Rabin e Peres: A reconciliação dos siameses

Yitzhak Rabin reconciliou-se com dois adversários políticos: o palestiniano Yasser Arafat e o israelita Yitzhak Rabin. (Ler mais | Read more…)

Na cerimónia de reconhecimento da OLP, Yitzhak Rabin, antigo general que conquistou os territórios árabes na guerra de 1967 agradeceu, com emoção contida, ao seu eterno rival, o “ministro dos Negócios Estrangeiros, Shimon Peres”, os esforços para que ambos fizessem História no Médio Oriente.

Em retribuição, Peres convidou os mediadores noruegueses, que nos últimos meses trabalharam com ele em segredo, a levantarem-se das suas cadeiras, numa sala repleta de máquinas fotográficas e câmaras de televisão, para felicitar o “primeiro-ministro de Israel”.

Foi Peres quem forçou e conduziu os contactos secretos com a Organização de Libertação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat, permitindo a assinatura dos Acordos de Oslo, o compromisso provavelmente mais importante desde o tratado de paz firmado entre Israel e o Egipto em 1979.

Rabin e Peres são dois septuagenários, discípulos dos “pais da nação”, David Ben-Gurion e Golda Meir. Ninguém sabe bem quando começaram a detestar-se, mas rapidamente ganharam a alcunha de “irmãos siameses unidos pelo traseiro”.

Yitzhak e Shimon conheceram-se no Haganah, um dos exércitos clandestinos que os judeus criaram para combater o Mandato Britânico na Palestina. Desde logo revelaram a sua vocação: Rabin soldado e homem de acção; Peres político e homem de pensamento.

Enquanto Peres lia Marx no seu kibbutz na Galileia, Rabin tornava-se, aos 23 anos, o comandante mais jovem do Palmach, batalhão de elite da resistência judaica.

Em 1948, quando Israel foi criado, Peres foi encarregado por Ben-Gurion de adquirir material militar para defender o novo Estado dos exércitos árabes. Teria sido nessa altura, segundo o jornalista francês Patrice Claude, que ele começou a gostar de missões secretas.

Foi graças à diplomacia clandestina de Peres que Israel se dotou de indústrias aeronáutica, electrónica e nuclear. Foi com as armas de Peres que Rabin lutou contra os árabes e com as “armas” de Peres se prepara para fazer a paz.

Em 1974, quando abandonou a chefia do Governo, Golda Meir escolheu Rabin como sucessor, mas foi um posto fugaz, abalado por um escândalo político.

No final de 1976, a coligação governamental que incluía partidos religiosos foi alvo de uma moção de censura, por parte do  Agudat Yisrael (União de Israel) por o primeiro-ministro ter “violado o Shabat”: a chegada a uma base aérea de quatro caças F-15, fornecidos pelos EUA.

O Mafdal (Partido Religioso Nacional) absteve-se na votação e Rabin dissolveu a aliança no poder, convocando eleições para Maio de 1977.  

Peres, o apparathick, que aguardava a sua vez e não perdoou ter sido ultrapassado pelo novato Rabin, ascendeu então à liderança do Partido Trabalhista. A partir de 1977 [quando o Likud, de Menachem Begin chegou ao poder, no que constituiu um verdadeiro “terramoto político”], porém, os herdeiros dos fundadores do Estado de Israel nunca mais ganharam eleições.

Conscientes de que só um “duro” poderia pôr fim a 15 anos de coligações de direita, o Labor afastou o “moderado” Peres da direcção do partido, abrindo caminho à vitória de Rabin nas eleições legislativas de Junho de 1992. Foi um verdadeiro choque para Shimon.

Logo após a sua eleição, Rabin assumiu os cargos de primeiro-ministro e titular da Defesa, e ainda a pasta das negociações bilaterais com os árabes. Subalternizando o seu rival, deixou Peres como chefe da diplomacia e responsável pelo dossier das multilaterais, ou como um embaixador ironizou, “a cooperação económica no ano 2000”.

 

Em todo o caso, Rabin prometeu um acordo com os palestinianos, “num prazo de seis a nove meses”, segundo regras estabelecidas na Conferência de Paz de Madrid, em Outubro de 1991.

Peres sabia que isso era impraticável, porque Yitzhak Shamir, o anterior primeiro-ministro, do Likud, tinha imposto aquelas regras “para chegar a lado nenhum”. O diplomata incansável chegou então à conclusão de que era necessário negociar “com o diabo de kaffiyeh”.

Discretamente, o ministro dos Negócios Estrangeiros foi reatando contactos antigos e, graças a três amigos judeus norte-americanos, entrou em contacto com responsáveis da OLP, no final de 1992.

Seis meses depois de tomar posse, Rabin reconheceu que não estava a cumprir as promessas que fizera ao eleitorado. As negociações com os palestinianos “bons” dos territórios ocupados atingiram um impasse, porque eles não tinham autoridade. Viu-se forçado a admitir que era melhor dialogar com os “maus” da OLP.

Inicialmente desconfiado dos contactos secretos de Peres, Rabin acabou por lhe dar luz verde: “Estou de acordo, mas proceda cautelosamente”.

De Janeiro a Maio de 1993, Peres fez numerosas viagens e manteve Rabin sempre informado da evolução dos acontecimentos. Os colaboradores de ambos comentavam, atónitos, quando os viam reunidos: “Provavelmente querem insultar-se em privado.”

O protagonismo de Peres assustou Arafat que, antes de se comprometer, procurou averiguar se Rabin estava a par da situação. Este, por seu turno, investigou também, para saber se os homens que negociavam com o seu ministro tinham carta branca de Arafat.

Dadas as garantias, ambas as partes se precipitaram para o epílogo que ontem [10 de Setembro de 1993] aconteceu.

Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat receberam em 1994 o prémio Nobel da Paz pelos Acordos de Oslo, assinado no ano anterior

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 11 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 11, 1993

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