Avraham Burg: “A paz é um projecto de longo prazo”

A Iniciativa de Genebra, diz Avraham Burg, antigo presidente da Agência Judaica, foi concebida para restaurar a esperança, e provar que, do lado palestiniano, há interlocutors para pôr fim ao conflito. (Ler mais | Read more…)

Avraham Burg: da Inicitiva de Genebra até ao apoio à solução de um só Estado. @Ilan Mizrahi

Avraham Burg: da Inicitiva de Genebra à solução de um só Estado
© Ilan Mizrahi

O que é que distingue um advogado alemão de um advogado israelita? O alemão negociará um acordo durante cinco anos, depois assina-o e aplica-o; o israelita assinará primeiro o acordo, negociará durante durante cinco anos e nunca o aplicará. Foi assim, com um misto de ironia e amargura, que Avraham Burg, [antigo] dirigente do Partido Trabalhista de Israel, polvilhou o seu discurso num seminário, em Sevilha, organizado pelas Nações Unidas e pela Junta da Andaluzia.

“Eu ainda não recuperei de 2000 anos de trauma, por isso, sempre que o meu povo é atacado, o Holocausto volta-me à memória”, disse Burg na sua intervenção. “Para os palestinianos, certamente que a ocupação também não os faz esquecer os muitos anos de colonialismo a que têm sido sujeitos. (…) Nenhuma das partes tem prestado atenção às sensibilidades uma da outra. (…) O desespero vai ocupando o vazio deixado pela esperança.”

Nascido em Jerusalém, em 1955, Avraham é filho de Yosef Burg, que foi um dos mais proeminentes líderes do Partido Religioso Nacional, aliado incontornável de vários governos israelitas. Depois de servir na Divisão de Pára-Quedistas das Forças de Defesa de Israel, tornou-se num dos principais activistas do movimento Peace Now, fundado para protestar contra a presença militar israelita no Líbano [após a invasão de Beirute em 1982].

Em 1985, foi nomeado pelo então primeiro-ministro Shimon Peres conselheiro para as questões da diáspora judaica. Ocupou este cargo até 1988, ano em que foi eleito deputado, como candidato de um pequeno partido. Foi reeleito em 1992, desta vez como candidato do Partido Trabalhista.

Em 1995, Burg, casado com uma psicóloga nascida em França e com seis filhos, todos residentes em Nataf, pequena comunidade laica-religiosa, deixou o Knesset (Parlamento), para assumir a presidência da Agência Judaica. No executivo desta organização travou uma dura e controversa batalha para que fossem restituídos bens de judeus roubados durante o Holocausto.

Em 1999, Burg regressou ao Knesset como candidato da lista Um Israel, de Ehud Barak. Em Julho do mesmo ano, ascendeu a presidente do Parlamento , mas deixou de o ser depois das últimas eleições [em 2003].

Num intervalo do seminário em Sevilha, Avraham Burg aceitou falar comigo sobre o seu novo projecto: Iniciativa de Genebra, tentativa de solução do conflito que envolve concessões sem precedentes: os israelitas cedem a soberania do que chamam Monte do Templo em Jerusalém aos palestinianos; os palestinianos abdicam do direito de retorno a Israel dos refugiados da guerra de 1948.

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O senhor é um dos impulsionadores da chamado Iniciativa de Genebra. Como é que começou o processo?

Começou com Yossi Beilin [ex-ministro trabalhista da Justiça e um dos arquitectos dos Acordos de Oslo de 1992] e Yasser Abed Rabbo [antigo ministro palestiniano e um dos principais aliados do defunto líder da OLP, Yasser Arafat].

Quando?

Logo depois de Taba [negociações, na península egípcia do Sinai, entre o antigo primeiro-ministro israelita Ehud Barak e Arafat, que fracassaram em 2001]. A convicção era a de que perdemos uma oportunidade em Taba e por isso decidimos dar continuidade ao processo.

Na sua opinião, Arafat perdeu a confiança do campo da paz israelita. No entanto, entre os negociadores da Iniciativa de Genebra estão colaboradores de Arafat. Como explica isto?

Não há problema. O facto de eu ter perdido a confiança nele [Arafat] não significa que ele não seja meu parceiro. Estou a negociar com ele, goste dele ou não. Se ele representa os palestinianos, eu tenho de falar com ele.

Qual tem sido o impacto deste novo plano de paz em Israel?

Não prevíamos a enorme e imediata receptividade que obtivemos. As primeiras sondagens dão-nos um apoio de 45% dos israelitas. E isto antes de conhecerem os pormenores. Ficamos com a sensação de que a maioria dos israelitas quer mudar a política do desespero por uma alternativa de esperança.

E qual foi a receptividade no seu Partido Trabalhista?

Quanto ao Partido Trabalhista, continua a ser o mesmo. O processo é sempre lento. Vamos recomendar ao partido que adopte não os detalhes mas os princípios de Genebra e estes são: – as linhas de 1967, o que é dos judeus vai para os judeus e o que é dos palestinianos vai para os palestinianos; modificação por consentimento do estatuto de Haram [Al-Sharif, ou Nobre Santuário, em Jerusalém] em troca da não aplicação do direito de retorno [dos refugiados palestinianos da guerra de 1948] a Israel; e um combate implacável ao terrorismo. Creio que esta será a fórmula que a maioria dos israelitas aceitará.

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Mas como pôr a Iniciativa de Genebra em prática se o Partido Trabalhista parece em decomposição?

Realmente o mínimo que se pode dizer é que o Partido Trabalhista está em decomposição. Mas é uma situação natural. Só agora, desde há quase uma década, estamos a tentar levantar-nos do chão. Repare na sequência de acontecimentos: primeiro foi o assassínio de [Yitzhak] Rabin, depois [a derrota eleitoral] Barak, depois a Intifada [de Al-Aqsa], depois o governo de unidade nacional liderado por [Ariel] Sharon.

Não tivemos tempo para parar. Para fazermos autocrítica. Chegou pois o momento de olharmos para nós próprios. E isso é muito doloroso. Às vezes ficamos paralisados, mas creio que acabaremos por sair reforçados.

Quanto a um novo partido [têm circulado rumores de que Beilin e Burg querem formar um partido social-democrata], podemos falar nisso seis meses antes das próximas eleições, e não quatro anos antes.

A Iniciativa de Genebra é apresentada como uma solução para sair da crise, mas a realidade no terreno parece ser a de impossibilidade de resolver o conflito…

 …Genebra diz aos israelitas e aos palestinianos que não é verdadeira a alegação de que não existe ninguém com quem dialogar. Temos um parceiro e uma parceria. É só uma questão de querer pagar o preço. Eu creio que a solução não cabe apenas aos governos. As comunidades têm também um grande papel a desempenhar.

Está disposto a pagar até o preço de uma guerra civil em Israel, gerada por exemplo pelo desmantelamento dos colonatos?

Não haverá uma guerra civil. Será [um processo] difícil. Haverá desobediência mas não uma guerra civil.

Parece convencido de que Genebra vai vencer onde Oslo falhou.

Pelo menos abrimos novamente caminho à esperança. Se as pessoas convencerem o Governo a aceitar [o novo acordo] creio que sim. Será melhor que Oslo. É uma nova formula a que ninguém ficará indiferente.

A Iniciativa de Genebra foi concebida para apoiar o Roteiro da paz [apresentado pelo Quarteto: EUA, União Europeia, ONU e Rússia] ou para o suplantar?

A única coisa que me interessa é: tragam-me um acordo que o meu governo aceite, que os palestinianos aceitem e eu assiná-lo-ei. Não tenho problema com isso. No entanto, se ninguém apresentar um plano, eu tentarei apresentar um programa e uma solução. Foi isso que fizemos e precisamos de tempo.

É então um projecto a longo prazo?

A paz é um projecto a longo prazo!

O fim do sionismo

@The Daily Beast

© The Daily Beast

O trabalhista Avraham Burg revitalizou uma carreira que parecia em declínio quando, em Setembro de 2011, escreveu para o diário hebraico Yediot Ahronot um artigo que depois foi publicado em vários jornais do mundo. Intitulado O fim do sionismo, tem sido descrito como um grito que está a despertar consciências, dentro e fora de Israel. Extractos:

A revolução sionista sempre assentou em dois pilares: uma via justa e uma liderança ética. Ambas desapareceram. (…) Há uma grande probabilidade de a nossa vir a a ser a última geração sionista. Ainda poderá haver aqui um Estado judaico, mas será de um outro género, estranho e feio.

(…) A oposição não existe, e a coligação, com Ariel Sharon na chefia, clama o direito de guardar silêncio. Numa nação onde cada um é um fala-barato, todos se tornaram subitamente mudos, porque não há nada a dizer. Fracassámos de um modo terrível. Sim, é verdade que fizemos renascer a língua hebraica, criámos um magnífico teatro e temos uma moeda nacional forte.

Estamos cotados no Nasdaq [índice da bolsa de Nova Iorque]. Mas foi para isto que criámos um Estado judaico? O povo judeu não sobreviveu durante dois milénios para ser pioneiro de novas armas, de programas informáticos de segurança ou de mísseis antimísseis. Deveríamos ser uma luz entre as nações. E nisto falhámos.

Parece que 2000 anos de luta pela sobrevivência judaica se reduzem a um Estado de colonatos, dirigido por uma clique de fora-de-lei, corruptos e sem moral, que não ouvem nem os seus cidadãos nem os seus inimigos. Um Estado sem justiça não pode sobreviver. (…) A contagem para o fim da sociedade israelita já começou.

É muito confortável ser um sionista nos colonatos da Cisjordânia, como Beit El e Ofra. A paisagem bíblica é maravilhosa. Pode-se apreciar os gerânios e as buganvílias sem ver a ocupação. Viajando pela auto-estrada que liga Ramot, no extremo norte de Jerusalém, a Gilo, no extremo sul, um itinerário de 12 minutos que passa apenas a 800 metros a ocidente das barreiras nos territórios palestinianos, é difícil medir a experiência humilhante que vivem os desprezados árabes obrigados a esperar durante horas nos caminhos bloqueados a que foram confinados. Uma estrada para o ocupante, outra para o ocupado.

Israeli soldiers with Jewish settlers near the West Bank village of Burin near Nablus, 02 February 2013. @EPA/Alaa Badarneh | EPA

Soldados e colonos na aldeia palestiniana de Burin, perto de Nablus, na Cisjordânia, em 2 de Fevereiro de 2012: Avraham Burg descreve agora Israel como “o último ocupante colonial do mundo ocidental”
© Alaa Badarneh | EPA

Isto não pode dar certo. Mesmo que os árabes baixem a cabeça e engulam a vergonha e a revolta indefinidamente, isto não pode dar certo. Uma estrutura que assenta na insensibilidade humana acabará, inevitavelmente, por ruir sobre si própria: a super-estrutura do sionismo já está a ruir.

(…) Israel, que deixou de se preocupar com os filhos dos palestinianos, não deveria surpreender-se quando eles vêm banhados em ódio para se fazer explodir nos centros onde os israelitas fogem da realidade. Eles entregam-se a Alá nos nossos lugares de divertimento, porque a vida deles é uma tortura. Eles fazem correr o nosso sangue nos restaurantes para nos retirar o apetite, porque em casa têm pais e filhos humilhados e com fome.

Podemos matar milhares de chefes de bandos por dia e nada será resolvido, porque os chefes vêm de baixo — dos poços de ódio e de cólera, das ‘infra-estruturas’ da injustiça e da corrupção moral.

Se tudo isto fosse inevitável, ordenado por Deus e imutável, eu guardaria silêncio. Mas as coisas podem ser diferentes, e o grito tornou-se portanto um imperativo moral. Eis o que o primeiro-ministro [de Israel] deveria dizer ao seu povo:

O tempo das ilusões terminou. Chegou o momento das decisões. Amamos toda a terra dos nossos antepassados e noutros tempos teríamos desejado viver aqui sozinhos. Mas isso não acontecerá. Os árabes também têm sonhos e necessidades. Entre o [rio] Jordão e o [mar] Mediterrâneo já não há uma clara maioria judaica.

Israel, que deixou de se preocupar com os filhos dos palestinianos, não deveria surpreender-se quando eles vêm banhados em ódio para se fazer explodir nos centros onde os israelitas fogem da realidade.  @DR (Direitos Reservados | All Rights reserved)

Checkpoint nos territórios ocupados. Escreveu Avraham Burg: Israel, que deixou de se preocupar com os filhos dos palestinianos, não deveria surpreender-se quando eles vêm banhados em ódio para se fazer explodir nos centros onde os israelitas fogem da realidade
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Por isso, queridos cidadãos, não é possível ficar com tudo sem pagar um preço. (…) Não pode haver democracia sem direitos iguais para todos os que vivem aqui, árabes e judeus. Não podemos ficar com os territórios e preservar a maioria judaica no único Estado judaico do mundo — não por meios que sejam humanos, e morais e judaicos.

(…) O primeiro-ministro deve apresentar a situação com clareza: racismo ou democracia judaica. Colonatos ou esperança para ambos os povos. Visões falsas de arame farpado e bombistas suicidas ou uma fronteira reconhecida internacionalmente entre dois estados com uma capital partilhada, Jerusalém. (…).

[Ainda em 2011, Burg escreveu um outro artigo de opinião, no jornal Ha’aretz, admitindo a possibilidade uma solução de um só Estado:

Uma entidade com uma base comum para pelo menos três jogadores: uma direita ideológica que está disposta a avaliar essa viabilidade; uma esquerda que começa a sentir-se livre das ilusões do “judaico e democrático” e uma parte significativa da intelligentsia palestiniana.O quadro conceptual de um acordo será o de um Estado democrático para todos os seus cidadãos. Há aqui terreno fértil, do ponto de vista prático, para debate e criatividade. É uma oportunidade que vale a pena tentar, apesar da nossa [de Israel] imensa experiência de falhar todas as oportunidade e de acusar todos menos nós próprios.

Em 2012, o político que agora é senior fellow  do Molad – The Center for Renewal of Democracy, um think tank (supostamente apoiado por democratas e liberais nos EUA) destinado a “revitalizar a esquerda”, declarou o seu apoio a um boicote a todos os produtos provenientes dos territórios ocupados, e ao descrever Israel como “o último ocupante colonial do mundo ocidental.”]

© Direitos Reservados | All Rights reserved

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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Outubro de 2005 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in October 2005

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