A difícil estrada de Damasco

Com cerca de 2000 anos de existência, a comunidade cristã síria é uma das mais antigas do mundo. As suas elites foram cruciais para a conquista da independência e formação de um Estado moderno, mas o regime de Assad fez deles reféns e a oposição islamista amaldiçoou-os. (Ler mais | Read more…)

Um cristão sírio na igreja assíria da Virgem Maria, destruída pelo autoproclamado “Estado Islâmico” (Daesh) na aldeia de Tal Nasri, a sul de Tal Tamr, no nordeste da província de Hasakah, em 15 de Novembro de 2019
© AFP | midleeasteye.net

Antes da chegada do Islão, no século VII, os cristãos constituíam 80% da população da Síria. Até 1967, representavam 30%. Um censo realizado em 2005 estimava que seriam apenas 10-12%. Em 2008, totalizariam 4,8% e agora não serão mais de 2%. (*) Em cidades como Deir Al-Zour e Raqqa, antigos bastiões do Daesh, já não há sequer presença cristã.

Dos 5,5 milhões de refugiados sírios, 825 mil serão cristãos – ou seja, mais de 40% dos dois milhões incluídos no recenseamento de 2005, segundo a ONU.

Os cristãos da Síria temem um destino semelhante ao dos seus irmãos no Iraque, em risco de extinção. Muitos alinharam com o regime, para proteger os seus interesses económicos e religiosos, outros apoiaram a revolução de 2011 sem reservas, mas “a maioria evitou tomar partido, centrando-se na sua própria sobrevivência”, concluiu Georges Fahmi, investigador da Chatham House, em Londres, autor do ensaio The Future of Syrian Christians After the Arab Spring, publicado pelo European University Institute, em Florença, Itália.

Em 2011, numerosos jovens cristãos juntaram-se aos revolucionários logo no primeiro dia, em defesa de “um regime democrático baseado na liberdade, na justiça e nos direitos humanos”, assegura Fahmi.

Afinal de contas, foi o político e intelectual cristão Michel Lutfallah quem liderou as negociações para a independência da Síria, em 1919, e foi outro cristão, Fares Al Khoury, que ajudou a criar o movimento pan-árabe e secular que está na génese do moderno Estado sírio. Foi até agora o único cristão a assumir a chefia do governo, em 1944-45.

Paolo Dall’Oglio, padre jesuíta italiano que fundou a comunidade monástica Deir Mar Musa al-Habashi, na região de Damasco, foi raptado durante uma visita a Raqqa, para tentar libertar presos políticos do Daesh, e nunca mais visto desde 2013
© repubblica.it

Na revolução de 2011, um dos mais importantes dissidentes cristãos foi Bassel Shehadeh, jovem cineasta de Damasco que largou os estudos no estrangeiro para ir a Homs filmar os protestos populares contra Bashar. Em Maio de 2012, o regime matou-o ao bombardear a cidade.

Outros cristãos foram mortos, presos e torturados. O padre Paolo Dall’Oglio, um jesuíta italiano que fundou a comunidade monástica Deir Mar Musa al-Habashi, na região de Damasco, foi expulso pelo regime e, em 2013, durante uma visita a Raqqa, para tentar libertar presos políticos do Daesh, foi raptado e nunca mais visto.

“Bashar al-Assad não protege os cristãos, pelo contrário, instrumentaliza-os, para se manter no poder”, acusa Samira Moubaied, católica nascida em Damasco, onde o avô chegou no início dos anos 30 do século XIX, deslocado à força do sandjak de Alexandretta (actual Hatay turco).

“O regime quer mostrar aos governos ocidentais que luta contra o terrorismo, mas ficou à vista de todos, na última década, o conluio entre o regime e grupos islamistas.”

“O regime finge que protege os cristãos, para poder legitimar a sua violência e os crimes cometidos contra o povo”, condena a vice-presidente da ONG Syrian Christians for Peace, lembrando que, depois da revolução, Assad manipulou as minorias para que não se juntassem aos rebeldes. “Os cristãos são considerados cúmplices do regime e, no entanto, são eles mesmo vítimas.”

Samira Moubaied admite que, apesar dos crimes de Bashar al-Assad, este “continuou a ser apoiado pela maior parte dos líderes religiosos, pela simples razão de que quem nomeia os bispos na Síria é o regime” (Na foto, uma mulher beija a Bíblia numa igreja cristã ortodoxa em Damasco, em 27 de Outubro de 2013)
© Associated Press

Destacada activista da oposição, Samira Moubaied admite que, apesar dos crimes de Assad, este “continuou a ser apoiado pela maior parte dos líderes religiosos, pela simples razão de que quem nomeia os bispos na Síria é o regime”. Damasco, em cuja estrada o fariseu Saulo se converteu no apóstolo Paulo, permanece a sede dos patriarcados da Igreja Ortodoxa Siríaca e da Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia e de Todo o Oriente (a mais antiga das 11 denominações cristãs na Síria).

Ao contrário de outras comunidades religiosas, em particular os drusos e curdos, os cristãos sírios estão espalhados por todo país, embora a maioria habite em centros urbanos, como Damasco (onde se queixam da ameaçadora presença de milícias xiitas pró-iranianas), Homs, Hama, Latakia e Al-Hassakah, informa Georges Fahmi.

Embora Hafez e Bashar al-Assad, pai e filho, tivessem adoptado um “discurso secular”, certo é que “sempre trataram as instituições religiosas cristãs como sendo representativas da comunidade perante o regime político, seguindo o sistema de millet instaurado pelos turcos otomanos”.

Explica Fahmi: “Aos cristãos são concedidos determinados direitos e às igrejas liberdade e prerrogativas limitadas na gestão dos seus assuntos internos, em troca de lealdade total e aquiescência à privação dos seus direitos políticos e parte dos seus direitos cívicos.” Ou seja, o regime oferece aos líderes religiosos “algumas vantagens políticas e económicas”, mas “mantém-nos sob rígido controlo de segurança”.

“A grande questão que se coloca hoje à maioria dos cristãos sírios não é se devem alinhar com o regime ou com a oposição islamista, mas como sobreviver aos riscos que ambos representam”, realça Fahmi.

Missa na igreja cristã assíria de Ibrahim al-Khalil em Damasco, organizada como gesto de solidariedade para com (pelo menos) 220 assírios raptados pelo “Estado Islâmico”/Daesh no leste da Síria, em Março de 2015
© Omar Sanadiki | Reuters

Em Paris, Samira Moubaied concorda: “O regime de Assad e os islamistas fazem parte do mesmo sistema, um sistema que já dominava a vida política, a vida social e a vida económica antes da revolução e que conduziu à situação catastrófica em que a sociedade hoje se encontra.”

“Os cristãos sírios, assim como todos os sírios que não pertencem a nenhuma daquelas correntes ideológicas enfrentam hoje múltiplos partidos radicais”, anota a autora do livro A Primeira Mártir Síria, onde documenta a história da sua tia Samira Joseph Moubaied, assassinada pelo regime de Hafez al-Assad em 1975, por ter ousado “expor os seus crimes”.

“Se queremos proteger os cristãos e a restante sociedade civil na Síria, é preciso construir um Estado de direito que garanta a segurança e a cidadania de todos, longe do domínio das correntes extremistas: militarismos, religiosos radicais, nacionalistas radicais ou esquerdistas radicais”, defende Samira Moubaied.

“Para restabelecer a confiança entre os vários grupos étnicos e religiosos é necessário começar por instaurar a harmonia confessional a nível local, porque as divisões e os conflitos variam entre as diferentes regiões da Síria. É necessário estabelecer um novo contrato social, longe das tensões entre as grandes potências. É urgente investir na educação e na tomada de consciência de que a prioridade é obter cidadania plena.”

(*) Salam Kawakibi, The Migration of Syrian Christians, Middle East Institute

Samira Moubaied, vice-presidente da organização Syrian Christians for Peace
© syrianobserver.com

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