“O Papa Francisco vem enxugar as nossas lágrimas”

É a primeira visita de um chefe da Igreja de Roma a um país onde o Cristianismo chegou há mais de 1500 anos, mas hoje corre o risco de extinção. É um momento de esperança para os cristãos iraquianos, como Dunya Mikhail, um dos maiores nomes da poesia iraquiana. “Precisamos mesmo de um milagre para termos uma vida normal.” (Ler mais| Read more...)

© Ayman Henna | AFP | Al Jazeera

© Vincenzo Pinto | AFP

Em Março de 2003, quando começou a invasão americana para desmantelar (inexistentes) armas de destruição maciça nos arsenais de Saddam Hussein, havia cerca de 1,5 milhões de cristãos no Iraque. Já só eram 500 mil quando, em 2014, o autoproclamado Estado Islâmico ou Daesh iniciou uma campanha genocida. Estima-se agora que totalizem entre 125 mil e 200 mil*.

Dezoito anos depois da intervenção que abriu as portas do inferno aos cristãos do Iraque, o Papa Francisco visita esta terra sagrada, para confortar e dar esperança a uma pequena comunidade – apenas 3% da população – perseguida e em risco de desparecer. É uma viagem que os seus predecessores sonharam, mas nenhum concretizou.

A peregrinação de Francisco, de 5 a 8 de Março, inclui BAGDAD (aqui, além de encontros com dirigentes políticos e membros do corpo diplomático, recebe líderes religiosos, seminaristas e catequistas na Catedral Siro-Católica de Nossa Senhora da Salvação, onde, há dez anos, mais de 50 cristãos foram mortos num massacre cometido pelo Daesh); NAJAF (onde fará uma visita de cortesia ao mais importante líder religioso xiita, o Ayatollah Sistani); NASSIRYA e UR (terra-natal de Abraão, o patriarca das três religiões monoteístas); ERBIL (capital do autónomo Curdistão iraquiano, que acolhe milhares de cristãos escorraçados das suas casas); MOSUL (onde, na Praça da Igreja, Hosh al-Bieaa, recitará uma oração em memória das vítimas da guerra); e QARAQOSH, na planície de Nínive (um dos berços do Cristianismo).

Entre os que depositam esperança nesta missão apostólica está Dunya Mikhail, uma das vozes mais importantes da poesia iraquiana. “A guerra foi sempre uma derrota para a humanidade”, diz à Além-Mar, numa entrevista por e-mail. “O Papa vem ao Iraque porque quer enxugar as nossas lágrimas. Nós, os iraquianos, estamos exaustos, e chegou o tempo de descansarmos.”

“Ele traz consigo uma vela de esperança ao antigo território da Mesopotâmia onde profetas jazem ao lado dos construtores de zigurates. Ele quer sarar as nossas feridas com o seu toque de fraternidade. Precisamos mesmo de um milagre para termos uma vida normal.”

© Safin Hamed | AFP

©Andrew Medichini | Associated Press

Dunya, que pertence à maior denominação cristã do Iraque, a Igreja Católica Caldeia, recorda com pesar os acontecimentos cataclísmicos gerados pela queda de Mosul e a criação do “califado” do Daesh em 2014. “Nunca pensei que, nos nossos tempos modernos, pudéssemos ver mulheres a ser vendidas em mercados. Lemos sobre as sabaya (escravas) nos livros de história, mas, ver isto a acontecer à frente dos nossos olhos, superou a minha imaginação.”

Um dia, quando telefonou a uma prima na sua aldeia, em Nínive, e ela não atendeu a chamada, Dunya ficou inquieta. “Mais tarde, vim a saber que, ao acordar, [os meus familiares] tinham visto a letra ‘N’ (símbolo de Nasara [ou “cristãos]) inscrita nas suas portas e que haviam sido forçados a partir em direcção ao desconhecido.”

“Aquela casa pertencera aos meus avós e foi herdada pela minha tia, que não queria deixar o país, apesar das guerras e das adversidades”, relata Dunya. “O seu filho implorara-lhe que fosse com ele para a Suécia, mas ela dissuadiu-o, ‘Não, lá faz muito frio, meu filho, e se todos partirmos quem irá ficar aqui na terra de meu pai?’”

“A minha tia morreu e a minha prima ficou naquela casa até ao dia em que foi obrigada a sair. Ainda que ela tivesse partido sem nada nas mãos, teve mais sorte do que os que foram aprisionados pelo Estado Islâmico.”

“Também eu me fui embora só com uma mala e, apesar de ter sido duro encaixar a minha vida numa mala, senti mais tarde que foi um luxo o que me aconteceu, comparado com o que viria a suceder ao meu povo, forçado a partir à pressa, carregando crianças, medo e tristeza nos seus ombros.”

Com o “N” pintado a vermelho nas portas, o Daesh dava os cristãos um prazo de 24 horas para abandonarem as casas onde viveram durante mais de 1500 anos ou enfrentarem a morte.

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Dunya Mikhail procurou refúgio nos EUA em 1996. Tradutora e jornalista do antigo diário Baghdad Observer, fora colocada numa “lista de traidores” durante o regime de Saddam Hussein.

“Era problemático dizer a verdade num lugar e num tempo em que queriam que mobilizássemos soldados para a guerra, para terem uma morte sem sentido”, explicou-nos numa anterior entrevista, quando publicou o seu mais famoso livro, O Apicultor de Sinjar.

“Para ser escritora, eu precisava do pensamento livre. A censura foi a principal razão por que deixei o meu país. Alguns dos meus escritos foram considerados ‘subversivos’. Consegui partir e chegar à América porque tinha aqui familiares.”

Para muitos iraquianos, o caminho do exílio continua a ser a única alternativa de sobrevivência. Em consequência do genocídio – reconhecido pela comunidade internacional – centenas de milhares de cristãos, sem lugar seguro para viver, abandonaram a pátria.

Os mais afortunados conseguiram chegar ao Ocidente ou à Austrália, mas a maioria, mais de 200 mil, continua a viver na pobreza ou na miséria na Turquia, no Líbano e na Jordânia, países onde leis discriminatórias os proíbem de procurar emprego e onde o mundo os ignora.

© Vincenzo Pinto | AFP

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Será que os “primeiros cristãos” – a fé chegou à antiga Mesopotâmia no século I d.C., e há provas históricas de que, no século II d.C., já aqui existiam igrejas, escritores e mártires cristãos ** – estão condenados a ser os últimos?

“É uma pergunta legítima”, reconhece Dunya. “Os meus antepassados, os caldeus, viveram originalmente em Ur desde a criação do mundo (não sei exactamente quando é que o mundo foi criado, mas as suas palmeiras poderão dizer-nos isso). Devido a guerras e invasões naquela região tiveram de partir mais para norte, simplesmente porque ali havia montanhas onde se poderiam esconder e procurar refúgio. As grutas e os rochedos nas montanhas eram mais suaves do que os corações humanos.”

Se a emigração “alargou os horizontes” de Dunya, “tal como acontece com os pássaros”, o futuro dos cristãos no Iraque continua, aparentemente, num precipício.

Em Outubro de 2019, muitos deles, os mais jovens em particular, juntaram-se aos milhares de muçulmanos que saíram às ruas exigindo o fim do “sistema político sectário corrupto” que os empurra para o abismo. As suas esperanças foram, porém, desfeitas por blocos poderosos, de xiitas e sunitas, interessados em manter o statu quo.

Dunya Mikhail diz-se “orgulhosa destes protestos pacíficos e do seu slogan, simples e eficaz: ‘Queremos um país’”. E acrescenta: “Os seus pequenos veículos tuk-tuk eram como super-heróis, distribuindo pão e levando os feridos aos hospitais. [Os manifestantes] enfrentaram balas e gás lacrimogéneo. Alguns foram mortos, mas as suas ideias não morrem. As suas palavras e arte em graffiti nas paredes e túneis de Bagdad continuarão a lembrar-nos do sonho de viver em dignidade e liberdade.”

* In: The Disappearing People: The Tragic Fate of Christians in the Middle East, de Stephen M. Rasche.

** In: Christianity in Iraq, de Suha Rassam.

Dunya Mikhail
© Nina Subin | ndbooks.com

Dunya Mikhail nasceu em Bagdad em 1965, e vive em Detroit, no estado americano do Michigan, onde é professora de árabe, na Universidade de Oakland. É autora de várias colectâneas de poesia. The War Works Hard, o seu primeiro livro traduzido para inglês por Elizabeth Winslow, ganhou o Prémio de Tradução PEN. In Her Feminine Sign foi considerado um dos dez melhores livros de poesia pela Biblioteca Pública de Nova Iorque. Diary of a Wave Outside the Sea recebeu o Arab American Book Award. Com O Apicultor de Sinjar, onde narra as histórias dramáticas de mulheres yazidis escravizadas pelo Daesh e do homem que as resgatou, Dunya Mikhail obteve louvor internacional, incluindo o Human Rights Award for Freedom of Writing, atribuído pelas Nações Unidas. Os críticos elogiam a “ironia e simplicidade subversiva” com que aborda os temas da guerra, do exílio e da perda. A sua obra mais recente é também o seu primeiro romance, Washm al-Tair. “Ainda só está publicado em árabe, mas terá uma versão em inglês”, diz-me Dunya. “É sobre uma mulher yazidi que conhece um jornalista por causa de um pássaro. Depois de se casarem, ela é raptada por terroristas e a sua vida muda para sempre. Baseia-se numa história verídica, mas, para contar a verdade, usei mitologia, rituais populares e imaginação. Habitualmente, escrevo poesia, mas senti um apelo interior profundo para compor esta história como um romance.”

“Sem segurança e oportunidades económicas, o êxodo dos cristãos irá continuar”

Stephen Rasche, vice-reitor da Universidade Católica de Erbil, no Curdistão iraquiano, alerta para “o sofrimento sem fim à vista” de um “povo maltratado”. A visita do Papa “terá um significado histórico extraordinário, se tudo correr bem”. Mas o que acontecerá depois das eleições de 10 de Outubro? Num país dilacerado por conflitos interconfessionais, as principais vítimas têm sido sempre as minorias.

© Taha Hussein Ali | Getty Images | The New York Times

Advogado internacional durante 25 anos, o americano Stephen Rasche deixou tudo para trás em 2010, para ajudar a preservar a Igreja Caldeia do Iraque. Na região autónoma do Curdistão, é hoje vice-reitor da Universidade Católica de Erbil (CUE, Catholic University in Erbil) e director do Institute for Ancient and Threatened Christianity (IATC).

Foi o seu amigo Bashar Matti Warda, arcebispo de Erbil, com quem havia trabalhado anteriormente, que o convenceu a ser um dos fundadores da universidade, cujo objectivo é garantir que os alunos cristãos desalojados da cidade de Mosul e da planície de Nínive continuem a ter acesso ao ensino superior. Quando o Estado Islâmico/Daesh iniciou a sua campanha genocida, em 2014, a arquidiocese de Erbil tornou-se no principal refúgio de dezenas de milhares cristãos em fuga.

A CUE foi inaugurada em 2015, beneficiando de uma “bolsa generosa” da Conferência Episcopal Italiana, que “foi crucial” para o seu desenvolvimento, diz-me Rasche numa entrevista por e-mail.

“Somos agora uma universidade acreditada pelos ministérios da educação superior em Erbil e em Bagdad, o que nos permite receber fundos de instituições e governos estrangeiros e, consequentemente, garantir a nossa sustentabilidade e o nosso importante papel na comunidade educativa do Iraque.”

A decisão de deixar os Estados Unidos, para responder ao que considera “uma vocação” teve “consequências financeiras graves”, mas contribuiu para o crescimento da sua fé, anota Rasche, autor do livro The Disappearing People: The Tragic Fate of Christians in the Middle East.

“Estes são, sem dúvida alguma, os anos mais gratificantes da minha vida, até agora. Trabalhar tão longe da minha área, sem qualquer rede de segurança, afectou profundamente o que penso sobre o que a Igreja ainda é e o que poderá ser neste mundo fracturado.”

Vice-reitor com a responsabilidade de gerir as relações internacionais, Rasche ajudou também a estabelecer vários institutos de investigação, um deles dedicado à liberdade religiosa, “porque afecta, em particular, as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo”.

“O nosso testemunho cristão e a nossa experiência no Iraque deram-nos uma posição moral única e a seriedade para, nesta área, falar e educar a nível internacional”, salienta Rasche. Foi com isso em mente que foi criado o Institute for Ancient and Threatened Christianity (IATC).

Com uma delegação a funcionar nos EUA desde o ano passado, actua não só no Médio Oriente, mas também na Nigéria, um país onde, em 2020, o número de cristãos assassinados por muçulmanos extremistas subiu 60%.

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Como é que os cristãos que vivem no Iraque receberam a notícia da visita do Papa Francisco e o que esperam dele?

Os cristãos no Iraque estão, naturalmente, muito felizes. Sobretudo, porque não é apenas a primeira viagem do Papa ao estrangeiro desde o início da pandemia de Covid-19 – é a primeira visita papal de sempre!

É uma viagem de risco?

Podemos dizer que é de alto risco. Porque no Iraque há sempre riscos de segurança, e porque são muito elevadas as expectativas destes cristãos que há tanto tempo sofrem. A visita, com um itinerário muito intenso, é um esforço corajoso do Santo Padre. Se tudo correr bem, terá um significado histórico extraordinário. Todos os cristãos do Iraque rezam por isso.

Os cristãos iraquianos pertencem a uma das igrejas mais antigas e gloriosas do mundo. Para eles, a religião tem sido um símbolo de identidade, mais do que a nacionalidade. Como é que define esta comunidade e a sua fé, no século XXI?

Pode dizer-se que os cristãos que restam no Iraque são um povo missionário, dado que o seu número tem vindo a diminuir imenso nas últimas décadas. Posso dizer que muitos se vêem a si mesmos como um povo sobrevivente com a missão de preservar o genuíno testemunho cristão no Iraque. Depois do flagelo que foi o genocídio cometido pelo Estado Islâmico, os cristãos no Iraque encontraram uma verdadeira solidariedade nos primeiros apóstolos e na história da sua perseguição.

As actuais perseguições e dificuldades económicas contribuíram para que haja mais cristãos na diáspora do que no Iraque. Espalhados pelo mundo, como conservam os seus rituais, línguas e dialectos?

Os cristãos iraquianos na diáspora têm muitas comunidades prósperas na América do Norte, na Europa, e também na Austrália e na Nova Zelândia. Em todas elas há padres e outros religiosos oriundos do Iraque que se esforçam por preservar a fé. Na maioria dos casos, essas igrejas florescem, embora enfrentem, como todos os imigrantes, pressões para manter as tradições e línguas ao longo de gerações.

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No seu livro The Diasappearing People, relata as visitas que fez a várias povoações e igrejas devastadas no Iraque. Constatou, por exemplo, que, depois do Estado Islâmico, muitos cristãos continuam impedidos de regressar às suas casas. Entrevistou cristãos que deixaram a pátria, porque incapazes de proteger as suas famílias. A Covid-19 veio, entretanto, agravar as condições de vida. Como avalia a situação presente?

Os efeitos da Covid-19 sentiram-se por todo o mundo, mas, no caso dos cristãos do Iraque, a pandemia é a última de uma longa e brutal série de acontecimentos: uma guerra [desencadeada pela invasão americana em 2003] seguida de uma guerra civil, seguida de uma violenta perseguição, seguida de mais guerra, seguida de um genocídio, a que se seguiram mais combates e instabilidade civil, e finalmente a pandemia.

Este povo tem sido tão maltratado, que tudo por que anseia é o fim da violência, o regresso de uma segurança básica e do estado de Direito.

Infelizmente, a situação civil e de segurança no Iraque permanece incerta, principalmente porque deverá haver eleições, talvez no Outono [o escrutínio foi adiado de 6 de Junho para 10 de Outubro; o acto eleitoral anterior, em 2018, ficou marcado por acusações de fraude e corrupção]. Como sempre, em áreas de conflito interno, são sempre as minorias que sofrem – no Iraque, são inevitavelmente os cristãos e os yazidis.

Também refere, no seu livro, relações tensas com os curdos (suspeitos de os atraiçoarem) e actos de hostilidade por parte de milícias xiitas pró-iranianas (que fazem a vida dos cristãos um inferno). Como explica estas pressões?

É complexo o relacionamento actual dos cristãos com os curdos. Por um lado, os dirigentes do Governo Regional do Curdistão [chefiado por Masrour Barzani, filho do líder histórico Massoud Barzani] têm sido grandes apoiantes da comunidade cristã no Iraque. Por outro lado, nos escalões mais baixos [da sociedade], ainda existem várias formas de perseguição e discriminação por parte dos curdos contra as minorias, designadamente cristãos e yazidis. Isto não é segredo e é reconhecido pelas autoridades curdas.

Da parte deles (líderes curdos), vai ser preciso um contínuo e forte compromisso, além de um exemplo claro, para garantir a viabilidade a longo prazo dos cristãos no Curdistão. Quanto às milícias pró-iranianas, são uma das maiores ameaças aos cristãos, sobretudo na planície de Nínive.

Apesar de a Igreja ser firme na condenação de todas as milícias, e de o Governo iraquiano ter feito várias promessas e esforços para controlar tais grupos, os milicianos continuam activos. Enquanto permanecerem senhores de facto em Nínive, o futuro não só continuará a ser muito difícil para os cristãos, como se manterá o factor mais importante que impede e dissuade os outros cristãos de ali regressarem.

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O Papa fará uma visita de cortesia ao Ayatollah Sistani, o mais importante dirigente religioso xiita. O que espera deste encontro? Em 2019, jovens cristãos e muçulmanos saíram à rua, exigindo o fim do sectarismo no Iraque, mas os seus protestos pacíficos foram esmagados por forças poderosas. Está condenado este processo de reconciliação, que gerou tanta esperança?

A mão estendida do Santo Padre ao Ayatollah Sistani é consistente com os seus esforços para conseguir um maior entendimento entre as várias religiões.

No contexto do Iraque, há outra realidade: as tensões religiosas causam caos e dor a toda a gente – cristãos e muçulmanos. Rezamos para que o encontro com Sistani possa abrir o caminho ao bem comum. Nos protestos de 2019, parecia real a possibilidade de união de todos os iraquianos. Ela ainda existe nos corações dos jovens. Se há futuro de esperança para o Iraque, está nesses jovens.

No seu livro, critica a invasão ordenada pelo presidente George W. Bush e as “políticas falhadas” adoptadas pelo sucessor, Barak Obama, em relação ao Iraque a à Síria. Donald Trump também frustrou as esperanças que nele depositavam “a grande maioria” dos cristãos iraquianos. Qual a expectativa em relação ao católico Joe Biden?

Os cristãos aqui aguardam um sinal claro de Joe Biden quanto à posição dos Estados Unidos em relação ao Iraque, em geral, e à questão das minorias religiosas, em particular. Qualquer apaziguamento face ao Irão será potencialmente prejudicial aos cristãos, na medida em que só reforçará as milícias apoiadas por Teerão.

No Departamento de Estado americano há muitos especialistas em Médio Oriente que compreendem bem isto, e temos esperança de que eles ajudarão a Administração Biden a trilhar o que é, reconhecidamente, um caminho muito difícil. Os cristãos iraquianos – mais de 80% dos quais são católicos – confiam em que, por ser católico, Biden conduzirá a uma nova atitude quanto ao lugar importante que representa a Igreja no Iraque.

A visita do Santo Padre é uma poderosa declaração de solidariedade que, obviamente, não passará despercebida em Washington.

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São sombrios os números relativos aos cristãos no Iraque: de 1,5 milhões em 2003 para menos de 125 mil, actualmente. Depois de sobreviver quase dois mil anos, esta comunidade poderá desparecer “na próxima década”, alerta o seu livro. Que tipo de ajuda pode ser eficaz para se ir da “Crucificação à Ressurreição”?

Há duas áreas principais que, provavelmente, determinarão a trajectória da população cristã que sobrevive no Iraque: segurança e oportunidade económica. É claro que ambas estão interligadas.

Se o Iraque, com adequada assistência da comunidade internacional, conseguir acabar com a violência constante entre facções no poder e conceder direitos iguais e legítimos a todos os seus cidadãos, incluindo as minorias, abrir-se-ão enormes oportunidades económicas neste país, o qual, objetivamente falando, deveria ser um dos mais ricos do mundo.

Os resultados das próximas eleições nacionais serão um indicador real sobre se isto é possível ou se o Iraque é simplesmente incapaz de acabar com o ciclo de violência e corrupção que o deixou no estado actual.

Na frente económica, há um limite ao que a ajuda internacional pode fazer em termos de criar oportunidades a longo prazo. O lado negativo da criação de uma cultura de dependência é a questão-chave, e vemos isso em muitos lugares do mundo, incluindo no Médio Oriente.

Os cristãos iraquianos estão numa fase em que as parcerias económicas com grupos estrangeiros continuam a ser uma necessidade fundamental a curto prazo, para poderem abrir e desenvolver a sua pequena economia. Estas formas de assistência precisam, todavia, de ser orientadas para criar auto-suficiência e sustentabilidade. Seja como for, não há qualquer dúvida de que, sem melhores oportunidades económicas, o êxodo dos cristãos irá continuar.

Stephen Rasche
© Cortesia de | Courtesy of Stephen Rasche

As igrejas do Ocidente têm-se esquecido das igrejas do Oriente

Um estudioso do Cristianismo no Médio Oriente que escolheu viver entre refugiados na Alemanha, o monge Andreas Knapp louva “a decisão corajosa” do Papa Francisco de visitar o Iraque. Porque é importante salvar uma comunidade que, apesar das perseguições e dos massacres, não renuncia à sua fé.

Cristãos palestinianos, em Jerusalém Leste, sob ocupação israelita
© Ed Kashi | Newsweek

Fascinado pela história, cultura e rituais dos cristãos do Médio Oriente, sobretudo desde que descobriu a existência de comunidades que ainda se exprimem em aramaico, a língua de Jesus, o monge e poeta Andreas Knapp conhece bem o sofrimento dos que foram obrigados a deixar as suas casas em busca de um porto seguro na Europa.

Foi para se dedicar a estes refugiados, a maioria deles muçulmanos, mas também cristãos perseguidos por terroristas da Al-Qaeda e do Estado Islâmico/Daesh, que o Irmão Knapp, de 63 anos, sacrificou um posto seguro de reitor do Seminário de Friburgo e um futuro promissor como teólogo.

Instalou-se no maior projecto de habitação social de Leipzig, na antiga Alemanha de Leste, foi operário numa empresa de embalagens e partilha um apartamento pré-fabricado com três companheiros da sua comunidade dos Pequenos Irmãos de Jesus, inspirada na vida do beato Charles de Foucauld.

A sua missão de apoio a refugiados e a reclusos está bem resumida num dos seus poemas: o nosso bairro/ é o nosso claustro. (…) as oficinas dos nossos mosteiros / são as fábricas / os rostos das pessoas / são os ícones que veneramos / e nos semblantes marcados pelo sofrimento/ vemos o Crucificado.

“Tentamos seguir o exemplo de vida de Jesus de Nazaré, por isso, tal como Ele, procuramos ter um trabalho simples e viver com pessoas que estão à margem na sociedade”, diz-me Knapp, numa entrevista por e-mail. “Deus pode assim ser encontrado entre os que nada significam aos olhos do mundo.”

Cristãos egípcios celebram a Quaresma numa igreja do Cairo
© Mosa’ab Elshamy | TIME

Entre os cristãos que cruzaram o caminho de Knapp estão Yousif e Tara, provenientes de Mosul, a cidade iraquiana onde o Daesh iniciou a sua campanha genocida.

Crentes devotos da Igreja Ortodoxa Síria, a vida deste casal mudou para sempre quando, depois da invasão americana em 2003, chefes religiosos muçulmanos começaram a apelar a uma “guerra santa” contra os “infiéis”.

Obrigados a pagar um imposto especial (jizya) pelo “privilégio” de praticarem, com restrições, a sua religião, as quantias exigidas – e o terror – aumentavam de ano para ano. Apesar disso, Yousif e Tara não planeavam deixar Mosul. Até ao dia em que ele recebeu um telefonema anónimo com a ameaça de que lhe cortariam o braço esquerdo, onde tinha uma cruz tatuada. Mais tarde, receberia um ultimato: “Tens três dias para partir, ou vais para o inferno.”

Não havia alternativa. Yousif e Tara pegaram nos dois filhos e fugiram para Erbil, no Curdistão autónomo iraquiano. Foi aqui que ele tomou a “decisão agonizante” de emigrar para a Alemanha, um país cuja língua desconhecia.

Depois de um longo processo burocrático, assim que lhe concederam asilo, foi possível a Yousif reunir-se legalmente com Tara e os filhos, Amanuel e Shaba. Mosul estava então ocupada pelo Daesh, que forçou os pais, o irmão, todos os familiares – toda a comunidade cristã – a fugir para o Curdistão.

Cristãos sírios, numa celebração religiosa em Damasco
© Bassem Tellawi | AP

Yousif nunca pensou em pegar em armas para se vingar. “A nossa luta faz-se de oração e jejum”, garantiu ele ao irmão Knapp, que enaltece a sua postura: “O que mais me impressiona é a confiança e a esperança destas pessoas que perderam tudo, mas não a sua fé. Esta convicção ajuda-os a não ser amargos, mas sim a olhar em frente.”

“Depois de as suas cidades e aldeias terem sido destruídas, estes cristãos precisam de ajuda concreta para reconstruir as suas igrejas, mas também de infra-estruturas económicas”, recomenda Knapp. “Seria um encorajamento para os cristãos no Iraque se a planície de Nínive fosse reconhecida como herança cultural porque a língua aramaica ainda ali é falada.”

A visita do Papa Francisco ao Iraque é “uma decisão corajosa” que deixou “feliz e grato” o autor do livro The Last Christians: Stories of Persecution, Flight, and Resilience in the Middle East, esperançoso de que a posição dos cristãos na Igreja e na sociedade iraquianas seja reforçada.

“Com quase 2000 mil anos de história, os cristãos iraquianos têm sido muitas vezes negligenciados pelas igrejas do Ocidente”, critica Knapp.

“Entristece-me o facto de os cristãos na Alemanha e noutros países europeus demonstrarem tão pouco interesse nos seus irmãos do Oriente. Gostava que fossem mais atentos, que ouvissem as suas histórias, que aprendessem com eles e assim renovassem o Cristianismo original.” Ao visitar o Iraque, o Papa “dá um sinal importante de que eles não foram esquecidos.”

O monge alemão exulta com o facto de as igrejas Caldeia e Síria Ortodoxa, “com raízes no início do Cristianismo”, continuarem a celebrar a sua liturgia em aramaico.

“Elas preservaram um enorme tesouro em termos de filosofia, teologia, espiritualidade e liturgia. Vivem em boa cooperação ecuménica. Não conhecem guerras denominacionais, como aconteceu no Ocidente, onde cristãos lutaram violentamente uns contra os outros. A solidariedade com as igrejas na Síria, no Líbano e em Israel-Palestina é muito forte.”

Até há poucos anos, na planície de Nínive, ainda havia uma considerável população cristã que se exprimia em aramaico, no dia a dia e não apenas nos rituais religiosos. Muitos cristãos desta região, devastada pelo Daesh e agora ocupada por milícias pró-iranianas, fugiram para o estrangeiro. Knapp acredita que “conscientes das suas tradições preciosas”, a diáspora “tenta manter vivas a sua língua e cultura”.

Um cristão libanês recolhe ícones destruídos numa igreja em Beirute, depois de uma violenta explosão em 5 de Agosto de 2020
© CBN – The Christian Perspective

“A primeira Igreja floresceu no Médio Oriente, nos territórios actuais da Síria, Jordânia, Turquia, Líbano, Israel-Palestina, Egipto, etc.”, especifica Knapp. “Foi aqui que prosperaram o monasticismo e uma grande tradição de espiritualidade e teologia. Com a conquista islâmica, os cristãos tornaram-se cidadãos de segunda classe.”

“No Corão há duas avaliações contraditórias do Cristianismo: uma benevolente e outra agressiva. Em resultado disso, os cristãos nos países de maioria muçulmana têm sido tratados ora com tolerância ora discriminados ou perseguidos de forma sangrenta. Consequentemente, o número de cristãos tem vindo a diminuir cada vez mais e hoje é uma minoria. Em algumas áreas eles já nem sequer existem.”

Do itinerário do Papa, Knapp considera “altamente simbólica” a visita de cortesia que ele fará ao Ayatollah Sistani, o principal líder religioso xiita. “Porque a atitude das autoridades muçulmanas em relação aos cristãos tem sido muito ambivalente”.

E dá um exemplo: “Desde há séculos que era costume os cristãos congratularem os muçulmanos na Festa do Sacrifício [Eid al-Adha] e os muçulmanos felicitarem os cristãos no Dia de Natal. Em 2019, este gesto foi proibido por uma fatwa [édito religioso] do Grande Mufti do Iraque, Abdul-Mahdi al-Sumaidaie (sunita). Em 2020, o Natal ganhou estatuto de feriado nacional, o que é um importante símbolo de respeito, mas a realidade é que os cristãos ainda são oprimidos, devido aos conflitos entre sunitas e xiitas.”

“No Iraque, porque não há uma consciência de cidadania, as pessoas não têm os mesmos direitos independentemente da sua religião”, lamenta Knapp. “Não podemos, todavia, perder a esperança de que, através de esforços conjuntos com vista a um sistema político mais justo, esta consciência se desenvolva e faça desaparecer a discriminação contra as minorias religiosas.”

© Andreas Knapp
© Cortesia de | Courtesy of Andreas Knapp

Quem são os cristãos do Iraque?

O Cristianismo terá abençoado a Mesopotâmia no século I d.C., quando entrou em Edessa, capital de Osrhoena, território semi-independente, habitado principalmente por arameus, ponto de encontro de diversas culturas, situado no cruzamento entre o Império Romano/Bizâncio, a ocidente, e o Império Persa/Parto, a oriente.

© AFP | Vatican News

Reza uma lenda que um dos reis de Osrhoena, ao saber que Jesus estava a ser perseguido, Lhe escreveu uma carta oferecendo protecção. Jesus declinou o convite, mas prometeu enviar o seu apóstolo Tadeu para curar a enfermidade do soberano e iniciar um processo de evangelização.

Lendas à parte, observa Suha Rassam, autora de Christianity in Iraq, é muito provável que tenham sido judeus discípulos de Jesus de Nazaré, o Messias, que levaram o Cristianismo para Edessa (assim baptizada pelo grego Seleuco, mas igualmente conhecida em aramaico por Urhay e ainda hoje existente na Turquia sob o nome de Urfa).

Na segunda metade do século, o monarca Abgar VIII, o Grande, também se converteu, e o seu reino foi o primeiro a adoptar a nova religião. Esta rapidamente se propagou, “graças à relativa liberdade dos habitantes e a uma atmosfera de multiculturalismo”.

O aramaico, a língua dos judeus e dos apóstolos, ajudou a disseminar a fé. E o dialecto aramaico de Edessa, o siríaco, tornou-se dominante nos círculos cristãos.

“Era tão forte a ligação entre o aramaico e o Cristianismo, que, a certa altura, siríaco se tornou sinónimo de cristão”, observa Suha Rassam. Isto também teve um significado prático, pois “permitiu aos cristãos distinguirem-se dos arameus não-cristãos e pagãos”.

Os cristãos iraquianos viveram todas as convulsões teológicas dos vários conselhos ecuménicos nos primeiros quatro séculos, divididos quanto à natureza humana e divina de Jesus, e não foram poupados a perseguições e massacres, mas conseguiram resistir aos muitos infortúnios da sua história.

© Ivor Prickett | The New York Times

No século XXI, as igrejas do Iraque podem classificar-se do seguinte modo:

Igreja do Oriente

– Antiga Igreja do Oriente

– Igreja Assíria do Oriente

Igrejas Ortodoxas Orientais

– Igreja Ortodoxa Síria

– Igreja Ortodoxa Arménia

– Igreja Ortodoxa Grega ou al-Rum al-Orthodox

Igrejas Católicas

– Igreja Caldeia

– Igreja Católica Síria

– Igreja Católica Arménia

– Igreja Latina

– Igreja Católica Grega ou al-Rum al-Cathulik

Igrejas Protestantes

– Igreja Evangélica Nacional

– Igreja Evangélica Assíria

– Igreja Evangélica Arménia

– Testemunhas de Jeová

– Adventistas do Sétimo Dia

– Outras

Igreja Anglicana

Igreja Ortodoxa Grega

Igreja Copta

© Jako Klamer | Ajuda à Igreja Que Sofre (AIS)

Os católicos caldeus (80%), são descendentes dos primeiros habitantes da Mesopotâmia, ainda se exprimem em aramaico. O chefe da sua Igreja, que tem sede em Bagdad, é o cardeal Louis Rafael Sako, com o título oficial de Patriarca da Babilónia e dos Caldeus. A maior congregação de caldeus (cerca de 200 mil) não vive no Iraque, mas na diáspora – serão mais de 300 mil, sobretudo, em Detroit/ Michigan, e em San Diego/Califórnia, EUA.

Os siríacos (10%) incluem os católicos siríacos (8%) e os ortodoxos siríacos (2%). As suas origens também remontam à Mesopotâmia. Exprimem-se em siríaco, o dialecto aramaico de Edessa. As principais comunidades habitavam a planície de Nínive. O patriarca dos católicos, residente no Líbano, é Joseph III Yonan; o dos ortodoxos, que vive na Síria, é o patriarca Ignatius Aphrem II. É na região de Nova Iorque que se concentra a maior diáspora siríaca.

Os assírios (5%) têm raízes na Mesopotâmia, mas são hoje sobretudo originários do Irão e da Turquia, de onde fugiram para o Iraque (mas também para a Síria e o Líbano) após o genocídio cometido pelos otomanos em 1915. Exprimem-se em assírio-aramaico. Têm duas igrejas principais, a Igreja Assíria do Oriente, em Erbil, na região autónoma do Curdistão; e a Antiga Igreja do Oriente, em Bagdad. As maiores comunidades de assírios vivem em Chicago (80 mil) e em Los Angeles/Califórnia.

Os arménios (3%) e os cristãos árabes (2%) viviam nas grandes cidades de Mosul, Bagdad e Bassorá. Provêm da Anatólia (na actual Turquia), mas há várias centenas de anos que vivem no Iraque, onde se refugiaram do genocídio perpetrado pelos otomanos após a Primeira Guerra Mundial. Exprimem-se na língua arménia e a maioria pertence à Igreja Ortodoxa Arménia. Uma minoria é fiel à Igreja Católica Arménia. Em 2014, o Estado Islâmico/Daesh expulsou os cristãos arménios e árabes de Mosul (assim como os caldeus e os siríacos). Actualmente, dos 40 mil-45 mil arménios que habitavam o Iraque em 2003, só restarão, segundo estatísticas da comunidade, cerca de 4000.

Fontes: Christianity in Iraq, de Suha Rassam; Iraqi Christian Foundation

© Yara Nardi | Reuters | rappler.com

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Março de 2021 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2021 edition

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