O legado de Trump e os desafios de Biden

O presidente cessante isolou a América e foi um inimigo da democracia. Mas que ninguém espere um regresso à “normalidade” pré-2016, porque o ex-inquilino da Casa Branca não foi uma “aberração histórica”, diz-me Mara Oliva, especialista em política nacional e externa dos EUA. Dentro e fora do país, o futuro presidente enfrenta uma missão hercúlea. (Ler mais | Read more…)

© Erik Madigan Heck | Foreign Policy

A “desprezível e injustificável” invasão do Capitólio, no dia 6 de Janeiro, não foi apenas “um acto de terrorismo interno”, mas “o clímax de quatro anos de acesa retórica, desinformação e manipulação de informação”, critica Mara Oliva, professora de História dos Estados Unidos na Universidade de Reading, em Berkhsire (Inglaterra) e coordenadora, com Mark Shanahan, do livro The Trump Presidency: from Campaign Trail to World Stage.

É demolidor o balanço da presidência de Donald John Trump traçado, numa entrevista por e-mail, pela académica que orienta os seus alunos sobre o que tem sido o “sonho americano”, dos tempos coloniais ao século XXI. “A América tornou-se na anedota da comunidade internacional. A diplomacia e o soft power dos EUA nunca desceram a um nível tão baixo.”

“Trump personificou a polarização. Usou a pandemia para dividir ainda mais um país já perigosamente fracturado. Basta pensar na sua recusa em usar a máscara. Alimentou repetidas vezes o antagonismo racial e o nativismo. Recusou condenar a supremacia branca.”

Trump “assaltou” o estado de Direito, “lesou de modo sistemático [como ‘inimiga do povo’] um dos pilares da democracia americana: a imprensa livre”; adoptou medidas que “diminuíram os direitos” de imigrantes e outros grupos minoritários e vulneráveis; “negou o facto de as pessoas negras sofrerem desproporcionadamente de brutalidade policial”. Com ele, a pena de morte (a que Biden se opõe) ganhou nova vida: nos últimos seis meses, foram executadas mais pessoas do que nas últimas seis décadas.

Como é que isto aconteceu?, interroga-se Mara Oliva. “E será que a eleição de 2016 mudou para sempre a alma” da América? “Para nós, os que estudamos história, a vitória de Trump era previsível. Ele não é uma aberração [obteve mais de 74 milhões de votos]. É o sintoma de uma crise nacional mais vasta e prolongada, solidamente enraizada na história dos EUA.”

Kamala Harris, vice-presidente
© The New Yorker
Anthony Blinken, secretário de Estado
©Henry Romero | Reuters
Linda Thomas-Greenfield, embaixadora nas Nações Unidas
© Michael Reynolds | AP

Num clima de polarização – assente na “discriminação racial e de género, nas desigualdades sociais e económicas” –, Trump distinguiu-se dos predecessores republicanos e no seu partido por “não acreditar na democracia”. Como presidente, “não lhe interessava uma ideologia ou visão para o país”. O ataque ao Capitólio – pelo qual Trump não exprimiu contrição – “foi um exemplo claro” de uma “deriva para o autoritarismo”.

Trump será lembrado como o único presidente impugnado duas vezes, em 2019, por abuso de poder e obstrução do Congresso, e em 2021, por incitamento à insurreição. A sua herança é tóxica.

Os desafios de Joe Biden são gigantescos. Dias antes da tomada de posse, anunciou um pacote de emergência no valor de 1,9 biliões de dólares, que inclui mais de 400 mil milhões para acelerar o plano de vacinação contra o SARS-CoV-2 e mil milhões para ajuda directa aos americanos que, “sem culpa, perderam a dignidade e o respeito que o trabalho confere”.

Na Câmara dos Representantes, Biden só tem uma vantagem de 12 votos e, no Senado, não tem uma maioria de 2/3, o que poderá inviabilizar as promessas mais ambiciosas, mas ele acha-se capaz de estabelecer acordos com os republicanos, sobretudo os que querem “livrar-se do Trumpismo”.

Em termos de política externa, a presidência de Donald Trump ficará marcada pelo modo como “explorou a exaustão” causada pela “era de conflito perpétuo” que começou após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, analisa Mara Oliva. Ao promover “o isolacionismo da ‘América primeiro’”, ele defendeu, explicitamente, “o abandono do sistema global de comércio livre e de livre movimento de bens que os Estados Unidos seguiam desde o final da II Guerra Mundial”.

“Trump representou uma mudança no modo como os americanos se vêem a si mesmos. Muitos passaram a acreditar que os EUA devem agir como uma potência tradicional, ou seja, mais centrada nos seus interesses e menos preocupada com o destino de outras regiões e nações.”

Lloyd Austin, chefe do Pentágono
© Chip Somodevilla | Getty Images
Jake Sullivan, conselheiro nacional de segurança
© Stefani Reynolds | The New York Times
William Burns, chefe da CIA
© Tom Brenner | AP

Estes problemas “não ficam solucionados como que por magia” com a chegada de Joe Biden à Casa Branca, avisa Mara Oliva. O novo presidente “não constitui exactamente uma mudança no sistema – é um homem branco com 78 anos que está no governo há mais de 30”.

“É verdade que nomeou a primeira mulher negra-asiática, Kamala Harris, para ser vice-presidente” e que é “mais sensível às questões nacionais”, mas “não haverá um regresso à normalidade [antes de Trump] – seja lá o que isso for”. Porque 2016 “não foi uma anomalia, mas sim o momento divisor das águas na história americana”. A Covid-19 “apenas expôs, mais claramente, as desigualdades, a corrupção e a crueldade que há décadas afectam a vida social e política” nos EUA.

Joe Biden vê-se como “um presidente de transição para uma nova geração”. Será que vai governar “com arrojo e coragem para empreender o diálogo necessário à renovação da experiência americana?”, pergunta a historiadora Mara Oliva. “Ele assume-se como globalista, o que será central para o modo como abordará inúmeras questões. Pela frente tem o desafio imediato de convencer o resto do mundo de que a América ainda merece o poder que em tempos deteve.”

Com larga experiência nos negócios estrangeiros, desde que foi eleito pela primeira vez para o Senado em 1972 até exercer dois mandatos como vice-presidente, Joe Biden viajou extensivamente por numerosos países, onde se encontrou com cerca de 150 líderes. Muitos esperam que ele dê continuidade à “via moderada” das administrações Clinton e Obama. O círculo restrito que escolheu parece indicar esse caminho: Anthony Blinken, secretário de Estado; Jake Sullivan conselheiro nacional de segurança; Linda Thomas-Greenfield, embaixadora na ONU; Lloyd Austian, chefe do Pentágono; William Burns, chefe da CIA.

“Uma das prioridades de Biden será dar novo fôlego à ferida aliança transatlântica com a Europa, que constituía a base dos interesses dos EUA desde a II Guerra Mundial”, salienta Mara Oliva.

“A doutrina ‘América primeiro’, de Trump, enfraqueceu esta aliança que foi durante décadas o mais poderoso instrumento global de Washington.” Biden acredita em “reunir forças, em especial quando as ameaças são comuns”, por isso, “agirá rapidamente para reparar os laços com a NATO e vai, quase seguramente, pressionar para que a maior aliança militar, representando mil milhões de pessoas, adapte e alargue a sua missão (e talvez o número de membros) aos desafios do século XXI, como a tecnologia militar e a cibernética”.

Outros analistas enalteceram a vitória de Biden porque ele pode “enfraquecer o populismo”, porque “é bom ter alguém na Sala Oval que não considera a União Europeia um inimigo” e “partilha valores comuns”. Mas também alertaram que a Europa não pode voltar à “postura preguiçosa de depender da liderança americana”.

China

Xi Jinping © The Economist

Especialista em relações sino-americanas, autora de Eisenhower and American Public Opinion on China, Mara Oliva acredita que uma administração Biden “vai tentar alinhar as democracias ocidentais”, sobretudo a Europa e o Japão, para que, coletivamente, exerçam maior pressão sobre Pequim – numa “clara ruptura” com o antecessor, que fazia tudo sozinho. “A expectativa é a de que o novo presidente irá favorecer o diálogo e a diplomacia, sem abdicar dos objectivos políticos” dos EUA. Biden terá de fazer “escolhas difíceis”.

Por exemplo: ou mantém as tarifas impostas por Trump, no valor de 360 mil milhões de dólares, sobre produtos chineses importados pelos EUA, “o que aumentou os custos para empresas e consumidores americanos”, ou levanta essas taxas “em troca de concessões” em áreas como a economia ou o clima, observa Mara Oliva.

O secretário de Estado cessante, Mike Pompeo, não facilitou a tarefa de Biden. Uma das suas últimas decisões foi levantar as restrições aos responsáveis americanos de visitarem Taiwan, cuja soberania é reivindicada pela China. O anúncio bastou para Pequim ameaçar a Ilha Formosa com “uma guerra”.

Rússia

Vladimir Putin © The Economist

Em 2011, relembrou Dmitri Tronin, do Carnegie Moscow Center, Joe Biden disse que “quando olhou [Vladimir] Putin nos olhos viu um homem sem alma”, ao que o líder russo respondeu: “Compreendemo-nos mutuamente”. Tronin está convencido de que a relação entre os dois presidentes “será das mais frias de sempre”. Biden, que considera a China o “principal concorrente” e a Rússia “a maior ameaça”, deixou claro que não perdoará os recentes ataques informáticos russos às agências governamentais americanas.

A sua resposta poderá ir de sanções financeiras até uma ciber-ofensiva contra interesses de Moscovo. Na pressão sobre Putin, em coordenação com aliados, Biden não vai “estruturar o conflito como sendo entre os EUA e a Rússia”, salvaguarda Tronin, mas distinguirá a “oligarquia e cleptocracia” do povo russo. (Todos aguardam o modo como reagirá à detenção de Alexei Navalny, o principal opositor de Putin que ousou regressar a Moscovo, em Janeiro, depois de sobreviver a uma tentativa de envenenamento.)

A ênfase nos direitos humanos levará também Biden a “apoiar mais activamente” a oposição no “quintal de Putin”, da Bielorússia às antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central. Maria Oliva considera que “a relação com Putin é onde melhor se poderá reflectir o misto de princípio e pragmatismo de Biden”, acreditando que o novo presidente dos EUA poderá “restaurar os tradicionais canais diplomáticos interrompidos por Trump”.

A Biden interessa prorrogar o New Start, único tratado de controlo de armamento com a Rússia que limita as armas nucleares e que expira em Fevereiro (mas fá-lo-á numa “posição de força”, frisa Tronin, mencionando “o possível desenvolvimento e instalação de mísseis de médio alcance na Europa capazes de atingir centros de comando russos”). Conta também com Moscovo (além de Pequim, Berlim, Paris e Londres) para reforçar o acordo nuclear com o Irão.

Médio Oriente

© The Economist

Se há um país ansioso pela chegada de Biden à Casa Branca será a República Islâmica do Irão. Em 2018, Trump abandonou o acordo nuclear que era parte do legado de Obama. Impôs sanções mais duras e mandou matar o chefe dos Guardas Revolução, Qassem Soleimani.

Mas não conseguiu vergar o regime teocrático. Biden, que diz querer acabar com as Forever Wars (“guerras eternas”) americanas, como a do Afeganistão, considera que uma crise nuclear no Médio Oriente pode ser evitada se Teerão se mantiver ligado ao acordo assinado em 2015, ao mesmo tempo que procura negociar cláusulas mais rígidas.

Acontece, porém, que o Parlamento iraniano acaba de aprovar leis visando acelerar a produção de urânio enriquecido e expulsar os inspectores da ONU, se as sanções não forem levantadas. O Médio Oriente que Biden vai encontrar também mudou muito nos últimos 4 anos. Trump ajudou a derrotar o Daesh na Síria e no Iraque, matando o seu chefe, Abu Bakr al-Baghdadi, mas também concretizou o que Mara Oliva define como “alguns dos sonhos mais loucos” do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu: reconheceu Jerusalém como capital de Israel, mudou para ali a embaixada dos EUA, legitimou a anexação dos Montes Golã, propôs um plano de paz que “só favorece Israel e abandona os palestinianos”.

É improvável, estima a professora Oliva, que Biden vá apresentar grandes iniciativas para resolver o conflito Israel-Palestina. Talvez reverta “políticas perniciosas”, reabrindo a delegação da OLP em Washington e o consulado dos EUA em Jerusalem Oriental, retomando também o financiamento da UNRWA, a agência que assiste os refugiados palestinianos. Mas não irá transferir a embaixada dos EUA para Telavive.

Biden também saudou os acordos de normalização das relações de Israel com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Sudão e Marrocos. Ao contrário de Trump, porém, a maioria dos analistas, crê que o novo presidente será mais crítico da colonização judaica dos territórios ocupados palestinianos (que Netanyahu acelerou em vésperas da investidura de Biden) e continuará a defender a solução de 2 Estados.

A Arábia Saudita, aliado dos EUA desde os anos 1940, é o que alguns chamam “o grande ponto de interrogação”. Biden descreveu o reino como “um pária”, depois do brutal homicídio do dissidente Jamal Khashoggi, aparentemente ordenado pelo príncipe herdeiro, Mohammed Bin Salman, e garantiu que não apoiará a guerra deste no Iémen.

É um propósito que Mike Pompeo dificultou antes de deixar o cargo, ao designar como organização terrorista os rebeldes houthis, pró-iranianos, que controlam a maior parte do Norte, incluindo Sanaa, a capital, e o porto de Hodeidah, por onde passa a ajuda de que precisam 80% dos habitantes do país.

A ONU considera que, se não for revogada, a “inimaginável decisão” de Pompeo, que penaliza as agências humanitárias, conduzirá “à pior fome dos últimos 40 anos”, com os preços dos alimentos a subir “até 400%”.

América Latina

De Biden, que praticamente não mencionou África na sua campanha eleitoral, não se espera muito. Vai prosseguir a contenção da crescente influência chinesa, ajudar a combater os dramáticos efeitos da pandemia e continuar as acções militares de combate aos grupos ligados ao Daesh © Fair Observer

Da última vez que Biden conduziu a política dos EUA para esta região, como emissário de Obama, “quase todos os países eram democracias estáveis e seguras”, anota Mara Oliva.

“De uma maneira geral, correspondiam aos critérios de eleições livres e justas, separação de poderes e outras directrizes estabelecidas pela carta democrática da Organização dos Estados Americanos, mas já não será possível que a Administração Biden continue onde acabou a Administração Obama.”

Em 2019, eclodiram protestos em vários países – Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Haiti, Nicarágua, Peru, Venezuela… Populações insurgiram-se contra elites corruptas e regimes autocráticos, o desemprego e as desigualdades sociais, agravados pelas medidas adoptadas para travar o coronavírus.

A abordagem de Biden será diferente de país para país. Em relação a Cuba, por exemplo – que Mike Pompeo voltou a incluir na lista de “Estados que apoiam o terrorismo” –, poucos prevêem maior abertura. Biden quer recuperar, em 2024, os eleitores latino-americanos que votaram em Trump.

Quanto à Venezuela, estará disponível para negociar com o governo de Nicolas Maduro, para pôr fim à “maior crise humana e económica no Hemisfério Ocidental”. Irá, talvez, propor o fim das sanções americanas em troca de “eleições livres e justas”.

Com Biden não haverá ameaça de intervenção militar – ele rejeita a Doutrina Monroe que, desde o século XIX, defende o domínio dos EUA nas Américas. Mas continuará a apoiar os esforços das forças de segurança americanas para perseguir os cartéis da droga e erradicar as plantações de coca, canábis e ópio na região. Quanto à imigração, espera-se que anule muitas das iniciativas de Trump, o presidente obcecado por um muro, que separou famílias e colocou crianças em jaulas, para travar a entrada nos EUA de dezenas de milhares de requerentes de asilo, agora concentrados em condições dramáticas na fronteira com o México.

O que Mara Oliva recomenda é uma nova estratégia “que resolva as actuais crises migratória e sanitária, transforme a forma tradicional como os EUA promovem a democracia, a segurança e o comércio, e incorpore as nações da América Latina numa agenda de política externa mais global”.

África

© The Economist

Numa das suas declarações mais infames, Trump referiu-se aos Estados africanos como shit-hole countries (países de m***a). Também reduziu o investimento directo dos EUA, de 50,4 mil milhões de dólares em 2017 para 43,2 mil milhões em 2019.

O seu programa Prosper Africa (“África Próspera), visando travar a ascensão regional da China, centrou-se sobretudo em abrir mercados aos bens e serviços americanos, numa relação mais bilateral do que multilateral. Trump não hesitou em castigar os que recusassem o seu “comércio livre recíproco” – o Ruanda deixou de estar isento de tarifas por não aceitar a importação de vestuário em segunda mão.

Com o “Muslim ban” (que Biden assegurou que será eliminado no primeiro dia da sua presidência), Trump interditou ainda a entrada nos EUA de cidadãos provenientes de várias nações africanas de maioria muçulmana. De Biden, que praticamente não mencionou África na sua campanha eleitoral, não se espera muito.

Vai prosseguir a contenção da crescente influência chinesa, ajudar a combater os dramáticos efeitos da pandemia e continuar as acções militares de combate aos grupos ligados ao Daesh.

Vários analistas recomendam-lhe, porém, que reforce os laços com potências como a Nigéria, a África do Sul e o Egipto, os quais representam quase 50% do PIB da região, e que aproveite bem as vantagens da diáspora africana nos EUA – 2,5 milhões de pessoas.

Direitos Humanos

Ao contrário de Trump, não se espera que Joe Biden venha a ser amigo próximo de ditadores e autocratas © The New York Times

“Joe Biden acredita nos direitos humanos como princípio fundamental da democracia e de uma política externa sólida”, certifica Mara Oliva.

“Ele julga os países pelo seu comportamento nesta matéria”. O novo presidente não atravessará a fronteira da Coreia do Norte, como fez Trump, para apertar a mão a Kim Jong-un. Outros líderes autoritários, como Jair Bolsonaro, do Brasil, ou Rodrigo Duterte, das Filipinas, deixaram de ter um amigo na Sala Oval.

Enquanto Trump elogiou Abdel Fattah El Sisi, como “o [meu] ditador favorito”, Biden condenou abertamente o chefe de Estado egípcio por ter ordenado a prisão, a tortura e o exílio de dissidentes. Também se espera de Biden uma postura mais agreste em relação a Recep Tayyip Erdogan, o presidente da Turquia – Estado membro da NATO – que, na sua opinião, “tem de pagar o preço” pelas suas políticas agressivas.

Clima

Joe Biden formou “uma equipa excelente” para a defesa do clima: John Kerry, que será o emissário para o clima, e Gina McCarthy, responsável na Casa Branca pela política para o clima.”
© Mandel Ngan | AFP | Getty Images

Sendo Biden un político que “valoriza os tratados e as instituições internacionais”, um dos seus primeiros actos foi regressar ao Acordo de Paris de 2015, concebido para salvar o planeta, e reintegrar a Organização Mundial de Saúde, para “modelar uma resposta global mais forte à Covid”, assevera Mara Oliva, que estuda a diplomacia americana para as alterações climáticas desde o fim da Guerra Fria.

“Biden leva esta questão muito a sério. Formou uma equipa excelente: John Kerry, que será o emissário para o clima, e Gina McCarthy, responsável na Casa Branca pela política para o clima.” Como secretário de Estado de Obama, Kerry foi um dos artífices do Acordo de Paris e, como chefe da Agência para a Protecção do Ambiente (EPA), McCarthy pôs em marcha regulamentações que reduziram imenso os gases de efeito de estufa de veículos, centrais elétricas, instalações de petróleo e gás – “acções infelizmente anuladas por Trump”.

A nomeação de Kerry “é a mudança mais importante na diplomacia para o clima e na política externa americanas porque, pela primeira vez na história do país, ele fará parte do Conselho de Segurança Nacional”. Desde o fim da Guerra Fria, com a “emergência de um novo e mais complexo conjunto de problemas globais”, as alterações climáticas “são cada vez mais encaradas como um risco de segurança, em escala e impacto”.

Segundo Mara Oliva, “a destruição ambiental e a distribuição desigual de recursos naturais, da água aos metais da terra, podem conduzir a conflitos, sublevações sociais e políticas, e ainda migrações” – em Janeiro, fugindo dos efeitos da Covid e dos furacões que devastaram as zonas mais produtivas do Norte das Honduras, cerca de 2000 pessoas fugiram para a Guatemala, enfrentando a repressão das autoridades locais, esperando chegar aos EUA.

Consequentemente, isso tem o potencial de “afectar de forma adversa não só a segurança nacional dos EUA e os seus interesses económicos vitais – como o acesso ao petróleo –, mas também a estabilidade em áreas onde a América tem interesses geopolíticos”.

Um desses interesses está no Ártico, onde “o degelo atiçou uma nova luta entre os EUA, a Rússia e a China, em busca de recursos naturais e novas rotas comerciais”. Os riscos das alterações climáticas a longo prazo “são mais abrangentes, graves e certos do que os do terrorismo”, adverte Mara Oliva. Por isso, ela regozija-se que Joe Biden tenha prometido fazer desta questão uma das prioridades da sua política externa.

Mara Oliva é professora de História dos Estados Unidos na Universidade de Reading, em Berkhsire (Inglaterra) e coordenadora, com Mark Shanahan, do livro The Trump Presidency: from Campaign Trail to World Stage © Cortesia de | Courtesy of Mara Oliva

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Fevereiro de 2021 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, February 2021 edition

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