Yasser Arafat (1929-2004): O líder que perdeu guerras e paz

Fez dos palestinianos uma nação mas Abu Ammar não conseguiu cumprir a promessa de lhes dar um Estado. Para alguns, foi apenas um terrorista. Para muitos, os que glorificavam a sua bravura no campo de batalha e viam os seus fracassos como vitórias, foi um herói: a pedra que o seu povo lançou ao mundo. (Ler mais | Read more…)

© Kevin Frayer | AP

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Mohammed Abdel Rahman (nome próprio que significa “escravo de Alá, o Justiceiro”) Abdel Raouf (nome do pai) Arafat (nome do avô) al-Qudua (nome da família) al-Husseini (nome do clã) nasceu no Cairo, em 24 de Agosto de 1929. Pelo menos é o que atesta uma certidão encontrada no Egipto pelos jornalistas Janet e John Wallach, contrariando a versão que a OLP propagou durante anos de que o seu líder nascera em Jerusalém.

homem que se tornaria o símbolo e líder de cinco milhões de palestinianos era filho de Abdel Raouf Arafat al-Qudua al-Husseini, natural da Faixa de Gaza, e de Zawha Abu Saud, membro de uma família da “pequena aristocracia” de Jerusalém. A avó paterna de Arafat era uma egípcia do clã Radwan.

Por que motivo haveria Arafat de distorcer a autobiografia, se ninguém podia pôr em causa a sua “palestinianidade”? Talvez porque os palestinianos usaram o nascimento na Palestina como o seu “mais importante argumento moral e político” contra os imigrantes sionistas, observou o biógrafo Danny Rubinstein.

Os judeus de Israel eram apresentados como “invasores estrangeiros que chegavam para pilhar as casas e as terras” dos árabes. A ênfase na natividade dos palestinianos reforçou-se ainda mais após a guerra de 1948 quando 750 mil se tornaram refugiados em Gaza, na Cisjordânia, na Síria e no Líbano, continuando até hoje a reclamar o direito de regressar aos lares onde os seus antepassados viveram durante centenas de anos.

A ligação à terra e à aldeia tornou-se no centro da identidade palestiniana. Arafat não era um filho da Nakba (Catástrofe), como os palestinianos definem o seu êxodo. No entanto, foi um dos primeiros a viver o “exílio”, quando o pai, na busca de uma herança que o arruinou, se instalou em 1927 em Sakakini, um bairro cosmopolita do Cairo, onde conviviam judeus, arménios, gregos e libaneses.

Foi aqui que o hiperactivo e rebelde Arafat começou a dirigir, aos 10 anos, um grupo de miúdos da sua rua. Já nesta altura, dizia a irmã mais velha, “ele adorava ser o chefe”.

© Mahmoud Zayyat | AFP

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Com um pai ausente e autoritário, Arafat não teve tempo para encontrar conforto junto da mãe. Ele completara quatro anos quando Zahwa morreu, em 1933, devido a uma paragem renal. O pai casou-se pela segunda vez, mas divorciou-se meses depois porque o mau relacionamento dos seus sete filhos (Arafat era o sexto) com a madrasta transformou o lar num campo de batalha.

Sem Zahwa, Arafat e o irmão mais novo, Fathi, foram enviados para casa de um tio materno, Selim Abu Saud, em Jerusalém. Começou assim uma estreita ligação de Arafat à cidade que haveria de reclamar como “capital do Estado palestiniano”.

Em Jerusalém, ele testemunhou os primeiros confrontos entre muçulmanos e judeus durante a revolta árabe de 1936; viu parentes serem detidos pelas autoridades mandatárias britânicas; e participou em angustiados debates familiares sobre o futuro da Palestina.

Quando o pai, casado pela terceira vez, o mandou chamar, em 1937, foi como se o mundo tivesse desabado a seus pés. No Cairo, desde cedo Arafat começou a envolver-se em política, sobretudo na universidade onde se formou em Engenharia Civil.

Nesta altura já lhe chamavam “Yasser”, um nome que quer dizer “sem problemas” e lhe serviu para ganhar as credenciais religiosas de um dos maiores guerreiros muçulmanos, Ammar ibn Yasser. Teria sido este companheiro do profeta Maomé e comandante das suas tropas que inspirou também Arafat a escolher um nome de guerra Abu Ammar (pai de Ammar).

Na capital egípcia, Arafat foi dirigente de duas uniões de estudantes palestinianos e muito cedo se envolveu na “luta contra os sionistas”. Participou sobretudo no contrabando de armas. Quando se ofereceu como voluntário para combater em Gaza, não entrou nas fileiras do Mufti de Jerusalém, Hajj Amin al-Husseini, mas integrado nas unidades da Al-Ikhwan Al-Muslimin (Irmandade Muçulmana).

O primeiro ataque foi lançado em 10 de Maio de 1948 contra o kibbutz (espécie de comuna agro-industrial) Kfar Darom. O raide falhou. No dia 15, os exércitos árabes unificados iniciaram a sua invasão. Os oficiais egípcios, que queriam conduzir uma guerra regular, confiscaram as armas dos que não eram soldados.

Um deles foi Arafat, que seguiu para Jerusalém. Também aqui foi desarmado pela Legião Árabe Transjordana. “O holocausto começou quando nos afastaram do campo de batalha na Palestina”, acusou.

© Abbas Momani |AFP

© Abbas Momani |AFP | The National

Ao regressar ao Cairo, concluiu que os árabes perderam porque os seus líderes “eram incompetentes e corruptos”. Convenceu-se também que, sozinhos, os palestinianos poderiam ter derrotado Israel.

Após a queda da monarquia egípcia, em 1953, Arafat tornou-se activista a tempo inteiro e chegou a ser preso por Gamal Abdel Nasser quando a Irmandade tentou matar o Presidente. Libertaram-no porque a filiação na confraria nunca foi registada.

Em Agosto de 1956, Arafat fez a sua primeira viagem ao estrangeiro. Na companhia de dois colegas, um deles Salah Khalaf (ou bu Iyad), o futuro ideólogo da OLP, participou num Congresso Internacional de Estudantes em Praga.

Fez-se o centro das atenções: apareceu, pela primeira vez, em público com um kaffiyeh na cabeça. Era um lenço todo branco, diferente daquele que, a partir de 1967, passou a cobrir a sua calvície e se tornou uma das suas marcas registadas, o de xadrez negro e branco.

Mais tarde daria lições sobre as cores: “O branco é para os civis que vivem nas cidades; o vermelho e branco é para os beduínos do deserto, sobretudo os do Sul da Palestina, da Jordânia e da Arábia Saudita; o negro e branco é para os camponeses. “O kaffiyeh tinha sido, durante a rebelião de 1937-39 contra os britânicos, o emblema dos combatentes palestinianos.

Em Praga, Arafat voltou a fazer dele um símbolo nacional. No início, demorava pelo menos uma hora a enrolá-lo, para que assumisse a forma do mapa da Palestina histórica, sem Israel. Em Outubro de 1956, uma força da ONU interpôs-se entre o Egipto e Israel, após a crise do Canal do Suez. Os fedayin ficaram sem espaço para a luta armada.

© Abbas Momani | AFP

© Abbas Momani | AFP | The National

Arafat emigrou para o protectorado britânico do Kuwait e, a partir de 1958, ele e o amigo Abu Iyad lançaram uma revista mensal: Filastinuna, Nida ‘Al Hayat (“Nossa Palestina, O Apelo da Vida”). Impressa numa máquina de stencil, estava repleta de fotos, poemas e prosa. Os artigos eram anónimos, com a rara excepção de um, na primeira edição, com as iniciais Y.A..

Entre os temas abordados constavam o direito de retorno dos refugiados, críticas aos regimes árabes e apelos aos palestinianos para iniciarem a “violência revolucionária”. O objectivo era abrir um canal de comunicação com a diáspora, mas os seus autores tinham de agir na clandestinidade. Em 1959, a Filastinuna começou a ser editada em Beirute.

Entre 5000 e 10.000 exemplares eram distribuídos regularmente aos palestinianos no Médio Oriente e noutras partes do mundo. Cada número tinha um apartado postal (1684) para o qual os leitores poderiam escrever, criando assim uma útil rede de contactos.

Arafat e Abu Iyad já tinham definido uma estrutura organizativa e o programa político quando chegou a hora de escolher o nome do seu movimento. A sugestão terá sido dada, num primeiro encontro, no Outono de 1959 (não há unanimidade sobre o dia nem o mês), por Adel Abdelkarim, professor de Matemática.

A ideia era pegar nas palavras árabes de Movimento de Libertação da Palestina (Harkat Al-Tachrir Al-Watanni Al-Falestinia) e inverter as iniciais, porque “Hataf” traduz-se por “Morte” mas “Fatah” tem o significado de “Conquista”.

Em 1960, a Fatah tomou a decisão estratégica de angariar fundos para expandir as actividades. Arafat foi o principal “cobrador”. A mensagem de que os palestinianos deveriam envolver-se sozinhos numa “resistência armada” foi aceite sem reservas.

A partir de 1961, Arafat tornou-se, efectivamente, um líder de guerrilha, enviando voluntários palestinianos para campos de treino na Síria, no Iraque e na Argélia. Em 1964, uma cimeira árabe convocada por Nasser, no Cairo, criou a Organização de Libertação da Palestina (OLP), sob a liderança de Ahmad Shukeiri. Este advogado e diplomata palestiniano, que nunca pegara numa arma, não gerava simpatias, e a sua imagem degradou-se ainda mais depois de ameaçar de “lançar os judeus ao mar”.

© Mohammed Abed | AFP

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Arafat viu na criação da OLP um desafio à sua autoridade e à existência da Fatah, mas sugeriu uma campanha de sabotagem contra Israel. Não querendo perder o apoio dos árabes, Shukeiri recusou. As relações mútuas azedaram.

Em 1964, movido por um sentimento de urgência, Arafat fez uma proposta de compromisso aos que, na Fatah, se mostravam relutantes em dar-lhe carta branca para avançar. O movimento começaria os ataques com outro nome, Al-Asifa (A Tempestade).

“Se Al-Asifa fosse bem sucedida, a Fatah apoiaria a luta armada; se falhasse, seria Al-Asifa e não a Fatah a assumir responsabilidade pelo fracasso.” O primeiro ataque foi a 3 de Janeiro de 1965.

Comandos entraram na aldeia israelita de Beit Netopha, a partir da Jordânia, e colocaram dez barras de dinamite num canal. Estas não explodiram porque um funcionário da companhia das águas as descobriu a tempo e porque o detonador tinha uma falha.

A deflagração teria causado danos consideráveis. Um mês depois, Arafat enviou um novo grupo para se infiltrar em Israel, mas foi interceptado por uma patrulha do exército jordano que matou um dos elementos, Ahmad Musa.

Este incidente serviu para a Fatah afirmar que “o primeiro mártir da resistência armada palestiniana foi morto por árabes.” No dia 5 de Junho de 1967, a guerra com que os árabes se iludiram dizendo a si próprios que iriam restaurar os direitos palestinianos permitiu ao Estado judaico apoderar-se, em seis dias, da península do Sinai e da Faixa de Gaza ao Egipto; da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Leste, à Jordânia; e dos montes Golã à Síria.

Para Arafat, o medíocre desempenho dos árabes frente a Israel vingava o que ele sempre tinha dito. Que era necessário os palestinianos agirem por conta própria. “A derrota de 1967 é o prelúdio para uma grande vitória”, repetia.

Em Agosto de 1967, procurando organizar uma insurreição nos territórios ocupados com um “exército do povo”, Arafat infiltrou-se na Cisjordânia. Dividiu a região em três sectores Sul, Centro e Norte (Hebron, Jerusalém e Nablus), e ordenou a formação de células. Viajava sob disfarce de aldeia em aldeia e foi por esta altura que ganhou a alcunha de Al Khityar (O Velho), iludindo soldados israelitas e colaboracionistas palestinianos.

© Mahmoud Zayyat | AFP | Getty Images

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Em Março de 1968, com a ajuda das tropas de Hussein, infligiu uma humilhação ao exército israelita na batalha de Karameh, povoação jordana cujo nome se traduz por “Dignidade”. O inconcebível balanço final, para Israel, foi de 28 mortos, 69 feridos e 34 tanques atingidos.

As baixas da Fatah e da Jordânia foram superiores: mais de cem mortos palestinianos e 20 entre os hashemitas. Os israelitas foram obrigados a reconhecer que estavam a enfrentar um “movimento sério”.

Aos biógrafos Andrew Gowers e Tony Walker, o general Yariv admitiu: “Embora, para eles [palestinianos], tivesse sido uma derrota militar, acabou por ser uma vitória moral.”

Em Setembro de 1968, numa cimeira em Cartum, os árabes lançaram-se praticamente nos braços de Arafat ao aprovar uma resolução que dizia “NÃO a negociações, NÃO ao reconhecimento e NÃO à paz” com o Estado judaico.

Em 1 de Fevereiro de 1969, o Conselho Nacional Palestiniano (CNP) reuniu-se no Cairo para consagrar Arafat líder da OLP.

A mesma reunião reviu a Carta aprovada em Jerusalém em 1964, substituindo o compromisso com o nacionalismo árabe (kawmia) pela referência a um Estado palestiniano (watania). À margem da reunião do CNP decorreu uma outra, a pedido de dois agentes do Shin Bet, serviço de segurança interna israelita.

Juntou Faisal al-Husseini, recém-libertado da prisão, Arafat e vários outros dirgentes da Fatah/OLP, que ficaram surpreendidos com a mensagem de que era portador o filho do herói Abdel Kader al-Husseini, morto na “Batalha de Jerusalém” em 1948.

“Diga a Arafat que estamos dispostos a negociar quando ele quiser, onde ele quiser, excepto num país do Leste [europeu] ou num país árabe”, pediram a Hussein os agentes que se identificaram apenas como Richard e Gadi.

Não deixa de ser simbólico que a proposta dos israelitas tivesse sido apresentada no dia em que Arafat foi entronizado chefe da OLP. Se ele tinha intenção de aceitar, Husseini logo o dissuadiu: “Creio que é preciso recusar.

Os israelitas querem abrir negociações mas assim que elas começarem, haverá fugas [de informação]. Se aceitarmos, não estaremos a dar um tiro nos pés mas na cabeça!” Husseini teria ficado impressionado com um artigo do israelita Uri Avnery publicado na imprensa hebraica no qual descrevia um cenário catastrófico: uma ofensiva do mundo árabe contra o movimento palestiniano.

Arafat concordou com o emissário: “Tens razão, seria um suicídio político.” A profecia de Avnery confirmou-se. Assim que se tornou líder da OLP, Arafat ordenou o envio de vários milhares de combatentes para a Jordânia – sem consultar o rei Hussein. Também expandiu a presença na Síria e no Líbano, onde proclamou a “República Fakhani”, nome do bairro de Beirute onde os “fedayin” instalaram um centro de comando.

© Abbas Momani |AFP

© Abbas Momani |AFP | The National

Enquanto os homens de Arafat prosseguiam as infiltrações em Israel, os guerrilheiros da FPLP, de George Habash, levavam a cabo audazes sequestros de aviões. Arafat reagia cinicamente: rejeitava os actos mas não condenava os autores.

Os sequestros tinham o benefício de chamar a atenção para a causa palestiniana. Ele gozava as vantagens sem assumir a responsabilidade. Adoptaria a mesma atitude após o regresso aos territórios ocupados, quando o Hamas e a Fatah recorreram a ataques suicidas contra civis israelitas.

Na Jordânia, que em 1970 tinha cerca de um milhão de palestinianos, os guerrilheiros, talvez mais de 40.0000 dispersos por uns 30 grupos, comportavam-se como bandos de criminosos. Raptavam diplomatas e jornalistas críticos, molestavam mulheres e humilhavam oficiais do exército, erguiam barricadas e cobravam impostos ilegais.

Entre meados de 1968 e o final de 1969, registaram-se cerca de 500 confrontos violentos com as forças do monarca. Arafat deixou os fedayin em rédea livre, temendo que eles (por mais insignificantes que fossem) tentassem retirar-lhe a liderança.

Para evitar um confronto fatal, Hussein convidou Arafat para ser primeiro-ministro do seu governo. Ele recusou. Os radicais da OLP apelavam ao derrube do monarca e tentaram assassiná-lo. Em 17 de Setembro de 1970, depois de Arafat lhe ter dado “24 horas para deixar o país”, o soberano hashemita declarou guerra aos palestinianos. Sangrentos combates causaram milhares de mortos. Sabendo que uma negociação seria equivalente a rendição, Arafat foi obrigado a fugir para o Líbano com os seus guerrilheiros. A vingança começou a ser posta em prática em 28 de Novembro de 1970.

A primeira vítima foi o primeiro-ministro jordano, Wasfi Tell, assassinado no Cairo. A reivindicação foi feita em nome do Setembro Negro, uma criação de Abu Iyad com o beneplácito de Arafat.

Os alvos marcados para morrer eram atacados em qualquer lugar do mundo, de Telavive a Trieste. A maior ignomínia foi cometida em 5 de Setembro de 1972 durante as Olimpíadas de Munique. O ataque começou com a morte de dois atletas e com o sequestro de outros 11.

Uma intervenção das forças alemãs falhou e, no subsequente tiroteio, morreram mais nove israelitas, cinco dos oito atacantes e um polícia alemão. Os três raptores sobreviventes foram capturados mas depois libertados quando um avião da companhia Lufthansa foi sequestrado. As fotos dos encapuzados tornaram-se o rosto do terror.

© Mohammed Abed | AFP

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Era preciso mudar de rumo e o encorajamento foi dado pela URSS. Em 1973, durante uma visita a Moscovo, refere o historiador Yezid Sayigh, autor da obra monumental Armed Struggle and the Search for State, Arafat recebeu dos soviéticos a promessa de armas e treino militar. Deram-lhe também um conselho: “Não há revolução no mundo que não tenha um programa para cada fase. Tem de haver fases na vossa luta. Não seria melhor lutar a partir de Tulkarm [na Cisjordânia], por exemplo, do que do exterior?”

Em 14 de Outubro de 1974 (depois de uma cimeira árabe na Argélia ter cancelado os três “não” a Israel aprovados na conferência de Cartum), Arafat obteve uma importante vitória diplomática. A Assembleia-Geral da ONU convidou a OLP a “representar o povo palestiniano” numa sessão sobre a Palestina, em Nova Iorque.

Foi uma votação esmagadora, que reflectia a mudança de posições no mundo: 115 votos a favor. Só os EUA, Israel, a Bolívia e a República Dominicana votaram contra. Em 28 de Outubro, numa cimeira árabe em Rabat, Arafat suplantou Hussein da Jordânia ao ver a OLP reconhecida, por unanimidade, como “único e legítimo representante do povo palestiniano”.

Uma semana antes, a França tornara-se o primeiro país da Europa Ocidental a estabelecer contactos de alto nível com a OLP. Em 13 de Novembro, as autoridades norte-americanas viram-se, contra a sua vontade, como anfitriões e protectores de Arafat, quando ele discursou perante a Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque, dizendo: “Hoje, eu trouxe um ramo de oliveira e a arma de um combatente da liberdade; não deixem que o ramo de oliveira caia da minha mão.”

No encerramento da sessão, uma esmagadora maioria concedeu à OLP o estatuto de observador (como o Vaticano e a Suíça) nas instituições das Nações Unidas.

Em 1975, quando uma guerra civil eclodiu no Líbano – frágil sociedade com 17 confissões religiosas e um exército partido em linhas sectárias -, Arafat cometeu o erro de alinhar com uma das partes em conflito. E, ao apoiar o Movimento Nacional Libanês, que unia drusos e sunitas de esquerda sob a liderança de Kamal Jumblatt (um druso) agravou velhas inimizades: com os cristãos maronitas pró-israelitas e com os sírios.

© Suhaib Salem | Reuters

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A guerra foi brutal. Um dos primeiros grandes massacres foi cometido no campo de refugiados de Karantina, situado numa área cristã de Beirute. Milicianos maronitas mataram cerca de 200 palestinianos. A vingança foi um assalto de unidades da Fatah a Damour, reduto do clã Chamoun. Após 48 horas de combates, os 2000 habitantes foram mortos ou fugiram.

Em 1976, foi a vez de a milícia Nimr (Tigres), de Dany Chamoun, bombardear Tel al-Zaatar, o maior campo de refugiados palestiniano. Os 30.000 habitantes, que já passavam fome e bebiam água de poços contaminados, renderam-se ao fim de 55 dias de cerco. Numa orgia de sangue, os assaltantes mataram 4.280 pessoas e feriram outras tantas. Foi também em 1976, receoso que a minoria cristã na Síria fosse impelida a juntar-se aos maronitas libaneses numa aliança com Israel, que o Presidente sírio, Hafez al-Assad, mandou chamar Arafat ao seu palácio.

O chefe da OLP jamais esqueceu o que ouviu: “Tu não representas a Palestina mais do que eu. Não há um povo palestiniano, nem uma entidade palestiniana, há apenas a Síria e vocês são parte inseparável do povo sírio, e a Palestina é parte inseparável da Síria.” Nem a primeira-ministra israelita Golda Meir, numa entrevista que deu ao “Sunday Times”, em 1969, tinha sido tão frontal, quando afirmou: “O povo palestiniano não existe!”

Em 1979, uma revolução islâmica no Irão deixou Arafat eufórico. O maior aliado dos EUA e de Israel no Médio Oriente, o Xá Reza Pahlavi, foi derrubado pelo Ayatollah Khomeini. Na varanda da sua residência em Beirute Ocidental, Arafat disparou tiros de alegria para o ar. Terá sido a primeira vez que alguém o viu usar a sua arma pessoal. Arafat e Sadat mantinham contactos desde os tempos em que o teólogo xiita tinha sido deportado para a cidade iraquiana de Najaf.

O líder palestiniano foi o primeiro dignitário estrangeiro a visitar o ayatollah quando ele regressou a Teerão após o exílio em França. No dia 17 de Fevereiro, quando seu avião se aproximava do aeroporto, os iranianos enviaram uma esquadra de caças para o escoltar até à pista, levando-o por momentos a recear que se tratava de um ataque israelita para o matar.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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A cooperação foi efémera mas frutífera. A antiga missão comercial de Israel foi transformada na embaixada da OLP. Esta ajudou o Irão a formar os Guardas da Revolução e um novo serviço de espionagem que substituiu a implacável SAVAK, polícia secreta do deposto imperador, treinada por Israel. As relações com os iranianos, devido a um grande fosso ideológico e cultural, nunca chegaram a consolidar-se.

Em 1980, a ruptura com os revolucionários em Teerão consumou-se quando, no dia 22 de Setembro, o Iraque invadiu o Irão, obrigando Arafat a alinhar com Saddam Hussein. Khomeini já se tinha enfurecido com Arafat quando este, no início de Novembro de 1979, lhe pediu a libertação dos reféns norte-americanos na embaixada dos EUA em Teerão.

Arafat queria agradar ao Presidente Jimmy Carter, que indirectamente, solicitara os seus bons ofícios, mas o “ayatollah” ficou furioso por o líder da OLP estar a interferir no seu confronto com o “Grande Satã”. É certo que um grupo de 13 cativos (cinco mulheres e oito negros) saíram em liberdade, e que o secretário de Estado de Washington, Cyrus Vance, escreveu uma carta de agradecimento a Arafat. No entanto, talvez desconfiado de que o dirigente palestiniano fornecera informações sobre as forças iranianas, Khomeini negou que Arafat tivesse influenciado a sua decisão.

Em sinal de desprezo, passou a tratá-lo como Al-Qazam ou “Anão”. Em Agosto de 1981, o então príncipe Fahd, herdeiro do trono saudita, apresentou um plano (de que Arafat era co-autor) apelando à retirada de Israel dos territórios ocupados e à criação de um Estado palestiniano independente após uma tutela provisória da ONU.

O texto não mencionava a OLP, e o seu artigo 7 evocava “o direito de todos os Estados da região a viver em paz”. Ou seja, reconhecia implicitamente, pela primeira vez, a existência da “entidade sionista”. Estas propostas foram levadas a uma cimeira árabe, em 25 de Novembro, em Fès, Marrocos. A Síria boicotou o fórum, mas aprovou uma “versão melhorada” noutra cimeira, em 1982.

© Paula Bronstein | Getty Images)

© Paula Bronstein | Getty Images

Arafat ansiava aproximar-se dos EUA (nos anos 1970 havia colaborado com a CIA no Líbano, através do seu protegido Ali Hassan Salameh) e não desistiu. A 4 de Agosto de 1981, encontrou-se com o amigo americano Edwin Mroz e pediu-lhe que entregasse à Administração de Ronald Reagan uma proposta em sete pontos, semelhante ao “plano Fahd”.

Mroz obteve licença de Reagan e do seu secretário de Estado, Alexander Haig, para convencer Arafat a reconhecer Israel e a renunciar ao terrorismo. Nos nove meses seguintes, Mroz passou mais de 500 horas em 50 reuniões separadas com o líder palestiniano, nos sítios mais inesperados, incluindo uma enfermaria onde Arafat convalescia de uma cirurgia para remover pedras nos rins. O assassínio do Presidente egípcio, Anwar Sadat, em Outubro de 1981, deixou Arafat assustado. Não queria ter o mesmo destino do árabe que duas vezes surpreendeu os israelitas – com a guerra de Outubro de 1973 e a visita a Jerusalém em 1977.

Quando Mroz lhe pedia para ceder às exigências de Washington, a resposta de Arafat era, invariavelmente: “Sim, mas quando chegar a altura certa”. Esta indefinição tornara-se quase uma assinatura. “Não podemos dizer que não a tudo, e também não podemos dizer que sim. Temos de aprender a dizer ‘sim’, mas’ e ‘não, mas'”, dizia Arafat.

Na OLP inventou-se a palavra, “lam”, combinação dos termos árabes “la” (não) e “nam” (sim) para caracterizar o que se podia esperar do líder. Em Maio de 1982, Mroz foi intimado por Haig a suspender o diálogo. O ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, já obtivera “luz amarela” do chefe da diplomacia de Washington para lançar uma invasão do Líbano. O pretexto chegou quando, no dia 3, o grupo do mercenário palestiniano Abu Nidal feriu gravemente a tiro o embaixador israelita em Londres, Shlomo Argov.

Ao governo israelita de Menachem Begin não interessou saber que o responsável pelo atentado era um inimigo de Arafat. Também não parecia interessar o facto de nos 12 meses que precederam a invasão, os guerrilheiros palestinianos estarem a respeitar um acordo de cassar-fogo mediado pelo enviado norte-americano Philip Habib.

Begin e Sharon há muito tinham delineado planos de ataque e estavam determinados a destruir o “estado dentro do Estado” e o império financeiro que a OLP construíra na “Suíça do Médio Oriente”, graças a alianças político-militares com grupos sunitas, xiitas e drusos.

© Mohammed Ballas | AP

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Em 6 de Junho de 1982, cerca de 80 mil soldados israelitas, apoiados por 1240 carros de combate, mais de 1500 outros veículos blindados e uma sofisticada aviação, atravessaram a fronteira e entraram na “Fatahlândia”.

O objectivo final era formar um “eixo judaico-cristão” no Levante. A pedra angular deste plano era Bachir Gemayel, chefe da milícia falangista cristã (do Partido Kataeb) que uma vez disse: “O Líbano é fácil de comer, mas quase impossível de digerir”.

As autoridades israelitas puderam comprovar isso quando, depois de forçarem a expulsão do líder palestiniano e dos seus 15.000 fedayin, entre Agosto e Setembro de 1982, a Síria mandou matar Gemayel, recém-eleito Presidente.

A 15 de Setembro, desesperados, os israelitas entraram em Beirute Ocidental, maioritariamente muçulmana, e empreenderam uma campanha de bombardeamentos tão mortífera que até o amigo Reagan foi obrigado a telefonar a Begin: “Menachem, isto é um holocausto!”

Os falangistas, por seu turno, sedentos de vingança, foram autorizados por Sharon a entrar nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. De 16 a 18 de Setembro, mataram tudo o que lhes apareceu à frente. A Cruz Vermelha Internacional contabilizou 328 mortos e 911 desaparecidos; os palestinianos 1500 mortos; uma comissão de inquérito israelita entre 700 e 800 mortos.

No seu novo quartel-general em Tunes, provisoriamente instalado no Hotel Salwa Beach, 200 quartos de cinco estrelas, Arafat sentiu-se traído. Os EUA tinham dado garantias escritas de que os palestinianos seriam protegidos. Mas quando os falangistas entraram em Sabra e Shatila, os contingentes norte-americano, francês e italiano de uma força multinacional já tinham partido.

Reagan não teve alternativa a não ser fazer regressar os Marines (fuzileiros) e lançar uma iniciativa de paz, que previa o congelamento da colonização judaica e uma associação dos territórios ocupados à Jordânia.

Begin recusou. Arafat manteve a porta entreaberta, seguindo um dos seus lemas: “Quando só tenho duas opções, não descanso enquanto não encontrar uma terceira.”Em 1983, Arafat enfrentou uma rebelião na Fatah em Tripoli, no Norte do Líbano, instigada por Assad, o rival que, em 23 de Junho de 1983, falhou uma tentativa para o matar, e que, no dia seguinte, o expulsou de Damasco considerando-o persona non grata.

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Os combates inter-palestinianos duraram até 20 de Dezembro, quando Arafat se rendeu, partindo no Odysseus Elytis, um dos cinco navios gregos, com pavilhão da ONU, que pela segunda vez em menos de um ano haveriam de transportar os seus homens expulsos do Líbano. Ao sair de Tripoli, Arafat foi parar aos braços de Hosni Mubarak, o Presidente de um Egipto ostracizado pela paz com Israel.

Em 1984, reconciliou-se com Hussein da Jordânia e fez regressar a OLP a Amã para um congresso do Conselho Nacional Palestiniano que legitimou a sua liderança. De 1985 a 1987, voltou a ser desafiado por Assad, que forneceu armas pesadas à milícia xiita Amal na chamada “Batalha dos Campos”, para impedir que os fiéis de Arafat voltassem a interferir na política libanesa. Morreram 2500 pessoas.

Em 1988, depois de recusar uma “confederação” com a Jordânia que não lhe dava soberania, Arafat decidiu jogar o que considerava o “último trunfo”.

Em 14 de Dezembro, no Palais des Nations em Genebra – no mesmo edifício em que a predecessora da ONU atribuiu à Grã-Bretanha um mandato sobre a Palestina em 1922 -, o líder palestiniano compareceu perante um batalhão de jornalistas, às 20h30. Pôs os óculos, pegou numa folha de papel e começou a ler uma declaração em inglês: “A nossa posição é clara”, disse com voz quase inaudível.

“Aceitamos o direito de todas as partes do conflito do Médio Oriente existirem em paz e segurança. Repito que renunciamos, total e absolutamente, a todas as formas de terrorismo.”

Os biógrafos Janet e John Wallach constataram que Arafat se enganou. Em vez de dizer “renunciamos” ao terrorismo disse “anunciamos”, embora emendasse rapidamente a “gaffe”. Andrew Gowers e Tony Walker ironizaram que “a palavra terrorismo soou a turismo”.Os repórteres na sala queriam fazer mais perguntas, mas Arafat, incomodado, teve um dos seus habituais assomos de fúria: “Basta! Basta! O que pretendem mais? Que eu faça um striptease?”

Não era preciso. Foi o suficiente para os EUA iniciarem um tímido relacionamento oficial. Para chegar aqui, foi preciso, no entanto, eclodir uma sublevação popular (a primeira Intifada) nos territórios ocupados, em 1987, e a OLP proclamar, em 1988, em Argel, um Estado palestiniano no exílio, abandonando os sonhos de uma “Grande Palestina” (Hussein desistiu também de anexar a Cisjordânia ao seu reino).

Foi sobretudo a revolta em que crianças enfrentavam tanques israelitas com pedras que levou os EUA a mudarem de atitude. O mundo tomara consciência, através da televisão, de como a ocupação israelita desumanizava os palestinianos. Em 1990, um ataque palestiniano em Israel e o apoio de Arafat à invasão iraquiana do Kuwait deixaram a OLP totalmente marginalizada.

© Associated Press (AP)

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Os EUA suspenderam os contactos. As petromonarquias do Golfo cancelaram os financiamentos, deixando falida uma organização que chegou a ser “o mais rico movimento de libertação do mundo”, com centenas de empresas e acções em Wall Street. A sorte de Arafat é que, em Washington, estava uma Administração (de George Bush, pai) disposta a lançar um processo de paz, depois de derrotar Saddam Hussein na guerra do Golfo de 1991.

Em Novembro, os soviéticos de Mikhail Gorbatchov e os habitantes dos territórios ocupados forçaram Arafat a aceitar uma conferência internacional em Madrid, onde a OLP não tinha assento. Todos os que integraram uma delegação jordano-palestiniana foram, no entanto, escolhidos por ele e não tomaram nenhuma decisão sem o consultarem.

O processo mergulhara num impasse quando, em Janeiro de 1993, israelitas e palestinianos começaram negociações secretas em Oslo, na Noruega. Em Setembro, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, o general que conquistou a Cisjordânia e Gaza na guerra de 1967 e prometera “quebrar os ossos” dos activistas da Intifada, assinou um acordo com Arafat, na Casa Branca, em Washington. Israel e a OLP reconheciam-se mutuamente.

Em Julho de 1994, Arafat deixou definitivamente o exílio em Tunes e regressou a Gaza. Os acordos de autonomia assinados com os israelitas permitiram que várias cidades e aldeias ficassem sob controlo palestiniano. Indignado com estas concessões, um extremista judeu assassinou Rabin em 4 de Novembro de 1995.

No ano seguinte, em 20 de Janeiro, Arafat foi eleito presidente da Autoridade Nacional Palestiniana com uma esmagadora maioria de votos. Não beneficiou de um período de graça. Em Fevereiro e Março de 1996, a Jihad Islâmica e o Hamas levaram a cabo uma série de ataques suicidas, forçando-o ao “papel bizarro de guardião de Israel e carcereiro dos palestinianos.”

Os actos terroristas contribuíram para que Benjamin Netanyahu, do partido direitista Likud, ganhasse as eleições em Maio de 1996, derrotando o “candidato de Arafat”: Shimon Peres. Bibi era um opositor dos Acordos de Oslo e fez tudo para os renegociar, inviabilizando compromissos assumidos. Em Maio de 1999, com o processo de paz agonizante, os israelitas elegeram Ehud Barak, ex-chefe do Estado-Maior do Exército.

O modo como ele conduziu as negociações com os árabes gerou controvérsia. Na Cisjordânia e Faixa de Gaza, só progrediam as escavadoras que abriam as fundações de novos colonatos. Segundo o movimento Peace Now (Paz Agora), nem Netanyahu expropriou tantas terras para expandir a colonização como o trabalhista Barak.

© Ashraf Amra|APA Images | ZUMAPRESS.com

© Ashraf Amra |APA Images | ZUMAPRESS.com

Em 2000, o Presidente dos EUA, Bill Clinton, com pressa de solucionar o conflito antes de findar o seu mandato, juntou Barak e Arafat na estância de Camp David (Maryland), de Julho a Dezembro. Voltou a juntá-los em Taba, no Egipto, em Janeiro de 2001.

Em Camp David, Barak propôs uma retirada da Cisjordânia que permitisse a Israel anexar 9 por cento do território, previamente seleccionado, para manter 80 por cento dos colonos judeus. Os palestinianos seriam “indemnizados” com terras não especificadas em Israel e equivalentes apenas a 1 por cento da Cisjordânia.

Barak insistia também em manter a soberania israelita sobre Haram al-Sharif, o terceiro lugar sagrado do Islão, embora aceitasse que algumas áreas árabes de Jerusalém ficassem sob controlo palestiniano.

Quanto ao direito de retorno dos refugiados palestinianos, Barak sugeria vagamente uma “solução satisfatória” o que, segundo Robert Malley, conselheiro de Clinton presente nas negociações, deixou Arafat céptico. Ele nunca confiou no sucessor de Rabin.

O maior erro apontado a Arafat foi não ter apresentado contra-propostas a Barak, explicando os detalhes do que realmente lhe foi sugerido. Ao recusar o plano de Camp David, foi imediatamente acusado de querer destruir Israel.

No entanto, sublinhou Malley, no New York Times, os palestinianos aceitaram em Camp David a criação de um Estado nas “fronteiras” da guerra de 1967; aceitaram a anexação de território da Cisjordânia para acomodar colonatos, ilegais segundo a lei internacional; aceitaram a soberania israelita sobre bairros judaicos de Jerusalém Leste (que não faziam parte de Israel antes de 1967); e, embora insistissem no reconhecimento do direito de retorno dos refugiados, concordaram que ele teria de ser aplicado de maneira a proteger os interesses demográficos e de segurança de Israel.

“Nem Sadat do Egipto, nem Hussein da Jordânia, e muito menos Assad da Síria, admitiram alguma vez estes compromissos”, sublinhou Malley. Nas negociações de Taba, os palestinianos apresentaram mapas e números, aceitando uma anexação israelita de 3 por cento da Cisjordânia em troca de 3 por cento de terras em Israel. Barak cedeu em relação à soberania palestiniana sobre Haram al-Sharif e reduziu a zona a anexar na Cisjordânia de 9 para 6% .

Os palestinianos continuavam, porém, a ser compensados com uma área inferior de terras israelitas, o equivalente a 3% da Cisjordânia. Nesta altura, Barak já estava em queda nas sondagens e o candidato do Likud às eleições de Fevereiro de 2001, Ariel Sharon, avisou que não cumpriria nenhum compromisso derivado dos Acordos de Oslo, “a maior desgraça que se abateu sobre Israel”.

Em 28 de Setembro de 2000, Barak autorizou Sharon a visitar a Cúpula do Rochedo/Monte do Templo, em Jerusalém Leste.

© Musa al-Shaer | AFP | Getty Images

© Musa al-Shaer | AFP | Getty Images

A visita foi o detonador da sublevação, baptizada pelo jornalista israelita Ehud Ya’ari de Intifouda (fouda é o termo árabe para anarquia). Que Arafat ordenou a violência foi posteriormente desmentido por uma fonte insuspeita: Amos Malka, que na época era chefe da espionagem militar.

Barak e Sharon, revelou Malka citado pelo diário hebraico Ha’aretz, em Julho deste ano, foram deliberadamente enganados por Amos Gilad, chefe do departamento de investigação dos serviços secretos militares, sobre as reais intenções do líder palestiniano.

O facto de Arafat ter recusado as propostas de Camp David não significava que ele renegara a solução de dois Estados. Prevaleceu o mito. O investigador palestiniano Khalil Shikaki (Foreign Affairs) concluiu, por seu turno, que a segunda Intifada foi, acima de tudo, uma revolta palestiniana contra Arafat pelo fracasso dos Acordos de Oslo.

Como Arafat temia, Sharon sucedeu a Barak como primeiro-ministro, em 6 de Fevereiro de 2001. A sua eleição foi acompanhada de ataques palestinianos de uma barbaridade sem precedentes. “Kamikazes” do Hamas e da Fatah visaram civis em restaurantes ou autocarros. Sharon retaliou com a maior operação militar desde a invasão do Líbano. Cercou os habitantes da Cisjordânia e Gaza, dividindo os territórios em “200 enclaves sem qualquer ligação entre eles”, segundo a revista The Economist.

Casas foram demolidas e oliveiras arrancadas com bulldozers. Caças F-16 destruíram as infra-estruturas, políticas e de segurança, da Autoridade Nacional Palestiniana. Foi posta em marcha uma campanha de assassínios selectivos de presumíveis terroristas. Um prolongado bloqueio aumentou o desemprego e a pobreza, deixando a economia palestiniana à beira do colapso.

A construção de um “muro defensivo” [ou de apartheid, segundo os palestinianos] para impedir a infiltração de bombas-humanas expropriou mais terras, aprisionou povoações e agravou ainda mais as degradantes condições de vida nos territórios. Em Março de 2002, Arafat foi confinado pelo exército israelita ao seu bombardeado quartel-general em Ramallah. Em Junho, os EUA excluíram-no do processo de paz, exortando os palestinianos a elegerem novos dirigentes.

© Darren Whiteside | Reuters

© Darren Whiteside | Reuters

Em 2003, pressões internas e externas obrigaram Arafat a nomear, pela primeira vez, um primeiro-ministro. No entanto, insistindo em monopolizar o poder, esvaziou o governo das principais competências em matéria de segurança.

Com isso entrou em colisão com as várias sensibilidades da Fatah. Hoje, o seu grupo é um aglomerado de milícias, algumas das quais procurando abertamente derrubar a “corrupta velha guarda” de Tunes.

Sem herdeiro definido, vários analistas prevêem uma luta sangrenta pela sucessão, sobretudo agora que os israelitas se preparam para uma retirada de soldados e colonos de Gaza, reduto islamista. Os dirigentes mais credíveis que poderiam ocupar o lugar de Arafat já morreram: uns assassinados, como Abu Iyad e Abu Jihad; outros por doença, como Faisal Husseini.

Alguns estão na prisão, como Marwan Barghouti, ou demasiado velhos, como Haider Abdel Shafi (que morreria em 2007]. Por outro lado, a “jovem guarda”, como Jibril Rajoub e Mohammed Dahlan, não tem o carisma suficiente para unificar um povo extremamente dividido.

A “aristocracia” da Cisjordânia, habituada aos privilégios que durante anos beneficiou do vizinho Reino Hashemita, sempre olhou com desdém para os “refugiados” de Gaza, território onde a militância política, muito próxima da Irmandade Muçulmana, sempre foi encorajada, mesmo durante a ocupação egípcia de 1948-1967.

O grande mérito de Arafat foi precisamente o de não ter feito distinção entre o filho do camponês e o do banqueiro. Todos foram usados como “instrumentos da revolução”. O que faltou a Abu Ammar foi coragem para despir a farda de guerrilheiro e envergar o fato de presidente. Deixar cair a arma, mantendo na mão o ramo de oliveira.

Ao desprezar as instituições de uma outrora vigorosa sociedade civil, alimentou um nocivo culto de personalidade. Não conseguiu cumprir a promessa de criar um “Estado laico e democrático”, e deixa o povo mais próximo da guerra civil do que da paz. A sua morte abre uma era de incerteza e instabilidade. Com ele morre, de certa maneira, a OLP, que ele personificava.

Sem a figura tutelar de Arafat – um dos últimos “líderes históricos” do Médio Oriente (já morreram Nasser, Sadat, Hussein e Assad) -, terá chegado o momento de os palestinianos do “interior”, os que conhecem Israel e falam hebraico, encontrarem novos caminhos para a independência.

© Mohammed Abed | AFP

© Mohammed Abed | AFP

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 12 de Novembro de 2004 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on November 12, 2004

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