Islão e perdão ligados num festival de música

Uma maioria de muçulmanos quer deixar de estar na defensiva para tomar a iniciativa. Pretende “recuperar a modernidade” mas recusa a “ocidentalização”. Aspira a ser “protagonista da História” e não apenas “objecto”. Contributos para um debate, que juntou vários oradores na cidade marroquina onde o judeu Maimónides procurou refúgio e o Papa Silvestre II aprendeu a numeração árabe. (Ler mais | Read more…)

@Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

Londres é o exemplo de que a religião do profeta Maomé não é monolítica, diz Kristiane Backer, jornalista muçulmana, a abrir o debate sobre “Islão e mundialização” em Fès, a mais antiga das capitais imperiais de Marrocos, durante o Festival das Músicas Sagradas. “Há mesquitas turcas, paquistanesas, do Golfo Pérsico e do Magreb.

Há uma primeira geração de imigrantes que não fala inglês e uma segunda, os que já nasceram no Reino Unido, completamente integrada. Há wahabitas e sufis. Há pobres e banqueiros.”

Há também um problema de imagem, reconhece Backer, salientando que, frequentemente, os media “preferem gastar tempo de antena com o capitão gancho de Finsbury”, referência ao imã extremista Abu Hamza al-Masri, expulso pelas autoridades britânicas, do que “dar a palavra a intelectuais moderados”.

A marroquina Assia Alaoui Bensalah, [embaixadora do Rei Mohammed VI], professora de Direito Económico Internacional e co-presidente do Grupo de Sábios da Comissão Europeia para o Diálogo dos Povos e das Culturas, é mais contundente na sua intervenção, num colóquio matinal no Museu Batha:

– “É verdade que o Islão tem sido instrumentalizado por extremistas mas a estratégia do Ocidente – de combater a jihad com a Cruzada –, permite a esses extremistas alargar a sua base de recrutamento”.

O Islão “tornou-se quase inaudível” e interrogamo-nos como é que “um homem numa gruta [Osama bin Laden, o chefe da al-Qaeda, que seria assassinado, no Paquistão, em Maio de 2011] pode chegar a Nova Iorque”.

Abdou Ansar Filali, de Marrocos, [um ismaili] considerado um dos maiores pensadores humanistas do mundo islâmico, reformador conceituado do Cairo a Teerão, tentou desfazer o erro que é confundir religião com história. “Atribuímos ao Islão o que pertence ao domínio da história dos muçulmanos. Os massacres são parte da história e não da religião”.

É um disparate, adianta Filali, que no Museu Britânico a arte esteja catalogada como sendo da “China, da África e do Islão”, como se este fosse uma região.

A embaixadora Assia Bensalah recomenda que os muçulmanos, para se adaptarem à mundialização, “deixem de estar na defensiva para tomar a iniciativa”. O mundo islâmico, sublinhou, precisa de ser “protagonista da História” e não apenas “objecto”.

E se é verdade que todos concordam com a necessidade de reforma, acrescentou, “ainda ninguém conseguiu chegar a uma fórmula, se à americana, se à europeia”.

Como “separar o religioso do político?”, pergunta. “Que aliança estabelecer para definir a multiculturalidade? É necessário um forte consenso político. Não se pode fazer reformas sem reformistas e não se pode fazer democracia sem democratas. Precisamos de um quadro em que a expressão seja livre e se possa desenvolver.”

A jornalista Kristiane Backer defende que os muçulmanos “têm de recuperar a modernidade, porque foram pioneiros da Renascença, mas sem cederem à ocidentalização”.

Zeyba Rahman, presidente do World Music Institute e directora do festival de Fès nos EUA, deixou à reflexão os casos de dois irmãos alunos na mesma escola. Um foi influenciado por um professor integrista e acabou morto em combate num campo de mujahedin no Afeganistão. Outro tornou-se corretor de sucesso na bolsa de Nova Iorque. Os pais criaram uma fundação para servir de ponte “entre estes dois mundos”.

Como perdoar o inimigo?

Vítimas e carrascos deveriam enfrentar-se numa comissão de verdade de reconciliação. Para isso é preciso que o conflito chegue ao fim. “Não se esquece, mas escreve-se a memória”.

Nurit Peled-Elhanan e , debatendo p perdão no Festival de Músicas Sagradas, edição de 2006, em Fès, Marrocos. @Enric Vives-Rubio

Nurit Peled-Elhanan (à esq.), a quem um suicida palestiniano matou a filha, e Aisheh Aqtam (a quem o Exército israelita matou o pai e o irmão), explicando a capacidade de perdoar, durante um dos debates no Festival de Músicas Sagradas, edição de 2006, em Fès, Marrocos
© Enric Vives-Rubio

Nurit Peled-Elhanan perdeu a filha Smadar, de 14 anos, quando um kamikaze palestiniano se fez explodir em Jerusalém Ocidental. A palestiniana Aisheh Hashem Nimer Aqtam perdeu o pai e o irmão num ataque israelita na Cisjordânia. Quando o inimigo mata há lugar para o perdão?

Na cidade marroquina de Fès, no imponente pátio do Museu Batha, ornamentado por azulejos coloridos e jardins, evocando a convivência andaluz entre judeus e muçulmanos, as duas mulheres sentaram-se lado, unindo as mãos. Ambas fazem parte do Fórum das Famílias Enlutadas [Family Circle – Parents Forum (FCPF)].

“O perdão, para mim, é uma noção muito estranha e revoltante”, diz Nurit, professora de Literatura Comparada na Universidade Hebraica de Jerusalém. “No meu país, as pessoas aprendem que há judeus e não judeus, que os palestinianos são uma ameaça e devem ser eliminados. Os políticos tentam fazer de nós inimigos, usando o nacionalismo, a religião e a raça.”

Por esta “liberdade de pensamento”, Nurit ganhou, em 2001, o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu. No discurso em que recebeu o galardão, declarou: “A luta não é entre palestinianos e israelitas, nem entre judeus e árabes. A luta é entre os que procuram a paz e os que querem a guerra. O meu povo é o que quer a paz”.

Nurit é filha do general pacifista Mattityahu (Matti) Peled (1933-1995). Os seus dois filhos são objectores de consciência, membros do movimento “Coragem de recusar” o serviço militar nos territórios ocupados. [Um deles seria co-fundador, em 2005, do movimento Combatants for Peace].

É em silêncio, de olhos baixos e cabeça ligeiramente coberta por um lenço, que a palestiniana Aisheh Aqtam ouve a israelita de rosto crispado denunciar a situação na Cisjordânia e Faixa de Gaza: “Somos iguais apenas numa coisa – no cemitério das crianças mortas. Todas são iguais. Não interessa como morreram. Não vale a pena falarmos de vingança”.

A intervenção de Aisheh Aqtam, professora de Psicologia, foi como uma súplica: “Não consigo impedir que as nossas crianças cometam atentados suicidas. Ajudem-nos a encontrar uma estratégia política para que os dois povos sigam um caminho que rejeite a perda de vidas de ambos os lados.”

“Podem imaginar o que é perder uma filha, um pai, um irmão? As feridas são indescritíveis. Não desaparecem. Morrer de doença é destino, mas morrer numa guerra é muito doloroso”.

Presente no Museu Batha, no âmbito do Fórum Dar uma alma à globalização, Driss El Yazami, ex-membro da Instância Equidade e Reconciliação [actual presidente do Conselho Nacional de Direitos Humanos], criada pelo actual Rei de Marrocos para dar voz às vítimas do regime do seu pai, Hassan II, tentou ser mais racional que emotivo.

Para haver perdão, disse Yazami, “é preciso primeiro que as vítimas falem, porque perdoar não é esquecer, é escrever a memória”. Em segundo lugar, “é preciso reconhecer que foram cometidos crimes, abusos, torturas, que se diga o que foi feito e quem fez, que se determine a responsabilidade institucional”.

Em terceiro lugar, acrescentou, é necessário que “a vítima seja reabilitada e não apenas indemnizada, que recupere a sua dignidade”. Finalmente, é preciso obter “a garantia de que, depois do perdão, os crimes não serão repetidos, empreendendo reformas na justiça e na educação”.

Jean-Pierre Chevènement, antigo ministro socialista francês, lembrou como, há 60 anos, a França e a Alemanha eram inimigos e agora são aliados, e como, há 60 anos, quem ousasse falar em perdão seria tratado como “colaboracionista”.

John Marks, fundador da organização não governamental norte-americana Search for Common Ground, enalteceu o exemplo da Comissão da Verdade e Reconciliação na África do Sul que colocou frente a frente vítimas e carrascos do apartheid e o do Burundi, onde depois de um genocídio, hutus e tutsis procuram cicatrizar feridas. No entanto, todos os participantes no debate concordaram que “só há lugar para o perdão quando termina o conflito”.

Depois de uma manhã amarga, a atmosfera distendeu-se à tarde, quando o padre maronita libanês Elias Kesrouani, o rabi norte-americano Bradley Hirschfield e o xeque palestiniano Abdul Aziz Bukhari se juntaram (e beijaram e abraçaram) a uma mesa para partilharem as suas experiências de comunhão inter-religiosa.

Bukhari, um sufi de origem uzbeque, com o seu turbante verde em forma de cone, o excêntrico Hirschfield de kippah (solidéu) sobre cabelos compridos e uma túnica árabe, e o mais discreto Kesrouani, de cruz ao peito, fizeram um apelo colectivo à tolerância, lembrando a palavra de ordem de Gandhi: “Olho por olho deixará o mundo cego”.

Para saber mais sobre coexistência, consultar: www.jerusalempeacemakers.org

O padre maronita libanês Elias Kesrouani (à direita), o rabi norte-americano Brad Hirschfield (à esquerda) e o xeque palestiniano Abdul Aziz Bukhari (ao centro) juntaram-se, abraçaram-se e beijaram-se, enquanto partilhavam as suas experiências de comunhão inter-religiosa. @Enric Vives-Rubio

O padre maronita libanês Elias Kesrouani (à dir.), o rabi americano Brad Hirschfield (à esq.) e o xeque palestiniano Abdul Aziz Bukhari (ao centro) juntaram-se, abraçaram-se e beijaram-se, enquanto partilhavam as suas experiências de comunhão inter-religiosa
© Enric Vives-Rubio

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 8 de Junho de 2006 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 8, 2006

Ikrit e Biram não deram licença para matar

Durante a guerra de 1948, o exército israelita pediu aos habitantes de duas aldeias cristãs maronitas da Galileia, junto à fronteira com o Líbano, que deixassem as suas casas prometendo-lhes que voltariam “dentro de quinze dias”. Não foram autorizados a regressar. Em 1973, o movimento Setembro Negro vingou-se, matando 11 atletas israelitas em Munique. (Ler mais | Read more...)

A palestiniana Samiha Dokeh posa para uma foto na sua antiga adeia de Ikrit , no Norte de Israel , em 21 de Abril de 2014. Ela tinha 8 anos quando o Exército desalojou a sua família na promesa de que em breve regressariam. Embora, em 1951, o Supremo Tribunal de Israel tenha reconhecido o direito de os habitantes reaverem os seus bens porque têm cidadania israelita, o Exército destruiu a aldeia, deixando intactas apenas a igreja e o cemitério locais. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

A palestiniana Samiha Dokeh posa para uma foto na sua antiga aldeia de Ikrit, junto à fronteira com o Líbano, em 21 de Abril de 2014. Ela tinha 8 anos quando o Exército israelita desalojou a sua família prometendo um regresso em breve. Embora, em 1951, o Supremo Tribunal tenha reconhecido o direito de os habitantes reaverem os seus bens porque têm cidadania israelita, responsáveis políticos e militares ordenaram que a povoação fosse destruída. Ficaram intactas apenas a igreja e o cemitério locais

O mundo não esquece – e não deve esquecer –, o massacre de Munique em 1972, mas quem se lembra ou sabe o que aconteceu a Ikrit (ou Iqrit) e Biram, duas aldeias árabes cristãs cujos nomes designaram a operação dos terroristas palestinianos que mataram 11 atletas israelitas?

O filme Munique, de Steven Spielberg, é criticado por alguns judeus pela alegada equivalência moral que estabelece entre o ataque e o subsequente castigo dos seus autores. Alguns árabes também o criticam por nem sequer aflorar os motivos que levaram o terror palestiniano até ao pior lugar da memória hebraica: a Alemanha.

O principal conflito do Médio Oriente está repleto de ajustes de contas, seguindo o lema bíblico “olho por olho, dente por dente”.

Em Munique, os palestinianos mataram invocando a sua luta pela criação de um Estado. Em Ikrit e Biram, os israelitas levaram a cabo uma limpeza étnica argumentando com a necessidade de segurança do seu Estado. As vítimas, de um lado e do outro, foram inocentes.

O massacre de Munique ficou gravado na História. Ikrit e Biram, na fronteira com o Líbano, desapareceram do mapa. Em Sleeping on a Wire: Conversations with Palestinians in Israel (2003), o escritor israelita David Grossman dá voz aos habitantes de Ikrit:

No dia 31 de Outubro de 1948, quando eu tinha 20 anos, o exército israelita entrou na minha aldeia. Recebemos os soldados como convidados. Comemos, bebemos e cantámos.

(…) Estávamos contentes porque nenhum de nós tinha ficado ferido nos combates. (…) A 5 de Novembro de 1948, o comandante do exército, que se chamava Ya’akov Kara, chegou e disse que tinha recebido ordens.

Ninguém sabia quem as tinha dado. Não vimos papéis. Ordens. As crianças, as mulheres e os idosos deveriam abandonar a aldeia, porque o exército pretendia combater a força de Qawukji [um líder guerrilheiro], que ainda estava na área, e não queria magoar civis.

O oficial Ya’akov Kara deu a sua palavra militar de honra, que é sempre verdadeira, e prometeu que deixaríamos a aldeia apenas por 15 dias e que depois todos nós poderíamos regressar. (…) O próprio exército nos conduziu em veículos até [à povoação vizinha de] Rama.

Nós não fugimos. (…) Quinze dias depois fomos ter com as autoridades e elas pediram mais 15 dias. Regressámos a Rama [ou Rameh] e esperámos. Quinze dias depois, fomos de novo ter com as autoridades e elas disseram ‘voltem daqui a 15 dias’. E foi sempre assim.

Passámos seis meses em Rama. Todos os habitantes de Ikrit. Deram-nos as chaves dos habitantes de Rama, que tinham fugido. (…) Isto fere as pessoas no seu ponto mais sensível. O que pode justificar eu deixar a minha casa e ir viver para casa de outros?

Ruínas da aldeia de Biran, de onde os residentes aceitaram sair voluntariamente, durante a guerra de 1948, mas nunca foram autorizados a voltar pelo Exército israelita, que destruiu a povoação. © Wikipédia

Ruínas da aldeia cristã maronita de Biram, de onde os residentes aceitaram sair voluntariamente a pedido dos seus aliados judeus, durante a guerra de 1948, mas nunca foram autorizados a voltar pelo Exército israelita, que destruiu a povoação.
© Wikipédia

Em Biram, uma aldeia maronita, o exército também pediu que fosse evacuada, por “alguns dias, até que forças hostis pudessem ser afastadas da área”. Relata Grossman:

Nas semanas que precederam a evacuação, os soldados viveram com os aldeões. Cada casa tinha um quarto que lhes estava reservado. Dormiam e comiam juntos. (…) Uns após outros, todos os residentes entregaram as chaves das suas casas aos militares. Partiram a pé, numa longa coluna, para as montanhas sobranceiras à aldeia.

Era Novembro e chovia copiosamente. As famílias dormiam no chão. Os mais sortudos, ou talvez os mais fortes, encontraram grutas para se abrigarem. Durante o dia, todos se reuniam debaixo de oliveiras, sem compreender o vaivém de camiões militares, que entravam e saíam da aldeia.

Uma delegação de anciães foi perguntar ao exército quando poderiam regressar, tal como lhes tinha sido prometido. Quando entraram na aldeia tudo parecia negro – as portas das casas estavam partidas. As casas estavam vazias. Mobílias destruídas jaziam abandonadas nas ruas. Os soldados que os receberam expulsaram-nos, apontando-lhes as espingardas. ‘Esta terra é agora nossa’, disseram.

“A traição cortou-nos como uma faca”, sublinhou Elias Chacour, antigo residente de Biram e actual arcebispo da Igreja Greco-Católica Melquita, no seu livro Blood Brothers: The Dramatic Story of a Palestinian Christian Working for Peace in Israel (“Irmãos de Sangue: A história dramática de um cristão palestiniano em Luta pela paz em Israel”).

Nos processos judiciais que se seguiram, o exército israelita defendeu-se dizendo, por exemplo, em relação a Ikrit, que os aldeões “não eram residentes permanentes porque não estavam nas suas casas quando a área foi declarada zona de segurança”.

O Supremo Tribunal israelita deu razão aos queixosos, porque estes saíram das suas casas a pedido do exército. No entanto, logo após o veredicto dos magistrados, o exército emitiu “ordens de expulsão” aos aldeões de Ikrit.

O massacre de 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, em ... foi levado a cabo pelo movimento Setemnro Negro que designou o ataque de Operaçao Ikrit e Bira,. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O massacre de 11 atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique (Alemanha), em 1972,  foi levado a cabo pelo movimento de guerrilha palestiniano Setembro Negro (na foto um dos terroristas) que designou o ataque de Operação Ikrit e Biram

Em Setembro de 1951, todas as casas de Ikrit foram dinamitadas. Até a igreja foi atingida. A data escolhida para destruir a aldeia foi 25 de Dezembro – “uma bela prenda de Natal” para os habitantes cristãos, ironizou Grossman.

O destino de Biram não foi melhor. Os residentes tinham-se refugiado em casas abandonadas em Jish (agora comunidade hebraica de Gush Halav), num monte a que chamaram o “Monte das Lágrimas” ou “Muro das Lamentações de Biram”.

Um dia, 16 de Setembro de 1953, ouviram uma enorme explosão e viram as suas casas ir pelos ares. Tudo se passou em cinco minutos. Depois vieram os bulldozers e deixaram tudo em ruínas.

O historiador Simha Flapan (1911-1987), em The Birth of Israel: Myths and Realities (1988), adianta que, para tudo ser mais rápido, a aviação israelita bombardeou Biram antes de ser conhecido o resultado de um recurso ao tribunal.

O plano de Israel, diz Flapan, era “substituir” as aldeias árabes na fronteira Norte por vários kibbutzim e moshavim, que deveriam albergar novos imigrantes. Não havia qualquer necessidade de expulsar os habitantes árabes, “que sempre mantiveram excelentes relações com os judeus”.

Em 1972, perante protestos de muitos activistas israelitas, árabes e judeus, Golda Meir, a primeira-ministra que daria as ordens aos espiões da Mossad para eliminar os perpetradores da Operação Ikrit e Biram em Munique, justificou publicamente por que não podiam os aldeões cristãos árabes regressar à Galileia: “Isso seria enfraquecer a fé no sionismo e criaria dúvidas sobre a justiça das suas reivindicações.”

Nada indica que Ikrit e Biram tenham dado licença para matar ao movimento Setembro Negro, mesmo que entre os mentores e membros do movimento estivessem pelo menos dois cristãos, George Habash e Kamal Nasser.

Um massacre foi cometido em Munique, em nome de duas aldeias que, iludidas pelo exército, por sucessivos governos e pelos tribunais israelitas, acabaram resignadas ao destino que um dos seus habitantes definiu como de “refugiados na nossa própria terra”.

O casal Labeeb e Marth Ashkar mostram uma fotografia da aldeia de Ikrit de onde foram deportados em 1948
© Oren Ziv | Activestills | 972mag.com

Este artigo, agora revisto,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Fevereiro de 2006 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on February 2, 2006

Os judeus são um povo inventado?

Sim, diz o historiador Shlomo Sand num livro que foi, durante meses, um bestseller em Israel. Não há um povo judeu como “nação-raça”, apenas uma religião judaica, que sobreviveu pela conversão. O exílio em 70 d.C. é “um mito”, cristão e sionista. E os palestinianos de hoje serão os “genuínos descendentes” dos antigos habitantes do Reino de David. “É uma obra radical”, reconhece o autor. “Fascinante”, concordam admiradores e críticos. (Ler mais | Read more…)

© Marc Israel Sellem | The Jerusalem Post

Shlomo Sand, historiador na Universidade de Telavive, é “um homem muito corajoso”. É ele quem se vangloria, numa entrevista que me deu,  depois de ter publicado um livro (em hebraico e em francês) e um artigo (no Monde Diplomatique) onde conclui, após oito anos de estudos, que “o povo judeu é uma invenção”.

Não, escreve Sand, no século XIII a.C. Moisés “nunca poderia ter conduzido os hebreus para fora do Egipto até à Terra Prometida, porque esta era território egípcio”. Não, “não há qualquer vestígio de uma revolta de escravos contra o império faraónico ou uma súbita conquista de Canã por estrangeiros”.

Não, a população do Reino de Judá (posterior Judeia) “não fugiu para o exílio no século VI a.C. – só a elite intelectual foi forçada a instalar-se na Babilónia.”

Não, não houve um segundo êxodo, em 70 d.C., “porque os romanos nunca deportaram populações” – mesmo que quisessem, não tinham logística para expulsões em massa.

“À excepção de alguns prisioneiros feitos escravos, os habitantes da Judeia continuaram a viver nas suas terras, mesmo após a destruição do Segundo Templo.

Uns converteram-se ao Cristianismo, no século IV, e a maioria abraçou o Islão durante a conquista árabe, no século VII.” Os primeiros sionistas, enfatiza Sand, até à grande revolta árabe de 1936-39 na Palestina, sabiam que não tinha havido exílio”.

Para fazer valer a sua argumentação, Sand cita David Ben-Gurion, o primeiro chefe do Governo de Israel, e Yitzhak Ben-Zvi, o segundo presidente, asseverando que um e outro “disseram em várias ocasiões, em 1929, que a maioria dos camponeses da Palestina não tem origem nos conquistadores árabes, mas são genuínos descendentes dos habitantes da antiga Judeia”.

“É incrível, mas não há nenhum livro, um único, que prove o exílio de 70 d.C., porque ele nunca aconteceu”, empolga-se Sand, que pertence ao grupo dos “novos historiadores”, como Benny Morris, Avi Shlaim ou Tom Segev.

O grande exílio é um mito “originalmente cristão”. A ideia era mostrar um castigo divino por os judeus por não terem aceitado Jesus como Messias. No século XIX, tornou-se na “base da ideologia sionista, para legitimar a conquista da Palestina”.

© Eduardo Castaldo | Newsweek

Se os Judeus não foram expulsos e não houve 20 séculos de errância, “o grande impulso para a judaização”, no Norte de África, na Europa de Leste ou no Médio Oriente, “foi um processo de conversões”, garante Sand.

Entre a revolta dos macabeus, em 167 a.C., até à rebelião de Simon bar Kokhba, em 132 d.C., o Judaísmo foi “a religião de mais activo proselitismo” – e foram estas “conversões maciças que, sob influência do helenismo, prepararam o terreno para a subsequente disseminação do cristianismo”.

Sem as conversões no mundo pagão, avança Sand, “talvez a religião judaica se tivesse tornado completamente marginal, e poderia até nem ter sobrevivido”.

Mas enquanto o proselitismo durou, mesmo com um abrandamento depois da vitória do cristianismo, no século IV, “os Hasmoneanos judeo-helénicos converteram à força os Idumeanos [antigos Edomitas] do sul da Judeia e os Itureanos da Galileia, e incorporaram-nos no povo de Israel”.

No Curdistão emergiu o reino judeu de Adiabene, e no Iémen, apareceu “um vigoroso reino judeu em Himyar, cujos descendentes preservaram a sua fé durante a conquista islâmica até aos nossos dias.”

Para fundamentar as suas conclusões, Sand cita “obras romanas, gregas e judaicas”, incluindo os escritos de Flávio Josefo, Horácio, Séneca, Juvenal e Tácito. “O ponto de partida para a desconstrução dos mitos da historiografia da história dos judeus” foi, porém, a “nova arqueologia”, embora ele nos assegure ter “ido mais longe”.

Uma das histórias de conversões que Sand relata no seu livro Matai ve’ech humtza há’am hayehudi?, em hebraico, ou Comment le peuple juif fut inventé: De la Bible au sionisme, em francês [em Portugal o título é “Como o Povo Judeu foi inventado: da Bíblia ao Sionismo”, Ed. Figueirnha, 2012] é a da rainha Dahia al-Kahina.

Uma orgulhosa judia, ela foi líder de guerreiros berberes nas montanhas de Aurès (actual Argélia) que repeliram o exército muçulmano invasor do Norte de África, no século VII d.C.

“Perguntei a mim próprio como é que vastas comunidades judaicas apareceram em Espanha”, contou Sand ao diário israelita Ha’aretz.

“Reparei então que Tariq ibn Ziyad, o supremo comandante dos muçulmanos que conquistou Espanha, era berbere e que a maior parte dos seus soldados eram berberes.”

“O reino judaico-berbere de Dahia al-Kahina só tinha sido derrotado 15 anos antes. E a verdade é que há numerosas fontes cristãs a dizer que muitos dos conquistadores de Espanha eram judeus convertidos. As raízes profundas da comunidade judaica de Espanha estão nos soldados berberes que se converteram ao judaísmo.”

© liormizrahi.com

O que Sand descreve como “a mais significativa conversão em massa” terá ocorrido no século VIII, no Reino de Khazaria, situado entre os mares Negro e Cáspio, nas estepes ao longo do rio Volga.

“A expansão do Judaísmo do Cáucaso até à moderna Ucrânia criou uma multiplicidade de comunidades, muitas das quais se mudaram para a Europa de Leste depois das invasões mongóis”, afirma o historiador.

No século VIII d.C., os khazares adoptaram a religião judaica e o hebraico como língua escrita. A partir do século X, este reino enfraqueceu e, no século XIII, foi derrotado pelos invasores mongóis.

Sand não duvida que os khazares convertidos, em conjunto com os judeus das terras eslavas e do que é hoje a actual Alemanha, “constituíram a origem das comunidades judaicas na Europa de Leste (…), a base da cultura yiddish”.

A influência dos khazares é um ponto de discórdia, que levou outro historiador, Israel Bartal, da Universidade Hebraica, em Jerusalém, a criticar Sand por “inventar uma invenção”, embora tenha reconhecido que o livro do colega é “um estudo fascinante” (Há’aretz).

Até por volta de 1960, referiu Sand, “as origens complexas do povo judeu foram mais ou menos, relutantemente, reconhecidas pela historiografia sionista, mas depois foram marginalizadas e acabaram por ser apagadas da memória pública de Israel”.

Restou apenas o mito da “descendência directa do mítico Reino de David”, e os judeus passaram a reclamar ser “um grupo étnico específico, que regressou a Jerusalém, a sua capital, depois de 2000 anos de exílio”.

Bartal nega que “um inteiro capítulo da história judaica tenha sido silenciado por razões políticas”, e foi buscar a sua velha Enciclopédia Michal, obra de referência sionista, para relembrar a Sand a passagem sobre os khazares, “nação de origem turca”.

Diz a enciclopédia, segundo Bartal: “É irrelevante se a conversão ao judaísmo abrangeu um largo estrato da nação khazar; importante é que este acontecimento foi entendido como um fenómeno de grande significado na história judaica, um fenómeno que desde então desapareceu totalmente: o judaísmo como religião missionária.”

“(…) A questão do impacto a longo prazo desse capítulo da história judaica nos judeus da Europa de Leste – quer através do desenvolvimento do seu carácter étnico ou de outro modo – é um tema que necessita de maior investigação.”

“Em todo o caso, embora não conheçamos a extensão da sua influência, é evidente hoje que esta conversão teve um impacto.”

© EPA | The Independent

Sand, na entrevista que me deu, contrapõe: “Quando Bartal fala dos khazares não realça que eles se converteram ao judaísmo, destaca apenas que, antes de eles se tornarem judeus, muitos judeus já tinham chegado à região provenientes da Palestina. Conseguem ver a diferença?”

Bartal, acrescenta Sand, “pertence à velha corporação de historiadores, aqueles que, na Universidade Hebraica, nos anos 1930, decidiram dividir a História Judaica e a História Universal em dois departamentos distintos. Quando alguém, como eu, chega e diz que não acredita na História do Povo de Israel, é natural que eles se sintam chocados.”

Apesar de tudo, Sand confessa que esperava de Bartal uma recensão mais implacável. “Das minhas 500 referências, ele menciona três erros e, destes três, só tem razão em um e meio, o que me deixa muito honrado. Também não terá gostado que o livro tenha sido um bestseller, porque isso mostra que a sociedade israelita se tornou mais plural.”

Bartal não critica apenas a alusão de Sand aos khazares, mas também a asserção de que “’académicos reputados do passado’ ocultaram a verdade no que diz respeito à origem impura dos Judeus”.

O seu contra-argumento é o de que “nenhum historiador do movimento nacional judaico alguma vez acreditou que as origens dos Judeus são étnica e biologicamente ‘puras’.“

E continua: “Jamais um historiador judeu ‘nacionalista’ tentou ocultar o facto de que as conversões ao Judaísmo tiveram um grande impacto na história judaica na Antiguidade e nos primórdios da Idade Média.”

“Embora exista na cultura popular israelita, o mito do exílio da pátria judaica (Palestina) é negligenciado nas mais sérias discussões históricas judaicas. Importantes grupos do movimento nacional judeu exprimiram reservas sobre este mito ou negaram-no completamente.”

© Ronen Zvulun | Reuters

O que é que Sand tenta provar com este estudo, questionou Bartal. “Que a pátria dos Judeus não é a Palestina, que a maioria dos Judeus descende de diferentes nações convertidas ao Judaísmo e que foram os sionistas a desenvolver, no século XIX, uma ideologia etno-biológica e a inventar o chamado “povo judeu”?

Sim, responde Sand: “Os Judeus existiram como religião mas não como uma nação-raça. Foi no século XIX que intelectuais de origem judaica na Alemanha, influenciados pelo nacionalismo germânico, levaram a cabo a tarefa de criar um moderno povo judeu, herdeiro de um reino, errante durante 2000 anos e de regresso à pátria”.

“Os primeiros historiadores judeus, como Isaak Markus Jost (1793-1860) e Leopold Zunz, olhavam para o Velho Testamento como uma obra teológica, que reflectia as crenças das comunidades judaicas após a destruição do Primeiro Templo”, recorda Sand no Monde Diplomatique.

“Só na segunda metade do século XIX é que Heinrich Graetz (1817-1891) e outros desenvolveram uma visão ‘nacional’ da Bíblia e transformaram a viagem de Abraão para Canã, a fuga do Egipto e o reino unido de David e Salomão num autêntico passado nacional. Pela constante repetição, os historiadores sionistas transformaram, subsequentemente, essas ‘verdades’ bíblicas na base da educação nacional”.

© totpi.com

Ao contrário de Bartal, e ainda que tenha lamentado a profusão de “histórias pessoais, discussões teóricas e observações sarcásticas”, o historiador Tom Segev recomendou a leitura da obra de Sand, qualificando-a como “um dos livros mais fascinantes e desafiantes publicados aqui [em Israel] desde há muito tempo”.

“Os capítulos históricos estão muito bem escritos e citam numerosos factos e pontos de vista que surpreenderão muitos israelitas quando os lerem pela primeira vez”, adianta Segev, num artigo no Há’aretz, que Sand, entusiasmado, leu ao telefone.

Compreende-se a satisfação de ser compreendido, depois de ter sido insultado. “Houve quem me chamasse nazi e cão, e cheguei a temer ser alvo de agressões por parte de grupos de extrema-direita que violentamente têm interrompido as minhas palestras”.

“Sou um especialista em História Contemporânea [sobretudo da França onde completou os seus estudos universitários], mas chegou um momento em que senti que era estúpido viver em Telavive e não estudar a história dos judeus, porque o movimento sionista faz parte da história moderna da Europa“, disse-me Sand.

“Sabia que ia ser contestado, ao enveredar por outra área. Por isso, fiquei impressionado por o meu livro estar a ser vendido aos milhares. A minha posição é muito radical. O êxito talvez se explique porque as pessoas têm medo que a História não esteja com elas.”

“Eu não quis destruir o Estado de Israel”, vinca este homem que nasceu em Linz, na Áustria, em 1946, e passou os dois primeiros anos da sua vida num campo de refugiados judeus na Alemanha.

“Era meu dever confrontar a mitológica historiografia da história dos Judeus. O que pretendo é dar outra legitimidade ao Estado de Israel. A velha legitimação não se deve manter, porque não é verdadeira. Nunca regressámos a uma Terra Prometida.”

© Ronen Zvulun | Reuters | pri.org

O livro tem um objectivo político, reconhece Sand, “o de transformar Israel num Estado israelita democrático e não num Estado judaico, porque um terço da população não é judia. Por que é que um rabi em Nova Iorque pode dizer que Israel lhe pertence mais do que um colega árabe israelita da minha universidade?”

E Sand avisa também: “É preciso mudar a consciência etnocêntrica da sociedade israelita. Não há futuro para um Estado judaico, porque deixa de fora 20 por cento de árabes e 5% de imigrantes que não são considerados judeus.”

“Na Galileia, 65% dos habitantes são árabes. Se amanhã se revoltarem, e disserem que querem criar um Estado como o Kosovo, porque o Estado judaico os exclui, têm todo o direito de o fazer. Imaginam Portugal a proclamar-se um Estado dos cristãos?”

“Se em 10-15 anos, não se tornar num Estado de todos os seus cidadãos, Israel deixará de existir”, vaticina Sand, ressalvando que é “pessimista mas não fatalista”.

A diferença? “Acredito que o futuro não é bom, mas não tenho a certeza. Se a civilização durou o século XX sem uma guerra nuclear, não tenho o direito de ser fatalista.”

Antes de o telefonema acabar, mais uma clarificação: “Não sou anti-sionista, mas pós-sionista. A definição de uma pessoa como anti-sionista sugere que é contra a existência do Estado de Israel. Eu aceito o Estado de Israel. Digo que hoje há um povo israelita judeu.”

“O problema é que o sionismo não quer reconhecer a nação israelita e apenas a nação judaica. O nacionalismo árabe também não reconhecia a identidade israelita.”

De momento, declara Sand, “sou a favor da solução de dois Estados – não um Judaico e um Árabe, mas um Israelita e um Palestiniano. Depois, espero que seja criada uma confederação de dois Estados. Não defendo um Estado binacional porque isso seria pedir aos Judeus que se tornassem numa minoria no seu próprio país. É inaceitável.”

E é assim que, quase quatro décadas depois de Golda Meir, ex-primeira-ministra israelita, ter dito ao Sunday Times (15 Junho 1969) que “não existe isso a que chamam de povo palestiniano”, Shlomo Sand, outro israelita, vem dizer-nos que “o povo judeu é uma invenção”.

E para ilustrar o que daí resultou, o seu livro abre com uma citação de Karl Wolfgang Deutsch: “Uma nação é um grupo de pessoas unidas por um erro comum quanto à sua origem e uma hostilidade colectiva em relação aos seus vizinhos.”

[Em Outubro de 2014, Shlomo Sand explicou, num artigo publicado pelo diário britânico “The Guardian”, as razões por que, considerando Israel “uma das sociedades mais racistas do mundo ocidental”, desistiu de se considerar judeu. Publicou também um livro, ‘How I Stopped Being a Jew’, onde detalha esse processo.]

Shlomo Sand
© lexpress.fr

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in December 2005

Os últimos dias de Yasser Arafat

Toda a gente queria uma morte heróica. Toda a gente esperava que Israel o tentasse matar, com F16’s, com um ‘rocket’, de uma maneira directa. Mas ninguém esperava que ele morresse desta maneira.

(Membro do círculo restrito de Yasser Arafat, em declarações, sob anonimato, ao diário britânico The Guardian, a 16 de Dezembro de 2004). (Ler mais | Read more…)

Yasser Arafat durante uma visita a Lisboa, Portugal
© Adriano Miranda

Um mistério. Foi assim que ele apareceu e desapareceu. Durante anos, a versão oficial apresentou Yasser Arafat como um “filho de Jerusalém”, até ser encontrada, em 1990, uma certidão egípcia que lhe registava o berço no Cairo.

Em 11 de Novembro de 2005, aos 75 anos, o líder da OLP morreu como nasceu: “no exílio”, num hospital militar em França. Causa do óbito? Impossível determinar, esclareceu a Autoridade Palestiniana.

“Médicos franceses e palestinianos que trataram o irmão mártir não descobriram o que o infectou – não foram bactérias, nem vírus, nem micróbios, nem um tumor canceroso, nem sida”, disse o primeiro-ministro Ahmed Qurei, em 12 de Outubro deste ano.

O estado de saúde do presidente de cinco milhões de pessoas sem Estado foi sempre objecto de especulação. Em vida, por exemplo, atribuíram os tremores nas mãos à doença de Parkinson. Logo após a morte, falou-se de envenenamento, de cancro e de cirrose.

Investigações conduzidas, separadamente, pelos jornalistas americanos Steven Erlanger e Lawrence K. Altman, do New York Times, e israelitas Avi Isacharoff e Amos Arel, autores de The Seventh War: How We Won and Why We Lost the War With the Palestinians, foram publicadas em Setembro.

A conclusão de Erlanger e Altman que solicitaram pareceres científicos ao relatório de 558 páginas elaborado pelos médicos franceses que assistiram Arafat foi a de que ele sucumbiu a um “enfarte resultante de uma desordem hemorrágica causada por uma infecção desconhecida”.

Isacharoff e Arel, citados pelo diário hebraico Ha’aretz, não excluem que o “Velho do kaffiyeh” tenha morrido de sida ou envenenado, mas também eles sublinham “ser impossível apontar uma causa que explique a combinação de sintomas que conduziu à morte.”

O médico pessoal do líder palestiniano, Ashraf al-Kurdin, disse que os clínicos franceses encontraram VIH no sangue de Arafat. Na sua opinião, o vírus “foi dado por Israel a Arafat para ocultar envenenamento”.

O [então] primeiro-ministro israelita Ariel Sharon [em estado de coma desde 2006 depois de sofrer uma embolia cerebral, um ano após a decisão controversas de uma retirada unilateral da Faixa de Gaza] considerou estas acusações “um disparate”.

Yasser Arafat fundou a Fatah em 1958 mas só em 1969 é que se tornou líder da OLP
© Mina News

Os repórteres do New York Times são taxativos depois de terem requerido uma análise independente ao relatório francês: “O modo como a doença se desenvolveu e o padrão dos seus sintomas tornam improvável que tenha morrido de sida”.

Também “é altamente improvável” que tenha sido envenenado, acrescentaram, porque testes de toxicologia não detectaram metais nem drogas, opiáceos ou anfetaminas. Também não havia extensivos danos nos rins ou no fígado, embora tivesse icterícia.

Não deixou, todavia, de surpreender o “facto bizarro” de, apesar das suspeitas de que poderia ter sido contaminado com o VIH, os médicos da Unidade Hematológica de Percy, nos arredores de Paris, não terem conduzido nenhum teste de sida ao ilustre paciente.

O relatório, segundo o NY Times, especifica que Arafat só começou a tomar antibióticos em 27 de Outubro de 2004, ou seja, 15 dias depois de ter adoecido gravemente e dois dias antes do seu internamento em Percy. “Foi demasiado tarde para o salvar”.

Aparentemente, os médicos na Muqata, o quartel-general de Arafat em Ramallah, na Cisjordânia, não reconheceram que ele sofria de uma “grave desordem sanguínea – coagulação intravascular disseminada -, que nunca chegou a ser controlada até à sua morte”. Nem mesmo os médicos franceses descobriram “a causa específica dessa infecção”.

Tal como o seu kaffiyeh, também a pistola no coldre fazia parte da “marca registada” de Arafat
© Vanity Fair

Na reconstituição que fez dos últimos dias de Arafat, a correspondente do jornal britânico The Guardian, em Jerusalém, Susan Goldenberg, descreveu um Arafat desconfiado de tudo e todos, relutante em tomar medicamentos, “com uma fraqueza” apenas por complexos vitamínicos e produtos de ervanárias. Trabalhando das 8 da manhã à meia-noite, de um modo geral, não lhe eram conhecidos problemas cardíacos, nem de pressão arterial.

A sua dieta alimentar era exemplar: não comia carne vermelha, apenas vegetais, frango e peixe. Não bebia nem fumava. Até substituiu a cafeína por chá de camomila, conhecido pelos efeitos tranquilizantes.

Não obstante todos os cuidados, em 25 de Setembro de 2004 Arafat adoeceu. Segundo disseram conselheiros a Goldenberg, ele queixou-se de fortes dores de cabeça e no estômago. Os médicos na Muqata diagnosticaram uma “desordem gástrica”.

Dois ou três dias antes de o mês islâmico do Ramadão começar em 15 de Outubro [de 2004], Arafat tinha febre alta, vómitos e diarreia. Inicialmente, insistia em jejuar durante o dia, conforme preceitos da religião, e em manter a rotina de trabalho.

À noite, porém, também não conseguia comer, e a partir daí começou a perder peso a um ritmo que impressionava os que o rodeavam.

Em 1974, a ONU concedeu o estatuto de observador à OLP, depois de um discurso histórico de Arafat na Assembleia-Geral
© Al Jazeera

A 17 de Outubro, Arafat fez questão de assistir a uma reunião do conselho nacional de segurança palestiniano. Contou uma testemunha que ele só conseguiu ficar de pé dez minutos, tendo de abandonar a sala.

Famoso pelos “beijos platónicos” que dava, observou Goldenberg (chegava a beijar seis a sete vezes o rosto de colaboradores), Arafat impediu que os visitantes entrassem no seu quarto, desculpando-se que podia contagiá-los com a gripe de que julgava padecer.

A 17 de Outubro [de 2004], o círculo restrito ficou alarmado, e uma equipa de médicos, incluindo um cardiologista e um neurologista, chegou do Egipto. No dia seguinte, vieram outros da Tunísia, que começaram a fazer colheitas de sangue e urina, e até procederam a uma endoscopia.

Arafat, por seu turno, recusava-se a cooperar. A 24 de Outubro, para provar que continuava a ser o chefe, levantou-se da cama para assistir a uma reunião do conselho executivo. “Ele mal reconhecia quem falava, os seus olhos divagavam e não se conseguia concentrar”, relatou um dos presentes, citado por Goldenberg.

No dia seguinte, os médicos começaram a ficar desesperados. Arafat recebia várias unidades de plaquetas para restaurar o sistema sanguíneo mas nada surtia efeito. A 27 de Outubro, a contagem de plaquetas desceu para 40 mil e a 28 para 26.000 (o normal é 150.000 a 500.000).

Erlanger e Altman, no New York Times, também dizem que foi depois uma refeição que Arafat começou a sentir terríveis dores abdominais. Em duas semanas, perdeu três quilos. Foi tratado a trombocitopenia (plaquetas baixas) com transfusões e injecções de gama-globulina. Nada resultou.

Arafat, gravemente doente, despede-se dos amigos ao embarcar num helicóptero do exército jordano que o levou do seu quartel-general, a Muqatta, em Ramallah, na Cisjordânia, para uma clínica em França, em 29 Outubro de 2004
© BBC

Nas conclusões finais do seu relatório, uma vez que a mulher de Arafat não autorizou uma autópsia*, Bruno Patis, médico dos cuidados intensivos no Hospital de Percy, enumerou vários síndromas:

– “Problemas intestinais, desordens hematológicas, icterícia obstrutiva, letargia neurológica e coma”. No entanto, acrescentou,  “depois de consultar vários especialistas e tendo em conta os exames médicos realizados, a associação destas síndromes não pode ser explicada por uma única patologia.”

Não foi uma morte heróica. Desde Maio de 2002 que Arafat vivia confinado a um pequeno quarto, com um saco-cama, sem janelas, no rés-do-chão da Muqata. Durante três meses de cerco israelita, “não havia ar fresco, nem água potável”, revelou ao Guardian um dos que partilhou a experiência.

“Estavam ali umas 300 pessoas num espaço de 200 metros. Imagine o que era 20 pessoas a usarem uma casa de banho. Deixava qualquer um doente”. O quartel-general, relíquia do Mandato Britânico na Palestina, ficara reduzido a um amontoado de ruínas, ruas esburacadas e carros amolgados.

Em 14 de Setembro 2003, depois de 23 israelitas terem sido mortos num atentado num autocarro em Jerusalém, Ehud Olmert, “braço-direito” de Sharon [que seria depois sucessor na chefia do Executivo], avisara, em entrevista radiofónica: “Arafat tornou-se irrelevante. A expulsão é uma das opções. O assassínio é também uma das opções.”

O próprio Sharon, em 14 de Abril de 2004, disse ao Presidente dos Estados Unidos que não podia cumprir a promessa de não matar Arafat, ao que George W. Bush, segundo o NY Times aconselhou: “É melhor deixar o destino de Arafat nas mãos do Todo-Poderoso”. Sharon replicou: “Às vezes é preciso que alguém O ajude”.

Depois da morte de Arafat, em face destas declarações, abundaram as teorias de conspiração de que Israel concretizara o que Arik não conseguira, em 1982, quando invadiu o Líbano.

Arafat e colaboradores palestinianos na clínica em França onde foi internado
© Ha’aretz

Raanan Gissin, [antigo] porta-voz de Sharon, desmentiu todas as alegações e sublinhou que o seu Governo ofereceu “a ajuda necessária” para que os médicos assistissem Arafat e ele fosse internado no estrangeiro.

Susan Goldenberg, na sua investigação, confirmou que, vendo gravidade do estado de Arafat, o primeiro-ministro Ahmad Qurei (Abu Alaa) telefonou pessoalmente ao homólogo israelita, a 28 de Outubro, pedindo garantias de que Abu Ammar [nome de código dos tempos de combatente da Fatah] regressaria à pátria quando (ainda havia esperança) depois de sair do hospital francês.

A garantia foi reforçada, também a pedido de Abu Alaa, numa conversa telefónica entre Sharon e o Presidente egípcio, Hosni Mubarak.

Antes de Ahmad Qurei falar com Sharon, Arafat ainda recusava deixar a Muqata. Para provar que era ele quem mandava, forçou o seu fotógrafo oficial a registar uma última imagem: em vez do uniforme verde, envergava um fato de treino azul.

No lugar do kaffiyeh, que se tornara sua imagem de marca, tinha um barrete de lã. De mão dada com alguns guardas presidenciais, todos à sua volta olhavam para a esquerda. Ele olhava para a direita. O seu caminho já era outro.

A 29 de Outubro, numa madrugada chuvosa, Arafat embarcou num helicóptero jordano com destino a Amã e depois num avião emprestado pelo Presidente francês, Jacques Chirac, que o levou a Paris.

No Hospital Percy, com vários quartos ocupados pela sua mulher, Suha, conselheiros e guarda-costas, Arafat foi submetido a uma bateria de testes.

A delegada palestiniana em França, Leila Shahid ficou sensibilizada com a figura do seu líder. “Era como um passarinho. Todo encolhido”, disse à jornalista do Guardian. “A sua cara parecia queimada do sol. Estava vermelha, vermelha, e a pele e a cair”.

Até 2 de Novembro, Arafat dava sinais de recuperação. Ingeria pequenas quantidades de alimentos, sobretudo batidos de proteínas e iogurtes. Estava a ser medicado com heparina, um anticoagulante que ajuda a prevenir o consumo de plaquetas. No dia 9, sofreu uma hemorragia cerebral.

Funeral de Yasser Arafat
© Al Jazeera

O Xeque Taissir Tamimi estava de vigília ao doente. “Foi uma cena muito dolorosa”, disse a Goldenberg. “Havia sangue por todo o lado no seu rosto. O sangue jorrava de todos os lugares possíveis. Eu não entendia o que se passava. Fechei os olhos e comecei a lei o Corão”.

Eram 3h30 locais de quinta-feira, 11 de Novembro de 2005, quando o coração de Arafat deixou de bater. O homem que levou o “problema palestiniano” para o horário nobre das televisões morreu longe da “Terra Prometida”, embora os seus mais próximos tivessem negociado com Israel a autorização para que fosse sepultado na Muqata.

Na repartição dos símbolos, o serviço de segurança ficou com o kaffiyeh. A mulher ficou com a farda de guerrilheiro.

[* Os restos mortais de Yasser Arafat foram exumados em 27 de Novembro de 2012, transferidos durante algumas horas do seu mausoléu para uma mesquita,  ambos em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, de modo a que médicos legistas retirassem amostras dos seus ossos. 

A decisão foi tomada pela viúva, Suha, na sequência de uma investigação levada a cabo pela cadeia de televisão Al Jazeera (do Qatar). Peritos em Medicina forense, em França e na Suíça, analisaram durante nove meses todos os objectos pessoais do líder palestiniano, desde os seus chinelos de quarto ao ‘kaffiyeh’, e terão encontrado “níveis anormais de substâncias radioactivas. 

Em Novembro de 2013, a Al-Jazeera noticiou que uma equipa de cientistas suíços encontrou “provas moderadas” de que o chefe da OLP morreu envenenado com polónio-210. Os níveis desta substância eram “18 vezes superiores” ao normal.  Em Dezembro de 2013, médicos legistas russos asseguram que Arafat morreu de “causa natural“.]

Suha Arafat, a viúva do chefe da OLP, ordenou que o seu corpo fosse exumado para averiguar se ele foi envenenado. Ela insiste em que a morte “foi um crime”
© The Independent

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Novembro de 2005 | This article, now updated,  was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in November 2005 

Avraham Burg: “A paz é um projecto de longo prazo”

A Iniciativa de Genebra, diz Avraham Burg, antigo presidente da Agência Judaica, foi concebida para restaurar a esperança, e provar que, do lado palestiniano, há interlocutors para pôr fim ao conflito. (Ler mais | Read more…)

Avraham Burg: da Inicitiva de Genebra até ao apoio à solução de um só Estado. @Ilan Mizrahi

Avraham Burg: da Iniciativa de Genebra à solução de um só Estado
© Ilan Mizrahi

O que é que distingue um advogado alemão de um advogado israelita? O alemão negociará um acordo durante cinco anos, depois assina-o e aplica-o; o israelita assinará primeiro o acordo, negociará durante durante cinco anos e nunca o aplicará.

Foi assim, com um misto de ironia e amargura, que Avraham Burg, dirigente do Partido Trabalhista de Israel, polvilhou o seu discurso num seminário, em Sevilha, organizado pelas Nações Unidas e pela Junta da Andaluzia.

“Eu ainda não recuperei de 2000 anos de trauma, por isso, sempre que o meu povo é atacado, o Holocausto volta-me à memória”, disse Burg na sua intervenção.

“Para os palestinianos, certamente que a ocupação também não os faz esquecer os muitos anos de colonialismo a que têm sido sujeitos. (…) Nenhuma das partes tem prestado atenção às sensibilidades uma da outra. (…) O desespero vai ocupando o vazio deixado pela esperança.”

Nascido em Jerusalém, em 1955, Avraham é filho de Yosef Burg, que foi um dos mais proeminentes líderes do Partido Religioso Nacional, aliado incontornável de vários governos israelitas. Depois de servir na Divisão de Pára-Quedistas das Forças de Defesa de Israel, tornou-se num dos principais activistas do movimento Peace Now (Paz Agora), fundado para protestar contra a presença militar israelita no Líbano [após a invasão de Beirute em 1982].

Em 1985, foi nomeado pelo então primeiro-ministro Shimon Peres conselheiro para as questões da diáspora judaica. Ocupou este cargo até 1988, ano em que foi eleito deputado, como candidato de um pequeno partido. Foi reeleito em 1992, desta vez como candidato do Partido Trabalhista.

Em 1995, casado com uma psicóloga nascida em França e com seis filhos, todos residentes em Nataf, pequena comunidade laica-religiosa, Burg deixou o Knesset (Parlamento), para assumir a presidência da Agência Judaica. No executivo desta organização travou uma dura e controversa batalha para que fossem restituídos bens de judeus roubados durante o Holocausto.

Em 1999, Burg regressou ao Knesset como candidato da lista Um Israel, de Ehud Barak. Em Julho do mesmo ano, ascendeu a presidente do Parlamento, mas deixou de o ser depois das últimas eleições [em 2003].

Num intervalo do seminário em Sevilha, Avraham Burg aceitou falar comigo sobre o seu novo projecto: Iniciativa de Genebra, tentativa de solução do conflito que envolve concessões sem precedentes: os israelitas cedem a soberania do que chamam Monte do Templo em Jerusalém aos palestinianos; os palestinianos abdicam do direito de retorno a Israel dos refugiados da guerra de 1948.

Avraham Burg, quando era presidente da Agência Judaica, recebe novos imigrantes russos no Aeroporto de Ben Gurion, em Maio de 1995
© Yaacov Saar

O senhor é um dos impulsionadores da chamado Iniciativa de Genebra. Como é que começou o processo?

Começou com Yossi Beilin [ex-ministro trabalhista da Justiça e um dos arquitectos dos Acordos de Oslo de 1992] e Yasser Abed Rabbo [antigo ministro palestiniano e um dos principais aliados do defunto líder da OLP, Yasser Arafat].

Quando?

Logo depois de Taba [negociações, na península egípcia do Sinai, entre o antigo primeiro-ministro israelita Ehud Barak e Arafat, que fracassaram em 2001]. A convicção era a de que perdemos uma oportunidade em Taba e por isso decidimos dar continuidade ao processo.

Na sua opinião, Arafat perdeu a confiança do campo da paz israelita. No entanto, entre os negociadores da Iniciativa de Genebra estão colaboradores de Arafat. Como explica isto?

Não há problema. O facto de eu ter perdido a confiança nele [Arafat] não significa que ele não seja meu parceiro. Estou a negociar com ele, goste dele ou não. Se ele representa os palestinianos, eu tenho de falar com ele.

Qual tem sido o impacto deste novo plano de paz em Israel?

Não prevíamos a enorme e imediata receptividade que obtivemos. As primeiras sondagens dão-nos um apoio de 45% dos israelitas. E isto antes de conhecerem os pormenores. Ficamos com a sensação de que a maioria dos israelitas quer mudar a política do desespero por uma alternativa de esperança.

Avraham Burg sobre Israel, depois da Iniciativa de Genebra: “Fracassámos de um modo terrível. Sim, é verdade que fizemos renascer a língua hebraica, criámos um magnífico teatro e temos uma moeda nacional forte”
© Ha’aretz

E qual foi a receptividade no seu Partido Trabalhista?

Quanto ao Partido Trabalhista, continua a ser o mesmo. O processo é sempre lento. Vamos recomendar ao partido que adopte não os detalhes mas os princípios de Genebra e estes são:

– As linhas de 1967, o que é dos judeus vai para os judeus e o que é dos palestinianos vai para os palestinianos; modificação por consentimento do estatuto de Haram [Al-Sharif, ou Nobre Santuário, em Jerusalém] em troca da não aplicação do direito de retorno [dos refugiados palestinianos da guerra de 1948] a Israel; e um combate implacável ao terrorismo. Creio que esta será uma fórmula que a maioria dos israelitas aceitará.

Mas como pôr a Iniciativa de Genebra em prática se o Partido Trabalhista parece em decomposição?

Realmente o mínimo que se pode dizer é que o Partido Trabalhista está em decomposição. Mas é uma situação natural.

Só agora, desde há quase uma década, estamos a tentar levantar-nos do chão. Repare na sequência de acontecimentos: primeiro foi o assassínio de [Yitzhak] Rabin, depois [a derrota eleitoral] Barak, depois a Intifada [de Al-Aqsa], depois o governo de unidade nacional liderado por [Ariel] Sharon.

Não tivemos tempo para parar. Para fazermos autocrítica. Chegou pois o momento de olharmos para nós próprios. E isso é muito doloroso.

Às vezes ficamos paralisados, mas creio que acabaremos por sair reforçados.

Quanto a um novo partido [têm circulado rumores de que Beilin e Burg querem formar um partido social-democrata], podemos falar nisso seis meses antes das próximas eleições, e não quatro anos antes.

Yossi Beilin foi um dos co-autores da Iniciativa de Genebra, mas Avraham Burg, que agora apela ao voto no Hadash, partido de judeus e árabes, foi-se distanciando do amigo a quem agradece a carreira política
© Times of Israel

A Iniciativa de Genebra é apresentada como uma solução para sair da crise, mas a realidade no terreno parece ser a de impossibilidade de resolver o conflito…

 …Genebra diz aos israelitas e aos palestinianos que não é verdadeira a alegação de que não existe ninguém com quem dialogar. T

emos um parceiro e uma parceria. É só uma questão de querer pagar o preço. Eu creio que a solução não cabe apenas aos governos. As comunidades têm também um grande papel a desempenhar.

Está disposto a pagar até o preço de uma guerra civil em Israel, gerada por exemplo pelo desmantelamento dos colonatos?

Não haverá uma guerra civil. Será [um processo] difícil. Haverá desobediência mas não uma guerra civil.

Parece convencido de que Genebra vai vencer onde Oslo falhou.

Pelo menos abrimos novamente caminho à esperança. Se as pessoas convencerem o Governo a aceitar [o novo acordo] creio que sim.

Será melhor que Oslo. É uma nova formula a que ninguém ficará indiferente.

A Iniciativa de Genebra foi concebida para apoiar o Roteiro da paz [apresentado pelo Quarteto: EUA, União Europeia, ONU e Rússia] ou para o suplantar?

A única coisa que me interessa é: tragam-me um acordo que o meu governo aceite, que os palestinianos aceitem e eu assiná-lo-ei. Não tenho problema com isso. No entanto, se ninguém apresentar um plano, eu tentarei apresentar um programa e uma solução. Foi isso que fizemos e precisamos de tempo.

É então um projecto a longo prazo?

A paz é um projecto a longo prazo!

O fim do sionismo

@The Daily Beast

© The Daily Beast

O trabalhista Avraham Burg revitalizou uma carreira que parecia em declínio quando, em Setembro de 2011, escreveu para o diário hebraico Yediot Ahronot um artigo que depois foi publicado em vários jornais do mundo.

Intitulado O fim do sionismo, tem sido descrito como um grito que está a despertar consciências, dentro e fora de Israel. Extractos:

A revolução sionista sempre assentou em dois pilares: uma via justa e uma liderança ética. Ambas desapareceram. (…) Há uma grande probabilidade de a nossa vir a a ser a última geração sionista. Ainda poderá haver aqui um Estado judaico, mas será de um outro género, estranho e feio.

(…) A oposição não existe, e a coligação, com Ariel Sharon na chefia, clama o direito de guardar silêncio. Numa nação onde cada um é um fala-barato, todos se tornaram subitamente mudos, porque não há nada a dizer.

Fracassámos de um modo terrível. Sim, é verdade que fizemos renascer a língua hebraica, criámos um magnífico teatro e temos uma moeda nacional forte.

Estamos cotados no Nasdaq [índice da bolsa de Nova Iorque]. Mas foi para isto que criámos um Estado judaico?

O povo judeu não sobreviveu durante dois milénios para ser pioneiro de novas armas, de programas informáticos de segurança ou de mísseis antimísseis. Deveríamos ser uma luz entre as nações. E nisto falhámos.

Parece que 2000 anos de luta pela sobrevivência judaica se reduzem a um Estado de colonatos, dirigido por uma clique de fora-de-lei, corruptos e sem moral, que não ouvem nem os seus cidadãos nem os seus inimigos. Um Estado sem justiça não pode sobreviver. (…) A contagem para o fim da sociedade israelita já começou.

É muito confortável ser um sionista nos colonatos da Cisjordânia, como Beit El e Ofra. A paisagem bíblica é maravilhosa.

Pode-se apreciar os gerânios e as buganvílias sem ver a ocupação. Viajando pela auto-estrada que liga Ramot, no extremo norte de Jerusalém, a Gilo, no extremo sul, um itinerário de 12 minutos que passa apenas a 800 metros a ocidente das barreiras nos territórios palestinianos, é difícil medir a experiência humilhante que vivem os desprezados árabes obrigados a esperar durante horas nos caminhos bloqueados a que foram confinados.

Uma estrada para o ocupante, outra para o ocupado.

Israeli soldiers with Jewish settlers near the West Bank village of Burin near Nablus, 02 February 2013. @EPA/Alaa Badarneh | EPA

Soldados e colonos na aldeia palestiniana de Burin, perto de Nablus, na Cisjordânia, em 2 de Fevereiro de 2012: Avraham Burg descreve agora Israel como “o último ocupante colonial do mundo ocidental”
© Alaa Badarneh | EPA

Isto não pode dar certo. Mesmo que os árabes baixem a cabeça e engulam a vergonha e a revolta indefinidamente, isto não pode dar certo. Uma estrutura que assenta na insensibilidade humana acabará, inevitavelmente, por ruir sobre si própria: a super-estrutura do sionismo já está a ruir.

(…) Israel, que deixou de se preocupar com os filhos dos palestinianos, não deveria surpreender-se quando eles vêm banhados em ódio para se fazer explodir nos centros onde os israelitas fogem da realidade.

Eles entregam-se a Alá nos nossos lugares de divertimento, porque a vida deles é uma tortura. Eles fazem correr o nosso sangue nos restaurantes para nos retirar o apetite, porque em casa têm pais e filhos humilhados e com fome.

Podemos matar milhares de chefes de bandos por dia e nada será resolvido, porque os chefes vêm de baixo — dos poços de ódio e de cólera, das ‘infra-estruturas’ da injustiça e da corrupção moral.

Se tudo isto fosse inevitável, ordenado por Deus e imutável, eu guardaria silêncio. Mas as coisas podem ser diferentes, e o grito tornou-se portanto um imperativo moral. Eis o que o primeiro-ministro [de Israel] deveria dizer ao seu povo:

O tempo das ilusões terminou. Chegou o momento das decisões. Amamos toda a terra dos nossos antepassados e noutros tempos teríamos desejado viver aqui sozinhos. Mas isso não acontecerá.

Os árabes também têm sonhos e necessidades. Entre o [rio] Jordão e o [mar] Mediterrâneo já não há uma clara maioria judaica.

Um jovem palestiniano toca guitarra nas ruínas da sua casa, destruída por Israel na Faixa de Gaza. Escreveu Avraham Burg: “Israel, que deixou de se preocupar com os filhos dos palestinianos, não deveria surpreender-se quando eles vêm banhados em ódio para se fazer explodir nos centros onde os israelitas fogem da realidade”
© Middle East Monitor

Por isso, queridos cidadãos, não é possível ficar com tudo sem pagar um preço. (…) Não pode haver democracia sem direitos iguais para todos os que vivem aqui, árabes e judeus.

Não podemos ficar com os territórios e preservar a maioria judaica no único Estado judaico do mundo — não por meios que sejam humanos, e morais e judaicos.

(…) O primeiro-ministro deve apresentar a situação com clareza: racismo ou democracia judaica. Colonatos ou esperança para ambos os povos. Visões falsas de arame farpado e bombistas suicidas ou uma fronteira reconhecida internacionalmente entre dois estados com uma capital partilhada, Jerusalém. (…).

[Ainda em 2011, Burg escreveu um outro artigo de opinião, no jornal Ha’aretz, admitindo a possibilidade uma solução de um só Estado:

Uma entidade com uma base comum para pelo menos três jogadores: uma direita ideológica que está disposta a avaliar essa viabilidade; uma esquerda que começa a sentir-se livre das ilusões do “judaico e democrático” e uma parte significativa da intelligentsia palestiniana.

O quadro conceptual de um acordo será o de um Estado democrático para todos os seus cidadãos. Há aqui terreno fértil, do ponto de vista prático, para debate e criatividade.

É uma oportunidade que vale a pena tentar, apesar da nossa [de Israel] imensa experiência de falhar todas as oportunidade e de acusar todos menos nós próprios.

Em 2012, o político que agora é senior fellow  do Molad – The Center for Renewal of Democracy, um think tank (supostamente apoiado por democratas e liberais nos EUA) destinado a “revitalizar a esquerda”, declarou o seu apoio a um boicote a todos os produtos provenientes dos territórios ocupados, e descreveu Israel como “o último ocupante colonial do mundo ocidental”.

Em 2015, num artigo de opinião dirigido ao seu amigo Yossi Beilin e publicado no diário Ha’aretz, Avraham Burg defendeu o seu apoio ao partido Hadash, de judeus e árabes, dizendo que “a versão contemporânea do sionismo é o principal sistema que cria discriminação” em Israel.]

 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Outubro de 2005 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in October 2005

Transformar o poder dos impotentes na impotência dos poderosos

Em A minha vida é uma arma, o jornalista e historiador alemão Christoph Reuter tenta explicar o fenómeno dos modernos bombistas suicidas e as razões por que, para eles, “morrer é tão importante como matar”. (Ler mais | Read more…)

Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001
© Spencer Platt | Getty Images | National Geographic

Foi na década de 1990 do século passado que Christoph Reuter, jornalista da Stern e historiador do mundo islâmico, iniciou a sua investigação sobre os atentados suicidas. O facto de haver pessoas dispostas a morrer matando outros “é algo que atemoriza e perturba”, reconhece logo no início do seu livro A minha vida é uma arma (Ed. Antígona, 2003, pp. 342).

Quando se fala em atentados suicidas as pessoas associam imediatamente estas acções a Israel, onde têm sido mais frequentes. Mas eles também chegaram aos Estados Unidos (11 de Setembro 2001), a Bali, na Indonésia (2002), Casablanca, em Marrocos (2003), Madrid, Espanha (11 de Março de 2004), Amã, na Jordânia e Londres (em 2005).

As explosões de bombas humanas tornaram-se quase banais [e mais ainda depois da entrada em cena do autoproclamado “estado islâmico” ou Daesh].

Reuter lembra-nos que, “há 2000 anos, já havia pessoas que iam para a batalha com o objectivo específico de morrer – foi o caso dos sicários (judeus) na Antiguidade, dos Assassinos, mais tarde na Idade Média, dos combatentes muçulmanos que participaram nas revoltas do século XVIII contra as potências colonizadoras na costa de Malabar, no Sudoeste da Índia, na Samatra Setentrional e no Sul das Filipinas”.

Quando se esperava que o fenómeno se havia extinguido com o fim das missões dos kamikazes japoneses, eis que nos últimos 20 anos o fenómeno reaparece e se propaga.

Na actualidade, os “mártires” não são apenas religiosos e também não são exclusivamente muçulmanos. “O que leva certos grupos sem laços com o Islão como o PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão] na Turquia, laico, ou os separatistas no Sri Lanka Tigres Tâmil (a maioria dos quais hindus) a adoptar o suicídio como arma?”

Reuter também constata que o Grupo Islâmico Armado (GIA), na Argélia, que degolava centenas de aldeões numa só noite não tinha bombistas suicidas embora fosse igualmente “etiquetado como terrorista” à semelhança do Hamas palestiniano ou do Hezbollah libanês.

Bali, Indonésia, 12 Outubro de 2002
© The Australian

Para ajudar a interpretar (não a justificar) os vários factores que se relacionam com os atentados suicidas, Reuter remonta ao início década de 1980, nos campos de batalha da guerra Irão-Iraque, durante a qual “dezenas de milhares de jovens iranianos, levando presa ao pescoço uma pequenina chave que lhes dava acesso ao paraíso, investiam contra as posições da máquina de guerra iraquiana em nome de Deus e do Ayatollah Khomeini”.

O velho sábio xiita de Qom tinha sabido despertar “o conceito de auto-sacrifício como arma de guerra” – um conceito que custou milhares de vidas sem apesar de Saddam Hussein ter vencido a guerra.

O facto de não ter havido ganhos militares não impediu que o conceito fosse exportado. O Exército dos Guardas da Revolução (Pasdaran) iranianos levou-o, com êxito, para o Líbano, onde ajudaram os seus irmãos de fé xiitas a formar o Partido de Deus.”

“Os iranianos “prepararam o terreno” para os atentados suicidas mas foi o Hezbollah que os “aperfeiçoou enquanto instrumento de combate”.

Foi o Hezbollah, salienta ainda o historiador alemão, o primeiro a imprimir a “marca registada” de “operações mártires”, em 1982 e 1983, logo após a invasão israelita.

“Os guerrilheiros de todo o mundo ficaram a saber que cinco pessoas dispostas a sacrificar-se, cinco camiões, algumas toneladas de explosivos e uma preparação cuidadosa bastavam para que um pequeno movimento conseguisse fazer frente a superpotências mundiais”.

Madrid, 11 de Março de 2004
© Paul White | nbcnews.com

A eficácia dos atentados do Hezbollah forçou, primeiro a retirada total das tropas francesas e americanas e o recuo dos invasores israelitas para uma “faixa de segurança” junto à fronteira. Em 2000, a persistência dessas operações na zona-tampão contribuiu para a evacuação unilateral do exército do israelita, em 2000.

A partir do início da década de 1990, os atentados suicidas já não assumiam apenas um carácter religioso. Os Tigres Tâmil, no Sri Lanka, nacionalistas que combatem pela autonomia do seu grupo étnico, recorreram a acções de “martírio” contra o Governo central de Colombo.

O objectivo de quem comanda estes actos é infligir medo ao inimigo. Como diz a al-Qaeda, de Osama bin Laden: “Nós amamos a morte mais do que vocês amam a vida”.

No plano militar convencional, o inimigo pode ser mais forte, mas “num plano existencial ou espiritual”, os predispostos ao auto-sacrifício “estão convictos de que o adversário é mais fraco”.

Reuter esmiuça com seriedade e profundidade este mundo complexo, recorrendo a todo o tipo de especialistas, de politólogos a psicólogos, para perceber, por exemplo, o que levou filhos de famílias abastadas de classe média a lançarem-se sobre as Torres Gémeas de Nova Iorque em 2001.

Não foi certamente a crença de que 72 virgens os aguardavam na outra dimensão, diz, até porque um deles, Mohammed Atta, não suportava a ideia de uma mulher se aproximar dele. A miséria também não é justificação, de outro modo, metade dos habitantes da Somália já se teria feito explodir.

Com o aparecimento da al-Qaeda, “os ataques suicidas deixaram de ter que ver com conflitos locais e regionais, com programas e objectivos políticos: ela une apoiantes de mais de uma dezena de nações que, não tendo sequer uma língua comum, partilham uma ideologia messiânica de destruição”, observou Reuter.

O facto da al-Qaeda “nada de tangível ter a ganhar com as suas operações – não pratica uma guerra convencional com vista a conquistar um território – não constitui uma desvantagem. Pelo contrário, torna-a virtualmente inexpugnável. A rede está em toda a parte e em parte nenhuma”.

Londres, 7 de Julho de 2005
© julyseventh.co.uk

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2005

Quando os homens têm de “lutar pelos seus direitos”

Marcando a diferença entre os outros monarcas árabes do Golfo Pérsico, o sultão de Omã fez eleger mulheres para o Conselho Consultivo, designou-as para o Conselho de Estado, integrou-as no Governo como ministras e nomeou embaixadoras. A sociedade, conservadora e religiosa, começou a habituar-se ao convívio entre o turbante e o lenço nos centros de poder. (Ler mais | Read more…)

Shukor Al-Ghammary foi, em 1994, uma de duas mulheres – as primeiras – eleitas para o Majlis a’Shura (Conselho Consultivo) criado em 1991 por decreto do Sultão Qabbos bin Said al Said @DAVID CLIFFORD

Shukor Al-Ghammary foi, em 1994, uma de duas mulheres – as primeiras – eleitas para o Majlis a’Shura (Conselho Consultivo) criado em 1991 por um decreto do Sultão Qabbos
© David Clifford

É com um sorriso humilde, mas simultaneamente vitorioso, que a omanita Shukor Al-Ghammary, 57 anos, evoca os tempos em que os homens a olhavam com “desconfiança e desconforto” quando, em 1994, ela e uma outra mulher foram eleitas para o Majlis a’ Shura.

Este Conselho Consultivo, criado em 1991 por decreto do sultão Qaboos bin Said Al Said, era até então um espaço exclusivamente masculino.

Os mussar (turbantes) não se misturavam com os hijab (lenços). Cumpridos seis anos de mandato, esta mãe de três filhos, licenciada em Química, integra agora, desde 2000, o Majlis al-Dawla, Conselho de Estado, cujos membros são designados pelo Sultão Qabbos bin Said al Said.

“Os homens aprenderam a valorizar o nosso trabalho depois de verem o que somos capazes de fazer”, diz Shukor com assumido orgulho, na ampla e luminosa sala onde recebe os jornalistas. “Eles perceberam que é tudo uma questão de educação e de competência, e não há competição mas colaboração”.

Shukor esbanja autoconfiança. Elegantemente vestida, com um casaco Channel sobre uma saia comprida, o sorriso e os olhos desvelados pela écharpe de seda que lhe oculta todo o cabelo, anel de diamantes num dedo, sapatos de plataforma e telemóvel de última geração, ela é o centro das atenções.

Ninguém diria que tem 57 anos – nasceu no ano da primeira guerra israelo-árabe (1948), em Mascate. Não envelheceu e conserva a beleza de há uma década quando “invadiu” o círculo restrito do Majlis a’Shura.

Uns cinco funcionários estão presentes ou entram e saem, para atender qualquer pedido de Shukor Al-Ghammary. Trazem-lhe café e halwah, um doce tradicional confeccionado com açúcar, água de rosas, cardamomo e açafrão, que ela oferece aos seus convidados.

Se o sultão merece toda a gratidão por lhe ter aberto as portas do poder, ainda que relativo, à família ela reserva toda a sua admiração.

Em primeiro lugar ao pai – “muito bom em aritmética” –, já falecido, um dos raros omanitas a completar os estudos na única escola primária que, no seu tempo, existia em Mascate, a capital – actualmente há mais de mil e o ensino é gratuito, do jardim escola à faculdade.

Uma omanita regista as suas impressões digitais antes de votar para o conselho Shura, nas eleições de 15 de Outubro de 2011 – um longo caminho tem sido percorrido desde 1994
© Said Bahri | Reuters | The National

Foi o pai de Shukor, homem de negócios, que encorajou as sete filhas e os dois filhos a ler muito e a frequentar a universidade. Ela sentia um apelo especial pela Medicina mas acabou por se formar em Química no Cairo, em 1975. Não seguiu a profissão porque o seu primeiro emprego foi no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Quando nasceu o seu primeiro filho, agora com 25 anos, optou por lhe dedicar exclusiva atenção porque era deficiente. Mas não ficou em casa. “Formei uma associação de pais para apoio a crianças com deficiências físicas e mentais, e foi nesta actividade que ganhei a influência que me permitiu chegar ao Majlis”, explica.

O facto de o pai ter quebrado as barreiras da segregação – ela frequentou escolas mistas não só no Egipto como no Bahrain –facilitou a sua integração quando teve de se sentar entre dois homens após a sua primeira eleição há 11 anos. Shukor tem noção de que fez história.

“As mulheres no Kuwait ou noutros países árabes, perguntam-me como consegui chegar aqui, e eu respondo que tudo depende de termos líderes visionários e da nossa própria vontade de empreender mudanças”, afirma.

O marido de Shukor, um empresário também lhe facilitou a carreira. São ambos dedicados aos filhos, mas quando ela viaja a tarefa de cuidar deles cabe-lhe exclusivamente a ele, o que, reconhece, “não é comum” entre os casais árabes. “Ele sabe que o meu trabalho é reconhecido e tem gosto nisso”, exulta.

Com um lar “muito feliz”, a conselheira do Sultão optou por centrar a sua actividade na defesa dos direitos da família. De tudo o que conseguiu até agora, realça os benefícios obtidos para as mulheres trabalhadoras, como a licença de parto ou os projectos para formação profissional de jovens licenciados.

“Cheguei mais longe do que a minha mãe, que era uma simples dona de casa, e isso deixa-me muito satisfeita”, sublinha.

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Al-Ghammary esbanja autoconfiança. Elegantemente vestida, o sorriso e os olhos desvelados por uma écharpe de seda sobre o cabelo, sapatos de plataforma e telemóvel de última geração, ela é o centro das atenções
© David Clifford

Dez anos depois de Shukor ter entrado no “parlamento” – quando o sultão conferiu direito de voto e candidatura à metade da população que permanecia nos bastidores – , outras mulheres ocupam agora lugares-chave na política omanita.

São oito (num total de 55) no Majlis al-Dawla. São duas (num total de 83) no Majlis a’Shura. Tudo começou em 1988, quando foi designada a primeira subsecretária de um ministério – estreia absoluta em todos os Estados árabes do Golfo Pérsico.

Um ano depois, outra mulher foi eleita para a junta directiva da câmara de Comércio e Indústria de Omã. Em 1999, a primeira embaixadora foi acreditada em Haia, na Holanda. [Em 2005, Hunaina Al-Mughairy ascenderia a embaixadora em Washington – o mais importante posto diplomático no exterior.] Em 2003, tomou posse a primeira titular de um ministério.

Face à imparável ascensão feminina, Saeed Al-Marjiby, director de relações públicas do Majlis a’Shura, diz aos seus convidados, meio a brincar meio a sério: “Elas são muito boas, e agora somos nós, os homens, que temos de lutar pelos nossos direitos”.

O ministro omanita do Interior, Hamoud bin Faisal Al Busaidi (centro), sela uma urna numa das principais secções de voto, em Mascate, em 25 de Outubro de 2015. Tal como em 2011, só uma mulher foi eleita para o Majlis a’ Shura
© AFP | The National

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2005 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2005

Os contrabandistas do Irão preferem cigarros americanos

Todos os dias, eles viajam, em 400 lanchas rápidas, entre a República Islâmica do Irão e o Sultanato de Omã, para transportar cigarros americanos. Que importa se o produto é do inimigo? Os contrabandistas em Khasab, capital e paraíso fiscal da península de Musandam (Moçandão), equilibram-se numa perigosa travessia marítima, de manhã à noite. Para ganhar a vida à chegada, frequentemente encontram a morte no regresso. (Ler mais | Read more…)

Contrabandista desde 2003, Abdulaziz Poiandi vive em Qeshm, na costa sul do Irão e a norte do estreito de Ormuz. Todos os dias, faz a viagem de duas horas até Moçandão (Musandam)
© David Clifford

Abdulaziz Poiandi veste um corpo de modelo com roupa de mendigo. Está sentado a uma mesa do restaurante Bukha no velho souq de Khasab, a capital da península de Moçandão (Musandam), no extremo Norte do Sultanato de Omã.

À entrada dos estranhos, o olhar do homem que calcula a sua idade em 23 anos ergue-se por segundos para logo se voltar a concentrar no almoço de pulao (arroz de legumes e açafrão) com frango.

Hoje é sexta-feira, descanso islâmico semanal e, talvez por isso, seja um dos poucos clientes na sala principal que, todos os dias, se enche de contrabandistas, como ele. Iranianos que arriscam a vida para comprar cigarros do “inimigo”- americanos.

Terminada a refeição, Poiandi encaminha-se para o gabinete de Faisal Mussa, o indiano muçulmano que gere o restaurante aberto há 33 anos e se oferece para interpretar as suas palavras, de farsi para inglês.

O andar é vagaroso, como se arrastasse o peso do mundo nos jeans desgastados e na camisa com nódoas que cobrem a sua magreza.

Os olhos, de um negro profundo, não disfarçam a melancolia. Num rosto jovem marcado pelo sofrimento, a aparente tranquilidade da voz é atraiçoada pelo tremor das mãos com unhas roídas à flor da pele.

O sorriso ficará preso até ao momento em que sentencia, bem-humorado: “Uma mulher é suficiente para um homem.” Não precisa das quatro que a religião permite.

Poiandi é contrabandista desde 2003. Vive em Qeshm – o nome é uma corruptela de “queixume” desde o século XVI, quando os portugueses ocuparam a maior ilha do Golfo Pérsico, localizada na costa Sul do Irão e a Norte do Estreito de Ormuz.

Todos os dias, ele faz a viagem de duas horas entre Qeshm e Musandam para transportar a mercadoria que os seus dois patrões – um à partida e outro à chegada – combinaram transaccionar.

Do bolso da camisa de Abdulaziz Poiandi sobressai um maço de cigarros, que depois exibe o na palma da mão. “Sim é americano”, ironiza. “Somos viciados nos cigarros deles”
© Dadvid Clifford

São pequenas embarcações de fibra de vidro, enganadoramente frágeis, com potentes motores até 200 cavalos, cada uma com dois tripulantes. A uma média diária de 400, circulam a velocidade estonteante.

De pé, como habilidosos contorcionistas, eles dominam ventos furiosos e ondas que podem ultrapassar os três metros de altura. É um exercício de sobrevivência iludir a guarda costeira e a polícia de fronteira iranianas.

Em frases curtas, respostas a uma sucessão de perguntas, Poiandi descreve-se:

– Uma vez fui esfaqueado aqui [aponta para a coxa], e não morri porque fui capaz de fugir.

– Já vi muitos serem mortos e tenho medo, mas não tenho alternativa.

– Fui pescador mas não ganhava nada. Não encontro outro tipo de trabalho, porque tenho poucos estudos.

– Isto é quase herança. O meu pai dedicou-se ao negócio [contrabando] durante 30 anos. Ele também foi ferido numa perna. Já se reformou.

– Sou filho único e, portanto, tenho de sustentar a família.

– Se me matarem, ninguém recebe nada. Esta profissão não tem seguro.

Poiandi ganha o equivalente a 33 dólares por cada viagem de ida e volta. Não recebe o salário ao fim de cada jornada, mas de cinco em cinco ou de dez em dez.

Às vezes a meteorologia é desfavorável e ele sente-se obrigado a ficar em terra, à espera que o tempo melhore para não danificar os produtos traficados.

Outras vezes, a apertada vigilância policial em território iraniano força-o ao esconderijo e à paralisação – até chegar um “sinal” de código que lhe permite avançar.

Abdulaziz Poiandi é casado e tem apenas uma filha. Chega a estar um mês sem as ver. Ter um só filho, como os seus pais, é raro no mundo muçulmano. Mas ele já faz parte de uma minoria. É um sunita entre a maioria xiita do Irão
© David Clifford

No porto de Khasab (que os portugueses chamavam de Caçapo), o movimento é frenético mesmo nos dias mais calmos.

Numa tarde de quinta-feira – um dos dias calmos –, dezenas de barcos, mais próximos ou distantes uns dos outros, quase formando um acampamento, enchiam-se de material proveniente do Dubai, principal entreposto.

Homens de pele escurecida pelo sol, novos e velhos, carregam à cabeça, nos braços, às costas ou aos ombros, dezenas de caixas. Frascos de sumo, electrodomésticos, vídeos, frigoríficos, telemóveis… Mais ocultos poderão estar, conta-me Mohamed Ba, guia turístico, revistas pornográficas e haxixe – o que agrava o potencial de risco.

À passagem do bote que me transportava, ninguém surpreendentemente se incomoda. Um contrabandista exibe os dentes e compõe o cabelo para a fotografia, disfarçando a pobre figura. Outro prolonga os lábios até às orelhas e faz um sinal amigável com os dedos convidando ao fumo. Tudo isto sem interromper a tarefa do carregamento.

Alguns barcos estão cobertos com panos como se fossem velas; outros com oleados, para melhor proteger a carga. Costumam chegar de madrugada. Às vezes trazem cabras e ovelhas que são expedidas para os Emirados e Arábia Saudita. Têm de partir, salvo condições adversas, antes das 22h30.

No porto de Khasab (Caçapo), o movimento é frenético. Dezenas de barcos, mais próximos ou distantes uns dos outros, quase formando um acampamento, enchem-se de material proveniente do Dubai, principal entreposto
© David Clifford

 

Faisal Musa, o indiano dono do restaurante Bukha, garante que o contrabando de tabaco está em declínio, “porque as margens de lucro diminuíram muito”. A aposta agora “é mais na electrónica”, explica.

Ele parece saber do que fala. Enquanto serve de tradutor, um grupo de afegãos, também contrabandistas residentes no Irão, entrega-lhe um volumoso maço de notas. O diálogo que se estabelece entre eles, apesar de imperceptível, indicia uma relação de empregador e empregados.

Os afegãos têm as mesmas feições agrestes e os gestos desconcertados de Poiandi. Depois da “negociação” com Mussa, ficam a olhar para o iraniano, qual estrela de cinema entrevistado por estrangeiros, num misto de admiração e desconfiança.

Estaria o colega a contar os segredos da “profissão”? Ficam em silêncio ou murmurando entre si, com o olhar fixo num aparelho de televisão onde uma locutora, de lenço opaco e lábios brilhantes, vai lendo as notícias do dia.

Poiandi é casado e tem apenas uma filha. Chega a estar um mês sem as ver. Ter um só filho, como os seus pais, é raro no mundo muçulmano. Mas ele já faz parte de uma minoria. É um sunita entre a maioria xiita do Irão.

Quando lhe perguntamos se quer aumentar o número de descendentes, confunde-se e dá uma sonora gargalhada: “Não, não quero mais mulheres. Ter uma chega”. Desfeito o equívoco, esclarece que sim, tenciona ter mais dois ou três filhos. Mas não tem pressa. “Não sei o que o futuro me reserva; a minha vida é provisória.”

Do bolso da camisa sobressai um maço de cigarros. Pedimos a Poiandi que revele a marca. Rapidamente exibe o produto na palma da mão. “Sim é americano”, ironiza.

Se os Estados Unidos são o inimigo porquê arriscar a vida numa travessia tão perigosa para contrabandear tabaco americano? O iraniano replica, retomando a seriedade: “Se os americanos nos atacarem vamos lutar contra eles. É nossa obrigação. É a nossa pátria. Mas também é verdade que somos viciados nos cigarros deles.”

Mais do que dependência trata-se de uma questão comercial. O contrabando só começou depois da revolução islâmica do Ayatollah Khomeini, em 1979. Até então, o tabaco do “grande Satã” não era proibido na Pérsia do Xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado estratégico de Washington. O Grande Bazar de Teerão, das principais instituições iranianas, detinha direitos quase exclusivos de venda.

A perda deste e de outros privilégios levou os bazaris a juntar-se aos mullahs para derrubar o imperador. Agora, as elevadas taxas de importação cobradas pelas autoridades, para compensar a fuga aos impostos dos cidadãos, impeliram muitos a dedicar-se a actividades ilícitas para não abrirem falência.

No restaurante Bukha, o proprietário, Faisal Musa, indiano muçulmano, atende um grupo de afegãos (na foto), também contrabandistas residentes no Irão
© David Clifford

O contrabando deixa muitos cadáveres nas águas de Moçandão. A isolada aldeia piscatória de Kumzar, só acessível por mar, no extremo norte da península, costuma ser local de abrigo para os traficantes quando o perigo espreita.

“Às vezes, durante a noite, ouvimos tiros e, na manhã seguinte, encontramos corpos a boiar. Somos nós que os enterramos”, diz Mala’Allah Ali Hassan Kumzari, um dos habitantes.

“Se eles conseguem pagar ‘comissões’ à Polícia iraniana podem entrar sem dificuldade; se não, têm de se esconder e encontrar caminhos alternativos para poderem entregar o que carregam”.

Mala’Allah, “mais ou menos 27 anos de idade”, conhece vários das centenas de contrabandistas que diariamente se cruzam com ele.

Antigo pescador agora dedicado a transportar turistas num pequeno bote, que ele guia com absoluta destreza, ou somente a entretê-los com café amargo e tâmaras doces num dhow, típico barco omanita, Mala’Allah deixa transparecer fascínio pelos iranianos que, nas suas lanchas rápidas, lhe acenam sem perderem o equilíbrio. “Somos todos irmãos”, diz com esgar cúmplice.

Da parte dos omanitas é evidente o reconhecimento. Se no Irão os contrabandistas são perseguidos, em Moçandão são bem-vindos. O seu “comércio” é a principal fonte de receitas da península.

Os barcos pagam por estarem ancorados no porto. Restaurantes e lojas abarrotam de clientes. E há outra repercussão ainda mais extraordinária: todos os 600 táxis da cidade de Khasab, a maioria pickups, estão ao serviço dos traficantes.

Não admira que Khasab seja o único aeroporto do mundo onde não há taxistas à espera de passageiros. Estes, se quiserem ser levados ao seu destino, terão de combinar previamente com os hotéis onde fizeram a reserva para os irem buscar.

Os táxis dos contrabandistas – além das carrinhas, só há três veículos ligeiros que servem de transporte colectivo – estão contratados a tempo inteiro para fazer as viagens necessárias entre o porto e os seus insólitos armazéns duty free.

Khasab, descrita como “os fiordes de Omã”, é um paraíso para turistas e contrabandistas
© travel-tramp.com

A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Junho de 2005 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 5, 2005

Moçandão: “A Noruega do Médio Oriente”

A península  que é um paraíso de contrabandistas iranianos está separada do resto do Sultanato de Omã por uma faixa de 70 quilómetros de território dos Emirados Árabes Unidos. Situada a Sul do estreito de Ormuz, foi em tempos, devido à sua localização estratégica – principal rota mundial de hidrocarbonetos –, uma zona militar interdita a turistas. Quando estes puderam entrar, ficaram deslumbrados com a sua beleza. (Ler mais | Read more…)

© welt.de

Em Moçandão, há “fiordes” que emergem do mar, onde se espelham, para quase se fundirem com as nuvens do céu. As montanhas, de cores contrastantes, exibem monumentos de rocha que a água esculpiu há milhões de anos.

Nesta península do Sultanato de Omã que se julgaria habitada por deuses e que a memória jamais apagará, ornitologistas encontram refúgios de aves livres de extinção. Banhistas encontram praias calmas para nadar, ou revoltas para mergulhar. Alpinistas encontram escarpas íngremes para escalar.

No porto de Khasab, a capital cujo nome, em árabe, se traduz por “fértil” – não que a chuva seja abundante, mas porque as suas palmeiras pintam de verde a paisagem –, os aventureiros têm à disposição botes minúsculos que os (e)levam, com vagas até três metros de altura e temperaturas superiores a 45 graus, à magnífica aldeia de Kumzar, no extremo norte da península.

Os mais temerosos podem optar pelos dhows, embarcações típicas omanitas, que os passeiam num pacífico cruzeiro de Nadifi até Sham, aldeias cujo isolamento o governo amenizou fazendo chegar água, luz e rede para os telemóveis.

Khor Ash Sham, também conhecidos como os “fiordes de Sham”, dividem Moçandão entre Khasab (que os portugueses chamaram de “Caçapo” enquanto aqui estiveram de 1515 a 1622) e Kumzar, ao longo de 17 quilómetros.

© wildfrontierstravel.com

O mar é cristalino e quase inamovível. Golfinhos, e às vezes baleias, acompanham os dhows à medida que estes vão passando pelas povoações das quais nunca se aproximam demasiado.

Os omanitas, beneficiando de 1.700 quilómetros de costa imersa em três mares – Golfo Pérsico, Golfo de Omã e Oceano Índico –, querem atrair turistas, recurso alternativo ao petróleo em escassez, mas não tencionam abalar as suas áreas protegidas.

Para não escandalizar gentes conservadoras habituadas à birka (máscara que tapa o rosto) mas não ao bikini. Nem desestabilizar o habitat de cerca de 480 espécies de pássaros e várias centenas das 25.000 espécies de peixes de todo o mundo.

Nadifi, a primeira aldeia, tem cerca de 100 habitantes, a maioria pescadores. O único acesso é por mar e, por isso, o transporte é feito em barcos ou lanchas rápidas.

É por esse meio que as crianças vão à escola, ficando em Khasab, de sábado até quarta-feira de manhã. Qanaha, outra aldeia piscatória, ainda exibe as suas velhas casas de pedra sobre penhascos.

© bollrud.com

No passado, elas formaram a primeira linha de defesa de Moçandão – território que os Emirados cobiçaram e ainda influenciam. O modo de vestir (a túnica masculina tem botões à frente e o turbante é branco, enrolado de forma simples) e o de falar (mais vagaroso) são diferentes do resto de Omã.

As casas de pedra e de adobe, em Moçandão e noutras zonas do sultanato, têm uma história singular, escreveu Sarah White na revista Wings of Oman. “Elas simbolizam a verdadeira essência da Arábia. Os diversos andares que compõem essas casas e os seus interiores complexos têm um design intemporal.

As paredes espessas continuam a proteger do calor do Verão e do frio do Inverno. (…) É como se fôssemos transportados para o tempo em que o Homem ainda coexistia com a natureza. Locais onde os recursos naturais são usados mas não usurpados ou destruídos.”

Na construção das casas, refere Sarah White, “houve sempre a preocupação com o movimento do vento. Materiais locais como pedra, palmas, madeira e até corais foram utilizados no fabrico de janelas, portas e tectos, de modo a criar áreas ventiladas. (…) Construtores antigos usavam membros do seu próprio corpo para medir a escala e a proporção dos edifícios.”

Em Maqlab, uma das etapas do cruzeiro de dhow, quase não há casas. Serão apenas dez, habitadas por uma só família que ganha a vida na pesca (profissão dos homens) e criação de cabras (tarefa das mulheres).

O ponto mais “turístico” é a aldeia de Jazirat al-Maqlab ou Telegraph Island, onde os ingleses instalaram o primeiro telégrafo em 1864, ligando a Índia a Bassorá, no Iraque.

Em Seebi, escala seguinte, serão também uns 100 os habitantes, muito reclusos, convivendo com as aves que pousam nos penhascos. Em Sham, última paragem, a população não ultrapassará igualmente a centena.

Todas estas aldeias são avistadas de longe, mas ainda assim é pedido aos turistas que se vistam “modestamente” e não tirem fotos sem permissão prévia do objecto da objectiva. Muitos ainda receiam que a máquina fotográfica lhes roube a alma.

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A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Junho de 2005 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 5, 2005