Kumzar: Uma lenda portuguesa no Golfo Pérsico

Entre 1515 e 1622, os habitantes desta aldeia no Sultanato de Omã mantiveram uma “relação secreta” com os ocupantes militares enviados pelos reis de Lisboa para controlar o estreito de Ormuz. Hoje, na remota península de Musandam (Moçandão), o português ainda faz parte de uma língua que mistura 24 idiomas, e os habitantes louros de olhos azuis são chamados de “filhos dos portugueses”. De Afonso de Albuquerque pouco se sabe. Os “conquistadores” são agora Cristiano Ronaldo, Luís Figo e José Mourinho. (Ler mais | Read more…)

© David Clifford

Quando ouve falar os kumzaris, Abdullah al-Shesi não resiste a provocá-los: “Que língua é essa? Parece português!”

Não se engana muito este gerente hoteleiro de Khasab, capital da península de Moçandão/Mussandam. É que os habitantes da mais remota aldeia no extremo norte do Sultanato de Omã, junto ao eEstreito de Ormuz, misturam 24 idiomas na sua língua não escrita. E um deles é o dos invasores que chegaram de Lisboa em 1515 e aqui permaneceram até à derrota em 1622. O seu legado tornou-se uma lenda no Golfo Pérsico.

Kumzar, a aldeia omanita onde o português convive com o árabe, o urdu, o farsi, o baluchi, o hindi, o grego, o italiano, o francês, o inglês e outras línguas dos que por aqui passaram, é um pedaço do paraíso.

Se Deus existe, esta é a sua morada. Para lá chegar é preciso enfrentar um mar enfurecido que parece querer guardar só para si a beleza de esculturais fiordes que emergem da água e se dissolvem no céu.

A viagem corta a respiração, deslumbrada pela paisagem e atormentada pela força das ondas que, a qualquer momento, podem causar um naufrágio.

É quinta-feira de manhã, o Sol queima aos 44-46 graus. Mala’Allah Ali Hassan Kumzari, “mais ou menos 27 anos” de vida, assenta o corpo baixo e franzino nos tornozelos, e agarra-se ao leme de um pequeno bote azul.

Pescador até se empregar no florescente sector turístico em Khasab, ele é destemido na forma como domina as vagas que ameaçam virar a embarcação.

© David Clifford

Durante mais de duas horas (ida e volta), Mala’Allah Ali Hassan Kumzari, “mais ou menos 27 anos de idade” , enfrenta o mar, num bailado suave, reclinando-se para a esquerda e direita, ou num combate aguerrido, de pé a olhar o “adversário”.

O barco mantém-se estável mesmo quando o marinheiro abandona o posto para reposicionar uma caixa de alimentos e um bidão de combustível que servirão de contrapeso à crispação das ondas.

A caminho da sua terra onde os cerca de 4000 habitantes têm o apelido Kumzari, Mala’Allah só cede uns minutos de ansiedade. Retira o telemóvel do bolso do fato de treino e coloca-o no palanque onde está o leme. O ecrã mostra o rosto belo de uma rapariga de olhos azuis. “É a minha namorada”, diz, tímido e orgulhoso.

“Quando tenho saudades olho para ela e isso acalma-me”. Ela vive no Dubai onde ele vai às vezes, nas folgas. “Gasto todo o meu salário em chamadas. Falo com ela todas as noites. Não sei se ela esperará por mim. Outras não esperaram. Nenhuma mulher compreende a necessidade que eu tenho do mar”. Este “vício” é partilhado pela maioria dos kumzaris que exibem rugas de sol e sal como troféus ambulantes.

À medida que se aproxima da aldeia que o viu nascer, Mala’Allah torna-se mais confiante. O que está prestes a revelar aos visitantes é como que um paradoxo da natureza. O lugar inspira paz mas aqui se travaram guerras para controlar Ormuz, a cidade-estreito que “se o mundo fosse um anel seria uma pedra preciosa” nela incrustada.

Kumzar forma uma espécie de semi-círculo, encravada em montanhas com oceanos aos pés. Está dividida em três partes separadas por rochas. A primeira visão, ao centro, é a de duas singelas mesquitas, cujas traseiras resguardam de olhares predadores casas escondidas em becos estreitos.

À esquerda está a central de geradores eléctricos (que possui dois dos três únicos carros do povoado, o outro é para recolha do lixo), um depósito de abastecimento de água, um centro de saúde e uma escola – “com classes mistas de meninos e meninas”, especifica Mala’Allah.

À direita estão as oficinas dos pescadores, com barcos e redes, um espaço exclusivamente masculino onde se prepara a faina, remenda equipamento e festeja a abundância dos cardumes.

No topo do maior rochedo foi montado um “trono” onde, rotativamente, um deles vigia o movimento das águas e dá o sinal de aviso para que os barcos de súbito se façam ao mar, em busca de sardinhas, atum e outros peixes.

© David Clifford

Quando avistam os estranhos que chegam, a primeira reacção das mulheres é refugiarem-se nas suas habitações, modestas mas com ar condicionado e antenas parabólicas, entrelaçadas como se fossem anexos de um só edifício familiar.

As boas-vindas ficam a cargo de garotos sorridentes que teimam em ser fotografados, e de alguns homens que aceitam partilhar experiências e tradições.

O mais velho morreu recentemente, estima-se que aos 120 anos. Além dos gritinhos infantis, o silêncio só é quebrado pelo balir de dezenas de cabras (o seu leite e queijo são alimentação e comércio) que, insolitamente, pastam sobre um infinito de pedras nuas de vegetação – aqui não há ruas nem estradas.

Hospitaleiro, Mala’Allah conduz-nos à residência da sua avó Aisha, viúva de idade desconhecida, rosto jovial com um anel no nariz que depois tapará com uma birka (ou burka), a máscara indicadora de que já foi casada. É ela que cozinha o almoço de arroz, frango e tâmaras para ser comido, de pernas cruzadas em soalho forrado de plástico, pelo anfitrião e seus dois convidados.

A refeição é saboreada no amplo e ventilado quarto de Mala’Allah, onde sobressai uma foto do sultão Qaboos bin Said fixada quase ao lado de outra de uma bem maquilhada artista dos Emirados. Nenhuma das mulheres e raparigas da casa entra neste aposento, porque está presente um homem estrangeiro, a quem não dirigem olhar nem palavra.

Em Kumzar os poucos habitantes que se deixaram ver nunca ouviram falar de Afonso de Albuquerque, o capitão-mor que em Março de 1515 (nove meses antes de morrer) estabeleceu o domínio português em Ormuz que se prolongaria até 1622.

Ao contrário de Mascate, a rebelde capital de Omã, onde muitos ainda recordam como o “fundador do império lusitano” mandou cortar os “narizes e orelhas” dos que recusaram submeter-se, os kumzaris parecem só guardar na memória os “conquistadores” do presente.

© David Clifford

Ao tomarem conhecimento da nacionalidade dos jornalistas, alguns jovens e idosos clamam em uníssono: Cristiano Ronaldo, Figo, José Mourinho. Um rapazinho ostenta até a camisola da selecção portuguesa, prova de que o futebol não tem fronteiras e de que se tornou uma obsessão nacional, com estádios profissionais ou campos pelados por todo o sultanato.

Ronaldo é a sensação maior. Todos sabem onde joga [na altura era no Manchester] e que “é excelente”. De Figo retiveram os “incríveis golos” no Mundial. De Mourinho, chegaram ecos do seu talento no Chelsea.

“Era bom que viesse treinar equipas de cá”, observou Ali Mohammed Hassan Kumzari, tirando o boné vermelho a combinar com a T-shirt de um clube local. “Ganhávamos tudo.”

Mohammed Ba, natural de Khasab, guia turístico desde que se extinguiu o sonho de ser piloto de aviões, sabe mais sobre Kumzar do que Mala’Allah, o filho da terra.

“O pudor em falar dos portugueses talvez se deva ao facto de quando estes aqui estiveram terem mantido uma relação secreta com os kumzaris”, justifica, invocando um “livro proibido” que ele guardará em casa. “Eles [portugueses] iam à aldeia buscar água fresca, leite e outras provisões para os soldados nas guarnições, mas tudo era feito no maior segredo. Davam-se muito bem com as gentes locais”.

Ba calcula que os Kumzaris temessem ser maltratados como “colaboracionistas”, e adianta: “Quando os ingleses aqui chegaram com os persas ficaram espantados por os residentes da aldeia falarem uma língua desconhecida, quase um código secreto. Era assim que eles comunicavam com os portugueses.”

Há também um traço invulgar numa região onde a maioria das pessoas tem a pele escura: alguns habitantes de Kumzar são louros e de olhos azuis. Ba admite que são chamados de “filhos dos portugueses”. A razão desconhece.

O arabista António Dias Farinha, numa entrevista que me concedeu em 1994, já fazia referência aos “membros da tribo de Sihuh, acantonada na zona montanhosa entre o emirado de Sharjah e o cabo Mussandam (ou Moçandão), que afirmam a sua origem portuguesa com resoluta pertinácia”.

A realidade, adiantava o professor, “pode filiar-se na lembrança de alguns portugueses, em maior ou menor número, que por alguma revolta, pela conversão ao Islão ou por interesse comercial, ali permaneceram em busca de riqueza ou de segurança”.

Mala’Allah e Ali Mohammed Kumzari, colegas de trabalho na Khasab Travel & Tours, já quase não vivem na aldeia natal. Aliás, a povoação, como outras de Moçandão, é apenas residência de Verão para (todos) os seus habitantes.

No Inverno, as famílias mudam-se para a capital da península, com barcos e animais – deixam só as raposas que traiçoeiramente lhes comem as galinhas.

© David Clifford

Em Khasab, os kumzaris adoptam os usos e costumes dos Emirados Árabes Unidos, geograficamente menos distantes que Mascate – a túnica dos homens (dishdasha) perde o cordão perfumado no pescoço e passa a ter botões de cima a baixo; o turbante deixa de ser colorido e torna-se branco, com pregas mais soltas e menos enroladas.

O modo de falar é ritmado mas lento; a música é menos acústica; a deriva consumista é mais forte que o apelo religioso. Só o patriotismo não é abalado.

“Gosto de me divertir no Dubai e em Sharjah, mas quando chego lá sinto que só poderia ser omanita e tenho de voltar”, afirma Mohammad Ba, vestido como um príncipe.

O árabe é a principal língua de Moçandão, mas a segunda é o kumzari [aparentemente em extinção], que ainda inclui palavras portuguesas como “bandeira”, “madeira” e outras. Talvez algumas tenham adquirido o significado contrário do original, como a expressão dor ôban (porta fechada) que vem do inglês door open (porta aberta).

Num exercício linguístico, Mala’Allah vai desfiando vocábulos na esperança de identificarmos semelhanças: nau é não; goste é carne; au é água, guerre é pote de água…

Se há ou não uma ligação etimológica só os especialistas saberão dizer. Por enquanto, a única certeza é que, em Kumzar, existe um ex-libris, a que chamam de “Poço dos Portuguesi”. Mala’Allah não nos levou lá.

Para ele, era mais importante mostrar o enorme reservatório que a marinha omanita enche duas vezes por semana com navios-cisterna, oferecendo à população água potável, gratuita, que só há poucos anos jorra de torneiras.

Quanto à língua, o homem cujo nome significa, segundo ele, “servo de Deus”, faz questão de dizer que o árabe, ensinado por professores egípcios, é o principal veículo de comunicação com o resto do país. O Kumzari não passa de uma língua oral. “Se alguém a escrevesse”, brinca, “ninguém a saberia ler – é uma grande confusão!”

As mulheres de Kumzar vistas por Razan Alzayani

© razanalzayani.com

© razanalzayani.com

© azanalzayani.com

© razanalzayani.com

© razanalzayani.com

As fotografias aqui partilhadas podem ser vistas aqui.

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 22 de Maio de 2005 | This article (now revised and updated) was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on May 22, 2005

Golda Meir dormia com o inimigo?

A pasionaria do sionismo teve um amante palestiniano, banqueiro que deixou mulher e filhos em Beirute para viver um amor impossível. O romance é verídico, garante o autor, o “judeu e árabe” Sélim Nassib. (Ler mais | Read more…)

© Moment Magazine

Em Março de 1969, quando Golda Meir se tornou primeira-ministra de Israel, uma das suas primeiras declarações, ao Sunday Times, foi: “O que chamam de povo palestiniano não existe.”

A frase ficou na História e, por isso, é com algum cepticismo (mas grande prazer) que se lê a história de amor entre a pasionaria do sionismo e o banqueiro Albert Pharaon – Um amante na Palestina  (Ed. Teorema, 2005, pp. 2008) – escrita por  Sélim Nassib.

Nascido em Beirute em 1946, Nassib define-se como “judeu e árabe”, conhecedor da “visão subjectiva” dos dois povos.

Esse conhecimento faz com que, no seu livro, os protagonistas lhe mereçam igual respeito e ele evite tomar partido.

O antigo repórter do diário Libération, que vive em Paris desde 1969 e, em 1990, abandonou o jornalismo para se tornar escritor a tempo inteiro, garante a veracidade do romance de Golda e Albert.

No site da sua editora francesa, revela que teve conhecimento do affair através de um “velho amigo” Fouad, neto de Albert. De início, a relação pareceu-lhe “inverosímil”, confessou, e decidiu investigar.

“Parti para Israel onde os dois filhos de Golda Meir me disseram desconhecer completamente este episódio da vida da sua mãe”, conta Nassib.

“No Egipto, encontrei finalmente a sobrinha preferida de Albert Pharaon, sua única confidente. Ele visitava-a sempre que passava pelo Cairo e ele falava-lhe de Golda porque não podia falar dela a ninguém.”

“O resto da família preferia nada saber. Semana após semana, mês após mês, esta sobrinha seguiu a crónica desta história de amor impossível, os seus pormenores e suas repercussões.”

© Bar Tal Shalom

A sobrinha é Nina, também personagem da obra de Nassib, jovem obrigada a casar, para desgosto do tio, com um milionário egípcio, e assim salvar a família da falência.

A história de Um amante na Palestina começa em 1923 no Kibbutz Merhavia, onde Golda escolheu viver depois de ter deixado Milwaukee, a América do exílio, e Kiev, a Ucrânia natal.

Em 1929, quando se conheceram, Albert tinha 35 anos e Golda 29. Golda já era casada com Morris Myerson, o que não a impediu de ter “amantes judeus”, segundo Nassib. Foi aliás, a semelhança física com um defunto namorado judeu, Noam Pinski, que aproximou Golda de Albert.

O primeiro rendez-vous ocorreu numa festa na casa do alto-comissário britânico em Jerusalém. O momento oferece ao autor a oportunidade de começar a fazer desfilar as figuras centrais do que se tornaria o principal conflito do Médio Oriente: David Ben Gurion ou Hajj Amin al-Husseini; Ze’ev Jabotinski ou Ezzedin al-Qassem.

Oportunidade, também, para conhecermos melhor os “pecados” de governados e governantes. Por exemplo, os de Jacques Krayam, pai de Nina, que “perdeu ao jogo as 37 aldeias que possuía na Palestina e todas as terras que delas dependem [mas que] nunca poderia realizar e delapidar tantos fundos se os judeus não pagassem a pronto e a preços altos”.

Os dos mandatários britânicos que “compraram” os dois principais clãs árabes, os Husseini e os Nashashibi, para controlarem o “poder” e a “oposição” na sociedade palestiniana. Albert e Golda são colocados por Nassib acima desta mesquinhez, fazendo ressaltar neles um amor proibido e inconciliáveis convicções.

Diz Khawâja (senhor) Albert: “Ninguém pode acreditar a sério que vão fazer nascer um Estado judaico na Palestina. Mas a vossa ficção desempenhará um papel que nem podem imaginar. Vão-nos atirar para a modernidade, como a lavagantes para água a ferver.”

“Sem querer, vão despertar – e talvez fazer explodir – a sociedade tradicional, absolutamente atabafante, a que pertenço. (…)”

“Por que diabo é que a Grã-Bretanha tinha necessidade de prometer aos judeus um ‘lar nacional’ num país árabe? (…) Os judeus nem sequer representam dez por cento dos habitantes da Palestina. Os britânicos vão provocar o rancor duma nação muito numerosa em proveito duma hipotética nação que há-de nascer.”

Diz Golda: “Os árabes cortejam os britânicos, mas isso não lhes serve de nada. Estão perdidos. Não sabem em que situação se encontram nem o que devem fazer. Os ingleses sorriem-nos, mas até a maneira como gostam de nós é anti-semita. (…) Nós [judeus] viemos aqui para não depender de mais ninguém. Não há outros, a não ser nós!”

© aljazeera.com

Não podendo haver “outros”, a paixão de Golda e Albert tinha de ser clandestina. Só um encontro foi público, em Chipre, onde “passeiam na aldeia agarrados pela cintura”.

De regresso à “casa cor-de-rosa”, em Haifa, onde se instalou desde que abandonara a mulher e filhos em Beirute, em 1928, ele descobre a razão da felicidade dela: os ingleses tinham anulado o Livro Branco que limitava a imigração de judeus para a Palestina.

Não discutiram o assunto, porque haviam previamente combinado não levar a política para a cama. Quando o fizeram a discussão azedou. Em 1929, fora cometido um massacre de 67 judeus em Hebron.

Albert testemunhou mas recusava classificar o sucedido de pogrom, como Golda lhe gritava aos ouvidos: “Sessenta e sete! Sessenta e sete!… Como te atreves a contá-los? E, na tua opinião, a partir de que número é um pogrom? (…)”

“Todos os mortos foram enterrados numa vala comum, todos os sobreviventes foram evacuados de urgência, não há um só judeu nesta cidade, onde estavam enraizados há oitocentos anos. Que nome dás tu a isso?”

Albert defendeu-se: “Havia árabes deitados na rua, assassinados por terem querido impedir os amotinados de atacar os judeus. (…) Tu não conheces a sociedade palestiniana. É pobre, com três quartos de analfabetos. Não compreende nada do que lhe acontece. As suas terras são ocupadas e os camponeses transformados em fantasmas assombram as ruas de Haifa e doutros sítios. (…)”

“Durante dez anos, os palestinianos confiaram nos seus dirigentes, sem perceber que eram impotentes ou cúmplices.”

“E quando o perceberam, alguns enlouqueceram e reagiram selvaticamente a essa violência inalcançável que os tinha escolhido por alvo. É um horror. Mas vocês estão nesta terra, no meio desta gente. Não têm alternativa. São obrigados a viver connosco.”

© Wina – Das jüdische Stadtmagazin

Antes dos últimos encontros, em Haifa, em 1937, quando Golda o vai avisar que “isto se pode tornar muito perigoso”, depois de a ONU ter decidido dividir a Palestina em dois Estados, um árabe e um judaico, e em 1948 (não se viam há 11 anos), quando a cidade “acaba de cair” e os palestinianos têm de decidir se ficam ou fogem, Albert faz entrar na sua vida uma outra mulher: Ada.

Judia como Golda, mas não sionista, Ada era casada com Emil Stein. Ele construía cenários teatrais em Munique. Ela era professora de dança.

Formavam um casal que deixou a Alemanha para enfrentar um dilema: “Lá, censuravam-nos por sermos judeus, aqui [em Israel] é-se obrigado a sê-lo.

Não existe nenhuma solução. Ora, tem de haver alguma, forçosamente.” A solução favorita, mas irrealizável, era a de um Estado binacional. Ada partiu. Albert ficou.

Duas frases que Nassib usa para ilustrar “a ligação impossível” de Golda e Albert servem na perfeição para caracterizar a relação actual entre israelitas e palestinianos: “A atracção que sentem um pelo outro é como que doentia.”

“Semana após semana, estreitam-se e repelem-se num mesmo movimento, magoados, arrebatados, recomeçando outra vez. (….) É uma guerra de morte entre dois corpos, uma guerra amarga, sem misericórdia, onde nada em qualquer momento os pode saciar.”

Israel Sun | Simionski | Landov

“Ela tinha uma vida sexual muito activa”

“Toda a gente sabe em Israel que Golda Meir tinha muitos namorados judeus”, diz Sélim Nassib, o autor de Um amante na Palestina, numa entrevista telefónica a partir de Paris, onde reside. “Ela tinha uma vida sexual muito activa, envolveu-se com vários líderes sionistas e dessas relações foi buscar muito do seu imenso poder”.

Em Israel, também se diz que ela “dormiu umas duas ou três noites” com o rei Abdullah I da Transjordânia, mas todos negam o romance com o palestiniano Albert Pharaon, refere Nassib.

A veracidade do affair é, porém, confirmada pelo escritor, que diz ter feito “quatro anos de investigação histórica” e demorado um ano a completar a obra que inicialmente tinha 600 páginas.

“Eu conheci Fouad, o neto de Albert”, explica Nassib. “Ele vivia em Beirute e contou-me várias vezes a história do amor do seu avô por Golda. Foi ele que me deu o contacto de Nina, a sobrinha favorita de Albert, uma velha e simpática senhora com quem fui falar ao Cairo.”

“Ela confirmou tudo. Depois fui a Israel perguntar à filha e ao filho de Golda se conheciam o caso. Negaram tudo. Também o resto da família de Albert queria que isto permanecesse um segredo”.

Com os relatos de Fouad e Nina, Nassib decidiu revelar o que aprendeu. “Descobri muito sobre o período antes de 1948 [criação de Israel]”, disse.

“Só a parte da Declaração Balfour, os detalhes de como é que um pequeno grupo de judeus impôs ao mundo a sua pátria, ocupava 40 páginas no primeiro rascunho. Mas eu não queria um documentário, e então limitei-me a escrever um romance, mistura de realidade e ficção.”

Nassib orgulha-se de ter retratado Golda e Albert “sem uma visão distorcida”, sem os julgar. “Eu queria que os árabes dissessem ‘isto é que eu sinto’ e que os judeus dissessem ‘isto é o que eu sinto’.”

“E por eu ser judeu-árabe [filho de uma família hebraica nascido no Líbano], creio que sei exactamente o que eles sentem. Eu não pertenço a nenhuma comunidade de sangue, não tomo o partido de ninguém, mas conheço a visão subjectiva dos dois povos da região.”

Na descrição da Palestina e do Líbano antes de Israel, Nassib constata que “não havia simetrias entre judeus e árabes – os primeiros eram determinados, os segundos estavam adormecidos”.

A falecida primeira-ministra de Israel é retratada como uma mulher atraente – o autor inspirou-se nas fotografias do livro de Ralph G. Martin, Golda, The Romantic Years.

“Foi mais difícil compor a personagem dela, por ser muito conhecida, do que de Albert, que me deu mais liberdade de criação”, confessa. “Ele era um aristocrata, que gostava de cavalos e detestava a família.”

No livro e nesta entrevista percebe-se que Nassib teria gostado que o amor da israelita e do palestiniano tivesse resultado. Não recrimina um nem outro, mas inventou “uma história” para se vingar da decepção que a sua protagonista lhe causou.

“Golda era linda mas a partir do momento em que disse ‘o povo palestiniano não existe’, nasceu-lhe um bigode e tornou-se feia”, ironizou o ex-repórter do Libération que abandonou o jornalismo em 1990 para se dedicar exclusivamente à literatura.

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 14 de Maio de 2005 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on May 14, 2005

Omã: “Preferimos falar em progresso do que em reformas”

Para Sayyid Badr Al Busaid, membro da família real do sultanato, a democracia ocidental em que “a maioria tem a última palavra” não é adequada ao mundo árabe. “Aqui preferimos o consenso, para acomodar todas as opiniões”. Quanto aos israelitas e palestinianos, deixa um conselho: “Pensar mais no futuro e menos no passado.” (Ler mais | Read more…)

“Em Omã, beneficiamos de uma grande abertura e boas relações com os nossos vizinhos e o resto do mundo. A nossa política é de pragmatismo e franqueza em relação aos outros”, diz Sayyid Badr bin Hamad bin Hamood Al Busaid
© British Vogue

Sayyid Badr bin Hamad bin Hamood Al Busaid é membro da família real de Omã (sayyid é um título de nobreza) e o “número três” da diplomacia de Omã, com o cargo de subsecretário.

Numa singela sala do ministério onde, à entrada, um gigante e luminoso globo terrestre acolhe os visitantes, “sua alteza” aparece, deslumbrante, numa dishdasha branca (a tradicional túnica omanita), um khanjar (adaga) de prata à cintura, a combinar com o castanho das sandálias e do mussar (turbante) de padrão exclusivo.

A biografia oficial, que não revela a sua idade nem o parentesco com o sultão Qaboos bin Said, refere que Sayyid Badr nasceu em Mascate e se formou em Ciência Política e Economia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Precisa ainda, a título de curiosidade, que ele gosta de música e desporto, sendo o ténis a sua paixão.

A carreira política iniciou-a em 1989, como primeiro secretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com a responsabilidade de “desenvolver um Gabinete de Análise Política”.

Em 1990, foi promovido a conselheiro. Cinco anos depois, um decreto real nomeou-o embaixador. Em 2000, ascendeu ao cargo que agora ocupa, representando o país em várias iniciativas regionais e internacionais.

Foi um dos principais dinamizadores, e permanece presidente do conselho executivo, do Centro de Investigação para a Dessalinização do Médio Oriente, instituição criada no âmbito das negociações de paz multilaterais com Israel.

No final da entrevista, sem mais pormenores, diz-nos que, em Londres, alguns membros da sua família têm empregados portugueses.

Como define a actual situação em Omã, face aos acontecimentos que têm marcado a região desde os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA às eleições no Iraque este ano [de 2005]?

Gostamos sempre de fazer uma leitura positiva dos acontecimentos, porque só assim podemos ultrapassar muito do que é negativo. Não devemos ignorar o facto, fundamental e estratégico, de que é do interesse de todos os países desta parte do mundo garantir a segurança e a estabilidade da região, a longo prazo.

Porque não é um simples interesse regional mas global. Aqui, em Omã, beneficiamos de uma grande abertura e boas relações com os nossos vizinhos e o resto do mundo. A nossa política é de pragmatismo e franqueza em relação aos outros.

Alguns analistas dizem que depois do desenvolvimento a prioridade de Omã deve ser agora a democracia. O sultanato já foi pioneiro na introdução de algumas reformas, como o direito de voto e de eleição das mulheres, mas será que este processo é bem aceite pelos sectores mais conservadores da sociedade? Ainda agora foram julgados elementos que procuravam derrubar o governo pela força.

O processo de desenvolvimento em Omã em 1970 [com a ascensão de Qaboos ao poder, depois de forçar o seu pai tirano a abdicar] é um processo contínuo de modernização. Não gostamos da palavra “reforma” porque a sua tradução em árabe é muito enganadora.

Raros protestos – contra o desemprego – em Mascate, a capital de Omã, em Janeiro de 2018
© Middle East Eye

O que significa “reforma” em árabe?

Em árabe, “reforma” é o oposto” de “barbárie”. Dizer que um país precisa de reformas é dizer que o país é bárbaro e atrasado e precisa de ser reformado. Não é este o caso, porque temos muito orgulho no que somos. Temos muito orgulho da nossa cultura. O que precisamos de falar é de desenvolvimento e de progresso.

Eu creio que já atingimos um extraordinário nível de desenvolvimento a todos os níveis, seja na educação ou na saúde, no papel das mulheres, no sistema judicial e nas instituições, na nossa lei básica, uma espécie de Constituição, que garante direitos iguais par todos, sem discriminação ou segregação entre homens e mulheres.

Há liberdade de expressão. Há liberdade de religião. Não devemos nunca impor certos modelos de democracia porque cada sociedade tem as suas especificidades e tradições.

Para dar um exemplo, a shura, que significa “consulta”, já era a base da nossa sociedade muito antes da presente estrutura, o Majlis a’Shura [conselho consultivo]. A consulta faz parte da nossa tradição, entre as famílias, nas aldeias, quando é preciso discutir problemas e encontrar soluções.

Isto é, de certa maneira, muito diferente do que se passa no Ocidente onde existe um sistema em que a maioria tem a última palavra.

Aqui preferimos o conceito de chegar ao consenso, para que não seja só a maioria a impor a sua vontade, mas para acomodar todas as opiniões. Isto é uma evolução. Não temos uma meta final, como numa corrida.

Está preocupado com a instabilidade em países vizinhos como a Arábia Saudita e o Iémen? Teme um impacto negativo em Omã?

Temos preocupações comuns. O que os preocupa a eles preocupa-nos a nós. A instabilidade na nossa região não é do nosso interesse. Sim, estamos inquietos mas acreditamos que todos os acontecimentos actuais [a violência ligada à al-Qaeda] são uma fase, são temporários, e que, a longo prazo, serão resolvidos graças à nossa capacidade e sabedoria.

Penso, sinceramente, que este ciclo de violência e de instabilidade serão superados nos próximos anos. É uma infelicidade a situação no Iraque, com tantas mortes de civis, mas acreditamos que o Iraque conseguirá reerguer-se porque tem poderosos recursos humanos e o apoio da comunidade internacional, para promover e encorajar o processo político – a única solução viável. É uma questão de tempo.

Muito se tem falado do projecto americano do “Grande Médio Oriente” e das pressões que os EUA têm exercido sobre alguns países da região, como o Egipto e a Síria, para adoptarem mudanças. O que pensa deste plano?

Em Omã as nossas mudanças começaram a ser empreendidas a partir do primeiro dia em que o Sultão [Qaboos] subiu ao poder [em 1970], muito antes do 11 de Setembro [de 2001]. Infelizmente há muitos preconceitos em alguns círculos. Muita gente não está a par da dimensão do nosso desenvolvimento.

Muitos americanos e outros chegam a Omã e ficam surpreendidos ao verem as mulheres conduzir ou a exercer cargos no governo. Porque têm ideias pré-concebidas de que os países islâmicos são atrasados. Não os culpamos, porque são ignorantes. Os que vêm cá têm oportunidade de ver a verdade. Nós somos amigos dos americanos.

Estamos ligados aos Estados Unidos por um tratado de amizade que data de 1833. Não sinto qualquer pressão da parte de ninguém para que nós [omanitas] mudemos. Temos uma relação construtiva com os EUA, mas também com a Europa e o Japão. Sabemos que temos de mudar porque se ficarmos parados não há progressos. Acreditamos na cooperação e na parceria.

O Sultão Qaboos  foi o primeiro chefe de Estado árabe a visitar, em Agosto de 2013,o novo Presidente do Irão, Hassan Rouhani: Omã continua a servir de mediador na região.
© Mohammed Mahjoub | AFP | getty Images

[ Qaboos  ofereceu-se como mediador nas negociações entre Washington e Teerão, para facilitar uma aproximação mútua desde a eleição do Presidente iraniano, Hassan Rouhani. O papel de intermediário do monarca já havia sido desempenhado durante a guerra entre o Irão e Iraque (1980-1988) – sendo o sultanato um dos raros países árabes a não tomar o partido de Saddam Hussein. Com esse gesto, serviu depois de facilitador na troca de prisioneiros de guerra.]

Tendo Omã sido um dos primeiros países árabes a abrir as portas ao Estado de Israel  [enviou um representante para Telavive após os Acordos de Oslo de 1993 e recebeu em visita oficial o primeiro-ministro Yitzhak Rabin; o Presidente Shimon Peres também recebeu o chefe da diplomacia omanita em Jerusalém, em 1995], como encara o futuro do processo de paz israelo-palestiniano? Crê que uma solução é possível?

Há uma solução para cada problema. O que é preciso é uma vontade forte e recursos para chegar a um acordo. Os palestinianos têm direitos legítimos reconhecidos pela lei internacional. Já deram passos importantes para terem o seu Estado independente. Nós apoiamo-los, e acreditamos que uma solução é possível através de negociações construtivas e pacíficas com Israel, e não pela força.

Também esperamos que o povo israelita encoraje o seu Governo a aproveitar a oportunidade de paz. Nenhum israelita ou palestiniano quer viver em estado de medo. A paz é o único meio de toda a região prosperar. Sem esquecer as lições do passado, temos de pensar mais no futuro do que no passado. Temos de aproveitar os instrumentos que a globalização nos oferece e aplicá-los para o bem.

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Em vez de reformas, “preferimos o conceito de chegar ao consenso, para que não seja só a maioria a impor a sua vontade, mas para acomodar todas as opiniões. Isto é uma evolução”, diz Sayyid Badr bin Hamad bin Hamood Al Busaid
© jewelofmuscat.tv

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2005

Ibaditas: fundamentalistas e tolerantes

Os omanitas pertencem, na sua maioria, a um ramo do Islão que começou por ser extremista – os kharijitas. Foi um deles que assassinou Ali, o genro de Maomé, quarto califa e primeiro imã xiita. Os discípulos do teólogo Abdullah ibn Ibad sobrevivem porque, embora fiéis a rígidos princípios morais, adoptaram a moderação como política. (Ler mais | Read more…)

© theculturetrip.com

Cumprimentar alguém em Omã, seja um familiar, amigo ou estranho, é como um cântico, afectuoso e longo: “Como está? Que notícias traz de onde vem? Que as notícias sejam sempre boas. Seja muito bem-vindo.”

E se for hora de refeição, ficará também feito um convite, para almoçar ou jantar. Este ritual, provavelmente único no Médio Oriente, incluindo na região do Golfo Pérsico onde se situa o sultanato que os portugueses dominaram durante 144 anos (de 1506 a 1650), exprime a hospitaleira religiosidade dos omanitas.

Este é um povo que segue à risca os preceitos islâmicos definidos pelo seu profeta, Maomé, conseguindo no entanto adaptá-los à era da globalização.

Enquanto nos guia pelos mais belos lugares do seu país, Saeed Abdullah Al-Hashli, um cientista político que trabalha para o departamento de relações públicas do Ministério da Informação, em Mascate, organiza o itinerário de modo a parar, à hora certa, para fazer as orações obrigatórias do dia.

O templo pode ser a imponente Grande Mesquita Sultão Qaboos, na agitada capital, ou um humilde santuário na tranquila aldeia de Misfat al A’Briyeen, no alto de um monte com vista paradisíaca, onde as casas de terracota se escondem de olhares predadores em becos estreitos e caminhos de pedra em forma de serpentina.

Se o tempo escasseia, Saeed e Ahmed, o motorista, condensam duas preces numa só. Se as vestes não são apropriadas, na bagageira do carro estará sempre a roupa indicada para louvar Alá sem ofensa corporal.

Saeed, 28 anos, é um ibadita de fé inabalável. Questionado sobre como consegue manter imaculada a sua disdasha (túnica tradicional) branca, imune à areia do deserto ou à poeira do souk (bazar), responde como se quisesse converter-nos: “Deus é belo e gosta do que é belo; Deus é limpo e gosta do que é limpo.”

© Mohammed Mahjoub | AFP | The National

Os fundamentos da religião são para cumprir, diz Saeed. No entanto, às vezes é preciso ser flexível. Ele que anda à procura de noiva gostaria que ela trabalhasse e não fosse apenas dona de casa.

Não a obrigaria a ocultar o cabelo com um hijab, mas não a dissuadiria se ela optasse por esconder o rosto, como fez a sua mãe, que usa uma máscara colorida sobre o nariz, deixando ver apenas os olhos e a boca. Esta máscara é, em algumas regiões, indicador de que a mulher é casada.

Saeed sonha, também, aprofundar os seus conhecimentos no estrangeiro, quiçá nos Estados Unidos, para “estabelecer pontes com todos, incluindo os israelitas”.

Esta abertura, talvez, justifique a sua veemente negação de que os ibaditas sejam um ramo dos khawaridj ou kharijitas, uma extremista seita do Islão responsável pelo assassínio de Ali, genro de Maomé e quarto califa, como alega a maioria dos islamólogos.

Roger Arnaldez [1911-2006], um dos autores de Dictionnaire de l’Islam, Religion et Civilisation, clarifica que os ibaditas descendem efectivamente dos kharijitas mas separaram-se deles em 684 d.C., quando Abdullah ibn Ibad, o teólogo fundador da doutrina com o seu nome, “adoptou em relação aos muçulmanos de outras seitas uma atitude mais clemente e mais tolerante.”

“Várias razões explicam a sobrevivência dos ibaditas”, observou Arnaldez. “A sua relativa moderação, que fez com que os califas e generais não tentassem exterminá-los como aconteceu com os azraqitas, outra seita kharijita; a coragem e tenacidade que demonstraram na adversidade; mas sobretudo o perseverança em conservar e transmitir as suas doutrina e tradições.”

Os omanitas foram os primeiros povos a converter-se ao Islão, em 630 a.C., quando Maomé enviou um dos seus líderes militares,`Amr ibn al-`As, para se encontrar com Jaifar e ‘Abd, governadores conjuntos de Omã, e os convidar a juntar-se à “umma”, comunidade de crentes.

Havia uma guarnição persa, que era zoroastra, e uma comunidade árabe, que era cristã. Os persas rejeitaram a nova fé e foram expulsos pelos árabes que a aceitaram. A partir do século VII, Omã tornou-se um baluarte muçulmano, ajudando a propagar a fé no Sudeste da Ásia e na África Oriental e Ocidental.

© jg-tc.com

Os ibaditas apareceram antes do cisma entre sunitas e xiitas. Tudo começou, descreve Liesl Graz, em The Omanis, Sentinels of the Gulf, na Batalha de Siffin, quando Ali aceitou uma proposta do seu opositor, o governador da Síria, Mu‘awiya, de prender as páginas do Corão às pontas das lanças dos seus homens como sinal de que apelava à arbitragem divina.

Na altura, foi proclamada uma trégua, e o processo de arbitragem foi marcado para o ano seguinte. Ignorando conselhos dos que lhes estavam mais próximos, Ali concordou pôr em perigo o seu califado, que era perfeitamente legítimo, e essa decisão foi considerada inaceitável por alguns dos seus discípulos, que o abandonaram.

Chamaram-se a si próprios “kharijitas” – os que se vão embora – tornando-se uma terceira parte na disputa entre sunitas e xiitas e, ao mesmo tempo, a primeira seita islâmica.

No processo de arbitragem, Mum‘awiya foi proclamado califa, mas Ali rejeitou o julgamento em que foi deposto e continuou a ostentar o título de “Comandante dos Fiéis”. Os kharijitas, no entanto, nunca lhe perdoaram por ter submetido à vontade humana o poder que lhe tinha sido conferido por Deus. Numa manhã de Janeiro do ano 661, Ali foi assassinado no pátio da mesquita de Kufa (actual Iraque) por Ibn Malgoum, kharijita azraqita.

A mesquita que o sultão pagou

© Middle East Magazine

Em Omã há [em 2005] mais de 13.000 mesquitas de vários estilos arquitectónicos, mas nenhuma rivaliza em beleza – na riqueza interior e na simplicidade exterior – com a Grande Mesquita Sultão Qaboos, em Mascate, a capital.

Foi o monarca que a mandou construir e pagou do seu próprio bolso (além de governante, ele é um homem de negócios com acções em companhias como a Rolex).

A Grande Mesquita começou a ser construída em 1995 e foi inaugurada em 2001. Tem cinco minaretes representando os cinco pilares do Islão e a sua cúpula central ergue-se a 50 metros de altura.

Abrangendo uma área de 416 mil metros quadrados, pode acolher até 16.000 crentes. A pedra usada nas paredes e chão foi importada da Índia. Em Mascate, cortaram-na e trabalharam-na à mão com perfeição geométrica.

As portas, as janelas, os arcos, os nichos e os vitrais, com motivos florais e inscrições do Corão, foram concebidos de forma a preservar luz e sons.

A carpete persa de 21 toneladas e 28 cores que cobre todo o salão principal (4263 metros quadrados) foi costurada durante quatro anos por 600 mulheres, em Nishapur, na província iraniana de Khurassan.

Os retoques finais, para juntar todas as 58 peças numa só, demoraram 27 meses. Os candeeiros suspensos do tecto são feitos de cristal Swarovski com filamentos banhados a ouro. O maior tem 1.122 lâmpadas e pesa 800 quilos.

© worldarchitecture.org

À tarde, quando o Sol se põe, ao enorme parque de estacionamento do grandioso edifício, vão chegando vários automóveis. Os homens seguem um caminho; as mulheres outro. As crianças com menos de 10 anos de idade não podem entrar.

A segregação é incompreensível aos olhos dos que não partilham a fé. Saeed Al-Hashli o nosso guia, tenta justificar:

– “O facto de as mulheres ficarem separadas, na parte de trás, não as inferioriza. É uma protecção. Os homens são fracos. Além disso, aos olhos de Deus, os que estão na fila da frente não são necessariamente os mais importantes.”

Indiferente a estes argumentos, uma jovem pára o seu carro junto ao nosso. Sem véu mas com o lenço bem apertado à cabeça, sem deixar escapar um fio de cabelo, guarda os sacos de hambúrgueres que comprou no McDonalds no banco de trás.

Ouve as mensagens no telemóvel e faz uma última chamada. Retoca a maquilhagem dos olhos e lábios. Compõe a saia comprida e segue, em passo confiante, em direcção à rampa exclusivamente feminina que a conduzirá à oração.

Quando o muezzin chama os fiéis pelo altifalante, a mesma voz ecoa no rádio do nosso todo-o-terreno. À volta tudo é silêncio. Como se Deus tivesse deixado a mesquita para se encontrar com os incrédulos.

© photocircle.net

Estes dois artigos, agora revistos, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO em 9 de Maio de 2005 | These two articles, now revised, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on May 9, 2005

Sharon e a sogra de Suad Amiry

A arquitecta palestiniana “matou o tempo” durante 34 dias de cerco na Cisjordânia escrevendo sobre o que viu, ouviu e viveu, em Ramallah. No seu testemunho de 120 páginas, atenua a dor recorrendo ao humor, e revela-se uma hakawati (contadora de histórias). O livro, vendido para 11 países, ganhou o prémio literário italiano Viareggio. (Ler mais | Read more…)

Há uma frase de Suad Amiry sugerindo que a sogra é a má da fita: “Talvez um dia venha a conseguir perdoar ter estado 34 dias consecutivos em recolher obrigatório, mas nunca conseguirei esquecer que me obrigaram a viver com a minha sogra durante o que me parece terem sido 34 anos”. Mas não.

Ariel Sharon, ainda que raramente mencionado, é o principal alvo da indignação da arquitecta palestiniana que, para “matar o tempo”, escreveu um diário durante as incursões do exército israelita na Cisjordânia, entre 17 de Novembro de 2001 e 26 de Setembro de 2002.

Sharon e a minha sogra – Diário de Guerra em Ramallah, Palestina (Ed. Ambar, 2005) teve primeira edição na prestigiada Granta, com direitos de venda para 11 países e, em 2004, foi galardoado com um dos mais importantes prémios literários italianos, o Viareggio.

Amiry, mais conhecida pelo seu trabalho no Centro Riwaq para a Conservação da Arquitectura, que ela fundou e da qual foi directora na Cisjordânia, desvia-se das suas pesquisas sobre o mercado de Hebron (que lhe valeu o Prémio Aga Khan para o Restauro), as aldeias do período otomano ou os mosaicos tradicionais palestinianos, para nos fazer entrar numa “prisão” domiciliária.

A viagem começa no aeroporto de Telavive, quando Suad, proveniente de uma conferência em Londres, teve de se sujeitar a uma inspecção porque a sua bagagem não teve direito a uma fita branca (indicadora de livre passagem) mas cor-de-rosa. Aos interrogadores nada dirá, ou dirá o que eles não querem ouvir.

© ereditadelledonne.eu/

Os leitores, pelo contrário, ficarão a saber (quase) tudo sobre a vida da autora, desde Damasco, onde nasceu em 1951, passando por Amã, Cairo e Beirute (aqui se licenciou na Universidade Americana), até Ramallah, onde reside, numa casa repleta de livros, no bairro de classe média de Al-Irsal, e onde lecciona na Universidade de Birzeit.

Os agentes de segurança do aeroporto não saberão que o pai de Suad nasceu em Jaffa (na Palestina pré-Israel) e morreu de ataque cardíaco numa conferência de escritores em Praga.

Não saberão que a mãe era uma bela damascena, de olhos verdes acinzentados, que só trocava Jerusalém pela Síria.

Não saberão que o marido, Salim Tamari, um dos mais respeitados académicos palestinianos, sociólogo e director do Institute for Palestine Studies, também nasceu em Jaffa, em 1945.

Não saberão que ambos tentaram regressar às casas que até 1948 foram dos seus pais refugiados mas faltou-lhes “preparação emocional” para bater à porta das famílias judias que agora as habitam.

Do primeiro ao último capítulo, a ocupação israelita é arrasada por Suad com uma violência proporcional à que os bulldozers de Sharon destroem a Muqata, o quartel-general de Yasser Arafat.

“Perguntei-me se aqueles dois oficiais israelitas [em Telavive] saberiam que eu, tal como outros palestinianos que vivem nos territórios ocupados, preciso de vários tipos de autorização para me poder movimentar; uma para entrar em Jerusalém, outra para poder ir à Jordânia, uma terceira para poder entrar em Israel, uma impossível para entrar em Gaza e mais uma com a duração de quatro horas para poder utilizar o aeroporto.”

“(…) Não estava propriamente com paciência para contar ao oficial que um dos meus sonhos relativamente a este país é, tão simplesmente, que o meu marido me possa vir buscar ao aeroporto ou à Ponte Allenby [que separa o Reino da Jordânia da Cisjordânia ocupada por Israel] quando regresso de uma viagem. Mas isso é um privilégio que nenhum palestiniano tem.”

Suad Amiry nasceu em 1951 em Damasco, capital da Síria. Formou-se em Arquitetura nas universidades de Beirute (Líbano) e de Michigan (EUA). Até recentemente foi diretora do Centro para a Conservação da Herança Arquitectónica da Palestina
© playgroundsforpalestine.org

Exibindo o talento de uma verdadeira hakawati (contadora de histórias), Suad, que só conseguiu cidadania palestiniana há sete anos, retrata com humor o mundo surreal que a rodeia: “Cerca das quatro da manhã, Salim perguntou-me se queria tomar um cappuccino e, quase a dormir, respondi: ‘Bom, por que não?’”

“De repente, lembrei-me da última vez que os soldados israelitas tinham estado diante da janela da cozinha. Fui a correr até à cozinha e disse a Salim para ter cuidado, pois a máquina do cappuccino fazia muito barulho e podíamos estar a correr um grande risco!

Oscilando entre o cómico e o trágico, o resgate da sogra, Marie Jabaji, 91 anos, cuja varanda tinha vista privilegiada para o gabinete (agora túmulo) de Arafat é assim relatado: “Levantaram duas vezes o recolher obrigatório e fiquei à tua espera, mas não vieste.”

© Columbia Global Centers – Columbia University

“Não temos electricidade, nem água, nem telefone, bombardeiam-nos dia e noite; a comida do frigorífico já está podre; os outros vizinhos já fugiram todos”, diz Umm Salim (mãe de Salim).

“Vamos tirá-la daqui o mais depressa possível”, responde a nora. “Os soldados andam aqui à volta e temos de sair rapidamente. (…) De repente ocorreu-me: Meu Deus, como é que vou conseguir que ela salte os dois muros? Bem, vemos isso quando lá chegarmos, se é que alguma vez lá chegamos!”

Apercebendo-se de que a velhinha queria levar tudo o que lhe pertencia e não tinha tempo para isso, Suad aconselhou: “Não faz mal, deixe estar. Depois vimos cá buscar.” A sogra respondeu: “Foi o que dissemos em 1948, quando partimos da nossa casa em Jaffa.”

A Nakba (tragédia ou catástrofe) dos palestinianos forçados ao exílio está presente em algumas das 120 páginas deste livro. Há muito ressentimento, mas nenhum apelo à vingança ou à violência.

A resistência é pacífica – “Vão buscar os tachos e as panelas e toca a bater. (….) Ainda que o recado não chegasse a Sharon e às suas forças de ocupação, era, certamente, uma óptima terapia de grupo.”

Suad e Salim são dois activistas pela paz com justiça. Ela, uma palestiniana pouco ortodoxa (bebe, fuma, não usa hijab [lenço] e não tem filhos – preferiu a cadela terrier, Nura), fez parte da delegação às conversações de Washington em 1991 e foi vice-ministra da Cultura no primeiro governo de Arafat em 1996.

Ele, o filho único e adorado de Marie Jabaji, foi consultor para a questão dos refugiados nas negociações multilaterais no âmbito da Conferência de Paz de Madrid de 1991.

“Talvez seja a meia-idade, mas antes eu nunca, nunca olhava para a cara deles [militares israelitas], mesmo quando eles verificavam a minha identidade”, disse Suad, numa recente entrevista ao semanário The Observer, de Londres.

“Se estamos zangados com alguém – seja mãe ou irmão – não conseguimos olhar para eles. É uma maneira de dizer que não estamos felizes. Agora comecei a olhar para os rostos deles. Penso: ‘És tão jovem, podias ser meu filho’. (….)”

“Um dia, ao atravessar a ponte [Alenby], depois de ter sido obrigada a tirar os sapatos e a pô-los num saco, olhei para eles. É claro que nos sentimos humilhados. Então disse à mulher [soldado]: ‘Você gosta de fazer isto?’ Ela irritou-se: ‘Pensa que eu gosto de fazer isto?’”

Talvez a resposta tenha alimentado a esperança de Amiry: “Se ontem não houve uma solução, haverá hoje; e se não houver hoje, haverá amanhã. Tem de haver uma solução!”

Marie Jabaji (Umm Salim) não sabe que se tornou uma celebridade. Não leu o livro de Suad. 

© premio.grappanonino.it

Este artigo, com outro título, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 9 de Abril de 2005 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 9, 2005

Portugal e Omã: Mais de 100 anos de história

A primeira tentativa para conquistar Ormuz, o estreito por onde passa uma parte considerável do petróleo mundial, foi feita em 1507 por Afonso de Albuquerque. Sobre a importância estratégica da cidade disse ele: “Se o mundo fosse um anel seria a sua pedra preciosa.”  (Ler mais | Read more…)

Forte al-Jalali (São João), também conhecido localmente como Ash Sharqiya, com uma presença imponente sobre o porto de Mascate, foi construído no século XVI para impor a presença portuguesa na região. O forte, que caiu nas mãos das forças omanitas no século XVII e serviu de prisão até aos anos 1970, está agora encerrado ao público
© wikimedia.org

Ao leme de uma pequena frota de sete navios e 500 homens, Afonso de Albuquerque dirigiu-se para o seu objectivo, fazendo cair pelo caminho as cidades de Calaiate, Curiate, Mascate, Sohar, Hurfakân, que aceitaram, voluntária ou forçosamente, pagar tributo ao rei de Portugal.

Quando os portugueses atracaram em Ormuz, o monarca da cidade enfrentou Albuquerque com um exército de 15 mil a 20 mil homens e recusou tornar-se vassalo.

Ao fim de três dias de cerco, a cidade rendeu-se com uma bandeira branca. O capitão-mor enviado por D. Manuel I começou então a construir um forte – a primeira pedra foi lançada em 24 de Outubro de 1507 – que passou a designar-se Nossa Senhora da Vitória.

Durante as obras, surgiu uma rebelião interna, escreveu o historiador Marco Ramerini, em The Portuguese in the Arabian Península and in the Persian Gulf, instigada pelo rei-vassalo de Ormuz. Em Janeiro de 1508, Albuquerque foi forçado a recuar.

Em Março de 1515, depois de já ser senhor da Índia, dominando não só os mares como a terra (Goa era o mais importante porto comercial da região), Albuquerque regressou a Ormuz, com uma força de 27 navios, 1500 portugueses e 700 naturais de Malabar. Em 1 de Abril de 1515, o forte da cidade foi retomado e passou a chamar-se de Nossa Senhora da Conceição.

Forte Al Mirani (ou Almirante), defronte ao Forte al-Jalali e igualmente sobranceiro ao mar de Omã, foi construído pelos portugueses também no século XVI, para reforçar a defesa de Mascate contra invasores. Também está encerrado ao público
© wikimedia.org

Naquela época, os principais portos do Golfo Pérsico e da Arábia, designadamente Bahrain, Calaiate, Mascate e a ilha de Queixume (actual Qeshm), estavam sob a jurisdição do rei de Ormuz. A vitória de Albuquerque deixou-as todas sob domínio português.

O que ele conseguiu foi assim enaltecido pela francesa Geneviève Bouchon (Albuquerque, Le Lion des Mers d’Asie): “Ele soube imaginar estratégias militares e diplomáticas adoptadas a um Oriente em plena mutação. Observou o mercado dos acontecimentos onde se jogou o destino do mundo moderno. O primeiro a descobrir o Islão, na sua amplitude e diversidade, [….] foi o instigador da primeira colonização europeia.”

Quanto à importância da região conquistada, observou João de Barros, em em Da Ásia, Década Segunda:

A cidade de Ormuz está situada em hua pequena ilha chamada Gerum que jaz quasi na garganta de estreito do mar Parseo tam perto da costa da terra de pérsia que avera de hua a outra tres leguoas e dez da outra Arábia e terá em roda pouco mais de tres leguoas: toda muy esterele e a mayor parte hua mineira de sal e enxolfre sem naturalmente ter hum ramo ou herva verde.

A cidade em si es muy magnifica em edifícios, grossa em tracto por ser hua escala onde concorrem todalas mercadorias orientaes e occidentaes a ella, e as que vem de Persea, Armenia e Tartaria que lhe jazem ao norte: de maneira que nam tendo a ilha em sy cousa própria, per carreto tem todalas estimadas do mundo.

[….] A cidade é tam viçosa e abastada, que dizem os moradores della que o mundo é hum anel e Ormuz hua pedra preciosa engastada nelle.

Em 1521, o rei de Ormuz rebelou-se de novo contra os portugueses mas estes esmagaram a revolta e colocaram outro soberano no trono, refere Marco Ramerini. Em 1523, Dom Luís de Menezes ocupou Sohar, que se sublevara. Depois seguiu para Queixume (Qeshm) onde assinou um tratado com o novo governante e estabeleceu uma feitoria.

Em 1526, Lopo Vaz de Sampayo, governador da Índia portuguesa (ocupou o cargo até 1529) subjugou também Mascate e Calaiate, que se haviam rebelado. Em 1542-43, nenhum navio passava por Ormuz sem pagar taxas ao rei de Portugal.

Forte de Khasab, construído pelos portugueses no século XVII. Localizado perto do Souk (mercado) Velho, bem no centro da cidade, tinha uma estratégica visão da costa. Aqui vivia o wali ou governador; hoje serve de museu etnográfico
© atanahotels.com

Em 1550-51, lutando pela supremacia no Golfo Pérsico, os portugueses conquistaram aos turcos o forte de al-Qatif, na actual Arábia Saudita. Em 1551-52, para garantir a defesa de Ormuz, foi construído um forte em Mascate, mas os turcos, determinados a vingar-se, atacaram a cidade e saquearam-na, no mesmo período. Em 1559, cercaram o forte português no Bahrain mas, meses depois, foram obrigados a recuar.

Em 1581, Mascate foi novamente destruída pelos turcos, adianta Ramerini. No ano seguinte, o rei da Ilha de Lara ou Larak cercou a fortaleza de Ormuz, mas os portugueses, mais uma vez, expulsaram os invasores e ocuparam, por seu turno, o forte de Xamel, em Lara.

Em 1588, os fortes de Mascate, de São João e Almirante (hoje Jalali e Mirani, bases do sultão de Omã, Qaboos bin al Said) foram reconstruídos, e um terceiro foi erguido na área adjacente de Matara (actual Mutrah), onde ainda permanece.

Em 1602, o Xá Abbas I expulsou os portugueses do Bahrain. Em 1616, uma frota portuguesa apoderou-se de Sohar, onde a população se revoltara, e o rei foi executado. Em 1620, Gaspar Leite construiu o forte de Hurfâkan (Khor Fakkan).

Em 8 de Maio 1621, Ruy Freire de Andrade, “general do mar de Ormuz e costa da Pérsia e Arábia”, começou a construção do forte de Queixume, para poder controlar os recursos de água da ilha, que hoje a maior do Irão. Esta obra foi vista como um acto de hostilidade aberta ao Xá da Pérsia que declarou guerra aos Portugueses.

Em 1622, os árabes, aliados dos Persas, conseguiram capturar a ilha de Julfar aos Portugueses. Em 11 de Fevereiro do mesmo ano, a guarnição no forte de Queixume, depois de uma fraca resistência, foi obrigada a render-se a um exército conjunto anglo-persa.

Em 20 de Fevereiro, uma frota persa de mais de 3000 homens, com a ajuda de seis navios ingleses, cercou a fortaleza de Ormuz. Em 3 de Maio, os portugueses entregaram-se e todos, cerca de 2000, foram enviados para Mascate, precisa Ramerini.

Forte Mutrah, conhecido como Koot Mutrah, foi igualmente construído no século XVI pelos portugueses no seu período de supremacia dos mares, para defesa contra o exército otomano. Situado numa colina na parte velha de Mascate, oferece a melhor vista da cidade. Serviu de prisão num passado recente e agora, depois de obras de renovação, está aberto ao público
© omanobserver.om

Sob o comando de Ruy Freire de Andrade, os Portugueses ainda tentaram várias vezes – em 1623, 1624, 1625 e 1627 – reconquistar o forte. A última tentativa foi diplomática mas também fracassou.

Após a queda de Ormuz, os portugueses estabeleceram a sua base em Mascate. Em 1623, Ruy Freire reocupou o forte de Sohar que os persas haviam conquistado no ano anterior, e instalou uma guarnição em Caçapo (actual Khasab), na península de Moçandão (Musandam).

Em 1631, um outro forte português foi construído em Julfar, zona estratégica de Moçandão que, durante a ocupação portuguesa, gozou de enorme prosperidade como entreposto comercial regional.

Em Setembro de 1633, Ruy Freire de Andrade morreu. O seu corpo foi sepultado na igreja de Santo Agostinho, em Mascate. Em 1643, os portugueses foram expulsos de Sohar pelo Imã (guia espiritual) Nasir ibn Murshid.

Em Janeiro de 1650, Mascate, a última base lusitana na Arábia caiu nas mãos do sultão Said Bin Said. A guerra naval entre os dois povos continuaria até ao final do século XVII, com os Omanitas a expulsar os portugueses do seu último reduto na África Oriental: Mombaça.

De todas as possessões perdidas, Ormuz ficou gravada como um desastre nacional. A derrota portuguesa constituiu uma “importante mudança estrutural no comércio entre a Europa e a Ásia, muito mais significativa do que a descoberta da rota do Cabo para a Índia”, salientou Kirti N. Chaudhuri (História da Expansão Portuguesa, Vol. II).

Forte de Sohar, construído no século XIV, foi ocupado pelos portugueses no século XVI. Quando eles aqui chegaram, o forte tinha poços de água fresca, acomodava 300 soldados e estava rodeado de uma grande muralha. Em 1621, o forte foi restaurado pelo capitão João de Souza Pinel, mas o domínio dos portugueses chegou ao fim, em 1643, quando foram cercados pelas forças do Imã Nasir bin Murshid, que os expulsariam de todo o território omanita
© welcometooman.om

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2005

Amin Maalouf: “Há um fracasso histórico no mundo árabe”

O livro Origens, deste grande escritor franco-libanês, começa em meados do século XIX nos territórios do Levante sob domínio otomano. É uma comovente saga de família, onde liberta a memória dos antepassados em momentos turbulentos da História. É, sobretudo, uma grande homenagem ao seu avô Botros, que recusou o exílio para “ocidentalizar” o Oriente, mas acabou desiludido como o neto, natural de Beirute e imigrante em Paris. “Pensava que podíamos evitar o choque de civilizações”, diz. “Pessoas como eu foram derrotadas. Essa é a verdade. Perdemos. Somos apenas vozes a gritar no deserto.” (Ler mais | Read more…)

© rtp.pt

Outros que não eu teriam falado de ‘raízes’… Não emprego esse vocabulário. Não gosto de ‘raízes’ e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas, mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem. ‘Se te libertas, morres!’ As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para a apodrecer. (…)

Pertenço a uma tribo nómada que vagueia desde sempre por um deserto com as dimensões do mundo. As nossas pátrias são oásis que abandonamos quando a nascente seca, as nossas casas são tendas disfarçadas de edifícios, de pedra, as nossas nacionalidades são uma questão de datas, ou de berços. A única coisa que nos une uns aos outros, para além das gerações, para além dos mares, para além da Babel das línguas, será o ruído de um nome.

In: Origens , Ed. Difel, 2004

Amin Maalouf nasceu em 1949. Fugiu da guerra civil libanesa em 1976. “Não queria que os meus filhos crescessem num país onde crianças de 16 anos usavam armas, matavam e eram mortos.” Como jornalista da Jeune Afrique, reportou a guerra do Vietname, a revolução iraniana ou a fome na Etiópia. Em 1985, após o êxito de As Cruzadas vistas pelos Árabes, optou por uma exclusiva carreira literária. As suas obras, traduzidas em mais de 20 línguas, são uma busca permanente de pontes entre dois mundos. Oriundo de um meio familiar cristão, assumiu como “primeira religião” a da coexistência, como confirma nesta entrevista feita em Lisboa, onde esteve para lançar o livro.

© aljadid.com

Por que é que um autor de romances históricos decidiu escrever Origens, uma biografia familiar?

Amin Maalouf – Creio que sempre quis contar a história do meu avô e da sua geração e também a história do meu tio-avô em Cuba. Eram histórias que a minha família me contava quando eu era criança. Achei que agora era o momento certo…

… depois de o seu pai ter morrido?

Bem, esse foi um elemento. Mas depois morreu também a minha avó, o que foi outro momento para meditação.

Provavelmente, eu precisava de começar a minha carreira literária com algo diferente. Não queria começar com a minha família. Quis fazer uma longa viagem antes de regressar à família. Senti que este era o momento certo de falar dela.

Sentia-me muito em dívida para com pessoas que viveram há muito tempo, que sonharam com coisas maravilhosas, que talvez se tenham desiludido com a vida, e que foram esquecidas. Tive necessidade de as fazer ressuscitar do esquecimento.

No livro revela uma grande surpresa quando encontra uma mala cheia de documentos (“cartas, fotografias, cadernos, recortes de jornais, recibos, actas notariais…”)…

…Eu não fazia a mínima ideia da existência de algo assim. De facto, disseram-me o contrário. Muitas vezes ouvi pessoas na minha vida dizerem que o meu avô escreveu este ou aquele poema, ou que os recitava. Toda a gente me dizia que o que ele escrevera se tinha perdido. Fiquei com a impressão que não havia nada.

Por isso, durante anos, não procurei estes arquivos. E, realmente, foi uma surpresa. Tudo começou, como eu conto no livro, quando eu encontrei alguém que esteve durante muitos anos em Cuba e me perguntou, por acaso, se eu tinha algum parentesco com alguém que ele conheceu em Cuba e que tinha o mesmo apelido que eu.

Eu apenas lhe disse que o irmão do meu avô estivera em Cuba. Interroguei-me então por que não haveria de recolher mais informações sobre esta parte da família.

Assim, fui até Beirute e, quase por acaso, ao colocar certas questões, encontrei todos estes documentos. Foi extraordinário, porque descobri tantas coisas. Foi possível reinventar toda a vida do meu avô, do seu irmão e da restante família.

© La Croix

“O silêncio é o nosso santuário”, escreveu. Como é que os seus familiares reagiram ao facto de expor neste livro os segredos que foi descobrindo?

Bem, alguns já morreram e nunca saberei como reagiriam. Alguns morreram até durante a escrita deste livro, sobretudo uma tia que me ajudou imenso na minha investigação e faleceu de cancro. Os mais jovens da família mostraram-se interessados em conhecer a sua história, porque é também a história deles. Eles, como eu, sabiam muito pouco.

Agora há um sentimento de orgulho, de poderem saber toda a história. De outros ainda não tenho reacções.

Há familiares que só sabem ler em espanhol ou em inglês. Por isso, a parte cubana da família vai ler o livro na edição espanhola, que acaba de ser lançada. Vou poder agora conhecer a reacção deles. Outra parte da família, sobretudo o meu tio na América, vai preferir ler a versão inglesa.

Poderão de algum modo ficar desapontados?

Não sei. Espero que não. Ao contar a história deles não revelei nenhum segredo devastador. Eu sou uma pessoa muito, muito pudica. Não gosto de me envolver em escândalos e provocações. Só tento contar as histórias, da maneira mais verdadeira possível, para lutar contra o esquecimento.

A figura central de Origens é o seu avô Botros. É apresentado por si como um defensor de valores universais (o conhecimento, a democracia, a liberdade, os direitos das mulheres), um visionário que queria “ocidentalizar” o Oriente, que sonhava transformar a sua aldeia numa pequena América. Ainda pensa que, nestes tempos conturbados, a coexistência Ocidente-Oriente é possível?

É agora muito mais difícil do que no tempo do meu avô. Muitos aspectos políticos que hoje conhecemos não existiam antigamente.

A imagem que hoje temos da América e do seu papel no mundo é muito diferente da imagem que a América tinha no tempo do meu avô.

No meu romance Samarcanda [Ed. Difel, 2006] há um personagem americano que surge como o símbolo da modernização da Pérsia.

Naquela altura, os americanos não apareciam, de maneira alguma, como uma força imperial. Os imperialistas eram os britânicos e os franceses, os russos e até os austríacos. Os americanos, não!

Eram uma jovem nação de pioneiros, de espírito livre. Era a América de [Thomas] Woodrow Wilson [eleito Presidente dos Estados Unidos da América em 1912 e 1916, democrata, defensor do direito dos povos e da segurança colectiva]. Há cem anos tudo era diferente.

© cccb.org

O seu avô também viveu tempos de convulsão. O Império Otomano estava em declínio. No entanto, ele escolheu não deixar a terra natal, para lutar pela liberdade. O senhor, pelo contrário, seguiu o caminho do exílio, como o seu tio-avô Gebrayel. Por que não aceitou fazer parte da minoria do Oriente que “recusa responsabilizar apenas os inimigos pela sua incapacidade de se modernizar”, como disse numa entrevista ao jornal libanês L’Orient-le Jour?

Essa é uma questão que me coloquei várias vezes, sobretudo na preparação deste livro. Sempre que tinha de lidar com o debate familiar da emigração, questionava a minha própria emigração.

Eu não tencionava emigrar. Sempre me convenci de que viveria no meu país para sempre. O que me empurrou para fora do país foi uma guerra [civil 1975-1990].

Todas as gerações tiveram uma razão para partir, a tirania dos otomanos ou outros problemas. Quando era jovem, pensei que a minha geração não teria de partir. Mas também tive problemas que me forçaram a partir.

Fiz esta escolha porque não queria que os meus filhos crescessem num país onde crianças de 16 anos usavam armas, matavam e eram mortos. Essa foi a minha razão.

Respeito a opção do meu avô. No entanto, também reparei que acabou a sua vida muito desiludido. Ele insistiu em ficar na sua aldeia, tentou construir uma escola. Creio que morreu muito triste e amargo porque sentiu que falhou.

Mais do que uma vez confessou: “Estou cansado de tentar ensinar pessoas num país onde não dão valor ao que eu faço.” O debate sobre a emigração continua e continuará depois de mim.

Cada pessoa tem de fazer escolhas. A minha escolha, se eu tivesse de a fazer hoje, era a de viver num lugar onde pudesse escrever livremente e viver livremente. Esse é o meu único critério.

E o Líbano, onde nasceu, não é esse tipo de lugar?

Vamos pôr as coisas do seguinte modo: sinto que posso escrever livremente no lugar onde agora vivo [Paris].

© canalblog.com

A questão da emigração tem muito a ver com identidades. O Líbano é um país de múltiplas e contraditórias identidades. A sua própria família é cristã de vários ritos, às vezes em conflito. Hoje, na Europa, a definição de identidade torna-se cada vez mais religiosa e cada vez mais violenta. Vê o perigo de um confronto intercomunitário?

Infelizmente, creio que o risco existe. É extremamente perturbador, por exemplo, o que está a acontecer na Holanda [o assassínio do cineasta Theo Van Gogh, autor de um documentário crítico do Islão, e outros ataques de motivação confessional].

Creio que as relações entre pessoas de diferentes credos religiosos, sobretudo entre muçulmanos e cristãos, entre muçulmanos e judeus, caracterizam-se cada vez mais pelo ódio e violência. Tenho a impressão de que todo o mundo se está a tornar uma espécie de Líbano do tempo da guerra civil. Vivemos uma espécie de guerra civil mundial.

O termo “libanização” chegou a ser usado para definir as guerras nos Balcãs, após o colapso da Jugoslávia…

… é verdade. Às vezes creio que há um certo grau de ‘libanização’, embora eu não goste desse termo. Mas a realidade é que a evolução parece essa e isso é extremamente perigoso. Precisamos de resolver os problemas das identidades, da coexistência de pessoas de origens diferentes. Não sinto que o mundo esteja a seguir o caminho certo.

O que propõe?

É claro que, pessoalmente, não tenho soluções. Mas temos de mudar as nossas atitudes em relação às identidades. Temos de reflectir mais sobre a coexistência de mundos diferentes. Apenas falamos de diálogo de uma maneira superficial, que não conduzirá a lado nenhum. Precisamos de enfrentar os problemas com maior seriedade.

Mas a iniciativa deve ser de quem? O senhor, como imigrante em França, diz que tem orgulho da sua integração e declara o seu amor pela língua francesa. Quando procurou refúgio, disse que chegou “para dar e receber”. Hoje, no entanto, vemos que muitos imigrantes adoptam posturas reivindicativas agressivas. Querem impor valores culturais e religiosos aos países de acolhimento. Ao fazê-lo, não estão a contribuir para que a Europa se torne uma fortaleza intransponível?

No meu livro Identidades Assassinas [Ed. Difel, 2009] digo que tem de haver reciprocidade. O imigrante deve promover elementos da sua cultura, mas, ao mesmo tempo, absorver elementos da cultura do país onde escolheu viver. Por outro lado, o país que acolheu o imigrante deve também aceitar alguns elementos da cultura deste.

Tem de reconhecer os seus esforços de integração e estar pronto a responder a essa integração com gestos de aceitação. Em ambos os lados há problemas. Vou dar um exemplo: quando alguém vai viver para um país, o seu dever é aprender a língua desse país, mas preservando a língua materna.

O dever do país de acolhimento é facilitar o conhecimento da segunda e da primeira línguas. Os problemas estão nos dois lados. Alguns imigrantes não sentem necessidade de aprender a língua do país que os acolheu, e o país que os acolheu também lhes nega o direito de se exprimirem na língua do país de origem.

O que eu insisto, em Identidades Assassinas, é que cada um deve saber o que dar e o que receber. Há falta de vontade para resolver estas questões delicadas.

© cdn-images-1.medium.com

Como escritor, é natural que dê uma grande importância à língua. No entanto, o maior confronto não será religioso?

Absolutamente. Eu sou defensor da estrita separação da vida religiosa, política e social. Que fique bem claro: uma sociedade secular não pode aceitar nenhum tipo de mistura entre religião e política.

O problema é que a religião tem sido uma afirmação de identidade e não apenas uma crença. As pessoas sentem que devem insistir na sua identidade porque não estão integradas na sociedade. Tenho a certeza de que se os imigrantes argelinos em França pudessem exprimir-se mais facilmente em árabe não sentiriam necessidade de exagerar a sua identidade muçulmana.

Se eles se sentissem bem com a sua identidade cultural, não precisariam de procurar compensação na religião. Se eles se sentissem integrados no campo social, sem discriminação no trabalho, sem serem olhados com suspeição devido à sua cor de pele ou ao seu nome, não precisariam de reforçar as credenciais religiosas.

Os argelinos em França não têm liberdade para se exprimir em árabe? Para escrever em árabe? Para cantar em árabe?

Não propriamente, porque há uma história, a da Argélia [colonial], que é a da supressão da língua árabe. Isso deixou marcas profundas na sociedade. O que eu quero dizer é: se aceitarmos que as pessoas se sintam desconfortáveis na sua cultura, elas insistirão demasiado nos aspectos religiosos. Vivemos num estado de confrontação.

Pensava que podíamos evitar este ‘choque de civilizações’. Passei a minha carreira literária a advogar algo diferente. Pessoas como eu foram derrotadas. Essa é a verdade. Perdemos. Somos apenas vozes a gritar no deserto. A realidade no terreno é a de que estamos num ‘conflito de civilizações’.

Nunca antes houve tanto ódio, tanta violência, tanta incompreensão. Pessoas como eu estão a subir um caminho íngreme em busca da coexistência, mas ninguém nos ouve. No mundo árabe, a única força política actual são os islamistas…

… o fracasso do mundo árabe não se deve também, em parte, a pessoas como o senhor que, no Ocidente, absorveram os valores universais da democracia e da liberdade, mas depois não os transmitiram às suas próprias sociedades?

Bem, em parte, sim. Mas eu sou uma minoria no mundo árabe. Não posso ter um papel de liderança. Pessoas como eu são estranhos em toda a parte. Pessoas como eu, ou como o meu avô, tiveram sonhos e esperanças, mas nunca tiveram poder para mudar as coisas como desejariam.

É óbvio que há um fracasso histórico no mundo árabe. É óbvio que o mundo árabe perdeu o rumo. Vai para lado nenhum. Não tem perspectiva. Para mim, ao mesmo tempo, também é verdade que o Ocidente tem vindo a perder credibilidade.

Tem vindo a perder a capacidade de transmitir os seus valores ao resto do mundo. O Ocidente não está a propor nada ao resto do mundo. E o mundo islâmico nada tem para propor.

© rts.ch

Estamos, portanto, num impasse…

… sim, estamos num impasse. O mundo está em muito mau estado. Espero que não fique assim durante gerações, mas nunca, no passado, a situação do mundo foi tão preocupante.

O seu livro Samarcanda evoca a cruel seita muçulmana dos Assassinos. Para o académico americano Bernard Lewis, eles sempre estiveram condenados a desaparecer (aliás, deles emanou a moderada subseita do Ismailismo). O historiador francês Gilles Kepel também considera que os ataques terroristas a que hoje assistimos são reveladores da decadência e não da ascensão do integrismo islâmico. Pensa do mesmo modo ou é mais pessimista?

Bernard Lewis e Gilles Kepel são especialistas no mundo islâmico. Eu não sou. Sou um romancista. Um sonhador. Um utópico. Leio as análises deles e continuo a achar que uma parte do problema é o facto de o mundo islâmico ter perdido o seu rumo. Mas há um problema mais abrangente: o de não ter sabido lidar com a sua identidade.

Quem somos nós? Como é que o mundo pode ser governado? Qual o futuro da democracia? Ainda há futuro para a democracia? Será que é possível a liderança do mundo continuar a ser eleita apenas por cinco por cento da população mundial? Para onde vai o mundo? Para onde vai a Europa? Estamos perdidos.

Gosto muito do título de um livro do [filósofo judeu] Maimónidas, O Guia dos Perplexos [ou Guia dos Indecisos, escrito em árabe, em 1190, em honra dos intelectuais cujas posições os colocaram em conflito com a fé]. Precisamos de saber como sair deste imbróglio.

Numa recente entrevista, a Le Figaro, fez duas declarações controversas: que “o direito à diferença é um slogan do apartheid“, e que “dar direitos às comunidades é o equivalente a tornar cidadãos prisioneiros das suas próprias comunidades”. Pode explicar melhor o que quis dizer?

Foram palavras ditas para provocar. Creio que um país com pessoas de diferentes origens deveria fazer com nenhum desses indivíduos fosse discriminado, que todos fizessem parte da sociedade. Um país não é uma federação de comunidades. O Estado não deve acomodar comunidades ou dar-lhes quotas. Eu acredito numa sociedade de indivíduos.

Não se podem encorajar subúrbios separados e culturas segregadas numa mesma cidade, só para manter diferentes estilos de vida. Não defendo que as pessoas vivam lado a lado sem se conhecerem.

Defendo pessoas que se juntam, que se casam uns com os outros, que comem a comida uns dos outros, formando uma nação comum e não um grupo de comunidades. Não sou a favor de os indianos terem o seu bairro ou de os africanos terem o seu bairro… Isso é apartheid! Não é democracia.

Sem comunidades, os cidadãos mantêm a sua identidade?

É uma questão de dar e receber. Mantêm elementos da sua cultura e assimilam elementos culturais do país que os acolheu. Não podem viver em guetos. Se reconhecermos comunidades, as pessoas que as integram ficam subjugadas por elas. Têm de usar as roupas que a comunidade exige. Casar com quem a comunidade exige. Teremos de as libertar.

© meridionalfm.com.br

Voltando ao Médio Oriente: como jornalista e como libanês, como vê o futuro da região depois da morte do líder palestiniano Yasser Arafat?

Eu espero que seja um futuro de paz, porque acredito que a paz é possível. Acredito que é possível aos povos da região encontrarem uma solução que os deixe prosperar sem estarem sob ameaça. No entanto, infelizmente, não penso que a morte de uma pessoa possa fazer a diferença.

Uma nova geração de líderes israelitas e palestinianos não poderia fazer a diferença?

Não tenho a certeza de que a nova geração esteja mais preparada para a paz. Talvez daqui a cinco anos eu tenha outra opinião. Hoje, tenho apenas esperança. Não acredito em nenhuma solução.

@ EFE | El Correo

O Líbano, onde nasceu, esteve sempre de uma maneira ou de outra dependente de forças estrangeiras, fossem franceses, israelitas ou sírios. Um país com 17 confissões religiosas a reclamar o poder conseguirá sobreviver sem interferência externa?

Creio que viveria muito melhor sem a influência externa. A presença de tropas estrangeiras não é factor de estabilidade ou de unidade. Se o país for dono do seu destino será um bom passo.

As feridas da guerra civil [1975-1990]  já estão cicatrizadas? As pessoas já esqueceram os massacres e as batalhas que deixaram milhares de mortos?

Não tenho a certeza se as pessoas esqueceram, mas tenho a certeza de que a presença de tropas estrangeiras [30.000 soldados sírios] não sarou as feridas da guerra.

Podem os diferentes grupos religiosos do Líbano coexistir sem essa presença externa, que parece mantê-los unidos, ainda que artificialmente? O Líbano é um melting pot de cristãos, de muçulmanos, de drusos…

O mundo inteiro é um melting pot. Se não pudermos viver juntos porque somos diferentes, então todo o mundo estará condenado.

Li num artigo que os seus admiradores lhe chamam “Mr. Xerazade” por ser um contador de histórias. Acha divertido?

Isso foi uma alcunha que alguns jornalistas me deram. Eu rio-me. Uma das grandes diferenças entre mim e Xerazade, além de ela ter sido, supostamente, uma bela senhora, é que eu não sou, de maneira nenhuma, um contador de histórias.

Sou, sim, um escritor de histórias. O que é irritante é que, quando alguém vem do Oriente, é logo associado às Mil e Uma Noites. Temos de ultrapassar este enorme fosso entre dois mundos. Temos de pôr fim aos estereótipos e reflectir seriamente sobre os problemas que juntos teremos de enfrentar.

[Em Junho de 2011, Maalouf foi eleito membro da prestigiada Academia Francesa, ocupando o lugar deixado vago pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, que morreu dois anos antes, em Outubro.

A Academia Francesa foi criada, em 1635, por Richelieu, com o objectivo de preservar a Língua Francesa e escrever seu dicionário. Actualmente, a Academia é constituída por 40 membros, conhecidos como os “Quarenta” ou os “Imortais”.

Um dos livros mais recentes de Maalouf, “Un fauteuil sur la Seine”, é mais do que uma biografia das 18 figuras que ocuparam a 19ª poltrona, que hoje lhe pertence: é o “retrato de quatro séculos de história da França”.

Em Julho de 2019, Amin Maalouf recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian 2019, no valor de 100 mil euros, a fundação reconhecendo-o como “um dos nomes mais influentes e respeitados do mundo árabe.]

© Le Monde

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 21 de Novembro de 2004 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 21, 2004

Yasser Arafat (1929-2004): O líder que perdeu guerras e paz

Fez dos palestinianos uma nação, mas não conseguiu cumprir a promessa de lhes dar um Estado. Para alguns, Abu Ammar foi apenas um terrorista. Para muitos, os que glorificavam a sua bravura no campo de batalha e viam os seus fracassos como vitórias, foi um herói: a pedra que o seu povo lançou ao mundo. (Ler mais | Read more…)

© Kevin Frayer | AP

© Kevin Frayer | AP

Mohammed Abdel Rahman (nome próprio que significa “escravo de Alá, o Justiceiro”) Abdel Raouf (nome do pai) Arafat (nome do avô) al-Qudua (nome da família) al-Husseini (nome do clã) nasceu no Cairo, em 24 de Agosto de 1929. Pelo menos é o que atesta uma certidão encontrada no Egipto pelos jornalistas Janet e John Wallach, contrariando a versão que a OLP propagou durante anos de que o seu líder nascera em Jerusalém.

O homem que se tornaria o símbolo e líder de cinco milhões de palestinianos era filho de Abdel Raouf Arafat al-Qudua al-Husseini, natural da Faixa de Gaza, e de Zawha Abu Saud, membro de uma família da “pequena aristocracia” de Jerusalém. A avó paterna de Arafat era uma egípcia do clã Radwan.

Por que motivo haveria Arafat de distorcer a autobiografia, se ninguém podia pôr em causa a sua “palestinianidade”? Talvez porque os palestinianos usaram o nascimento na Palestina como o seu “mais importante argumento moral e político” contra os imigrantes sionistas, observou o biógrafo Danny Rubinstein.

Os judeus de Israel eram apresentados como “invasores estrangeiros que chegavam para pilhar as casas e as terras” dos árabes. A ênfase na natividade dos palestinianos reforçou-se ainda mais após a guerra de 1948 quando 750 mil se tornaram refugiados em Gaza, na Cisjordânia, na Síria e no Líbano, continuando até hoje a reclamar o direito de regressar aos lares onde os seus antepassados viveram durante centenas de anos.

A ligação à terra e à aldeia tornou-se no centro da identidade palestiniana. Arafat não era um filho da Nakba (Catástrofe), como os palestinianos definem o seu êxodo. No entanto, foi um dos primeiros a viver o “exílio”, quando o pai, na busca de uma herança que o arruinou, se instalou em 1927 em Sakakini, um bairro cosmopolita do Cairo, onde conviviam judeus, arménios, gregos e libaneses.

Foi aqui que o hiperactivo e rebelde Arafat começou a dirigir, aos 10 anos, um grupo de miúdos da sua rua. Já nesta altura, dizia a irmã mais velha, “ele adorava ser o chefe”.

© Mahmoud Zayyat | AFP

© Mahmoud Zayyat | AFP

Com um pai ausente e autoritário, Arafat não teve tempo para encontrar conforto junto da mãe. Ele completara quatro anos quando Zahwa morreu, em 1933, devido a uma paragem renal. O pai casou-se pela segunda vez, mas divorciou-se meses depois porque o mau relacionamento dos seus sete filhos (Arafat era o sexto) com a madrasta transformou o lar num campo de batalha.

Sem Zahwa, Arafat e o irmão mais novo, Fathi, foram enviados para casa de um tio materno, Selim Abu Saud, em Jerusalém. Começou assim uma estreita ligação de Arafat à cidade que haveria de reclamar como “capital do Estado palestiniano”.

Em Jerusalém, ele testemunhou os primeiros confrontos entre muçulmanos e judeus durante a revolta árabe de 1936; viu parentes serem detidos pelas autoridades mandatárias britânicas; e participou em angustiados debates familiares sobre o futuro da Palestina.

Quando o pai, casado pela terceira vez, o mandou chamar, em 1937, foi como se o mundo tivesse desabado a seus pés. No Cairo, desde cedo Arafat começou a envolver-se em política, sobretudo na universidade onde se formou em Engenharia Civil.

Nesta altura já lhe chamavam “Yasser”, um nome que quer dizer “sem problemas” e lhe serviu para ganhar as credenciais religiosas de um dos maiores guerreiros muçulmanos, Ammar ibn Yasser. Teria sido este companheiro do profeta Maomé e comandante das suas tropas que inspirou também Arafat a escolher um nome de guerra Abu Ammar (pai de Ammar).

Na capital egípcia, Arafat foi dirigente de duas uniões de estudantes palestinianos e muito cedo se envolveu na “luta contra os sionistas”. Participou sobretudo no contrabando de armas. Quando se ofereceu como voluntário para combater em Gaza, não entrou nas fileiras do Mufti de Jerusalém, Hajj Amin al-Husseini, mas integrado nas unidades da Al-Ikhwan Al-Muslimin (Irmandade Muçulmana).

O primeiro ataque foi lançado em 10 de Maio de 1948 contra o kibbutz (espécie de comuna agro-industrial) Kfar Darom. O raide falhou. No dia 15, os exércitos árabes unificados iniciaram a sua invasão. Os oficiais egípcios, que queriam conduzir uma guerra regular, confiscaram as armas dos que não eram soldados.

Um deles foi Arafat, que seguiu para Jerusalém. Também aqui foi desarmado pela Legião Árabe Transjordana. “O holocausto começou quando nos afastaram do campo de batalha na Palestina”, acusou.

© Abbas Momani |AFP

© Abbas Momani |AFP | The National

Ao regressar ao Cairo, concluiu que os árabes perderam porque os seus líderes “eram incompetentes e corruptos”. Convenceu-se também que, sozinhos, os palestinianos poderiam ter derrotado Israel.

Após a queda da monarquia egípcia, em 1953, Arafat tornou-se activista a tempo inteiro e chegou a ser preso por Gamal Abdel Nasser quando a Irmandade tentou matar o Presidente. Libertaram-no porque a filiação na confraria nunca foi registada.

Em Agosto de 1956, Arafat fez a sua primeira viagem ao estrangeiro. Na companhia de dois colegas, um deles Salah Khalaf (ou Abu Iyad), o futuro ideólogo da OLP, participou num Congresso Internacional de Estudantes em Praga.

Fez-se o centro das atenções: apareceu, pela primeira vez, em público com um kaffiyeh na cabeça. Era um lenço todo branco, diferente daquele que, a partir de 1967, passou a cobrir a sua calvície e se tornou uma das suas marcas registadas, o de xadrez negro e branco.

Mais tarde daria lições sobre as cores: “O branco é para os civis que vivem nas cidades; o vermelho e branco é para os beduínos do deserto, sobretudo os do Sul da Palestina, da Jordânia e da Arábia Saudita; o negro e branco é para os camponeses. “O kaffiyeh tinha sido, durante a rebelião de 1937-39 contra os britânicos, o emblema dos combatentes palestinianos.

Em Praga, Arafat voltou a fazer dele um símbolo nacional. No início, demorava pelo menos uma hora a enrolá-lo, para que assumisse a forma do mapa da Palestina histórica, sem Israel. Em Outubro de 1956, uma força da ONU interpôs-se entre o Egipto e Israel, após a crise do Canal do Suez. Os fedayin ficaram sem espaço para a luta armada.

© Abbas Momani | AFP

© Abbas Momani | AFP | The National

Arafat emigrou para o protectorado britânico do Kuwait e, a partir de 1958, ele e o amigo Abu Iyad lançaram uma revista mensal: Filastinuna, Nida ‘Al Hayat (“Nossa Palestina, O Apelo da Vida”). Impressa numa máquina de stencil, estava repleta de fotos, poemas e prosa. Os artigos eram anónimos, com a rara excepção de um, na primeira edição, com as iniciais Y.A..

Entre os temas abordados constavam o direito de retorno dos refugiados, críticas aos regimes árabes e apelos aos palestinianos para iniciarem a “violência revolucionária”. O objectivo era abrir um canal de comunicação com a diáspora, mas os seus autores tinham de agir na clandestinidade. Em 1959, a Filastinuna começou a ser editada em Beirute.

Entre 5000 e 10.000 exemplares eram distribuídos regularmente aos palestinianos no Médio Oriente e noutras partes do mundo. Cada número tinha um apartado postal (1684) para o qual os leitores poderiam escrever, criando assim uma útil rede de contactos.

Arafat e Abu Iyad já tinham definido uma estrutura organizativa e o programa político quando chegou a hora de escolher o nome do seu movimento. A sugestão terá sido dada, num primeiro encontro, no Outono de 1959 (não há unanimidade sobre o dia nem o mês), por Adel Abdelkarim, professor de Matemática.

A ideia era pegar nas palavras árabes de Movimento de Libertação da Palestina (Harkat Al-Tachrir Al-Watanni Al-Falestinia) e inverter as iniciais, porque “Hataf” traduz-se por “Morte” mas “Fatah” tem o significado de “Conquista”.

Em 1960, a Fatah tomou a decisão estratégica de angariar fundos para expandir as actividades. Arafat foi o principal “cobrador”. A mensagem de que os palestinianos deveriam envolver-se sozinhos numa “resistência armada” foi aceite sem reservas.

A partir de 1961, Arafat tornou-se, efectivamente, um líder de guerrilha, enviando voluntários palestinianos para campos de treino na Síria, no Iraque e na Argélia. Em 1964, uma cimeira árabe convocada por Nasser, no Cairo, criou a Organização de Libertação da Palestina (OLP), sob a liderança de Ahmad Shukeiri. Este advogado e diplomata palestiniano, que nunca pegara numa arma, não gerava simpatias, e a sua imagem degradou-se ainda mais depois de ameaçar de “lançar os judeus ao mar”.

© Mohammed Abed | AFP

© Mohammed Abed | AFP

Arafat viu na criação da OLP um desafio à sua autoridade e à existência da Fatah, mas sugeriu uma campanha de sabotagem contra Israel. Não querendo perder o apoio dos árabes, Shukeiri recusou. As relações mútuas azedaram.

Em 1964, movido por um sentimento de urgência, Arafat fez uma proposta de compromisso aos que, na Fatah, se mostravam relutantes em dar-lhe carta branca para avançar. O movimento começaria os ataques com outro nome, Al-Asifa (A Tempestade).

“Se Al-Asifa fosse bem sucedida, a Fatah apoiaria a luta armada; se falhasse, seria Al-Asifa e não a Fatah a assumir responsabilidade pelo fracasso.” O primeiro ataque foi a 3 de Janeiro de 1965.

Comandos entraram na aldeia israelita de Beit Netopha, a partir da Jordânia, e colocaram dez barras de dinamite num canal. Estas não explodiram porque um funcionário da companhia das águas as descobriu a tempo e porque o detonador tinha uma falha.

A deflagração teria causado danos consideráveis. Um mês depois, Arafat enviou um novo grupo para se infiltrar em Israel, mas foi interceptado por uma patrulha do exército jordano que matou um dos elementos, Ahmad Musa.

Este incidente serviu para a Fatah afirmar que “o primeiro mártir da resistência armada palestiniana foi morto por árabes.” No dia 5 de Junho de 1967, a guerra com que os árabes se iludiram dizendo a si próprios que iriam restaurar os direitos palestinianos permitiu ao Estado judaico apoderar-se, em seis dias, da península do Sinai e da Faixa de Gaza ao Egipto; da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Leste, à Jordânia; e dos montes Golã à Síria.

Para Arafat, o medíocre desempenho dos árabes frente a Israel vingava o que ele sempre tinha dito. Que era necessário os palestinianos agirem por conta própria. “A derrota de 1967 é o prelúdio para uma grande vitória”, repetia.

Em Agosto de 1967, procurando organizar uma insurreição nos territórios ocupados com um “exército do povo”, Arafat infiltrou-se na Cisjordânia. Dividiu a região em três sectores Sul, Centro e Norte (Hebron, Jerusalém e Nablus), e ordenou a formação de células. Viajava sob disfarce de aldeia em aldeia e foi por esta altura que ganhou a alcunha de Al Khityar (O Velho), iludindo soldados israelitas e colaboracionistas palestinianos.

© Mahmoud Zayyat | AFP | Getty Images

© Mahmoud Zayyat | AFP | Getty Images

Em Março de 1968, com a ajuda das tropas de Hussein, infligiu uma humilhação ao exército israelita na batalha de Karameh, povoação jordana cujo nome se traduz por “Dignidade”. O inconcebível balanço final, para Israel, foi de 28 mortos, 69 feridos e 34 tanques atingidos.

As baixas da Fatah e da Jordânia foram superiores: mais de cem mortos palestinianos e 20 entre os hashemitas. Os israelitas foram obrigados a reconhecer que estavam a enfrentar um “movimento sério”.

Aos biógrafos Andrew Gowers e Tony Walker, o general Yariv admitiu: “Embora, para eles [palestinianos], tivesse sido uma derrota militar, acabou por ser uma vitória moral.”

Em Setembro de 1968, numa cimeira em Cartum, os árabes lançaram-se praticamente nos braços de Arafat ao aprovar uma resolução que dizia “NÃO a negociações, NÃO ao reconhecimento e NÃO à paz” com o Estado judaico.

Em 1 de Fevereiro de 1969, o Conselho Nacional Palestiniano (CNP) reuniu-se no Cairo para consagrar Arafat líder da OLP.

A mesma reunião reviu a Carta aprovada em Jerusalém em 1964, substituindo o compromisso com o nacionalismo árabe (kawmia) pela referência a um Estado palestiniano (watania). À margem da reunião do CNP decorreu uma outra, a pedido de dois agentes do Shin Bet, serviço de segurança interna israelita.

Juntou Faisal al-Husseini, recém-libertado da prisão, Arafat e vários outros dirgentes da Fatah/OLP, que ficaram surpreendidos com a mensagem de que era portador o filho do herói Abdel Kader al-Husseini, morto na “Batalha de Jerusalém” em 1948.

“Diga a Arafat que estamos dispostos a negociar quando ele quiser, onde ele quiser, excepto num país do Leste [europeu] ou num país árabe”, pediram a Hussein os agentes que se identificaram apenas como Richard e Gadi.

Não deixa de ser simbólico que a proposta dos israelitas tivesse sido apresentada no dia em que Arafat foi entronizado chefe da OLP. Se ele tinha intenção de aceitar, Husseini logo o dissuadiu: “Creio que é preciso recusar.

Os israelitas querem abrir negociações mas assim que elas começarem, haverá fugas [de informação]. Se aceitarmos, não estaremos a dar um tiro nos pés mas na cabeça!” Husseini teria ficado impressionado com um artigo do israelita Uri Avnery publicado na imprensa hebraica no qual descrevia um cenário catastrófico: uma ofensiva do mundo árabe contra o movimento palestiniano.

Arafat concordou com o emissário: “Tens razão, seria um suicídio político.” A profecia de Avnery confirmou-se. Assim que se tornou líder da OLP, Arafat ordenou o envio de vários milhares de combatentes para a Jordânia – sem consultar o rei Hussein. Também expandiu a presença na Síria e no Líbano, onde proclamou a “República Fakhani”, nome do bairro de Beirute onde os “fedayin” instalaram um centro de comando.

© Abbas Momani |AFP

© Abbas Momani |AFP | The National

Enquanto os homens de Arafat prosseguiam as infiltrações em Israel, os guerrilheiros da FPLP, de George Habash, levavam a cabo audazes sequestros de aviões. Arafat reagia cinicamente: rejeitava os actos mas não condenava os autores.

Os sequestros tinham o benefício de chamar a atenção para a causa palestiniana. Ele gozava as vantagens sem assumir a responsabilidade. Adoptaria a mesma atitude após o regresso aos territórios ocupados, quando o Hamas e a Fatah recorreram a ataques suicidas contra civis israelitas.

Na Jordânia, que em 1970 tinha cerca de um milhão de palestinianos, os guerrilheiros, talvez mais de 40.0000 dispersos por uns 30 grupos, comportavam-se como bandos de criminosos. Raptavam diplomatas e jornalistas críticos, molestavam mulheres e humilhavam oficiais do exército, erguiam barricadas e cobravam impostos ilegais.

Entre meados de 1968 e o final de 1969, registaram-se cerca de 500 confrontos violentos com as forças do monarca. Arafat deixou os fedayin em rédea livre, temendo que eles (por mais insignificantes que fossem) tentassem retirar-lhe a liderança.

Para evitar um confronto fatal, Hussein convidou Arafat para ser primeiro-ministro do seu governo. Ele recusou. Os radicais da OLP apelavam ao derrube do monarca e tentaram assassiná-lo. Em 17 de Setembro de 1970, depois de Arafat lhe ter dado “24 horas para deixar o país”, o soberano hashemita declarou guerra aos palestinianos.

Sangrentos combates causaram milhares de mortos. Sabendo que uma negociação seria equivalente a rendição, Arafat foi obrigado a fugir para o Líbano com os seus guerrilheiros. A vingança começou a ser posta em prática em 28 de Novembro de 1970.

A primeira vítima foi o primeiro-ministro jordano, Wasfi Tell, assassinado no Cairo. A reivindicação foi feita em nome do Setembro Negro, uma criação de Abu Iyad com o beneplácito de Arafat.

Os alvos marcados para morrer eram atacados em qualquer lugar do mundo, de Telavive a Trieste. A maior ignomínia foi cometida em 5 de Setembro de 1972 durante as Olimpíadas de Munique. O ataque começou com a morte de dois atletas e com o sequestro de outros 11.

Uma intervenção das forças alemãs falhou e, no subsequente tiroteio, morreram mais nove israelitas, cinco dos oito atacantes e um polícia alemão. Os três raptores sobreviventes foram capturados mas depois libertados quando um avião da companhia Lufthansa foi sequestrado. As fotos dos encapuzados tornaram-se o rosto do terror.

© Mohammed Abed | AFP

© Mohammed Abed | AFP

Era preciso mudar de rumo e o encorajamento foi dado pela URSS. Em 1973, durante uma visita a Moscovo, refere o historiador Yezid Sayigh, autor da obra monumental Armed Struggle and the Search for State, Arafat recebeu dos soviéticos a promessa de armas e treino militar.

Deram-lhe também um conselho: “Não há revolução no mundo que não tenha um programa para cada fase. Tem de haver fases na vossa luta. Não seria melhor lutar a partir de Tulkarm [na Cisjordânia], por exemplo, do que do exterior?”

Em 14 de Outubro de 1974 (depois de uma cimeira árabe na Argélia ter cancelado os três “não” a Israel aprovados na conferência de Cartum), Arafat obteve uma importante vitória diplomática. A Assembleia-Geral da ONU convidou a OLP a “representar o povo palestiniano” numa sessão sobre a Palestina, em Nova Iorque.

Foi uma votação esmagadora, que reflectia a mudança de posições no mundo: 115 votos a favor. Só os EUA, Israel, a Bolívia e a República Dominicana votaram contra. Em 28 de Outubro, numa cimeira árabe em Rabat, Arafat suplantou Hussein da Jordânia ao ver a OLP reconhecida, por unanimidade, como “único e legítimo representante do povo palestiniano”.

Uma semana antes, a França tornara-se o primeiro país da Europa Ocidental a estabelecer contactos de alto nível com a OLP. Em 13 de Novembro, as autoridades norte-americanas viram-se, contra a sua vontade, como anfitriões e protectores de Arafat, quando ele discursou perante a Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque, dizendo: “Hoje, eu trouxe um ramo de oliveira e a arma de um combatente da liberdade; não deixem que o ramo de oliveira caia da minha mão.”

No encerramento da sessão, uma esmagadora maioria concedeu à OLP o estatuto de observador (como o Vaticano e a Suíça) nas instituições das Nações Unidas.

Em 1975, quando uma guerra civil eclodiu no Líbano – frágil sociedade com 17 confissões religiosas e um exército partido em linhas sectárias -, Arafat cometeu o erro de alinhar com uma das partes em conflito. E, ao apoiar o Movimento Nacional Libanês, que unia drusos e sunitas de esquerda sob a liderança de Kamal Jumblatt (um druso) agravou velhas inimizades: com os cristãos maronitas pró-israelitas e com os sírios.

© Suhaib Salem | Reuters

© Suhaib Salem | Reuters

A guerra foi brutal. Um dos primeiros grandes massacres foi cometido no campo de refugiados de Karantina, situado numa área cristã de Beirute. Milicianos maronitas mataram cerca de 200 palestinianos. A vingança foi um assalto de unidades da Fatah a Damour, reduto do clã Chamoun. Após 48 horas de combates, os 2000 habitantes foram mortos ou fugiram.

Em 1976, foi a vez de a milícia Nimr (Tigres), de Dany Chamoun, bombardear Tel al-Zaatar, o maior campo de refugiados palestiniano. Os 30.000 habitantes, que já passavam fome e bebiam água de poços contaminados, renderam-se ao fim de 55 dias de cerco.

Numa orgia de sangue, os atacantes mataram 4.280 pessoas e feriram outras tantas. Foi também em 1976, receoso que a minoria cristã na Síria fosse impelida a juntar-se aos maronitas libaneses numa aliança com Israel, que o Presidente sírio, Hafez al-Assad, mandou chamar Arafat ao seu palácio.

O chefe da OLP jamais esqueceu o que ouviu: “Tu não representas a Palestina mais do que eu. Não há um povo palestiniano, nem uma entidade palestiniana, há apenas a Síria e vocês são parte inseparável do povo sírio, e a Palestina é parte inseparável da Síria.” Nem a primeira-ministra israelita Golda Meir, numa entrevista que deu ao “Sunday Times”, em 1969, tinha sido tão frontal, quando afirmou: “O povo palestiniano não existe!”

Em 1979, uma revolução islâmica no Irão deixou Arafat eufórico. O maior aliado dos EUA e de Israel no Médio Oriente, o Xá Mohammad Reza Pahlavi, foi derrubado pelo Ayatollah Khomeini. Na varanda da sua residência em Beirute Ocidental, Arafat disparou tiros de alegria para o ar.

Terá sido a primeira vez que alguém o viu usar a sua arma pessoal. Arafat e Sadat mantinham contactos desde os tempos em que o teólogo xiita tinha sido deportado para a cidade iraquiana de Najaf.

O líder palestiniano foi o primeiro dignitário estrangeiro a visitar o ayatollah quando ele regressou a Teerão após o exílio em França. No dia 17 de Fevereiro, quando seu avião se aproximava do aeroporto, os iranianos enviaram uma esquadra de caças para o escoltar até à pista, levando-o por momentos a recear que se tratava de um ataque israelita para o matar.

© irishtimes.com

A cooperação foi efémera mas frutífera. A antiga missão comercial de Israel foi transformada na embaixada da OLP. Esta ajudou o Irão a formar os Guardas da Revolução e um novo serviço de espionagem que substituiu a implacável SAVAK, polícia secreta do deposto imperador, treinada por Israel. As relações com os iranianos, devido a um grande fosso ideológico e cultural, nunca chegaram a consolidar-se.

Em 1980, a ruptura com os revolucionários em Teerão consumou-se quando, no dia 22 de Setembro, o Iraque invadiu o Irão, obrigando Arafat a alinhar com Saddam Hussein. Khomeini já se tinha enfurecido com Arafat quando este, no início de Novembro de 1979, lhe pediu a libertação dos reféns norte-americanos na embaixada dos EUA em Teerão.

Arafat queria agradar ao Presidente Jimmy Carter, que indirectamente, solicitara os seus bons ofícios, mas o “ayatollah” ficou furioso por o líder da OLP estar a interferir no seu confronto com o “Grande Satã”.

É certo que um grupo de 13 cativos (cinco mulheres e oito negros) saíram em liberdade, e que o secretário de Estado de Washington, Cyrus Vance, escreveu uma carta de agradecimento a Arafat. No entanto, talvez desconfiado de que o dirigente palestiniano fornecera informações sobre as forças iranianas, Khomeini negou que Arafat tivesse influenciado a sua decisão.

Em sinal de desprezo, passou a tratá-lo como Al-Qazam ou “Anão”. Em Agosto de 1981, o então príncipe Fahd, herdeiro do trono saudita, apresentou um plano (de que Arafat era co-autor) apelando à retirada de Israel dos territórios ocupados e à criação de um Estado palestiniano independente após uma tutela provisória da ONU.

O texto não mencionava a OLP, e o seu artigo 7 evocava “o direito de todos os Estados da região a viver em paz”. Ou seja, reconhecia implicitamente, pela primeira vez, a existência da “entidade sionista”. Estas propostas foram levadas a uma cimeira árabe, em 25 de Novembro, em Fès, Marrocos. A Síria boicotou o fórum, mas aprovou uma “versão melhorada” noutra cimeira, em 1982.

© Paula Bronstein | Getty Images)

© Paula Bronstein | Getty Images

Arafat ansiava aproximar-se dos EUA (nos anos 1970 havia colaborado com a CIA no Líbano, através do seu protegido Ali Hassan Salameh) e não desistiu. A 4 de Agosto de 1981, encontrou-se com o amigo americano Edwin Mroz e pediu-lhe que entregasse à Administração de Ronald Reagan uma proposta em sete pontos, semelhante ao “plano Fahd”.

Mroz obteve licença de Reagan e do seu secretário de Estado, Alexander Haig, para convencer Arafat a reconhecer Israel e a renunciar ao terrorismo. Nos nove meses seguintes, Mroz passou mais de 500 horas em 50 reuniões separadas com o líder palestiniano, nos sítios mais inesperados, incluindo uma enfermaria onde Arafat convalescia de uma cirurgia para remover pedras nos rins.

O assassínio do Presidente egípcio, Anwar Sadat, em Outubro de 1981, deixou Arafat assustado. Não queria ter o mesmo destino do árabe que duas vezes surpreendeu os israelitas – com a guerra de Outubro de 1973 e a visita a Jerusalém em 1977.

Quando Mroz lhe pedia para ceder às exigências de Washington, a resposta de Arafat era, invariavelmente: “Sim, mas quando chegar a altura certa”. Esta indefinição tornara-se quase uma assinatura. “Não podemos dizer que não a tudo, e também não podemos dizer que sim. Temos de aprender a dizer ‘sim’, mas’ e ‘não, mas'”, dizia Arafat.

Na OLP inventou-se a palavra, “lam”, combinação dos termos árabes “la” (não) e “nam” (sim) para caracterizar o que se podia esperar do líder.

Em Maio de 1982, Mroz foi intimado por Haig a suspender o diálogo. O ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, já obtivera “luz amarela” do chefe da diplomacia de Washington para lançar uma invasão do Líbano. O pretexto chegou quando, no dia 3, o grupo do mercenário palestiniano Abu Nidal feriu gravemente a tiro o embaixador israelita em Londres, Shlomo Argov.

Ao governo israelita de Menachem Begin não interessou saber que o responsável pelo atentado era um inimigo de Arafat. Também não parecia interessar o facto de nos 12 meses que precederam a invasão, os guerrilheiros palestinianos estarem a respeitar um acordo de cassar-fogo mediado pelo enviado norte-americano Philip Habib.

Begin e Sharon há muito tinham delineado planos de ataque e estavam determinados a destruir o “estado dentro do Estado” e o império financeiro que a OLP construíra na “Suíça do Médio Oriente”, graças a alianças político-militares com grupos sunitas, xiitas e drusos.

© Mohammed Ballas | AP

© Mohammed Ballas | AP

Em 6 de Junho de 1982, cerca de 80 mil soldados israelitas, apoiados por 1240 carros de combate, mais de 1500 outros veículos blindados e uma sofisticada aviação, atravessaram a fronteira e entraram na “Fatahlândia”.

O objectivo final era formar um “eixo judaico-cristão” no Levante. A pedra angular deste plano era Bachir Gemayel, chefe da milícia falangista cristã (do Partido Kataeb) que uma vez disse: “O Líbano é fácil de comer, mas quase impossível de digerir”.

As autoridades israelitas puderam comprovar isso quando, depois de forçarem a expulsão do líder palestiniano e dos seus 15.000 fedayin, entre Agosto e Setembro de 1982, a Síria mandou matar Gemayel, recém-eleito Presidente.

A 15 de Setembro, desesperados, os israelitas entraram em Beirute Ocidental, maioritariamente muçulmana, e empreenderam uma campanha de bombardeamentos tão mortífera que até o amigo Reagan foi obrigado a telefonar a Begin: “Menachem, isto é um holocausto!”

Os falangistas, por seu turno, sedentos de vingança, foram autorizados por Sharon a entrar nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. De 16 a 18 de Setembro, mataram tudo o que lhes apareceu à frente. A Cruz Vermelha Internacional contabilizou 328 mortos e 911 desaparecidos; os palestinianos 1500 mortos; uma comissão de inquérito israelita entre 700 e 800 mortos.

No seu novo quartel-general em Tunes, provisoriamente instalado no Hotel Salwa Beach, 200 quartos de cinco estrelas, Arafat sentiu-se traído. Os EUA tinham dado garantias escritas de que os palestinianos seriam protegidos. Mas quando os falangistas entraram em Sabra e Shatila, os contingentes norte-americano, francês e italiano de uma força multinacional já tinham partido.

Reagan não teve alternativa a não ser fazer regressar os Marines (fuzileiros) e lançar uma iniciativa de paz, que previa o congelamento da colonização judaica e uma associação dos territórios ocupados à Jordânia.

Begin recusou. Arafat manteve a porta entreaberta, seguindo um dos seus lemas: “Quando só tenho duas opções, não descanso enquanto não encontrar uma terceira.”

Em 1983, Arafat enfrentou uma rebelião na Fatah em Tripoli, no Norte do Líbano, instigada por Assad, o rival que, em 23 de Junho de 1983, falhou uma tentativa para o matar, e que, no dia seguinte, o expulsou de Damasco considerando-o persona non grata.

© Mohammed Abed | AFP

© Hazem Bader | AFP | The National

Os combates inter-palestinianos duraram até 20 de Dezembro, quando Arafat se rendeu, partindo no Odysseus Elytis, um dos cinco navios gregos, com pavilhão da ONU, que pela segunda vez em menos de um ano haveriam de transportar os seus homens expulsos do Líbano. Ao sair de Tripoli, Arafat foi parar aos braços de Hosni Mubarak, o Presidente de um Egipto ostracizado pela paz com Israel.

Em 1984, reconciliou-se com Hussein da Jordânia e fez regressar a OLP a Amã para um congresso do Conselho Nacional Palestiniano que legitimou a sua liderança.

De 1985 a 1987, voltou a ser desafiado por Assad, que forneceu armas pesadas à milícia xiita Amal na chamada “Batalha dos Campos”, para impedir que os fiéis de Arafat voltassem a interferir na política libanesa. Morreram 2500 pessoas.

Em 1988, depois de recusar uma “confederação” com a Jordânia que não lhe dava soberania, Arafat decidiu jogar o que considerava o “último trunfo”.

Em 14 de Dezembro, no Palais des Nations em Genebra – no mesmo edifício em que a predecessora da ONU atribuiu à Grã-Bretanha um mandato sobre a Palestina em 1922 -, o líder palestiniano compareceu perante um batalhão de jornalistas, às 20h30. Pôs os óculos, pegou numa folha de papel e começou a ler uma declaração em inglês: “A nossa posição é clara”, disse com voz quase inaudível.

“Aceitamos o direito de todas as partes do conflito do Médio Oriente existirem em paz e segurança. Repito que renunciamos, total e absolutamente, a todas as formas de terrorismo.”

Os biógrafos Janet e John Wallach constataram que Arafat se enganou. Em vez de dizer “renunciamos” ao terrorismo disse “anunciamos”, embora emendasse rapidamente a “gaffe”. Andrew Gowers e Tony Walker ironizaram que “a palavra terrorismo soou a turismo”.

Os repórteres na sala queriam fazer mais perguntas, mas Arafat, incomodado, teve um dos seus habituais assomos de fúria: “Basta! Basta! O que pretendem mais? Que eu faça um striptease?”

Não era preciso. Foi o suficiente para os EUA iniciarem um tímido relacionamento oficial. Para chegar aqui, foi preciso, no entanto, eclodir uma sublevação popular (a primeira Intifada) nos territórios ocupados, em 1987, e a OLP proclamar, em 1988, em Argel, um Estado palestiniano no exílio, abandonando os sonhos de uma “Grande Palestina” (Hussein desistiu também de anexar a Cisjordânia ao seu reino).

Foi sobretudo a revolta em que crianças enfrentavam tanques israelitas com pedras que levou os EUA a mudarem de atitude. O mundo tomara consciência, através da televisão, de como a ocupação israelita desumanizava os palestinianos.

Em 1990, um ataque palestiniano em Israel e o apoio de Arafat à invasão iraquiana do Kuwait deixaram a OLP totalmente marginalizada.

© deseretnews.com

Os EUA suspenderam os contactos. As petromonarquias do Golfo cancelaram os financiamentos, deixando falida uma organização que chegou a ser “o mais rico movimento de libertação do mundo”, com centenas de empresas e acções em Wall Street.

A sorte de Arafat é que, em Washington, estava uma Administração (de George Bush, pai) disposta a lançar um processo de paz, depois de derrotar Saddam Hussein na guerra do Golfo de 1991.

Em Novembro, os soviéticos de Mikhail Gorbatchov e os habitantes dos territórios ocupados forçaram Arafat a aceitar uma conferência internacional em Madrid, onde a OLP não tinha assento. Todos os que integraram uma delegação jordano-palestiniana foram, no entanto, escolhidos por ele e não tomaram nenhuma decisão sem o consultarem.

O processo mergulhara num impasse quando, em Janeiro de 1993, israelitas e palestinianos começaram negociações secretas em Oslo, na Noruega. Em Setembro, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, o general que conquistou a Cisjordânia e Gaza na guerra de 1967 e prometera “quebrar os ossos” dos activistas da Intifada, assinou um acordo com Arafat, na Casa Branca, em Washington. Israel e a OLP reconheciam-se mutuamente.

Em Julho de 1994, Arafat deixou definitivamente o exílio em Tunes e regressou a Gaza. Os acordos de autonomia assinados com os israelitas permitiram que várias cidades e aldeias ficassem sob controlo palestiniano. Indignado com estas concessões, um extremista judeu assassinou Rabin em 4 de Novembro de 1995.

No ano seguinte, em 20 de Janeiro, Arafat foi eleito presidente da Autoridade Nacional Palestiniana com uma esmagadora maioria de votos. Não beneficiou de um período de graça.

Em Fevereiro e Março de 1996, a Jihad Islâmica e o Hamas levaram a cabo uma série de ataques suicidas, forçando-o ao “papel bizarro de guardião de Israel e carcereiro dos palestinianos.”

Os actos terroristas contribuíram para que Benjamin Netanyahu, do partido direitista Likud, ganhasse as eleições em Maio de 1996, derrotando o “candidato de Arafat”: Shimon Peres.

Bibi era um opositor dos Acordos de Oslo e fez tudo para os renegociar, inviabilizando compromissos assumidos. Em Maio de 1999, com o processo de paz agonizante, os israelitas elegeram Ehud Barak, ex-chefe do Estado-Maior do Exército.

O modo como ele conduziu as negociações com os árabes gerou controvérsia. Na Cisjordânia e Faixa de Gaza, só progrediam as escavadoras que abriam as fundações de novos colonatos. Segundo o movimento Peace Now (Paz Agora), nem Netanyahu expropriou tantas terras para expandir a colonização como o trabalhista Barak.

© Ashraf Amra|APA Images | ZUMAPRESS.com

© Ashraf Amra |APA Images | ZUMAPRESS.com

Em 2000, o Presidente dos EUA, Bill Clinton, com pressa de solucionar o conflito antes de findar o seu mandato, juntou Barak e Arafat na estância de Camp David (Maryland), de Julho a Dezembro. Voltou a juntá-los em Taba, no Egipto, em Janeiro de 2001.

Em Camp David, Barak propôs uma retirada da Cisjordânia que permitisse a Israel anexar 9 por cento do território, previamente seleccionado, para manter 80 por cento dos colonos judeus. Os palestinianos seriam “indemnizados” com terras não especificadas em Israel e equivalentes apenas a 1 por cento da Cisjordânia.

Barak insistia também em manter a soberania israelita sobre Haram al-Sharif, o terceiro lugar sagrado do Islão, embora aceitasse que algumas áreas árabes de Jerusalém ficassem sob controlo palestiniano.

Quanto ao direito de retorno dos refugiados palestinianos, Barak sugeria vagamente uma “solução satisfatória” o que, segundo Robert Malley, conselheiro de Clinton presente nas negociações, deixou Arafat céptico. Ele nunca confiou no sucessor de Rabin.

O maior erro apontado a Arafat foi não ter apresentado contra-propostas a Barak, explicando os detalhes do que realmente lhe foi sugerido. Ao recusar o plano de Camp David, foi imediatamente acusado de querer destruir Israel.

No entanto, sublinhou Malley, no New York Times, os palestinianos aceitaram em Camp David a criação de um Estado nas “fronteiras” da guerra de 1967; aceitaram a anexação de território da Cisjordânia para acomodar colonatos, ilegais segundo a lei internacional; aceitaram a soberania israelita sobre bairros judaicos de Jerusalém Leste (que não faziam parte de Israel antes de 1967); e, embora insistissem no reconhecimento do direito de retorno dos refugiados, concordaram que ele teria de ser aplicado de maneira a proteger os interesses demográficos e de segurança de Israel.

“Nem Sadat do Egipto, nem Hussein da Jordânia, e muito menos Assad da Síria, admitiram alguma vez estes compromissos”, sublinhou Malley.

Nas negociações de Taba, os palestinianos apresentaram mapas e números, aceitando uma anexação israelita de 3 por cento da Cisjordânia em troca de 3 por cento de terras em Israel.

Barak cedeu em relação à soberania palestiniana sobre Haram al-Sharif e reduziu a zona a anexar na Cisjordânia de 9 para 6% .

Os palestinianos continuavam, porém, a ser compensados com uma área inferior de terras israelitas, o equivalente a 3% da Cisjordânia. Nesta altura, Barak já estava em queda nas sondagens e o candidato do Likud às eleições de Fevereiro de 2001, Ariel Sharon, avisou que não cumpriria nenhum compromisso derivado dos Acordos de Oslo, “a maior desgraça que se abateu sobre Israel”.

Em 28 de Setembro de 2000, Barak autorizou Sharon a visitar a Cúpula do Rochedo/Monte do Templo, em Jerusalém Leste.

© Musa al-Shaer | AFP | Getty Images

© Musa al-Shaer | AFP | Getty Images

A visita foi o detonador da sublevação, baptizada pelo jornalista israelita Ehud Ya’ari de Intifouda (fouda é o termo árabe para anarquia). Que Arafat ordenou a violência foi posteriormente desmentido por uma fonte insuspeita: Amos Malka, que na época era chefe da espionagem militar.

Barak e Sharon, revelou Malka citado pelo diário hebraico Ha’aretz, em Julho deste ano, foram deliberadamente enganados por Amos Gilad, chefe do departamento de investigação dos serviços secretos militares, sobre as reais intenções do líder palestiniano.

O facto de Arafat ter recusado as propostas de Camp David não significava que ele renegara a solução de dois Estados. Prevaleceu o mito. O investigador palestiniano Khalil Shikaki (Foreign Affairs) concluiu, por seu turno, que a segunda Intifada foi, acima de tudo, uma revolta palestiniana contra Arafat pelo fracasso dos Acordos de Oslo.

Como Arafat temia, Sharon sucedeu a Barak como primeiro-ministro, em 6 de Fevereiro de 2001. A sua eleição foi acompanhada de ataques palestinianos de uma barbaridade sem precedentes. “Kamikazes” do Hamas e da Fatah visaram civis em restaurantes ou autocarros.

Sharon retaliou com a maior operação militar desde a invasão do Líbano. Cercou os habitantes da Cisjordânia e Gaza, dividindo os territórios em “200 enclaves sem qualquer ligação entre eles”, segundo a revista The Economist.

Casas foram demolidas e oliveiras arrancadas com bulldozers. Caças F-16 destruíram as infra-estruturas, políticas e de segurança, da Autoridade Nacional Palestiniana.

Foi posta em marcha uma campanha de assassínios selectivos de presumíveis terroristas. Um prolongado bloqueio aumentou o desemprego e a pobreza, deixando a economia palestiniana à beira do colapso.

A construção de um “muro defensivo” [ou de apartheid, segundo os palestinianos] para impedir a infiltração de bombas-humanas expropriou mais terras, aprisionou povoações e agravou ainda mais as degradantes condições de vida nos territórios.

Em Março de 2002, Arafat foi confinado pelo exército israelita ao seu bombardeado quartel-general em Ramallah. Em Junho, os EUA excluíram-no do processo de paz, exortando os palestinianos a elegerem novos dirigentes.

© Darren Whiteside | Reuters

© Darren Whiteside | Reuters

Em 2003, pressões internas e externas obrigaram Arafat a nomear, pela primeira vez, um primeiro-ministro. No entanto, insistindo em monopolizar o poder, esvaziou o governo das principais competências em matéria de segurança.

Com isso entrou em colisão com as várias sensibilidades da Fatah. Hoje, o seu grupo é um aglomerado de milícias, algumas das quais procurando abertamente derrubar a “corrupta velha guarda” de Tunes.

Sem herdeiro definido, vários analistas prevêem uma luta sangrenta pela sucessão, sobretudo agora que os israelitas se preparam para uma retirada de soldados e colonos de Gaza, reduto islamista. Os dirigentes mais credíveis que poderiam ocupar o lugar de Arafat já morreram: uns assassinados, como Abu Iyad e Abu Jihad; outros por doença, como Faisal Husseini.

Alguns estão na prisão, como Marwan Barghouti, ou demasiado velhos, como Haider Abdel Shafi (que morreria em 2007]. Por outro lado, a “jovem guarda”, como Jibril Rajoub e Mohammed Dahlan, não tem o carisma suficiente para unificar um povo extremamente dividido.

A “aristocracia” da Cisjordânia, habituada aos privilégios que durante anos beneficiou do vizinho Reino Hashemita, sempre olhou com desdém para os “refugiados” de Gaza, território onde a militância política, muito próxima da Irmandade Muçulmana, sempre foi encorajada, mesmo durante a ocupação egípcia de 1948-1967.

O grande mérito de Arafat foi precisamente o de não ter feito distinção entre o filho do camponês e o do banqueiro. Todos foram usados como “instrumentos da revolução”. O que faltou a Abu Ammar foi coragem para despir a farda de guerrilheiro e envergar o fato de presidente. Deixar cair a arma, mantendo na mão o ramo de oliveira.

Ao desprezar as instituições de uma outrora vigorosa sociedade civil, alimentou um nocivo culto de personalidade. Não conseguiu cumprir a promessa de criar um “Estado laico e democrático”, e deixa o povo mais próximo da guerra civil do que da paz. A sua morte abre uma era de incerteza e instabilidade. Com ele morre, de certa maneira, a OLP, que ele personificava.

Sem a figura tutelar de Arafat – um dos últimos “líderes históricos” do Médio Oriente (já morreram Nasser, Sadat, Hussein e Assad) -, terá chegado o momento de os palestinianos do “interior”, os que conhecem Israel e falam hebraico, encontrarem novos caminhos para a independência.

© Mohammed Abed | AFP

© Mohammed Abed | AFP

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 12 de Novembro de 2004 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 12, 2004

V. S. Naipul: Um Nobel entre crentes e para além da crença

Sir Vidia foi à Indonésia, ao Irão, ao Paquistão e à Malásia, para perceber o revivalismo muçulmano. Sobre estas viagens escreveu dois livros, separados por 17 anos. Concluiu que o Islão teve “um efeito calamitoso sobre os povos convertidos”. Escandalizou quase um terço da humanidade, mas preservou a glória de ser um “cincumnavegador literário de voz voz inimitável”. (Ler mais | Read more...)

© The Economist

Numa das suas crónicas semanais no jornal egípcio Al-Ahram, o defunto académico palestiniano Edward W. Saïd escreveu: “Algures a meio do caminho, V. S. Naipaul [1932-2018] sofreu um grave acidente intelectual.”

“A sua obsessão com o Islão fez com que deixasse de pensar, para se tornar numa espécie de suicida mental compelido a repetir a mesma fórmula vezes sem conta. Isto é o que eu chamo de catástrofe intelectual de primeiro grau”.

O autor de Para Além da Crença – Digressões Islâmicas entre Povos Convertidos (Ed. Dom Quixote), a obra que mereceu esta dura crítica, mostrou-se indiferente.

“Quem é ele?”, perguntou V. S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura em 2001, como se desconhecesse, o que não era o caso, quem assim arrasava o livro que deu seguimento a um outro, escrito 17 anos antes, Among the Believers: An Islamic Journey (Entre os Fiéis).

Saïd reconhecia em Vidiadhar Surajprasad Naipaul “um escritor dotado” mas renegava a sua mensagem “carregada de estereótipos e preconceitos” sobre o mundo muçulmano.

Sir Vidia, por seu lado, sabia que tinha causado polémica, mas ainda se deu ao luxo de a amplificar quando, num discurso público, comparou o Islão ao colonialismo: “[Esta religião] teve um efeito calamitoso sobre os povos convertidos.”

“Quem se converte destrói o seu passado, destrói a sua história. Somos obrigados a dizer ‘a nossa cultura ancestral não existe’.”

Para Além da Crença, explica o agnóstico V. S. Naipaul (“ainda ando à procura”, informou), “é um livro acerca de pessoas, não de opinião”, com histórias coligidas durante cinco meses de viagens em 1995 por quatro países muçulmanos não-árabes — a Indonésia, o Irão, o Paquistão e a Malásia.

É a continuação de uma jornada, efectuada em 1979, quando o escritor britânico de origem indiana, nascido em Trindade e Tobago (Antilhas), “não sabia quase nada acerca do Islão”, o que, para ele, é “a melhor forma de começar uma aventura.”

© The New Republic

Assim, o primeiro livro, Among the Believers, “foi uma exploração dos lugares da fé e daquilo que parecia ser a sua capacidade de revolução”. O tema da conversão, refere Naipaul, “esteve sempre presente”, mas ele só o viu “claramente” na segunda incursão pelos quatro países escolhidos.

Among the Believers já tinha incomodado muita gente. Périplo com prólogo e epílogo no Irão de Khomeini, parece que Naipaul foi, propositadamente, ao encontro de tudo o que havia de pior no revivalismo muçulmano.

Em Teerão ou em Carachi, em Kuala Lumpur ou em Surabaya, ele chegou sempre às mesmas conclusões, como se nada separasse os lugares por onde passou. Nem distâncias nem tradições.

Constata-se também um certo paternalismo trocista em algumas observações: “(…) Um homem chamou Mehrdad à parte e perguntou a meu respeito: ‘Ele é muçulmano? (Talvez devido aos meus óculos escuros e chapéu de feltro à república das bananas). Mehrdad disse que sim, para nos poupar incómodos, e o homem deu-se por satisfeito”.

A sensação que fica é, pois, a de que Naipaul, autor de vários livros entre eles o famoso Na Curva do Rio, não encontrou nada de bom na “comunidade de crentes” que constitui quase um terço da humanidade.

Ele partiu, disse, “sem conhecer nada acerca do Islão” e esse desconhecimento é partilhado ao longo das quase 500 páginas de Among the Believers, às vezes de uma forma tão ingénua que chega a ser confrangedora. Por exemplo, quando confessa que só no Irão percebeu que os árabes e os persas “pertencem a seitas diferentes”.

Como é que alguém que desconhece o que provocou o grande cisma do Islão, entre sunitas e xiitas, pode mostrar-se, após escassos meses, tão seguro do seu diagnóstico final? “ Foi o século XX que fez do Islão revolucionário, dando novo significado às velhas ideias islâmicas de igualdade e de união, abaladas por sociedades estáticas ou atrasadas”, concluiu.

É como se Naipaul seguisse um guião previamente delineado e dele não se desviasse um milímetro. Os seus companheiros de viagem não surgem por acaso.

São pessoas frustradas e infelizes, como se escolhidas para passar a ideia de que o Islão político está condenado ao fracasso. Essa ideia passa facilmente num livro onde é inegável a minúcia, o brilho e o poder de persuasão da escrita do cavaleiro da coroa britânica.

© Financial Times

Não foi certamente uma coincidência que, de volta ao Irão, em Para Além da Crença, Naipaul tivesse ido à procura do Sr Parvez, fundador do jornal Teheran Times, cujo lema era “a verdade prevalecerá” e com quem trocara apenas algumas palavras em Among the Believers.

Parvez e o seu antigo colaborador, Sr Jaffrey, são exemplos perfeitos do malogro da Revolução Islâmica de Khomeini.

Xiitas de origem indiana, ambos sonhavam com uma sociedade idílica em que o espiritual e o terreno se fundiriam. No entanto, os excessos dos mullahs, tão ou mais cruéis que o deposto imperador Mohammad Reza Pahlavi, transformaram os sonhos dos dois “convertidos” em pesadelos.

Parvez acabou na falência, conformado com a autocensura, para sobreviver, no seu diário confiscado pelo regime. Jaffrey, perseguido por ter recebido fundos da Voz da América, foi parar ao Paquistão num velho Chevrolet.

© polskieradio24.pl

Este artigo, agora actualizado e com outro título, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 3 de Julho de 2004 | This article, now updated and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on July 3, 2004