Marinel Sumook Ubaldo: “Não devemos ter medo de fazer a diferença”

A vida de Marinel Sumook Ubaldo mudou para sempre quando o tufão Hayan/Yolanda, que ela descreve como “o mais devastador jamais registado na história humana”, atingiu a sua pacata cidade, cem quilómetros a sudoeste de Manila, a capital das Filipinas. (Ler mais | Read more…)

Marinel Ubaldo é uma das mais importantes activistas globais pelo clima. Fundou a Youth Leaders Environmental Action Federation (Federação de Líderes Juvenis para a Acção Ambiental) e é coordenadora da Campanha de Justiça Ecológica da Living Laudato Si’ Philippines (LLS), um movimento interconfessional iniciado por leigos católicos
© Cortesia de | Courtesy of Marinel Ubaldo

Não faltavam sinais a anunciar uma tragédia. Às 7 da manhã, as temperaturas exteriores já eram elevadas e o seu pai, que era pescador, há muito se queixava da escassez de cardumes. No dia 3 de Novembro de 2013, tinha Marinel 16 anos, o tufão de categoria 5, a mais elevada na escala de Saffir-Simpson, arrasou praticamente tudo à sua passagem, com ventos superiores a 370 km/h e ondas de 15 metros de altura. Mais de 6300 pessoas morreram. Marinel não se esquece dos corpos que viu a boiar no mar.

Seis anos depois, segundo a Amnistia Internacional, milhares de filipinos ainda não tinham sido realojados em áreas residenciais seguras, com acesso a água, alimentos, electricidade, casas de banho ou fontes de rendimento. Muitos foram transferidos para as proximidades de um aterro tóxico, onde pelo menos 11 morreram de doenças várias.

“O tufão destruiu a minha comunidade, destruiu a minha casa e a minha escola, matou milhares de pessoas e meios de subsistência”, diz-me Marinel, numa entrevista por e-mail.

O que pensava ser um porto seguro desapareceu num ápice, mas ela recusou ser tratada como apenas “mais uma vítima, mais um dado estatístico”. Em 2015, juntou-se a cerca de 31 mil sobreviventes numa investigação histórica iniciada pela Comissão de Direitos Humanos das Filipinas, para apurar a responsabilidade de 47 empresas produtoras de carvão, cimento e combustíveis fósseis.

Hoje, aos 24 anos, a assistente social Marinel Ubaldo é uma das mais importantes activistas globais pelo clima. Fundou a Youth Leaders Environmental Action Federation (Federação de Líderes Juvenis para a Acção Ambiental) e é coordenadora da Campanha de Justiça Ecológica da Living Laudato Si’ Philippines (LLS), um movimento interconfessional iniciado por leigos católicos (*).  

Em nome do seu povo, discursou em duas cimeiras mundiais do clima organizadas pelas Nações Unidas, a COP 21, em 2011 em Paris, e a COP 25, em 2019 em Madrid. Em Setembro de 2018, durante a Semana do Clima em Nova Iorque, foi testemunha na Audiência Pública de Responsabilidade pela Justiça Climática, onde declarou que as emissões de gases de estufa produzidas por companhias poderosas, como a Shell Oil Manila, “põem em risco o direito à vida e à autodeterminação”.

Recentemente, Marinel recebeu treino da equipa do ex-vice-presidente americano Al Gore como Climate Reality Leader (Líder da Realidade Climática), para continuar a contar a sua história por todo o mundo.

No dia 3 de Novembro de 2013, o tufão Hayan/Yolanda, de categoria 5, a mais elevada na escala de Saffir-Simpson, arrasou praticamente tudo à sua passagem, com ventos superiores a 370 km/h e ondas de 15 metros de altura. Mais de 6300 pessoas morreram
© Jeoffrey Maitem | UNICEF Philippines

“Estou activamente envolvida na educação de crianças e jovens sobre as alterações climáticas e o papel que podem desempenhar para se adaptarem e mitigarem os seus efeitos”, explica-nos. “Pretendo chamar a atenção para a urgência de os dirigentes mundiais respeitarem os compromissos assumidos.”  Ela não quer piedade. Quer acção.

O tufão Hayan/Yolanda fez de Marinel uma “guerreira espiritual”, mas o seu despertar para as ameaças ao planeta acontecera um ano antes. “Em 2012, a minha escola enviou-me para um seminário de formação profissional da Plan International”, organização humanitária independente que trabalha em 71 países da Ásia, África e Américas, no sentido de promover os direitos das crianças e a igualdade das meninas.

“Desde então, tornei-me animadora/facilitadora, visitando outras escolas e comunidades remotas, para falar sobre alterações climáticas e como devemos agir para nos prepararmos.”

Nessas comunidades longínquas, onde muitos habitantes são analfabetos, Marinel recorre a peças de teatro ou emissões radiofónicas para transmitir a sua mensagem. A pandemia de covid-19 afectou este apoio presencial.

“De início, foi difícil ajustar-me às novas regras, porque tudo passou a ser online”, admitiu. “O desafio agora está em identificar as campanhas mais eficazes e com maior impacto que ainda podem chegar à nossa audiência-alvo.”

Nenhuma contrariedade parece desencorajar Marinel: “Devemos amplificar as nossas acções e influência, nos sectores público e privado, para que todos ajam em prol do clima. Foi assim que comecei a fazer lobbying junto do governo filipino e me mantive activa no movimento climático nacional e internacional. Quis levar a história da minha comunidade a uma plataforma internacional, para que soubessem que as alterações climáticas são uma realidade diária para numerosas pessoas em países vulneráveis.”

Seis anos depois do tufão Hayan/Yolanda, segundo a Amnistia Internacional, milhares de filipinos ainda não tinham sido realojados em áreas residenciais seguras, com acesso a água, alimentos, electricidade, casas de banho ou fontes de rendimento. Muitos foram transferidos para as proximidades de um aterro tóxico, onde pelo menos 11 morreram de doenças várias
© TIME

Marinel está orgulhosa do seu activismo: “A Youth Leaders for Environmental Action Federation é a principal organização ecologista, não-governamental e dirigida por jovens, em defesa da conservação do ambiente, de um desenvolvimento sustentável e da resiliência face às alterações climáticas nas [ilhas] Visayas Orientais.”

“Organizámos a primeira greve estudantil pelo clima nas Filipinas, com o objectivo de forçar o câmara municipal de Tacloban a proibir os plásticos não recicláveis e a declarar emergência climática na cidade. Queremos promover reformas através da criação de redes de associações de jovens e voluntários, a nível comunitário e regional.”

A celebridade de Marinel não é garantia de segurança. As Filipinas ultrapassaram o Brasil como o país mais violento do mundo para as pessoas que defendem as suas terras e o ambiente, segundo um relatório da organização independente Global Witness.

Em 2018 e 2017, foram mortos um total de 78 activistas – o número mais elevado registado na Ásia. Um terço das mortes registou-se na ilha de Mindanao, onde o governo do presidente, Rodrigo Duterte, planeia alocar milhares de hectares de terras para fins industriais. Metade das mortes estão relacionadas com negócios de extracção de madeira e mineração.

Protesto contra a indústria mineira nas Filipinas, país que ultrapassou o Brasil como o país mais violento do mundo para as pessoas que defendem as suas terras e o ambiente, segundo a Global Witness
© Erik De Castro | Reuters

Em 2019, furioso por o Conselho de Direitos Humanos da ONU ter decidido investigar os crimes da sua “guerra às drogas”, que já matou mais de 600 pessoas, Duterte suspendeu um empréstimo da Alemanha, de 36 milhões de dólares, para financiar um estudo sobre mudanças climáticas nas Filipinas – o quarto país do mundo mais ameaçado pelo impacto do aquecimento global.

Marinel, que confessa ter ficado “alarmada” com a recente detenção da activista Disha Ravi, 22 anos, por se ter solidarizado com os camponeses da sua Índia natal que protestam contra novas leis de regulamentação da indústria agrícola, confirma os perigos que enfrentam também muitos activistas filipinos.

“Infelizmente, têm sido silenciados, quer através de ameaças ou assassínio.” Mas, frisa ela, “não nos podemos deixar intimidar pelos que usam o seu poder em benefício próprio, por muito que sejamos oprimidos, sobretudo os mais pobres.”

“Temos de proteger os nossos direitos humanos. Não devemos ter medo de fazer a diferença. Nós importamos e, juntos, seremos capazes de tornar o mundo melhor.”

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(*) Inspirada pela segunda carta encíclica do Papa Francisco sobre “o cuidado da casa comum”, Laudato Si’ [Louvado Sejas], o movimento LLS foi formalmente criado em 7 de Novembro de 2018, na Catedral de Manila, na véspera do quinto aniversário do desastre causado pelo tufão Yolanda nas Filipinas. “Encorajamos as pessoas, sobretudo a comunidade católica, a erguer com orgulho a bandeira verde pelo ambiente e a viver segundo os ensinamentos sociais da Igreja”, lê-se no site da LLS.  “Uma via estratégica para encarar esta realidade triste é dizer aos administradores nomeados dos nossos recursos financeiros que retenham os depósitos, os investimentos e os empréstimos” às empresas cujas actividades económicas prejudicam o ambiente. O apelo estende-se às instituições católicas – “as nossas paróquias, dioceses, ordens religiosas, escolas, comunidade” – para que se unam e façam ouvir a sua voz da maneira mais poderosa possível”.

“Devemos amplificar as nossas acções e influência, nos sectores público e privado, para que todos ajam em prol do clima”, diz a activista filipina que se considera uma “guerreira espiritual”
© Cortesia de | Courtesy of Marinel Ubaldo

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Abril de 2021 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the April 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

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