Evelyn Acham: “Não podemos comer carvão e não podemos beber petróleo”

Nascida num país tropical “com apenas duas estações, a das chuvas e a da seca”, Evelyn Acham, 29 anos, pensou durante muito tempo ser este o padrão no resto do mundo. Mas não. (Ler mais| Read more...)

Evelyn Acham, activista ugandesa em defesa do clima e de um mundo melhor
© Cortesia de | Coutesy of Evelyn Acham

No Uganda, “secas prolongadas, desabamentos de terras e cheias devastadoras” ameaçam a existência e sobrevivência da população, e Evelyn Acham, jovem formada em Economia da Terra na Universidade de Makerere, a maior e mais antiga instituição de ensino superior em Campala, percebeu que tinha de se tornar numa “activista pela justiça climática.”

Evelyn é hoje a coordenadora nacional ugandesa do Rise Up Climate Movement, fundado pela compatriota Vanessa Nakate, para amplificar as vozes dos activistas africanos em defesa do clima. É também membro do movimento estudantil Fridays For Future, criado pela sueca Greta Thunberg, e do grupo de direitos humanos Defend the Defenders, que luta pela protecção da floresta de Zika.

“Apesar de alguns esforços do nosso governo, preocupa-me o facto de a lei no Uganda não dar a devida importância às alterações climáticas, o maior obstáculo ao desenvolvimento sustentável e aos planos para pôs fim à pobreza no país”, confessa Evelyn Acham, numa entrevista que me deu, por e-mail.

O activismo de Evelyn, iniciado em 2019, foi inspirado por Vanessa Nakate, que a revista americana TIME acaba de incluir entre os 100 nomes da sua lista Next Generation Leaders (Líderes da Próxima Geração). “Ao ver a minha amiga e colega de universidade fazer greve sozinha nas ruas de Campala, ao ver a sua paixão e o seu empenhamento pela salvação do planeta, despertou-me o interesse pelas alterações climáticas.”

A situação no Uganda é muito preocupante. Evelyn, que diz ter feito a sua própria investigação para colmatar o que não aprendeu com um sistema educativo deficitário, conta o que está a acontecer no distrito de Kasese [no ocidente], onde “vidas humanas e colheitas têm sido destruídas desde 2013, devido a inundações que fazem transbordar as margens do rio.

“O ano passado”, adianta, “o Lago Vitória atingiu níveis alarmantes, as águas subindo de 12 metros cúbicos para 13,32. Isto fez com que algumas casas ficassem submersas, deixando milhares de pessoas sem abrigo.”

Nas comunidades pantanosas do Uganda, as alterações climáticas estão a contribuir para a insegurança alimentar e a exacerbar o risco de violência contra as mulheres, segundo as Nações Unidas.
© UNDP Uganda
“O EACOP [na foto] vai resultar em mais emissões de carbono, em mais destruição da biodiversidade, em mais destruição de vidas humanas e propriedades”, condena Evelyn Acham
© stopeacop.net

Não é apenas a abundância de chuva que exacerba os problemas ambientais, mas também a rápida deflorestação. Árvores são cortadas para produzir combustível. Anualmente, a taxa de perda de cobertura florestal no Uganda é de 2,6% – uma das mais elevadas do mundo. Mais de 80% dos ugandeses ainda usam lenha para cozinhar, porque não têm energias alternativas.

Outro dos grandes desafios que se colocam aos activistas ugandeses é o East African Crude Oil Pipeline, um oleoduto que irá transportar petróleo do ocidente do Uganda para um porto na costa norte da Tanzânia, ao longo de 1445 quilómetros.

“O EACOP vai resultar em mais emissões de carbono, em mais destruição da biodiversidade, em mais destruição de vidas humanas e propriedades”, condena Evelyn. “Não podemos comer carvão e não podemos beber petróleo!”

Em Março, 260 organizações não governamentais, nacionais e internacionais, assinaram uma carta aberta a mais de uma dúzia de bancos para não financiarem este projeto avaliado em 3500 milhões de dólares. Os empréstimos pedidos totalizam 2500 milhões.

Porque a construção do EACOP, a cargo do gigante francês Total e de um conglomerado chinês, representa “riscos inaceitáveis” para as comunidades e o clima no Uganda, na Tanzânia e em toda a região, as ONG recomendam aos responsáveis governamentais que deixem de investir em infra-estruturas com base em combustíveis fósseis e apostem em energia renovável.

Evelyn Acham empunhando cartazes com algumas das palavras de ordem do movimento Rise Up: “Mudança de sistema e não mudança de clima”, “Não podemos ter justiça climática sem justiça racial”; “O dinheiro será inútil num planeta morto”
© Fotos partilhadas por Evelyn Acham na sua conta de Twitter (@eve_chantel)

“Em África, as raparigas e as mulheres são as mais afectadas pelas alterações climáticas, porque são as mais marginalizadas”, sublinha Evelyn Acham. “Quando acontece um desastre climático, as mulheres, porque são elas que andam a pé longas distâncias para pôr comida e água na mesa, deixam de poder alimentar as suas famílias”.

Outro drama relacionado com a insegurança alimentar, é o das “meninas que são oferecidas em casamento em troca de dinheiro”.

É, por isso que, nos seus protestos, Evelyn não reivindica apenas que as autoridades acabem com os combustíveis fósseis e transitem para a energia renováveis, mas também que as raparigas tenham acesso à educação sobre o clima “para ajudar a preservar os nossos eco-sistemas.”

Sem a protecção política de que beneficiam os mais privilegiados congéneres na Europa ou nos Estados Unidos, a activista ugandesa enfrentou, em 26 de Fevereiro, o que qualifica de “a pior experiência” da sua vida.  

Na companhia da amiga Abitimo Becca e do amigo Paphras Ayebale, Evelyn decidiu manifestar-se junto ao Parlamento em Campala, erguendo cartazes com a inscrição “I can’t breath, the air is polluted” (Não consigo respirar, o ar está poluído). Era um local movimentado, “perfeito para despertar consciências”, explicou posteriormente Ayebale.

“Subitamente, fomos cercados por sete agentes da polícia, a maioria deles homens”, relata Evelyn.  “O meu coração batia tão rápido. Fiquei assustadíssima. Fomos colocados numa pequena cela e ordenaram-nos que nos sentássemos no chão.”

Tem sio rápida a deflorestação no Uganda. Árvores são cortadas para produzir combustível. Anualmente, a taxa de perda de cobertura florestal no país é de 2,6% – uma das mais elevadas do mundo. Mais de 80% dos ugandeses ainda usam lenha para cozinhar, porque não têm energias alternativas.
© PBS
Secas frequentes têm aumentado a distância que os habitantes de muitas aldeias no Uganda têm de percorrer para obter água
© sierraclub.org

“Os agentes pronunciavam palavras ameaçadoras, ‘podemos torturar-vos, podemos fazer com que desapareçam e ninguém saberá o que vos aconteceu nem vos encontrará.’ Temi que a minha família não mais me visse. Fiquei em estado de choque, traumatizada. Só consegui manter-me firme porque não estava sozinha.”

“Fomos libertados na condição de não voltarmos a fazer greve em público”, informa Evelyn. “Os nossos placards e telemóveis foram confiscados.”

“Obrigaram-nos a apagar todas as fotos da greve daquela sexta-feira. Que experiência tão dolorosa! Não desejo isto a ninguém, mas não é isto que vai terminar o meu activismo, porque as alterações climáticas não acabaram na cela onde fui detida. Vou continuar a protestar, nas ruas ou em casa.”

As greves já haviam sido afectadas por causa do confinamento imposto para travar a covid-19. “A pandemia limitou a nossa audiência, porque as greves online chegam apenas aos mais jovens e não às gerações ausentes das redes sociais. Temos de chegar a estas presencialmente”, constata Evelyn.

A crise sanitária actual “mostrou que é possível aplicar soluções o mais rapidamente possível. Basta ver como, perante o coronavírus, os líderes entraram em pânico e aceitaram adaptar-se a todas as medidas desconfortáveis. As alterações climáticas devem também ser tratadas como uma emergência”.

“Porque são um problema de saúde, de género, de educação, racial e social, as alterações climáticas devem preocupar toda a gente”, conclui Evelyn.

“Todos devem participar nesta luta. Não interessa a nossa idade ou a nossa cor. Pequeno ou grande, o nosso contributo é importante. Todos os activistas têm uma história e todas as histórias têm uma solução. E cada solução tem uma vida para mudar.”

Evelyn Acham [à direita] e Vanessa Nakate, compatriota e fonte de inspiração do seu activismo. Nos cartazes que erguem lê-se: “Unam-se à ciência” e “Não podemos comer carvão… não podemos beber petróleo”.
© Foto partilhada por Evelyn Acham na sua conta de Twitter (@eve_chantel)

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Abril de 2021 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the April 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

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