Síria: O maior drama humano desde a II Guerra Mundial

A dinastia Assad completou este ano meio século de poder absoluto. Foi contra a tirania de uma família que lhes nega a liberdade e a dignidade que os sírios se insurgiram em 2011. A revolução começou pacífica, mas a única promessa cumprida pelo regime que a esmagou foi a de “queimar o país”. O presidente e a vice-presidente da ONG Syrian Christians for Peace fazem o balanço de uma década de conflito. (Ler mais | Read more…)

Em média, 2,4 milhões pessoas foram deslocadas a cada ano, dentro e fora da Síria, desde o início do conflito. 467 mil, desalojados e refugiados, regressaram aos locais de origem – isto é, por cada pessoa que conseguiu voltar a casa, mais quatro perderam o seu lar. (Na foto, um sírio transporta uma criança numa mala de viagem, em fuga de Ghouta Oriental)
© NICEF Syria | Sanadiki

Ayman Abdel Nour só vê um destino para Bashar al-Assad: “Ser julgado por crimes de guerra e contra a humanidade”. E ele diz isto porque conhece bem o ditador de quem foi amigo e conselheiro, “um tipo que era simpático, tímido e até humilde” até se tornar “maníaco e paranóico, fechado numa bolha”.

“Assad é o único culpado” do que é unanimemente considerado “o maior drama humano desde a Segunda Guerra Mundial”: 12 milhões de refugiados e deslocados, e 85% vivendo abaixo do limiar da pobreza (ver caixa de números), assevera Abdel Nour, numa entrevista que me deu, por telefone.

Presidente da organização não governamental Syrian Christians for Peace, exilado em Los Angeles, Califórnia (EUA), Abdel Nour foi colega de Assad na Universidade de Damasco. Ayman formou-se em engenharia e Bashar em medicina. Os dois conheceram-se em 1984, apresentados por um vizinho.

Abdel Nour visitava o palácio presidencial, quando Bashar “ainda não se interessava por política” e “passava despercebido no seu Peugeot 505”, como se não fosse filho do homem mais poderoso e temido da Síria, Hafez al-Assad. Ambos se mantiveram em contacto quando Bashar foi especializar-se em oftalmologia num hospital em Londres e, assim que este regressou à Síria em 1994, após a morte do irmão Bassel, convidou Ayman, então membro influente do partido (quase único) Baas, para o ajudar a “preparar o futuro”.

Bassel deveria suceder ao pai, que governava a Síria com mão de ferro desde Março de 1971. Quando Hafez morreu, em 2000, Abdel Nour continuou a aconselhar Bashar, convencido de que o jovem presidente “queria mesmo” mudar o país. Ele “aceitava todas as ideias” que lhe sugeria, designadamente a restruturação do sector industrial público, a criação de seguradoras e bancos privados e até a inauguração de uma bolsa de valores.

Mais de 60% das crianças na Síria passam fome e meio milhão estão desnutridas, segundo a UNICEF. A esperança de vida das crianças diminuiu 13 anos. Mais de um milhão nasceram no exílio e outros 5 milhões nasceram na Síria durante a guerra
© unocha.org

A desilusão começou em 2003. Abdel Nour apercebeu-se de que as reformas de Bashar “favoreciam apenas a sua família” e, em particular, os múltiplos negócios do primo Rami Makhlouf, na altura o homem mais rico e influente da Síria. Chocado com a crescente corrupção, Abdel Nour passou de aliado a crítico do regime. Em 2017, ameaçado de morte, teve de fugir para o Dubai e depois para a América, de onde, refere, não tem planos para retornar à pátria.

“O lema do ditador continua a ser ‘Assad, ou queimamos o país’”, denuncia Abdel Nour. “Mas o regime de hoje é totalmente diferente do de 2011, apesar de ser dirigido pelo mesmo gajo. É certo que é ele quem manda nas áreas que controla, mas não tem o apoio de outrora. Talvez haja uns extremistas que ainda estejam dispostos a morrer por ele, mas a maioria não, incluindo nas áreas da sua seita alauita, a quem prometeu prosperidade e ofereceu o colapso económico.”

A falência do Estado, exacerbada pela crise financeira do vizinho Líbano, onde muitos enriqueceram graças a fraudulentos esquemas ponzi praticamente erradicou a classe média, e os alauitas olham para Assad como um traidor.

Os relatos de correspondentes na Síria são deprimentes: “o salário médio mensal equivale a 25 dólares – cinco ovos chegam a custar 2% do rendimento médio; as padarias subsidiadas enchem-se de gente faminta – pão molhado em chá substitui, em muitas casas, a maioria das refeições; quase ninguém consegue comprar frutas e vegetais frescos; as filas para comprar combustível estendem-se ao longo de quilómetros; cortes de água e luz tornaram-se frequentes; o desemprego fez disparar o consumo de álcool e drogas, os traumas psicológicos”.

Os que se arriscam a exprimir descontentamento em público são presos e torturados.

Depois de dez anos de guerra, há sinais de luta pelo poder no regime: Rami Makhlouf (na foto), primo de Bashar al-Assad, um dos homens mais ricos da Síria perdeu os seus monopólios para a mulher do presidente
© AFP | The Independent
Asma al-Assad, aqui numa entrevista dada ao canal de televisão Russia 24, em Outubro de 2018, será hoje uma das figuras mais poderosas da Síria. Alguns vêem-na como alternativa ao marido
© Página de Facebook oficial da presidência síria | The Times of Israel

Enquanto o fosso entre ricos e pobres aumenta, uma luta pelo poder divide as duas mais importantes famílias alauitas: os Assad e os Makhlouf. Rami, conhecido como “o senhor 60%” – todas as empresas estrangeiras precisavam do seu aval para funcionar, dono da Syriatel, maior operador de telecomunicações nacional, e de outros negócios, da banca ao imobiliário, perdeu os seus monopólios para Asma al-Akhras al-Assad, a ambiciosa mulher de Bashar.

É Asma, segundo a revista britânica The Economist, quem hoje controla a economia do país, graças a um “fundo de caridade”, através do qual tem de passar toda a ajuda humanitária internacional, alegadamente desviada para enriquecer o regime.

Anisa, a mãe de Bashar e tia de Rami Makhlouf, era a protectora deste e a maior inimiga de Asma. Quando esta morreu, o caminho ficou livre para a “primeira-dama” assumir as rédeas. Sobre ela já pesava a suspeita de ter planeado o assassínio do cunhado Assef Shawkat, em 2012, para se desembaraçar da Bushra al-Assad, irmã de Bashar, forçada ao exílio no Dubai.

Os custos de dez anos de guerra ultrapassam os 1200 biliões de dólares – o equivalente ao orçamento da União Europeia para dez anos. A ajuda humanitária, porém, representa apenas 1,6% das perdas económicas
© The Atlantic

Dez anos depois, “não podemos dizer que a guerra na Síria terminou, apenas que a fase militar deu lugar a uma fase política”, analisa Samira Moubaied, directora para a Europa e vice-presidente da Syrian Christians for Peace, numa entrevista que me deu, por e-mail.

Com mais de 60% do território sob a sua alçada, graças à Rússia e ao Irão, “Bashar al-Assad finge que ganhou, mas a realidade é que ele destruiu a Síria. Forçou metade da população a abandonar o país. Centenas de milhares de soldados perderam a vida para que ele permaneça no poder. Cometeu crimes contra a humanidade e conspirou com organizações terroristas para assombrar os sírios.”

“Bashar al-Assad conduziu o país a uma espiral descendente de destruição, de guerra interna, de sanções – e tudo isto continuará enquanto ele se mantiver no poder”, vaticina Samira Moubaied, antiga professora na Universidade de Damasco, onde nasceu, e agora a viver em Paris, onde é investigadora em ciências humanas e ambientais.

“Os civis continuam vítimas de medidas repressivas e totalitárias por parte das diferentes autoridades que controlam a Síria, mas também vítimas da corrupção e da monopolização dos recursos”, lamenta a académica ajudou a fundar várias organizações da sociedade civil, é membro do Comité Constitucional Sírio e participou em várias rondas negociais sobre a paz.

A situação sanitária, a par da crise económica, também é desoladora, devido à covid-19. “Ninguém se preocupa com a saúde dos cidadãos que vivem em pobreza extrema”, queixa-se Samira Moubaied. “O dinheiro é usado para comprar armas. Nas prisões, a pandemia propaga-se. Podemos dizer que o conflito hoje se deslocou para zonas geográficas mais pequenas, confinadas ao norte, mas o sofrimento assumiu novas formas, sendo as piores a pobreza e a doença.”

Comprar comida num supermercado em Damasco, com Bashar al-Assad em background. O preço dos alimentos e outros bens essenciais subiram mais de 200%, mas o salário médio é agora inferior a 10 dólares. Mais de 80% das pessoas na Síria vive abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,90 dólares por dia.
©Youssef Badawi | EPA | The New York Times

“A revolução ainda não atingiu os seus objectivos”, diz Samira Moubaied. “As correntes ideológicas, sobretudo as do Islão político e da esquerda radical, desviaram a revolução de uma via civil para outra de militarização e islamização – que se afastou reivindicações iniciais dos sírios. Não esperamos concretizar rapidamente uma mudança radical. É preciso tempo para superar todos os males de um regime autoritário e para construir um Estado moderno.”

Ayman Abdel Nour, animador de um podcast com “mais de 1,5 milhões de seguidores”, não se arrepende de nada. “A revolução era necessária. O maior erro foi a sua militarização, mas o regime estava a matar pessoas indefesas, que apenas clamavam por liberdade e dignidade. O povo não tinha poder para lutar sozinho contra uma máfia. Por causa do sectarismo, toda a gente tinha medo de toda a gente.”

“A revolução síria faz parte do caminho para o desenvolvimento e o progresso da humanidade, em geral”, acredita Samira Moubaied. “Os desvios que deformaram a rebelião popular serão automaticamente corrigidos pelos próprios sírios, em defesa dos seus interesses.”

“Não vejo razão para o remorso ou para a retirada”, frisa. “Este é um caminho de sentido único que visa construir uma nova Síria, em ruptura total com a era anterior. São estes os princípios que adopto no meu trabalho político.”

Para Samira, a manutenção de Assad no poder constitui “um obstáculo ao progresso, à reconstrução, à segurança e a estabilidade” da Síria. Talvez, por isso, ela e Ayman se mostrem esperançosos de que a Rússia venha a deixar cair o seu protegido, para “salvaguardar interesses geoestratégicos e económicos” na região.

Antes da guerra, a Síria tinha uns 22 milhões de habitantes. Dez anos depois, mais de metade – 12,3 milhões – são deslocados internos (6,7 milhões) ou refugiados (5,6 milhões). Daquele total, 5 milhões (40%) são crianças. Pelo menos 70% dos deslocados internos vivem assim há mais de cinco anos consecutivos. (Na foto, um acampamento de deslocados no Noroeste da Síria)
© europemercycorps.org

Outros analistas, como Hussein Ibish, do Arab Gulf States Institute, ou Charles Lister, do Middle East Institute (MEI), dois think-tanks em Washington, vêem cenários diferentes. Num artigo publicado no site Bloomberg, Ibish dá conta de uma nova “trilateral”, unindo a Rússia, a Turquia e o Qatar, para promover uma solução política que marginalize o Irão e atraia países do Golfo Pérsico como os Emirados (que já reabriram a sua embaixada em Damasco).

“A mensagem de Moscovo e de Ancara aos árabes é clara: os vossos amigos rebeldes [que financiariam para derrubar Assad] podem ter perdido a guerra, mas isso não significa que os vossos inimigos iranianos venham a ser os beneficiários; se ajudarem a que este processo seja bem-sucedido, será possível diminuir a influência de Teerão na Síria”, escreve Ibish.

“Isto agradaria a Assad”, adianta. “O ditador depende atualmente da Rússia e do Irão para garantir o controlo da maior parte do país. Mas ele prefere um acordo a longo prazo em que a Rússia seja a principal potência externa na Síria, porque as exigências de Moscovo são menos onerosas do que as de Teerão.”

“Os objectivos da Rússia incluem manter a sua base naval e outras na Síria, assegurar consideráveis investimentos no país e usar Damasco como chave para a sua renovada influência na região. Já o Irão pretende integrar a Síria numa rede regional de Estados suplicantes, e usá-la como plataforma para ameaçar Israel, por um lado, e manter, o seu domínio no Iraque, por outro.”

No site do MEI, Charles Lister, autor do livro The Syrian Jihad: Al-Qaeda, the Islamic State and the Evolution of an Insurgency, recorda que – depois de extrair de Assad várias concessões – a Rússia “deu luz verde” a que o ditador se volte a candidatar a eleições marcadas para o verão. “É claro que irá forçar o aparecimento de vários candidatos, para evitar o tipo de vitória de 95% a que os sírios se habituaram”, mas “naturalmente que o vencedor está pré-determinado”. Assad continuará a ser “um sobrevivente”.

Bashar al-Assad, um dos únicos três candidatos nas eleições presidenciais de Maio, conquistou um quarto mandato de sete anos, depois de recolher, alegadamente, “95,1%” dos votos, nas áreas sob seu controlo. Esta “vitória” obteve a luz verde da Rússia, mas a legitimidade da mesma foi contestada por responsáveis europeus e americanos
© The Wall Street Journal

[Nas eleições de Maio de 2021, Bashar al-Assad Assad “venceu” mesmo com “95,1%” dos votos, ganhando um quarto mandato de sete anos. Segundo dados oficiais, a afluência às urnas foi de “78,66%”. Os Estados Unidos e a União Europeia questionaram a legitimidade destes resultados, considerando-os “uma violação das resoluções da ONU” que procuram resolver o conflito.

A votação só foi possível nas áreas sob controlo das tropas de Assad e seus aliados. Muitos sírios que fugiram do país não quiseram ou não puderam votar. Só houve três candidatos permitidos. Além de Assad, concorreu, simbolicamente, o seu ex-ministro Abdullah Salum Abdullah, e o dirigente de um grupo de “oposição” tolerado pelo regime, Mahmoud Ahmad. Mais de 40 foram rejeitados.]

Para Samira Moubaied, uma solução política exige que se construa “um Estado moderno, segundo um novo contrato social e novas bases constitucionais”, e que o novo Estado seja “laico, civil e neutro em relação às várias etnias e religiões do país”. Que se crie uma “identidade síria pluralista”. Que se forme “um novo sistema de governo segundo princípios da descentralização”. Que se redefina a relação entre a Síria e o mundo”, com vista a “uma paz justa.”

Haverá lugar na nova Síria para os milhões de refugiados? “As razões do exílio continuam a existir, designadamente a presença de uma autoridade repressiva que ameaça os que regressam”, responde Samira Moubaied, acrescentando: “Eu não voltarei enquanto o regime mafioso se mantiver no poder. Nas zonas sob seu controlo, a vida dos opositores não está garantida. [À chegada, muitos encontram as suas casas destruídas e terras confiscadas.] O meu retorno depende do início de uma nova era, um Estado de Direito e de cidadania, para a qual contribuirei.”

Em dez anos, foram mortas na Síria entre 400 mil (segundo a ONU) e 600 mil pessoas (estimativa da organização cristã World Vision) – 55 mil das quais crianças. A UNICEF crê que, na última década, a cada oito horas uma criança foi ferida ou morta
© The Economist

Ayman Abdel Nour sugere que olhemos para a Síria actual como “um comboio que circula aos solavancos por linhas quebradas em direcção às chamas” de um país a arder. “O maquinista ainda é Bashar al-Assad, cada carruagem está sobrecarregada de problemas e, na última década, o comboio adquiriu mais vagões e atritos.”

“A viagem a caminho do inferno continuará (…) se o condutor não for substituído”, avisa Abdel Nour. “A solução está nas mãos da Rússia e dos Estados Unidos.”

Os dois países podem e devem cooperar para empossar “um governo transitório” – isto é, “com uma componente militar, que ficará encarregue das forças armadas, da segurança, dos serviços secretos; e uma componente civil que ficará responsável pelo poder executivo”, segundo o modelo em vigor no Sudão desde o derrube de Omar al-Bashir.

“Uma tal decisão não irá alterar a turbulência no interior das carruagens, mas reduzirá a velocidade e permitiria acertar o passo.”

Mas quem pode ser alternativa a Assad, se a oposição continua fragmentada? Ayman Abdel Nour está convencido de que “a Síria tem muitos potenciais líderes, mulheres e homens, capazes de conduzir o país à paz e prosperidade”.

Samira Moubaied, directora para a Europa e vice-presidente da Syrian Christians for Peace
© Cortesia de | Courtesy of Samira Moubaied
Ayman Abdel Nour, presidente da organização Syrian Christians for Peace
© Cortesia de | Courtesy of Ayman Abdel Nour

Cronologia: Do sonho ao pesadelo

Há dez anos, numa noite de Fevereiro, quando se esgueiraram de casa para grafitar os muros da sua escola, cinco rapazes de Arbaeen, um bairro pobre e abandonado de Daraa, cidade maioritariamente sunita no Sul da Síria, estavam longe de imaginar que iriam pôr em marcha uma revolução.

O mais velho tinha 16 anos e o mais novo 12. Munidos de latas de spray, e inspirados pela queda dos ditadores na Tunísia e no Egipto, escreveram dois slogans: jayeek el door, ya doctor (“és o próximo, doutor” – numa referência ao presidente, Bashar al-Assad) e ashaab yurid isqat na-nizam (“o povo quer derrubar o regime”.

Pensavam que ninguém os tinha visto, mas os mukhabarat (agentes secretos) nunca dormem e, no dia seguinte, os cinco miúdos e outros 20 foram detidos pelas forças de segurança. Os responsáveis do clã Abazeid, a que a maioria deles pertencia, pediram uma audiência com o homem mais poderoso em Daraa: Atef Naguib, chefe do Directório de Segurança Política, uma das quatro agências dos mukhabarat, e primo de Assad.

“Esqueçam que têm filhos”, disse Naguib, com desdém, ao grupo que fora pedir clemência para os rapazes. “Se quiserem novos filhos para os substituírem, enviem-me as vossas mulheres e eu engravido-as.”

As palavras indignas de Naguib escandalizaram a sociedade conservadora e patriarcal de Daraa, e fizeram transbordar a revolta contida durante 40 anos de humilhações impostas pela dinastia Assad.

© the times.co.uk

2011

No dia 15 de Março, Daraa protesta contra a detenção dos seus rapazes. Forças de segurança disparam sobre os manifestantes, matando quatro deles. Terão sido as primeiras vítimas da sublevação. A violência não demove o povo. No Verão, os protestos alastram-se a todo o país, incluindo Damasco, a capital, as zonas curdas no Nordeste, a região profundamente tribal de Deir es-Zor, no Leste, e até a cidade costeira alauita de Latakia (bastião do regime). É uma rebelião pluralista, que atrai numerosas pessoas em todas as classes sociais, grupos étnicos e religiosos.

2012

Em Julho, as principais potências mundiais reúnem-se em Genebra/Suíça para discutir uma transição política na Síria, mas revelam-se demasiado divididas para chegar a um acordo. Já acossado desde que vira o destino que os americanos reservaram a Saddam Hussein no Iraque, derrubado e condenado à morte, Assad lança vários ataques aéreos sobre bairros, vilas e cidades que se rebelaram contra o seu domínio. Indefesos, civis pegam em armas para protegerem, mas a natureza descentralizada da oposição, que até então lhe permitira sobreviver, acaba por ser um obstáculo. Os rebeldes formam mais de mil milícias independentes umas das outras, muitas vezes centradas num indivíduo, numa região ou numa ideologia, em particular, dificultando os esforços com vista a uma estrutura de comando unificada e coordenada. Divergências pessoais e ideológicas, sobretudo em relação ao papel do Islão e do jihadismo, acentuam-se e o conflito transforma-se numa guerra civil na qual se envolverão actores externos principais (EUA, Rússia, Irão, Arábia Saudita, Turquia e Qatar) e secundários (França, Reino Unido, China, Emirados Árabes Unidos, Líbano, Jordânia, Iraque e Egipto).

2013

Em Maio, o movimento xiita libanês pró-iraniano Hezbollah entra oficialmente na guerra em apoio de Assad. Os EUA avisam que o uso de armas químicas será uma “linha vermelha”, mas um ataque com gás sarin em Ghouta Oriental, um enclave rebelde densamente povoado (dois milhões de habitantes) na periferia de Damasco, causou centenas de mortos sem que os EUA retaliassem. O presidente Barack Obama recua depois de a Rússia se ter comprometido a convencer a Síria a “destruir” o seu suspeito arsenal.

2014

Em Janeiro, um grupo dissidente da Al-Qaeda apodera-se de Raqqa, conquistando outros territórios na Síria e no Iraque, onde proclama um “califado” e se autodesigna Estado Islâmico (ou Daesh). Em Setembro, os EUA formam uma coligação contra esta organização terrorista e iniciam uma campanha de ataques aéreos, em colaboração com combatentes curdos.

Um soldado russo de guarda num checkpoint em Suran, na província de Hama, na Síria, em 25 de Setembro de 2019. Foia deciusão de Moscovo de apoiar Bashar al-Assad em 2015 que mudou o rumo da geurra a favor do tirano de Damasco
© AFP | english.alarabiya.net

2015

Em Maio, Assad reconhece que o seu exército está a sofrer pesadas derrotas, mas em Setembro a Rússia junta-se ao Irão e muda o rumo da guerra, ao enviar para a Síria aviões de combate e outra ajuda militar.

2016

Em Agosto, alarmada com os avanço curdos na sua fronteira, a Turquia invade o Norte da Síria, fixando-se numa zona conquistada ao Daesh. Em Dezembro, os rebeldes sírios em Aleppo retiram-se da sua maior base urbana, depois de vários meses de um cerco e bombardeamentos por parte das forças de Assad, apoiadas pela Rússia.

2017

Em Março, Israel admite que está a atacar o Hezbollah na Síria, para impedir que o seu patrono iraniano, que recrutou milicianos libaneses e afegãos, expanda a sua influência e capacidade ofensiva na região. Em 6 de Abril, forças americanas lançam vários mísseis de cruzeiro sobre uma base de tropas sírias, em retaliação por um ataque com armas químicas, atribuído ao regime, em Khan Sheikhoun, sob controlo da oposição. Em Maio, rebeldes retiram-se do seu último reduto em Homs, “a capital da revolução”. Em Novembro, forças curdas, apoiadas pelos EUA, expulsam o Daesh de Raqqa.

Famílias sírias preparam-se para embarcar em autocarros do Crescente Vermelho Internacional que, em 2018, os foram buscar Douma, no antigo enclave rebelde de Ghouta Oriental, onde o regime é acusado de lançar armas químicas.
© Hamnza Al-Ajweh | AFP | The Japan Times

2018

No dia 20 de Janeiro, a Turquia inicia uma grande ofensiva militar contra combatentes curdos sírios em Afrin, um enclave no Norte. Em Abril, depois de vários meses de um bloqueio e bombardeamentos, o exército sírio apoiado pela Rússia conquista Ghouta Oriental, antes de se apoderar de outros bastiões dos rebeldes, incluindo Daraa, em Junho, assim garantindo a permanência de Assad no poder. No dia 14, os EUA, a França e a Grã-Bretanha lançam vários ataques na Síria, para punir Assad por mais um suposto ataque com armas químicas no dia 7, o qual, segundo activistas, terá causado mais de 40 mortos em Douma, nos arredores da capital. Em Setembro, a Turquia e a Rússia assinam um acordo de cessar-fogo em Idlib e áreas controladas por rebeldes no Noroeste, depois de vários bombardeamentos que mataram centenas de civis.

2019

Em Agosto, depois de uma série de ataques iniciados em Abril, forças sírias apoiadas pela Rússia capturam aos rebeldes a estratégica cidade de Khan Sheikhoun, no Noroeste. De Dezembro até Março de 2020, a ofensiva síria-russa causa cerca de um milhão de deslocados internos – a mais grave crise humana desde o início do conflito. Ancara envia milhares de soldados para a fronteira e permite que milhares de sírios fujam para a Grécia.

Umm Abdo, uma mulher deslocada interna, oferece ao filho a máscara facial que ele mesma costurou na sua casa em Dana, na província de Idlib, no norte da Síria. Os primeiros casos de COVID-19 no país registaram-se em Março de 2020, mas, apesar das desumanas condições de vida, as autoridades têm procurado desvalorizar o impacto da pandemia
© International Rescue Committee

2020

No dia 5 de Março, a Rússia e a Turquia concordam com um cessar-fogo em Idlib, no Noroeste da Síria, prometendo realizar patrulhas conjuntas e estabelecer um corredor seguro perto da auto-estrada M4. Em Março, a Síria regista um número crescente de casos de COVID-19. A economia fica à beira do colapso. Os sírios esperam durante horas em filas para adquirir pão subsidiado. O Governo raciona os bens alimentares e sobe os preços.  Em Junho, os EUA anunciam as mais duras sanções contra a Síria, “Caesar’s Act” (pseudónimo de um fotógrafo da polícia militar que desertou com 55 mil imagens digitais de 11 mil detidos mortos pelo regime). Esta lei permite congelar os bens de todos os que negoceiam com a Síria, seja qual for a nacionalidade, e abrange vários sectores, da construção à energia. Entre os visados estão Asma al-Assad, mulher do presidente, mas também os seus pais, irmão e tio, todos residentes em Londres e com cidadania britânica, e ainda vários responsáveis governamentais, o Banco Central Sírio e nove empresas.

2021

No dia 24 de Fevereiro, na cidade alemã de Koblenz, um antigo membro da polícia secreta síria, Eyad A., de 44 anos de idade, é condenado a 4,5 anos de prisão, por cumplicidade em crimes contra a humanidade no seu país. Foi a primeira vez que um tribunal fora da Síria julgou um processo de acusação de tortura infligida (neste caso a manifestantes presos em Douma em 2011) pelo regime de Assad – um acontecimento celebrado por todos os defensores dos direitos humanos. No dia 14 de Março, a polícia no Reino Unido abriu uma investigação às alegações de que Asma al-Assad, a mulher do presidente sírio, “incitou e encorajou actos terroristas” no seu país. Se for condenada, ela poderá perder a cidadania britânica. No dia 30 de Março, numa conferência em Bruxelas, patrocinada pela UE (o maior doador) e pela ONU, a comunidade internacional comprometeu-se a atribuir 5300 milhões de dólares à Síria e aos países vizinhos que acolhem refugiados.

Fontes: Assad or We Burn the Country: How One Family’s Lust for Power Destroyed Syria, de Sam Dagher; Associated Press; BBC; Burning Country: Syrians in Revolution and War, de Robin Yassin-Kassab e Leila Al-Shami; Dans la tête de Bashar al-Assad, de Subhi Hadidi, Ziad Majed e Farouk Mardam-Bey; dw.com; Impossible Revolution: Making Sense of the Syrian Tragedy, de Yassin Al-Haj Saleh; Reuters; The Battle for Syria: International Rivalry in the New Middle East, de Christopher Phillips.

O preço da guerra

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

Em dez anos, foram mortas na Síria entre 400 mil (segundo a ONU) e 600 mil pessoas (estimativa da organização cristã World Vision) – 55 mil das quais crianças. A UNICEF crê que, na última década, a cada oito horas uma criança foi ferida ou morta.

A esperança de vida das crianças na Síria diminuiu 13 anos. Mais de 1 milhão de crianças nasceram no exílio e outras 5 milhões nasceram na Síria durante a guerra.

Cerca de 100 mil sírios morreram de tortura em prisões do regime e outros 100 mil ainda estarão encarcerados. Há ainda 200 mil desaparecidos.

Antes da guerra, a Síria tinha uns 22 milhões de habitantes. Dez anos depois, mais de metade – 12,3 milhões – são deslocados internos (6,7 milhões) ou refugiados (5,6 milhões). Daquele total, 5 milhões (40%) são crianças. Pelo menos 70% dos deslocados internos vivem assim há mais de cinco anos consecutivos.

Em média, 2,4 milhões pessoas foram deslocadas a cada ano, dentro e fora da Síria, desde o início do conflito. Só 467 mil, desalojados e refugiados, regressaram aos locais de origem – isto é, por cada pessoa que conseguiu voltar a casa, mais quatro perderam o seu lar. Embora a insegurança seja o principal motivo para as pessoas fugirem, cerca de 20% dos mais recentes deslocados internos citam também como factor a deterioração das condições económicas.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

A Turquia acolheu 90% dos refugiados (3,6 milhões), geralmente fora de campos oficiais e com acesso reduzido a serviços básicos. No Líbano, os 865.531 refugiados sírios constituem 1/8 da população; a maioria deles vive em condições desumanas em acampamentos informais. No pico da crise migratória em 2015, cerca de 1,3 milhões de sírios pediram asilo na Europa, mas este número tem vindo a diminuir significativamente porque as fronteiras se fecharam.

Mais de 13 milhões de sírios vivem actualmente em áreas administradas pelo regime de Bashar al-Assad, que controla 60% do país, graças ao poderio militar dos aliados russos e iranianos. Outros 2,9 milhões vivem na região Noroeste, controlada por grupos rebeldes. Mais 2,6 milhões concentram-se em áreas do Nordeste nas mãos de forças curdas. Há ainda 1,3 milhões em áreas do Norte conquistadas pela Turquia e seus aliados sírios.

Durante a guerra, a ONU registou 38 ataques com armas químicas – 32 dos quais atribuídos às forças de Assad. Pelo menos 1400 pessoas morreram num só ataque, em 2013, pelo qual os EUA responsabilizaram o regime.

Os custos de dez anos de guerra ultrapassam os 1200 biliões de dólares – o equivalente ao orçamento da União Europeia para dez anos. A ajuda humanitária, porém, representa apenas 1,6% das perdas económicas.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

A indústria de hidrocarbonetos registou prejuízos de 77 mil milhões de dólares. Antes da guerra, a Síria produzia cerca de 400 barris de petróleo por dia, mas em 2020 esse número baixou para 89 – e destes 80 são extraídos nas áreas curdas que escapam ao controlo do governo.

Nos últimos dez anos, a libra síria perdeu 98% do seu valor face ao dólar americano, forçando o governo a reduzir subsídios.

Os preços dos alimentos e de outros bens essenciais subiram mais de 200%, mas o salário médio é agora inferior a 10 dólares.

Mais de 80% das pessoas na Síria vivem abaixo do limiar da pobreza, com menos de 1,90 dólares por dia.

Em Janeiro de 2021, precisavam de assistência humanitária 13,4 milhões de pessoas na Síria. Mais de 12 milhões têm imensas dificuldades em encontrar comida para se alimentarem diariamente – seis meses antes eram 9,3 milhões. Mais de 8 milhões não têm água potável.

Mais de 60% das crianças passam fome e meio milhão estão desnutridas. A UNICEF alerta que 90% necessita de ajuda urgente – um aumento de 20% em relação a 2020.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

Entre os deslocados e refugiados, a miséria e o desemprego foram exacerbados pela pandemia de covid-19, afectando hoje pelo menos 11,1 milhões de pessoas. Nove em cada dez refugiados no Líbano vivem em situação de extrema pobreza.

Dez anos de ataques na Síria destruíram 1/3 das casas e 70% da rede eléctrica e de abastecimento de combustíveis.

Metade dos 113 hospitais públicos e mais de metade dos 1790 centros de saúde públicos não funcionam ou estão apenas parcialmente operacionais. Pelo menos 70% do pessoal médico abandonou o país; mais de 900 foram mortos.

Um terço das escolas está em ruínas. Cerca de 2,45 milhões de crianças na Síria e outras 750 mil refugiadas nos países vizinhos – 40% das quais meninas – continuam sem acesso à educação.

As crianças são as mais expostas a doenças, como a cólera ou pneumonia. Em campos de refugiados, algumas delas, com apenas 7 anos de idade, trabalham arduamente e por pouco dinheiro, para ajudar no sustento das famílias. As meninas são as mais vulneráveis à exploração e abusos sexuais, incluindo casamentos forçados pelos pais, que têm vindo a aumentar.

Na Síria, entre 2011 e 2020, cerca de 82% das crianças recrutadas por grupos armados foram usadas em acções de combate directo; 25% tinham menos de 15 anos, segundo a World Vision. A UNICEF refere que 5700 crianças foram usadas como soldados ou escudos humanos – algumas com menos de 7 anos.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

A situação mais grave verifica-se agora no noroeste da Síria, onde há milhões de crianças desalojadas, as suas famílias obrigadas a fugir sete e até dez vezes, em busca de segurança. Enfrentaram um inverno terrível, com chuvas torrenciais e neve, abrigadas em tendas ou edifícios danificados/inacabados, segundo a UNICEF. Mais de 75% das violações de direitos humanos em 2020 foram cometidas naquela região.

Um em cada 2 jovens refugiados entrevistados pela Cruz Vermelha na Síria, no Líbano e na Alemanha – 47% – dizem ter perdido um familiar ou amigo, mortos no conflito. Um em cada 6 – 16% – viu os pais serem mortos ou gravemente feridos, e 12% sofreram ferimentos. Pelo menos 54% deixaram de ter contacto com parentes próximos – o número sobe para 7 em cada 10 no Líbano; 62% foram obrigados a deixar o lar; 49% ficou sem sustento e 77% enfrenta dificuldades em encontrar bens alimentares – na Síria, entre os deslocados internos, a percentagem sobe para 85%

O impacto na saúde mental é devastador. Nos últimos 12 meses, os jovens na Síria têm registado distúrbios do sono (54%), ansiedade (73%), depressão (58%), solidão (46%), frustração (62%) e angústia (69%).

Uma média de 86% de crianças refugiadas sírias entrevistadas para o maior estudo jamais realizado pela organização Save the Children na Jordânia, no Líbano, na Turquia e na Holanda diz que não quer voltar ao seu país. Das crianças desalojadas na Síria, uma em cada três confessa que preferia viver noutro lugar. Na Holanda, pelo contrário, 70% das crianças está confiante num “futuro positivo”, porque têm “liberdade, educação e oportunidades económicas”.

Fontes: Agence France-Presse; Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR); Banco Mundial; BBC; Islamic Relief; Programa Alimentar Mundial da ONU; Physicians for Human Rights; Relatório A Decade of Loss: Syria’s Youth after 10 years of crisis, Comité Internacional da Cruz Vermelha; Relatório Anywhere but Syria, Save the Children; Relatório The Darkest Decade: What displaced Syrians face if the world continues to fail them, Norwegian Refugee Council; Relatório 10 Years of War in Syria: The Lasting Impact of a Childhood Without Peace,International Rescue Committee; Relatório Trafficking in Persons, Departamento de Estado americano; Relatório Too high a price to pay: the cost of conflict for Syria’s children, World Vision/Frontier Economics; Syrian Network for Human Rights (SNHR); SKY News; Syrian Observatory for Human Rights (SOHR); The Lancet; UNICEF; Violations Documentation Centre.

© Molly Crabapple, Scenes From The Syrian War, Vanity Fair, Julho 2015

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na edição de Maio de 2021 da revista ALÉM-MAR | These articles, now updated, were originally published in the May 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

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