Síria: O maior drama humano desde a II Guerra Mundial

A dinastia Assad completou este ano meio século de poder absoluto. Foi contra a tirania de uma família que lhes nega a liberdade e a dignidade que os sírios se insurgiram em 2011. A revolução começou pacífica, mas a única promessa cumprida pelo regime que a esmagou foi a de “queimar o país”. O presidente e a vice-presidente da ONG Syrian Christians for Peace fazem o balanço de uma década de conflito. (Ler mais | Read more…)

Em média, 2,4 milhões pessoas foram deslocadas a cada ano, dentro e fora da Síria, desde o início do conflito. 467 mil, desalojados e refugiados, regressaram aos locais de origem – isto é, por cada pessoa que conseguiu voltar a casa, mais quatro perderam o seu lar. (Na foto, um sírio transporta uma criança numa mala de viagem, em fuga de Ghouta Oriental)
© UNICEF Syria | Sanadiki

Ayman Abdel Nour só vê um destino para Bashar al-Assad: “Ser julgado por crimes de guerra e contra a humanidade”. E ele diz isto porque conhece bem o ditador de quem foi amigo e conselheiro, “um tipo que era simpático, tímido e até humilde” até se tornar “maníaco e paranóico, fechado numa bolha”.

“Assad é o único culpado” do que é unanimemente considerado “o maior drama humano desde a Segunda Guerra Mundial”: 12 milhões de refugiados e deslocados, e 85% vivendo abaixo do limiar da pobreza (ver caixa de números), assevera Abdel Nour, numa entrevista que me deu, por telefone.

Presidente da organização não governamental Syrian Christians for Peace, exilado em Los Angeles, Califórnia (EUA), Abdel Nour foi colega de Assad na Universidade de Damasco. Ayman formou-se em engenharia e Bashar em medicina. Os dois conheceram-se em 1984, apresentados por um vizinho.

Abdel Nour visitava o palácio presidencial, quando Bashar “ainda não se interessava por política” e “passava despercebido no seu Peugeot 505”, como se não fosse filho do homem mais poderoso e temido da Síria, Hafez al-Assad. Ambos se mantiveram em contacto quando Bashar foi especializar-se em oftalmologia num hospital em Londres e, assim que este regressou à Síria em 1994, após a morte do irmão Bassel, convidou Ayman, então membro influente do partido (quase único) Baas, para o ajudar a “preparar o futuro”.

Bassel deveria suceder ao pai, que governava a Síria com mão de ferro desde Março de 1971. Quando Hafez morreu, em 2000, Abdel Nour continuou a aconselhar Bashar, convencido de que o jovem presidente “queria mesmo” mudar o país. Ele “aceitava todas as ideias” que lhe sugeria, designadamente a restruturação do sector industrial público, a criação de seguradoras e bancos privados e até a inauguração de uma bolsa de valores.

Mais de 60% das crianças na Síria passam fome e meio milhão estão desnutridas, segundo a UNICEF. A esperança de vida das crianças diminuiu 13 anos. Mais de um milhão nasceram no exílio e outros 5 milhões nasceram na Síria durante a guerra
© unocha.org

A desilusão começou em 2003. Abdel Nour apercebeu-se de que as reformas de Bashar “favoreciam apenas a sua família” e, em particular, os múltiplos negócios do primo Rami Makhlouf, na altura o homem mais rico e influente da Síria. Chocado com a crescente corrupção, Abdel Nour passou de aliado a crítico do regime. Em 2017, ameaçado de morte, teve de fugir para o Dubai e depois para a América, de onde, refere, não tem planos para retornar à pátria.

“O lema do ditador continua a ser ‘Assad, ou queimamos o país’”, denuncia Abdel Nour. “Mas o regime de hoje é totalmente diferente do de 2011, apesar de ser dirigido pelo mesmo gajo. É certo que é ele quem manda nas áreas que controla, mas não tem o apoio de outrora. Talvez haja uns extremistas que ainda estejam dispostos a morrer por ele, mas a maioria não, incluindo nas áreas da sua seita alauita, a quem prometeu prosperidade e ofereceu o colapso económico.”

A falência do Estado, exacerbada pela crise financeira do vizinho Líbano, onde muitos enriqueceram graças a fraudulentos esquemas ponzi praticamente erradicou a classe média, e os alauitas olham para Assad como um traidor.

Os relatos de correspondentes na Síria são deprimentes: “o salário médio mensal equivale a 25 dólares – cinco ovos chegam a custar 2% do rendimento médio; as padarias subsidiadas enchem-se de gente faminta – pão molhado em chá substitui, em muitas casas, a maioria das refeições; quase ninguém consegue comprar frutas e vegetais frescos; as filas para comprar combustível estendem-se ao longo de quilómetros; cortes de água e luz tornaram-se frequentes; o desemprego fez disparar o consumo de álcool e drogas, os traumas psicológicos”.

Os que se arriscam a exprimir descontentamento em público são presos e torturados.

Depois de dez anos de guerra, há sinais de luta pelo poder no regime: Rami Makhlouf (na foto), primo de Bashar al-Assad, um dos homens mais ricos da Síria perdeu os seus monopólios para a mulher do presidente
© AFP | The Independent
Asma al-Assad, aqui numa entrevista dada ao canal de televisão Russia 24, em Outubro de 2018, será hoje uma das figuras mais poderosas da Síria. Alguns vêem-na como alternativa ao marido
© Página de Facebook oficial da presidência síria | The Times of Israel

Enquanto o fosso entre ricos e pobres aumenta, uma luta pelo poder divide as duas mais importantes famílias alauitas: os Assad e os Makhlouf. Rami, conhecido como “o senhor 60%” – todas as empresas estrangeiras precisavam do seu aval para funcionar, dono da Syriatel, maior operador de telecomunicações nacional, e de outros negócios, da banca ao imobiliário, perdeu os seus monopólios para Asma al-Akhras al-Assad, a ambiciosa mulher de Bashar.

É Asma, segundo a revista britânica The Economist, quem hoje controla a economia do país, graças a um “fundo de caridade”, através do qual tem de passar toda a ajuda humanitária internacional, alegadamente desviada para enriquecer o regime.

Anisa, a mãe de Bashar e tia de Rami Makhlouf, era a protectora deste e a maior inimiga de Asma. Quando esta morreu, o caminho ficou livre para a “primeira-dama” assumir as rédeas. Sobre ela já pesava a suspeita de ter planeado o assassínio do cunhado Assef Shawkat, em 2012, para se desembaraçar da Bushra al-Assad, irmã de Bashar, forçada ao exílio no Dubai.

Os custos de dez anos de guerra ultrapassam os 1200 biliões de dólares – o equivalente ao orçamento da União Europeia para dez anos. A ajuda humanitária, porém, representa apenas 1,6% das perdas económicas
© The Atlantic

Dez anos depois, “não podemos dizer que a guerra na Síria terminou, apenas que a fase militar deu lugar a uma fase política”, analisa Samira Moubaied, directora para a Europa e vice-presidente da Syrian Christians for Peace, numa entrevista que me deu, por e-mail.

Com mais de 60% do território sob a sua alçada, graças à Rússia e ao Irão, “Bashar al-Assad finge que ganhou, mas a realidade é que ele destruiu a Síria. Forçou metade da população a abandonar o país. Centenas de milhares de soldados perderam a vida para que ele permaneça no poder. Cometeu crimes contra a humanidade e conspirou com organizações terroristas para assombrar os sírios.”

“Bashar al-Assad conduziu o país a uma espiral descendente de destruição, de guerra interna, de sanções – e tudo isto continuará enquanto ele se mantiver no poder”, vaticina Samira Moubaied, antiga professora na Universidade de Damasco, onde nasceu, e agora a viver em Paris, onde é investigadora em ciências humanas e ambientais.

“Os civis continuam vítimas de medidas repressivas e totalitárias por parte das diferentes autoridades que controlam a Síria, mas também vítimas da corrupção e da monopolização dos recursos”, lamenta a académica ajudou a fundar várias organizações da sociedade civil, é membro do Comité Constitucional Sírio e participou em várias rondas negociais sobre a paz.

A situação sanitária, a par da crise económica, também é desoladora, devido à covid-19. “Ninguém se preocupa com a saúde dos cidadãos que vivem em pobreza extrema”, queixa-se Samira Moubaied. “O dinheiro é usado para comprar armas. Nas prisões, a pandemia propaga-se. Podemos dizer que o conflito hoje se deslocou para zonas geográficas mais pequenas, confinadas ao norte, mas o sofrimento assumiu novas formas, sendo as piores a pobreza e a doença.”

Comprar comida num supermercado em Damasco, com Bashar al-Assad em background. O preço dos alimentos e outros bens essenciais subiram mais de 200%, mas o salário médio é agora inferior a 10 dólares. Mais de 80% das pessoas na Síria vive abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,90 dólares por dia.
©Youssef Badawi | EPA | The New York Times

“A revolução ainda não atingiu os seus objectivos”, diz Samira Moubaied. “As correntes ideológicas, sobretudo as do Islão político e da esquerda radical, desviaram a revolução de uma via civil para outra de militarização e islamização – que se afastou reivindicações iniciais dos sírios. Não esperamos concretizar rapidamente uma mudança radical. É preciso tempo para superar todos os males de um regime autoritário e para construir um Estado moderno.”

Ayman Abdel Nour, animador de um podcast com “mais de 1,5 milhões de seguidores”, não se arrepende de nada. “A revolução era necessária. O maior erro foi a sua militarização, mas o regime estava a matar pessoas indefesas, que apenas clamavam por liberdade e dignidade. O povo não tinha poder para lutar sozinho contra uma máfia. Por causa do sectarismo, toda a gente tinha medo de toda a gente.”

“A revolução síria faz parte do caminho para o desenvolvimento e o progresso da humanidade, em geral”, acredita Samira Moubaied. “Os desvios que deformaram a rebelião popular serão automaticamente corrigidos pelos próprios sírios, em defesa dos seus interesses.”

“Não vejo razão para o remorso ou para a retirada”, frisa. “Este é um caminho de sentido único que visa construir uma nova Síria, em ruptura total com a era anterior. São estes os princípios que adopto no meu trabalho político.”

Para Samira, a manutenção de Assad no poder constitui “um obstáculo ao progresso, à reconstrução, à segurança e a estabilidade” da Síria. Talvez, por isso, ela e Ayman se mostrem esperançosos de que a Rússia venha a deixar cair o seu protegido, para “salvaguardar interesses geoestratégicos e económicos” na região.

Antes da guerra, a Síria tinha uns 22 milhões de habitantes. Dez anos depois, mais de metade – 12,3 milhões – são deslocados internos (6,7 milhões) ou refugiados (5,6 milhões). Daquele total, 5 milhões (40%) são crianças. Pelo menos 70% dos deslocados internos vivem assim há mais de cinco anos consecutivos. (Na foto, um acampamento de deslocados no Noroeste da Síria)
© europemercycorps.org

Outros analistas, como Hussein Ibish, do Arab Gulf States Institute, ou Charles Lister, do Middle East Institute (MEI), dois think-tanks em Washington, vêem cenários diferentes. Num artigo publicado no site Bloomberg, Ibish dá conta de uma nova “trilateral”, unindo a Rússia, a Turquia e o Qatar, para promover uma solução política que marginalize o Irão e atraia países do Golfo Pérsico como os Emirados (que já reabriram a sua embaixada em Damasco).

“A mensagem de Moscovo e de Ancara aos árabes é clara: os vossos amigos rebeldes [que financiariam para derrubar Assad] podem ter perdido a guerra, mas isso não significa que os vossos inimigos iranianos venham a ser os beneficiários; se ajudarem a que este processo seja bem-sucedido, será possível diminuir a influência de Teerão na Síria”, escreve Ibish.

“Isto agradaria a Assad”, adianta. “O ditador depende atualmente da Rússia e do Irão para garantir o controlo da maior parte do país. Mas ele prefere um acordo a longo prazo em que a Rússia seja a principal potência externa na Síria, porque as exigências de Moscovo são menos onerosas do que as de Teerão.”

“Os objectivos da Rússia incluem manter a sua base naval e outras na Síria, assegurar consideráveis investimentos no país e usar Damasco como chave para a sua renovada influência na região. Já o Irão pretende integrar a Síria numa rede regional de Estados suplicantes, e usá-la como plataforma para ameaçar Israel, por um lado, e manter, o seu domínio no Iraque, por outro.”

No site do MEI, Charles Lister, autor do livro The Syrian Jihad: Al-Qaeda, the Islamic State and the Evolution of an Insurgency, recorda que – depois de extrair de Assad várias concessões – a Rússia “deu luz verde” a que o ditador se volte a candidatar a eleições marcadas para o verão. “É claro que irá forçar o aparecimento de vários candidatos, para evitar o tipo de vitória de 95% a que os sírios se habituaram”, mas “naturalmente que o vencedor está pré-determinado”. Assad continuará a ser “um sobrevivente”.

Bashar al-Assad, um dos únicos três candidatos nas eleições presidenciais de Maio, conquistou um quarto mandato de sete anos, depois de recolher, alegadamente, “95,1%” dos votos, nas áreas sob seu controlo. Esta “vitória” obteve a luz verde da Rússia, mas a legitimidade da mesma foi contestada por responsáveis europeus e americanos
© The Wall Street Journal

[Nas eleições de Maio de 2021, Bashar al-Assad Assad “venceu” mesmo com “95,1%” dos votos, ganhando um quarto mandato de sete anos. Segundo dados oficiais, a afluência às urnas foi de “78,66%”. Os Estados Unidos e a União Europeia questionaram a legitimidade destes resultados, considerando-os “uma violação das resoluções da ONU” que procuram resolver o conflito.

A votação só foi possível nas áreas sob controlo das tropas de Assad e seus aliados. Muitos sírios que fugiram do país não quiseram ou não puderam votar. Só houve três candidatos permitidos. Além de Assad, concorreu, simbolicamente, o seu ex-ministro Abdullah Salum Abdullah, e o dirigente de um grupo de “oposição” tolerado pelo regime, Mahmoud Ahmad. Mais de 40 foram rejeitados.]

Para Samira Moubaied, uma solução política exige que se construa “um Estado moderno, segundo um novo contrato social e novas bases constitucionais”, e que o novo Estado seja “laico, civil e neutro em relação às várias etnias e religiões do país”. Que se crie uma “identidade síria pluralista”. Que se forme “um novo sistema de governo segundo princípios da descentralização”. Que se redefina a relação entre a Síria e o mundo”, com vista a “uma paz justa.”

Haverá lugar na nova Síria para os milhões de refugiados? “As razões do exílio continuam a existir, designadamente a presença de uma autoridade repressiva que ameaça os que regressam”, responde Samira Moubaied, acrescentando: “Eu não voltarei enquanto o regime mafioso se mantiver no poder. Nas zonas sob seu controlo, a vida dos opositores não está garantida. [À chegada, muitos encontram as suas casas destruídas e terras confiscadas.] O meu retorno depende do início de uma nova era, um Estado de Direito e de cidadania, para a qual contribuirei.”

Em dez anos, foram mortas na Síria entre 400 mil (segundo a ONU) e 600 mil pessoas (estimativa da organização cristã World Vision) – 55 mil das quais crianças. A UNICEF crê que, na última década, a cada oito horas uma criança foi ferida ou morta
© The Economist

Ayman Abdel Nour sugere que olhemos para a Síria actual como “um comboio que circula aos solavancos por linhas quebradas em direcção às chamas” de um país a arder. “O maquinista ainda é Bashar al-Assad, cada carruagem está sobrecarregada de problemas e, na última década, o comboio adquiriu mais vagões e atritos.”

“A viagem a caminho do inferno continuará (…) se o condutor não for substituído”, avisa Abdel Nour. “A solução está nas mãos da Rússia e dos Estados Unidos.”

Os dois países podem e devem cooperar para empossar “um governo transitório” – isto é, “com uma componente militar, que ficará encarregue das forças armadas, da segurança, dos serviços secretos; e uma componente civil que ficará responsável pelo poder executivo”, segundo o modelo em vigor no Sudão desde o derrube de Omar al-Bashir.

“Uma tal decisão não irá alterar a turbulência no interior das carruagens, mas reduzirá a velocidade e permitiria acertar o passo.”

Mas quem pode ser alternativa a Assad, se a oposição continua fragmentada? Ayman Abdel Nour está convencido de que “a Síria tem muitos potenciais líderes, mulheres e homens, capazes de conduzir o país à paz e prosperidade”.

Samira Moubaied, directora para a Europa e vice-presidente da Syrian Christians for Peace
© Cortesia de | Courtesy of Samira Moubaied
Ayman Abdel Nour, presidente da organização Syrian Christians for Peace
© Cortesia de | Courtesy of Ayman Abdel Nour

Cronologia: Do sonho ao pesadelo

Há dez anos, numa noite de Fevereiro, quando se esgueiraram de casa para grafitar os muros da sua escola, cinco rapazes de Arbaeen, um bairro pobre e abandonado de Daraa, cidade maioritariamente sunita no Sul da Síria, estavam longe de imaginar que iriam pôr em marcha uma revolução.

O mais velho tinha 16 anos e o mais novo 12. Munidos de latas de spray, e inspirados pela queda dos ditadores na Tunísia e no Egipto, escreveram dois slogans: jayeek el door, ya doctor (“és o próximo, doutor” – numa referência ao presidente, Bashar al-Assad) e ashaab yurid isqat na-nizam (“o povo quer derrubar o regime”.

Pensavam que ninguém os tinha visto, mas os mukhabarat (agentes secretos) nunca dormem e, no dia seguinte, os cinco miúdos e outros 20 foram detidos pelas forças de segurança. Os responsáveis do clã Abazeid, a que a maioria deles pertencia, pediram uma audiência com o homem mais poderoso em Daraa: Atef Naguib, chefe do Directório de Segurança Política, uma das quatro agências dos mukhabarat, e primo de Assad.

“Esqueçam que têm filhos”, disse Naguib, com desdém, ao grupo que fora pedir clemência para os rapazes. “Se quiserem novos filhos para os substituírem, enviem-me as vossas mulheres e eu engravido-as.”

As palavras indignas de Naguib escandalizaram a sociedade conservadora e patriarcal de Daraa, e fizeram transbordar a revolta contida durante 40 anos de humilhações impostas pela dinastia Assad.

© the times.co.uk

2011

No dia 15 de Março, Daraa protesta contra a detenção dos seus rapazes. Forças de segurança disparam sobre os manifestantes, matando quatro deles. Terão sido as primeiras vítimas da sublevação. A violência não demove o povo. No Verão, os protestos alastram-se a todo o país, incluindo Damasco, a capital, as zonas curdas no Nordeste, a região profundamente tribal de Deir es-Zor, no Leste, e até a cidade costeira alauita de Latakia (bastião do regime). É uma rebelião pluralista, que atrai numerosas pessoas em todas as classes sociais, grupos étnicos e religiosos.

2012

Em Julho, as principais potências mundiais reúnem-se em Genebra/Suíça para discutir uma transição política na Síria, mas revelam-se demasiado divididas para chegar a um acordo. Já acossado desde que vira o destino que os americanos reservaram a Saddam Hussein no Iraque, derrubado e condenado à morte, Assad lança vários ataques aéreos sobre bairros, vilas e cidades que se rebelaram contra o seu domínio. Indefesos, civis pegam em armas para protegerem, mas a natureza descentralizada da oposição, que até então lhe permitira sobreviver, acaba por ser um obstáculo. Os rebeldes formam mais de mil milícias independentes umas das outras, muitas vezes centradas num indivíduo, numa região ou numa ideologia, em particular, dificultando os esforços com vista a uma estrutura de comando unificada e coordenada. Divergências pessoais e ideológicas, sobretudo em relação ao papel do Islão e do jihadismo, acentuam-se e o conflito transforma-se numa guerra civil na qual se envolverão actores externos principais (EUA, Rússia, Irão, Arábia Saudita, Turquia e Qatar) e secundários (França, Reino Unido, China, Emirados Árabes Unidos, Líbano, Jordânia, Iraque e Egipto).

2013

Em Maio, o movimento xiita libanês pró-iraniano Hezbollah entra oficialmente na guerra em apoio de Assad. Os EUA avisam que o uso de armas químicas será uma “linha vermelha”, mas um ataque com gás sarin em Ghouta Oriental, um enclave rebelde densamente povoado (dois milhões de habitantes) na periferia de Damasco, causou centenas de mortos sem que os EUA retaliassem. O presidente Barack Obama recua depois de a Rússia se ter comprometido a convencer a Síria a “destruir” o seu suspeito arsenal.

2014

Em Janeiro, um grupo dissidente da Al-Qaeda apodera-se de Raqqa, conquistando outros territórios na Síria e no Iraque, onde proclama um “califado” e se autodesigna Estado Islâmico (ou Daesh). Em Setembro, os EUA formam uma coligação contra esta organização terrorista e iniciam uma campanha de ataques aéreos, em colaboração com combatentes curdos.

Um soldado russo de guarda num checkpoint em Suran, na província de Hama, na Síria, em 25 de Setembro de 2019. Foia deciusão de Moscovo de apoiar Bashar al-Assad em 2015 que mudou o rumo da geurra a favor do tirano de Damasco
© AFP | english.alarabiya.net

2015

Em Maio, Assad reconhece que o seu exército está a sofrer pesadas derrotas, mas em Setembro a Rússia junta-se ao Irão e muda o rumo da guerra, ao enviar para a Síria aviões de combate e outra ajuda militar.

2016

Em Agosto, alarmada com os avanço curdos na sua fronteira, a Turquia invade o Norte da Síria, fixando-se numa zona conquistada ao Daesh. Em Dezembro, os rebeldes sírios em Aleppo retiram-se da sua maior base urbana, depois de vários meses de um cerco e bombardeamentos por parte das forças de Assad, apoiadas pela Rússia.

2017

Em Março, Israel admite que está a atacar o Hezbollah na Síria, para impedir que o seu patrono iraniano, que recrutou milicianos libaneses e afegãos, expanda a sua influência e capacidade ofensiva na região. Em 6 de Abril, forças americanas lançam vários mísseis de cruzeiro sobre uma base de tropas sírias, em retaliação por um ataque com armas químicas, atribuído ao regime, em Khan Sheikhoun, sob controlo da oposição. Em Maio, rebeldes retiram-se do seu último reduto em Homs, “a capital da revolução”. Em Novembro, forças curdas, apoiadas pelos EUA, expulsam o Daesh de Raqqa.

Famílias sírias preparam-se para embarcar em autocarros do Crescente Vermelho Internacional que, em 2018, os foram buscar Douma, no antigo enclave rebelde de Ghouta Oriental, onde o regime é acusado de lançar armas químicas.
© Hamnza Al-Ajweh | AFP | The Japan Times

2018

No dia 20 de Janeiro, a Turquia inicia uma grande ofensiva militar contra combatentes curdos sírios em Afrin, um enclave no Norte. Em Abril, depois de vários meses de um bloqueio e bombardeamentos, o exército sírio apoiado pela Rússia conquista Ghouta Oriental, antes de se apoderar de outros bastiões dos rebeldes, incluindo Daraa, em Junho, assim garantindo a permanência de Assad no poder. No dia 14, os EUA, a França e a Grã-Bretanha lançam vários ataques na Síria, para punir Assad por mais um suposto ataque com armas químicas no dia 7, o qual, segundo activistas, terá causado mais de 40 mortos em Douma, nos arredores da capital. Em Setembro, a Turquia e a Rússia assinam um acordo de cessar-fogo em Idlib e áreas controladas por rebeldes no Noroeste, depois de vários bombardeamentos que mataram centenas de civis.

2019

Em Agosto, depois de uma série de ataques iniciados em Abril, forças sírias apoiadas pela Rússia capturam aos rebeldes a estratégica cidade de Khan Sheikhoun, no Noroeste. De Dezembro até Março de 2020, a ofensiva síria-russa causa cerca de um milhão de deslocados internos – a mais grave crise humana desde o início do conflito. Ancara envia milhares de soldados para a fronteira e permite que milhares de sírios fujam para a Grécia.

Umm Abdo, uma mulher deslocada interna, oferece ao filho a máscara facial que ele mesma costurou na sua casa em Dana, na província de Idlib, no norte da Síria. Os primeiros casos de COVID-19 no país registaram-se em Março de 2020, mas, apesar das desumanas condições de vida, as autoridades têm procurado desvalorizar o impacto da pandemia
© International Rescue Committee

2020

No dia 5 de Março, a Rússia e a Turquia concordam com um cessar-fogo em Idlib, no Noroeste da Síria, prometendo realizar patrulhas conjuntas e estabelecer um corredor seguro perto da auto-estrada M4. Em Março, a Síria regista um número crescente de casos de COVID-19. A economia fica à beira do colapso. Os sírios esperam durante horas em filas para adquirir pão subsidiado. O Governo raciona os bens alimentares e sobe os preços.  Em Junho, os EUA anunciam as mais duras sanções contra a Síria, “Caesar’s Act” (pseudónimo de um fotógrafo da polícia militar que desertou com 55 mil imagens digitais de 11 mil detidos mortos pelo regime). Esta lei permite congelar os bens de todos os que negoceiam com a Síria, seja qual for a nacionalidade, e abrange vários sectores, da construção à energia. Entre os visados estão Asma al-Assad, mulher do presidente, mas também os seus pais, irmão e tio, todos residentes em Londres e com cidadania britânica, e ainda vários responsáveis governamentais, o Banco Central Sírio e nove empresas.

2021

No dia 24 de Fevereiro, na cidade alemã de Koblenz, um antigo membro da polícia secreta síria, Eyad A., de 44 anos de idade, é condenado a 4,5 anos de prisão, por cumplicidade em crimes contra a humanidade no seu país. Foi a primeira vez que um tribunal fora da Síria julgou um processo de acusação de tortura infligida (neste caso a manifestantes presos em Douma em 2011) pelo regime de Assad – um acontecimento celebrado por todos os defensores dos direitos humanos. No dia 14 de Março, a polícia no Reino Unido abriu uma investigação às alegações de que Asma al-Assad, a mulher do presidente sírio, “incitou e encorajou actos terroristas” no seu país. Se for condenada, ela poderá perder a cidadania britânica. No dia 30 de Março, numa conferência em Bruxelas, patrocinada pela UE (o maior doador) e pela ONU, a comunidade internacional comprometeu-se a atribuir 5300 milhões de dólares à Síria e aos países vizinhos que acolhem refugiados.

Fontes: Assad or We Burn the Country: How One Family’s Lust for Power Destroyed Syria, de Sam Dagher; Associated Press; BBC; Burning Country: Syrians in Revolution and War, de Robin Yassin-Kassab e Leila Al-Shami; Dans la tête de Bashar al-Assad, de Subhi Hadidi, Ziad Majed e Farouk Mardam-Bey; dw.com; Impossible Revolution: Making Sense of the Syrian Tragedy, de Yassin Al-Haj Saleh; Reuters; The Battle for Syria: International Rivalry in the New Middle East, de Christopher Phillips.

O preço da guerra

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

Em dez anos, foram mortas na Síria entre 400 mil (segundo a ONU) e 600 mil pessoas (estimativa da organização cristã World Vision) – 55 mil das quais crianças. A UNICEF crê que, na última década, a cada oito horas uma criança foi ferida ou morta.

A esperança de vida das crianças na Síria diminuiu 13 anos. Mais de 1 milhão de crianças nasceram no exílio e outras 5 milhões nasceram na Síria durante a guerra.

Cerca de 100 mil sírios morreram de tortura em prisões do regime e outros 100 mil ainda estarão encarcerados. Há ainda 200 mil desaparecidos.

Antes da guerra, a Síria tinha uns 22 milhões de habitantes. Dez anos depois, mais de metade – 12,3 milhões – são deslocados internos (6,7 milhões) ou refugiados (5,6 milhões). Daquele total, 5 milhões (40%) são crianças. Pelo menos 70% dos deslocados internos vivem assim há mais de cinco anos consecutivos.

Em média, 2,4 milhões pessoas foram deslocadas a cada ano, dentro e fora da Síria, desde o início do conflito. Só 467 mil, desalojados e refugiados, regressaram aos locais de origem – isto é, por cada pessoa que conseguiu voltar a casa, mais quatro perderam o seu lar. Embora a insegurança seja o principal motivo para as pessoas fugirem, cerca de 20% dos mais recentes deslocados internos citam também como factor a deterioração das condições económicas.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

A Turquia acolheu 90% dos refugiados (3,6 milhões), geralmente fora de campos oficiais e com acesso reduzido a serviços básicos. No Líbano, os 865.531 refugiados sírios constituem 1/8 da população; a maioria deles vive em condições desumanas em acampamentos informais. No pico da crise migratória em 2015, cerca de 1,3 milhões de sírios pediram asilo na Europa, mas este número tem vindo a diminuir significativamente porque as fronteiras se fecharam.

Mais de 13 milhões de sírios vivem actualmente em áreas administradas pelo regime de Bashar al-Assad, que controla 60% do país, graças ao poderio militar dos aliados russos e iranianos. Outros 2,9 milhões vivem na região Noroeste, controlada por grupos rebeldes. Mais 2,6 milhões concentram-se em áreas do Nordeste nas mãos de forças curdas. Há ainda 1,3 milhões em áreas do Norte conquistadas pela Turquia e seus aliados sírios.

Durante a guerra, a ONU registou 38 ataques com armas químicas – 32 dos quais atribuídos às forças de Assad. Pelo menos 1400 pessoas morreram num só ataque, em 2013, pelo qual os EUA responsabilizaram o regime.

Os custos de dez anos de guerra ultrapassam os 1200 biliões de dólares – o equivalente ao orçamento da União Europeia para dez anos. A ajuda humanitária, porém, representa apenas 1,6% das perdas económicas.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

A indústria de hidrocarbonetos registou prejuízos de 77 mil milhões de dólares. Antes da guerra, a Síria produzia cerca de 400 barris de petróleo por dia, mas em 2020 esse número baixou para 89 – e destes 80 são extraídos nas áreas curdas que escapam ao controlo do governo.

Nos últimos dez anos, a libra síria perdeu 98% do seu valor face ao dólar americano, forçando o governo a reduzir subsídios.

Os preços dos alimentos e de outros bens essenciais subiram mais de 200%, mas o salário médio é agora inferior a 10 dólares.

Mais de 80% das pessoas na Síria vivem abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,90 dólares por dia.

Em Janeiro de 2021, precisavam de assistência humanitária 13,4 milhões de pessoas na Síria. Mais de 12 milhões têm imensas dificuldades em encontrar comida para se alimentarem diariamente – seis meses antes eram 9,3 milhões. Mais de 8 milhões não têm água potável.

Mais de 60% das crianças passam fome e meio milhão estão desnutridas. A UNICEF alerta que 90% necessita de ajuda urgente – um aumento de 20% em relação a 2020.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

Entre os deslocados e refugiados, a miséria e o desemprego foram exacerbados pela pandemia de covid-19, afectando hoje pelo menos 11,1 milhões de pessoas. Nove em cada dez refugiados no Líbano vivem em situação de extrema pobreza.

Dez anos de ataques na Síria destruíram 1/3 das casas e 70% da rede eléctrica e de abastecimento de combustíveis.

Metade dos 113 hospitais públicos e mais de metade dos 1790 centros de saúde públicos não funcionam ou estão apenas parcialmente operacionais. Pelo menos 70% do pessoal médico abandonou o país; mais de 900 foram mortos.

Um terço das escolas está em ruínas. Cerca de 2,45 milhões de crianças na Síria e outras 750 mil refugiadas nos países vizinhos – 40% das quais meninas – continuam sem acesso à educação.

As crianças são as mais expostas a doenças, como a cólera ou pneumonia. Em campos de refugiados, algumas delas, com apenas 7 anos de idade, trabalham arduamente e por pouco dinheiro, para ajudar no sustento das famílias. As meninas são as mais vulneráveis à exploração e abusos sexuais, incluindo casamentos forçados pelos pais, que têm vindo a aumentar.

Na Síria, entre 2011 e 2020, cerca de 82% das crianças recrutadas por grupos armados foram usadas em acções de combate directo; 25% tinham menos de 15 anos, segundo a World Vision. A UNICEF refere que 5700 crianças foram usadas como soldados ou escudos humanos – algumas com menos de 7 anos.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

A situação mais grave verifica-se agora no noroeste da Síria, onde há milhões de crianças desalojadas, as suas famílias obrigadas a fugir sete e até dez vezes, em busca de segurança. Enfrentaram um inverno terrível, com chuvas torrenciais e neve, abrigadas em tendas ou edifícios danificados/inacabados, segundo a UNICEF. Mais de 75% das violações de direitos humanos em 2020 foram cometidas naquela região.

Um em cada 2 jovens refugiados entrevistados pela Cruz Vermelha na Síria, no Líbano e na Alemanha – 47% – dizem ter perdido um familiar ou amigo, mortos no conflito. Um em cada 6 – 16% – viu os pais serem mortos ou gravemente feridos, e 12% sofreram ferimentos. Pelo menos 54% deixaram de ter contacto com parentes próximos – o número sobe para 7 em cada 10 no Líbano; 62% foram obrigados a deixar o lar; 49% ficou sem sustento e 77% enfrenta dificuldades em encontrar bens alimentares – na Síria, entre os deslocados internos, a percentagem sobe para 85%

O impacto na saúde mental é devastador. Nos últimos 12 meses, os jovens na Síria têm registado distúrbios do sono (54%), ansiedade (73%), depressão (58%), solidão (46%), frustração (62%) e angústia (69%).

Uma média de 86% de crianças refugiadas sírias entrevistadas para o maior estudo jamais realizado pela organização Save the Children na Jordânia, no Líbano, na Turquia e na Holanda diz que não quer voltar ao seu país. Das crianças desalojadas na Síria, uma em cada três confessa que preferia viver noutro lugar. Na Holanda, pelo contrário, 70% das crianças está confiante num “futuro positivo”, porque têm “liberdade, educação e oportunidades económicas”.

Fontes: Agence France-Presse; Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR); Banco Mundial; BBC; Islamic Relief; Programa Alimentar Mundial da ONU; Physicians for Human Rights; Relatório A Decade of Loss: Syria’s Youth after 10 years of crisis, Comité Internacional da Cruz Vermelha; Relatório Anywhere but Syria, Save the Children; Relatório The Darkest Decade: What displaced Syrians face if the world continues to fail them, Norwegian Refugee Council; Relatório 10 Years of War in Syria: The Lasting Impact of a Childhood Without Peace,International Rescue Committee; Relatório Trafficking in Persons, Departamento de Estado americano; Relatório Too high a price to pay: the cost of conflict for Syria’s children, World Vision/Frontier Economics; Syrian Network for Human Rights (SNHR); SKY News; Syrian Observatory for Human Rights (SOHR); The Lancet; UNICEF; Violations Documentation Centre.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na edição de Maio de 2021 da revista ALÉM-MAR | These articles, now updated, were originally published in the May 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

Marinel Sumook Ubaldo: “Não devemos ter medo de fazer a diferença”

A vida de Marinel Sumook Ubaldo mudou para sempre quando o tufão Hayan/Yolanda, que ela descreve como “o mais devastador jamais registado na história humana”, atingiu a sua pacata cidade, cem quilómetros a sudoeste de Manila, a capital das Filipinas. (Ler mais | Read more…)

Marinel Ubaldo é uma das mais importantes activistas globais pelo clima. Fundou a Youth Leaders Environmental Action Federation (Federação de Líderes Juvenis para a Acção Ambiental) e é coordenadora da Campanha de Justiça Ecológica da Living Laudato Si’ Philippines (LLS), um movimento interconfessional iniciado por leigos católicos
© Cortesia de | Courtesy of Marinel Ubaldo

Não faltavam sinais a anunciar uma tragédia. Às 7 da manhã, as temperaturas exteriores já eram elevadas e o seu pai, que era pescador, há muito se queixava da escassez de cardumes. No dia 3 de Novembro de 2013, tinha Marinel 16 anos, o tufão de categoria 5, a mais elevada na escala de Saffir-Simpson, arrasou praticamente tudo à sua passagem, com ventos superiores a 370 km/h e ondas de 15 metros de altura. Mais de 6300 pessoas morreram. Marinel não se esquece dos corpos que viu a boiar no mar.

Seis anos depois, segundo a Amnistia Internacional, milhares de filipinos ainda não tinham sido realojados em áreas residenciais seguras, com acesso a água, alimentos, electricidade, casas de banho ou fontes de rendimento. Muitos foram transferidos para as proximidades de um aterro tóxico, onde pelo menos 11 morreram de doenças várias.

“O tufão destruiu a minha comunidade, destruiu a minha casa e a minha escola, matou milhares de pessoas e meios de subsistência”, diz-me Marinel, numa entrevista por e-mail.

O que pensava ser um porto seguro desapareceu num ápice, mas ela recusou ser tratada como apenas “mais uma vítima, mais um dado estatístico”. Em 2015, juntou-se a cerca de 31 mil sobreviventes numa investigação histórica iniciada pela Comissão de Direitos Humanos das Filipinas, para apurar a responsabilidade de 47 empresas produtoras de carvão, cimento e combustíveis fósseis.

Hoje, aos 24 anos, a assistente social Marinel Ubaldo é uma das mais importantes activistas globais pelo clima. Fundou a Youth Leaders Environmental Action Federation (Federação de Líderes Juvenis para a Acção Ambiental) e é coordenadora da Campanha de Justiça Ecológica da Living Laudato Si’ Philippines (LLS), um movimento interconfessional iniciado por leigos católicos (*).  

Em nome do seu povo, discursou em duas cimeiras mundiais do clima organizadas pelas Nações Unidas, a COP 21, em 2011 em Paris, e a COP 25, em 2019 em Madrid. Em Setembro de 2018, durante a Semana do Clima em Nova Iorque, foi testemunha na Audiência Pública de Responsabilidade pela Justiça Climática, onde declarou que as emissões de gases de estufa produzidas por companhias poderosas, como a Shell Oil Manila, “põem em risco o direito à vida e à autodeterminação”.

Recentemente, Marinel recebeu treino da equipa do ex-vice-presidente americano Al Gore como Climate Reality Leader (Líder da Realidade Climática), para continuar a contar a sua história por todo o mundo.

No dia 3 de Novembro de 2013, o tufão Hayan/Yolanda, de categoria 5, a mais elevada na escala de Saffir-Simpson, arrasou praticamente tudo à sua passagem, com ventos superiores a 370 km/h e ondas de 15 metros de altura. Mais de 6300 pessoas morreram
© Jeoffrey Maitem | UNICEF Philippines

“Estou activamente envolvida na educação de crianças e jovens sobre as alterações climáticas e o papel que podem desempenhar para se adaptarem e mitigarem os seus efeitos”, explica-nos. “Pretendo chamar a atenção para a urgência de os dirigentes mundiais respeitarem os compromissos assumidos.”  Ela não quer piedade. Quer acção.

O tufão Hayan/Yolanda fez de Marinel uma “guerreira espiritual”, mas o seu despertar para as ameaças ao planeta acontecera um ano antes. “Em 2012, a minha escola enviou-me para um seminário de formação profissional da Plan International”, organização humanitária independente que trabalha em 71 países da Ásia, África e Américas, no sentido de promover os direitos das crianças e a igualdade das meninas.

“Desde então, tornei-me animadora/facilitadora, visitando outras escolas e comunidades remotas, para falar sobre alterações climáticas e como devemos agir para nos prepararmos.”

Nessas comunidades longínquas, onde muitos habitantes são analfabetos, Marinel recorre a peças de teatro ou emissões radiofónicas para transmitir a sua mensagem. A pandemia de covid-19 afectou este apoio presencial.

“De início, foi difícil ajustar-me às novas regras, porque tudo passou a ser online”, admitiu. “O desafio agora está em identificar as campanhas mais eficazes e com maior impacto que ainda podem chegar à nossa audiência-alvo.”

Nenhuma contrariedade parece desencorajar Marinel: “Devemos amplificar as nossas acções e influência, nos sectores público e privado, para que todos ajam em prol do clima. Foi assim que comecei a fazer lobbying junto do governo filipino e me mantive activa no movimento climático nacional e internacional. Quis levar a história da minha comunidade a uma plataforma internacional, para que soubessem que as alterações climáticas são uma realidade diária para numerosas pessoas em países vulneráveis.”

Seis anos depois do tufão Hayan/Yolanda, segundo a Amnistia Internacional, milhares de filipinos ainda não tinham sido realojados em áreas residenciais seguras, com acesso a água, alimentos, electricidade, casas de banho ou fontes de rendimento. Muitos foram transferidos para as proximidades de um aterro tóxico, onde pelo menos 11 morreram de doenças várias
© TIME

Marinel está orgulhosa do seu activismo: “A Youth Leaders for Environmental Action Federation é a principal organização ecologista, não-governamental e dirigida por jovens, em defesa da conservação do ambiente, de um desenvolvimento sustentável e da resiliência face às alterações climáticas nas [ilhas] Visayas Orientais.”

“Organizámos a primeira greve estudantil pelo clima nas Filipinas, com o objectivo de forçar o câmara municipal de Tacloban a proibir os plásticos não recicláveis e a declarar emergência climática na cidade. Queremos promover reformas através da criação de redes de associações de jovens e voluntários, a nível comunitário e regional.”

A celebridade de Marinel não é garantia de segurança. As Filipinas ultrapassaram o Brasil como o país mais violento do mundo para as pessoas que defendem as suas terras e o ambiente, segundo um relatório da organização independente Global Witness.

Em 2018 e 2017, foram mortos um total de 78 activistas – o número mais elevado registado na Ásia. Um terço das mortes registou-se na ilha de Mindanao, onde o governo do presidente, Rodrigo Duterte, planeia alocar milhares de hectares de terras para fins industriais. Metade das mortes estão relacionadas com negócios de extracção de madeira e mineração.

Protesto contra a indústria mineira nas Filipinas, país que ultrapassou o Brasil como o país mais violento do mundo para as pessoas que defendem as suas terras e o ambiente, segundo a Global Witness
© Erik De Castro | Reuters

Em 2019, furioso por o Conselho de Direitos Humanos da ONU ter decidido investigar os crimes da sua “guerra às drogas”, que já matou mais de 600 pessoas, Duterte suspendeu um empréstimo da Alemanha, de 36 milhões de dólares, para financiar um estudo sobre mudanças climáticas nas Filipinas – o quarto país do mundo mais ameaçado pelo impacto do aquecimento global.

Marinel, que confessa ter ficado “alarmada” com a recente detenção da activista Disha Ravi, 22 anos, por se ter solidarizado com os camponeses da sua Índia natal que protestam contra novas leis de regulamentação da indústria agrícola, confirma os perigos que enfrentam também muitos activistas filipinos.

“Infelizmente, têm sido silenciados, quer através de ameaças ou assassínio.” Mas, frisa ela, “não nos podemos deixar intimidar pelos que usam o seu poder em benefício próprio, por muito que sejamos oprimidos, sobretudo os mais pobres.”

“Temos de proteger os nossos direitos humanos. Não devemos ter medo de fazer a diferença. Nós importamos e, juntos, seremos capazes de tornar o mundo melhor.”

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(*) Inspirada pela segunda carta encíclica do Papa Francisco sobre “o cuidado da casa comum”, Laudato Si’ [Louvado Sejas], o movimento LLS foi formalmente criado em 7 de Novembro de 2018, na Catedral de Manila, na véspera do quinto aniversário do desastre causado pelo tufão Yolanda nas Filipinas. “Encorajamos as pessoas, sobretudo a comunidade católica, a erguer com orgulho a bandeira verde pelo ambiente e a viver segundo os ensinamentos sociais da Igreja”, lê-se no site da LLS.  “Uma via estratégica para encarar esta realidade triste é dizer aos administradores nomeados dos nossos recursos financeiros que retenham os depósitos, os investimentos e os empréstimos” às empresas cujas actividades económicas prejudicam o ambiente. O apelo estende-se às instituições católicas – “as nossas paróquias, dioceses, ordens religiosas, escolas, comunidade” – para que se unam e façam ouvir a sua voz da maneira mais poderosa possível”.

“Devemos amplificar as nossas acções e influência, nos sectores público e privado, para que todos ajam em prol do clima”, diz a activista filipina que se considera uma “guerreira espiritual”
© Cortesia de | Courtesy of Marinel Ubaldo

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Abril de 2021 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the April 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

Evelyn Acham: “Não podemos comer carvão e não podemos beber petróleo”

Nascida num país tropical “com apenas duas estações, a das chuvas e a da seca”, Evelyn Acham, 29 anos, pensou durante muito tempo ser este o padrão no resto do mundo. Mas não. (Ler mais| Read more...)

Evelyn Acham, activista ugandesa em defesa do clima e de um mundo melhor
© Cortesia de | Courtesy of Evelyn Acham

No Uganda, “secas prolongadas, desabamentos de terras e cheias devastadoras” ameaçam a existência e sobrevivência da população, e Evelyn Acham, jovem formada em Economia da Terra na Universidade de Makerere, a maior e mais antiga instituição de ensino superior em Campala, percebeu que tinha de se tornar numa “activista pela justiça climática.”

Evelyn é hoje a coordenadora nacional ugandesa do Rise Up Climate Movement, fundado pela compatriota Vanessa Nakate, para amplificar as vozes dos activistas africanos em defesa do clima. É também membro do movimento estudantil Fridays For Future, criado pela sueca Greta Thunberg, e do grupo de direitos humanos Defend the Defenders, que luta pela protecção da floresta de Zika.

“Apesar de alguns esforços do nosso governo, preocupa-me o facto de a lei no Uganda não dar a devida importância às alterações climáticas, o maior obstáculo ao desenvolvimento sustentável e aos planos para pôs fim à pobreza no país”, confessa Evelyn Acham, numa entrevista que me deu, por e-mail.

O activismo de Evelyn, iniciado em 2019, foi inspirado por Vanessa Nakate, que a revista americana TIME acaba de incluir entre os 100 nomes da sua lista Next Generation Leaders (Líderes da Próxima Geração). “Ao ver a minha amiga e colega de universidade fazer greve sozinha nas ruas de Campala, ao ver a sua paixão e o seu empenhamento pela salvação do planeta, despertou-me o interesse pelas alterações climáticas.”

A situação no Uganda é muito preocupante. Evelyn, que diz ter feito a sua própria investigação para colmatar o que não aprendeu com um sistema educativo deficitário, conta o que está a acontecer no distrito de Kasese [no ocidente], onde “vidas humanas e colheitas têm sido destruídas desde 2013, devido a inundações que fazem transbordar as margens do rio.

“O ano passado”, adianta, “o Lago Vitória atingiu níveis alarmantes, as águas subindo de 12 metros cúbicos para 13,32. Isto fez com que algumas casas ficassem submersas, deixando milhares de pessoas sem abrigo.”

Nas comunidades pantanosas do Uganda, as alterações climáticas estão a contribuir para a insegurança alimentar e a exacerbar o risco de violência contra as mulheres, segundo as Nações Unidas.
© UNDP Uganda
“O EACOP [na foto] vai resultar em mais emissões de carbono, em mais destruição da biodiversidade, em mais destruição de vidas humanas e propriedades”, condena Evelyn Acham
© stopeacop.net

Não é apenas a abundância de chuva que exacerba os problemas ambientais, mas também a rápida deflorestação. Árvores são cortadas para produzir combustível. Anualmente, a taxa de perda de cobertura florestal no Uganda é de 2,6% – uma das mais elevadas do mundo. Mais de 80% dos ugandeses ainda usam lenha para cozinhar, porque não têm energias alternativas.

Outro dos grandes desafios que se colocam aos activistas ugandeses é o East African Crude Oil Pipeline, um oleoduto que irá transportar petróleo do ocidente do Uganda para um porto na costa norte da Tanzânia, ao longo de 1445 quilómetros.

“O EACOP vai resultar em mais emissões de carbono, em mais destruição da biodiversidade, em mais destruição de vidas humanas e propriedades”, condena Evelyn. “Não podemos comer carvão e não podemos beber petróleo!”

Em Março, 260 organizações não governamentais, nacionais e internacionais, assinaram uma carta aberta a mais de uma dúzia de bancos para não financiarem este projeto avaliado em 3500 milhões de dólares. Os empréstimos pedidos totalizam 2500 milhões.

Porque a construção do EACOP, a cargo do gigante francês Total e de um conglomerado chinês, representa “riscos inaceitáveis” para as comunidades e o clima no Uganda, na Tanzânia e em toda a região, as ONG recomendam aos responsáveis governamentais que deixem de investir em infra-estruturas com base em combustíveis fósseis e apostem em energia renovável.

Evelyn Acham empunhando cartazes com algumas das palavras de ordem do movimento Rise Up: “Mudança de sistema e não mudança de clima”, “Não podemos ter justiça climática sem justiça racial”; “O dinheiro será inútil num planeta morto”
© Fotos partilhadas por Evelyn Acham na sua conta de Twitter (@eve_chantel)

“Em África, as raparigas e as mulheres são as mais afectadas pelas alterações climáticas, porque são as mais marginalizadas”, sublinha Evelyn Acham. “Quando acontece um desastre climático, as mulheres, porque são elas que andam a pé longas distâncias para pôr comida e água na mesa, deixam de poder alimentar as suas famílias”.

Outro drama relacionado com a insegurança alimentar, é o das “meninas que são oferecidas em casamento em troca de dinheiro”.

É, por isso que, nos seus protestos, Evelyn não reivindica apenas que as autoridades acabem com os combustíveis fósseis e transitem para a energia renováveis, mas também que as raparigas tenham acesso à educação sobre o clima “para ajudar a preservar os nossos eco-sistemas.”

Sem a protecção política de que beneficiam os mais privilegiados congéneres na Europa ou nos Estados Unidos, a activista ugandesa enfrentou, em 26 de Fevereiro, o que qualifica de “a pior experiência” da sua vida.  

Na companhia da amiga Abitimo Becca e do amigo Paphras Ayebale, Evelyn decidiu manifestar-se junto ao Parlamento em Campala, erguendo cartazes com a inscrição “I can’t breath, the air is polluted” (Não consigo respirar, o ar está poluído). Era um local movimentado, “perfeito para despertar consciências”, explicou posteriormente Ayebale.

“Subitamente, fomos cercados por sete agentes da polícia, a maioria deles homens”, relata Evelyn.  “O meu coração batia tão rápido. Fiquei assustadíssima. Fomos colocados numa pequena cela e ordenaram-nos que nos sentássemos no chão.”

Tem sio rápida a deflorestação no Uganda. Árvores são cortadas para produzir combustível. Anualmente, a taxa de perda de cobertura florestal no país é de 2,6% – uma das mais elevadas do mundo. Mais de 80% dos ugandeses ainda usam lenha para cozinhar, porque não têm energias alternativas.
© PBS
Secas frequentes têm aumentado a distância que os habitantes de muitas aldeias no Uganda têm de percorrer para obter água
© sierraclub.org

“Os agentes pronunciavam palavras ameaçadoras, ‘podemos torturar-vos, podemos fazer com que desapareçam e ninguém saberá o que vos aconteceu nem vos encontrará.’ Temi que a minha família não mais me visse. Fiquei em estado de choque, traumatizada. Só consegui manter-me firme porque não estava sozinha.”

“Fomos libertados na condição de não voltarmos a fazer greve em público”, informa Evelyn. “Os nossos placards e telemóveis foram confiscados.”

“Obrigaram-nos a apagar todas as fotos da greve daquela sexta-feira. Que experiência tão dolorosa! Não desejo isto a ninguém, mas não é isto que vai terminar o meu activismo, porque as alterações climáticas não acabaram na cela onde fui detida. Vou continuar a protestar, nas ruas ou em casa.”

As greves já haviam sido afectadas por causa do confinamento imposto para travar a covid-19. “A pandemia limitou a nossa audiência, porque as greves online chegam apenas aos mais jovens e não às gerações ausentes das redes sociais. Temos de chegar a estas presencialmente”, constata Evelyn.

A crise sanitária actual “mostrou que é possível aplicar soluções o mais rapidamente possível. Basta ver como, perante o coronavírus, os líderes entraram em pânico e aceitaram adaptar-se a todas as medidas desconfortáveis. As alterações climáticas devem também ser tratadas como uma emergência”.

“Porque são um problema de saúde, de género, de educação, racial e social, as alterações climáticas devem preocupar toda a gente”, conclui Evelyn.

“Todos devem participar nesta luta. Não interessa a nossa idade ou a nossa cor. Pequeno ou grande, o nosso contributo é importante. Todos os activistas têm uma história e todas as histórias têm uma solução. E cada solução tem uma vida para mudar.”

Evelyn Acham [à direita] e Vanessa Nakate, compatriota e fonte de inspiração do seu activismo. Nos cartazes que erguem lê-se: “Unam-se à ciência” e “Não podemos comer carvão… não podemos beber petróleo”.
© Foto partilhada por Evelyn Acham na sua conta de Twitter (@eve_chantel)

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Abril de 2021 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the April 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

O solidéu branco e o turbante negro: uma aliança visionária

Foi uma viagem audaciosa, histórica, memorável ao berço da civilização – provavelmente a mais importante de oito anos de pontificado de Francisco. E um dos marcos da visita do papa ao Iraque foi, sem dúvida, o seu encontro com o Ayatollah Sistani. (Ler mais | Read more…)

O Papa Francisco e o Ayatollah Sistani num encontro considerado histórico, em Najaf
© Vatican Media | AP

De saúde frágil, no meio de uma pandemia e de uma grave crise de segurança, com um número crescente de mortes por Covid-19 e um ressurgimento de atentados suicidas no Iraque, o Papa Francisco, 84 anos, foi não apenas ao encontro do seu perseguido rebanho cristão, mas também de um interlocutor estratégico para a coexistência inter-religosa.

Todas as paragens do chefe da Igreja Católica, em quatro dias de peregrinação, foram simbólicas. Das cerimónias de boas-vindas, no aeroporto e palácio presidencial de Bagdad, à monumental missa de despedida, num estádio em Erbil. Das ruínas de Mosul, antiga “capital” dos genocidas do Daesh, a Qaraqosh, duas cidades de onde dezenas de milhares de cristãos fugiram para evitar escolher entre a sua fé e a sua vida, numa terra que habitam há quase 2000 anos.

Por todos estes lugares da antiga Mesopotâmia, onde havia 1,5 milhões de cristãos em 2003 e hoje serão uns 250 mil, ressoaram os apelos do papa à fraternidade, ao perdão e à paz. Mas também à construção de uma “sociedade democrática”, com “direitos para todos”, para que ninguém seja tratado como “cidadão de segunda classe” – árabes ou curdos, assírios ou arménios, mandeus ou sabeus, yazidis ou kakai, circassianos ou zoroastras.

O Papa Francisco em visita à destruída igreja siríaca de Al-Tahera, em Mosul, Iraque, em 7 de Março de 2021
© Paul Haring | CNS | thedialog.or

Foi pena que Francisco, justamente solidário com os yazidis, “vítimas inocentes duma barbárie insensata e desumana” e com a sua identidade e sobrevivência ainda em risco, não tivesse evocado também, no seu encontro com líderes religiosos em Ur, a pátria de Abraão, o êxodo forçado da outrora florescente comunidade judaica.

De 2700 membros, restarão apenas seis adultos em Bagdad, e 70 a 80 famílias no Curdistão. O Vaticano garantiu que convidou responsáveis da diáspora hebraica. Os governantes iraquianos recusaram a ideia, supostamente por “temerem ligações a Israel”.

Das várias reuniões de alto nível que o papa teve durante esta visita, a mais extraordinária, porque sem precedentes na história religiosa moderna, foi o encontro de 40 minutos com o nonagenário Grande Ayatollah Ali Sistani, considerado “a mais influente autoridade xiita”.

Najaf: Mesquita de ‘Alī ibn Abī Tālib, que os discípulos veneram como legítimo herdeiro de Maomé
© James Gordon | thousandwonders.nt

A audiência foi privada, na casa espartana do recluso Sistani, em Najaf, uma “cidade santa” por aqui estar sepultado ‘Alī ibn Abī Tālib, que os discípulos veneram como legítimo herdeiro de Maomé. Foi uma disputa pela sucessão do profeta do islão, entre os partidários de Ali (genro e primo) e os de Abu Bakr (sogro e primeiro companheiro), que dividiu os muçulmanos em sunitas e xiitas.

A um papa de casula e solidéu brancos, que se descalçou para o ver, Sistani, no seu turbante e túnica negros, ofereceu mais do que a honra rara de se levantar para o receber: abriu-lhe as portas de uma parceria estratégica entre católicos e xiitas numa das regiões mais convulsivas do mundo.

“Os cristãos, como todos os iraquianos, devem viver em paz e segurança, com plenos direitos constitucionais”, declarou o anfitrião. “É dever dos dirigentes religiosos proteger todos os que nos últimos anos foram vítimas de injustiças.”

Às palavras de Sistani seguiu-se a decisão do primeiro-ministro de declarar o 6 de Março “Dia Nacional de Tolerância e Coexistência”. Os cristãos e outras minorias agradecem a solidariedade, mas o que gostariam mesmo é que cessassem as campanhas de intimidação contra as suas comunidades (e as comunidades sunitas), por parte de milícias xiitas, sobretudo as que o Irão financia para confrontar tropas americanas no Iraque.

No Outono de 2019, jovens iraquianos – de várias confissões religiosas, mas sobretudo xiitas e cristãos – protestaram durante vários dias contra o sistema sectário e corrupto em vigor. As manifestações foram reprimidas, mas o Ayatollah Sistani tomou o partido da rua e forçou a demissão do primeiro-ministro
© AFP| middleeasteye.net

Sistani é uma voz poderosa e decisiva na política iraquiana. Em 2004, depois de obrigar os EUA a alterarem os seus planos de transição pós-invasão, foi ele quem uniu as facções desavindas xiitas, para aceitarem eleições e uma Constituição.

Quando a Al-Qaeda começou a massacrar xiitas e a destruir à bomba os seus santuários, ele aconselhou os fiéis a não procurar vingança. Mas, em 2014, perante o avanço do autoproclamado Estado Islâmico, apoiou “tacitamente” a criação de Unidades de Mobilização Popular (milícias extrajudiciais que se tornaram num pesadelo), para evitar o colapso das forças de segurança iraquianas.

Em 2019, na sequência de gigantescas manifestações de protesto – que uniram jovens xiitas e cristãos – contra um sistema “sectário e corrupto”, um sermão de Ali Sistani, de apoio aos manifestantes, conduziu à demissão do então chefe de Governo, Adil Abdul-Mahdi. Todos precisam da sua bênção.

Perseguidos, tal como os curdos, durante o regime secular de Saddam Hussein – um ditador que “tolerava” os cristãos (nomeou um deles, Tarek Aziz, ministro dos Negócios Estrangeiros), embora os sujeitasse a “programas de repovoamento”, para os afastar das regiões mais ricas – os xiitas, a maioria da população, tornaram-se no poder dominante após a invasão americana.

Líder da Hawza, a mais importante instituição xiita, Sistani é responsável por um seminário criado em Najaf no século XI. A Hawza oferece apoio espiritual e forma teólogos em jurisprudência ou exegese do Corão. Não depende de nenhum governo, em termos financeiros, políticos ou intelectuais. É financiada por 250 milhões de xiitas espalhados pelo mundo.

Sistani é líder da Hawza, a mais importante instituição xiita, e é responsável por um seminário criado em Najaf no século XI
© Abdullah Dhiaa Al-Deen | Reuters

Depois de meses de negociações, a escolha de Sistani como interlocutor, um ayatollah nascido no Irão que insiste na separação entre Estado e religião, parece indicar que o papa confia mais na milenar “escola de Najaf”, do que na de Qom, um púlpito que existe há menos de um século, mas que beneficia dos milhões nele investidos desde que outro ayatollah, Khomeini, lançou as bases para derrubar a monarquia persa e instaurar uma república islâmica, em 1979.

Sistani nunca reconheceu o conceito de velayat e-faqhi (governo do jurista) imposto aos xiitas iranianos por Khomeini, e não mantém contactos directos com o radical Ayatollah Ali Khamenei, actual Guia Supremo em Teerão.

Tendo o papa como aliado, Najaf poderá recuperar a projecção internacional que Qom lhe retirou. E Sistani (ou o seu sucessor) poderão oferecer aos cristãos a garantia de proteção que Francisco pediu para a sua igreja.

No seu livro The Shia Revival: How Conflicts Within Islam Will Shape The Future, o académico iraniano Vali Nasr refere vários paralelismos entre o xiismo e o catolicismo. Por exemplo, “a hierarquia xiita é semelhante à católica, a única diferença está no facto de o xiismo não ter um papa para impor a doutrina e ser a congregação quem decide a proeminência de um ayatollah”.

Xiitas de Najaf preparam cartazes para celebrar o encontro entre Francisco e Sistani
© Reuters | The National

Também as procissões da Ashura, que comemoram o martírio de Hussein, filho de Ali, são muito parecidas com as cerimónias da Via Sacra, e até as práticas mais extremas de flagelação se comparam aos rituais de alguns penitentes na Semana Santa.

No xiismo, tal como no catolicismo, há ainda a devoção a santos, a crença no livre arbítrio (em oposição à doutrina sunita da predestinação) e orações de intercessão.

A Hawza de Najaf é “a guardiã da sociedade e uma válvula de segurança em tempo de crises”, diz Marsin Alshamary, investigadora no think-tank Brookings Institution, em Washington, que prepara um livro sobre o “clero” xiita.

Ao unir-se ao xiita Sistani, depois de, em 2019, ter assinado com o sunita Ahmad Al-Tayyeb, Grão-Imã da Mesquita de Al-Azhar no Cairo, o Documento sobre a Fraternidade Humana, Francisco reforça as fundações do diálogo inter-religioso, na esperança de realizar o sonho de uma irmandade universal, inscrito na sua encíclica Fratelli Tutti (“Todos Irmãos”).

© Associated Press

Esta análise foi publicada originalmente no site setemargens.com em 12 de Março de 2021 | This analysis was originally published in the Portuguese website setemargens.com on March 12, 2021

“O Papa Francisco vem enxugar as nossas lágrimas”

É a primeira visita de um chefe da Igreja de Roma a um país onde o Cristianismo chegou há mais de 1500 anos, mas hoje corre o risco de extinção. É um momento de esperança para os cristãos iraquianos, como Dunya Mikhail, um dos maiores nomes da poesia iraquiana. “Precisamos mesmo de um milagre para termos uma vida normal.” (Ler mais| Read more...)

© Ayman Henna | AFP | Al Jazeera

© Vincenzo Pinto | AFP

Em Março de 2003, quando começou a invasão americana para desmantelar (inexistentes) armas de destruição maciça nos arsenais de Saddam Hussein, havia cerca de 1,5 milhões de cristãos no Iraque. Já só eram 500 mil quando, em 2014, o autoproclamado Estado Islâmico ou Daesh iniciou uma campanha genocida. Estima-se agora que totalizem entre 125 mil e 200 mil*.

Dezoito anos depois da intervenção que abriu as portas do inferno aos cristãos do Iraque, o Papa Francisco visita esta terra sagrada, para confortar e dar esperança a uma pequena comunidade – apenas 3% da população – perseguida e em risco de desaparecer. É uma viagem que os seus predecessores sonharam, mas nenhum concretizou.

A peregrinação de Francisco, de 5 a 8 de Março, inclui BAGDAD (aqui, além de encontros com dirigentes políticos e membros do corpo diplomático, recebe líderes religiosos, seminaristas e catequistas na Catedral Siro-Católica de Nossa Senhora da Salvação, onde, há dez anos, mais de 50 cristãos foram mortos num massacre cometido pelo Daesh); NAJAF (onde fará uma visita de cortesia ao mais importante líder religioso xiita, o Ayatollah Sistani); NASSIRYA e UR (terra-natal de Abraão, o patriarca das três religiões monoteístas); ERBIL (capital do autónomo Curdistão iraquiano, que acolhe milhares de cristãos escorraçados das suas casas); MOSUL (onde, na Praça da Igreja, Hosh al-Bieaa, recitará uma oração em memória das vítimas da guerra); e QARAQOSH, na planície de Nínive (um dos berços do Cristianismo).

Entre os que depositam esperança nesta missão apostólica está Dunya Mikhail, uma das vozes mais importantes da poesia iraquiana. “A guerra foi sempre uma derrota para a humanidade”, diz à Além-Mar, numa entrevista por e-mail. “O Papa vem ao Iraque porque quer enxugar as nossas lágrimas. Nós, os iraquianos, estamos exaustos, e chegou o tempo de descansarmos.”

“Ele traz consigo uma vela de esperança ao antigo território da Mesopotâmia onde profetas jazem ao lado dos construtores de zigurates. Ele quer sarar as nossas feridas com o seu toque de fraternidade. Precisamos mesmo de um milagre para termos uma vida normal.”

© Safin Hamed | AFP

©Andrew Medichini | Associated Press

Dunya, que pertence à maior denominação cristã do Iraque, a Igreja Católica Caldeia, recorda com pesar os acontecimentos cataclísmicos gerados pela queda de Mosul e a criação do “califado” do Daesh em 2014. “Nunca pensei que, nos nossos tempos modernos, pudéssemos ver mulheres a ser vendidas em mercados. Lemos sobre as sabaya (escravas) nos livros de história, mas, ver isto a acontecer à frente dos nossos olhos, superou a minha imaginação.”

Um dia, quando telefonou a uma prima na sua aldeia, em Nínive, e ela não atendeu a chamada, Dunya ficou inquieta. “Mais tarde, vim a saber que, ao acordar, [os meus familiares] tinham visto a letra ‘N’ (símbolo de Nasara [ou “cristãos]) inscrita nas suas portas e que haviam sido forçados a partir em direcção ao desconhecido.”

“Aquela casa pertencera aos meus avós e foi herdada pela minha tia, que não queria deixar o país, apesar das guerras e das adversidades”, relata Dunya. “O seu filho implorara-lhe que fosse com ele para a Suécia, mas ela dissuadiu-o, ‘Não, lá faz muito frio, meu filho, e se todos partirmos quem irá ficar aqui na terra de meu pai?’”

“A minha tia morreu e a minha prima ficou naquela casa até ao dia em que foi obrigada a sair. Ainda que ela tivesse partido sem nada nas mãos, teve mais sorte do que os que foram aprisionados pelo Estado Islâmico.”

“Também eu me fui embora só com uma mala e, apesar de ter sido duro encaixar a minha vida numa mala, senti mais tarde que foi um luxo o que me aconteceu, comparado com o que viria a suceder ao meu povo, forçado a partir à pressa, carregando crianças, medo e tristeza nos seus ombros.”

Com o “N” pintado a vermelho nas portas, o Daesh dava os cristãos um prazo de 24 horas para abandonarem as casas onde viveram durante mais de 1500 anos ou enfrentarem a morte.

© Vatican Media | AFP

Dunya Mikhail procurou refúgio nos EUA em 1996. Tradutora e jornalista do antigo diário Baghdad Observer, fora colocada numa “lista de traidores” durante o regime de Saddam Hussein.

“Era problemático dizer a verdade num lugar e num tempo em que queriam que mobilizássemos soldados para a guerra, para terem uma morte sem sentido”, explicou-nos numa anterior entrevista, quando publicou o seu mais famoso livro, O Apicultor de Sinjar.

“Para ser escritora, eu precisava do pensamento livre. A censura foi a principal razão por que deixei o meu país. Alguns dos meus escritos foram considerados ‘subversivos’. Consegui partir e chegar à América porque tinha aqui familiares.”

Para muitos iraquianos, o caminho do exílio continua a ser a única alternativa de sobrevivência. Em consequência do genocídio – reconhecido pela comunidade internacional – centenas de milhares de cristãos, sem lugar seguro para viver, abandonaram a pátria.

Os mais afortunados conseguiram chegar ao Ocidente ou à Austrália, mas a maioria, mais de 200 mil, continua a viver na pobreza ou na miséria na Turquia, no Líbano e na Jordânia, países onde leis discriminatórias os proíbem de procurar emprego e onde o mundo os ignora.

© Vincenzo Pinto | AFP

© Vatican Media | Reuters

Será que os “primeiros cristãos” – a fé chegou à antiga Mesopotâmia no século I d.C., e há provas históricas de que, no século II d.C., já aqui existiam igrejas, escritores e mártires cristãos ** – estão condenados a ser os últimos?

“É uma pergunta legítima”, reconhece Dunya. “Os meus antepassados, os caldeus, viveram originalmente em Ur desde a criação do mundo (não sei exactamente quando é que o mundo foi criado, mas as suas palmeiras poderão dizer-nos isso). Devido a guerras e invasões naquela região tiveram de partir mais para norte, simplesmente porque ali havia montanhas onde se poderiam esconder e procurar refúgio. As grutas e os rochedos nas montanhas eram mais suaves do que os corações humanos.”

Se a emigração “alargou os horizontes” de Dunya, “tal como acontece com os pássaros”, o futuro dos cristãos no Iraque continua, aparentemente, num precipício.

Em Outubro de 2019, muitos deles, os mais jovens em particular, juntaram-se aos milhares de muçulmanos que saíram às ruas exigindo o fim do “sistema político sectário corrupto” que os empurra para o abismo. As suas esperanças foram, porém, desfeitas por blocos poderosos, de xiitas e sunitas, interessados em manter o statu quo.

Dunya Mikhail diz-se “orgulhosa destes protestos pacíficos e do seu slogan, simples e eficaz: ‘Queremos um país’”. E acrescenta: “Os seus pequenos veículos tuk-tuk eram como super-heróis, distribuindo pão e levando os feridos aos hospitais. [Os manifestantes] enfrentaram balas e gás lacrimogéneo. Alguns foram mortos, mas as suas ideias não morrem. As suas palavras e arte em graffiti nas paredes e túneis de Bagdad continuarão a lembrar-nos do sonho de viver em dignidade e liberdade.”

* In: The Disappearing People: The Tragic Fate of Christians in the Middle East, de Stephen M. Rasche.

** In: Christianity in Iraq, de Suha Rassam.

Dunya Mikhail
© Nina Subin | ndbooks.com

Dunya Mikhail nasceu em Bagdad em 1965, e vive em Detroit, no estado americano do Michigan, onde é professora de árabe, na Universidade de Oakland. É autora de várias colectâneas de poesia. The War Works Hard, o seu primeiro livro traduzido para inglês por Elizabeth Winslow, ganhou o Prémio de Tradução PEN. In Her Feminine Sign foi considerado um dos dez melhores livros de poesia pela Biblioteca Pública de Nova Iorque. Diary of a Wave Outside the Sea recebeu o Arab American Book Award. Com O Apicultor de Sinjar, onde narra as histórias dramáticas de mulheres yazidis escravizadas pelo Daesh e do homem que as resgatou, Dunya Mikhail obteve louvor internacional, incluindo o Human Rights Award for Freedom of Writing, atribuído pelas Nações Unidas. Os críticos elogiam a “ironia e simplicidade subversiva” com que aborda os temas da guerra, do exílio e da perda. A sua obra mais recente é também o seu primeiro romance, Washm al-Tair. “Ainda só está publicado em árabe, mas terá uma versão em inglês”, diz-me Dunya. “É sobre uma mulher yazidi que conhece um jornalista por causa de um pássaro. Depois de se casarem, ela é raptada por terroristas e a sua vida muda para sempre. Baseia-se numa história verídica, mas, para contar a verdade, usei mitologia, rituais populares e imaginação. Habitualmente, escrevo poesia, mas senti um apelo interior profundo para compor esta história como um romance.”

“Sem segurança e oportunidades económicas, o êxodo dos cristãos irá continuar”

Stephen Rasche, vice-reitor da Universidade Católica de Erbil, no Curdistão iraquiano, alerta para “o sofrimento sem fim à vista” de um “povo maltratado”. A visita do Papa “terá um significado histórico extraordinário, se tudo correr bem”. Mas o que acontecerá depois das eleições de 10 de Outubro? Num país dilacerado por conflitos interconfessionais, as principais vítimas têm sido sempre as minorias.

© Taha Hussein Ali | Getty Images | The New York Times

Advogado internacional durante 25 anos, o americano Stephen Rasche deixou tudo para trás em 2010, para ajudar a preservar a Igreja Caldeia do Iraque. Na região autónoma do Curdistão, é hoje vice-reitor da Universidade Católica de Erbil (CUE, Catholic University in Erbil) e director do Institute for Ancient and Threatened Christianity (IATC).

Foi o seu amigo Bashar Matti Warda, arcebispo de Erbil, com quem havia trabalhado anteriormente, que o convenceu a ser um dos fundadores da universidade, cujo objectivo é garantir que os alunos cristãos desalojados da cidade de Mosul e da planície de Nínive continuem a ter acesso ao ensino superior. Quando o Estado Islâmico/Daesh iniciou a sua campanha genocida, em 2014, a arquidiocese de Erbil tornou-se no principal refúgio de dezenas de milhares cristãos em fuga.

A CUE foi inaugurada em 2015, beneficiando de uma “bolsa generosa” da Conferência Episcopal Italiana, que “foi crucial” para o seu desenvolvimento, diz-me Rasche numa entrevista por e-mail.

“Somos agora uma universidade acreditada pelos ministérios da educação superior em Erbil e em Bagdad, o que nos permite receber fundos de instituições e governos estrangeiros e, consequentemente, garantir a nossa sustentabilidade e o nosso importante papel na comunidade educativa do Iraque.”

A decisão de deixar os Estados Unidos, para responder ao que considera “uma vocação” teve “consequências financeiras graves”, mas contribuiu para o crescimento da sua fé, anota Rasche, autor do livro The Disappearing People: The Tragic Fate of Christians in the Middle East.

“Estes são, sem dúvida alguma, os anos mais gratificantes da minha vida, até agora. Trabalhar tão longe da minha área, sem qualquer rede de segurança, afectou profundamente o que penso sobre o que a Igreja ainda é e o que poderá ser neste mundo fracturado.”

Vice-reitor com a responsabilidade de gerir as relações internacionais, Rasche ajudou também a estabelecer vários institutos de investigação, um deles dedicado à liberdade religiosa, “porque afecta, em particular, as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo”.

“O nosso testemunho cristão e a nossa experiência no Iraque deram-nos uma posição moral única e a seriedade para, nesta área, falar e educar a nível internacional”, salienta Rasche. Foi com isso em mente que foi criado o Institute for Ancient and Threatened Christianity (IATC).

Com uma delegação a funcionar nos EUA desde o ano passado, actua não só no Médio Oriente, mas também na Nigéria, um país onde, em 2020, o número de cristãos assassinados por muçulmanos extremistas subiu 60%.

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Como é que os cristãos que vivem no Iraque receberam a notícia da visita do Papa Francisco e o que esperam dele?

Os cristãos no Iraque estão, naturalmente, muito felizes. Sobretudo, porque não é apenas a primeira viagem do Papa ao estrangeiro desde o início da pandemia de Covid-19 – é a primeira visita papal de sempre!

É uma viagem de risco?

Podemos dizer que é de alto risco. Porque no Iraque há sempre riscos de segurança, e porque são muito elevadas as expectativas destes cristãos que há tanto tempo sofrem. A visita, com um itinerário muito intenso, é um esforço corajoso do Santo Padre. Se tudo correr bem, terá um significado histórico extraordinário. Todos os cristãos do Iraque rezam por isso.

Os cristãos iraquianos pertencem a uma das igrejas mais antigas e gloriosas do mundo. Para eles, a religião tem sido um símbolo de identidade, mais do que a nacionalidade. Como é que define esta comunidade e a sua fé, no século XXI?

Pode dizer-se que os cristãos que restam no Iraque são um povo missionário, dado que o seu número tem vindo a diminuir imenso nas últimas décadas. Posso dizer que muitos se vêem a si mesmos como um povo sobrevivente com a missão de preservar o genuíno testemunho cristão no Iraque. Depois do flagelo que foi o genocídio cometido pelo Estado Islâmico, os cristãos no Iraque encontraram uma verdadeira solidariedade nos primeiros apóstolos e na história da sua perseguição.

As actuais perseguições e dificuldades económicas contribuíram para que haja mais cristãos na diáspora do que no Iraque. Espalhados pelo mundo, como conservam os seus rituais, línguas e dialectos?

Os cristãos iraquianos na diáspora têm muitas comunidades prósperas na América do Norte, na Europa, e também na Austrália e na Nova Zelândia. Em todas elas há padres e outros religiosos oriundos do Iraque que se esforçam por preservar a fé. Na maioria dos casos, essas igrejas florescem, embora enfrentem, como todos os imigrantes, pressões para manter as tradições e línguas ao longo de gerações.

© The Economist

No seu livro The Diasappearing People, relata as visitas que fez a várias povoações e igrejas devastadas no Iraque. Constatou, por exemplo, que, depois do Estado Islâmico, muitos cristãos continuam impedidos de regressar às suas casas. Entrevistou cristãos que deixaram a pátria, porque incapazes de proteger as suas famílias. A Covid-19 veio, entretanto, agravar as condições de vida. Como avalia a situação presente?

Os efeitos da Covid-19 sentiram-se por todo o mundo, mas, no caso dos cristãos do Iraque, a pandemia é a última de uma longa e brutal série de acontecimentos: uma guerra [desencadeada pela invasão americana em 2003] seguida de uma guerra civil, seguida de uma violenta perseguição, seguida de mais guerra, seguida de um genocídio, a que se seguiram mais combates e instabilidade civil, e finalmente a pandemia.

Este povo tem sido tão maltratado, que tudo por que anseia é o fim da violência, o regresso de uma segurança básica e do estado de Direito.

Infelizmente, a situação civil e de segurança no Iraque permanece incerta, principalmente porque deverá haver eleições, talvez no Outono [o escrutínio foi adiado de 6 de Junho para 10 de Outubro; o acto eleitoral anterior, em 2018, ficou marcado por acusações de fraude e corrupção]. Como sempre, em áreas de conflito interno, são sempre as minorias que sofrem – no Iraque, são inevitavelmente os cristãos e os yazidis.

Também refere, no seu livro, relações tensas com os curdos (suspeitos de os atraiçoarem) e actos de hostilidade por parte de milícias xiitas pró-iranianas (que fazem a vida dos cristãos um inferno). Como explica estas pressões?

É complexo o relacionamento actual dos cristãos com os curdos. Por um lado, os dirigentes do Governo Regional do Curdistão [chefiado por Masrour Barzani, filho do líder histórico Massoud Barzani] têm sido grandes apoiantes da comunidade cristã no Iraque. Por outro lado, nos escalões mais baixos [da sociedade], ainda existem várias formas de perseguição e discriminação por parte dos curdos contra as minorias, designadamente cristãos e yazidis. Isto não é segredo e é reconhecido pelas autoridades curdas.

Da parte deles (líderes curdos), vai ser preciso um contínuo e forte compromisso, além de um exemplo claro, para garantir a viabilidade a longo prazo dos cristãos no Curdistão. Quanto às milícias pró-iranianas, são uma das maiores ameaças aos cristãos, sobretudo na planície de Nínive.

Apesar de a Igreja ser firme na condenação de todas as milícias, e de o Governo iraquiano ter feito várias promessas e esforços para controlar tais grupos, os milicianos continuam activos. Enquanto permanecerem senhores de facto em Nínive, o futuro não só continuará a ser muito difícil para os cristãos, como se manterá o factor mais importante que impede e dissuade os outros cristãos de ali regressarem.

© Associated Press

O Papa fará uma visita de cortesia ao Ayatollah Sistani, o mais importante dirigente religioso xiita. O que espera deste encontro? Em 2019, jovens cristãos e muçulmanos saíram à rua, exigindo o fim do sectarismo no Iraque, mas os seus protestos pacíficos foram esmagados por forças poderosas. Está condenado este processo de reconciliação, que gerou tanta esperança?

A mão estendida do Santo Padre ao Ayatollah Sistani é consistente com os seus esforços para conseguir um maior entendimento entre as várias religiões.

No contexto do Iraque, há outra realidade: as tensões religiosas causam caos e dor a toda a gente – cristãos e muçulmanos. Rezamos para que o encontro com Sistani possa abrir o caminho ao bem comum. Nos protestos de 2019, parecia real a possibilidade de união de todos os iraquianos. Ela ainda existe nos corações dos jovens. Se há futuro de esperança para o Iraque, está nesses jovens.

No seu livro, critica a invasão ordenada pelo presidente George W. Bush e as “políticas falhadas” adoptadas pelo sucessor, Barak Obama, em relação ao Iraque a à Síria. Donald Trump também frustrou as esperanças que nele depositavam “a grande maioria” dos cristãos iraquianos. Qual a expectativa em relação ao católico Joe Biden?

Os cristãos aqui aguardam um sinal claro de Joe Biden quanto à posição dos Estados Unidos em relação ao Iraque, em geral, e à questão das minorias religiosas, em particular. Qualquer apaziguamento face ao Irão será potencialmente prejudicial aos cristãos, na medida em que só reforçará as milícias apoiadas por Teerão.

No Departamento de Estado americano há muitos especialistas em Médio Oriente que compreendem bem isto, e temos esperança de que eles ajudarão a Administração Biden a trilhar o que é, reconhecidamente, um caminho muito difícil. Os cristãos iraquianos – mais de 80% dos quais são católicos – confiam em que, por ser católico, Biden conduzirá a uma nova atitude quanto ao lugar importante que representa a Igreja no Iraque.

A visita do Santo Padre é uma poderosa declaração de solidariedade que, obviamente, não passará despercebida em Washington.

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São sombrios os números relativos aos cristãos no Iraque: de 1,5 milhões em 2003 para menos de 125 mil, actualmente. Depois de sobreviver quase dois mil anos, esta comunidade poderá desparecer “na próxima década”, alerta o seu livro. Que tipo de ajuda pode ser eficaz para se ir da “Crucificação à Ressurreição”?

Há duas áreas principais que, provavelmente, determinarão a trajectória da população cristã que sobrevive no Iraque: segurança e oportunidade económica. É claro que ambas estão interligadas.

Se o Iraque, com adequada assistência da comunidade internacional, conseguir acabar com a violência constante entre facções no poder e conceder direitos iguais e legítimos a todos os seus cidadãos, incluindo as minorias, abrir-se-ão enormes oportunidades económicas neste país, o qual, objetivamente falando, deveria ser um dos mais ricos do mundo.

Os resultados das próximas eleições nacionais serão um indicador real sobre se isto é possível ou se o Iraque é simplesmente incapaz de acabar com o ciclo de violência e corrupção que o deixou no estado actual.

Na frente económica, há um limite ao que a ajuda internacional pode fazer em termos de criar oportunidades a longo prazo. O lado negativo da criação de uma cultura de dependência é a questão-chave, e vemos isso em muitos lugares do mundo, incluindo no Médio Oriente.

Os cristãos iraquianos estão numa fase em que as parcerias económicas com grupos estrangeiros continuam a ser uma necessidade fundamental a curto prazo, para poderem abrir e desenvolver a sua pequena economia. Estas formas de assistência precisam, todavia, de ser orientadas para criar auto-suficiência e sustentabilidade. Seja como for, não há qualquer dúvida de que, sem melhores oportunidades económicas, o êxodo dos cristãos irá continuar.

Stephen Rasche
© Cortesia de | Courtesy of Stephen Rasche

As igrejas do Ocidente têm-se esquecido das igrejas do Oriente

Um estudioso do Cristianismo no Médio Oriente que escolheu viver entre refugiados na Alemanha, o monge Andreas Knapp louva “a decisão corajosa” do Papa Francisco de visitar o Iraque. Porque é importante salvar uma comunidade que, apesar das perseguições e dos massacres, não renuncia à sua fé.

Cristãos palestinianos, em Jerusalém Leste, sob ocupação israelita
© Ed Kashi | Newsweek

Fascinado pela história, cultura e rituais dos cristãos do Médio Oriente, sobretudo desde que descobriu a existência de comunidades que ainda se exprimem em aramaico, a língua de Jesus, o monge e poeta Andreas Knapp conhece bem o sofrimento dos que foram obrigados a deixar as suas casas em busca de um porto seguro na Europa.

Foi para se dedicar a estes refugiados, a maioria deles muçulmanos, mas também cristãos perseguidos por terroristas da Al-Qaeda e do Estado Islâmico/Daesh, que o Irmão Knapp, de 63 anos, sacrificou um posto seguro de reitor do Seminário de Friburgo e um futuro promissor como teólogo.

Instalou-se no maior projecto de habitação social de Leipzig, na antiga Alemanha de Leste, foi operário numa empresa de embalagens e partilha um apartamento pré-fabricado com três companheiros da sua comunidade dos Pequenos Irmãos de Jesus, inspirada na vida do beato Charles de Foucauld.

A sua missão de apoio a refugiados e a reclusos está bem resumida num dos seus poemas: o nosso bairro/ é o nosso claustro. (…) as oficinas dos nossos mosteiros / são as fábricas / os rostos das pessoas / são os ícones que veneramos / e nos semblantes marcados pelo sofrimento/ vemos o Crucificado.

“Tentamos seguir o exemplo de vida de Jesus de Nazaré, por isso, tal como Ele, procuramos ter um trabalho simples e viver com pessoas que estão à margem na sociedade”, diz-me Knapp, numa entrevista por e-mail. “Deus pode assim ser encontrado entre os que nada significam aos olhos do mundo.”

Cristãos egípcios celebram a Quaresma numa igreja do Cairo
© Mosa’ab Elshamy | TIME

Entre os cristãos que cruzaram o caminho de Knapp estão Yousif e Tara, provenientes de Mosul, a cidade iraquiana onde o Daesh iniciou a sua campanha genocida.

Crentes devotos da Igreja Ortodoxa Síria, a vida deste casal mudou para sempre quando, depois da invasão americana em 2003, chefes religiosos muçulmanos começaram a apelar a uma “guerra santa” contra os “infiéis”.

Obrigados a pagar um imposto especial (jizya) pelo “privilégio” de praticarem, com restrições, a sua religião, as quantias exigidas – e o terror – aumentavam de ano para ano. Apesar disso, Yousif e Tara não planeavam deixar Mosul. Até ao dia em que ele recebeu um telefonema anónimo com a ameaça de que lhe cortariam o braço esquerdo, onde tinha uma cruz tatuada. Mais tarde, receberia um ultimato: “Tens três dias para partir, ou vais para o inferno.”

Não havia alternativa. Yousif e Tara pegaram nos dois filhos e fugiram para Erbil, no Curdistão autónomo iraquiano. Foi aqui que ele tomou a “decisão agonizante” de emigrar para a Alemanha, um país cuja língua desconhecia.

Depois de um longo processo burocrático, assim que lhe concederam asilo, foi possível a Yousif reunir-se legalmente com Tara e os filhos, Amanuel e Shaba. Mosul estava então ocupada pelo Daesh, que forçou os pais, o irmão, todos os familiares – toda a comunidade cristã – a fugir para o Curdistão.

Cristãos sírios, numa celebração religiosa em Damasco
© Bassem Tellawi | AP

Yousif nunca pensou em pegar em armas para se vingar. “A nossa luta faz-se de oração e jejum”, garantiu ele ao irmão Knapp, que enaltece a sua postura: “O que mais me impressiona é a confiança e a esperança destas pessoas que perderam tudo, mas não a sua fé. Esta convicção ajuda-os a não ser amargos, mas sim a olhar em frente.”

“Depois de as suas cidades e aldeias terem sido destruídas, estes cristãos precisam de ajuda concreta para reconstruir as suas igrejas, mas também de infra-estruturas económicas”, recomenda Knapp. “Seria um encorajamento para os cristãos no Iraque se a planície de Nínive fosse reconhecida como herança cultural porque a língua aramaica ainda ali é falada.”

A visita do Papa Francisco ao Iraque é “uma decisão corajosa” que deixou “feliz e grato” o autor do livro The Last Christians: Stories of Persecution, Flight, and Resilience in the Middle East, esperançoso de que a posição dos cristãos na Igreja e na sociedade iraquianas seja reforçada.

“Com quase 2000 mil anos de história, os cristãos iraquianos têm sido muitas vezes negligenciados pelas igrejas do Ocidente”, critica Knapp.

“Entristece-me o facto de os cristãos na Alemanha e noutros países europeus demonstrarem tão pouco interesse nos seus irmãos do Oriente. Gostava que fossem mais atentos, que ouvissem as suas histórias, que aprendessem com eles e assim renovassem o Cristianismo original.” Ao visitar o Iraque, o Papa “dá um sinal importante de que eles não foram esquecidos.”

O monge alemão exulta com o facto de as igrejas Caldeia e Síria Ortodoxa, “com raízes no início do Cristianismo”, continuarem a celebrar a sua liturgia em aramaico.

“Elas preservaram um enorme tesouro em termos de filosofia, teologia, espiritualidade e liturgia. Vivem em boa cooperação ecuménica. Não conhecem guerras denominacionais, como aconteceu no Ocidente, onde cristãos lutaram violentamente uns contra os outros. A solidariedade com as igrejas na Síria, no Líbano e em Israel-Palestina é muito forte.”

Até há poucos anos, na planície de Nínive, ainda havia uma considerável população cristã que se exprimia em aramaico, no dia a dia e não apenas nos rituais religiosos. Muitos cristãos desta região, devastada pelo Daesh e agora ocupada por milícias pró-iranianas, fugiram para o estrangeiro. Knapp acredita que “conscientes das suas tradições preciosas”, a diáspora “tenta manter vivas a sua língua e cultura”.

Um cristão libanês recolhe ícones destruídos numa igreja em Beirute, depois de uma violenta explosão em 5 de Agosto de 2020
© CBN – The Christian Perspective

“A primeira Igreja floresceu no Médio Oriente, nos territórios actuais da Síria, Jordânia, Turquia, Líbano, Israel-Palestina, Egipto, etc.”, especifica Knapp. “Foi aqui que prosperaram o monasticismo e uma grande tradição de espiritualidade e teologia. Com a conquista islâmica, os cristãos tornaram-se cidadãos de segunda classe.”

“No Corão há duas avaliações contraditórias do Cristianismo: uma benevolente e outra agressiva. Em resultado disso, os cristãos nos países de maioria muçulmana têm sido tratados ora com tolerância ora discriminados ou perseguidos de forma sangrenta. Consequentemente, o número de cristãos tem vindo a diminuir cada vez mais e hoje é uma minoria. Em algumas áreas eles já nem sequer existem.”

Do itinerário do Papa, Knapp considera “altamente simbólica” a visita de cortesia que ele fará ao Ayatollah Sistani, o principal líder religioso xiita. “Porque a atitude das autoridades muçulmanas em relação aos cristãos tem sido muito ambivalente”.

E dá um exemplo: “Desde há séculos que era costume os cristãos congratularem os muçulmanos na Festa do Sacrifício [Eid al-Adha] e os muçulmanos felicitarem os cristãos no Dia de Natal. Em 2019, este gesto foi proibido por uma fatwa [édito religioso] do Grande Mufti do Iraque, Abdul-Mahdi al-Sumaidaie (sunita). Em 2020, o Natal ganhou estatuto de feriado nacional, o que é um importante símbolo de respeito, mas a realidade é que os cristãos ainda são oprimidos, devido aos conflitos entre sunitas e xiitas.”

“No Iraque, porque não há uma consciência de cidadania, as pessoas não têm os mesmos direitos independentemente da sua religião”, lamenta Knapp. “Não podemos, todavia, perder a esperança de que, através de esforços conjuntos com vista a um sistema político mais justo, esta consciência se desenvolva e faça desaparecer a discriminação contra as minorias religiosas.”

© Andreas Knapp
© Cortesia de | Courtesy of Andreas Knapp

Quem são os cristãos do Iraque?

O Cristianismo terá abençoado a Mesopotâmia no século I d.C., quando entrou em Edessa, capital de Osrhoena, território semi-independente, habitado principalmente por arameus, ponto de encontro de diversas culturas, situado no cruzamento entre o Império Romano/Bizâncio, a ocidente, e o Império Persa/Parto, a oriente.

© AFP | Vatican News

Reza uma lenda que um dos reis de Osrhoena, ao saber que Jesus estava a ser perseguido, Lhe escreveu uma carta oferecendo protecção. Jesus declinou o convite, mas prometeu enviar o seu apóstolo Tadeu para curar a enfermidade do soberano e iniciar um processo de evangelização.

Lendas à parte, observa Suha Rassam, autora de Christianity in Iraq, é muito provável que tenham sido judeus discípulos de Jesus de Nazaré, o Messias, que levaram o Cristianismo para Edessa (assim baptizada pelo grego Seleuco, mas igualmente conhecida em aramaico por Urhay e ainda hoje existente na Turquia sob o nome de Urfa).

Na segunda metade do século, o monarca Abgar VIII, o Grande, também se converteu, e o seu reino foi o primeiro a adoptar a nova religião. Esta rapidamente se propagou, “graças à relativa liberdade dos habitantes e a uma atmosfera de multiculturalismo”.

O aramaico, a língua dos judeus e dos apóstolos, ajudou a disseminar a fé. E o dialecto aramaico de Edessa, o siríaco, tornou-se dominante nos círculos cristãos.

“Era tão forte a ligação entre o aramaico e o Cristianismo, que, a certa altura, siríaco se tornou sinónimo de cristão”, observa Suha Rassam. Isto também teve um significado prático, pois “permitiu aos cristãos distinguirem-se dos arameus não-cristãos e pagãos”.

Os cristãos iraquianos viveram todas as convulsões teológicas dos vários conselhos ecuménicos nos primeiros quatro séculos, divididos quanto à natureza humana e divina de Jesus, e não foram poupados a perseguições e massacres, mas conseguiram resistir aos muitos infortúnios da sua história.

© Ivor Prickett | The New York Times

No século XXI, as igrejas do Iraque podem classificar-se do seguinte modo:

Igreja do Oriente

– Antiga Igreja do Oriente

– Igreja Assíria do Oriente

Igrejas Ortodoxas Orientais

– Igreja Ortodoxa Síria

– Igreja Ortodoxa Arménia

– Igreja Ortodoxa Grega ou al-Rum al-Orthodox

Igrejas Católicas

– Igreja Caldeia

– Igreja Católica Síria

– Igreja Católica Arménia

– Igreja Latina

– Igreja Católica Grega ou al-Rum al-Cathulik

Igrejas Protestantes

– Igreja Evangélica Nacional

– Igreja Evangélica Assíria

– Igreja Evangélica Arménia

– Testemunhas de Jeová

– Adventistas do Sétimo Dia

– Outras

Igreja Anglicana

Igreja Ortodoxa Grega

Igreja Copta

© Jako Klamer | Ajuda à Igreja Que Sofre (AIS)

Os católicos caldeus (80%), são descendentes dos primeiros habitantes da Mesopotâmia, ainda se exprimem em aramaico. O chefe da sua Igreja, que tem sede em Bagdad, é o cardeal Louis Rafael Sako, com o título oficial de Patriarca da Babilónia e dos Caldeus. A maior congregação de caldeus (cerca de 200 mil) não vive no Iraque, mas na diáspora – serão mais de 300 mil, sobretudo, em Detroit/ Michigan, e em San Diego/Califórnia, EUA.

Os siríacos (10%) incluem os católicos siríacos (8%) e os ortodoxos siríacos (2%). As suas origens também remontam à Mesopotâmia. Exprimem-se em siríaco, o dialecto aramaico de Edessa. As principais comunidades habitavam a planície de Nínive. O patriarca dos católicos, residente no Líbano, é Joseph III Yonan; o dos ortodoxos, que vive na Síria, é o patriarca Ignatius Aphrem II. É na região de Nova Iorque que se concentra a maior diáspora siríaca.

Os assírios (5%) têm raízes na Mesopotâmia, mas são hoje sobretudo originários do Irão e da Turquia, de onde fugiram para o Iraque (mas também para a Síria e o Líbano) após o genocídio cometido pelos otomanos em 1915. Exprimem-se em assírio-aramaico. Têm duas igrejas principais, a Igreja Assíria do Oriente, em Erbil, na região autónoma do Curdistão; e a Antiga Igreja do Oriente, em Bagdad. As maiores comunidades de assírios vivem em Chicago (80 mil) e em Los Angeles/Califórnia.

Os arménios (3%) e os cristãos árabes (2%) viviam nas grandes cidades de Mosul, Bagdad e Bassorá. Provêm da Anatólia (na actual Turquia), mas há várias centenas de anos que vivem no Iraque, onde se refugiaram do genocídio perpetrado pelos otomanos após a Primeira Guerra Mundial. Exprimem-se na língua arménia e a maioria pertence à Igreja Ortodoxa Arménia. Uma minoria é fiel à Igreja Católica Arménia. Em 2014, o Estado Islâmico/Daesh expulsou os cristãos arménios e árabes de Mosul (assim como os caldeus e os siríacos). Actualmente, dos 40 mil-45 mil arménios que habitavam o Iraque em 2003, só restarão, segundo estatísticas da comunidade, cerca de 4000.

Fontes: Christianity in Iraq, de Suha Rassam; Iraqi Christian Foundation

© Yara Nardi | Reuters | rappler.com

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Março de 2021 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2021 edition

O legado de Trump e os desafios de Biden

O presidente cessante isolou a América e foi um inimigo da democracia. Mas que ninguém espere um regresso à “normalidade” pré-2016, porque o ex-inquilino da Casa Branca não foi uma “aberração histórica”, diz-me Mara Oliva, especialista em política nacional e externa dos EUA. Dentro e fora do país, o futuro presidente enfrenta uma missão hercúlea. (Ler mais | Read more…)

© Erik Madigan Heck | Foreign Policy

A “desprezível e injustificável” invasão do Capitólio, no dia 6 de Janeiro, não foi apenas “um acto de terrorismo interno”, mas “o clímax de quatro anos de acesa retórica, desinformação e manipulação de informação”, critica Mara Oliva, professora de História dos Estados Unidos na Universidade de Reading, em Berkhsire (Inglaterra) e coordenadora, com Mark Shanahan, do livro The Trump Presidency: from Campaign Trail to World Stage.

É demolidor o balanço da presidência de Donald John Trump traçado, numa entrevista por e-mail, pela académica que orienta os seus alunos sobre o que tem sido o “sonho americano”, dos tempos coloniais ao século XXI. “A América tornou-se na anedota da comunidade internacional. A diplomacia e o soft power dos EUA nunca desceram a um nível tão baixo.”

“Trump personificou a polarização. Usou a pandemia para dividir ainda mais um país já perigosamente fracturado. Basta pensar na sua recusa em usar a máscara. Alimentou repetidas vezes o antagonismo racial e o nativismo. Recusou condenar a supremacia branca.”

Trump “assaltou” o estado de Direito, “lesou de modo sistemático [como ‘inimiga do povo’] um dos pilares da democracia americana: a imprensa livre”; adoptou medidas que “diminuíram os direitos” de imigrantes e outros grupos minoritários e vulneráveis; “negou o facto de as pessoas negras sofrerem desproporcionadamente de brutalidade policial”. Com ele, a pena de morte (a que Biden se opõe) ganhou nova vida: nos últimos seis meses, foram executadas mais pessoas do que nas últimas seis décadas.

Como é que isto aconteceu?, interroga-se Mara Oliva. “E será que a eleição de 2016 mudou para sempre a alma” da América? “Para nós, os que estudamos história, a vitória de Trump era previsível. Ele não é uma aberração [obteve mais de 74 milhões de votos]. É o sintoma de uma crise nacional mais vasta e prolongada, solidamente enraizada na história dos EUA.”

Kamala Harris, vice-presidente
© The New Yorker
Anthony Blinken, secretário de Estado
©Henry Romero | Reuters
Linda Thomas-Greenfield, embaixadora nas Nações Unidas
© Michael Reynolds | AP

Num clima de polarização – assente na “discriminação racial e de género, nas desigualdades sociais e económicas” –, Trump distinguiu-se dos predecessores republicanos e no seu partido por “não acreditar na democracia”. Como presidente, “não lhe interessava uma ideologia ou visão para o país”. O ataque ao Capitólio – pelo qual Trump não exprimiu contrição – “foi um exemplo claro” de uma “deriva para o autoritarismo”.

Trump será lembrado como o único presidente impugnado duas vezes, em 2019, por abuso de poder e obstrução do Congresso, e em 2021, por incitamento à insurreição. A sua herança é tóxica.

Os desafios de Joe Biden são gigantescos. Dias antes da tomada de posse, anunciou um pacote de emergência no valor de 1,9 biliões de dólares, que inclui mais de 400 mil milhões para acelerar o plano de vacinação contra o SARS-CoV-2 e mil milhões para ajuda directa aos americanos que, “sem culpa, perderam a dignidade e o respeito que o trabalho confere”.

Na Câmara dos Representantes, Biden só tem uma vantagem de 12 votos e, no Senado, não tem uma maioria de 2/3, o que poderá inviabilizar as promessas mais ambiciosas, mas ele acha-se capaz de estabelecer acordos com os republicanos, sobretudo os que querem “livrar-se do Trumpismo”.

Em termos de política externa, a presidência de Donald Trump ficará marcada pelo modo como “explorou a exaustão” causada pela “era de conflito perpétuo” que começou após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, analisa Mara Oliva. Ao promover “o isolacionismo da ‘América primeiro’”, ele defendeu, explicitamente, “o abandono do sistema global de comércio livre e de livre movimento de bens que os Estados Unidos seguiam desde o final da II Guerra Mundial”.

“Trump representou uma mudança no modo como os americanos se vêem a si mesmos. Muitos passaram a acreditar que os EUA devem agir como uma potência tradicional, ou seja, mais centrada nos seus interesses e menos preocupada com o destino de outras regiões e nações.”

Lloyd Austin, chefe do Pentágono
© Chip Somodevilla | Getty Images
Jake Sullivan, conselheiro nacional de segurança
© Stefani Reynolds | The New York Times
William Burns, chefe da CIA
© Tom Brenner | AP

Estes problemas “não ficam solucionados como que por magia” com a chegada de Joe Biden à Casa Branca, avisa Mara Oliva. O novo presidente “não constitui exactamente uma mudança no sistema – é um homem branco com 78 anos que está no governo há mais de 30”.

“É verdade que nomeou a primeira mulher negra-asiática, Kamala Harris, para ser vice-presidente” e que é “mais sensível às questões nacionais”, mas “não haverá um regresso à normalidade [antes de Trump] – seja lá o que isso for”. Porque 2016 “não foi uma anomalia, mas sim o momento divisor das águas na história americana”. A Covid-19 “apenas expôs, mais claramente, as desigualdades, a corrupção e a crueldade que há décadas afectam a vida social e política” nos EUA.

Joe Biden vê-se como “um presidente de transição para uma nova geração”. Será que vai governar “com arrojo e coragem para empreender o diálogo necessário à renovação da experiência americana?”, pergunta a historiadora Mara Oliva. “Ele assume-se como globalista, o que será central para o modo como abordará inúmeras questões. Pela frente tem o desafio imediato de convencer o resto do mundo de que a América ainda merece o poder que em tempos deteve.”

Com larga experiência nos negócios estrangeiros, desde que foi eleito pela primeira vez para o Senado em 1972 até exercer dois mandatos como vice-presidente, Joe Biden viajou extensivamente por numerosos países, onde se encontrou com cerca de 150 líderes. Muitos esperam que ele dê continuidade à “via moderada” das administrações Clinton e Obama. O círculo restrito que escolheu parece indicar esse caminho: Anthony Blinken, secretário de Estado; Jake Sullivan conselheiro nacional de segurança; Linda Thomas-Greenfield, embaixadora na ONU; Lloyd Austian, chefe do Pentágono; William Burns, chefe da CIA.

“Uma das prioridades de Biden será dar novo fôlego à ferida aliança transatlântica com a Europa, que constituía a base dos interesses dos EUA desde a II Guerra Mundial”, salienta Mara Oliva.

“A doutrina ‘América primeiro’, de Trump, enfraqueceu esta aliança que foi durante décadas o mais poderoso instrumento global de Washington.” Biden acredita em “reunir forças, em especial quando as ameaças são comuns”, por isso, “agirá rapidamente para reparar os laços com a NATO e vai, quase seguramente, pressionar para que a maior aliança militar, representando mil milhões de pessoas, adapte e alargue a sua missão (e talvez o número de membros) aos desafios do século XXI, como a tecnologia militar e a cibernética”.

Outros analistas enalteceram a vitória de Biden porque ele pode “enfraquecer o populismo”, porque “é bom ter alguém na Sala Oval que não considera a União Europeia um inimigo” e “partilha valores comuns”. Mas também alertaram que a Europa não pode voltar à “postura preguiçosa de depender da liderança americana”.

CHINA

Xi Jinping © The Economist

Especialista em relações sino-americanas, autora de Eisenhower and American Public Opinion on China, Mara Oliva acredita que uma administração Biden “vai tentar alinhar as democracias ocidentais”, sobretudo a Europa e o Japão, para que, coletivamente, exerçam maior pressão sobre Pequim – numa “clara ruptura” com o antecessor, que fazia tudo sozinho. “A expectativa é a de que o novo presidente irá favorecer o diálogo e a diplomacia, sem abdicar dos objectivos políticos” dos EUA. Biden terá de fazer “escolhas difíceis”.

Por exemplo: ou mantém as tarifas impostas por Trump, no valor de 360 mil milhões de dólares, sobre produtos chineses importados pelos EUA, “o que aumentou os custos para empresas e consumidores americanos”, ou levanta essas taxas “em troca de concessões” em áreas como a economia ou o clima, observa Mara Oliva.

O secretário de Estado cessante, Mike Pompeo, não facilitou a tarefa de Biden. Uma das suas últimas decisões foi levantar as restrições aos responsáveis americanos de visitarem Taiwan, cuja soberania é reivindicada pela China. O anúncio bastou para Pequim ameaçar a Ilha Formosa com “uma guerra”.

RÚSSIA

Vladimir Putin © The Economist

Em 2011, relembrou Dmitri Tronin, do Carnegie Moscow Center, Joe Biden disse que “quando olhou [Vladimir] Putin nos olhos viu um homem sem alma”, ao que o líder russo respondeu: “Compreendemo-nos mutuamente”. Tronin está convencido de que a relação entre os dois presidentes “será das mais frias de sempre”. Biden, que considera a China o “principal concorrente” e a Rússia “a maior ameaça”, deixou claro que não perdoará os recentes ataques informáticos russos às agências governamentais americanas.

A sua resposta poderá ir de sanções financeiras até uma ciber-ofensiva contra interesses de Moscovo. Na pressão sobre Putin, em coordenação com aliados, Biden não vai “estruturar o conflito como sendo entre os EUA e a Rússia”, salvaguarda Tronin, mas distinguirá a “oligarquia e cleptocracia” do povo russo. (Todos aguardam o modo como reagirá à detenção de Alexei Navalny, o principal opositor de Putin que ousou regressar a Moscovo, em Janeiro, depois de sobreviver a uma tentativa de envenenamento.)

A ênfase nos direitos humanos levará também Biden a “apoiar mais activamente” a oposição no “quintal de Putin”, da Bielorússia às antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central. Maria Oliva considera que “a relação com Putin é onde melhor se poderá reflectir o misto de princípio e pragmatismo de Biden”, acreditando que o novo presidente dos EUA poderá “restaurar os tradicionais canais diplomáticos interrompidos por Trump”.

A Biden interessa prorrogar o New Start, único tratado de controlo de armamento com a Rússia que limita as armas nucleares e que expira em Fevereiro (mas fá-lo-á numa “posição de força”, frisa Tronin, mencionando “o possível desenvolvimento e instalação de mísseis de médio alcance na Europa capazes de atingir centros de comando russos”). Conta também com Moscovo (além de Pequim, Berlim, Paris e Londres) para reforçar o acordo nuclear com o Irão.

MÉDIO ORIENTE

© The Economist

Se há um país ansioso pela chegada de Biden à Casa Branca será a República Islâmica do Irão. Em 2018, Trump abandonou o acordo nuclear que era parte do legado de Obama. Impôs sanções mais duras e mandou matar o chefe dos Guardas Revolução, Qassem Soleimani.

Mas não conseguiu vergar o regime teocrático. Biden, que diz querer acabar com as Forever Wars (“guerras eternas”) americanas, como a do Afeganistão, considera que uma crise nuclear no Médio Oriente pode ser evitada se Teerão se mantiver ligado ao acordo assinado em 2015, ao mesmo tempo que procura negociar cláusulas mais rígidas.

Acontece, porém, que o Parlamento iraniano acaba de aprovar leis visando acelerar a produção de urânio enriquecido e expulsar os inspectores da ONU, se as sanções não forem levantadas. O Médio Oriente que Biden vai encontrar também mudou muito nos últimos 4 anos. Trump ajudou a derrotar o Daesh na Síria e no Iraque, matando o seu chefe, Abu Bakr al-Baghdadi, mas também concretizou o que Mara Oliva define como “alguns dos sonhos mais loucos” do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu: reconheceu Jerusalém como capital de Israel, mudou para ali a embaixada dos EUA, legitimou a anexação dos Montes Golã, propôs um plano de paz que “só favorece Israel e abandona os palestinianos”.

É improvável, estima a professora Oliva, que Biden vá apresentar grandes iniciativas para resolver o conflito Israel-Palestina. Talvez reverta “políticas perniciosas”, reabrindo a delegação da OLP em Washington e o consulado dos EUA em Jerusalem Oriental, retomando também o financiamento da UNRWA, a agência que assiste os refugiados palestinianos. Mas não irá transferir a embaixada dos EUA para Telavive.

Biden também saudou os acordos de normalização das relações de Israel com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Sudão e Marrocos. Ao contrário de Trump, porém, a maioria dos analistas, crê que o novo presidente será mais crítico da colonização judaica dos territórios ocupados palestinianos (que Netanyahu acelerou em vésperas da investidura de Biden) e continuará a defender a solução de 2 Estados.

A Arábia Saudita, aliado dos EUA desde os anos 1940, é o que alguns chamam “o grande ponto de interrogação”. Biden descreveu o reino como “um pária”, depois do brutal homicídio do dissidente Jamal Khashoggi, aparentemente ordenado pelo príncipe herdeiro, Mohammed Bin Salman, e garantiu que não apoiará a guerra deste no Iémen.

É um propósito que Mike Pompeo dificultou antes de deixar o cargo, ao designar como organização terrorista os rebeldes houthis, pró-iranianos, que controlam a maior parte do Norte, incluindo Sanaa, a capital, e o porto de Hodeidah, por onde passa a ajuda de que precisam 80% dos habitantes do país.

A ONU considera que, se não for revogada, a “inimaginável decisão” de Pompeo, que penaliza as agências humanitárias, conduzirá “à pior fome dos últimos 40 anos”, com os preços dos alimentos a subir “até 400%”.

AMÉRICA LATINA

De Biden, que praticamente não mencionou África na sua campanha eleitoral, não se espera muito. Vai prosseguir a contenção da crescente influência chinesa, ajudar a combater os dramáticos efeitos da pandemia e continuar as acções militares de combate aos grupos ligados ao Daesh © Fair Observer

Da última vez que Biden conduziu a política dos EUA para esta região, como emissário de Obama, “quase todos os países eram democracias estáveis e seguras”, anota Mara Oliva.

“De uma maneira geral, correspondiam aos critérios de eleições livres e justas, separação de poderes e outras directrizes estabelecidas pela carta democrática da Organização dos Estados Americanos, mas já não será possível que a Administração Biden continue onde acabou a Administração Obama.”

Em 2019, eclodiram protestos em vários países – Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Haiti, Nicarágua, Peru, Venezuela… Populações insurgiram-se contra elites corruptas e regimes autocráticos, o desemprego e as desigualdades sociais, agravados pelas medidas adoptadas para travar o coronavírus.

A abordagem de Biden será diferente de país para país. Em relação a Cuba, por exemplo – que Mike Pompeo voltou a incluir na lista de “Estados que apoiam o terrorismo” –, poucos prevêem maior abertura. Biden quer recuperar, em 2024, os eleitores latino-americanos que votaram em Trump.

Quanto à Venezuela, estará disponível para negociar com o governo de Nicolas Maduro, para pôr fim à “maior crise humana e económica no Hemisfério Ocidental”. Irá, talvez, propor o fim das sanções americanas em troca de “eleições livres e justas”.

Com Biden não haverá ameaça de intervenção militar – ele rejeita a Doutrina Monroe que, desde o século XIX, defende o domínio dos EUA nas Américas. Mas continuará a apoiar os esforços das forças de segurança americanas para perseguir os cartéis da droga e erradicar as plantações de coca, canábis e ópio na região. Quanto à imigração, espera-se que anule muitas das iniciativas de Trump, o presidente obcecado por um muro, que separou famílias e colocou crianças em jaulas, para travar a entrada nos EUA de dezenas de milhares de requerentes de asilo, agora concentrados em condições dramáticas na fronteira com o México.

O que Mara Oliva recomenda é uma nova estratégia “que resolva as actuais crises migratória e sanitária, transforme a forma tradicional como os EUA promovem a democracia, a segurança e o comércio, e incorpore as nações da América Latina numa agenda de política externa mais global”.

ÁFRICA

© The Economist

Numa das suas declarações mais infames, Trump referiu-se aos Estados africanos como shit-hole countries (países de m***a). Também reduziu o investimento directo dos EUA, de 50,4 mil milhões de dólares em 2017 para 43,2 mil milhões em 2019.

O seu programa Prosper Africa (“África Próspera), visando travar a ascensão regional da China, centrou-se sobretudo em abrir mercados aos bens e serviços americanos, numa relação mais bilateral do que multilateral. Trump não hesitou em castigar os que recusassem o seu “comércio livre recíproco” – o Ruanda deixou de estar isento de tarifas por não aceitar a importação de vestuário em segunda mão.

Com o “Muslim ban” (que Biden assegurou que será eliminado no primeiro dia da sua presidência), Trump interditou ainda a entrada nos EUA de cidadãos provenientes de várias nações africanas de maioria muçulmana. De Biden, que praticamente não mencionou África na sua campanha eleitoral, não se espera muito.

Vai prosseguir a contenção da crescente influência chinesa, ajudar a combater os dramáticos efeitos da pandemia e continuar as acções militares de combate aos grupos ligados ao Daesh.

Vários analistas recomendam-lhe, porém, que reforce os laços com potências como a Nigéria, a África do Sul e o Egipto, os quais representam quase 50% do PIB da região, e que aproveite bem as vantagens da diáspora africana nos EUA – 2,5 milhões de pessoas.

DIREITOS HUMANOS

Ao contrário de Trump, não se espera que Joe Biden venha a ser amigo próximo de ditadores e autocratas © The New York Times

“Joe Biden acredita nos direitos humanos como princípio fundamental da democracia e de uma política externa sólida”, certifica Mara Oliva.

“Ele julga os países pelo seu comportamento nesta matéria”. O novo presidente não atravessará a fronteira da Coreia do Norte, como fez Trump, para apertar a mão a Kim Jong-un. Outros líderes autoritários, como Jair Bolsonaro, do Brasil, ou Rodrigo Duterte, das Filipinas, deixaram de ter um amigo na Sala Oval.

Enquanto Trump elogiou Abdel Fattah El Sisi, como “o [meu] ditador favorito”, Biden condenou abertamente o chefe de Estado egípcio por ter ordenado a prisão, a tortura e o exílio de dissidentes. Também se espera de Biden uma postura mais agreste em relação a Recep Tayyip Erdogan, o presidente da Turquia – Estado membro da NATO – que, na sua opinião, “tem de pagar o preço” pelas suas políticas agressivas.

CLIMA

Joe Biden formou “uma equipa excelente” para a defesa do clima: John Kerry, que será o emissário para o clima, e Gina McCarthy, responsável na Casa Branca pela política para o clima.”
© Mandel Ngan | AFP | Getty Images

Sendo Biden un político que “valoriza os tratados e as instituições internacionais”, um dos seus primeiros actos foi regressar ao Acordo de Paris de 2015, concebido para salvar o planeta, e reintegrar a Organização Mundial de Saúde, para “modelar uma resposta global mais forte à Covid”, assevera Mara Oliva, que estuda a diplomacia americana para as alterações climáticas desde o fim da Guerra Fria.

“Biden leva esta questão muito a sério. Formou uma equipa excelente: John Kerry, que será o emissário para o clima, e Gina McCarthy, responsável na Casa Branca pela política para o clima.” Como secretário de Estado de Obama, Kerry foi um dos artífices do Acordo de Paris e, como chefe da Agência para a Protecção do Ambiente (EPA), McCarthy pôs em marcha regulamentações que reduziram imenso os gases de efeito de estufa de veículos, centrais elétricas, instalações de petróleo e gás – “acções infelizmente anuladas por Trump”.

A nomeação de Kerry “é a mudança mais importante na diplomacia para o clima e na política externa americanas porque, pela primeira vez na história do país, ele fará parte do Conselho de Segurança Nacional”. Desde o fim da Guerra Fria, com a “emergência de um novo e mais complexo conjunto de problemas globais”, as alterações climáticas “são cada vez mais encaradas como um risco de segurança, em escala e impacto”.

Segundo Mara Oliva, “a destruição ambiental e a distribuição desigual de recursos naturais, da água aos metais da terra, podem conduzir a conflitos, sublevações sociais e políticas, e ainda migrações” – em Janeiro, fugindo dos efeitos da Covid e dos furacões que devastaram as zonas mais produtivas do Norte das Honduras, cerca de 2000 pessoas fugiram para a Guatemala, enfrentando a repressão das autoridades locais, esperando chegar aos EUA.

Consequentemente, isso tem o potencial de “afectar de forma adversa não só a segurança nacional dos EUA e os seus interesses económicos vitais – como o acesso ao petróleo –, mas também a estabilidade em áreas onde a América tem interesses geopolíticos”.

Um desses interesses está no Ártico, onde “o degelo atiçou uma nova luta entre os EUA, a Rússia e a China, em busca de recursos naturais e novas rotas comerciais”. Os riscos das alterações climáticas a longo prazo “são mais abrangentes, graves e certos do que os do terrorismo”, adverte Mara Oliva. Por isso, ela regozija-se que Joe Biden tenha prometido fazer desta questão uma das prioridades da sua política externa.

Mara Oliva é professora de História dos Estados Unidos na Universidade de Reading, em Berkhsire (Inglaterra) e coordenadora, com Mark Shanahan, do livro The Trump Presidency: from Campaign Trail to World Stage © Cortesia de | Courtesy of Mara Oliva

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Fevereiro de 2021 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, February 2021 edition

Joe, o sucessor de JFK

EUA voltaram a ter um presidente católico, 60 anos depois de John Fitzgerald Kennedy. Os fiéis da Igreja de Roma que, em 1960, votaram em bloco no seu candidato já não são um grupo insular e estão divididos como a própria nação. Entrevista com Natalia Imperatori-Lee, professora de estudos religiosos e eclesiásticos em Nova Iorque, para quem o novo inquilino da Casa Branca representa uma mudança de paradigma na política americana. (Ler mais | Read more..)

Joe Biden toma posse como 46º presidente dos Estados Unidos. A mulher, Jill, segura a Bíblia da família durante a investidura, no Capitólio, em Washington, 20 de Janeiro de 2021
© Kevin Lamarque | CNS | Reuters | America magazine

Joe Biden, o homem que vai à missa todos os domingos, que em momentos de contemplação ou aflição retira do bolso um rosário que nunca o abandona, que tem uma relação complicada com padres e bispos e prefere os conselhos e ensinamentos das freiras da sua infância, é desde Janeiro o segundo presidente católico dos Estados Unidos da América.

“É à minha religião que vou buscar a ideia de mim mesmo, de família, de comunidade, de um mundo mais vasto”, escreve o sucessor de Donald Trump na autobiografia Promises to Keep: On Life in Politics. Para ele, o que conta “não é tanto a Bíblia, as bem-aventuranças, os Dez Mandamentos, os sacramentos ou as orações” que aprendeu, mas sim “a cultura católica”.

Não tem sido nem será fácil para Biden, o mais jovem senador, aos 36 anos, e o mais velho presidente, aos 78, separar fé e política, sobretudo quando tem de tomar decisões que contrariam a doutrina da sua igreja.

No passado, para desgosto do seu Partido Democrata, Biden havia sido mais intransigente, votando contra a atribuição de fundos federais de apoio a mulheres que abortassem, até mesmo em casos de incesto ou violação. Mas rapidamente se adaptou a uma sociedade mais secular e a uma comunidade católica mais liberal. “

Em momentos de contemplação ou aflição retira do bolso um rosário que pertenceu ao defunto filho Beau e que nunca o abandona
© Wall Street Journal

Ele é fiel aos conselhos do Papa Francisco, que alertou para não nos deixarmos obcecar por questões como o aborto e nos concentrarmos em servir os pobres e oprimidos”, disse ao diário The Washington Post a Irmã Simone Campbell, conselheira de Biden e directora executiva da NETWORK, organização católica em defesa da justiça social.

Aos que hoje questionam se o novo presidente “é suficientemente católico”, ao contrário do que, há 60 anos, acontecia com JFK, quando os americanos receavam que fosse “demasiado católico” para governar uma nação de maioria protestante, Natalia Imperatori-Lee, professora e coordenadora do programa de Estudos Católicos do Manhattan College, em Nova Iorque, ressalva que Biden “não é um teólogo, mas um político”. E acredita que ele governará com “uma visão respeitadora dos direitos humanos” assente no Evangelho.

Cubana-americana natural de Miami, na Florida, um estado onde residem muitos dos que fugiram de ditaduras comunistas na América Latina e que Trump venceu, em parte, graças à falsa mensagem de que Biden “é um socialista”, a autora de Cuéntame: Narrative in the Ecclesial Present e membro do Conselho de Directores da Sociedade Teológica e da Academia dos Teólogos Hispânicos Católicos dos EUA não tem dúvidas de que, com “empatia e compaixão”, o devoto Biden será a antítese do profano Trump.

“Ele quer concentrar-se em curar uma nação dividida, em controlar a pandemia [mais de 23 milhões de casos e quase 400 mil mortos] – e isto é ser pró-vida!”, exaltou ela, numa entrevista que me deu, por e-mail.

John Fitzgerald Kennedy no dia em que foi recebido pelo Papa Paulo VI, no Vaticano, em 1963. “Não sou o candidato católico a presidente”, disse JFK para sossegar a América. “Sou o candidato do Partido Democrata que, por acaso, é católico. Não falo em nome da minha Igreja, e a Igreja não fala por mim”
© Associated Press
Joe Biden e o chefe da Igreja de Roma numa audiência no Vaticano, em 29 de Abril de 2016, quando o visitante era vice-presidente de Barack Obama. O sucessor de Trump considera-se um “católico que segue os ensinamentos do Papa Francisco
© Osservatore Romano | Reuters | The New York Times

Joe Biden é o segundo presidente católico na história dos EUA. Só por isso é um acontecimento importante?

É um acontecimento importante para os católicos dos EUA, porque alguém que partilha a sua fé chega ao mais alto cargo da nação. No entanto, desde a eleição de Kennedy, outros católicos romanos neste país ascenderam a postos influentes na política e na economia.

Em 1960, JFK teve de afugentar os medos de que seria mais leal à Santa Sé do que à pátria (1), mas obteve uns 80% do chamado “voto católico”. Sessenta anos depois, os católicos estão praticamente divididos ao meio entre os principais partidos – os católicos brancos votaram em Trump e nos republicanos; os católicos latinos votaram em Biden e nos democratas. Como é que explica as mudanças?

As mudanças indicam que o voto católico se aproxima das tendências raciais/étnicas e económicas que dominam a paisagem eleitoral nos EUA.

Em sua opinião, quais foram os temas religiosos que definiram as eleições?

Creio que a pandemia de Covid foi um tema definidor, assim como os protestos [do movimento Black Lives Matter/ Vidas Negras Importam] exigindo justiça racial, no Verão passado.

Os protestos do movimento Black Lives Matter/ Vidas Negras Importam exigindo justiça racial foram um dos momentos definidores das eleições que deram a vitória a Joe Biden
© Matt Rourke | AP
Assim que tomou posse, Joe Biden assinou memorando presidencial para anular as restrições, nacionais e internacionais, ao aborto aprovadas por Donald Trump e as quais condenou como “um ataque à saúde das mulheres”
© Doug Mills | The New York Times

Como é que a fé de Biden vai moldar a sua presidência?

Joe Biden é um homem de uma fé profunda, uma fé que o tem amparado em tragédias que nenhuma família deveria sofrer (2). Numa altura em que milhares de pessoas morrem diariamente de Covid, Biden tem a empatia e a compaixão necessárias para liderar o país. E essa empatia provém da sua fé permanente. Ele assiste à missa todas as semanas e nos dias sagrados de obrigação.

Trump não teve compaixão: fechou as fronteiras a refugiados, incluindo a cristãos perseguidos do Médio Oriente, insultou países africanos, aproximou-se de déspotas e virou as costas a aliados e instituições multilaterais. O que espera de Biden e da vice-presidente Kamala Harris – a primeira mulher negra-asiática a exercer esse cargo, uma protestante da Igreja Baptista, filha de uma hindu e casada com um judeu?

Acho que Biden cumprirá a promessa de, significativamente, aumentar [para 125 mil por ano], o número de refugiados autorizados a viver nos EUA. Esse número foi muito reduzido pela administração Trump (3), o que constitui uma violação dos direitos humanos.

6 de Janeiro de 2021: Assalto ao Capitólio de apoiantes de Donald Trump, instigados a protestar contra a vitória de Joe Biden
© Samuel Corum | Getty Images

Depois do assalto ao Capitólio por apoiantes de Trump, acha que será possível a Biden cumprir a promessa de reconciliar a América?

Não sei como ele vai lidar com o golpe, mas terá de procurar pôr fim à desinformação e punir os responsáveis. A minha família fugiu do regime comunista de Cuba por causa deste tipo de autoritarismo que agora vemos emergir nos EUA. É um tempo terrivelmente triste.

(1) Ficou para a história um discurso que, em 13 de Setembro de 1960, três meses antes das eleições, John F. Kennedy proferiu num encontro com um grupo de 600 ministros protestantes da Igreja Baptista, em Houston (Texas): – Porque sou católico, e nunca um católico foi eleito presidente (…), é aparentemente necessário que eu afirme, uma vez mais, não só o tipo de igreja em que acredito (…), mas o tipo de América em que acredito. Eu acredito numa América onde a separação da Igreja e do Estado é absoluta, onde nenhum prelado católico poderá dizer ao presidente (se ele for católico) como deve agir, e nenhum ministro protestante deve dizer aos seus paroquianos em quem votar (…) Acredito numa América (…) onde nenhum governante pede ou aceita instruções sobre política pública ao Papa, ao Conselho Nacional das Igrejas ou a qualquer outra fonte eclesiástica (…). Não sou o candidato católico a presidente. Sou o candidato do Partido Democrata que, por acaso, é católico. Não falo em nome da minha Igreja, e a Igreja não fala por mim.

(2) Neilia Biden, primeira mulher de Joe, e a filha de ambos, Naomi Christina, de 13 meses, morreram num acidente de viação em 1972. O filho mais velho, Joseph “Beau” Biden, morreu em 2015 de cancro no cérebro.

 (3) Apesar de 80 milhões de pessoas terem fugido de guerras, fome e opressão, Trump quase desmantelou o programa americano que há quatro décadas oferecia santuário a refugiados. Reduziu esse apoio em mais de 80%. Em 2021, aceitaria receber apenas 15 mil.

Natalia Imperatori-Lee, cubana-americana, natural de Miami, é professora e coordenadora do programa de Estudos Católicos do Manhattan College, em Nova Iorque
© Cortesia de | Courtesy of Natalia Imperatori-Lee

Brancos e latinos: retrato de um eleitorado dividido

Estima-se em cerca de 51 milhões o número de católicos adultos nos Estados Unidos da América, representando 25% do eleitorado nacional, segundo o instituto de sondagens Pew Research Center.

© Zbigniew Bzdak | Chicago Tribune

É uma igreja que tem vindo a registar um declínio no número de membros, em grande medida devido à escassez de sacerdotes e aos escândalos de abusos sexuais entre o clero, os quais obrigaram o Vaticano a abolir a política de secretismo que permitiu durante anos proteger os abusadores do castigo das autoridades do Estado.

O Catolicismo, destaca o Pew Center, foi a religião que, na América, mais sofreu com a perda de fiéis – aproximadamente 13% das pessoas educadas em lares católicos identificam-se hoje como “não-católicas”, porque perderam a fé ou aderiram a outras crenças.

Por outro lado, é entre os católicos que se encontra a maior diversidade racial e étnica. Seis em cada 10 adultos são brancos, 1/3 são latinos e outros afirmam-se negros, asiáticos-americanos, etc. O grupo que mais cresce é o dos latinos.

Em comparação com outras comunidades religiosas, os católicos americanos estão “bem distribuídos” por todo o país; 27% vivem no Sul, 26% no Nordeste, 26% no Oeste e 25% no Centro-Oeste. Porque muitos latinos são católicos, “o seu crescimento contínuo está, gradualmente, a mudar o centro geográfico do Catolicismo”, do Nordeste e Centro-Oeste para o Sul e Oeste, onde totalizam agora três quartos da população.

© Brendan McDermid | Reuters | thedailybeast.com

Nos inquéritos do Pew Center, muitos católicos americanos reclamam “reformas significativas” na Igreja. Por exemplo, seis em cada dez defendem o casamento dos padres e o sacerdócio das mulheres. E quase metade quer o reconhecimento dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Em termos políticos, o voto católico está dividido, quase uniformemente, entre os que votam ou tendem a votar no Partido Democrata e os que favorecem os republicanos do GOP (Grand Old Party). A maioria dos católicos latinos é democrata, enquanto 54% dos católicos brancos são republicanos.

Nem sempre se verificaram estas divisões. De início, o que alguns analistas definem como uma “subclasse de imigrantes” católicos (muitos de origem irlandesa como a família de Joe Biden, outros com raízes portuguesas, polacas, italianas ou canadianas) mudou-se para os centros urbanos, aderiu a sindicatos e votava no Partido Democrata.

No entanto, a segunda e terceira gerações de católicos, inspiradas pelo sucesso de John F. Kennedy, mudou-se para os subúrbios brancos, “tornou-se mais culta, mais próspera economicamente e mais conservadora”.

Em 1972, quando o candidato presidencial democrata George McGovern apoiou o acesso livre ao aborto, e em 1973, quando o Supremo Tribunal legalizou esse direito nos 50 Estados americanos com o caso “Roe vs Wade” (os juízes deram razão a Jane Wade, que queria interromper uma gravidez fruto de violação, contra os argumentos de um procurador de Dallas/Texas, Henry Wade), muitos católicos sentiram que o seu partido já não os representava.

Aproveitando-se desta tendência, estrategas republicanos começaram a apelar aos valores morais dos católicos no Nordeste e no Centro-Oeste e dos evangélicos brancos no Sul.

A Igreja Católica nos EUA que tem vindo a registar um declínio no número de membros, em grande medida devido à escassez de sacerdotes e aos escândalos de abusos sexuais entre o clero
© Michael Chow | The Republic

A partir dos anos 1980, o GOP convenceu muitos católicos a mudar o seu voto ou a tornarem-se independentes. Entre 1980 e 2000, só um candidato democrata ganhou a maioria dos votos católicos: Bill Clinton, um protestante ligado à Igreja Baptista, reeleito em 1996. O católico John Kerry não teve essa sorte em 2004 – foi derrotado pelo metodista George W. Bush.

Em 2016, Donald J. Trump conseguiu a presidência em grande parte porque conquistou estados tradicionalmente democratas – Pensilvânia, Michigan e Wisconsin – onde o número de católicos é muito superior ao de evangélicos.

Os católicos e os evangélicos brancos, mais conservadores, têm posições semelhantes em relação a muitos temas, partilhando por exemplo a oposição ao aborto e aos direitos LGBTQ. Trump enfatizou o apoio a essas posições e, há quatro anos, obteve 60% do voto católico. Em 2020, votaram em Trump 50% dos católicos – ou 22% do eleitorado. Biden obteve 49%.

O fosso segundo linhas étnicas e raciais foi enorme: entre os católicos brancos, 57% apoiaram Trump e 42% elegeram Biden. Entre os católicos latinos, 67% votaram em Biden e 32% em Trump.

“Os resultados mostram que a Igreja Católica está tão dividida como a nação, mas a verdadeira divisão é a raça e a etnia – não a teologia”, concluiu, em declarações à revista jesuíta America, David Gibson, director do Centro de Religião e Cultura da Universidade de Fordham, em Nova Iorque.

“É à minha religião que vou buscar a ideia de mim mesmo, de família, de comunidade, de um mundo mais vasto”, diz Joe Biden
© Andrew Harnick | AP

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Fevereiro de 2021 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, February 2021 edition

Etiópia: A guerra de um Nobel da Paz

As batalhas no território onde o Reino de Axum se tornou um império cristão ameaçam desestabilizar o Corno de África e desintegrar o mais antigo e segundo mais populoso país do continente. Por que é que Abiy Ahmed decidiu confrontar ex-aliados no Tigré, depois de estender a mão à inimiga Eritreia? Para entender as origens e consequências deste conflito, entrevistei dois académicos etíopes, Asafa Jalata e Kassahun Melesse. (Ler mais | Read more...)

Crianças brincam em frente de uma casa destruída pelos bombardeamentos na região de Tigré, em Dezembro de 2020
© Eduardo Soteras | AFP | Getty Images | The New York Times

A guerra “é a epítome do inferno para todos os que nela combatem, e eu sei porque estive lá e voltei”, declarou o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, em 10 de Dezembro de 2019, ao receber o Nobel da Paz que premiou a reconciliação histórica com a vizinha Eritreia, no ano anterior.

“Não fui apenas um combatente”, mas também “testemunha da crueldade” da guerra e do que “ela pode fazer às pessoas”, disse Abiy. “A guerra torna os homens amargos. Homens sem coração e selvagens”.

Menos de um ano após este discurso, Abiy Ahmed envolveu-se noutra guerra, na região de Tigré, no Norte do país. E porquê, se agora se repete o que ele viu num passado não muito longínquo: “Irmãos a massacrar irmãos, homens idosos, mulheres e crianças a tremer de terror sob chuvas de balas e projécteis de artilharia (…), famílias destroçadas e comunidades permanentemente destruídas”?

Para Abiy, os combates no território do antigo Reino de Axum*, uma civilização que se converteu ao Cristianismo no séc. IV e, no seu apogeu, foi o Estado mais poderoso entre os impérios persa e romano do Oriente, são apenas uma “operação para impor a lei”, contra “terroristas e traidores”, depois de líderes tigrínios terem desafiado “a ditadura não eleita” em Adis Abeba.

A linguagem que desumaniza uns e outros é uma das características da guerra que começou, a 4 de Novembro, com uma ofensiva contra a Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT), por esta, segundo Abiy, ter “pisado a última linha vermelha” com um ataque contra o importante Comando Militar Norte da Força de Defesa Nacional.

A região do Tigré desafiou o primeiro-ministro Abiy Ahmed, em Setembro de 2020, ao realizar eleições que haviam sido canceladas no resto do país, devido à pandemia de COVID-19
© Associated Press | NPR

Em 9 de Setembro, o Tigré já havia realizado eleições em desobediência a uma ordem federal que adiara as votações devido à COVID-19, prolongando o mandato do primeiro-ministro. O executivo regional tigrínio, reeleito por maioria e chefiado pelo líder da FLPT, Debretsion Gebremichael, um ex-guerrilheiro que aspira ao lugar de Abiy, foi imediatamente dissolvido e privado de fundos.

“Para já, Abiy conseguiu forçar a retirada do governo regional de Mekelle”, a capital do Tigré, “mas só o tempo dirá se as autoridades federais conseguirão controlar a cidade, porque as forças tigrínias continuam os seus ataques”, diz-me, em entrevista por e-mail, Asafa Jalata, especialista em política e sociedade da Oromia, da Etiópia e do Corno de África.

Sem fontes independentes no terreno, e com telefones e Internet cortados, é difícil avaliar a situação humanitária, mas Asafa, professor de Sociologia e de Estudos Globais e Africanos na Universidade do Tennessee, em Knoxville (EUA), cita várias informações que recolheu: “Milhares de tigrínios foram mortos e mais de 46 mil fugiram para o Sudão; milhares esconderam-se em grutas e nas florestas sem suficientes alimentos, medicamentos e protecção de segurança; uma milícia [da etnia] amara, uma força especial e tropas federais estão a assassinar civis – o que pode ser considerado genocídio”.

A ONU alerta para “o pior êxodo de refugiados etíopes das duas últimas décadas”, salientando que, desde 10 de Novembro e diariamente, “cerca de 4000” pessoas fogem da violência no Tigré, a pé e sem nada nas mãos, em direcção ao Sudão, onde já tentam sobreviver 96 mil refugiados eritreus e 100 mil deslocados etíopes.

A UNICEF estima que 2,3 milhões de crianças precisam de assistência. Bombardeadas, as igrejas já não são abrigos seguros. Os preços dos produtos básicos subiram em flecha. Sem combustível, as ambulâncias deixaram de levar doentes aos hospitais.

Habitantes do Tigré fogem da guerra, num autocarro que os leva para um acampamento temporário em Hamdayet, na fronteira da Etiópia com o Sudão
© Associated Press | Fox News

No Twitter, depois de clamar vitória, Abiy deu garantias de que as suas tropas “não atacam civis” e de que reedificará as vilas e cidades destruídas. Mas será ele capaz de restaurar a confiança dos tigrínios, muitos dos quais fugiram do Tigré Ocidental agora “administrado por burocratas e polícias da região de Amara?”, pergunta a revista The Economist.

Refugiados ouvidos pelo diário The New York Times, relatam horrores: “assassínios, decapitações, tortura, violações e pilhagens”, que atribuem a “milícias aliadas do Governo”.

Desde que a FLPT ajudou a derrubar a ditadura marxista (Derg) de Mengistu Hailé Mariam, em 1991, assumindo-se como “o árbitro com o monopólio do poder e do dinheiro” em Adis Abeba, até 2018, a maior contenda étnica é que a opõe os amaras e os tigrínios.

Estas duas comunidades estão unidas pela religião (cristã ortodoxa), língua e cultura, mas separam-nas um nacionalismo fervoroso e uma disputa irredentista por terras férteis no Norte montanhoso e inóspito, na fronteira com o Sudão e a Eritreia.

A “rápida” conquista de Mekelle e “alguns focos de resistência” foram confirmados por outro académico etíope, Kassahun Melesse. Mas este professor no Departamento de Economia da Universidade do Oregon (EUA), cuja investigação se propõe reduzir a pobreza na África Subsariana, acredita que a ofensiva de Abiy “terminará em breve”, com “a rendição” dos principais líderes da FLPT.

Em entrevista que me deu por e-mail, Kassahun também faz referência a um massacre de 600 amaras, na localidade de Mai-Kadra, confirmado pela Amnistia Internacional, presumivelmente cometido por tigrínios, quando a FLPT, que terá “uns 250 mil” soldados e milicianos, procurava escapar ao avanço do exército federal.

Abiy deu garantias de que as suas tropas “não atacam civis” e de que reedificará as vilas e cidades destruídas, mas os EUA e a Amnistia Internacional denunciam massacres e outras atrocidades
© Eduardo Soteras | AFP | Getty Images

Quem devemos culpar, afinal, por este conflito num país de 110 milhões de habitantes, o segundo mais populoso de África (depois da Nigéria), com dez regiões, 80 etnias, 88 línguas e 200 dialectos, que venceu uma fome devastadora (cerca de 1,2 milhões de mortos, 2,5 milhões de deslocados internos, 400 mil refugiados e 200 mil órfãos), entre 1983 e 1985, para se tornar, a partir de 2000, numa das economias de mais rápido crescimento?

Recordemos primeiro que, durante quase três décadas, a FLPT dirigiu a Etiópia com mão de ferro à cabeça de uma coligação de quatro partidos étnicos – a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (FDRPE) –, na qual Abiy, líder da Organização Democrática Popular Oromo/ODPO, serviu como chefe dos serviços secretos e depois ministro da Ciência e Tecnologia.  

Em 2018, a FDRPE elevou Abiy à liderança e, consequentemente, à chefia do Governo (o primeiro oromo no cargo), para conseguir travar os protestos populares que se arrastavam desde 2015 e que forçaram a demissão de Hailemariam Desalegn, o sucessor de Meles Zenawi (1955-2012). Este tigrínio visionário, mas autocrático, foi o artífice de um sistema federal com uma Constituição que dá às várias etnias “o direito à autodeterminação”.

Esta licença constitucional para a “secessão” levou o povo Sidama a criar o seu próprio estado, num referendo em Dezembro de 2018. Os Wolayta, outro povo do Sul, exigem o mesmo estatuto, desde Agosto de 2020, mas o plebiscito popular que o legitimaria não foi aceite por Abiy.

Um devoto pentecostal, nascido na cidade de Agaro, na Oromia, filho de um muçulmano oromo e de uma cristã ortodoxa amara, o mais jovem líder africano, aos 44 anos, Abiy Ahmed acredita ter uma “missão divina”. A sua tese de doutoramento, sobre resolução de conflitos, defende a “unidade nacional a partir da diversidade étnica”. É o que ele designa por filosofia medemer, palavra amárica que se traduz por “viver juntos”.

Bandeiras da Etiópia e do povo amara numa manifestação em Adis Abeba de apoio às tropas de Abiy Ahmed no Tigré
© AFP | dailysabah.com

Assim que tomou posse, Abiy apressou-se a demonstrar que era um “reformador”. Permitiu o regresso de opositores exilados, libertou presos políticos, aliviou a censura, legalizou partidos proibidos, prometeu respeitar os direitos humanos, criar instituições eleitorais e judiciais independentes, atrair investimentos. E fez a paz com a Eritreia, o que lhe valeu o Nobel.

“Mais liberdade”, constatou o think-tank International Crisis Group, “contribuiu para intensificar a competição entre elites etno-regionais e outras facções por todo o país que agora reclamam uma mais equitativa partilha de recursos, maior autonomia e o fim das injustiças de que se sentem vítimas.”

Os problemas de Abiy Ahmed começaram quando decidiu marginalizar os antigos chefes e aproximar os oromos (maior grupo étnico, 35% da população) dos amaras (20%, a nobreza que clama descendência da Rainha de Sabá e do Rei Salomão, nostálgica da Abissínia, onde reinou até ao golpe apoiado pelos soviéticos em 1974).

Abiy dissolveu, então, a FDRPE e criou o Partido da Prosperidade (PP), dizendo: “Só temos uma opção, que é unirmo-nos; a outra opção é matarmo-nos.”

A FLPT não aceitou “esta porcaria de pan-etiopismo”, e o primeiro-ministro responsabilizou os dirigentes tigrínios pelos abusos do passado, demitindo-os dos principais cargos políticos e militares, ordenando a detenção de alguns deles. Isso forçou-os a entrincheirar-se no Tigré, de onde, supostamente, têm instigado múltiplos actos de violência que, nos últimos dois anos, causaram mais de 3 milhões de deslocados internos, segundo o Internal Displacement Monitoring Group.

Dezembro de 2020: Civis etíopes fogem dos combates no Tigré, seguindo num autocarro em direcção ao campo de refugiados de Um Rakuba, no Sudão
© Byron Smith | Getty Images

“Os tigrínios e Abiy estão a competir pelo controlo do Estado”, certifica Asafa Jalata, autor de oito livros, entre eles, Contending Nationalisms of Oromia and Ethiopia: Struggling for Statehood, Sovereignty, and Multinational Democracy. Quanto ao chefe do Governo, “recuou drasticamente nas suas promessas”, porque, tal como os amaras, “quer imitar anteriores líderes autoritários/coloniais, designadamente, [os defuntos imperadores] Menelik II [1844-1913] e Hailé Selassié [1892-1975]”.

Asafa critica ainda Abiy por “usar estratégias de pau e cenoura, para corromper e incorporar no PP determinadas organizações políticas, activistas e dirigentes, oferecendo-lhes nomeações [para cargos públicos], terras, casas e vidas de luxo, servindo-se deles contra grupos independentes e instituições cívicas”. E não lhe perdoa ter “renegado o movimento nacionalista oromo” com a justificação de que este “continua prisioneiro dos rancores do passado”.

“Em várias áreas da Oromia, como Wallaga, Guhi e Borana, foi imposta uma ocupação militar”, denuncia Asafa. “Muitos civis têm sido mortos extrajudicialmente, opositores, jornalistas e activistas foram presos” – um deles, Jawar Mohamed, líder do Congresso Federalista Oromo, principal adversário político de Abiy. “O foco já não é uma transição democrática, mas uma consolidação do poder pela violência e pelo terror.”

Se a Etiópia continuar por esta via, “há a possibilidade de se tornar num Estado falhado e se desintegrar”, teme Asafa. Outros analistas receiam um destino semelhante ao da Jugoslávia, nos anos 1990.

O sobrevivente tigrínio Abrahalev Minasbo, 22 anos, natural de Mai-Kadra, mostra os ferimentos com machetes a que foi sujeito num abrigo de refugiados do Tigré no Sudão
© Nariman El-Mofty | Associayed Press | usnews.com

Kassahun Melesse, que viveu durante 25 anos em Adis Abeba, onde mantém família e em cuja universidade se formou (além das universidades da Califórnia e de Harvard), não partilha a opinião de Asafa Jalata. Sim, admite, “este é um conflito com uma dimensão étnica” porque “há velhos e profundos ressentimentos e rivalidades” entre as várias comunidades, “mas a FLPT não está a combater por autonomia e sim pela influência económica que deteve” até 2018.

“O ataque surpresa ao Comando Norte foi planeado pela FLPT para destituir Abiy e recuperar os privilégios do poder federal, por isso, o primeiro-ministro não teve alternativa” a não ser lançar uma ofensiva no Tigré, assevera Kassahun.

“Não acredito que outro governo aceitasse negociar com um grupo tão hostil, que matou centenas de soldados e disparou rockets contra cidades e países vizinhos [entre eles, a Eritreia, que terá despachado tropas para o Tigré, em apoio de Abiy]. Isso enviaria uma mensagem errada a actores agressivos e desestabilizaria ainda mais o país.”

“O argumento de que Abiy está a sabotar as suas reformas não é convincente, porque é do seu interesse demonstrar que é capaz de oferecer estabilidade política e riqueza económica, para assim vencer as próximas eleições” em 2021, acredita Kassahun. “A não ser que uma nova geração de líderes tome medidas concretas para acabar com as divisões étnicas, avançando para uma política de ideias e valores, o risco de este tipo de conflitos continuar a afligir o país manter-se-á elevado.”

Abyi Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, no dia em que recebeu o Prémio Nobel da Paz 2019, e Debretsion Gebremichael, o líder do Tigré : aliados que se tornaram inimigos implacáveis
© Ken Opprann | Nobel Media (foto 1) Tiksa Negeri |Reuters (foto 2)

Asafa Jalata não hesita em usar a expressão “guerra civil” e está convencido de que se irá transformar “numa guerra de guerrilha”, um cenário que não está, todavia, nas previsões de Kassahun Melesse.

“Mesmo que os dirigentes da FLPT não sejam capturados em breve”, explicou, “há factores que impossibilitam um regresso à guerrilha: veteranos, como Debretsion Gebremichael, “estão mais velhos [na casa dos 60, 70 anos] e a maioria das novas forças no Tigré não tem experiência em qualquer tipo de batalha”.

“Além disso, a situação de segurança na Etiópia e a geopolítica no Corno de África”, que facilitaram 17 anos de luta armada contra Mengistu, já não existem”, adianta Kassahun.

“O governo militar de então combatia a Frente de Libertação do Povo Eritreu [FLPE] com homens experientes e músculo financeiro, o que lhe permitiu travar uma guerra prolongada. Naquela altura, também os governos do Sudão e da Somália não se entendiam com o governo etíope e apoiavam a FLPT e a FLPE. Actualmente, nenhum dos vizinhos da Etiópia tem vontade ou capacidade de dar esse apoio.”

“A Eritreia travou uma sangrenta guerra fronteiriça entre 1998 e 2000, que depois se tornou num ‘conflito congelado’] com o governo chefiado pela FLPT”, mas assinou a paz com Abiy. O Sudão, depois da cisão do Sudão do Sul (onde Adis Abeba tem uma missão de paz), “atravessa um período de transição, e a instabilidade na Etiópia costuma ter ali efeitos adversos, como se vê pelo fluxo de refugiados”.

Ao Djibuti, “de cujos portos a Etiópia, país sem litoral, depende para a importação e exportação dos seus produtos, interessa um vizinho próspero”. Quanto à Somália, “precisa imenso das tropas etíopes para derrotar [a organização terrorista] Al-Shabab”.

Uma guerra de guerrilha também é improvável, segundo Kassahun, porque se, nos anos 1980, a FLPT lutava contra o Derg, um regime “repressivo e impopular”, o que facilitou o recrutamento de combatentes, “já não conta com a simpatia da maioria dos etíopes, por não ter sido capaz de formar um governo democrático”.

Este é um conflito com uma dimensão étnica , porque há velhos e profundos ressentimentos e rivalidades entre as várias comunidades
© The Economist

Kassahun Melesse não acredita que a guerra no Tigré se alastrará aos países vizinhos: “A probabilidade é mínima.” Já Asafa Jalata teme que uma escalada resulte numa tragédia, sobretudo humanitária. “Isso criará oportunidade para os terroristas somalis alargarem a sua influência ao estratégico Corno de África.”

A guerra no Tigré não é a única crise que Abiy Ahmed enfrenta. Outras são a pandemia causada pelo SARS-CoV-2, chuvas e inundações sem precedentes (mais de 500 mil pessoas afectadas e 200 mil deslocadas desde Julho), uma praga de gafanhotos que destrói colheitas e um contencioso com o Egipto, que ameaça retaliar se a Etiópia avançar com o enchimento da “Grande Barragem do Renascimento Etíope”, um colossal projecto hidroeléctrico, no Rio Nilo Azul, contestado pelo Cairo e Cartum, receosos de que uma redução do fluxo de água venha a prejudicar o seu desenvolvimento energético, agrícola e industrial.

Estará Abiy Ahmed à altura destes desafios? Kassahun Melesse acha que “só o tempo dirá”, mas ressalva que “nem tudo é escuridão e desgraça”. Na frente interna, está convencido de que o primeiro-ministro vencerá a FLPT, “um inimigo temível”, o que “reforçará a sua autoridade”, e está convicto de que, com a eleição de Joe Biden, os EUA retomarão a ajuda à Etiópia cortada por Donald Trump para obrigar Abiy a fazer concessões. (A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, não está tão confiante: “A situação é extremamente preocupante e volátil, e está a ficar descontrolada.”)

Asafa Jalata, por seu lado, reconhece que Abiy “tem os conhecimentos necessários para governar um império complexo”, mas repete que não deve ser tolerado o seu “comportamento ditatorial”, que subjuga os tigrínios e sacrifica os oromos a favor dos amaras.

Asafa Jalata, professor de Sociologia e de Estudos Globais e Africanos na Universidade do Tennessee, em Knoxville (EUA)
Kassahun Melesse, professor no Departamento de Economia da Universidade do Oregon (EUA) e um defensor de Abiy Ahmed
Na terra de Preste João, uma pequena comunidade tenta sobreviver

Se, no séc. XVII, o rei Suzeniôs, convertido por jesuítas portugueses, tivesse vencido uma guerra civil que durou cinco anos, talvez a Etiópia fosse hoje um país católico. Mas o conflito foi tão brutal que ainda hoje os fiéis da Igreja de Roma são olhados com desconfiança pelos dominantes cristãos ortodoxos.

© catholicsandcultures.org/

No Tigré, o estado regional onde se trava uma guerra para definir o que é a “nação etíope”, os católicos encontram-se entre as principais vítimas de impiedosos combates iniciados em Novembro de 2020.

“Embora pequena, a comunidade católica no Tigré está a ser muito afectada, porque tem sido desenraizada dos seus lares numa região onde sempre existiu imensa pobreza”, diz-me, em entrevista por e-mailEdward Clancy, um dos directores americanos da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) que acompanha a situação da igreja local.

“Antes desta crise de violência, já mais de meio milhão de pessoas precisavam de alimentos e, agora, tudo se agravou drasticamente”, salienta Clancy.

As Nações Unidas alertam para “o impacto terrível sobre os civis”, e o Papa Francisco exortou os beligerantes a “rejeitar a tentação do conflito armado”, convidando-os “à oração, ao respeito fraterno, ao diálogo e à resolução pacífica das divergências.” 

“O primeiro-ministro Abiy [Ahmed] pretende acabar com o federalismo étnico, em vigor desde os anos 1990, mas a Frente de Libertação do Povo Tigré [FLPT, que instaurou esse sistema] pegou em armas para lutar pela independência da sua região, o que aumenta o risco de guerra civil e de novo conflito entre a Etiópia e a Eritreia”, avalia Clancy.

“A Etiópia tem uma população muito diversa e, ainda que o federalismo tivesse sido uma maneira de manter a paz, partilhando o poder, acabou por fomentar divisões e xenofobia”, explica Clancy. A violência dos últimos dois anos, que incendiou igrejas e encerrou escolas, clínicas e hospitais católicos, é atribuída pelo director de programas assistenciais da AIS a “uma mistura de divergências étnicas, políticas e religiosas que causam mais instabilidade do que medo”.

© Mihoko Owada | Catholic Standard

Os católicos, apenas 1% dos cerca de 110 milhões de habitantes da Etiópia, contribuem com “90% da ajuda social” (1) –, mas ainda são olhados com suspeição devido a um passado doloroso, relacionado com uma missão de jesuítas portugueses no século XVI. Já lá iremos.

O Cristianismo chegou ao antigo Império de Axum entre 325 e 340, quando dois monges fenícios de Tiro, Frumêncio e Edésio, sobreviventes de um naufrágio e inicialmente prisioneiros da família real, converteram o príncipe herdeiro, Ezana, de quem se tornaram perceptores. Foi Ezana, quando subiu ao trono, que elevou a sua fé a religião oficial da Etiópia – o segundo país a fazê-lo depois da Arménia. O bispo Frumêncio é ainda hoje venerado como santo apóstolo.

Conhece-se mal o período que se seguiu à conversão de Ezana, anota o historiador André Ferrand de Almeida (2) “mas sabe-se que, ao longo dos séculos V e VI, o país esteve sob influência das igrejas síria e grega”, e que “foram, provavelmente, monges sírios, a que a tradição se refere como ‘os nove santos’, que fundaram por essa altura diversos mosteiros na Etiópia (…) e traduziram o Novo Testamento do síriaco para o ge’ez (etiópico antigo).”

O Reino de Axum foi dos mais poderosos da passagem da Antiguidade para a Idade Média. Entre os séculos III e IV, conquistou territórios na Península Arábica, na Etiópia do Norte e na Pérsia. Destruiu Meroé, capital do Império Kush, conduzindo ao colapso deste centro político do Sul do Egito, assumindo o controlo das rotas comerciais que atravessavam o Mar Vermelho. (3)

© geeskaafrika.com

No século VII, apesar de os axumitas acolherem companheiros perseguidos de Maomé, começaram a multiplicar-se conflitos marítimos com mercadores muçulmanos. Foi uma “expansão muito lenta”, mas, ao longo dos séculos IV e X, o Islão já estendia a sua influência a “toda a orla costeira da Etiópia e também no Sul”, observa Ferrand de Almeida, e Axum acabou por cair. Seguiram-se várias dinastias.

A partir de 1434, o negus (imperador) Zara Jacob atribuiu a si próprio a missão de acabar com as quezílias que dividiam a Igreja Etíope. Usou todos os recursos para “estabelecer uma fronteira clara entre costumes cristãos e costumes pagãos ou heréticos”, e mobilizou as principais comunidades monásticas para um grande esforço de evangelização. O objetivo era criar “uma sociedade religiosamente homogénea, assim fortalecendo a unidade de um reino constituído por povos linguística e culturalmente diferentes”.

A opção de Zara de defender práticas judaicas do Antigo Testamento (como a observação do Shabat ou a circuncisão), aceites pela maioria da população, afastava a igreja etíope da comunhão com Roma e até de Alexandria/ Egipto, da qual dependia. Ainda assim, manteve sempre o interesse em aliar-se aos príncipes cristãos do Ocidente contra o Islão.

Ferrand de Almeida constata que a ideia de uma aliança com o Ocidente cristão “para combater os muçulmanos do Egipto e libertar a Terra Santa” surge, pela primeira vez, no início do século XVI. “Terá sido o dominicano Jordão de Severac quem identificou o imperador etíope como o lendário Preste João”.

© Chris Roche | selamtamagazine.com

Portugal, no reinado de João II, começou a busca (atribulada) daquele império em 1487, com os emissários Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, ambos fluentes em árabe, mas só em 1520 é que chegou à Etiópia a primeira embaixada oficial. Chefiava-a D. Rodrigo de Lima, que entregou ao negus Lebna Dengel uma carta do governador Diogo Lopes de Sequeira, traduzida para ge’ez (amárico), obtendo dele “luz verde” para a construção de fortalezas em Suaquém, Maçuá e Zeila.

Em Abril de 1521, D. Manuel recebeu notícias da chegada da embaixada de D. Rodrigo de Lima e, em Maio, escreveu ao Papa a Carta das Novas que vieram a El rei Nosso Senhor do Descobrimento de Preste João – “o primeiro documento impresso em português sobre a expansão”, segundo Ferrand de Almeida.

O problema é que o rei morreu em Dezembro, o que pôs fim aos “projectos de cruzada contra os muçulmanos” e adiou “maior envolvimento político e militar [português] no Oriente”.

Isso mudou em 1541, quando a rainha etíope Sabla Vangel fez chegar um pedido de auxílio a uma armada comandada pelo vice-rei da Índia, que se encontrava no Mar Vermelho para destruir bases navais dos turcos.

A situação era grave, constata Ferrand de Almeida: “Desde 1527 que o imã Ahmed ben Ibrâhim, do sultanato muçulmano de Adal e conhecido como Granhe (“O Canhoto”), fazia incursões consecutivas em território do império abexim [da Abissínia], varrendo o país a ferro e fogo. Quase todas as províncias tinham sido saqueadas, inúmeros mosteiros incendiados e as principais igrejas de Axum saqueadas.”

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Graças às suas vitórias militares (conquistou todo o Sul da Etiópia, mantendo “uma ameaça permanente” sobre o Tigré e Gojam), o Granhe conseguiu ainda convencer muitos etíopes, incluindo nobres e governadores de províncias, a abandonar o Cristianismo e a juntarem-se a ele.

“Num momento em que a civilização etíope cristã se encontrava à beira do aniquilamento às mãos dos invasores muçulmanos” (4), foi crucial o envolvimento de um corpo expedicionário de 400 soldados vindos de Goa e comandados por D. Cristóvão da Gama. Este foi capturado e morto numa das batalhas, mas o Granhe também morreu, em 1543, às mãos dos portugueses, e o seu exército de afaris e somalis pôs-se imediatamente em fuga.

Na sequência desta “devastadora guerra”, e porque a Etiópia pedira a continuação da ajuda de Portugal, chegou ao país, em 1557, um primeiro grupo de missionários jesuítas, “cuja função foi, originalmente, de prover às necessidades espirituais da pequena comunidade católica composta por portugueses e indianos, e dos seus descendentes, na região de Adwa (Fremona, [antiga cidade no Tigré actual])”, informa o antropólogo Manuel João Ramos.

A influência destes missionários na corte etíope foi crescendo, gradualmente, não apenas devido à “sofisticação da sua doutrinação teológica e à qualidade da sua actuação na intriga política”, mas também “às expectativas autóctones de apoio militar e técnico português, aos conhecimentos de arquitectura e engenharia proporcionados pelos irmãos leigos vindos da Índia”.

Em 1620, o rei Suzeniôs anunciou publicamente a adesão à fé latina, “com a intenção estratégica de reforçar o seu poder político e a sua independência face ao influente clero ortodoxo”. (5) Imediatamente chegaram à Etiópia numerosos sacerdotes jesuítas que introduziram reformas católicas na liturgia, “alterando radicalmente práticas religiosas ancestrais”.

O próprio rei, que instituiu o Catolicismo como religião do Estado, proibiu a Igreja Ortodoxa e adoptou medidas repressivas para que o povo emulasse a sua conversão.

© Tiksa Negeri | Reuters

O resultado foi uma “guerra civil devastadora” que durou cinco anos e obrigou o negusa negast (rei dos reis) Suzeniôs a abdicar da coroa, a favor do filho, Fasiladas. Este rejeitou o Catolicismo e, em 1633-34, perseguiu expulsou ou matou todos os missionários jesuítas.

Para “obliterar a sua memória”, também mandou “destruir grande parte dos vestígios materiais da sua presença”: o interior de igrejas e residências foi pilhado, objectos litúrgicos foram destruídos, livros foram queimados.

“Tivesse Suzeniôs vencido, e a Etiópia seria hoje um país católico” (6), mas estava profundamente isolado dos súbditos. A guerra fez com que os europeus fossem proibidos de entrar neste “Sião Africano” durante 200 anos, uma decisão, argumentam alguns, que acabou por preservar a independência da nação durante a chamada “Partilha de África”, a divisão do continente selada na Conferência de Berlim de 1884-1885, que conduziu à exploração de recursos e à opressão de povos. A antiga Abissínia orgulha-se de ter sido “o único império africano não colonizado pelos europeus”.

No século XIX, ainda se verificou, porém, outro esforço missionário para evangelizar o reino etíope, desta vez concentrado nas províncias do Norte da Eritreia (independente desde 1993) e na região do Tigré. Esta comunidade católica cresceu durante a ocupação italiana da Eritreia, de 1882 até 1947.

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Actualmente, a grande maioria dos católicos vive em aldeias remotas e muitos queixam-se de ainda serem vistos com “desconfiança”, devido à guerra de Suzeniôs. “É triste que conflitos de há vários séculos continuem a causar problemas, apesar de a comunidade católica ter uma influência positiva”, lamenta Edward Clancy, da AIS.

“Na Etiópia, a Igreja Católica construiu duas dúzias de hospitais e mais de uma dúzia de centros de apoio a pessoas idosas e portadoras de deficiência. São instituições que não servem apenas católicos, mas todos os que precisam. A Igreja continua a apoiar os mais pobres e os mais vulneráveis.

Escolas católicas educam mais de 120 mil alunos, ajudando, especialmente, jovens raparigas a aceder a uma educação superior. Cerca de mil missões servem comunidades que sobrevivem com o mínimo e ensinam-lhes a viver em paz com outros grupos étnicos que sempre consideraram inimigos. Seria de esperar que este serviço aos outros contribuísse para que velhos rancores fossem esquecidos ou perdoados”. Mas ainda não.

No entanto, realça Clancy, “há muito em comum” entre a Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo e a Igreja de Roma. À primeira vista, os ritos ortodoxos etíopes são mais parecidos com os do Judaísmo e estranhos aos ritos católicos, mas a realidade é que a nossa Missa e muitos dias festivos também têm profundas raízes judaicas.

É simbólico o facto de estas duas igrejas serem, ao mesmo tempo, diferentes e semelhantes. Se repararmos bem, cada uma delas procura educar, evangelizar e ajudar as pessoas a crescer.”

As duas igrejas enfrentam também um outro desafio: o proselitismo de cristãos evangélicos por toda a África. “Pregadores do ‘Evangelho da Prosperidade’ tentam, cada vez mais, atrair católicos e ortodoxos, pouco catequisados, com promessas de riqueza e uma vida melhor”, reconhece Clancy.

“Infelizmente, isto é um subproduto das profundas divisões entre os cristãos. Os católicos etíopes necessitam de maior apoio da Igreja de Roma, porque, sendo uma comunidade pequena, e dadas as necessidades extraordinárias de tantos pobres, é-lhe difícil ser eficaz e sobreviver.”

FONTES: (1) Estimativa do bispo colombiano D. Rodrigo Mejía Saldarriaga, vigário-apostólico de Soddo-Hosanna, em entrevista ao portal católico pt-zenit.org; (2) André Ferrand de Almeida, “Da Demanda do Preste João à Missão Jesuíta da Etiópia: A Cristandade da Abissínia e os Portugueses nos Séculos XVI e XVII, Lusitania Sacra, 2º série, 11 (1999); (3) Cláudio Fernandes, “O reino de Axum”, Brasil Escolahttps://brasilescola.uol.com.br/historiag/o-reino-axum.htm(4) Manuel João Ramos, “O Património Português na Etiópia” in Fernando Cristóvão et al. “Dicionário Temático da Lusofonia, ACLUS – Texto Editores, 2005; (5) “De Fora, da Terra: Presença Jesuíta na Etiópia do Séc. XVII”, em https://home.iscte-iul.pt/~mjsr/html/expo_jesuits/indice.htm(6) James Jeffrey, The Trials of Ethiopian Catholics”, Catholic Herald.

Um mosaico étnico-religioso

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  • A República Democrática Federal da Etiópia é um dos Estados mais antigos do mundo e um dos mais estratégicos, no Corno de África, fronteiriço com a Eritreia, a norte; o Sudão, a oeste; o Sudão do Sul, a sudoeste; o Quénia, a sul; a Somália, a leste; e o Djibuti, a nordeste.
  • A Etiópia, predominantemente agrícola (mais de 80% da população vive em zonas rurais) não tem litoral. Perdeu toda a sua costa, ao longo do mar Vermelho, quando a Eritreia se tornou independente de jure, em 1993. Mas tem o Nilo Azul, que é o principal curso de água, em termos de volume, do rio Nilo, que nasce no Lago Tana, no Noroeste.
  • Com mais de 102,5 milhões de habitantes, A Etiópia é o segundo Estado mais populoso de África, depois da Nigéria. À excepção de cinco anos de ocupação da Itália de Mussolini, também nunca foi colonizado.
  • A Igreja Ortodoxa Tewahedo, das primeiras do Cristianismo, faz parte da sua singular herança cultural, mas, embora seja a religião dominante (43,5%), não é a única no país. Há também muçulmanos (33,9%), pentecostais ou protestantes (18,6%), crenças tradicionais (2,6%) católicos apostólicos romanos (1%) e outros (0,7%).
  • Os seus habitantes repartem-se por cerca de 80 grupos étnicos, sendo os principais os oromo (35,3%), amara (26,2%), somali (17,3%), tigrínio (6%), sidama (5,9%), gurage (4,35), wolayta (2,7%) e outros (2,3%).
  • Os etíopes exprimem-se em 88 línguas e cerca de 200 dialectos. As línguas semitas, predominantes no Norte e no Centro, incluem o ge’ez (usado hoje só para as escrituras religiosas ortodoxas), o amárico, o tigrínio, o gurage e o hareri (no Leste e no Sul). As línguas de origem cuxítica são as dos grupos étnicos oromo (nas áreas ocidentais e orientais, no Sul e no Sudoeste), somalis (dominante entre os habitantes das regiões de Ogaden e Hawd) e afar (comum na Planície Denakil). As línguas de origem omítica, a mais importante da qual é a da etnia wolayta, são faladas no extremo Sudoeste. Entre as línguas de origem nilótica (da família do Nilo-Sara), a dominante é a kunama (com dialectos quase imperceptíveis), usada quer na Etiópia como na Eritreia.
  • A Etiópia elegeu em 2018 a primeira mulher para a Presidência da República, Sahle-Work Zewde, no ano em que também ascendeu à chefia do governo o primeiro oromo: Abiy Ahmed.
© Eduardo Soteras | AFP | Getty Image | Foreign Policy

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Janeiro de 2021 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, January 2021 edition

A nova (des)ordem pós-soviética

Depois de seis semanas duma guerra sangrenta no Nagorno-Karabakh – o enclave onde começou o fim da URSS –, a Rússia impôs à Arménia e ao Azerbaijão um cessar-fogo que altera a geopolítica do Cáucaso. Para entender este conflito e como Moscovo reorganiza a sua “esfera de influência”, entrevistei Richard Giragosian, um dos mais respeitados especialistas regionais. (Ler mais | Read more...)

A perda da estratégica cidade de Shushi [ou Shusha, para o Azerbaijão] a segunda maior do Nagorno-Karabakh, apenas a 14 km de Stepanakert [Berdzor], “foi um ponto de viragem crucial”
© Sergey Ponomarev | The New York Times

O director do Regional Studies Center (RSC), um think tank independente em Ierevan, capital da Arménia, não tem dúvidas. “Depois de 40 dias e 40 noites de combates intensos” no disputado enclave do Nagorno-Karabakh (N-K), a nação cristã, “orgulhosa, desafiadora e resiliente”, que sobreviveu a um genocídio (1) “tinha poucas opções e ainda menos alternativa”. Ou aceitava um cessar-fogo imposto pela Rússia, cedendo território ao Azerbaijão, ou arriscava-se a uma nova tragédia humana. 

Os combates cessaram à meia-noite de 10 de Novembro, quando, na sua página de Facebook, o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinian, confessou a “indescritível e dolorosa” aceitação de um acordo com os presidentes russo, Vladimir Putin, e azerbaijano, Ilhan Aliev.

As tréguas permitiram “salvar o que resta do Nagorno-Karabakh e poupar a população arménia ao avanço das tropas azerbaijanas”, em posição de superioridade, militar e tecnológica, graças ao apoio da Turquia e de Israel, assevera Richard Giragosian (*), numa entrevista que me deu, por e-mail.

Segundo a lei internacional, o Nagorno-Karabakh, habitado por uma maioria de arménios, pertence ao Azerbaijão, mas tem sido controlado de facto por Ierevan, desde que Baku perdeu a guerra de 1988-1994, que marcou o início do colapso da União Soviética (em 1991), o império a que pertenciam as duas repúblicas beligerantes.

Agora, segundo o acordo imposto por Putin, cerca de 2000 soldados de uma força russa de manutenção da paz vão instalar-se no montanhoso enclave no Cáucaso do Sul, estabelecendo “um perímetro de 5 km”. O objetivo, esclarece Giragosian, é “proteger e defender o vital ‘Corredor de Lachin [ou Berdzor]’ – a última bóia de salvação que liga o Nagorno-Karabakh à Arménia”.

Um velho arménio de muletas, Rafik Arakelyan, vê o noticiário num hotel em Goris
© Sergey Ponomarev | The New York Times
Celebrações em Baku, a capital do Azerbaijão. “Estamos felizes porque finalmente vencemos”, disse um habitante
© Ivor Prickett | The New York Times

Os arménios, forçados a recuar para Stepanakert [ou Xankändi], a capital do N-K, comprometeram-se a evacuar os distritos de Kelbajar, Aghdam e Lachin. Muitas das igrejas e monumentos cristãos do enclave, incluindo o histórico Mosteiro de Dadivank (agora um posto de observação russo), com estelas únicas gravadas em pedra, conhecidas como khachkars, situam-se nas áreas que serão entregues ao Azerbaijão.

“Numa aparente tentativa de estabelecer paridade”, anota Richard Giragosian, Moscovo determinou que “um outro ‘corredor’, muito mais vago, irá ligar o Azerbaijão ao seu exclave de Nakhichevan”, através da província arménia de Siunik, na fronteira com o Irão.”

O acordo também “não clarifica o ‘estatuto’ das restantes partes do Nagorno-Karabakh, ignorando o que se acertou em anteriores negociações”.

A recomendação de Giragosian é a de que, em futuros esforços diplomáticos, estejam presentes “todas as partes, incluindo os representantes democraticamente eleitos do Nagorno-Karabakh”, e não apenas os da Arménia. “Uma exclusão do N-K só prejudicará o potencial de durabilidade e sustentabilidade” deste compromisso.

Apesar de os inimigos terem aceitado o acordo “sob diferentes graus de coação ou repulsa”, a realidade é que, para os líderes de Ierevan e da autoproclamada “República de Artsakh”, não havia outra saída, assegura o analista arménio. A perda da estratégica cidade de Shushi [ou Shusha, para o Azerbaijão] a segunda maior do N-K, apenas a 14 km de Stepanakert [Berdzor], “foi um ponto de viragem crucial.”

Arménios acendem velas durante a última cerimónia religiosa no Mosteiro de Dadivank
© Mauricio Lima | The New York Times

O número de mortos, num e noutro campo, é estimado em “vários milhares” e o de desalojados em “130 mil”. Os danos causados às infra-estruturas (casas, hospitais, escolas, empresas) são incalculáveis. Arménios e azerbaijanos terão usado bombas de fragmentação e munições de fósforo, proibidas pelas convenções internacionais.

Em Ierevan, milhares de arménios denunciaram a “rendição” de Pashinian, gritando pelas ruas “traidor, traidor!”. Protestos diários tornaram-se violentos, com manifestantes a invadir as sedes do Governo e do Parlamento.

Por ceder às exigências da Rússia (“para evitar a queda de Stepanakert e a captura ou morte de 25 mil soldados arménios”) e recusar demitir-se, Pashinian está consciente de que pôs em risco a sua “vida física e política”. Em 14 de Novembro, o antigo chefe dos Serviços de Segurança Nacional (NSS) e líder de um partido da oposição foi detido com outros conspiradores por “planear o assassínio” do primeiro-ministro e “um golpe para usurpar o poder”.

Em Baku, também milhares as pessoas saíram à rua, não em fúria, mas júbilo, exibindo bandeiras do Azerbaijão e da Turquia, entoando hinos patrióticos. “A minha felicidade não tem limites”, confessou ao site eurasianet Malik Taghizada, veterano da guerra dos anos 1990 que já pode regressar à terra-natal, em Aghdam.

Soldados do Azerbaijão rezam fazem uma pausa nos combates para rezar na mesquita de Aghdam, o único edifício intacto na povoação © Ivor Prickett | The New York Times

Como explicar a ofensiva ordenada por Ilhan Aliev em 27 de Setembro no N-K, onde as sangrentas batalhas dos anos 1990 já haviam causado 30 mil mortos e quase um milhão de deslocados (700 mil dos quais azerbaijanos)?

Aliev, um oligarca que, desde 2002, governa com mão de ferro um país de “elites corruptas” (segundo várias organizações internacionais) e cada vez mais rico em petróleo e gás natural, “sentia-se verdadeiramente frustrado com a ausência de progressos substanciais no processo de paz” no N-K, concede Giragosian.

“É óbvio que Baku e Ancara planearam e coordenaram a ofensiva conjunta para Setembro, porque era o timing certo”, atesta Giragosian. “A Rússia estava distraída com a ameaça de novas sanções por ter envenenado o líder da oposição Alexei Navalni; os americanos estavam concentrados nas suas eleições presidenciais e a União Europeia [cuja falta de apoio a Pashinian o analista arménio critica severamente] estava ocupada em gerir a segunda vaga da pandemia de Covid-19.”

Um conflito congelado tornou-se, assim, repentinamente, uma “guerra cinética”. Com assistência militar e operacional directa da Turquia (que forneceu consultores, mercenários e drones), e de Israel (interessado em desestabilizar as províncias azeris do Irão fronteiriças com o Azerbaijão), a ofensiva de Aliev “obteve conquistas territoriais consideráveis” a norte e a leste do Nagorno-Karabakh”. As forças arménias, pelo contrário, “com defesas aéreas desactualizadas, sofreram pesadas baixas”.

Enquanto Ancara encorajava a ofensiva de Baku, a Rússia manteve-se “apática e quase invisível” durante seis semanas, até conseguir virar o jogo com o anúncio súbito de um armistício.

Soldados da força russa de manutenção da paz, perto do Mosteiro de Dadivank, na região montanhosa de Kelbajar
© Maurício Lima | The New York Times

Para a Rússia, esta “foi uma vitória por várias razões”, realça Giragosian. A primeira, porque lhe outorga “uma presença militar directa” no Nagorno-Karabakh – “o único conflito no espaço da antiga URSS de onde estava ausente e que a impedia de projectar, efectivamente, poder e influência”.

“Um segundo dividendo” é que a Rússia passou a exercer “maior controlo” sobre o Governo arménio. “Depois de uma reacção incaracteristicamente passiva e pensativa face à ‘Revolução de Veludo’ de 2018 [a sublevação popular que elegeu Pashinian], Moscovo perdeu a paciência e aproveitou a oportunidade de maximizar a pressão” sobre o Governo em Ierevan.

Putin está empenhado não apenas em “manter a Arménia na órbita da Rússia”, convenceu-se Giragosian, “como em limitar as opções da Arménia, evitando que estabeleça relações mais estreitas com o Ocidente”. O risco agora é o de a Arménia sacrificar a sua independência e soberania em benefício da Rússia.”

Giragosian observa, igualmente, que o cessar-fogo foi uma “iniciativa individual russa”, fora do âmbito do Grupo de Minsk da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), do qual a França e os EUA [que negligenciaram região] são co-presidentes.

“Como mediador oficial” no N-K e “único guardião de uma paz ténue”, a Rússia retirou a iniciativa diplomática” a Paris e a Washington, ainda que este conflito “tenha sido o único em que a Rússia colaborou com o Ocidente, e não contra o Ocidente”, como aconteceu, por exemplo, na Ucrânia (Crimeia) ou na Geórgia (Ossétia do Sul e Abkházia).

Novas campas da guerra de 2020 ao lado de velhas sepulturas da guerra dos anos 1990, num cemitério militar em Stepanakert
© Sergey Ponomarev | The New York Times

Outros analistas vêem a Turquia, e não a Rússia, como principal vencedor de uma guerra do século XXI com raízes antigas e profundas, porque a expressiva vitória do Azerbaijão “cimenta a influência de Ancara no Cáucaso, ‘quintal’ de Moscovo”.

“As consequências geopolíticas são desastrosas, não apenas para a Arménia, mas também para a Rússia”, garante Ruslan Pukhov, director do think-tank russo Centro para a Análise de Estratégias e Tecnologia, em declarações ao jornal britânico The Financial Times.

Sim, Putin “afirmou-se como árbitro regional indispensável, mas à custa de reconhecer a Turquia [sua rival na Síria e na Líbia] como actor geopolítico no Cáucaso”, acrescentou Pukhov.

“Por muito difícil e desagradável que tenha sido submeter-se” a Vladimir Putin, para a Arménia, “a Turquia representava uma ameaça maior, desestabilizadora e destrutiva”, concorda Giragosian.

Erdogan convenceu Aliev a aceitar o acordo de Putin, porque será um dos beneficiários, mesmo sem poder juntar os seus soldados às tropas russas que vão “manter a paz” no N-K. Com a devolução de Nakhichevan ao Azerbaijão, Ancara passa a ter acesso ao mar Cáspio, às repúblicas de expressão turca na Ásia Central e às “Novas Rotas da Seda” [Belt and Road Initiative] da China.

(1) Entre 1915 e 1923, autoridades turcas do Império Otomano levaram a cabo o extermínio e deportação maciça de 800 mil a 1,5 milhões arménios.

Richard Giragosian fundou e é director do think-tank independente Regional Studies Center, em Ierevan, a capital da Arménia, onde vive
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(*) Analista especializado em relações internacionais, com foco especial na política, segurança militar e economia da antiga União Soviética, Ásia e Médio Oriente, Richard Giragosian vive na Arménia, onde nasceu, fundou e é director do “think-tank” independente Regional Studies Center (RSC, www.regional-studies.org). É também professor visitante no Natolin Campus do Colégio da Europa em Varsóvia (Polónia), investigador no Centro de Estudos Europeus (CES) da Universidade Estatal de Ierevan e investigador associado no Instituto para a Análise da Segurança Global (IAGS), em Washington. Foi consultor da OCSE, dos departamentos de Estado e da Defesa dos EUA, da ONU e do Banco Mundial, do International Crisis Group e da Iniciativa para a Estabilidade Europeia (ESI). É ainda comentador regular da Rádio Europa Livre e da Rede de Segurança Internacional (ISN).

Nagorno-Karabakh: Um “espaço sagrado” de cristãos e muçulmanos

O conflito entre a Arménia e o Azerbaijão no enclave que, em russo, se traduz por “montanhoso” (Nagorno) e, numa amálgama de turco e persa, significa “jardim negro” (Karabakh), tem raízes profundas.

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Situado no Cáucaso do Sul, entre a Ásia e a Europa, com menos de 150 mil habitantes, o Nagorno-Karabakh (N-K) faz remontar as suas actuais fronteiras à antiga província arménia de Artsakh, formada em 189 a.C.

Em 387 d.C., o Reino da Arménia foi dividido entre romanos e persas depois de uma longa guerra. Artsakh foi integrada na “Albânia Caucasiana”, assim designada para não se confundir como a Albânia dos Balcãs. Do ponto de vista étnico e até linguístico, nada separava os albaneses caucasianos dos primeiros habitantes de Karabakh.

Em 461 d.C., a Albânia Caucasiana passou a fazer parte de Arran, província do Império Sassânida. No séc. IX, os arménios revoltaram-se contra os conquistadores árabes e criaram o Principado de Khachen em Artsakh.

Persistiram também face às investidas do Império Bizantino, a ocidente, e de outros invasores, a leste: os seljúcidas; os mongóis e timúridas; e as federações turcas de Kara Koyunlu e Aq Qoyunlu. A vida política e cultural arménia foi capaz de sobreviver em “cinco principados” (Khamsa Melikdoms), entidades feudais e semi-independentes, que formavam o N-K.

Em 1724, a Pérsia foi dividida entre a Rússia e o Império Otomano, e o Nagorno-Karabakh incluído na província turca mais a leste. Doze anos depois, o general persa Nader Shah recuperou estes domínios com a ajuda dos melikdoms arménios e recompensou-os com mais soberania.

© Ivor Prickett | The New York Times

Tudo lhes corria bem até o príncipe Melik Shahnazar II Shahnazarian, do melikdom de Varanda, ter aceitado a suserania do líder turco Panah-Ali Khan Javanshir, forçando os restantes principados a integrar o Canato de Karabakh. Tal decisão provocou um êxodo arménio e uma vaga de imigração turca.

Em 1805, o Canato tornou-se estado vassalo do Império Russo. Em 1813, foi anexado pela Rússia e, em 1823, incorporado na Província Russa de Karabakh, onde nómadas azerbaijanos constituíam dois terços da população.

As autoridades russas favoreciam os cristãos arménios em detrimento dos muçulmanos azerbaijanos, que partilhavam a língua e a religião dos otomanos. Graças a este apoio, durante o século XIX, a população arménia de Karabakh foi aumentando de forma constante, ao mesmo tempo que um número cada vez maior de azerbaijanos partia para o Irão e para a Turquia.

O caos da Revolução Russa de 1905 foi propício à eclosão de um conflito: milhares de azerbaijanos e arménios mataram-se em vários massacres nas principais cidades da região. Uma escalada tornou-se inevitável após a queda do Império Russo em 1917.

Em 1918, quando um Azerbaijão independente reivindicou o Karabakh, as províncias controladas por arménios resistiram e formaram o Conselho Nacional Arménio de Karabakh. Em 1920, atacaram quartéis azerbaijanos. Em retaliação, os azerbaijanos arrasaram as guarnições arménias em Shushi/Shusha, na altura a maior cidade de Karabakh, e chacinaram milhares de civis.

Em Abril de 1920, focado no Nagorno-Karabakh, o Azerbaijão perdeu o controlo de Baku, a sua capital, conquistada por forças bolcheviques. Em 1921, todo o Cáucaso do Sul estava sob controlo da URSS. O plano inicial era incluir o N-K na recém-criada “República Socialista Soviética da Arménia”, mas o novo Comissário das Nacionalidades, Josef Estaline, não o aprovou, apesar de 94% da população do enclave ser arménia.

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A situação geopolítica havia mudado – soviéticos e turcos normalizaram laços bilaterais –, e o N-K foi integrado, como oblast (província) autónoma, na “República Socialista Soviética do Azerbaijão”, numa cedência à Turquia.

Os arménios queixavam-se de que Baku restringia a sua autonomia, linguística e cultural, mas a URSS, que não tolerava nacionalismos étnicos, ignorou sempre os protestos contra o statu quo – até 1988. Neste ano, tirando partido das políticas de glasnost (transparência) e perestroika (reestruturação) de um novo líder comunista em Moscovo, Mikhail Gorbatchov, os arménios no N-K começaram a exigir plena reunificação com a Arménia. Começaram ataques contra arménios, nas cidades azerbaijanas de Baku e Sumgait, e ataques contra azerbaijanos, no N-K e na Arménia. Moscovo impôs a lei marcial.

Em 1989, os confrontos intensificaram-se. Em 1991, a situação descontrolou-se, quando o Azerbaijão se declarou independente da URSS, em Outubro, e o N-K se declarou independente do Azerbaijão, em Dezembro, autoproclamando-se “República de Artsakh”.

Baku e Ierevan embrenharam-se numa guerra total. Cerca de 30 mil pessoas, incluindo civis, foram mortas. Mais de um milhão tornaram-se deslocados internos ou refugiados. Os dois campos envolveram-se em campanhas de limpeza étnica e massacres.

© Sergey Ponomarev | The New York Times

Em 1994, os arménios forçaram a retirada das forças de Baku de “Artsakh” e expandiram as suas fronteiras ocupando sete distritos adjacentes azerbaijanos. Em 12 de Maio, foi assinado o Protocolo de Bishkek, um cessar-fogo negociado pela Rússia que deixou o N-K no Azerbaijão e as tropas beligerantes separadas por uma “linha de contacto”, hoje uma das três fronteiras mais militarizadas do mundo. Nunca foi assinado um acordo de paz.

No último quarto de século, “Artsakh”, que deu dois primeiros-ministros a Ierevan, tornou-se num Estado de facto, apoiado pela influente e próspera diáspora arménia, mas apenas reconhecido pelas repúblicas da Abkházia e da Ossétia do Sul e da Transnístria – nenhuma delas reconhecida pela ONU.

Em Setembro de 2020, depois de 45 dias de uma guerra implacável, o N-K e a Arménia, militarmente débeis, foram obrigados pela Rússia a ceder território ao Azerbaijão, fortalecido pela Turquia e Israel.

Será possível um compromisso entre duas comunidades que reclamam a posse de um “espaço sagrado” para ambas? “É possível e essencial”, garante Thomas De Waal, autor de Black Garden: Armenia and Azerbaijan Through Peace and War, um dos raros livros sobre o N-K. “Arménios e azerbaijanos vivem lado a lado e pacificamente na Geórgia e foram vizinhos amigáveis durante longos períodos da história”, afirma De Waal. Esta narrativa “não pode continuar ausente”, mas precisa de “ajuda e pressão” da comunidade internacional.

Fontes: 

The Economist; brittanica.com; carnegieeurope.eu; geohistory.today; nationalgeographic.com

O “quintal” de Putin está a arder

O presidente russo arrefeceu os ânimos no Nagorno-Karabakh, mas outros “fogos” alastram, enfraquecendo a sua autoridade em territórios da antiga União Soviética, 30 anos após a queda do império comunista.

MOLDOVA

Maia Sandu fala com apoiantes em Chisinau, capital da Moldova, um dia depois de ter vencido a segunda volta das eleições presidenciais © Sergei Gapon | AFP | Getty Images

No dia 15 de Novembro de 2020, Maia Sandu, candidata que defende a adesão à União Europeia (UE), tornou-se a primeira mulher presidente da antiga república soviética da Moldova, ao derrotar, na segunda volta das eleições, o chefe de Estado cessante, Igor Dodon, aliado do homólogo russo. Foi um embaraço para Vladimir Putin, que havia apelado, publicamente, a que o amigo fosse reconduzido no cargo. Maia Sandu, 48 anos, que trabalhou para o Banco Mundial e foi primeira-ministra por um breve período, obteve 57,7% dos votos contra 42,25 de Igor Dodon. Prometeu combater a corrupção endémica que aflige um dos países mais pobres da Europa, encaixado entre a Ucrânia e a Roménia – membro da UE ao qual está ligado por uma língua e herança cultural comuns (dois terços dos moldovos são de ascendência romena). Putin congratulou Maia Sandu, dizendo esperar que ela “facilitará o desenvolvimento construtivo das relações” entre Chisinau e Moscovo. Importa lembrar que a Moldova é dependente da energia russa e que a Transnístria, região autónoma da Ucrânia antes de 1940, quando a URSS a juntou com a Bessarábia para formar a “República Socialista Soviética da Moldávia”, continua ocupada por tropas russas. Foi a perspectiva de laços mais estreitos com a Roménia que levou a Transnístria a declarar, unilateralmente, a independência em 1990. Seguiram-se violentos combates, a soberania nunca foi reconhecida e a região permanece num limbo.

GEÓRGIA

Em Tbilisi, a capital da Geórgia, manifestantes desafiam tropas de choque, que usaram canhões de água para os dispersar
© Euronews

No Cáucaso, além do Nagorno-Karabakh, a Geórgia, uma nação de 3,7 milhões de habitantes onde um quinto do território permanece controlado por separatistas pró-russos (da Abkházia e da Ossétia do Sul), depois de uma breve guerra em 2008, é mais um problema para o Kremlin. Dezenas de milhares de pessoas não desistem de contestar os resultados oficiais das eleições de 31 de Outubro que deram novamente a vitória ao partido Sonho Georgiano, fundado por Bidzina Ivanishvili, o homem mais rico do país e ex-primeiro-ministro. O Movimento Nacional Unido (MNU), uma aliança de vários partidos duma oposição fragmentada, ameaçou boicotar o novo Parlamento, denunciando “compra de votos, fraude durante a contagem e intimidação de eleitores e observadores”. Curiosamente, tanto o governo (que defende laços mais estreitos com a Rússia) como o MNU gostariam de ver a Geórgia na União Europeia – um desejo a que Vladimir Putin se opõe, porque lhe interessa manter esta antiga república soviética “vulnerável e dependente”. Em Tbilisi, a capital, manifestantes continuam a desafiar tropas de choque, que usam canhões de água para os dispersar. Ao MNU foram atribuídos 27,18% dos votos, contra 48,23% do Sonho Georgiano (no poder desde 2012), mas a oposição, que antes havia forçado importantes reformas eleitorais, acusa o oligarca Ivanishvili de ter dado um “golpe” e de governar nos bastidores” (não exerce qualquer cargo). Por isso, exige a repetição das eleições, porque estas “foram roubadas”

BIELORÚSSIA

Svetelana Tikhanovskaia, líder da oposição da Bielorússia, discursa num comício. A sua vitória não foi reconhecida pelo ditador Lukachenko, que a forçou a exilar-se na vizinha Lituânia
© Sergei Grits | AP | PRI.org

Se Igor Dodon aceitou a derrota, na Bielorússia, Aleksandr Lukachenko, outro aliado de Putin, insiste em prolongar os seus 26 anos de poder até 2024, apesar de eleições fraudulentas que, em Agosto, impediram a vitória de Svetlana Tikhanovskaia, a líder da oposição, reconhecida pela comunidade internacional. Os bielorussos perderam a paciência com Lukachenko quando ele desvalorizou a devastadora pandemia de Covid-19, ironizando que esta podia ser curada com vodka. Putin endossou Lukachenko, antes e depois das eleições, por considerar que este autocrata, nem sempre obediente, salvaguarda os interesses da Rússia, traumatizada pela violenta revolução ucraniana de 2014, que resultou na queda de outro ditador aliado, Viktor Ianukovitch. O Kremlin teme um “efeito de dominó de Minsk a Moscovo”, não só porque os protestos pacíficos na Bielorrússia não páram, envolvendo todas as classes sociais, etárias e profissionais, apesar de múltiplos abusos de direitos humanos, mas porque os manifestantes inspiram outros dissidentes. Putin diz que “o povo da Bielorússia deve resolver os seus problemas sem ingerência externa”, o que leva alguns analistas a admitir que acabará por aceitar interlocutores alternativos e que o apoio a Lukachenko não será sempre incondicional. Até porque este, ainda que dependente da energia subsidiada da Rússia, recusou sempre uma união entre os dois países e nunca permitiu (até reprimiu) uma oposição séria pró-Moscovo. Svetlana Tikhanovskaia, exilada na Lituânia, tem sido prudente, evitando pedir a adesão à EU, apesar de ter convencido dirigentes europeus a impor sanções ao regime contestado.

QUIRGUISTÃO

Protestos contra os resultados das eleições legislativas em Bishkek, capital do Quirguistão
© Vyacheslav Oseledko | AFP | Getty Images

Na antiga república soviética da Ásia Central com a maior percentagem de falantes de russo e onde Moscovo tem uma base militar, uma outra “revolução” – a terceira em 15 anos – inquieta Putin, já preocupado com a ascendência chinesa na região. Em Outubro, um dia depois de eleições legislativas, cerca de 20 mil pessoas concentraram-se em Bishkek, a capital, enfurecidas com relatos de compra de votos e outras fraudes, mas também com uma economia em queda livre, devido à Covid-19. Apenas 4 dos 16 partidos concorrentes garantiram lugares no Parlamento e o facto de os vencedores serem próximos do presidente, Sooronbai Jeenbekov, abençoado por Moscovo e suspeito de enriquecimento ilícito, desencadeou uma vaga de protestos violentos e forçou demissões. As eleições foram anuladas e remarcadas para 10 de Janeiro. De importância estratégica para o Kremlin, o Quirguistão tem petróleo e gás, mas permanece pobre e dilacerado por um fosso regional e étnico. Embora as sublevações de 2005, 2010 e a mais recente sejam vistas, do exterior, como “revoltas democráticas” contra líderes autocráticos, no interior, são entendidas como substituições de “nortenhos” por “sulistas” e vice-versa. Agora, caiu um presidente do Sul (Jeenbekov), detestado pelo Norte; em 2005, caiu um do Norte (Askar Akaiev), odiado pelo Sul. Outras divisões são igualmente profundas. As minorias, sobretudo os uzbeques, têm sido excluídas da vida política activa e reduzidas a uma vida de miséria. Em 2010, foram uzbeques no Sul que ajudaram a derrubar o presidente Kurmanbek Bakiev. A Rússia lamenta a instabilidade e denuncia “pressões estrangeiras”, mas não tem intervindo, disposta a aceitar qualquer um que respeite os seus interesses. O homem do momento é agora Sadir Japarov, apoiante de Bakiev, que desde 2017 cumpria uma pena de 11 anos de prisão por rapto de outro político. Nomeado presidente e primeiro-ministro interino, demitiu-se em Novembro, como exige a Constituição, para ser um dos 63 candidatos ao escrutínio de Janeiro.

© Wall Street Journal

Estes artigos foram originalmente publicados na edição de Dezembro de 2020 da revista ALÉM-MAR. These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, December 2020 edition