Ajax: A operação da CIA que mudou a História

Os Homens do Xá – O golpe no Irão e as origens do terrorismo no Médio Oriente, de Stephen Kinzer, é um livro genial. Até a CIA, que ele ataca, o elogiou. (Ler mais | Read more…)

U.S. President Harry Truman, left, and Iranian Prime Minister Mohammad Mossadegh, right, stand together on Oct. 23, 1951. The coup d’état that led to the democratically elected Mossadegh’s ouster two years later was orchestrated by the U.S. CIA, newly declassified documents confirm. @Abbie Rowe via Wikimedia Commons)

O presidente dos EUA Harry Truman (à esq.) e o primeiro-ministro do Irão Mohammad Mosaddegh, juntos em 23 de Outubro de 1951. O golpe para derrubar o líder nacionalista, dois anos depois, foi orquestrado pela CIA – e agora é oficial, depois de terem sido desclassificados documentos anteriormente confidenciais
© Abbie Rowe

Cada capítulo de Os Homens do Xá – O golpe no Irão e as origens do terrorismo no Médio Oriente (Ed. Tinta da China) é uma teia de histórias carregada de História.

Stephen Kinzer,  jornalista do diário The New York Times, reconstrói de forma brilhante a Operação Ajax que conduziu ao derrube do democrata Mohammad Mosaddegh, em 1953, para colocar no poder um ditador (Reza Pahlavi), por sua vez deposto por um teocrata (Ruhollah Khomeini).

O autor deixou-se fascinar pelo protagonista ainda antes de começar o livro (dedicado “ao povo do Irão”), e a paixão é evidente e contagiante em cada uma das suas 350 páginas. As fotos que acompanham o texto são um fabuloso complemento para quem não tenha memória daqueles tempos conturbados.

Podemos ver não só retratos do primeiro-ministro Mosaddegh como os de todos os conspiradores, designadamente, Kermit Roosevelt, o artífice da operação, Loy Anderson e Sir Francis Shepherd, embaixadores dos EUA e da Grã-Bretanha em Teerão, os irmãos John Foster e Allen Dulles [sobre os quais Kinzer publicou recentemente uma biografia, “The Brothers], que chefiavam a diplomacia e os serviços secretos de Washington; a princesa Ashraf, sinistra irmã do imperador; e o Ayatollah Abulqasim Kashani, “comprado” pela CIA com dez mil dólares.

Nada é deixado ao acaso nesta obra imprescindível a quem quiser compreender o ressentimento que, hoje, afasta os iranianos dos americanos, mas também a convicção no Médio Oriente de que os EUA continuam mais interessados em salvaguardar os seus interesses do que em democratizar a região.

Uma foto de 1950 de Kermit Roosevelt Jr., neto do presidente dos EUA Theodore Roosevelt, o operacional da CIA que foi o artífice da Operação Ajax para derrubar Mossadegh
© Associated Press | NPR

Mossadegh foi uma vítima da ganância da Anglo-Iranian Oil Company, que, não aceitando a sua expropriação, manipulou Churchill e Eisenhower para que se livrassem de um obstinado nacionalista, invocando o temor de que, com ele, o Irão ficaria sob domínio soviético.

Nada mais falso: Mosaddegh era um aristocrata descendente da dinastia Qajar, partilhava os valores dos EUA, e quando os comunistas do Tudeh, pró-URSS, lhe pediram armas para o apoiar nas ruas, ele respondeu: “Que Deus me corte o braço direito se alguma vez concordar em armar um partido político!”

Na sua narrativa, que é um louvor a uma grande civilização (viajamos da era dos persas à dos xiitas, de Ciro I a Ali), Kinzer fornece minuciosos detalhes e preciosas curiosidades.

Desde a proveniência do Trono do Pavão ao papel na conjura de uma bizarra figura, o “Desmiolado”, que instigava as massas contra Mosaddegh, com uma arma em cada coxa, e a quem o “rei dos reis” ofereceu um Cadillac como recompensa.

Os Homens do Xá, seleccionado como um dos melhores livros de 2003 pelo jornal The Washington Post e pela revista The Economist, foi igualmente elogiado por historiadores da CIA, como David S. Robarge, que escreveu no site da agência: “Kinzer atinge o melhor do jornalismo quando – pegando em fontes publicadas, documentos desclassificados, entrevistas e uma cópia contrabandeada da operação – desmonta toda a gestão diária da TPAJAX” (o código oficial).

Kinzer [que chefiou as delegações do NYT em in Manágua/Nicarágua, Bona e Berlim/Alemanha e em Istanbul; e antes foi correspondente do “Boston Globe” na América Latina]. também escreveu um livro sobre o golpe seguinte da CIA (Bitter Fruit: The Story of the American Coup in Guatemala), é implacável na avaliação final da conspiração contra Mosaddegh:

– “É difícil imaginar (…) uma situação que tivesse produzido tanta dor e horror nos cerca de 50 anos que se seguiram. (…) Desde as ruas fervilhantes de Teerão e de outras capitais islâmicas até às cenas de ataques terroristas um pouco por todo o mundo, deixou um legado terrível e aterrorizador.”

Mohammad Reza Pahlavi, o Xá do Irão (deposto em 1979 pela Revolução Islâmica) e o presidente dos EUA Harry Truman (à dir.), quando o imperador iraniano chegou a Washington para uma visita de Estado, em Novembro de 1949
© Associated Press

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

Algumas lições do golpe que derrubou Mossadegh

Stephen Kinzer, autor de Os Homens do Xá, lamenta que a CIA tenha impedido, há 50 anos, a emergência de uma “democracia islâmica” no Médio Oriente que teria mudado a História. No entanto, por muito trágica que tenha sido a Operação Ajax, crê que Teerão e Washington “não estão predestinados a ser inimigos”. (Ler mais | Read more…)

Photo 1- Mossadegh

Mohammad Mossadegh, derrubado por um golpe da CIA, designado por Operação Ajax, em 1953, depois de pressões de Churchill. O Xá Mohammad Reza Pahlavi nunca permitiu que ele tivesse um funeral digno

Jornalista do diário The New York Times, Stephen Kinzer tem no seu currículo reportagens em mais de 50 países, no Médio Oriente, América Latina e antiga União Soviética.

É autor de Crescent and Star: Turkey Between Two Worlds, Bitter Fruit: The Story of the American Coup in Guatemala [e mais recentemente, Reset Middle East: Old Friends and New Alliances – Saudi Arabia, Israel, Turkey, Iran e The Brothers: John Foster Dulles, Allen Dulles, and Their Secret World War.]

O livro que a Tinta da China editou em Portugal, Os Homens do Xá – O golpe no Irão e as raízes do terrorismo no Médio Oriente, foi publicado originalmente em 2003, quando se completou meio século da conspiração anglo-americana que derrubou, em 1953, o regime democrático de Mohammad Mossadegh em Teerão.

Sobre o processo de criação desta obra – aclamada pelo diário The Washington Post, pelo semanário The Economist e pela própria CIA – e as suas conclusões, o autor deu-me uma entrevista por e-mail:

Por que decidiu escrever a história do golpe de 1953 que derrubou Mohammad Mossadegh?

Stephen Kinzer: Em 1997, quando eu era correspondente do New York Times em Istambul, fui enviado ao Irão para cobrir a eleição presidencial que Mohammad Khatami venceu.  O tempo que lá permaneci levou-me a questionar por que motivo o Irão se tornara no tipo de país que é hoje.

Pressenti que a decisão americana de derrubar o Governo iraniano em 1953 teve um papel maior do que as pessoas pensavam, mas quando fui à procura de um livro sobre essa operação descobri que não havia nenhum. Decidi tentar perceber o que acontecera e explicar isso aos leitores ansiosos por melhor compreender por que é que o mundo hoje está como está.

Quanto tempo demorou a escrever e como foi esse processo?

Fechei-me num quarto durante um ano, com pouca companhia a não ser pilhas de livros e documentos.

Quando descobri que um retrato do primeiro-ministro Mossadegh aparecera na capa da revista TIME em 1951, fui à procura de um exemplar dessa edição e emoldurei a capa.

Então, enquanto escrevia o livro, Mossadegh olhava, figurativamente, sobre o meu ombro. Sentia-o a murmurar: “Conta a minha história. Faz-me regressar à vida para uma nova geração.”

É verdade que o seu livro foi traduzido para farsi sem a sua permissão mas que algumas partes foram censuradas devido às referências negativas ao Ayatollah Kashani, que de aliado de Mossadegh colaborou depois com a CIA para o derrubar?

Há três traduções diferentes em farsi do meu livro, todas elas sem minha autorização. O texto foi ajustado, em parte para eliminar sugestões de que o Ayatollah Kashani, cujo filho é hoje uma figura política activa no Irão, colaborou com os conspiradores americanos. Na versão traduzida, ele é apresentado como uma vítima do golpe e não como um participante.

 A large drawing of Prime Minister Mossadegh is mounted on top a car during demonstration in Tehran, Iran on Sept. 30, 1951. A large crowd gathered in front of the lower house of Parliament as the opposition joined in solid front against Great Britain's oil complaint to the U.N. @AP Photo) #

Teerão, 30 de Setembro de 1951: uma foto gigante de Mohammad Mossadegh no tejadilho de um carro, durante uma manifestação junto ao Parlamento, contra a decisão de Londres de se queixar à ONU pela nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company. Um ano depois o primeiro-ministro seria afastado num golpe planeado pela CIA.
© Associated Press

É muito difícil encontrar, no seu livro, uma crítica a Mossadegh, excepto que ele era muito obstinado e que poderia ter sido mais flexível para evitar o confronto. De resto, apresenta-o como um político que se sacrificou pelo seu país, que fez tudo para ajudar os “amigos” americanos mesmo quando eles já o traíam. Podemos ler esta obra como um tributo? Há algum líder depois dele a quem possamos comparar?

Mossadegh foi uma grande personalidade do seu tempo. Até ele ascender ao poder nunca ninguém de um país pobre ousara desafiar as potências governantes do mundo de uma maneira tão directa.  E, no entanto, tem sido muito esquecido pela História.

Ele foi um nacionalista visionário com uma consciência profundamente democrática e um enorme respeito pelo estado de direito. De facto, talvez tenha sido isso que contribuiu para a sua queda.

Ele recusou recorrer a medidas repressivas que poderiam ter salvado o seu regime. No final, Mossadegh foi incapaz de se comprometer com forças que ele achava estavam a privar o Irão dos seus direitos de nascença.

Ele não era um pragmático mas um utópico. Suspeito que morreu sem ter sabido que o golpe contra ele foi orquestrado por um agente da CIA a operar da cave da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão.

Se não fosse a nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company e a teimosia de Churchill em vergar os “nativos”, este golpe teria acontecido? Ou outras circunstâncias como as ambições soviéticas na região acabariam por fazer avançar os acontecimentos nessa mesma direcção?

Não há dúvida que o golpe foi activado pela determinação de Mossadegh – apoiada pela votação unânime das duas câmaras do Parlamento iraniano – de nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company.

Se não tivesse feito isso, teria permanecido no poder. Mas ele foi elevado à liderança nacional precisamente porque os iranianos confiavam nele para levar a cabo a nacionalização.

Ele insistia em que o Irão deveria controlar os seus recursos naturais. Tal como aconteceu a outros líderes que fizeram o mesmo, em países como a Guatemala e o Chile, foi derrubado por um golpe americano porque não abdicou dessa exigência.

O argumento de que Mossadegh simpatizava com o comunismo é contrariado directamente pelos factos. Ele era um velho aristocrata que desprezava as ideias marxistas. Ninguém o acusou de tendências esquerdistas antes de ele agir contra a companhia petrolífera [inglesa].

Mohammad-Reza Shah Pahlavi of Iran and Prime Minister Winston Churchill of the United Kingdom, Tehran, Iran, 30 Nov 1943

Mohammad Reza Pahlavi e Winston Churchill, em Teerão, 30 de Novembro de 1943. O primeiro-ministro britânico nunca perdoou a Mossadegh a ousadia de ter nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company

O senhor enfatiza que a Operação Ajax deu aos povos do Médio Oriente a percepção de que um ditador (como Mohammad Reza Pahlavi), que serve os interesses do Ocidente é melhor do que um democrata que desafia as grandes potências. Até que ponto essa percepção influencia o modo como o Médio Oriente ainda hoje olha para os EUA?

Ao derrubarem Mossadegh em 1953, os Estados Unidos depuseram um líder que abraçava os valores fundamentais americanos e substituíram-no por outro que desprezava tudo aquilo que os EUA defendem. Como resultado deste golpe, o Xá pôde regressar ao seu Trono do Pavão.  E governou com ainda maior repressão durante 25 anos.

A repressão produziu, no final dos anos 1970, a Revolução Islâmica. A revolução levou ao poder uma clique de líderes religiosos fanaticamente anti-ocidentais que há décadas trabalham intensamente, e por vezes violentamente, para prejudicar os interesses americanos por todo o mundo.

Este regime, provavelmente, nunca teria chegado a existir e a actual crise relativa ao programa nuclear iraniano nunca teria emergido, se os Estados Unidos tivessem permitido que a democracia ali tivesse florescido.

Os iranianos que vivem sob esta repressiva teocracia têm dolorosa consciência de que os Estados Unidos ajudaram a criá-la. Muitos acham bastante bizarro que os EUA se proponham agora “libertá-los” e levar-lhes a democracia.

Se não tivesse havido uma intervenção dos Estados Unidos em 1953, o Irão teria provavelmente seguido o caminho até à democracia plena.

Poderíamos ter tido uma democracia vibrante no Médio Oriente islâmico nos últimos 50 anos. Isso teria oferecido à região e ao resto do mundo uma História diferente.

“Ao derrubarem Mossadegh em 1953, os Estados Unidos depuseram um líder que abraçava os valores fundamentais americanos e substituíram-no por outro que desprezava tudo aquilo que os EUA defendem”, diz Stepgen Kinzer

A revolução de Khomeini não teria sido possível sem a Operação Ajax?

A Revolução Islâmica foi, acima de tudo, uma reacção ao poder do Xá. Durante o reinado do Xá era impossível aos iranianos desenvolverem uma sociedade civil. Sindicatos independentes, grupos de estudantes, jornais, universidades, editoras e partidos políticos não puderam emergir porque o Governo os proibia.

O único lugar onde a oposição tinha voz era nas mesquitas. E em resultado disso, a revolução, quando eclodiu, não foi liderada por democratas, incapazes de se organizarem, mas por figuras religiosas.

Assim, a repressão do Xá, posta em prática com o consentimento e, muitas vezes, com a ajuda de Washington, garantiu que o regime subsequente fosse religioso e não democrático.

De que modo é que a intervenção dos EUA em 1953 cimentou “as raízes do terrorismo no Médio Oriente, como sugere o título do seu livro?

O golpe de 1953 enviou uma mensagem clara a uma geração de líderes no Médio Oriente. A mensagem era: se querem estabelecer um regime que seja apoiado pelos Estados Unidos não o transformem numa democracia.

Mossadegh tentou isso no Irão e os americanos derrubaram-no. Eles preferem um regime autoritário que lhes dê acesso ao petróleo, e não criticarão a repressão doméstica desde que o petróleo corra.

Esta mensagem moldou a consciência dos povos e dos grupos que têm dominado o Médio Oriente no ultimo meio século. A Revolução Islâmica de 1979 enviou uma segunda mensagem: a de que os fundamentalistas não estão condenados a ficar nos púlpitos das mesquitas a propagar a sua mensagem opressiva e xenófoba.

Eles podem tornar-se poderosos e até vir a segurar as rédeas do poder. Esta mensagem é arrepiante, e empurrou os fundamentalistas para novos extremos de radicalismo e violência.

Khomeini, o grande inimigo da dinastia Pahlavi que, em 1979,  derrubou a monarquia. A Operação Ajax, crê Stephen Kinzer, acelerou a ascensão de um regime de mullahs

O que pensa das actuais ameaças de intervenção militar, da parte dos Estados Unidos ou de Israel, para destruir o programa nuclear do Irão? Quais serão as consequências?

A intervenção de 1953 no Irão, tal como muitas outras intervenções americanas pelo mundo fora, produziram resultados directamente opostos aos que os EUA esperavam obter.

Inicialmente [a Operação Ajax] podia parecer um sucesso mas, na perspectiva da História, podemos ver que não só deu ao Irão meio século de repressão e tragédia mas também enfraqueceu muito a segurança nacional dos EUA. Outra intervenção fará o mesmo.

Não terá bons resultados para ninguém. Atacar o Irão transformaria os líderes deste país, que agora são internamente muito impopulares, em heróis da resistência islâmica; dar-lhes-ia um forte incentivo para lançar uma violenta campanha contra interesses americanos no mundo, desse modo atraindo inúmeros novos recrutas para a causa do terror.

Prejudicaria o movimento democrático no Irão e destruiria a perspectiva de mudança política por, no mínimo, mais uma geração.

Faria com que o povo do Irão, que está entre os mais pró-americanos no Médio Oriente, se tornasse inimigo dos Estados Unidos; exigiria que os EUA permanecessem indefinidamente envolvidos no Golfo Pérsico, forçando-os a tomar partido em todos os conflitos regionais e assim ganhando uma legião de novos inimigos.

Enfureceria o governo de maioria xiita do vizinho Iraque, de quem os EUA dependem para acalmar as chamas da violência; e, muito possivelmente, abalaria o fluxo de petróleo do Médio Oriente, de tal forma que poderia deixar as economias ocidentais num caos.

Pensar que um ataque ao Irão pode ajudar a estabilizar o Médio Oriente é uma fantasia tão perigosa quanto louca.  Quem quer que estude a intervenção de 1953 reconhecerá isto.

A Administração Clinton, através da secretária de Estado Madeleine Albright, pediu desculpa pelo golpe que derrubou Mossadegh [e a CIA reconheceu depois o seu envolvimento]. Há alguma possibilidade de normalização dos laços entre Teerão e Washington?

O primeiro elemento de um novo relacionamento entre o Irão e os Estados Unidos deve ser o compromisso, por parte dos EUA, de dialogar directa e incondicionalmente, com o Governo iraniano.

A intimidação, a denúncia, a ameaça e exigências estridentes não podem ser a base de uma activa política externa.

Está longe de ser uma evidência que as negociações serão bem sucedidas, mas mostrariam que o Irão e os Estados Unidos partilham objectivos estratégicos importantes.

Ambos detestam os movimentos radicais sunitas, como al-Qaeda e Taliban. Ambos querem, desesperadamente, estabilizar o Iraque e o Afeganistão. Cada um com diferentes motivos, ambos querem assegurar um fornecimento regular de petróleo iraniano aos mercados ocidentais.

A indústria petrolífera iraniana encontra-se num estado perigoso e precisa de dezenas de milhões de dólares em investimentos; os Estados Unidos têm grandes recursos de capital e um apetite voraz por petróleo. Estes dois países não estão predestinados a ser inimigos para sempre. De facto, são potenciais aliados.

[Ler crítica ao livro na categoria Cultura | Read the book review at the Culture category].

Stephen Kinzer

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007| This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on 2007

Este repórter foi ao dentista em Gaza e voltou 114 dias depois

No dia 17 de Maio de 2007, o correspondente da BBC Alan Johnston temia não completar 45 anos de vida. Palestinianos armados levaram-no do minúsculo território onde trabalhava e residia. A sua execução foi anunciada e desmentida. A campanha pela sua liberdade não teve precedentes (Ler mais | Read more…)

Refém- Photo 1

Após o rapto, todos perguntavam quem e porquê tem em seu poder Alan Johnston, um  experiente repórter que cobriu conflitos no Uzbequistão e no Afeganistão, e arriscou ficar na caótica Faixa Gaza quando todos os jornalistas estrangeiros partiram devido aos raptos cada vez mais frequentes?

A palestiniana Laila El-Haddad, jornalista freelance e blogger lembra-se dos tempos em que ela e Alan Johnston costumavam brincar com a possibilidade de o seu amigo ser “finalmente” raptado.

Já tinha havido uma vã tentativa de o sequestrarem, o que forçou a BBC a retirar o seu logótipo do escritório de múltiplas fechaduras onde, há três anos, trabalhava aquele que se tornou no único correspondente estrangeiro na Faixa de Gaza.

Na altura, Laila e Alan riram-se, perguntando-se sobre que tipo de bolinhos os captores ofereceriam e como é que ele iria beber o chá, tendo em conta dramáticas mas fugazes experiências de antigos reféns.

A brincadeira veio à memória dela uma semana depois de o amigo ter sido levado por homens armados, a 12 de Março, e ela ralatou-a no seu blogue Raising Yousuf. Foi uma brincadeira que deixou de ter graça. Há mais de um mês que ninguém sabe onde está o escocês nascido em Lindi, na Tanzânia, e que, no próximo dia 17 [de Maio de 2007], completará 45 anos – se estiver vivo.

Inicialmente, a situação de Johnston era descrita como a de “desaparecido” – ele havia combinado uma hora para telefonar e os colegas, na sede  em Londres estranharam a falta.

Uma semana depois, quando já se falava que havia negociações em curso, a BBC admitiu “ser quase certo” que o seu correspondente foi “raptado por um grupo desconhecido de activistas palestinianos”.

A Palestinian gunman kisses his rifle as he celebrates what he says is a victory over Israel after an eight-day conflict in Gaza City

Entre os primeiros suspeitos do rapto de Johnston estavam os Dogmosh, temível clã em Gaza, embora eles tenham negado  envolvimento

Johnston deixara o escritório e dirigia-se para o apartamento onde vivia, ambos na Cidade de Gaza, após uma consulta no dentista em Jerusalém.

A polícia palestiniana, com base em testemunhas, informou que o jornalista foi forçado a acompanhar quatro homens armados, não identificados. O seu carro foi encontrado abandonado numa rua.

Se, em Gaza, terra sem lei nem ordem, não há precedente de um estrangeiro estar há tempo detido (o mais longo cativeiro – duas semanas – foi o de dois repórteres da televisão norte-americana Fox, exceptuando o caso do soldado israelita Gilad Shalit, sequestrado no Verão de 2006), as manifestações de apoio a Johnston, por todo o mundo, também desafiam a memória.

Canais concorrentes de televisão, da Sky News à Al-Jazeera, juntaram-se numa emissão especial. Uma petição on-line, com nomes sonantes dos media como David Frost e Christiane Amanpour, ultrapassou [em pouco tempo] as 50 mil assinaturas. A blogosfera encheu-se de mensagens de solidariedade.

Colegas de profissão juntam-se em protestos e vigílias, de Ramallah a Trafalgar Square. Em igrejas, sinagogas e mesquitas, ou no Parlamento Europeu, fazem-se apelos solenes à libertação do jornalista. Crianças palestinianas juntam-se nos becos de Gaza erguendo cartazes onde se lê Free Alan.

Até Marwan Barghouti, o popular líder da Intifada e da milícia Brigadas dos Mártires de al-Aqsa, juntou a sua voz à de outros “10.000 prisioneiros da ocupação” nas cadeias israelitas, exigindo que “este amigo dos palestinianos” seja libertado, são e ileso.

O mais inesperado foi um encontro do cônsul britânico em Jerusalém, Richard Makepeace (curioso apelido), com o primeiro-ministro Ismail Haniyeh, violando o boicote europeu imposto ao Hamas, no esforço quase desesperado de empurrar a Autoridade Palestiniana a agir.

O veterano John Simpson, relator de várias guerras, confessou que nunca viu “tanto apoio a um jornalista detido” como no caso de Johnston, sinal de que “vamos sentir muito a sua perda”.

Depois de libertado, Alan Johnston revelou que os raptores, sentindo o cerco apertar-se por parte do Hamas, o obrigaram a gravar um vídeo, envergando um colete de bombista suicida, ao estilo dos jihadistas que estabelecem um preço de resgate e, com ou sem ele, acabam por executar o seus reféns @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Alan Johnston revelou que os raptores, sentindo o cerco apertar-se por parte do Hamas, o obrigaram a gravar um vídeo (na foto), envergando um colete de bombista suicida

A pergunta que todos fazem é: quem e porquê tem em seu poder o repórter experiente (desde 1991) que cobriu conflitos no Uzbequistão e no Afeganistão, e arriscou ficar na caótica Faixa Gaza quando todos os jornalistas estrangeiros (não só ocidentais, mas também árabes) partiram devido aos raptos cada vez mais frequentes?

Quatro semanas depois do sequestro, o jornal de capitais sauditas Al-Hayat noticiava que “as autoridades palestinianas estavam a investigar a possibilidade de Johnston ter encenado o seu próprio desaparecimento porque a BBC se preparava para o despedir”, quando acabasse a actual missão, em Março.

A BBC primeiro ignorou esta alegação, mas depois viu-se obrigada a fazer um veemente desmentido, em sua defesa e do correspondente.

O governo palestiniano, [naquela altura] composto pelos movimentos rivais Fatah e o Hamas, condenou o rapto, prometeu “julgar os criminosos” e garantiu que Johnston “está bem”, sem mais pormenores públicos.

A 15 de Abril, um grupo desconhecido, autoproclamado discípulo da Al-Qaeda, assumiu responsabilidade pela “execução” do jornalista.

As autoridades exprimiram dúvidas, considerando a reivindicação “apenas uma forma de pressão”. A 17, outro diário árabe pan-árabe, Asharq Al-Awsat, dava conta de um pedido de resgate de cinco milhões, por parte dos sequestradores. Dois dias depois, o presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, asseverou ter “provas firmes” (não especificadas) de que Johnston “está vivo”.

Laila El-Haddad enfureceu-se com a atitude do executivo e das forças de segurança da Palestina. Escreveu ela: “Eles devem saber a localização e a identidade dos captores mas, ao invés de os perseguirem, enrolam-se em questões de protocolo, feudos de clãs e ameaças de vingança e, no final, optam por negociar e ceder às exigências em troca de os reféns serem libertados bem.”

“Estas exigências surgem, geralmente, na forma de aumentos de salários, promoções laborais ou só mesmo empregos. (…) Estão a recompensar os sequestradores em vez de os punir, fornecendo incentivo a todos os que têm queixas, reais ou imaginárias, para no futuro continuarem os raptos”.

A blogger e jornalista, colaboradora de publicações como The New Statesman e The Washington Post, relembra que entre os primeiros suspeitos do rapto de Johnston estavam os Dogmosh, um temível clã de Gaza, embora eles tenham negado o seu envolvimento.

A Faixa de Gaza, de onde o repórter da BBC foi raptado, "tornarse-á inabitável até 2020", se nada for feito para aliviar as restrições impostas por Israel ao território governado pelo Hamas, segundo a ONU. Um relatório indica que o nível de vida dos habitantes palestinianos "é agora muito pior do que nos anos 1990 - devido a uma subida na taxa de natalidade, escassez de recursos e obstáculos impostos ao comércio e livre movimento de bens e pessoas". @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A Faixa de Gaza, de onde o repórter da BBC foi raptado, “tornar-se-á inabitável até 2020”, se nada for feito para aliviar as restrições impostas por Israel ao território governado pelo Hamas, segundo um relatório da ONU

Trata-se de um gangue responsável por vários sequestros e outros actos criminosos, com o suposto objectivo de obter a libertação dos seus elementos capturados pelas autoridades palestinianas.

Laila El-Haddad anotou o timing do desaparecimento do correspondente da BBC: dois dias antes da formação do “governo de unidade nacional” palestiniano.

No meio disto, há teorias de conspiração, acrescenta, como a de que Mohammed Dahlan, comandante da Fatah, chefe da segurança e o verdadeiro “homem forte” de Gaza, nada faz para impedir os raptos “porque está empenhado no colapso” da aliança de poder, para embaraçar o Hamas.

Ben Wedeman, da CNN, outro amigo de Johnston e também ele protagonista de uma fracassada tentativa de rapto, lamenta o que aconteceu, tendo em conta a personalidade da vítima. “Nos últimos três anos, encontrei-me com Alan quase sempre que me deslocava a Gaza. Ele era cliente habitual do Hotel Dira.

Em muitas manhãs, sentava-me ao seu lado e falávamos da paisagem política sempre em mudança – que facção, que líder estava a subir ou a descer. E mais do que uma ocasião, evocámos o perigo de sermos raptados.”

“A atitude de Alan, e a minha, era de um modo geral tratar o fenómeno como uma infeliz inconveniência, um potencial perigo, mas algo que se estava a tornar ali um facto da vida diária”, adiantou Wedeman. “Ambos víamos Gaza como um lugar trágico, intrigante, onde deparávamos amiúde com a generosidade e a abertura das pessoas que, dadas as circunstâncias, poderiam ser hostis.”

Wedeman foi-se embora da Faixa de Gaza em 2004, depois de o tentarem raptar. Segundo o Palestinian Centre for Human Rights, pelo menos 55 estrangeiros foram sequestrados em Gaza nos últimos três anos, embora todos tenham sido libertados sem ser molestados.

O primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh (foto de cima) e Alan Johnston, no dia em que este foi libertado

Alan Johnston ficou, talvez porque o seu assignment terminava em breve ou como disse outro amigo, Eóin Murray, no site, porque era esse o seu “testamento de profissionalismo”.

A BBC, contactada por nós, não quis dar mais informações, nem contactos de amigos e familiares, alegando que “receia pôr em perigo as diligências” para conseguir a liberdade do seu repórter.

Laila El-Haddad e Ben Wedeman estão conscientes de que acções desta natureza prejudicam os palestinianos. “Este é o sintoma de uma sociedade sem Estado nem futuro. (…) A última coisa que os habitantes de Gaza precisam é de afastar os poucos estrangeiros que restam na sua solitária prisão ao ar livre a que chamam pátria. Ou de manchar ainda mais a sua imagem no exterior”, sublinhou ela.

“Muitos (…) ficam destroçados e não desculpam os raptores, porque isto é completamente contrário aos valores tradicionais árabes de hospitalidade para com os estrangeiros”, salientou ele.

Alan Johnston “deixou de dar notícias para ser notícia”, constatou o amigo Eóin Murray, que não se admira com a gigantesca campanha de solidariedade em marcha. O refém “é uma dessas pessoas raras e extraordinárias que, inevitavelmente, acabam por tocar as nossas vidas, por muito pouco tempo que passemos com elas.”

[Alan Johnston foi libertado em 4 de Julho de 2007. Em Outubro, o jornalista descreveu, pela primeira vez, num programa da BBC 4, os detalhes de quatro meses ou 114 dias de cativeiro, numa cela “com um saco-cama estreito e duas cadeiras de plástico”.

O seu maior temor confessou, era que o decapitassem. Perdeu muitas vezes a esperança de vir a ser libertado e sentiu ter “descido ao ponto mais baixo da vida”. Nos primeiros dias após o rapto, adoeceu devido à má alimentação e à água imprópria para consumo – na Faixa de Gaza os esgotos corriam a céu aberto e os escassos recursos hídricos não eram habitualmente tratados.

Quando deram Johnston um aparelho de rádio, ele recuperou a confiança, ao tomar conhecimento de uma gigantesca campanha mundial para obter a sua liberdade.

“Foi um enorme  incentivo psicológico”, reconheceu. Enquanto esteve encarcerado, teve oportunidade de conversar com um dos captores, identificado como Khamees, “um jovem na casa dos 20 anos”, que também o deixou ver, pela televisão, o apelo que os seus pais fizeram para que o filho fosse libertado.

Às vezes, o mesmo guarda não fechava a porta da cela à chave, para permitir que  Johnston fosse à casa de banho ou à cozinha, para confeccionar “duas refeições por dia”.

À medida que o Hamas apertava o cerco aos raptores, este obrigaram-no a gravar um vídeo, envergando um colete de bombista suicida, ao estilo dos jihadistas que estabeleciam um preço de resgate e depois executam o seus reféns. 

O dia da libertação “foi o mais assustador”, salientou Johnston. Combatentes munidos de espingardas Kalashnikov “gritavam irados, provavelmente temerosos de que o Hamas os mataria fosse qual fosse o acordo que pudessem estabelecer”. Nessa altura, Khamees agrediu-o na cabeça e o jornalista disse ter sentido “o sangue na boca”.

Atravessarem um posto de controlo militar com ele encapuzado, mas ainda assim capaz de ouvir mais gritos de que lhe “colocariam uma bala nos miolos” se o Hamas não recusasse. Subitamente, Khamees abriu a porta do veículo e largou-o no meio da estrada. 

Johnston receou ser novamente raptado por outra milícia, mas foi salvo por militantes do Hamas, o movimento que agora governa Gaza depois de expulsar a Fatah. Só então se apercebeu de que estava livre. Teve pesadelos durante muito tempo, mas disciplinou-se para os vencer.]

Alan Johnston não esconde que, após a libertação, teve pesadelos durante muito tempo, mas garante que se disciplinou para os vencer. Hoje, continua a ser um dos correspondentes da BBC - mas em Roma. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Depois da libertação, a Amnistia Internacional premiou Alan Johnston pelas suas reportagens sobre direitos humanos na Faixa de Gaza

Este artigo, agora revisto e actualizado, e com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article, now revised and updated, and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

Chipre atrai mais de 20 jogadores portugueses

A ilha procura um “futebol de qualidade” e reforçou os investimentos desde a entrada na União Europeia. Os atletas vão em busca de melhores salários. O astro-rei é Ricardo Fernandes, do APOEL. (Ler mais | Read more…)

Ricardo Fernandes, jogador português, médio do APOEL (na foto com o equipamento da equipa de Nicósia), é muito amado em Chipre
© tribunaexpresso.pt

O deus de Christos Demetriou chama-se Ricardo Fernandes, médio do APOEL, o primeiro jogador português a chegar à República de Chipre e a abrir caminho aos mais de 20 que, para esta época, já assinaram contratos com clubes da primeira divisão, e até da segunda.

“Ele não é uma estrela, é uma super-estrela”, diz o fervoroso adepto da equipa campeã da ilha em 2006-2007.*

“Se pudesse concorrer, Ricardo Fernandes ganharia as eleições para presidente da Câmara de Nicósia, de tão popular que é”, brinca o bonacheirão Demetriou. “Todos os treinadores admitem que gostariam de o ter, porque ele domina o jogo do primeiro ao último minuto.”

A performance do nº 10 azul e amarelo pode ser avaliada num vídeo intitulado “Ricardo Fernandes = Apoel or Death”, ainda que ele não tenha sido o melhor marcador. A proeza coube a Esteban Solari, ponta-de-lança argentino, que marcou 20 golos em 24 partidas. Mudou-se agora para o Pumas UNAM, do México.

A popularidade de Ricardo é evidente quando o atleta que começou no Freamundo, passou pelo Santa Clara, Gil Vicente, Sporting, Porto e Académica entra num dos cafés mais in da capital cipriota, acompanhado de Nelson Veiga e Pedro Torrão, amigos/adversários do vice-campeão Omonia.

Os olhares, em particular os femininos, acompanham as três figuras, que se vestem e caminham como modelos, exibindo pernas e braços musculados.

Ricardo Fernandes parece tentar seduzir a “plateia”. Fãs abordam-no para o saudar, e ele retribui a admiração. “Este país oferece, a mim e à minha família, sobretudo aos meus filhos, qualidade de vida e segurança que eu não tinha em Portugal”, sublinha. “Estamos muito bem aqui”.

Nem sempre foi assim. Ricardo chegou em Julho de 2005 e, em Janeiro de 2006, pediu para se “ir embora”. Foi recebido com desconfiança, como o “estrangeiro” que vinha ocupar o lugar que os cipriotas ambicionavam.

“Não havia clima de grupo”, recorda. Os colegas dificultavam-lhe os passes. Gradualmente, porém, ele foi mostrando o que valia, e hoje é considerado peça central.

Christos Demetriou conta que, num jogo decisivo, o treinador do Omonia deu instruções aos seus atletas para que não deixassem o vimaranense de 29 anos aproximar-se da bola. “Se o travarem impedirão que o APOEL marque, porque o APOEL é Ricardo Fernandes”, terá dito o técnico.

O médio Pedro Torrão, há cinco meses em Nicósia depois de deixar o Beira-Mar, confirma que foi “aconselhado a não largar Ricardo” durante toda a partida. “Andei sempre, mas sempre, colado a ele, não lhe dando hipóteses de se mexer”, regozija.

Como é que depois de ensinarem uns aos outros os “cantos à casa” (como aprender a conduzir pela esquerda), partilharem refeições, idas à praia e saídas nocturnas estes jogadores por vezes se agridem mutuamente em campo?

“Quando pegamos na bola não é para magoar ninguém, mas às vezes há entradas mais duras”, explica Nelson.

“Naquele momento, o que importa é ir ao encontro das expectativas dos adeptos”. E estes, realça o cipriota George Gabriel, “fã – mas não fanático” do Omonia, são capazes de encher os 20 mil a 25 mil lugares do estádio para torcer pela equipa. No caso do “clube comunista”, os fiéis são tantos que os chamam de “chineses”, refere.

Ricardo Fernandes (o terceiro) em Old Trafford após o empate com o Manchester United que deu o apuramento ao FC Porto na Champions, em 2004
© TVI24 -IOL

Escandalizado com a amizade que Ricardo e Nelson exibem publicamente, um jornal de Nicósia terá publicado uma foto de ambos, fora dos relvados, perguntando como é que o médio do APOEL podia conviver com o defesa do Omonia, quando os jogos das duas equipas são como batalhas que mobilizam um gigantesco aparato de segurança.

Ricardo admite que a extrema-direita terá infiltrado a massa associativa do APOEL. Nelson não estranha quando o insultam por ser negro. Ambos asseguram, todavia, que jamais foram ameaçados fora das partidas.

O futebol em Chipre, explica Christos Demetriou, é por vezes sido mais factor de divisão do que de união. “Há famílias com adeptos de uma e outra equipa que se separam à entrada dos estádios, tratando-se como inimigos durante os 90 minutos do jogo. Os que perdem choram, e não esperem ser consolados pelos que ganham e celebram”.

Indiferentes às rivalidades locais, os portugueses parecem constituir uma espécie de confraria. Nelson Veiga, que era do Naval 1º de Maio, confirma que Ricardo Fernandes abriu as portas às mais de duas dezenas de atletas lusos actualmente instalados num país com menos de 900 mil habitantes.

Quando o craque do Apoel chegou, o futebol português já tinha grande projecção internacional, graças a Luís Figo e a Cristiano Ronaldo, mas também ao Euro 2004, que os gregos ganharam (bateram os rapazes de Scolari no primeiro e último jogos), extasiando os cipriotas.

“Em Portugal, os clubes estão agora sujeitos a uma maior pressão fiscal e a uma grave crise financeira”, lamenta Nelson.

“As empresas patrocinadoras desinvestem e os jogadores procuram alternativas. Aqui, pelo contrário, os salários são melhores, tendo em conta que a qualidade do futebol que se pratica ainda é inferior. E, com a entrada de Chipre na União Europeia, o mercado abriu-se completamente aos portugueses.”

Ricardo e Nelson revelam que tencionam terminar as carreiras em Chipre. O primeiro quer jogar “mais cinco ou seis anos”, e depois decidirá o que fazer. O segundo pretende sair de cena aos 35 anos e dedicar-se à selecção de Cabo Verde da qual tem sido titular. Torrão, com mais um ano de contrato, prefere concentrar-se no presente.

  • [Ricardo Fernandes jogou posteriormente noutras três equipas cipriotas –  Doxa Katokopias F.C., Anorthosis Famagusta FC  e AEL Limassol. Em Junho de 2010, juntou-se à equipa israelita Hapoel Be’er Sheva AFC e, em 2011, mudou-se para o FC Metalurh Donetsk, na Ucrânia. Em 2018, perto dos 40 anos abandonou os relvados, sonhando com uma carreira de treinador, segundo disse ao semanário “Expresso“.]

APOEL vs Omonia ou a direita contra a esquerda

Novembro 2017: o APOEL celebra uma vitória sobre o Omonia (3-1) num dos principais jogos do campeonato cipriota
© Cyprus Mail

Na República de Chipre, quando o APOEL e o Omonia se defrontam não estão apenas em jogo duas equipas de futebol, mas duas concepções políticas – direita e esquerda –, que muito contribuem para uma feroz rivalidade.

Atletas e adeptos reconhecem que o primeiro está ligado ao Movimento Social-Democrata EDEK, enquanto o segundo tem uma forte conotação com os comunistas do AKEL, o maior partido da ilha.

Nikolaos Mamakos, um grego que nasceu na Tanzânia e reside em Nicósia, onde segue de perto a ligação entre futebol e política, diz não ter dúvidas de que, para ganhar as presidenciais de Fevereiro de 2008, o AKEL teria de “aumentar os investimentos” no Omonia.

O objectivo é “agradar aos fãs para assegurar a vitória de Demetris Christofias” – o primeiro candidato em 81 anos de existência que o partido, que sempre apoiou os escolhidos por outros, apresenta ao mais alto cargo da nação.

Nelson Veiga, português da selecção de Cabo Verde, antigo jogador do Naval 1º de Maio contratado pelo Omonia, admite que, para a próxima época, já entrou um “reforço de capitais” na equipa, e não exclui que isso possa ter propósitos eleitorais.

Nascido POEL (Podosferikos Omilos Ellinon Lefkosias ou Futebol Clube dos Gregos de Nicósia), em 8 de Novembro de 1926, a formação de Ricardo Fernandes – o pioneiro português, idolatrado como herói neste pedaço do Mediterrâneo – tornou-se APOEL, a partir de 1928, quando decidiu apostar também no (A)tletismo.

Em 1948, alguns membros do clube envolveram-se na guerra civil grega contra os insurrectos comunistas. Os que discordaram desta militância criaram então o Omonia.

A animosidade entre ambos só recentemente se atenuou. Um jogador que mudasse de camisola seria considerado um traidor. Derrotarem-se mutuamente é “quase mais importante”, para os adeptos de cada um dos clubes, do que vencer o campeonato, salienta Ricardo Fernandes.

Quando o APOEL e o Omonia (equipamento verde) se defrontam não estão apenas em jogo duas equipas de futebol, mas duas concepções políticas – direita e esquerda
© Cyprus Mail

Em 1955, quando começaram operações de guerrilha contra a Coroa britânica, muitos atletas do APOEL tornaram-se activistas da Organização Nacional dos Combatentes Cipriotas (EOKA).

Um deles, Michalakis Karaolis, foi enforcado pelas autoridades coloniais que, desde 1878, administravam a ilha e a anexaram em 1914. A independência só chegou em 1959. A república foi proclamada no ano seguinte.

O aparecimento do Omonia levou à criação da Associação de Futebol Amador de Chipre, já que o APOEL não permitia a sua inclusão na Associação de Futebol de Chipre de que foi fundador.

Os clubes amadores organizaram então as suas próprias competições, um campeonato e uma taça – separação que durou até 1953, quando o Omonia foi finalmente reintegrado, e na primeira divisão.

Na última final da Taça de Chipre, o Omonia perdeu 3-2 com outra das principais equipas nacionais, o Anorthosia Famagusta FC, onde joga o português Luís. Classificou-se em segundo lugar no campeonato, atrás do eterno adversário: APOEL.

Num jogo em 2007, o APOEL venceu, por 2-0, a primeira-mão das pré-eliminatórias da Liga dos Campeões, contra o BATE Borison, da Bielorrússia. O site da UEFA destaca que “Ricardo Fernandes brilhou” ao fazer a assistência para o segundo golo.

[Para conhecer melhor o percurso de vida de Ricardo Fernandes, ler aqui.]

Ricardo Ribeiro Fernandes, natural de Moreira de Cónegos, começou a sua formação no Desportivo das Aves aos 9 anos. Mais tarde jogou no Sporting e depois foi campeão europeu ao serviço do FC Porto (na foto, à esq.)
© Estela Silva | sapo.io

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República de Chipre 

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Julho de 2007 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in July 2007

Christie’s vende três beijos de Napoleão

A “mais importante colecção de manuscritos que chegou ao mercado numa geração” vai a leilão. Abrange um período de cinco séculos e está avaliada em 3,6 milhões de euros. Um banqueiro austríaco guardou-os num armário durante 30 anos. A carta do imperador francês é rara e comovente. (Ler mais | Read more…)

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Entre 44 mil e 73 mil euros é a base de licitação de três beijos de Napoleão à sua amada Josefina: “Um para o teu coração, outro para a tua boca e outro para os teus olhos”. *

Os beijos são oferecidos “numa das três únicas cartas de amor que restam do período antes do casamento”, em 1796, do imperador francês com a sua primeira mulher.

“A carta começa num tom zangado, depois de uma discussão na noite anterior, e termina em jeito de terna reconciliação”, explica-me, numa entrevista por e-mail, Thomas Venning, director do Departamento de Manuscritos e Livros da Christie’s, a famosa leiloeira de Londres, que a pôs à venda.

A carta de Napoleão, arrependido por ter irritado Josefina com perguntas sobre a sua fortuna familiar, não é a única da “mais importante colecção de manuscritos que chegou ao mercado numa geração” e com que a Christie’s tenciona arrecadar um total de 3,6 milhões de euros [atingiu os 5,6 milhões].

“Vale pela combinação de raridade e conteúdo”, salienta Venning, tendo em conta a história de amor entre o remetente e a destinatária que durou até ao divórcio de ambos em 1809.

O homem baixinho, magro, de cabelos oleosos e gestos bruscos sobre quem Hegel disse que era “a alma do mundo a cavalo” ficou famoso pelas suas fúrias mas também pelas cartas sentimentais endereçadas à viúva que ele próprio coroou “imperatriz dos franceses”.

Em 1795, ainda Josefina era Marie-Josèphe Rose Tascher de la Pagerie, já Napoleão terminava as cartas enviando-lhe “mil beijos” e pedindo que não fossem devolvidos porque ficaria “com o sangue a arder”.

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Uma outra carta, em 1796, terminava com “um beijo ao coração, e outro mais abaixo, muito mais abaixo!”

Mesmo depois de repudiar Josefina, por não lhe ter dado um herdeiro que glorificasse o império em que englobou boa parte do continente europeu, o general nascido na Córsega manteve-se afectuoso na correspondência.

Escreveu já depois da separação: “Não podes pôr em dúvida a minha constante amizade e não conheces bem os meus sentimentos se supões que eu possa ser feliz se tu não fores.”

Quanto à epístola dos três beijos na posse da Christie’s é um dos quase mil documentos guardados numa moradia do banqueiro austríaco Albin Schram, em Lausanne, na Suíça.

Quando ele morreu, em 2005, os seus familiares não tinham ideia do que acabaram por encontrar – um tesouro catalogado por tamanho e não por data ou autor – num armário metálico na lavandaria da residência.

“A colecção foi sendo feita ao longo de 30 anos”, precisou Thomas Venning, na entrevista. “Muitos dos objectos foram adquiridos em leilões, a maioria nos principais centros de Londres, Paris e Berlim.”

“É uma colecção notável pela sua vasta natureza, abrangendo quando todos os grandes nomes nos campos da História, Literatura, Ciência e Filosofia, Música e Arte, num período de aproximadamente 500 anos, a começar em 1840. É sobretudo rica nos manuscritos em inglês, francês e alemão”.

A vida de Schram, “um coleccionador especializado e independente”, é quase tão fascinante quanto a sua colecção. Nasceu em Praga em 1926 de uma família austríaca ligada à indústria, revela Venning.

“Na adolescência, foi recrutado para combater na Wehrmacht. Ferido e capturado pelo exército russo, conseguiu escapar, em condições dramáticas, de um campo de prisioneiros de guerra em Koenigsberg (moderna Kalininegrado), de onde seguiu para Berlim Ocidental e depois para Viena”.

Foi na capital austríaca que Schram se formou na universidade e seguiu uma carreira ligada ao Direito e às finanças, antes de se fixar em Lausanne. Aqui, a partir de 1973, tornou-se um coleccionador profissional, sendo que algumas das suas obras foram compradas nos leilões da Christie’s.

“Foi com base nesta associação que nos deram a possibilidade de vender o lote [de manuscritos] e também devido à nossa excelente reputação no mercado da arte”, salientou Venning.

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Se a missiva de Napoleão é uma preciosidade, mais ainda (vai ser licitada entre 120 mil e 170 mil euros) é, na opinião do especialista da Christie’s, a carta que John Donne, um dos maiores poetas britânicos e que foi reitor da Catedral de São Paulo, em Londres, escreveu a Lady Kingsmill, um dia depois da morte do marido desta, em Outubro de 1624.

“A carta de Donne é uma grande raridade”, frisa Venning. “Ele é contemporâneo de Shakespeare e as suas cartas raramente aparecem à venda. Mas é também é uma carta muito ternurenta. Ele escreve a uma velha amiga, tentando consolá-la pela sua perda, recorrendo a linguagem poética e a imagens religiosas de grande profundidade”.

Um poema escrito à mão por Arthur Rimbaud (entre 59.000 e 87.000 euros) e uma carta do poeta russo Alexandre Pushkin de 1831 (avaliada em 44.000 a 73.000 euros) completam, juntamente com a mensagem de Napoleão a Josefina,  o lote mais valioso.

Venning destaca ainda outra carta, “totalmente diferente”, que o escritor Ernest Hemingway enviou ao seu colega Ezra Pound. “Ele deixa bem claro como odeia a alta sociedade moderna e prefere os touros – o que já indiciava um dos grandes temas da sua obra”.

Dizia Hemingway em 1925 ao amigo e poeta americano: “Os touros de 25 anos não casam com mulheres de 55 e não esperam ser convidados para jantar. (…) Os touros não pedem dinheiro emprestado. Os touros comem-se depois de serem mortos.”

[O remate final, a 3 de Julho de 2007, foi superior a 405.000 euros.]

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

Está na moda casar na ilha de Afrodite

Todos os anos, milhares de pessoas acorrem a Chipre para celebrarem casamentos civis. A maioria provém de países onde são apenas permitidas uniões religiosas. E onde o amor ainda é refém de conversões forçadas. (Ler mais | Read more…)

Um casal israelita celebra a sua união civil em Nicósia – no Estado judaico só são permitidos matrimónios religiosos
© Yossi Zamir | The Times of Israel

Era sexta-feira, dia 13, às 12h45, quando Timothy Andrew Alchin aceitou unir-se, “até que a morte ou um tribunal os separe”, a Miriam Angela Ryan, numa cerimónia na Câmara Municipal de Nicósia, que durou exactamente 15 minutos.

Começou com os trompetes e clarins da marcha nupcial de Mendelssohn e acabou com Cliff Richard a cantar Congratulations.

Católicos irlandeses, com um filho de sete meses, ambos escolheram a capital cipriota para trocarem alianças, em parte, porque acham “muito bonita” a cidade onde deverão trabalhar “talvez mais três anos”. Mas não é apenas a beleza da terra-natal de Afrodite, deusa do amor, que leva milhares de estrangeiros a procurar esta ilha do Mediterrâneo para casamentos civis.

A Internet está cheia de casos como o dos israelitas Shai e Michal, dois ateus que casaram em Chipre porque o Estado hebraico força os nubentes a passar pelas sinagogas, igrejas ou mesquitas.

Do mesmo modo, Marina e Ievgeni, antigos imigrantes da extinta União Soviética, oficializaram a união em Nicósia, porque o seu judaísmo não foi reconhecido pelo rabinato ortodoxo em Jerusalém.

Os libaneses Carla e Wissam passaram por uma experiência semelhante. Ele é muçulmano sunita, ela cristã ortodoxa grega.

Como nem um nem outro queriam abdicar das suas respectivas confissões religiosas encontraram uma saída comprando um bilhete para o país vizinho, onde os casamentos civis de cipriotas estão autorizados desde 1923, e os de estrangeiros se realizam desde 1986. 

Só em 25 de Abril de, 2013, o Ministério do Interior em Beirute autorizou o registo do  primeiro “contrato de casamento civil” – até então, todas as uniões não religiosas ou entre pessoas de confissões diferentes eram realizadas em Chipre – como a deste casal
© alaraby.co.uk

Israelitas e libaneses, mas também jordanos e sírios, são os principais “clientes” dos municípios cipriotas que recolhem grande parte das suas receitas da celebração de casamentos civis.

O site da Câmara de Nicósia, por exemplo, abre com a oferta deste serviço, detalhando os horários, os passos a dar e os documentos a apresentar para que todo o processo seja reconhecido nos países de origem dos noivos.

São cobradas cerca de 250 libras cipriotas (quase o dobro em euros). Até à festa de Timothy e Miriam, a 13 de Julho, já haviam sido realizados, na capital da ilha, um total de 217 casamentos de estrangeiros, segundo estatísticas oficiais.

Tem havido tentativas, pelo menos em Israel e no Líbano, de mudar as leis para permitir os casamentos civis, mas o establishment religioso ainda é mais poderoso do que a vontade dos deputados, e trava qualquer esforço de mudança.

Rabis, padres e xeques não querem ser privados dos avultados fundos que recolhem cada vez que casam alguém.

[Em 25 de Abril de, 2013, o Ministério do Interior em Beirute autorizou o registo do  primeiro contrato de casamento civil “made in Lebanon”. O casal que entrou na história política e constitucional do país foi Kholoud Sukkarieh and Nidal Darwish.]

É assim que Chipre e, em particular Nicósia, se tornaram numa espécie de Las Vegas do Mediterrâneo para quem aspira a um casamento singular.

Há uma verdadeira indústria, com centenas de empresas a propor “momentos de sonho inesquecíveis” num país com “340 dias de sol por ano”. A Cyprus Dream Weddings, a MedWeds, a Aphrodite Weddings ou a Marriage in Cyprus vendem tudo.

Os “pacotes” promovidos na Web incluem cabeleireiro e esteticista, fatos e alianças, fotos e vídeos, iates e limusines, luas-de-mel em apartamentos modestos ou em hotéis de luxo. Das límpidas praias da baía de Larnaca às deslumbrantes montanhas Troodos, com os seus mosteiros bizantinos.

Timothy e Miriam preferiram uma cerimónia simples. Compareceram à hora marcada numa pequena sala da Câmara de Nicósia com as paredes decoradas com grandes fotos, a preto e branco, de quatro casamentos em que os pares se parecem com artistas de cinema mudo.

Miriam optou por um simples vestido curto, sem qualquer adorno no cabelo, e sandálias. Tim envergava um fato clássico com camisa branca às pintinhas, a combinarem com o lilás da gravata.

De mãos dadas e sorridentes, Timothy e Miriam não desviaram os olhos um do outro enquanto a presidente da edilidade, Eleni Mavrou, usando ao peito o medalhão da cidade, lia em inglês os direitos e os deveres do casal.

Ao lado de uma aparelhagem sonora, a caixa de lenços de papel, colocada por empregados diligentes, não chegou a ser usada para limpar eventuais lágrimas. Todos se emocionaram, mas ninguém chorou.

Marios Frixou (à dir.) e Fanos Eleftheriades sorriem durante a cerimónia do seu casamento na Câmara Municipal em Nicósia. Apesar de Chipre atrair muitas uniões civis, só em 2016 é que autorizou os primeiros casamentos gay
© Petros Karadjias | AP

A cerimónia foi tão breve que, quando um dos convidados chegou, já Tim e Miriam eram “marido e mulher, na alegria e na tristeza; na saúde e na doença”.

O restrito grupo de testemunhas – entre os quais o chefe da missão da ONU em Chipre, Michael Moller, a melhor amiga da noiva, Allison, que ela “conhece desde dos 8 anos”, e o melhor amigo do noivo, Alexei, com quem “costuma jogar futebol” – saudou efusivamente os recém-casados, brindando com taças de champanhe.

Numa posterior troca de mensagens por correio electrónico, Tim explicou que, ao contrário de outros que procuram a ilha dividida, ele e Miriam têm planos para um casamento religioso. “Será em Outubro, quando todos os amigos e familiares viajarem até Chipre para celebrarem connosco”, escreveu.

“Para nós, a cerimónia civil, embora tenha sido, obviamente, um casamento oficial, foi o primeiro de dois casamentos. O segundo terá ainda mais significado porque será partilhado com os nossos entes queridos.”

Filho de mãe irlandesa e pai chinês, nascido em Londres, Tim especifica como tratou da documentação: “Pedimos à Embaixada da Irlanda o nosso Certificat de Coutume, garantindo que estávamos livres para casar, ou seja, que não éramos casados, mas só definimos a data a 10 de Julho – três dias antes [da cerimónia], quando fomos à Câmara Municipal [de Nicósia] e pedimos uma licença.”

“Foi um processo muito rápido. Queríamos casar naquela semana, porque a melhor amiga da minha mulher estava aqui de visita, e gostaríamos que ela fosse uma das testemunhas. Foi um impulso de último minuto”.

Tim refere que ele e Miriam já planeavam um casamento civil antes do religioso, “como é exigido por lei”, mas não tinham a certeza de quando poderia ser.

“Ficámos felizes por ter sido a uma sexta-feira, 13 (fomos os únicos a casar nesse dia, porque suponho que, para a maioria das pessoas, é um número de azar), já que foi numa sexta-feira, 13 de Setembro de 2005, que começámos a namorar.”

Um namoro iniciado quando ele tinha 32 anos e ela “era um bocadinho mais nova” (a diferença entre 1970 e 1972). Os dois eram funcionários na Comissão Europeia em Bruxelas. “Dizem que não devemos apaixonar-nos por colegas de trabalho mas não lhe consegui resistir”, confessa.

“A primeira vez que falámos foi engraçado. Reparei num papel que estava na impressora a publicitar um clube de ioga. Interessado, deixei um bilhete a perguntar se me podia juntar a ele ou a ela. Não fazia ideia de quem era. Nessa tarde, ela veio ao meu gabinete e apresentou-se. Ficámos parceiros de ioga e em breve verdadeiros companheiros”.

De início, adianta Tim, “mantivemos tudo muito discreto e em segredo, mas acabou por se saber, é claro. Fizemos tudo ao contrário. Primeiro, comprámos uma casa em Bruxelas, depois veio nosso filho, Caleb, e finalmente casámos. O amor acaba sempre por encontrar o seu caminho, e eu não teria feito as coisas de outro modo.”

Em Chipre, onde trabalha directamente com Michael Moller, o chefe de missão da ONU, depois de vários anos ao serviço da Comissão Europeia, Tim descreve assim a sua tarefa: “Tentar que ambas as partes da ilha – cipriotas gregos no Sul e cipriotas turcos no Norte – conversem e negoceiem uma solução” do conflito.

Uma noiva judia ultra-ortodoxa em Jerusalém. Em 2017, uma sondagem revelava que 55 por cento – pela primeira vez uma maioria – é a favor da opção de casamentos não religiosos em Israel – os únicos permitidos até agora. Os maiores apoiantes são, naturalmente, os judeus seculares (81%), seguindo-se os sionistas religiosos (13%). Os ultra-ortodoxos rejeitam totalmente essa escolha (Fonte: Times of Israel)
© Yaacov Lederman | Flash90

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República de Chipre 

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Julho de 2007 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in July 2007

Ze’ev Schiff morreu. Quem vai analisar a próxima guerra?

O jornalista a quem os amigos chamavam Wolfy foi durante meio século um dos mais respeitados analistas de Defesa de Israel. Os seus artigos e livros eram análises, sugestões, críticas e quase premonições. Na hora da morte, aos 74 anos, até os “inimigos” árabes o homenagearam. (Ler mais | Read more…)

 

Ninguém em Israel saberia tanto sobre questões militares e de segurança como Ze’ev Schiff, excepto talvez o seu colega Ehud Yaari. Dizia-se que o primeiro era o jornalista preferido do Exército e que o segundo era o favorito dos serviços secretos.

Depois de meio século a analisar os conflitos com os árabes, os palestinianos e agora os iranianos, Schiff morreu aos 74 anos de idade.

O seu jornal, Há’aretz, onde era editor para a Defesa, anunciou o óbito na quarta-feira, mas não especificou as causas. “A sua morte foi uma surpresa”, escreveu o amigo Eitan Haber.

Tão respeitado era Schiff, carinhosamente tratado por Wolfy, que até o campo “inimigo” lhe prestou homenagem. Escreveu o site noticioso de capitais sauditas Elaph: “Ele faleceu em Telavive, na terça-feira, de uma maneira tranquila, totalmente incaracterística da natureza controversa e fascinante dos seus artigos.”

Ya’ari, que com ele escreveu duas obras de referência, sobre a guerra do Líbano de 1982 e sobre a primeira Intifada de 1987, emocionou-se na despedida, no cemitério de Kiryat Shaul, em Telavive: “Tu [Schiff] estavas sempre um, dois ou três passos à frente, aplicando o teu afiado bisturi para revelar o que o futuro tinha em armazém. (…) Nunca foste a caixa de correio de ninguém, e nunca distorceste a verdade para que ela se ajustasse a qualquer tipo de doutrina.”

Palestinian women and Israelian soldiers in Jabalya refugee camp in December 1987 @Jean-Claude Coutausse

Mulheres palestinianas e soldados israelitas no campo de refugiados de Jabalyia, na Faixa de Gaza, em Dezembro de 1987, o ano em que começou a primeira Intifada. Schiff e Yaari foram historiadores desta revolta popular
© Jean-Claude Coutausse

Ponto vital: apesar das estreitas ligações de Schiff com o establishment militar, todos lhe reconheceram sempre isenção e independência – era membro da comissão de ética dos jornalistas de Israel.

Era um patriota, assumido e reconhecido, que nunca se absteve de criticar os erros e os abusos do Tsahal (Forças de Defesa de Israel), e muito menos as políticas dos governantes quando as considerava desastrosas.

Num dos seus últimos textos, atacou duramente responsáveis do Executivo e do Exército pelo “modo frouxo” como conduziram a ofensiva do Verão de 2006 contra o Hezbollah, no Líbano.

Na revista Foreign Affairs (Novembro-Dezembro de 2006), uma das várias publicações estrangeiras com as quais colaborava, Schiff foi mais longe, na sua análise deste confronto, ao identificá-lo como “o início de uma nova guerra entre Israel e o Irão”.

O mais perturbador é que as premonições de Schiff às vezes se materializavam. Em 1983, quando escreveu, com Ya’ari, um livro sobre a invasão que levou os tanques de Ariel Sharon até Beirute, no primeiro cerco a uma capital árabe, avisava: “A guerra no Líbano não diminuiu, de modo algum, a acuidade do problema palestiniano. Isso não surpreende porque as suas raízes não se encontram no Líbano.”

“É totalmente insensato acreditar que uma operação naquele país possa atenuar o conflito político entre a nação palestiniana e a israelita”, adiantou. “Bem pelo contrário: a guerra aumentou as tensões entre os dois povos.”

“É difícil hoje avaliar as incertezas do futuro, mas não é improvável que venhamos a assistir (…) a uma guerra civil entre israelitas e palestinianos. O maior drama da guerra foi talvez Israel, depois de ter vencido a OLP, não ter tido a sabedoria de escolher a via do compromisso político com os palestinianos.”

A invasão do Líbano, decisão do então ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, em 1982, abriu caminho aos massacres de civis palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. @Magnum |HH

A invasão de Beirute em 1982, decisão do então ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, abriu caminho ao massacre de centenas de civis palestinianos (homens, mulheres e crianças) nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Schiff e Yaari lamentaram que, depois de vencer militarmente a OLP, tenha falhado, na altura, aos líderes em Telavive a coragem de assumir um compromisso político
© Magnum | HH

Seis anos depois, confirmando as previsões daquele livro sobre a “primeira guerra do Líbano”, Schiff e Yaari escreviam outro, Intifada, sobre a sublevação de 1987 nos territórios ocupados.

Foram eles os primeiros israelitas a tentar entender as razões da “revolta das pedras”, e a denunciar a estreiteza de vistas dos seus líderes ao permitirem que os islamistas do Hamas emergissem como um contrapoder aos nacionalistas da OLP.

Schiff nasceu em França em 1932 e, três anos depois, emigrou com a família para o território que, em 1948, viria a ser Israel.

Foi oficial de espionagem no Tsahal, estudou História Militar na Universidade de Telavive e ingressou nos quadros do Há’aretz em 1955, onde se tornou correspondente de guerra no Vietname, na antiga União Soviética, em Chipre e na Etiópia. Ganhou seis prémios de jornalismo e publicou vários livros (alguns traduzidos em árabe).

Ehud Yaari, colega e amigo, emocionou-se no dia do funeral de Schiff. "Tu estavas sempre um, dois ou três passos à frente, aplicando o teu afiado bisturi para revelar o que o futuro tinha em armazém. (…) Nunca foste a caixa de correio de ninguém, e nunca distorceste a verdade para que ela se ajustasse a qualquer tipo de doutrina.” @DR

Ehud Yaari, colega e amigo, emocionou-se no dia do funeral de Schiff. “Tu estavas sempre um, dois ou três passos à frente, aplicando o teu afiado bisturi para revelar o que o futuro tinha em armazém. (…) Nunca foste a caixa de correio de ninguém, e nunca distorceste a verdade para que ela se ajustasse a qualquer tipo de doutrina”

Com a reputação consolidada, fez parte do Carnegie Endowment for International Peace e do Washington Institute for Near East Policy. Políticos e generais de vários países procuravam-no para ouvir os seus conselhos.

“Durante 50 anos a minha mão nunca deixou a sua”, comoveu-se o amigo Eitan Haber, no jornal Yediot Ahronot. “Falávamos quase diariamente durante longas conversas telefónicas, com discussões que duravam noite fora. Encontrámo-nos durante a escrita de livros em conjunto, quando revíamos os meus artigos antes de serem publicados ou já depois de publicados.

Os seus comentários eram quase sempre uma lição de etiqueta (…). ‘Talvez devesses ter escrito… talvez eu tivesse escrito…’ (…) Wolfy ganhou a sua elevada posição, a maior de todas, não apenas devido ao seu extenso conhecimento e capacidade de apresentar um retrato claro e detalhado, mas porque de todos os correspondentes militares, ao longo de gerações, ele foi um homem de paz e de compromisso. “

Ze’ev Schiff morreu no momento em que Israel enfrenta novos e perigosos desafios. Com o Irão a ameaçar a sua existência como “Estado judaico”, e os palestinianos divididos em duas “entidades”, a da Fatah na Cisjordânia, e a do Hamas na Faixa de Gaza.

Quem o irá substituir na análise da próxima guerra? É que, “nem sendo da esquerda nem da direita, estava acima das disputas políticas, e era objectivo como só ele sabia ser”, sublinhou o antigo ministro da Defesa Moshe Arens.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ze’ev Schiff

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 22 de Junho de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the newspaper PÚBLICO, on June 22, 2007 

Os artistas unidos da ilha dividida

Ruzen, Andreas e Lia são pintores da “linha verde” que, em Nicósia, separa as comunidades grega e cipriota. Com os seu projecto Estúdios Abertos empenham-se em derrubar o último muro da Europa. (Ler mais | Read more…)

Foto 1

“A nossa fronteira não é aqui!, lê-se num graffito pintado na “linha verde” que separa a última cidade dividida da Europa. É esta também a palavra de ordem dos artistas dos Estúdios Abertos, um projecto para restaurar a confiança mútua. 
© Andreas Charalambous

É a poucos metros de um checkpoint com o nome de Ledra Palace, outrora um luxuoso hotel e agora quartel-general da força de paz da ONU, no centro de Nicósia, que Ruzen Atakan faz a primeira paragem.

Cipriota turca, ela vem do “outro lado” para uma entrevista colectiva com o amigo cipriota grego Andreas Charalambous, ambos prestigiados pintores das duas comunidades da ilha. São artistas da “linha verde”, unidos contra o muro que os separa há mais de três décadas. O último muro da Europa. A última capital dividida do mundo.

Sim, o muro erguido após a invasão turca, em Julho-Agosto de 1974, não deixou de existir, ainda que, em 9 de Março deste ano [2008], tenha sido “simbolicamente” derrubada uma parte dos tijolos e cimento na zona-tampão controlada pelas Nações Unidas, ao fundo de Ledra Street (não confundir com o posto de controlo de Ledra Palace).

No interior das muralhas venezianas da cidade velha, na pedonal e vibrante Ledra Street, onde surgiram as primeiras barreiras quando irrompeu a violência intercomunitária em 1963, ergue-se agora um tapume de metal e plástico.

Rolos de arame farpado, bidões e sacos de areia continuam a obstruir a passagem, vigiada por um soldado numa guarita. No chão, um graffito: “A nossa fronteira não é aqui!”

A palavra de ordem é subscrita pelos artistas dos Estúdios Abertos, projecto para restaurar a confiança mútua, com exposições a solo ou em grupo. Entre eles está Ruzen, elegante num mini-vestido branco, sandálias de plataforma a elevar a pequena estatura e duas tranças que em muito rejuvenescem os seus 41 anos.

Quando reencontra o sexagenário Andreas, conhecido na aldeia (que permanece mista) de Pyla, os dois prendem-se num longo e apertado abraço.

Ele espera-a no seu novo “abrigo”, fusão de uma antiga confeitaria grega com uma velha padaria turca (ainda lá está o forno de lenha), emprestado pela Câmara Municipal, depois de um incêndio ter destruído, em Junho de 2006, a sua Escola de Belas-Artes.

Mais que um estúdio, o fogo devastou um património nacional. Perderam-se “40 anos de trabalho”, designadamente, 1700 quadros, cerca de dez mil livros – “mais do que tem a Biblioteca de Chipre” – sublinha Andreas, e uma incalculável colecção de antiguidades africanas.

Ele não tinha seguro, mas nenhum dinheiro chegaria para compensar os danos causados por um vizinho, na cave do edifício, onde passava os dias “a queimar, estupidamente, fios eléctricos para vender o cobre” que continham.

Só 26 obras foram recuperadas, as que Andreas expunha na cidade alemã de Colónia. Foi aqui que o informaram, por telefone, do seu infortúnio.

Ruzen tenta que o mestre lhe devolva o sorriso, mas ele explica, as palavras pronunciadas com dor, que se o corpo sobreviveu às chamas a alma ficou queimada. “Eu tinha duas opções: matar-me e, se não fosse a minha filha, tê-lo-ia feito; a outra era criar tudo de novo. É o que estou a fazer.”

Admirado dentro e fora do seu país, o cipriota grego Andreas Charalambous formou-se em 1969-1975 no Instituto Sourikov de Belas Artes de Moscovo. A ligação à Rússia contribuiu para as convicções políticas. “Serei sempre um comunista ainda que tenha deixado a militância partidária, porque limitava a minha criação.”
© Andreas Charalambous

Assim, o novo espaço de Andreas voltou a encher-se de telas, pincéis, tintas, livros, revistas, retratos, objectos antigos, conchas, corais, pedras preciosas. Ele continua a dar aulas e palestras na sua Fine Arts School, a pintar e a expor quadros, a ilustrar cartazes ou cenários para teatro.

“O momento mais reconfortante chegou há poucos dias, quando me nomearam membro honorário da Academia de Artes da Rússia”, diz, os olhos a brilhar por detrás dos óculos redondos, os dedos amarelados pelo tabaco a compor o cabelo amarrado, a outra mão acariciando a barba grisalha.

Andreas, admirado dentro e fora de Chipre, formou-se em 1969-1975 no Instituto Sourikov de Belas Artes de Moscovo. A ligação à Rússia contribuiu para as convicções políticas.

“Serei sempre um comunista ainda que tenha deixado a militância partidária, porque limitava a minha criação”, esclarece. No referendo de 2004 sobre o plano de Kofi Annan para a reunificação da ilha, Andreas votou “sim”, e não aceita que o considerem uma minoria.

“Fomos 25% , ou seja, um quarto da população”, enfatiza. “Se o AKEL [Partido Comunista] tivesse sido mais activo na campanha, tentando alterar os três ou quatro pontos de que discordava, não estaríamos neste impasse. Tudo o que aconteceu desde então só beneficia a Turquia”, que mantém 40 mil soldados e 160 mil colonos no Norte de Chipre.

O olhar fixo em Andreas, a pequena Ruzen expira o fumo de um cigarro oferecido pelo anfitrião e acena a cabeça em sinal de concordância. Também ela votou “sim” (como a esmagadora maioria dos cipriotas turcos), e sente que se perdeu uma oportunidade.

“A situação no Norte [onde foi proclamada uma república, sem reconhecimento internacional] não nos é favorável, ao contrário do que possam pensar”, declara.

“Eu não gosto que Ancara esteja a importar colonos e a dificultar-me a vida. Quando os turcos vendem ilegalmente propriedades dos cipriotas gregos envolvendo no conflito companhias estrangeiras, terceiras partes, estão a inviabilizar uma solução.”

Um dos quadros de Ruzen Atakan, cipriota turca, representa três figuras – à direita, dois amantes; à esquerda, um intruso, que usa uma máscara e rouba uma fatia de bolo. “A ideia foi mostrar como a união [entre o Norte e o Sul] está a ser violada por estranhos [tropas e colonos de Ancara]”.
© Ruzen Atakan

Para vincar o que a distingue dos turcos, Ruzen mostra um pequeno catálogo que trouxe, com as suas pinturas “neo-figurativas”, às quais recusa dar nomes.

São imagens de romance e erotismo, que poderiam escandalizar a sociedade conservadora de Ancara, em cuja Universidade de Gazi se licenciou. Os cipriotas turcos, cultos, cosmopolitas e laicos, “são totalmente abertos a qualquer forma de arte”, assegura.

Com assumida carga política, um dos quadros de Ruzen representa três figuras – à direita, dois amantes; à esquerda, um intruso, que usa uma máscara e rouba uma fatia de bolo. “A ideia foi mostrar como a união entre cipriotas turcos e cipriotas gregos está a ser violada por estranhos”.

Noutro quadro, uma mulher nua está encostada a uma tela quase tocando a mão de quem está do outro lado, sem nunca o(a) ver. “Podemos dizer que simboliza o muro que nos separa.”

Também Andreas reconhece que a divisão tem influenciado, “directa e indirectamente”, a sua obra. Numa das paredes do seu estúdio há um tríptico onde ele põe em evidência banais rivalidades. Três chávenas do mesmo café, “que turcos, gregos e cipriotas reclamam como seu, embora tenham sido peregrinos da Abissínia (Etiópia) que o levaram até Meca, através do Império Otomano”, ironiza Andreas.

A primeira chávena tem o Parthénon de Atenas e a bandeira grega; na terceira desenhou o museu de Hagia Sofia em Istambul e a bandeira turca; a do meio, ilustrada com um burro, está partida, e o café derramado sobre uma toalha vermelha e azul, simbolizando as cores da Turquia e da Grécia.

Numa parede oposta, Andreas pintou um conjunto de pedras, a maior delas com uma forma ostensivamente fálica, a que chamou “Chipre puxa-e-empurra”. Ou seja, “se uma ponta se mexer a outra terá necessariamente de ir atrás”, descodifica.

Lia Voyatzi, no seu estúdio, em Nicósia
© Lia Voyatzi

Andreas e Ruzen são parceiros de Lia Voyatzi, 37 anos, no projecto Estúdios Abertos. Depois de vários anos a alugar casas em Nicósia, Lia decidiu comprar a degradada moradia dos avós junto à “linha verde”. Mudou-se com cães e gatos para a Rua Péricles, onde “a arquitectura é bonita e os vizinhos se conhecem uns aos outros”.

No restaurado imóvel, onde gastou “uma fortuna”, o rés-do-chão serve de montra a dois dos seus trabalhos, enquanto o primeiro andar, com uma varanda por onde trepam e caem buganvílias, é a sala de pintura e visitas. O último piso, onde vive, tem terraço onde vai contemplar as montanhas do “outro lado”.

Lia, como Andreas (seu mentor) e Ruzen, também deixa as cores do conflito, sobretudo o negro do carvão, impregnar as suas telas brancas, que ela define como “realistas”. Para uma das suas mais importantes colecções, a óleo, dedicada a uma amiga morta a tiro pelo namorado, Lia perguntou a várias pessoas conhecidas o que fariam com uma arma.

A resposta está na pose que assumiram para os retratos que ela pintou. No primeiro quadro a ser vendido, um homem aponta um revólver à cabeça, numa tentativa de suicídio. Interpelada, a cliente justificou a compra: “É assim que me sinto todos os dias de manhã”.

A “questão de Chipre” gera um clima depressivo, concorda Lia, que estudou em Florença e em Roma. Ela votou “sim” no referendo, porque está “cansada de não ser livre”. Para alguém que “adora andar de bicicleta, é muito triste precisar de um passaporte para atravessar uma rua”.

Cinco checkpoints funcionam em Nicósia, sendo que os mais movimentados – desde a sua abertura, em 2003, um número superior a 10 milhões de pessoas “quebrou a barreira psicológica” para os atravessar – são os de Ledra Palace (por onde só passam peões, bicicletas e veículos diplomáticos) e o de Agios Dhometios ou Metehan (por onde podem circular todos as viaturas).

A pouca distância da casa de Lia, quando Ledra Street se encontra com o Café Berlim nº 2, um casal de turistas da antiga Alemanha de Leste (RDA) aproxima-se da interdita zona de demarcação da ONU.

Aqui, onde a rua não tem saída, é deprimente a paisagem de belíssimas mansões abandonadas e em ruínas. A mulher deixa cair uma lágrima, e desabafa: “Sei bem o que é não poder atravessar o muro”.

Para uma das suas mais importantes colecções, a óleo, Lia Voyatzi perguntou a várias pessoas conhecidas o que fariam com uma arma. A resposta está na pose que assumiram para os retratos que ela pintou. No primeiro quadro a ser vendido, um homem aponta um revólver à cabeça (na foto, a pintora e a pintura), numa tentativa de suicídio. Interpelada, a cliente justificou-se: “É assim que me sinto todos os dias de manhã”.

Estes são alguns dos retratos:

@Lia

© Lia Voyatzi

@Lia Voyatzi

© Lia Voyatzi

@Lia Voyatzi

© Lia Voyatzi

@Lia Voyatzi

©Lia Voyatzi

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República de Chipre 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | This article was originally published in the newspaper PÚBLICO, in 2008

A tragédia greco-turca de Chipre

Constantinides não abdica de recuperar os seus bens confiscados depois que tropas de Ancara invadiram a ilha de Afrodite em 1974. Georgiou, pelo contrário, acha que é preciso “perder alguma coisa”, para que o Norte e o Sul se reunifiquem. (Ler mais | Read more…)

Sinal de “Paz” em Ledras Street, perto da “zona tampão” controlada por uma força das Nações Unidas, em Nicósia – a última cidade dividida da Europa
© Yannis Kourtoglu | Reuters

Ayios Dhometios ou Metehan é um posto de controlo por onde o Sul “libertado” entra de carro no Norte “ocupado” de Chipre. Aqui mostra o passaporte e o seguro do veículo, preenche um formulário e vê guardas em contentores a esboçarem um sorriso forçado.

O telemóvel recebe uma mensagem: “Bem-vindo à Turquia!” Uma enorme faixa anuncia em inglês: How happy to say I am a Turk! (Orgulho-me de dizer que sou um turco).

A esta frase de Mustafa Kemal Atatürk, o agente alfandegário cipriota grego Demetres Constantinides responderá: “Não sou racista, mas odeio os turcos, porque arruinaram a minha vida!”

Ele perdeu as propriedades da família, em Kyrenia, quando as tropas de Ancara lançaram a Operação Atilla, a invasão de Julho-Agosto de 1974. Agora considera-se um “refugiado”, em Limassol.

“Não tenciono voltar enquanto não me devolverem todos os meus bens”, sublinhou, em tom irritado, à chegada ao aeroporto de Larnaca, depois de uma viagem à EuroDisney, com a mulher e o filho mais velho.

Constantinides não suporta a ideia de os lugares da sua infância estarem “maculados” com a bandeira turca e os bustos/estátuas de Atatürk; com zonas militares fechadas; a presença de mais de 40 mil soldados e mais de cem mil colonos; a “venda ilegal” de extensos lotes de terreno; a “escandalosa construção” de centenas de moradias e condomínios nos areais das “melhores praias do país”.

Há um “crime”, em particular, que ele não perdoa: a transformação da imponente Catedral de São Nicolau em Mesquita do Paxá Lala Mustafa, em Famagusta, classificada como “cidade-fantasma”.

O templo foi erguido entre 1298 e 1312. Mustafa foi comandante do Império Otomano que invadiu Chipre em 1571.

Um bispo ortodoxo grego e um imã muçulmano participam numa cerimónia de Sexta-Feira Santa, na Igreja de S. Jorge Exorinos, erguida no século XIV na cidade de Famagusta, no Norte de Chipre, em Abril de 2014. Centenas de peregrinos – alguns regressando à pátria após 40 anos de exílio forçado assistiram a esta liturgia
© ecumenicalnews.com

Ainda mais amargurado está, naturalmente, o arcebispo ortodoxo cipriota Crisóstemos II. Num comunicado que nos fez chegar, alerta que “a situação das igrejas na área ocupada pelos turcos é dramática”.

E adianta: “Um censo demográfico calcula que existiam 520 edifícios sacros no Norte de Chipre, entre igrejas, capelas e mosteiros.

“Desses, alguns dos quais arménios e maronitas, 133 igrejas, capelas e mosteiros foram profanados – convertidos em depósitos militares, estábulos, discotecas e mesquitas.”

“Cerca de 15 mil ícones foram extraídos ilegalmente e encontra-se no mercado clandestino internacional de arte. O património destruído contempla frescos que remontam ao ano 500 d.C., a maior parte datam da época bizantina.”

O arcebispo – chefe da mais poderosa e rica instituição de Chipre – oferece fundos para restaurar os templos no Norte, mas também as mesquitas no Sul que tenham sido abandonadas, depois de a invasão turca ter provocado o que alguns, na comunidade helénica, designam de “transferência forçada de populações” ou “purificação étnica”, em ambos os campos.

Em 2016, cipriotas gregos e turcos saíram à rua, em Nicósia, para apoiar as conversações de paz promovidas pela ONU – o plano falhou porque o Sul não correspondeu ao que o Norte esperava
© Associated Press

A fractura nacional também angustia George Charalambous, que nasceu em Outubro de 1974, dois meses depois do início da ofensiva turca.

“Não tenciono ir ao Norte, porque não tenho lá nada e não conheço lá ninguém”, diz o jovem, um sorriso que mistura simpatia e desilusão, enquanto serve um café junto à Avenida Macários, uma das principais artérias comerciais da capital cipriota.

“Eu tive sorte, porque a minha casa, quando Nicósia foi dividida, ficou rigorosamente cem metros de fora da zona-tampão da ONU. Agora, os meus amigos pensam o mesmo, só de pensar em ter de atravessar os checkpoints, mais facilmente compro um bilhete para passar férias no Brasil do que vou ao outro lado.”

Da geração dos que só conheceram um país dividido, o jovem Charalambous confessa o seu maior receio: “Eu deveria concentrar-me no presente e não estar sempre a imaginar o que vai ser o futuro.”

“Não me interessa se o Norte e o Sul continuarão separados porque sempre vivi assim, mas apavora-me a ideia de, um dia, acordar e ter como vizinhos cinco milhões de turcos que ameacem a minha existência”.

A Charalambous preocupa igualmente o facto de os cipriotas turcos “não terem poder de decisão” para chegar a um compromisso que seja aceite pelas duas comunidades: “Eles estão totalmente dependentes de Ancara, ao contrário de nós, que podemos cometer erros mas não temos de obedecer cegamente à vontade de Atenas”, lastima-se.

Nicósia, Abril 2017: À espera da reunificação do Norte e do Sul de sempre adiada
© Petros Karadjias | AP

Mais velho, aos 44 anos, o empregado de escritório Nikolas Georgiou, também está inquieto com o futuro. No referendo de 2004 ao projecto de reunificação apresentado por Kofi Annan, o anterior secretário-geral da ONU, ele votou “sim”, ao contrário da maioria dos cipriotas gregos.

“Temos de aceitar perder alguma coisa para não perder tudo”, recomendou, com voz entristecida. “Quanto mais tempo passa, sem que nada avance, quem ganha é a Turquia – nem sequer serão os cipriotas turcos”.

Georgiou, sem militância partidária, lamenta que a classe política em Nicósia, incluindo os comunistas do AKEL “não tenha coragem de dizer a verdade às pessoas, com medo de perder votos”. E a verdade, na sua opinião, é que os cipriotas gregos “têm de estar preparados para fazer as concessões que até agora têm recusado”.

O plano da ONU e o referendo deixaram feridas abertas na própria comunidade helénica. Alguns editorialistas ainda hoje analisam as ideias de Annan, um deles usando termos médicos para caracterizar a situação: “o projecto está morto e enterrado” ou “espera uma autópsia para definir a causa do óbito” ou “está nos cuidados intensivos”.

Também foi comparado, em “termos psiquiátricos”, a um doente “num sanatório, “rodeado de maníaco-depressivos que não tomam os seus medicamentos e se sentem perdidos” (Jornal Sunday Mail, Nicósia).

República Turca do Norte de Chipre, um Estado de facto autoproclamado em 1983 por Rauf Denktash mas apenas reconhecido internacionalmente por Ancara
© monocole.com

“Um grande problema psicológico contribuiu para a rejeição do plano por parte dos cipriotas gregos”, justifica Erato Kozakou-Marcoullis, directora para a Questão de Chipre e Assuntos Turquia-União Europeia e, menos de uma semana depois, se tornou ministra dos Negócios Estrangeiros, no âmbito de uma remodelação governamental.

“Não estava previsto um mecanismo de implementação”, diz Marcoullis. “A República de Chipre deixaria de existir sem a salvaguarda de que os elementos contidos no plano seriam aplicados. Esta foi a razão principal.”

A carismática diplomata de carreira, muito popular no seu país, frisa que os cipriotas gregos “rejeitaram o plano mas não uma solução”.

E esta, em seu entender, passa por “uma federação viável que unifique o Estado, à semelhança do que acontece com a Bélgica ou a Alemanha.” Uma solução federal, acrescenta, “tem de ser compatível com os princípios europeus do estado de direito, da liberdade e dos direitos humanos”.

A chefe da diplomacia de Nicósia reafirma apoio à entrada da Turquia na União Europeia, mas exige que o poderoso vizinho “seja tratado do mesmo modo que os outros candidatos à adesão, sem excepções às regras”. E mostra-se indignada por Ancara ainda não reconhecer a República de Chipre, que é membro da UE desde 2005.

“Os turcos não podem continuam a comportar-se como um aluno universitário que rejeita fazer certas disciplinas, porque não gosta de alguns professores, mas ainda assim reclama o diploma de fim de curso.”

Apesar de Chipre querer abrir o clube europeu à Turquia, as queixas contra o modo como “administra” o Norte da ilha abundam nos documentos oficiais.

Uma das acusações tem a ver com as aldeias-enclave onde, de um total de 20 mil habitantes, restam “535 cipriotas gregos e maronitas, que continuam a viver sob pressão, privação e intimidação”.

Um homem usa o telemóvel para fotografar um ícone da Virgem Maria, ou Panayia, a Misericordiosa, do século XIV, um se 173 objectos religiosos, incluindo frescos e mosaicos, roubados há 40 anos de igrejas ortodoxas e maronitas no Norte de Chipre, e agora entregues ao Museu Bizantino em Nicósia
© Petros Karadijas | AP

Uma visita a Rizokarpaso, onde permanecem menos de 50 residentes cristãos, os colonos turcos deixaram bem claro quem manda ali. Panais Tandis, a pele enrugada pelos seus 70 anos, fixa os olhos verdes em Lefteris, de 22, e Georges, de 17, aconselhando-os a “terem cuidado com a língua”, porque “ele” está à escuta.

“Ele” é um corpulento curdo, emigrante da Anatólia, que se aproximou, sem ser convidado, para ouvir a conversa.

Lefteris diz apenas que, em Rizokarpaso, “não há cipriotas turcos, só colonos turcos”. Que a situação “já foi pior”, e por isso deixou-se ficar, ainda que seja diminuto o número de raparigas com quem casar, e o enclave tenha pouco mais que um café-cervejaria, uma mercearia-armazém, uma escola, uma igreja e uma mesquita. Aqui, todos vivem, de um modo geral, do trabalho do campo e da criação do gado.

Os que se reformaram têm uma pensão do Governo em Nicósia. É o caso de Savas Kolatzi, 83 anos, cabelo totalmente branco, as pernas inchadas assentes numa bengala.

“Nasci aqui e morrerei aqui”, enfatizou o camponês aposentado, sentado numa velha esplanada. Depois calou-se, quando dois adolescentes turcos apareceram, subitamente, e interromperam o diálogo, inquirindo sobre o que pretendiam os estranhos.

De regresso a Nicósia, perdidos num labirinto de ruas, sem ou com confusas placas de orientação, dois gentis cipriotas turcos ajudam a reencontrar o checkpoint de Agios Dhometios ou Metehan.

À entrada no Sul, são agora os guardas cipriotas gregos que dificultam a passagem aos carros alugados (identificam-se pela matrícula vermelha) e restringem a entrada de produtos adquiridos quase isentos de taxas.

Ainda nos limites geográficos do Norte, a mesma faixa do “orgulho em ser turco” despede-se do visitante com outra frase, em inglês: Peace at home and the world.

Titina “vs” Turquia 

A invasão turca de 1974 “negou-me o acesso e o uso da minha propriedade, recusou-me o direito de usufruir da minha terra-natal e de viver em liberdade com a minha família e a população de Kyrenia”, diz Titina Loizidou
© Cyprus Mail

Num caso que fez jurisprudência, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos obrigou Ancara a indemnizar e a devolver a uma cidadã de Chipre os seus bens confiscados após a invasão e ocupação do Norte da ilha em 1974.

A história de Titina Loizidou correu mundo mas ainda não teve um desfecho feliz. Num processo que fez jurisprudência, a Turquia foi obrigada pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos a pagar-lhe uma indemnização equivalente a 1,2 milhões de euros, por a ter privado do acesso às suas terras, ou como ela diz ao “direito à convivência com os vizinhos”, em Kyrenia, no Norte de Chipre, após a invasão de 1974.

“Mais de 5000 cipriotas gregos que perderam bens no Norte e são hoje refugiados no Sul seguiram o meu exemplo”, orgulha-se Titina, abrandando o passo à saída de uma das muitas pitorescas aldeias que adornam as montanhas Troodos, onde falou connosco. “Fiquei espantada com as repercussões porque, até nos Balcãs, este precedente judicial está a ser usado por bósnios e sérvios”.

O processo começou em 1989 com uma queixa individual contra a Turquia, membro da Conselho Europeu dos Direitos Humanos, com sede em Estrasburgo.

“O Conselho tem uma forte componente política, e recusou a minha petição”, explicou Titina. “Foi então que recorri ao Tribunal, mas para isso foi preciso que o Estado cipriota intercedesse a meu favor.”

“A questão era tão politicamente explosiva que o Governo só deu uma resposta positiva quando faltavam quatro dias para expirar o prazo que tinha para dizer se aceitava ou não associar-se”, acrescentou.

Em 1996, no que Titina considera “o veredicto mais importante”, o Tribunal validou as licenças de propriedade, que ela apresentou e foram avaliadas por peritos em Londres, deliberando que a Turquia, por ter “um elevado número de tropas no Norte de Chipre” violou o direito da queixosa de regressar à sua propriedade.

Em 1998, o tribunal exigiu a Ancara o pagamento de danos pecuniários, danos morais e custos processuais.

Só em 2003, porém, depois de várias intervenções do Comité de Ministros do Conselho da Europa, que não reconheceram o argumento de que as terras em litígio “pertenciam à República Turca do Norte de Chipre”, sem reconhecimento internacional, é que Ancara finalmente pagou o que devia – uma quantia a que se somaram juros de 8 por cento anuais.

No entanto, ainda não devolveu as (dez) propriedades de Titina. Ela assevera: “Vou dar-lhes até Dezembro, e não vou desistir de recuperar o que é meu. Não posso aceitar que me roubem a minha identidade.”

Kyrenia [na foto, o porto da cidade, no Norte de Chipre] “é uma parte inseparável de mim própria, está no âmago do meu próprio ser”, afirmou Titina Loizidou. “É o lugar onde cada pedra tem memórias e significados pessoais”
© cyprustoptravel.com

Num site que criou na Internet, Titina explica que a sua aldeia, entre o monte Pendadaktylos e a costa norte de Chipre, “ficava perto de um bairro cipriota turco”, onde o seu pai e avô, ambos médicos, tinham pacientes das duas comunidades da ilha. “Deixei a escola depois de uma curta ausência para estudar no Reino Unido”, conta.

“Casei-me em 1972, e mudei-me com o meu marido para Nicósia, mas visitava frequentemente a minha família e tencionava dar uso à propriedade que herdei do meu pai em Kyrenia”.

Num dos lotes, ela já havia iniciado a construção de uma casa. “Estou determinada a instalar-me aqui quando me reformar”, garante-nos. “Kyrenia é mais do que um lugar onde sou dona de terras às quais quero regressar”, sublinha no site.

“É uma parte inseparável de mim própria, está no âmago do meu próprio ser. (…) É o lugar onde a minha família viveu durante várias gerações, onde eu cresci, onde cada pedra tem memórias e significados pessoais.”

A invasão turca de 1974 “negou-me o acesso e o uso da minha propriedade, recusou-me o direito de usufruir da minha terra-natal e de viver em liberdade com a minha família e a população de Kyrenia”.

Mais grave, adianta Titina, a ocupação do Norte “fez do meu avô, que era um médico muito respeitado, um refugiado aos 80 anos. Também os meus pais se tornaram refugiados.”

A obsessão em lutar pela reunificação da ilha e reconciliação das suas duas comunidades levou Titina a juntar-se ao movimento Women Walk Home (Mulheres que voltam a casa). “Tentei voltar a casa quatro vezes, participando em quatro marchas pacíficas. (…) Em todas as ocasiões, as tropas turcas impediram-.me.”

“(…) Fui detida e conduzida a Nicósia sob escolta. Fiquei desapontada e frustrada porque Kyrenia, tão perto em termos de distância física, estava tão longe, ocupada por militares e colonos estrangeiros. Pareceu-me triste e irónico que os turcos considerassem o meu acto pacífico ‘uma violação de fronteira’ – uma ‘violação de fronteira’ no meu próprio país!”

Hoje, Titina Loizidou assume-se como uma das mais ardentes defensoras da entrada da Turquia na União Europeia. “Se os turcos não fossem membros do Conselho da Europa eu nunca teria ganho o meu processo, porque eles jamais poderiam ser responsabilizados”, conclui.

E, se os 20 mil cipriotas gregos na situação de Titina enveredarem pelo seu longo e paciente caminho, estima-se que Ancara terá de pagar 16 mil milhões de dólares – ou seja, cerca de 70 por cento das suas actuais reservas e 15 por cento da sua dívida externa. A isto acresce, refere o site de Titina, que a ocupação militar do Norte de Chipre custa aos turcos 500 milhões de dólares/ano.

Em 1974, Titina ficou famosa quando o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos obrigou Ancara a indemnizá-la e a devolver-lhe os bens confiscados em 1974; em 2019, Ancara tentou encerrar o processo, mas ela recorreu ao Conselho da Europa
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A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Repúbilca de Chipre 

Estes dois artigos foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO em 2007| These two articles were originally published in the newspaper PÚBLICO, in 2007