Moçandão: “A Noruega do Médio Oriente”

A península de Moçandão (Musandam), paraíso dos contrabandistas iranianos, está separada do resto do Sultanato de Omã por uma faixa de 70 quilómetros de território dos Emirados Árabes Unidos. Situada a Sul do Estreito de Ormuz, foi em tempos, devido à sua localização estratégica – principal rota mundial de hidrocarbonetos –, uma zona militar interdita a turistas. Quando estes puderam entrar, ficaram deslumbrados com a beleza do que haveriam de classificar de “Noruega do Médio Oriente”. (Ler mais | Read more…)

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Em Moçandão, há “fiordes” que emergem do mar, onde se espelham, para quase se fundirem com as nuvens do céu. As montanhas, de cores contrastantes, exibem monumentos de rocha que a água esculpiu há milhões de anos.

Nesta península do Sultanato de Omã que se julgaria habitada por deuses e que a memória jamais apagará, ornitologistas encontram refúgios de aves livres de extinção. Banhistas encontram praias calmas para nadar, ou revoltas para mergulhar. Alpinistas encontram escarpas íngremes para escalar.

No porto de Khasab, a capital cujo nome, em árabe, se traduz por “fértil” – não que a chuva seja abundante mas porque as suas palmeiras pintam de verde a paisagem –, os aventureiros têm à disposição botes minúsculos que os (e)levam, com vagas até três metros de altura e temperaturas superiores a 45 graus, à magnífica aldeia de Kumzar, no extremo norte da península.

Os mais temerosos podem optar pelos dhows, embarcações típicas omanitas, que os passeiam num pacífico cruzeiro de Nadifi até Sham, aldeias cujo isolamento o governo amenizou fazendo chegar água, luz e rede para os telemóveis.

Khor Ash Sham, também conhecidos como os “fiordes de Sham”, dividem Moçandão entre Khasab (que os portugueses chamaram de “Caçapo” enquanto aqui estiveram de 1515 a 1622) e Kumzar, ao longo de 17 quilómetros.

© lifeinthefoodlane.com

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O mar é cristalino e quase inamovível. Golfinhos, e às vezes baleias, acompanham os dhows à medida que estes vão passando pelas povoações das quais nunca se aproximam demasiado.

Os omanitas, beneficiando de 1.700 quilómetros de costa imersa em três mares – Golfo Pérsico, Golfo de Omã e Oceano Índico –, querem atrair turistas, recurso alternativo ao petróleo em escassez, mas não tencionam abalar as suas áreas protegidas.

Para não escandalizar gentes conservadoras habituadas à birka (máscara que tapa o rosto) mas não ao bikini. Nem desestabilizar o habitat de cerca de 480 espécies de pássaros e várias centenas das 25.000 espécies de peixes de todo o mundo.

Nadifi, a primeira aldeia, tem cerca de 100 habitantes, a maioria pescadores. O único acesso é por mar e, por isso, o transporte é feito em barcos ou lanchas rápidas.

É por esse meio que as crianças vão à escola, ficando em Khasab, de sábado até quarta-feira de manhã. Qanaha, outra aldeia piscatória, ainda exibe as suas velhas casas de pedra sobre penhascos.

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No passado, elas formaram a primeira linha de defesa de Moçandão – território que os Emirados cobiçaram e ainda influenciam. O modo de vestir (a túnica masculina tem botões à frente e o turbante é branco, enrolado de forma simples) e o de falar (mais vagaroso) são diferentes do resto de Omã.

As casas de pedra e de adobe, em Moçandão e noutras zonas do sultanato, têm uma história singular, escreveu Sarah White na revista Wings of Oman. “Elas simbolizam a verdadeira essência da Arábia. Os diversos andares que compõem essas casas e os seus interiores complexos têm um design intemporal.

As paredes espessas continuam a proteger do calor do Verão e do frio do Inverno. (…) É como se fôssemos transportados para o tempo em que o Homem ainda coexistia com a natureza. Locais onde os recursos naturais são usados mas não usurpados ou destruídos.”

Na construção das casas, refere Sarah White, “houve sempre a preocupação com o movimento do vento. Materiais locais como pedra, palmas, madeira e até corais foram utilizados no fabrico de janelas, portas e tectos, de modo a criar áreas ventiladas. (…) Construtores antigos usavam membros do seu próprio corpo para medir a escala e a proporção dos edifícios.”

Em Maqlab, uma das etapas do cruzeiro de dhow, quase não há casas. Serão apenas dez, habitadas por uma só família que ganha a vida na pesca (profissão dos homens) e criação de cabras (tarefa das mulheres).

O ponto mais “turístico” é a aldeia de Jazirat al-Maqlab ou Telegraph Island, onde os ingleses instalaram o primeiro telégrafo em 1864, ligando a Índia a Bassorá, no Iraque.

Em Seebi, escala seguinte, serão também uns 100 os habitantes, muito reclusos, convivendo com as aves que pousam nos penhascos. Em Sham, última paragem, a população não ultrapassará igualmente a centena.

Todas estas aldeias são avistadas de longe, mas ainda assim é pedido aos turistas que se vistam “modestamente” e não tirem fotos sem permissão prévia do objecto da objectiva. Muitos ainda receiam que a máquina fotográfica lhes roube a alma.

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A jornalista viajou a convite da representação do Governo de Omã em Lisboa

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 5 de Junho de 2005 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on June 5, 2005

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