“Preferimos falar em progresso do que em reformas”

Para Sayyid Badr Al Busaid, membro da família real de Omã, a democracia ocidental em que “a maioria tem a última palavra” não é adequada ao mundo árabe. “Aqui preferimos o consenso, para acomodar todas as opiniões”. Quanto aos israelitas e palestinianos, deixa um conselho: “Pensar mais no futuro e menos no passado.” (Ler mais | Read more…)

© Sue Pownall 2012

© Sue Pownall 2012

Sayyid Badr bin Hamad bin Hamood Al Busaid é membro da família real de Omã (sayyid é um título de nobreza) e o “número três” da diplomacia de Omã, com o cargo de subsecretário. O “ministro responsável” pelos Negócios Estrangeiros [desde 1982] é Yousuf bin Alawi bin Abdallah mas o titular é o sultão Qaboos bin Said Al Said, que acumula ainda a chefia do Governo e da Defesa.

Numa singela sala do ministério onde, à entrada, um gigante e luminoso globo terrestre acolhe os visitantes, “sua alteza” aparece deslumbrante numa dishdasha branca (a tradicional túnica omanita), um khanjar (adaga) de prata à cintura, a combinar com o castanho das sandálias e do mussar (turbante) de padrão exclusivo.

A biografia oficial, que não revela a sua idade nem o parentesco com o sultão, refere que Sayyid Badr nasceu em Mascate e se formou em Ciência Política e Economia na Universidade de Oxford. Precisa ainda, a título de curiosidade, que ele gosta de música e desporto, sendo o ténis a sua paixão.

A carreira política iniciou-a em 1989, como primeiro secretário do MNE, com a responsabilidade de “desenvolver um Gabinete de Análise Política”. Em 1990, foi promovido a conselheiro. Cinco anos depois, um decreto real nomeou-o embaixador. Em 2000, ascendeu ao cargo que agora ocupa, representando o país em várias iniciativas regionais e internacionais.

Foi um dos principais dinamizadores, e permanece presidente do conselho executivo, do Centro de Investigação para a Dessalinização do Médio Oriente, instituição criada no âmbito das negociações de paz multilaterais com Israel. No final da entrevista, sem mais pormenores, diz-nos que, em Londres, alguns membros da sua família têm empregados portugueses.

Sayyid Badr bin Hamad bin Hamood Al Bu Said é membro da família real de Omã (sayyid é um título de nobreza) e o “número três” da diplomacia de Omã, com o cargo de subsecretário. @DR

Sayyid Badr bin Hamad bin Hamood Al Busaid é membro da família real de Omã (sayyid é título de nobreza) e o “número três” da diplomacia de Omã. A entrevista decorreu em Mascate, em 2005.
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Como define a actual situação em Omã, face aos acontecimentos que têm marcado a região desde os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA às eleições no Iraque este ano [de 2005]?

Gostamos sempre de fazer uma leitura positiva dos acontecimentos, porque só assim podemos ultrapassar muito do que é negativo. Não devemos ignorar o facto, fundamental e estratégico, de que é do interesse de todos os países desta parte do mundo garantir a segurança e a estabilidade da região, a longo prazo.

Porque não é um simples interesse regional mas global. Aqui, em Omã, beneficiamos de uma grande abertura e boas relações com os nossos vizinhos e o resto do mundo. A nossa política é de pragmatismo e franqueza em relação aos outros.

Alguns analistas dizem que depois do desenvolvimento a prioridade de Omã deve ser agora a democracia. O sultanato já foi pioneiro na introdução de algumas reformas, como o direito de voto e de eleição das mulheres, mas será que este processo é bem aceite pelos sectores mais conservadores da sociedade? Ainda agora foram julgados elementos que procuravam derrubar o governo pela força.

O processo de desenvolvimento em Omã em 1970 [com a ascensão de Qaboos ao poder, depois de forçar o seu pai tirano a abdicar] é um processo contínuo de modernização. Não gostamos da palavra “reforma” porque a sua tradução em árabe é muito enganadora.

O que significa “reforma” em árabe?

Em árabe, “reforma” é o oposto” de “barbárie”. Dizer que um país precisa de reformas é dizer que o país é bárbaro e atrasado e precisa de ser reformado. Não é este o caso, porque temos muito orgulho no que somos. Temos muito orgulho da nossa cultura. O que precisamos de falar é de desenvolvimento e de progresso.

Eu creio que já atingimos um extraordinário nível de desenvolvimento a todos os níveis, seja na educação ou na saúde, no papel das mulheres, no sistema judicial e nas instituições, na nossa lei básica, uma espécie de Constituição, que garante direitos iguais par todos, sem discriminação ou segregação entre homens e mulheres.

Há liberdade de expressão. Há liberdade de religião. Não devemos nunca impor certos modelos de democracia porque cada sociedade tem as suas especificidades e tradições.

Para dar um exemplo, a shura, que significa “consulta”, já era a base da nossa sociedade muito antes da presente estrutura, o Majlis a’Shura [conselho consultivo]. A consulta faz parte da nossa tradição, entre as famílias, nas aldeias, quando é preciso discutir problemas e encontrar soluções.

Isto é, de certa maneira, muito diferente do que se passa no Ocidente onde existe um sistema em que a maioria tem a última palavra. Aqui preferimos o conceito de chegar ao consenso, para que não seja só a maioria a impor a sua vontade, mas para acomodar todas as opiniões. Isto é uma evolução. Não temos uma meta final, como numa corrida.

Omani Foreign Minister Youssef bin Alawi surprised the audience when he bluntly declared that his country is against the union and will withdraw from the new body unless it sees the light. Oman had previously expressed its rejection of the Saudi proposal in 2011 but the minister’s recent statement came at Saudi Arabia’s worst moment, when both international and regional power shifts are increasingly eroding the Saudi position. Alawi’s statement shattered the illusion of cooperation and the chances of Gulf unity at a time when Saudi Arabia is desperate to regain its stature, at least among its Gulf neighbors. The direct language of the Omani minister is not something that Saudi Arabia is used to, especially coming from its close partners in the GCC. The statement added insult to injury after it transpired that Sultan Qaboos bin Said of Oman facilitated a secret dialogue between the United States and Iran that culminated in the recent Geneva agreement, which is resented by Saudi Arabia. Read more: http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2013/12/oman-rejects-gcc-union-insults-saudi-arabia.html##ixzz2tLVBSZ7D @Reuters

O sultão Qaboos e o anterior rei Abdullah da Arábia Saudita, em 2011. Omã surpreendeu Riad ao opor-se a que o Conselho de Cooperação do Golfo se transforme numa união. Segundo o site Al Monitor, a recusa de Omã abala “a ilusão de unidade” no momento em que a Casa de Saud tenta contrariar o poder do rival Irão. 
© Reuters

Está preocupado com a instabilidade em países vizinhos como a Arábia Saudita e o Iémen? Teme um impacto negativo em Omã?

Temos preocupações comuns. O que os preocupa a eles preocupa-nos a nós. A instabilidade na nossa região não é do nosso interesse. Sim, estamos inquietos mas acreditamos que todos os acontecimentos actuais [a violência ligada à al-Qaeda] são uma fase, são temporários, e que, a longo prazo, serão resolvidos graças à nossa capacidade e sabedoria.

Penso, sinceramente, que este ciclo de violência e de instabilidade serão superados nos próximos anos. É uma infelicidade a situação no Iraque, com tantas mortes de civis, mas acreditamos que o Iraque conseguirá reerguer-se porque tem poderosos recursos humanos e o apoio da comunidade internacional, para promover e encorajar o processo político – a única solução viável. É uma questão de tempo.

Muito se tem falado do projecto americano do “Grande Médio Oriente” e das pressões que os EUA têm exercido sobre alguns países da região, como o Egipto e a Síria, para adoptarem mudanças. O que pensa deste plano?

Em Omã as nossas mudanças começaram a ser empreendidas a partir do primeiro dia em que o Sultão [Qaboos] subiu ao poder [em 1970], muito antes do 11 de Setembro [de 2001]. Infelizmente há muitos preconceitos em alguns círculos. Muita gente não está a par da dimensão do nosso desenvolvimento.

Muitos americanos e outros chegam a Omã e ficam surpreendidos ao verem as mulheres conduzir ou a exercer cargos no governo. Porque têm ideias pré-concebidas de que os países islâmicos são atrasados. Não os culpamos, porque são ignorantes. Os que vêm cá têm oportunidade de ver a verdade. Nós somos amigos dos americanos.

Estamos ligados aos Estados Unidos por um tratado de amizade que data de 1833. Não sinto qualquer pressão da parte de ninguém para que nós [omanitas] mudemos. Temos uma relação construtiva com os EUA, mas também com a Europa e o Japão. Sabemos que temos de mudar porque se ficarmos parados não há progressos. Acreditamos na cooperação e na parceria.

O Sultão Qaboos e o novo Presidente do Irão, Hassan Rouhani: Omã continua a servir de mediador na região. @IRNA News Agency

O Sultão Qaboos  foi o primeiro chefe de Estado árabe a visitar, em Agosto de 2013,o novo Presidente do Irão, Hassan Rouhani: Omã continua a servir de mediador na região.
© IRNA

[ Qaboos  ofereceu-se como mediador nas negociações entre Washington e Teerão, para facilitar uma aproximação mútua desde a eleição do Presidente iraniano, Hassan Rouhani. O papel de intermediário do monarca já havia sido desempenhado durante a guerra entre o Irão e Iraque (1980-1988) – sendo o sultanato um dos raros países árabes a não tomar o partido de Saddam Hussein. Com esse gesto, serviu depois de facilitador na troca de prisioneiros de guerra.]

Tendo Omã sido um dos primeiros países árabes a abrir as portas ao Estado de Israel  [enviou um representante para Telavive após os Acordos de Oslo de 1993 e recebeu em visita oficial o primeiro-ministro Yitzhak Rabin; o Presidente Shimon Peres também recebeu o chefe da diplomacia omanita em Jerusalém, em 1995], como encara o futuro do processo de paz israelo-palestiniano? Crê que uma solução é possível?

Há uma solução para cada problema. O que é preciso é uma vontade forte e recursos para chegar a um acordo. Os palestinianos têm direitos legítimos reconhecidos pela lei internacional. Já deram passos importantes para terem o seu Estado independente. Nós apoiamo-los, e acreditamos que uma solução é possível através de negociações construtivas e pacíficas com Israel, e não pela força.

Também esperamos que o povo israelita encoraje o seu Governo a aproveitar a oportunidade de paz. Nenhum israelita ou palestiniano quer viver em estado de medo. A paz é o único meio de toda a região prosperar. Sem esquecer as lições do passado, temos de pensar mais no futuro do que no passado. Temos de aproveitar os instrumentos que a globalização nos oferece e aplicá-los para o bem.

@makingthemarrow

© makingthemarrow

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2005

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