Anatomia de um aperto de mão

Psicólogos israelitas não têm dúvidas: Em Washington, Rabin e Arafat foram obrigados a cumprimentar-se. Não há comparação com o entusiasmo visível quando Begin e Sadat se abraçaram, em Camp David, em 1979. (Ler mais | Read more…)

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A linguagem corporal de Yasser Arafat “era a de alguém que procura o reconhecimento e uma resposta”, enquanto o comportamento de Yitzhak Rabin mostrava que ele “não queria reconhecer” o chefe da OLP “mas não tinha alternativa.

Foi este o comentário do psicólogo israelita Michael Yarosky, convidado pelo jornal The Jerusalem Post, a avaliar os gestos dos principais signatários dos Acordos de Oslo [em Setembro de 1993].

“Rabin parecia devastado, como se quisesse fugir dali”, observou, por seu turno, a psicóloga Susan Kutz, de Telavive. O seu colega Miki Hauser concordou: “Rabin estava muito hirto e tenso, de punhos cerrados, movimentando-se para trás e para a frente. Esta é uma forma de autoprotecção muito própria de crianças autistas.”

Rabin só se sentiu verdadeiramente descontraído depois do aperto de mão, quando teve a certeza de que não teria de suportar um abraço de Arafat. Só então se permitiu um sorriso, notaram os psicólogos.

Arafat, pelo contrário, esteve sempre alegre durante a cerimónia. Olhou insistentemente para Bill Clinton, como que para ter a certeza de que estava mesmo ao lado do Presidente dos Estados Unidos. “A sua postura era a de um vencedor, e tem muto significado o facto de ter sido ele a tomar a iniciativa do aperto de mão”, referiu Hauser.

Quanto a Clinton, os psicólogos constataram que ele “desempenhou muito bem o papel de mediador”, ao puxar Rabin para o seu lado, de modo a que o líder israelita não se afastasse de Arafat, que se mantinha “grudado” ao fato do Presidente.

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Rabin, Clinton e Arafat, em Washington: Um aperto de mão forçado.
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

A única espontaneidade nesta cerimónia coreografada foi quando Clinton, Rabin e Arafat receberam T-shirts dos participantes num programa juvenil israelo-palestiniano.

Como que sincronizados, os três homens colocaram as camisolas à frente do peito e sorriram para as câmaras. Entre os jovens do programa Seeds for Peace (Sementes para a Paz), encontrava-se um israelita que perdeu o pai num ataque de guerrilheiros palestinianos e um palestiniano a quem o Exército israelita matou um tio.

Para alguns analistas políticos israelitas, embora Arafat se tivesse destacado pela iniciativa do aperto de mão, foi Rabin quem fez o discurso mais brilhante: “breve, simples, poético e magnânimo”.

À euforia, Rabin preferiu “um misto de esperança e apreensão”. Definiu bem o contexto da cerimónia: a esperança do fim do conflito mais do que uma harmonia total.

Depois de ler uma passagem bíblica do Eclesiástico, “Para tudo há uma estação” – tempo para a guerra, tempo para a paz –, o líder israelita, que ameaçou, enquanto ministro da Defesa, “partir os ossos” das crianças na [primeira] Intifada [1987-1994], pediu aos palestinianos que rezassem todos os dias pelo dia do adeus às armas.”

O discurso de Arafat “foi conciliatório, mas menos visionários”, segundo comentadores israelitas. Evitou remexer no passado e falou dos Acordos de Oslo como um passo para a recuperação de todos os direitos palestinianos.

Pela primeira vez, o líder histórico da OLP falou da independência palestiniana não em termos absolutos, mas “compatíveis com os temores” de Israel: “O nosso povo não considera que o exercício do direito de autodeterminação deva violar os direitos dos seus vizinhos ou infringir a segurança deles.”

Arafat discursou em árabe, para que os palestinianos espalhados pelo mundo ouvissem falar de conciliação e não de confrontação. Mas o mais significativo foi a sua mão estendida a Rabin e a Shimon Peres [que era ministro dos Negócios Estrangeiros;  em 1994, os três receberiam o prémio Nobel da Paz].  O seu gesto, os israelitas nunca o ousaram fazer.

Egyptian President Anwar Sadat, left, and Israeli Prime Minister Menachem Begin, embrace as President Jimmy Carter looks on during a White House announcement of a Middle East peace agreement reached at the Camp David Summit in this September 18, 1978 file photo.  @AP Photo)

O egípcio Anwar el-Sadat (de costas) e o israelita Menachem Begin abraçam-se perante o olhar feliz do Presidente dos EUA,  Jimmy Carter, no final da cimeira de Camp David, em 18 de Setembro de 1978. O entusiasmo aqui foi visivelmente maior do que quando Rabin e Arafat apertaram as mãos, em Setembro de 1993, em Washington.
© Associated Press (AP)

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 15 de Setembro de 1993 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 15, 1993

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