, um campo de batalha entre os seus partidários e fanáticos no Hamas.

No clube de vídeo, Abu Ammar encontra um excelente guia que o conduzirá aos lugares certos. Chama-se Arafat, 18 anos, à espera de uma bolsa do Estado para se formar em Engenharia numa universidade alemã.

Arafat júnior é leal a Arafat senior e, por causa dele, passou alguns anos na prisão. Defende a opção “Gaza-Jericó” e explica porquê: “Devemos aceitar o que nos dão agora e depois voltar para pedir mais”. Foi assim que os judeus construíram o seu Estado.

Na Cidade de Gaza, onde existem 15 cemitérios, a primeira paragem só podia ser na campa do primeiro mártir da Intifada. Os que morreram na revolta das pedras ocupam quase 90 por cento do espaço fúnebre.

Na casa de um outro mártir – activista do grupo de choque da Fatah, cujas fotografias com uma metralhadora na mão e uma granada na boca ocupam lugar de destaque -, a mãe espera que Arafat não tenha desperdiçado vidas em vão. “Lutámos por um Estado independente e nada menos do que isso!”.

Uns metros adiante e eis o que resta de uma casa demolida, onde continuam a viver 72 pessoas de uma mesma família. Cinco irmãos estão na cadeia – um deles condenado a prisão perpétua porque matou suspeitos colaboracionistas (um drama quotidiano em Gaza).

No campo de refugiados de Jabalya, onde começou a Intifada, em 1987-88, as crianças, descalças e andrajosas, não têm bonecas nem carrinhos para brincar. Remexem no lixo e passeiam pelos esgotos a céu aberto.

Assustadas, muitas choram compulsivamente na presença de estranhos, julgando tratar-se de soldados que não precisam de convite para invadir as suas casas.

Outras, mais aguerridas, o mesmo ar de absoluta pobreza, exibem pistolas de brinquedo e gritam Iz ad-Din al-Qassam, nome de um lendário combatente palestiniano e também do braço armado do Hamas.

A Faixa de Gaza é considerada o lugar mais densamente povoado do mundo – 300 quilómetros quadrados para 800 mil pessoas [em 1993], 500 mil das quais refugiados. Quando visitar Gaza é bom que Arafat leve alguns milhões de dólares para construir escolas, fábricas e clínicas.

No único hospital existente, Al-Shifa, as ratazanas passeiam-se entre as pernas dos médicos e doentes. Muitos milhões serão também necessários para transformar a praia mediterrânica, agora uma vasta lixeira, num porto de águas profundas e fazer de Gaza uma nova Singapura, como sonham os investidores palestinianos.

Arafat, o guia, diz que toda a Faixa de Gaza está reservada para Arafat, o líder. Mas o abrigo de que todos falam é a residência do antigo governador egípcio, ocupada por militares israelitas.

Naquela mansão, junto à fronteira, o Presidente da Palestina pode, finalmente, saborear uma salada de frutas, com as especialidades das três cidades por onde passou: as bananas de Jericó, as uvas de Hebron e as laranjas de Gaza.

Percorridos mais de 200 quilómetros, terá começado uma nova era para os palestinianos. Será que depois da Thawra (revolução) e da Intifada (sublevação), chegou o dia de Salam (paz)?

@AP Photo/Nasser Ishtayeh)

© Nasser Ishtayeh | AP

Este artigo, agora actualizado foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 9 Setembro de 1993 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 9, 1993 

Celebrar a ilusão de paz

Uma multidão estimada em 150 mil pessoas concentrou-se na Praça dos Reis, em Telavive, para dizer sim a um acordo com a OLP, de Yasser Arafat. Foi uma grande festa, numa altura em que a direita israelita parece retroceder. (Ler mais | Read more…)

Yitzhak Rabin, o primeiro-ministro israelita que reconheceu a OLP e seria assassinado por um colono judeu extremista
© The New Yorker

As luzes e as câmaras de televisão estavam ligadas e apontavam para uma enorme barriga redonda. Um autocolante estrategicamente colado no lugar do umbigo proclamava: “A paz é maior do que os [Montes] Golã”.

Rachel escolheu o seu ventre dilatado por uma gravidez de nove meses para transmitir uma mensagem de paz a todos os que acorreram à Praça dos Reis, em Telavive, num sábado à noite [4 de Setembro de 1993]. Foi uma manifestação de apoio a um acordo com os palestinianos convocada por partidos do Governo e grupos pacifistas.

Com Rachel, outros israelitas inventaram mil e uma maneiras de exprimir os seus sentimentos. Uma jovem cobriu a cabeça com um kaffiyeh, o lenço tradicional palestiniano, e enrolou o corpo numa bandeira de Israel. Velhos hippies e novos punks exibiam símbolos da paz.

Os cartazes estavam em todo o lado. Em inglês, em hebraico, em árabe. Colados nas paredes; presos entre os dedos. “Paz agora”, “Sim à paz”, “Israel quer a paz”, “A paz é a nossa segurança”. Gritos de Shalom, Shalom (Paz, Paz) ecoavam pelas ruas.

“Não tenham medo”, implorou uma cantora. “Temos o direito de ser felizes”, proclamou um ministro. “Este [os Acordos de Oslo assinados por Israel e a OLP em 1993] é um compromisso histórico; não é o fim do caminho mas apenas o princípio”, declarou um poeta.

Discursos, músicas, aplausos. O hino de Israel entoado quase num murmúrio. Sorrisos, lágrimas, beijos e abraços. “Sente a emoção? Isto é comovente”, exclamou Ora, uma israelita que fez questão de viajar do deserto do Negev, no Sul, até Telavive.

Shimon Peres e Yitzhak Rabin, artífices dos Acordos de Oslo
© thetimes.co.uk

Num lago onde se reflectiam os holofotes da Praça do Município, um pequeno grupo de opositores de Oslo tentou estragar a festa. A Polícia interveio, os ânimos acalmaram e, minutos depois, jovens de todas as idades mergulhavam, agitando o corpo ao ritmo dos artistas que actuavam no placo.

Sob um céu estrelado, mas com algumas nuvens  – a combinar como momento que se vive – até soldados cantavam e dançavam. Desajeitadamente, que as botas são grossas e as metralhadoras pesadas.

Rotham Denom, um garoto de 15 anos, justifica a presença de tanta gente nova: “Os jovens que são inteligentes querem a paz.” Rudi Shapiro, amigo de Denom, três anos mais velho, que percorreu 200 quilómetros desde Carmel, na fronteira com o Líbano, é da opinião que os palestinianos devem ter o seu próprio Estado.

“Sou a favor de dois países, o grande problema é Jerusalém”, disse o jovem. “Gostava que a paz acontecesse antes de 1996, para que a direita demagoga não ganhasse as eleições.”

Com Great Balls of Fire, como banda sonora, um velho êxito de Jerry Lee Lewis, interpretado pelo cantor rebelde Aviv Gefen, o jovem Shapiro explicou-nos como vai evitar cumprir o serviço militar obrigatório nos territórios ocupados: “Vou alistar-me na Marinha, porque os marinheiros não matam palestinianos.”

Analistas políticos israelitas não interpretam esta manifestação, organizada pelo Partido Trabalhista, pelo Meretz, pelo movimento Peace Now (Paz Agora) e por outros grupos de esquerda como um teste à popularidade do Governo.

Se fosse assim, o número de manifestantes, estimado em 150 mil, teria sido muito reduzido (a praça tinha capacidade para uns 400 mil).

Todos concordam, porém, que foi a primeira grande manifestação. Emocionante e comovente. Há uma década que não se via nada igual.

Por enquanto, os israelitas pensam que a direita ainda não é uma ameaça. Quando for, a “maioria silenciosa” que não esteve em Telavive encherá as ruas, acreditam. Só os kibbutzim serão capazes de mobilizar milhares de pessoas.

Manifestação do Peace Now em Telavive, um movimento criado em 1984, depois de Israel invadir o Líbano, para erradicar a OLP, e que muito contribuiu para que Shimon Peres e Yitzhak Rabin iniciassem um diálogo com os palestinianos
© peacenow.org.il

As declarações de apoio dos Estados Unidos são lidas em Israel como um sinal a todos os judeus de que devem abençoar a paz com os palestinianos. Estes, por seu turno, receberam a solidariedade sem reservas do rei Hussein da Jordânia [que só em 1988 abdicou do direito de soberania sobre a Cisjordânia sob ocupação israelita].

Se houvesse eleições amanhã, Yitzhak Rabin ganharia sem dificuldades. Até porque há eleitores do Likud que estão dispostos a dar uma oportunidade à paz.

Para já, terá de começar por cativar os mizrahim, judeus originários do Médio Oriente e também da Península Ibérica [estes conhecidos como sefarditas], os grandes ausentes da manifestação de sábado, onde predominaram os ashkenazim (oriundos da Europa), a classe média e os jovens. Não que os mizrahim recusem a paz, só que parecem não estar ainda preparados para ela.

Aos que temem correr riscos, o escritor Amos Oz enviou um recado: “Se o acordo agora concluído com os palestinianos falhar, será sempre mais fácil, nesta fase, se Israel, poderoso militarmente, esmagar a espinha dorsal de uma entidade palestiniana e desmilitarizada do que continuar a quebrar os ossos de crianças palestinianas de 8 anos que lançam pedras (…).”

“Não há compromissos doces. Cada compromisso significa renúncia de sonhos, anseios e aspirações. Mas só um fanático pode considerar um compromisso mais amargo do que a morte.”

Shulamit Aloni: “A direita está frustrada”

Shulamit Aloni, líder do Meretz, e Yitzhak Rabin, o primeiro-ministro trabalhista que, em 1993, assinou os Acordos de Oslo
© Los Angeles Times

O cansaço era visível no rosto enrugado de Shulamit Aloni, mas os seus olhos brilhavam de emoção. Com voz firme e as mãos trémulas, declarou: “A direita é uma minoria e está frustrada; a maioria em Israel somos nós, os que estamos a favor da paz.”

Terceira figura mais importante do Governo, a seguir a Yitzhak Rabin e a Shimon Peres, Shulamit Aloni falou comigo, por breves instantes , depois de um vigoroso discurso em defesa da “boa vizinhança com os árabes”, na Praça dos Reis, em Telavive.

“Esta foi a primeira manifestação de apoio ao Governo e de apoio à paz”, disse a líder do Meretz, uma aliança de esquerda, que, durante anos na oposição, sempre defendeu a criação de um Estado palestiniano. Ela não poupou os adversários: “Querem atear um incêndio, mas nós somos mais e não vamos deixar”, frisou a ministra da Cultura, Ciência e Tecnologia.

Uma das figuras políticas que participou nas negociações secretas que conduziram ao acordo d reconhecimento mútuo Israel-OLP, Shulamit Aloni está tão confiante que se dá ao luxo de subestimar o Likud e outros partidos oposicionistas.

Em Telavive, a activista que os amigos tratavam por Shula mostrou, uma vez mais, como gosta de quebrar tabus, de provocar. Afinal, ela até sente orgulho em ser apelidada de “terror dos ultra-ortodoxos”.

As suas declarações, em defesa dos direitos das mulheres ou dos homossexuais, por exemplo, e que os judeus mais religiosos consideram ofensivas, já por várias vezes ameaçaram de morte a coligação liderada por Yitzhak Rabin.

© Ha’aretz

Estes dois artigos, agora revistos e actualizados, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO em 6 de Setembro de 1993  | These two articles, now revised and updated, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 6, 1993 

Refugees: The camps of Palestine

Most Palestinians living in the camps of Baqa’a, in Jordan, and Jaramana, in Syria, share the experience of being twice refugees, from the Israeli-Arab wars of 1948 and 1967. Everyone longs to return to their homeland. (Read more…)

Jaramana Refugee Camp is 8km from Damascus on the road to the city International Airport. The camp was established in 1948 on an area of 0.03 square kilometres. In 1967, Palestinians who had taken refuge in the Golan Heights and were displaced as a result of the 1967 Arab-Israeli war moved into the camp. Before the civil war in Syria in 2011, the camp had more than 18,658 registered refugees, according to United Nations Relief and Works Agency (UNRWA)
© konflictcam.com

Ilham, 10-year-old, tries to explain me the abstract idea of what she calls her homeland: “My father says Palestine is a very beautiful place, much nicer than the camp”.

Living in Jaramana, a camp sheltering more than 8,000 refugees (official numbers), 10 kilometres southeast of Damascus, Syria, Ilham has the same expressive eyes of other Palestinian children, whether they live in Qalandiya camp in Jerusalem or in Jabalya camp in the Gaza Strip. But her submissive look contrasts with the constant attitude of defiance of the shabab who throughout the Occupied Territories throw stones at Israeli soldiers.

Baqa’a camp, 20 km north of Amman, the Jordanian capital, has the largest concentration of Palestinian refugees in the entire Middle East. Here, with approximately 100,000 residents who fled the Israeli-Arab wars of 1948 and 1967, and the 1991 Gulf war, the youngsters at the United Nations school glance timidly towards a group of journalists who have just entered the classroom.

Two years ago, when I visited Jabalya, the Gaza camp that was the Intifada birthplace, Palestinian children gave the victory sign with their fingers, proudly displaying the slingshots they used for throwing stones at the occupying troops.

Brave, they tested the visitors, greeting them with the best-known Hebrew salutation: “Shalom!” (Peace). The welcome depended on the response, which had to be given preferably in Arabic (“Salam”) or in English.

Despite their being victimised and dehumanised by the occupation, the Palestinians of the West Bank and Gaza Strip appear freer than their brothers and sisters confined to the refugee camps scattered around the Arab world which, up to the Intifada, in December 1987, were one of the main power bases of the PLO.

There is no question that, under Israeli domination, Palestinians are divided citizens. Their minds struggle to preserve the Palestinian identity (when they insist, for examples, on wearing T-shirts and key-rings with the emblems and colours of Palestine). But their bodies have been “assimilated” by Israel (as when they imitate certain values of the occupiers or consume Israeli products).

On the contrary, the Palestinians living in the refugee camps in Syria and Jordan look like prisoners in both body and soul, resigned to a situation of wretchedness and oppression.

In Jordan and in Lebanon, most Palestinians were originally from towns such as Haifa, Jaffa and Galilee, which were incorporated within the Israeli borders in 1948. They have always dreamed of returning to their homes and lands, and thus they never accepted the existence of Israel.

Baqa’a refugee camp is about 20 km north of Amman. It was one of six “emergency” camps set up in 1968 to accommodate Palestine refugees and displaced people who left the West Bank and Gaza Strip as a result of the 1967 Arab-Israeli war. It is the largest camp in Jordan. When Baqa’a was set up it was already a large camp, with 5,000 tents for 26,000 refugees over an area of 1.4 square kilometres, according to UNRWA
© The Arab Weekly

Of the approximately 1,7 million Palestinians who live in the West Bank and the Gaza Strip, about one third are also 1948 refugees and live in camps. But the majority are connected with families having roots in those two territories. For this reason, their immediate problem is not so much the existence of Israel, but the Israeli occupation.

These Palestinians have been more receptive to a two-state solution because living together with the occupier has shown them that Israel is too powerful to be eradicated.

Forced to accept the advice of the Palestinians in the territories, Yasser Arafat and the PLO recognized, in 1988, the right of existence of Israel. Nevertheless, they did so without explicitly telling the meaning of this concession to the refugees in Jordan, Syria and Lebanon: that they would no longer be able to return to their homes and to their lands. The dream remained. The hope is vain.

“Here, we go on living in despair, but at least those living in the occupied territories have the opportunity to fight”, Hana, a 21-year-old nurse, said, her voice in distress. Hana was born in the Jaramana camp, where she shares a tiny dwelling with her 10 brothers and sisters.

Jaramana, like all refugee camps, is a labyrinth of ramshackle houses. The familiar odor of spices, fruits and vegetables combines in the air with a sensation of oppression. “The Syrians are all around, watching us controlling us, repressing us”, a Palestinian who required anonymity confessed during a secret interview.

It is not difficult to find them. Seated on the ground, his legs crossed, Ibrahim, a Syrian, sells T-shirts, socks, skirts, trousers, their colors faded by the sun. He is a simple merchant, he says, looking for the right customers for his goods. “They’re poor here, you know, and I sell things cheap”, he explains, not very convincingly.

The argument of Hasan Rahmoun, a corpulent Syrian who never takes off his dark glasses, is still more unlikely: “I’m so fond of the Palestinians, I decided to live close to them.”

Mahmoud Chada, father of 14 and twice a refugee, nods his head affirmatively when I ask him whether the PLO is “the sole legitimate representative of the Palestinian people”. Then why don’t we see any pictures of Yasser Arafat posted in the camp, as we do in Amman, in the West Bank and in the Gaza Strip?

He glances around him, as if fearing being heard, and tells me embarrassed: “You know, there are a few differences among groups, but things are returning to normal. It’s a leaders problem. We’re not involved in this.”

In Jaramana, “Arafat” and “PLO” are almost forbidden words. There are no photographs of the “President of the State of Palestine”, nor are there any graffiti saluting the movement of which he is the leader.

Samantha Fox, the British singer of dubious talent and porn film actress, is the favorite in a camp dominated by pro-Syrian Palestinian factions that split from the PLO and are hostile to Arafat.

Jerash was set up as an “emergency” camp in 1968 for 11,500 Palestine refugees and displaced persons who left the Gaza Strip as a result of the 1967 Arab-Israeli war. It is known locally as Gaza camp. It is the poorest among the ten Palestine refugee camps in Jordan, with 52.7 percent of Palestine refugees having an income below the national poverty line 
© unrwa.org

In Syria there are at least 10 camps, with a total of 289,920 refugees registered [until 1991] with UNRWA, the relief agency created by the United Nations to assist persons expelled from their homes and Palestinians displaced by the Middle East wars.

The camps are under control of the General Administration of Arab Palestinian Refugees, an organization created by the Syrian Government in 1949. Its members are appointed by presidential decree, and the salaries they receive are paid out of funds set aside in the budget of the Syrian state. Of the 10 members of this administration only three are Palestinians.

“The Syrian Government takes care of the Palestinians as if they were Syrian citizens”, says Mohammed Abu Zarad, the director. “There is no discrimination.”. It is a strange way of presenting the situation, especially when we remember what Syrian President Hafez al-Assad said in April 1976, that sent chills down the spines of many Palestinians.

“There is no Palestinian people”, said the “Lion of Damascus”, the so-called defender of the “unity of the Arab nation” – under the rule of “Greater Syria”.  Former Israeli prime Minister Golda Meir, also said: “There is no such thing as a Palestinian people”.

In Jaramana, the Palestinianas come for the most part from the Golan Heights, Syrian territory that the Israelis conquered in 1967 and annexed in 1981. Some in the Golan were already refugees from the 1948 war. Their former villages are now part of Israel.

“I was born in the Golan Heights, but I am a Palestinian”, says, with a mixture of pride and indignation, Mahmoun Abura’as, a 32-year-old public official in Damascus who lives in Jaramana. “My family was one of the oldest and most prominent in Gaza. We were scattered by the French, by the English and by the Israelis.”

“My parents fled in 1948”, the young Hana added. “They lived in Safed [now Israeli territory]. Our life here [in Syria] is very sad. The children are in school for some months and then they drop out. They sell cigarettes in order to survive.”

Yarmouk was established in 1957 outside the surrounding city of Damascus. It is an “unofficial” refugee camp, home to the largest Palestinian refugee community in Syria. After the civil war in 2011, the camp was taken over by various factions and was deprived of supplies, resulting in hunger, diseases and a high death rate, which caused many to leave. By the end of 2014, its population had gone down from 112,550 residents to just 20,000
© Getty Images | forwardcdn.com

Anxiously, the inhabitants of the camp reply to all questions. But when comes the time for them to confront the journalists, they pose harder questions. Silence is the answer.

“For 50 years we’ve received missions, and nothing has changed”, Masr, a 74-year-old refugee from 1948 and 1967, shouts, gesticulates and grieves. No pause in his diatribe against world leaders. “We’re tired. Is it possible they still haven’t seen what’s going on? What more will it take? Even Vietnam, that was a problem without solution, was solved… If America wanted to return us to our homeland, it could do so in five minutes.”

In the house that looks like a cubicle where he eats and sleeps in Jaramana, far from the eyes of the Syrians, who control every single movement, the old refugee cannot resist telling his story.

“In Palestine, I was a farmer. The Jews confiscated my property. They pretended they bought the land from us, but I still have documents to prove that I am the owner.”

Like Masri, Hajji Ata a-Weheidi still keeps the key of his house in a village in Palestine that is today part of the State of Israel. His first name indicates that he has been in Mecca, in fulfillment of the last precept of Islam [“Hajj” means pilgrimage and “Hajji” is the pilgrim].

Mr. Weheidi, the Services Committee chief of the Baqa’a camp, 20 km north of Amman, is a devout Muslim. “We are governed by three moral principles: land, honor and blood [ties].”

“The land always comes first and it would be a grave injustice and a crime if they deprived me of the right of going back – it is a human right”, said Mr. Weheidi, a refugee from the 1948 Israeli-Arab war who demands the right of return, as provided in the UN Resolution 194.

Wearing a long tunic and a cape over his shoulders, with a kaffiyeh covering his head, fingering a string of beads, Mr. Weheidi has a proud bearing that reminds one of Merlin, the magician of King Arthur’s court. He is the camp’s notable, a wise man, who arbitrates disputes and solves community problems.

His words, heard in silence, are interspersed with Arabic proverbs: “Rights will never be lost if they are always demanded.”

Shatila, in Beirut, is a Palestinian refugee camp set up in the aftermath of the 1948 Arab-Israeli War. Shatila and the adjacent camp of Sabra are known for a massacre of between 460 and 3,500 civilians, committed in September 1982 by a militia close to the Kataeb, a predominantly Christian right-wing party, during the Israeli invasion of Lebanon
© brockstoneham.com

Mohammed al-Nuseirat, an engineer who belongs to the Services Committee, is desperate: “We want to return to our land, to our homes, even under an Israeli political regime. I am convinced that in the future there will be no borders separating Palestine, Israel and Jordan. There will be freedom of movement for all persons.”

Baqa’a is the largest refugee camp in the Middle East, with 100,000 persons living in an area of 1,8 square kilometres. It is a combination of a rural village and suburban borough, with carts selling fruit and vegetables, with bookstores and pharmacies, with shops vending household appliances, with poultry fish and meat markets – even a bank and a video club.

There are also schools, built with foreign governments aid, and a clinic where six doctors and eight nurses care for 699 patients a day, treating anything from a simple wound to the most frequent aliment: nervous breakdowns.

The careless construction of the houses suggests that they should have been temporary, but they turned to be permanent. “The saddest thing is that the refugees became accustomed to this miserable situation and do nothing to change their condition as poor people”, said Franke de Jonge, Director of UNRWA in Amman.

“The camps are the cheapest place to live”. Mr. Jonge added. “Officially, the refugees are not supposed to pay rent, yet they do. And whenever someone moves out of the camp, immediately another one takes his place, usually someone belonging to the same family.”

Ahmad Mahmoud Hussein Jaber perfectly exemplifies a life of resignation. Aged 72 years, this farmer originally from Rafah, in the Jordan Valley, a refugee of the 1948 war, shares two rooms and a kitchen at Baqa’a with his two wives and a widowed daughter.

The walls are damp and ice-cold in winter. In summer, the heat is stifling. The plywood roofing is so twisted that it looks as though it may tumble down at any moment. The windows are so small they look like peepholes. The concrete floor is full of cracks.

During the day, Jaber’s room looks spacious. The tattered, worn mattresses have been stowed vertically in a corner. In the tiny room where meals are prepared, the intense odor of kerosene from the lamp and of the gas from the stove makes one fear an imminent explosion.

In the midst of such misery, the old Palestinian still manages to smile.

Jabalya is the largest of the Gaza Strip’s eight refugee camps. It is located north of Gaza City, close to a village of the same name. After the Arab-Israeli war in 1948, 35,000 refugees settled in the camp, most having fled from villages in southern Palestine. Today, nearly 113,990 registered refugees live in the camp, which covers an area of only 1.4 square kilometres
© unrwa.org/

This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on December 12, 1991 – the translation, slightly changed here, was published in a UN special edition called “Peace in the News”