Amin Maalouf: “Há um fracasso histórico no mundo árabe”

O livro Origens, do escritor franco-libanês Amin Maalouf, começa em meados do século XIX nos territórios do Levante sob domínio otomano. É uma comovente saga de família, onde liberta a memória dos antepassados em momentos turbulentos da História. É, sobretudo, uma grande homenagem ao seu avô Botros, que recusou o exílio para “ocidentalizar” o Oriente, mas acabou desiludido como o neto, natural de Beirute e imigrante em Paris [agora membro da prestigiada Academia Francesa], que hoje diz: “Pensava que podíamos evitar o choque de civilizações. Pessoas como eu foram derrotadas. Essa é a verdade. Perdemos. Somos apenas vozes a gritar no deserto.” (Ler mais | Read more…)

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Outros que não eu teriam falado de ‘raízes’… Não emprego esse vocabulário. Não gosto de ‘raízes’ e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas, mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem. ‘Se te libertas, morres!’ As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Respiramos a luz, cobiçamos o céu e quando nos metemos na terra é para a apodrecer. (…)

Pertenço a uma tribo nómada que vagueia desde sempre por um deserto com as dimensões do mundo. As nossas pátrias são oásis que abandonamos quando a nascente seca, as nossas casas são tendas disfarçadas de edifícios, de pedra, as nossas nacionalidades são uma questão de datas, ou de berços. A única coisa que nos une uns aos outros, para além das gerações, para além dos mares, para além da Babel das línguas, será o ruído de um nome.

In: Origens , Ed. Difel, 2004

Amin Maalouf nasceu em 1949. Fugiu da guerra civil libanesa em 1976. “Não queria que os meus filhos crescessem num país onde crianças de 16 anos usavam armas, matavam e eram mortos.” Como jornalista da Jeune Afrique, reportou a guerra do Vietname, a revolução iraniana ou a fome na Etiópia. Em 1985, após o êxito de As Cruzadas vistas pelos Árabes, optou por uma exclusiva carreira literária. As suas obras, traduzidas em mais de 20 línguas, são uma busca permanente de pontes entre dois mundos. Oriundo de um meio familiar cristão, assumiu como “primeira religião” a da coexistência, como confirma nesta entrevista feita em Lisboa, onde esteve para lançar o livro.

Por que é que um autor de romances históricos decidiu escrever Origens, uma biografia familiar?

Amin Maalouf – Creio que sempre quis contar a história do meu avô e da sua geração e também a história do meu tio-avô em Cuba. Eram histórias que a minha família me contava quando eu era criança. Achei que agora era o momento certo…

… depois de o seu pai ter morrido?

Bem, esse foi um elemento. Mas depois morreu também a minha avó, o que foi outro momento para meditação. Provavelmente, eu precisava de começar a minha carreira literária com algo diferente. Não queria começar com a minha família. Quis fazer uma longa viagem antes de regressar à família. Senti que este era o momento certo de falar dela.

Sentia-me muito em dívida para com pessoas que viveram há muito tempo, que sonharam com coisas maravilhosas, que talvez se tenham desiludido com a vida, e que foram esquecidas. Tive necessidade de as fazer ressuscitar do esquecimento.

No livro revela uma grande surpresa quando encontra uma mala cheia de documentos (“cartas, fotografias, cadernos, recortes de jornais, recibos, actas notariais…”)…

…Eu não fazia a mínima ideia da existência de algo assim. De facto, disseram-me o contrário. Muitas vezes ouvi pessoas na minha vida dizerem que o meu avô escreveu este ou aquele poema, ou que os recitava. Toda a gente me dizia que o que ele escrevera se tinha perdido. Fiquei com a impressão que não havia nada.

Por isso, durante anos, não procurei estes arquivos. E, realmente, foi uma surpresa. Tudo começou, como eu conto no livro, quando eu encontrei alguém que esteve durante muitos anos em Cuba e me perguntou, por acaso, se eu tinha algum parentesco com alguém que ele conheceu em Cuba e que tinha o mesmo apelido que eu. Eu apenas lhe disse que o irmão do meu avô estivera em Cuba. Interroguei-me então por que não haveria de recolher mais informações sobre esta parte da família.

Assim, fui até Beirute e, quase por acaso, ao colocar certas questões, encontrei todos estes documentos. Foi extraordinário, porque descobri tantas coisas. Foi possível reinventar toda a vida do meu avô, do seu irmão e da restante família.

Amin Maalouf, do Líbano para a Academia Francesa. © Jerôme Bonnett

Amin Maalouf, do Líbano para a Academia Francesa.
© Jerôme Bonnett

“O silêncio é o nosso santuário”, escreveu. Como é que os seus familiares reagiram ao facto de expor neste livro os segredos que foi descobrindo?

Bem, alguns já morreram e nunca saberei como reagiriam. Alguns morreram até durante a escrita deste livro, sobretudo uma tia que me ajudou imenso na minha investigação e faleceu de cancro. Os mais jovens da família mostraram-se interessados em conhecer a sua história, porque é também a história deles. Eles, como eu, sabiam muito pouco.

Agora há um sentimento de orgulho, de poderem saber toda a história. De outros ainda não tenho reacções. Há familiares que só sabem ler em espanhol ou em inglês. Por isso, a parte cubana da família vai ler o livro na edição espanhola, que acaba de ser lançada. Vou poder agora conhecer a reacção deles. Outra parte da família, sobretudo o meu tio na América, vai preferir ler a versão inglesa.

Poderão de algum modo ficar desapontados?

Não sei. Espero que não. Ao contar a história deles não revelei nenhum segredo devastador. Eu sou uma pessoa muito, muito pudica. Não gosto de me envolver em escândalos e provocações. Só tento contar as histórias, da maneira mais verdadeira possível, para lutar contra o esquecimento.

A figura central de Origens é o seu avô Botros. É apresentado por si como um defensor de valores universais (o conhecimento, a democracia, a liberdade, os direitos das mulheres), um visionário que queria “ocidentalizar” o Oriente, que sonhava transformar a sua aldeia numa pequena América. Ainda pensa que, nestes tempos conturbados, a coexistência Ocidente-Oriente é possível?

É agora muito mais difícil do que no tempo do meu avô. Muitos aspectos políticos que hoje conhecemos não existiam antigamente. A imagem que hoje temos da América e do seu papel no mundo é muito diferente da imagem que a América tinha no tempo do meu avô.

No meu romance Samarcanda [Ed. Difel, 2006] há um personagem americano que surge como o símbolo da modernização da Pérsia. Naquela altura, os americanos não apareciam, de maneira alguma, como uma força imperial. Os imperialistas eram os britânicos e os franceses, os russos e até os austríacos. Os americanos, não!

Eram uma jovem nação de pioneiros, de espírito livre. Era a América de [Thomas] Woodrow Wilson [eleito Presidente dos Estados Unidos da América em 1912 e 1916, democrata, defensor do direito dos povos e da segurança colectiva]. Há cem anos tudo era diferente.

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O seu avô também viveu tempos de convulsão. O Império Otomano estava em declínio. No entanto, ele escolheu não deixar a terra natal, para lutar pela liberdade. O senhor, pelo contrário, seguiu o caminho do exílio, como o seu tio-avô Gebrayel. Por que não aceitou fazer parte da minoria do Oriente que “recusa responsabilizar apenas os inimigos pela sua incapacidade de se modernizar”, como disse numa entrevista ao jornal libanês L’Oriente le Jour?

Essa é uma questão que me coloquei várias vezes, sobretudo na preparação deste livro. Sempre que tinha de lidar com o debate familiar da emigração, questionava a minha própria emigração. Eu não tencionava emigrar. Sempre me convenci de que viveria no meu país para sempre. O que me empurrou para fora do país foi uma guerra [civil 1975-1990].

Todas as gerações tiveram uma razão para partir, a tirania dos otomanos ou outros problemas. Quando era jovem, pensei que a minha geração não teria de partir. Mas também tive problemas que me forçaram a partir. Fiz esta escolha porque não queria que os meus filhos crescessem num país onde crianças de 16 anos usavam armas, matavam e eram mortos. Essa foi a minha razão.

Respeito a opção do meu avô. No entanto, também reparei que acabou a sua vida muito desiludido. Ele insistiu em ficar na sua aldeia, tentou construir uma escola. Creio que morreu muito triste e amargo porque sentiu que falhou. Mais do que uma vez confessou: “Estou cansado de tentar ensinar pessoas num país onde não dão valor ao que eu faço.” O debate sobre a emigração continua e continuará depois de mim.

Cada pessoa tem de fazer escolhas. A minha escolha, se eu tivesse de a fazer hoje, era a de viver num lugar onde pudesse escrever livremente e viver livremente. Esse é o meu único critério.

E o Líbano, onde nasceu, não é esse tipo de lugar?

Vamos pôr as coisas do seguinte modo: sinto que posso escrever livremente no lugar onde agora vivo [Paris

[Em Junho de 2011, Maalouf foi eleito membro da prestigiada Academia Francesa, ocupando o lugar deixado vago pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss, que morreu dois anos antes, em Outubro. A Academia Francesa foi criada, em 1635, por Richelieu, com o objectivo de preservar a Língua Francesa e escrever seu dicionário. Actualmente, a Academia é constituída por 40 membros, conhecidos como os “Quarenta” ou os “Imortais”. Um dos seus livros mais recentes, “Un fauteuil sur la Seine“, é mais do que uma biografia das 18 figuras que ocuparam a 19ª poltrona, que hoje lhe pertence: é o “retrato de quatro séculos de história da França”.] 

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A questão da emigração tem muito a ver com identidades. O Líbano é um país de múltiplas e contraditórias identidades. A sua própria família é cristã de vários ritos, às vezes em conflito. Hoje, na Europa, a definição de identidade torna-se cada vez mais religiosa e cada vez mais violenta. Vê o perigo de um confronto intercomunitário?

Infelizmente, creio que o risco existe. É extremamente perturbador, por exemplo, o que está a acontecer na Holanda [o assassínio do cineasta Theo Van Gogh, autor de um documentário crítico do Islão, e outros ataques de motivação confessional].

Creio que as relações entre pessoas de diferentes credos religiosos, sobretudo entre muçulmanos e cristãos, entre muçulmanos e judeus, caracterizam-se cada vez mais pelo ódio e violência. Tenho a impressão de que todo o mundo se está a tornar uma espécie de Líbano do tempo da guerra civil. Vivemos uma espécie de guerra civil mundial.

O termo “libanização” chegou a ser usado para definir as guerras nos Balcãs, após o colapso da Jugoslávia

… é verdade. Às vezes creio que há um certo grau de ‘libanização’, embora eu não goste desse termo. Mas a realidade é que a evolução parece essa e isso é extremamente perigoso. Precisamos de resolver os problemas das identidades, da coexistência de pessoas de origens diferentes. Não sinto que o mundo esteja a seguir o caminho certo.

O que propõe?

É claro que, pessoalmente, não tenho soluções. Mas temos de mudar as nossas atitudes em relação às identidades. Temos de reflectir mais sobre a coexistência de mundos diferentes. Apenas falamos de diálogo de uma maneira superficial, que não conduzirá a lado nenhum. Precisamos de enfrentar os problemas com maior seriedade.

Mas a iniciativa deve ser de quem? O senhor, como imigrante em França, diz que tem orgulho da sua integração e declara o seu amor pela língua francesa. Quando procurou refúgio, disse que chegou “para dar e receber”. Hoje, no entanto, vemos que muitos imigrantes adoptam posturas reivindicativas agressivas. Querem impor valores culturais e religiosos aos países de acolhimento. Ao fazê-lo, não estão a contribuir para que a Europa se torne uma fortaleza intransponível?

No meu livro Identidades Assassinas [Ed. Difel, 2009] digo que tem de haver reciprocidade. O imigrante deve promover elementos da sua cultura, mas, ao mesmo tempo, absorver elementos da cultura do país onde escolheu viver. Por outro lado, o país que acolheu o imigrante deve também aceitar alguns elementos da cultura deste.

Tem de reconhecer os seus esforços de integração e estar pronto a responder a essa integração com gestos de aceitação. Em ambos os lados há problemas. Vou dar um exemplo: quando alguém vai viver para um país, o seu dever é aprender a língua desse país, mas preservando a língua materna.

O dever do país de acolhimento é facilitar o conhecimento da segunda e da primeira línguas. Os problemas estão nos dois lados. Alguns imigrantes não sentem necessidade de aprender a língua do país que os acolheu, e o país que os acolheu também lhes nega o direito de se exprimirem na língua do país de origem.

O que eu insisto, em Identidades Assassinas, é que cada um deve saber o que dar e o que receber. Há falta de vontade para resolver estas questões delicadas.

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© Associated Press (AP)

Como escritor, é natural que dê uma grande importância à língua. No entanto, o maior confronto não será religioso?

Absolutamente. Eu sou defensor da estrita separação da vida religiosa, política e social. Que fique bem claro: uma sociedade secular não pode aceitar nenhum tipo de mistura entre religião e política.

O problema é que a religião tem sido uma afirmação de identidade e não apenas uma crença. As pessoas sentem que devem insistir na sua identidade porque não estão integradas na sociedade. Tenho a certeza de que se os imigrantes argelinos em França pudessem exprimir-se mais facilmente em árabe não sentiriam necessidade de exagerar a sua identidade muçulmana.

Se eles se sentissem bem com a sua identidade cultural, não precisariam de procurar compensação na religião. Se eles se sentissem integrados no campo social, sem discriminação no trabalho, sem serem olhados com suspeição devido à sua cor de pele ou ao seu nome, não precisariam de reforçar as credenciais religiosas.

Os argelinos em França não têm liberdade para se exprimir em árabe? Para escrever em árabe? Para cantar em árabe?

Não propriamente, porque há uma história, a da Argélia [colonial], que é a da supressão da língua árabe. Isso deixou marcas profundas na sociedade. O que eu quero dizer é: se aceitarmos que as pessoas se sintam desconfortáveis na sua cultura, elas insistirão demasiado nos aspectos religiosos. Vivemos num estado de confrontação.

Pensava que podíamos evitar este ‘choque de civilizações’. Passei a minha carreira literária a advogar algo diferente. Pessoas como eu foram derrotadas. Essa é a verdade. Perdemos. Somos apenas vozes a gritar no deserto. A realidade no terreno é a de que estamos num ‘conflito de civilizações’.

Nunca antes houve tanto ódio, tanta violência, tanta incompreensão. Pessoas como eu estão a subir um caminho íngreme em busca da coexistência, mas ninguém nos ouve. No mundo árabe, a única força política actual são os islamistas…

… o fracasso do mundo árabe não se deve também, em parte, a pessoas como o senhor que, no Ocidente, absorveram os valores universais da democracia e da liberdade, mas depois não os transmitiram às suas próprias sociedades?

Bem, em parte, sim. Mas eu sou uma minoria no mundo árabe. Não posso ter um papel de liderança. Pessoas como eu são estranhos em toda a parte. Pessoas como eu, ou como o meu avô, tiveram sonhos e esperanças, mas nunca tiveram poder para mudar as coisas como desejariam.

É óbvio que há um fracasso histórico no mundo árabe. É óbvio que o mundo árabe perdeu o rumo. Vai para lado nenhum. Não tem perspectiva. Para mim, ao mesmo tempo, também é verdade que o Ocidente tem vindo a perder credibilidade.

Tem vindo a perder a capacidade de transmitir os seus valores ao resto do mundo. O Ocidente não está a propor nada ao resto do mundo. E o mundo islâmico nada tem para propor.

Estamos, portanto, num impasse…

… sim, estamos num impasse. O mundo está em muito mau estado. Espero que não fique assim durante gerações, mas nunca, no passado, a situação do mundo foi tão preocupante.

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O seu livro Samarcanda evoca a cruel seita muçulmana dos Assassinos. Para o académico americano Bernard Lewis, eles sempre estiveram condenados a desaparecer (aliás, deles emanou a moderada subseita do Ismailismo). O historiador francês Gilles Kepel também considera que os ataques terroristas a que hoje assistimos são reveladores da decadência e não da ascensão do integrismo islâmico. Pensa do mesmo modo ou é mais pessimista?

Bernard Lewis e Gilles Kepel são especialistas no mundo islâmico. Eu não sou. Sou um romancista. Um sonhador. Um utópico. Leio as análises deles e continuo a achar que uma parte do problema é o facto de o mundo islâmico ter perdido o seu rumo. Mas há um problema mais abrangente: o de não ter sabido lidar com a sua identidade.

Quem somos nós? Como é que o mundo pode ser governado? Qual o futuro da democracia? Ainda há futuro para a democracia? Será que é possível a liderança do mundo continuar a ser eleita apenas por cinco por cento da população mundial? Para onde vai o mundo? Para onde vai a Europa? Estamos perdidos.

Gosto muito do título de um livro do [filósofo judeu] Maimónidas, O Guia dos Perplexos [ou Guia dos Indecisos, escrito em árabe, em 1190, em honra dos intelectuais cujas posições os colocaram em conflito com a fé]. Precisamos de saber como sair deste imbróglio.

Numa recente entrevista, a Le Figaro, fez duas declarações controversas: que “o direito à diferença é um slogan do apartheid“, e que “dar direitos às comunidades é o equivalente a tornar cidadãos prisioneiros das suas próprias comunidades”. Pode explicar melhor o que quis dizer?

Foram palavras ditas para provocar. Creio que um país com pessoas de diferentes origens deveria fazer com nenhum desses indivíduos fosse discriminado, que todos fizessem parte da sociedade. Um país não é uma federação de comunidades. O Estado não deve acomodar comunidades ou dar-lhes quotas. Eu acredito numa sociedade de indivíduos.

Não se podem encorajar subúrbios separados e culturas segregadas numa mesma cidade, só para manter diferentes estilos de vida. Não defendo que as pessoas vivam lado a lado sem se conhecerem.

Defendo pessoas que se juntam, que se casam uns com os outros, que comem a comida uns dos outros, formando uma nação comum e não um grupo de comunidades. Não sou a favor de os indianos terem o seu bairro ou de os africanos terem o seu bairro… Isso é apartheid! Não é democracia.

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Sem comunidades, os cidadãos mantêm a sua identidade?

É uma questão de dar e receber. Mantêm elementos da sua cultura e assimilam elementos culturais do país que os acolheu. Não podem viver em guetos. Se reconhecermos comunidades, as pessoas que as integram ficam subjugadas por elas. Têm de usar as roupas que a comunidade exige. Casar com quem a comunidade exige. Teremos de as libertar.

Voltando ao Médio Oriente: como jornalista e como libanês, como vê o futuro da região depois da morte do líder palestiniano Yasser Arafat?

Eu espero que seja um futuro de paz, porque acredito que a paz é possível. Acredito que é possível aos povos da região encontrarem uma solução que os deixe prosperar sem estarem sob ameaça. No entanto, infelizmente, não penso que a morte de uma pessoa possa fazer a diferença.

Uma nova geração de líderes israelitas e palestinianos não poderia fazer a diferença?

Não tenho a certeza de que a nova geração esteja mais preparada para a paz. Talvez daqui a cinco anos eu tenha outra opinião. Hoje, tenho apenas esperança. Não acredito em nenhuma solução.

O Líbano, onde nasceu, esteve sempre de uma maneira ou de outra dependente de forças estrangeiras, fossem franceses, israelitas ou sírios. Um país com 17 confissões religiosas a reclamar o poder conseguirá sobreviver sem interferência externa?

Creio que viveria muito melhor sem a influência externa. A presença de tropas estrangeiras não é factor de estabilidade ou de unidade. Se o país for dono do seu destino será um bom passo.

As feridas da guerra civil [1975-1990]  já estão cicatrizadas? As pessoas já esqueceram os massacres e as batalhas que deixaram milhares de mortos?

Não tenho a certeza se as pessoas esqueceram, mas tenho a certeza de que a presença de tropas estrangeiras [30.000 soldados sírios] não sarou as feridas da guerra.

Podem os diferentes grupos religiosos do Líbano coexistir sem essa presença externa, que parece mantê-los unidos, ainda que artificialmente? O Líbano é um melting pot de cristãos, de muçulmanos, de drusos…

O mundo inteiro é um melting pot. Se não pudermos viver juntos porque somos diferentes, então todo o mundo estará condenado.

Li num artigo que os seus admiradores lhe chamam “Mr. Xerazade” por ser um contador de histórias. Acha divertido?

Isso foi uma alcunha que alguns jornalistas me deram. Eu rio-me. Uma das grandes diferenças entre mim e Xerazade, além de ela ter sido, supostamente, uma bela senhora, é que eu não sou, de maneira nenhuma, um contador de histórias.

Sou, sim, um escritor de histórias. O que é irritante é que, quando alguém vem do Oriente, é logo associado às Mil e Uma Noites. Temos de ultrapassar este enorme fosso entre dois mundos. Temos de pôr fim aos estereótipos e reflectir seriamente sobre os problemas que juntos teremos de enfrentar.

© Stavro Jabra

© Stavro Jabra

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 21 de Novembro de 2004 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 21, 2004

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