Portugal e Omã: Mais de 100 anos de história

A primeira tentativa para conquistar Ormuz, o estreito por onde passa uma parte considerável do petróleo mundial, foi feita em 1507 por Afonso de Albuquerque. Sobre a importância estratégica da cidade disse ele: “Se o mundo fosse um anel seria a sua pedra preciosa.”  (Ler mais | Read more…)

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Afonso de Albuquerque “soube imaginar estratégias militares e diplomáticas adoptadas a um Oriente em plena mutação. Observou o mercado dos acontecimentos onde se jogou o destino do mundo moderno. O primeiro a descobrir o Islão, na sua amplitude e diversidade, [….] foi o instigador da primeira colonização europeia”, escreveu a historiadora francesa Geneviève Bouchon.
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Ao leme de uma pequena frota de sete navios e 500 homens, Afonso de Albuquerque dirigiu-se para o seu objectivo, fazendo cair pelo caminho as cidades de Calaiate, Curiate, Mascate, Sohar, Hurfakân, que aceitaram, voluntária ou forçosamente, pagar tributo ao rei de Portugal.

Quando os portugueses atracaram em Ormuz, o monarca da cidade enfrentou Albuquerque com um exército de 15 mil a 20 mil homens e recusou tornar-se vassalo. Ao fim de três dias de cerco, a cidade rendeu-se com uma bandeira branca. O capitão-mor enviado por D. Manuel I começou então a construir um forte – a primeira pedra foi lançada em 24 de Outubro de 1507 – que passou a designar-se Nossa Senhora da Vitória.

Durante as obras, surgiu uma rebelião interna, escreveu o historiador Marco Ramerini, em The Portuguese in the Arabian Península and in the Persian Gulf, instigada pelo rei-vassalo de Ormuz. Em Janeiro de 1508, Albuquerque foi forçado a recuar.

Em Março de 1515, depois de já ser senhor da Índia, dominando não só os mares como a terra (Goa era o mais importante porto comercial da região), Albuquerque regressou a Ormuz, com uma força de 27 navios, 1500 portugueses e 700 naturais de Malabar. Em 1 de Abril de 1515, o forte da cidade foi retomado e passou a chamar-se de Nossa Senhora da Conceição.

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De todas as possessões perdidas, Ormuz ficou gravada como desastre nacional. A derrota portuguesa constituiu uma “importante mudança estrutural no comércio entre a Europa e a Ásia, muito mais significativa do que a descoberta da rota do Cabo para a Índia”, salientou Kirti Chaudhuri (História da Expansão Portuguesa, Vol. II).
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Naquela época, os principais portos do Golfo Pérsico e da Arábia, designadamente Bahrain, Calaiate, Mascate e a ilha de Queixume (actual Qeshm), estavam sob a jurisdição do rei de Ormuz. A vitória de Albuquerque deixou-as todas sob domínio português.

O que ele conseguiu foi assim enaltecido pela francesa Geneviève Bouchon (Albuquerque, Le Lion des Mers d’Asie): “Ele soube imaginar estratégias militares e diplomáticas adoptadas a um Oriente em plena mutação. Observou o mercado dos acontecimentos onde se jogou o destino do mundo moderno. O primeiro a descobrir o Islão, na sua amplitude e diversidade, [….] foi o instigador da primeira colonização europeia.”

Quanto à importância da região conquistada, observou João de Barros, em em Da Ásia, Década Segunda:

A cidade de Ormuz está situada em hua pequena ilha chamada Gerum que jaz quasi na garganta de estreito do mar Parseo tam perto da costa da terra de pérsia que avera de hua a outra tres leguoas e dez da outra Arábia e terá em roda pouco mais de tres leguoas: toda muy esterele e a mayor parte hua mineira de sal e enxolfre sem naturalmente ter hum ramo ou herva verde. A cidade em si es muy magnifica em edifícios, grossa em tracto por ser hua escala onde concorrem todalas mercadorias orientaes e occidentaes a ella, e as que vem de Persea, Armenia e Tartaria que lhe jazem ao norte: de maneira que nam tendo a ilha em sy cousa própria, per carreto tem todalas estimadas do mundo. [….] A cidade é tam viçosa e abastada, que dizem os moradores della que o mundo é hum anel e Ormuz hua pedra preciosa engastada nelle.

Em 1521, o rei de Ormuz rebelou-se de novo contra os portugueses mas estes esmagaram a revolta e colocaram outro soberano no trono, refere Marco Ramerini. Em 1523, Dom Luís de Menezes ocupou Sohar, que se sublevara. Depois seguiu para Queixume (Qeshm) onde assinou um tratado com o novo governante e estabeleceu uma feitoria.

Em 1526, Lopo Vaz de Sampayo, governador da Índia portuguesa (ocupou o cargo até 1529) subjugou também Mascate e Calaiate, que se haviam rebelado. Em 1542-43, nenhum navio passava por Ormuz sem pagar taxas ao rei de Portugal.

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Quando os Portugueses atracaram em Ormuz, o monarca da cidade enfrentou Afonso de Albuquerque com um exército de 15 mil a 20 mil homens e recusou tornar-se vassalo. Ao fim de três dias de cerco, o enviado do rei D. Manuel I conseguiu forçar uma rendição
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Em 1550-51, lutando pela supremacia no Golfo Pérsico, os portugueses conquistaram aos turcos o forte de al-Qatif, na actual Arábia Saudita. Em 1551-52, para garantir a defesa de Ormuz, foi construído um forte em Mascate, mas os turcos, determinados a vingar-se, atacaram a cidade e saquearam-na, no mesmo período. Em 1559, cercaram o forte português no Bahrain mas, meses depois, foram obrigados a recuar.

Em 1581, Mascate foi novamente destruída pelos turcos, adianta Ramerini. No ano seguinte, o rei da Ilha de Lara ou Larak cercou a fortaleza de Ormuz, mas os portugueses, mais uma vez, expulsaram os invasores e ocuparam, por seu turno, o forte de Xamel, em Lara. Em 1588, os fortes de Mascate, de São João e Almirante (hoje Jalali e Mirani, bases do sultão de Omã, Qaboos bin al Said) foram reconstruídos, e um terceiro foi erguido na área adjacente de Matara (actual Mutrah), onde ainda permanece.

Em 1602, o Xá Abbas I expulsou os portugueses do Bahrain. Em 1616, uma frota portuguesa apoderou-se de Sohar, onde a população se revoltara, e o rei foi executado. Em 1620, Gaspar Leite construiu o forte de Hurfâkan (Khor Fakkan).

Em 8 de Maio 1621, Ruy Freire de Andrade, “general do mar de Ormuz e costa da Pérsia e Arábia”, começou a construção do forte de Queixume, para poder controlar os recursos de água da ilha, que hoje a maior do Irão. Esta obra foi vista como um acto de hostilidade aberta ao Xá da Pérsia que declarou guerra aos Portugueses.

Em 1622, os árabes, aliados dos Persas, conseguiram capturar a ilha de Julfar aos Portugueses. Em 11 de Fevereiro do mesmo ano, a guarnição no forte de Queixume, depois de uma fraca resistência, foi obrigada a render-se a um exército conjunto anglo-persa.

Em 20 de Fevereiro, uma frota persa de mais de 3000 homens, com a ajuda de seis navios ingleses, cercou a fortaleza de Ormuz. Em 3 de Maio, os portugueses entregaram-se e todos, cerca de 2000, foram enviados para Mascate, precisa Ramerini.

Em 1588, os fortes de Mascate - São João e Almirante, hoje designados por Jalali e Mirani (na foto), bases do Sultão de Omã, Qaboos bin al Said - foram reconstruídos. Um terceiro foi erguido na área adjacente de Matara (actual Mutrah), onde ainda permanece @DR (Direitos Reservados | All Rights reserved)

Os fortes portugueses de Mascate – São João e Almirante – chamam-se agora Jalali e Mirani (na foto). Servem de bases militares ao sultão Qaboos bin al Said. 
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Sob o comando de Ruy Freire de Andrade, os Portugueses ainda tentaram várias vezes – em 1623, 1624, 1625 e 1627 – reconquistar o forte. A última tentativa foi diplomática mas também fracassou.

Após a queda de Ormuz, os portugueses estabeleceram a sua base em Mascate. Em 1623, Ruy Freire reocupou o forte de Sohar que os persas haviam conquistado no ano anterior, e instalou uma guarnição em Caçapo (actual Khasab), na península de Moçandão (Musandam).

Em 1631, um outro forte português foi construído em Julfar, zona estratégica de Moçandão que, durante a ocupação portuguesa, gozou de enorme prosperidade como entreposto comercial regional.

Em Setembro de 1633, Ruy Freire de Andrade morreu. O seu corpo foi sepultado na igreja de Santo Agostinho, em Mascate. Em 1643, os portugueses foram expulsos de Sohar pelo Imã (guia espiritual) Nasir ibn Murshid.

Em Janeiro de 1650, Mascate, a última base lusitana na Arábia caiu nas mãos do sultão Said Bin Said. A guerra naval entre os dois povos continuaria até ao final do século XVII, com os Omanitas a expulsar os portugueses do seu último reduto na África Oriental: Mombaça.

De todas as possessões perdidas, Ormuz ficou gravada como um desastre nacional. A derrota portuguesa constituiu uma “importante mudança estrutural no comércio entre a Europa e a Ásia, muito mais significativa do que a descoberta da rota do Cabo para a Índia”, salientou Kirti N. Chaudhuri (História da Expansão Portuguesa, Vol. II).

Os Portugueses construíram o Forte de Matara (actual Mutrah), onde ainda permanece, na área adjacente aos de Jajal e Mirani. @DR

Os portugueses construíram o Forte de Matara (actual Mutrah), onde ainda permanece, na área adjacente aos de Jalali e Mirani.
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Este artigo, agora revisto,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2005

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