Viagem virtual à “Terra Prometida”

Israel e a OLP assinaram o reconhecimento mútuo nos Acordos de Oslo. Se Yasser Arafat regressar à pátria, que caminhos irá percorrer? Este é um exercício de ficção. (Ler mais |Read more…)

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Há muitos, muitos anos, na Palestina, ele rapou o bigode, pediu emprestada a mulher e o filho de um amigo e, assim disfarçado,  passou, despercebido, por entre a coluna militar que o tentava  capturar.

Agora, sem mudar a sua imagem de marca – com o seu  inseparável kaffiyeh e a barba desalinhada – Yasser Arafat regressa  à Terra Prometida. E os soldados israelitas, na Ponte Allenby,  reconhecem-no e deixam-no passar, sem ser perseguido, revistado,  detido.

O líder da OLP pode considerar-se um privilegiado. Oito quilómetros  adiante, na cidade de Jericó – onde esta viagem começa – pode ver  dezenas de palestinianos concentrados numa área militar, penosamente  à espera de uma autorização para atravessar a pequena ponte que une  as duas margens do Rio Jordão. E todos são revistados.

Mesmo em frente ao posto do Exército, Arafat avista a residência que  lhe foi reservada. É a última casa antes da fronteira com a Jordânia  e foi escolhida sobretudo pelo seu local estratégico em termos de  segurança. Na cidade mais baixa do mundo (cerca de 300 metros abaixo  do nível do mar), o “Palácio” do Presidente da Palestina está situado  no ponto mais alto.

A primeira paragem não será, porém, em casa, mas no campo de Aqabat  Jaber, onde permanecem cinco mil dos 60 mil refugiados da guerra de  1948. Os outros fugiram para o vizinho reino hashemita, depois da guerra de 1967, mas não perderam o estatuto de desalojados.

Os refugiados de 1948, que Arafat usou como principal base de apoio em  quase 30 anos de luta da OLP – eles eram a espinha na garganta de  Israel – são hoje a sua grande dor de cabeça, porque se recusam a  aceitar uma solução de autonomia que nega o direito de retorno.

Um guia perspicaz levará o líder palestiniano à casa de Fátima, uma  velhinha de 70 anos, duas vezes refugiada, que perdeu dois filhos em  combates com os israelitas, na Batalha de Karameh e na Intifada. Ficará desiludido se vier em busca de apoio, porque esta mulher de olhos tristes não esquece as humilhações.

“Em 1948, os israelitas demoliram a minha casa, em Mansoura, próximo  de Ramla [que hoje faz parte do Estado de Israel]; em 1967,  destruíram o meu refúgio no campo de Al Jiftlik. Os meus filhos foram  obrigados a trabalhar nos colonatos judeus e dois tornaram-se  mártires. Paguei um preço muito elevado. Não quero nada de especial  de Arafat. Só quero saber o que ele andou a negociar. O que nos vai acontecer? Ele era um bom líder. Agora já não sei!”.

Uma canção que os meninos aprendem na escola diz que Palestina e tragédia são almas gémeas. Na casa de Fatima, as moscas, os gatos e os humanos partilham o mesmo espaço. Os excrementos dos animais misturam-se com os pepinos e os malmequeres. Vai ser preciso muito para convencer os refugiados a aceitar “Gaza e Jericó primeiro“. Até porque, explicou Fatima, “mesmo que deixemos a terra, a terra nunca nos deixará”.

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Mas deixemos os caminhos poeirentos e putrefactos do campo para ir à sede do município de Jericó. Será que Arafat vai falar com o president da Câmara, Jamil Khalaf, um palestiniano nomeado pela administração militar  israelita, que recusou obedecer às ordens da liderança da Intifada? Bem, seria um sinal de reconciliação.

Do centro da cidade, excepcionalmente calmo mesmo em efervescentes dias de mercado, é obrigatória a passagem pela avenida de palmeiras e buganvílias, onde os restaurantes turísticos renovam as fachadas à espera de novos clientes. Estes saudarão Arafat sem reservas.

Na mesma rua, o antigo e decadente Palácio de Inverno, dos reis  jordanos Abdullah I e Hussein, – paredes decrépitas repletas de graffiti, janelas partidas e portas semi-abertas presas com  cadeados – aguarda restauração, por trás de um muro de arame farpado.

Com Arafat nas redondezas, as elites árabes poderão retomar os velhos  hábitos de passar férias em Jericó, como faziam antes da ocupação em  1967.

Depois deste passeio, Arafat pode então descansar na sua casa junto à fronteira, com vista para o Mar Morto, o Rio Jordão e os montes onde monges e eremitas procuraram abrigo ao longo dos séculos.

É difícil imaginar como é que um homem que nunca passou duas noites seguidas no mesmo sítio, por razões de segurança, se poderá habituar a dormir numa cama branca, de madeira lacada com flores cor-de-rosa e azuis, em lençóis de linho e uma brilhante colcha de chintz.

Umas tâmaras para adoçar a boca e um café com forte sabor a cárdamo retemperam as forças e, antes de retomar a viagem, Arafat pode subir ao sótão, estender o tapete e rezar, virado para Meca. Vai precisar de toda a ajuda divina, porque do paraíso de Jericó – onde Jesus Cristo resistiu às tentações do demónio e curou o cego à beira do caminho – está prestes a partir para o purgatório de Hebron e para o inferno da Faixa de Gaza.

Logo à saída da cidade, ergue-se o imponente colonato judaico de Ma’ale Adumin, uma espécie de fortaleza no caminho de Jerusalém. Nas imediações, as povoações árabes da Cisjordânia ocupada contrastam pela sua degradação. Se for dia de o cobrador de impostos passar, os portões de ferro das lojas estarão seguramente trancados a sete chaves.

A Cidade Santa, por dois povos reclamada como capital, está vedada,  por enquanto, ao Presidente da OLP. Por isso, em direcção a Hebron, terá de percorrer uma perigosa estrada secundária.

Quando chegar a Belém, poderá saborear uma sanduíche de hummus no redondo e macio pão árabe, conversar com o seu amigo Elias Freij, o velho presidente do município, um cristão que sempre defendeu a coexistência com os israelitas, e olhar o artesanato local em madeira de oliveira. Em Beit Sahour, verá o monte onde a estrela apareceu aos pastores indicando-lhes o caminho do presépio.

A atmosfera torna-se mais tensa à medida que se avança para Hebron, uma das mais antigas cidades do mundo, venerada por judeus e muçulmanos. Na parte velha, palestinianos e colonos cruzam-se com olhares de desprezo mútuo, nenhum deles abdicando do direito à terra do seu antepassado comum, Abraão – o pai de Isaac e Ismael.

Os colonatos, no centro e arredores, assinalados com a bandeira da Estrela de David e protegidos por militares e civis armados, afrontam os palestinianos. Na Mesquita de Abraão (Haram al-Khalil), um santuário onde também os judeus prestam homenagem à família do Patriarca, militares vigiam no cimo de torres todos os movimentos dos transeuntes.

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Hebron está a tornar-se um bastião de muçulmanos fundamentalistas. Raras são as mulheres que não cobrem a cabeça com um lenço, e é total a obediência às greves decretadas pelo Hamas, acrónimo árabe de Movimento de Resistência Islâmica.

Atef, professor de Física, não gosta da opção “Gaza-Jericó”, porque ela é limitada e não resolve o seu maior problema: “os colonos, que são piores do que os soldados”. “Arafat vai parar aqui, sim, mas não será bem-vindo”.

Noutra parte da cidade, pela mesma estrada que conduz ao colonato de Kiryat Arba, os palestinianos construíram casas novas, preservando ao mesmo tempo as habitações herdadas da família na zona velha.

Em duas destas casas, no meio de hortas e pomares, vive Zuhdi, pai de três filhos, um dos palestinianos que há cinco meses está impossibilitado de entrar em Israel, desde que os territórios ocupados foram encerrados. Sem o seu emprego de mecânico, em Jerusalém Oriental, ele vive da generosidade dos quatro irmãos. O seu cunhado, de 37 anos, é um dos deportados no Líbano – deixou sete filhos, o mais novo com sete meses, quando foi preso por pertencer a uma associação islâmica próxima do Hamas.

À sombra das frondosas videiras dos irmãos de Zuhdi, Arafat poderia beber um chá de hortelã-pimenta e dormir uma sesta, mas na casa do desempregado e do deportado não há lugar para o líder da OLP. “Não fomos nós quem o escolheu como presidente. Foi-nos imposto. Se ele vier e me pedir, não lhe negarei um copo de água. Mais do que isso não farei”.

Os vinhedos de Hebron e a Cisjordânia ficam para trás e agora Arafat tem que seguir por território israelita, passando por Beersheba, no deserto do Negev, até Gaza.

No futuro, um corredor deverá ligar os dois territórios, que formarão uma “entidade palestiniana” – uma ponte, uma estrada, mas mais provavelmente um túnel subterrâneo. Durante o percurso, se tiver dúvidas, pode pedir informações aos soldados à beira do caminho. De preferência em hebraico.

Tal como aconteceu na Ponte Allenby, também no checkpoint de Nahal Oz, os militares não deverão molestar o velho do kaffiyeh, Abu Ammar de seu nome de guerra. Mas, atenção! Ele não deve entrar num carro de matrícula amarela (exclusiva dos israelitas e habitantes de Jerusalém), porque se arrisca a receber uma chuva de pedras como primeira saudação. O que até é divertido, se as pedras não partirem o pára-brisas e o carro não se despistar, porque ir a Gaza e não ser apedrejado é quase como ir a Roma e não ver o Papa.

Deve acelerar, então, até ao clube de vídeo mais próximo, sobrepor cartões com os números de matrícula sobre a chapa amarela e colocar um lenço palestiniano num dos espelhos retrovisores laterais. É claro que Arafat é inconfundível, mas Gaza já se tornou um território hostil para o líder da OLP, um campo de batalha entre os seus partidários e fanáticos no Hamas.

No clube de vídeo, Abu Ammar encontra um excelente guia que o conduzirá aos lugares certos. Chama-se Arafat, 18 anos, à espera de uma bolsa do Estado para se formar em Engenharia numa universidade alemã.

Arafat júnior é leal a Arafat senior e, por causa dele, passou alguns anos na prisão. Defende a opção “Gaza-Jericó” e explica porquê: “Devemos aceitar o que nos dão agora e depois voltar para pedir mais”. Foi assim que os judeus construíram o seu Estado.

Na Cidade de Gaza, onde existem 15 cemitérios, a primeira paragem só podia ser na campa do primeiro mártir da Intifada. Os que morreram na revolta das pedras ocupam quase 90 por cento do espaço fúnebre.

Na casa de um outro mártir – activista do grupo de choque da Fatah, cujas fotografias com uma metralhadora na mão e uma granada na boca ocupam lugar de destaque – a mãe espera que Arafat não tenha desperdiçado vidas em vão. “Lutámos por um Estado independente e nada menos do que isso!”.

Uns metros adiante e eis o que resta de uma casa demolida, onde continuam a viver 72 pessoas de uma mesma família. Cinco irmãos estão na cadeia – um deles condenado a prisão perpétua porque matou suspeitos colaboracionistas (um drama quotidiano em Gaza).

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No campo de refugiados de Jabalya, onde começou a Intifada, em 1987-88, as crianças, descalças e andrajosas, não têm bonecas nem carrinhos para brincar. Remexem no lixo e passeiam pelos esgotos a céu aberto.  Assustadas, muitas choram compulsivamente na presença de estranhos, julgando tratar-se de soldados que não precisam de convite para invadir as suas casas.

Outras, mais aguerridas, o mesmo ar de absoluta pobreza, exibem pistolas de brinquedo e gritam Iz ad-Din al-Qassam, nome de um lendário combatente palestiniano e também do braço armado do Hamas.

A Faixa de Gaza é o lugar mais densamente povoado do mundo – 300 quilómetros quadrados para 800 mil pessoas [em 1993], 500 mil das quais refugiados. Quando visitar Gaza é bom que Arafat leve alguns milhões de dólares para construir escolas, fábricas e clínicas.

No único hospital existente, Al-Shifa, as ratazanas passeiam-se entre as pernas dos médicos e doentes. Muitos milhões serão também necessários para transformar a praia mediterrânica, agora uma vasta lixeira, num porto de águas profundas e fazer de Gaza uma nova Singapura, como sonham os investidores palestinianos.

Arafat, o guia, diz que toda a Faixa de Gaza está reservada para Arafat, o líder. Mas o abrigo de que todos falam é a residência do antigo governador egípcio, ocupada por militares israelitas. Naquela mansão, junto à fronteira, o Presidente da Palestina pode, finalmente, saborear uma salada de frutas, com as especialidades das três cidades por onde passou: as bananas de Jericó, as uvas de Hebron e as laranjas de Gaza.

Percorridos mais de 200 quilómetros, terá começado uma nova era para os palestinianos. Será que depois da Thawra (revolução) e da Intifada (sublevação), chegou o dia de Salam (paz)?

@AP Photo/Nasser Ishtayeh)

© Nasser Ishtayeh | AP

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 9 Setembro de 1993 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 9, 1993 

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