Christie’s vende três beijos de Napoleão

A “mais importante colecção de manuscritos que chegou ao mercado numa geração” vai a leilão. Abrange um período de cinco séculos e está avaliada em 3,6 milhões de euros. Um banqueiro austríaco guardou-os num armário durante 30 anos. A carta do imperador francês é rara e comovente. (Ler mais | Read more…)

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Entre 44 mil e 73 mil euros é a base de licitação de três beijos de Napoleão à sua amada Josefina: “Um para o teu coração, outro para a tua boca e outro para os teus olhos”. [O remate final, a 3 de Julho de 2007, foi superior a 405.000 euros.]

Os beijos são oferecidos “numa das três únicas cartas de amor que restam do período antes do casamento”, em 1796, do imperador francês com a sua primeira mulher.

“A carta começa num tom zangado, depois de uma discussão na noite anterior, e termina em jeito de terna reconciliação”, explica, numa entrevista por e-mail, Thomas Venning, director do Departamento de Manuscritos e Livros da Christie’s, a famosa leiloeira de Londres, que a pôs à venda.

A carta de Napoleão, arrependido por ter irritado Josefina com perguntas sobre a sua fortuna familiar, não é a única da “mais importante colecção de manuscritos que chegou ao mercado numa geração” e com que a Christie’s tenciona arrecadar um total de 3,6 milhões de euros [atingiu os 5,6 milhões].

“Vale pela combinação de raridade e conteúdo”, salienta Venning, tendo em conta a história de amor entre o remetente e a destinatária que durou até ao divórcio de ambos em 1809.

O homem baixinho, magro, de cabelos oleosos e gestos bruscos sobre quem Hegel disse que era “a alma do mundo a cavalo” ficou famoso pelas suas fúrias mas também pelas cartas sentimentais endereçadas à viúva que ele próprio coroou “imperatriz dos franceses”.

Em 1795, ainda Josefina era Marie-Josèphe Rose Tascher de la Pagerie, já Napoleão terminava as cartas enviando-lhe “mil beijos” e pedindo que não fossem devolvidos porque ficaria “com o sangue a arder”.

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Uma outra carta, em 1796, terminava com “um beijo ao coração, e outro mais abaixo, muito mais abaixo!”

Mesmo depois de repudiar Josefina, por não lhe ter dado um herdeiro que glorificasse o império em que englobou boa parte do continente europeu, o general nascido na Córsega manteve-se afectuoso na correspondência.

Escreveu já depois da separação: “Não podes pôr em dúvida a minha constante amizade e não conheces bem os meus sentimentos se supões que eu possa ser feliz se tu não fores.”

Quanto à epístola dos três beijos na posse da Christie’s é um dos quase mil documentos guardados numa moradia do banqueiro austríaco Albin Schram, em Lausanne, na Suíça.

Quando ele morreu, em 2005, os seus familiares não tinham ideia do que acabaram por encontrar – um tesouro catalogado por tamanho e não por data ou autor – num armário metálico na lavandaria da residência.

“A colecção foi sendo feita ao longo de 30 anos”, precisou Thomas Venning, na entrevista. “Muitos dos objectos foram adquiridos em leilões, a maioria nos principais centros de Londres, Paris e Berlim. É uma colecção notável pela sua vasta natureza, abrangendo quando todos os grandes nomes nos campos da História, Literatura, Ciência e Filosofia, Música e Arte, num período de aproximadamente 500 anos, a começar em 1840. É sobretudo rica nos manuscritos em inglês, francês e alemão”.

A vida de Schram, “um coleccionador especializado e independente”, é quase tão fascinante quanto a sua colecção. Nasceu em Praga em 1926 de uma família austríaca ligada à indústria, revela Venning.

“Na adolescência, foi recrutado para combater na Wehrmacht. Ferido e capturado pelo exército russo, conseguiu escapar, em condições dramáticas, de um campo de prisioneiros de guerra em Koenigsberg (moderna Kalininegrado), de onde seguiu para Berlim Ocidental e depois para Viena”.

Foi na capital austríaca que Schram se formou na universidade e seguiu uma carreira ligada ao Direito e às finanças, antes de se fixar em Lausanne. Aqui, a partir de 1973, tornou-se um coleccionador profissional, sendo que algumas das suas obras foram compradas nos leilões da Christie’s.

“Foi com base nesta associação que nos deram a possibilidade de vender o lote [de manuscritos] e também devido à nossa excelente reputação no mercado da arte”, salientou Venning.

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Se a missiva de Napoleão é uma preciosidade, mais ainda (vai ser licitada entre 120 mil e 170 mil euros) é, na opinião do especialista da Christie’s, a carta que John Donne, um dos maiores poetas britânicos e que foi reitor da Catedral de São Paulo, em Londres, escreveu a Lady Kingsmill, um dia depois da morte do marido desta, em Outubro de 1624.

“A carta de Donne é uma grande raridade”, frisa Venning. “Ele é contemporâneo de Shakespeare e as suas cartas raramente aparecem à venda. Mas é também é uma carta muito ternurenta. Ele escreve a uma velha amiga, tentando consolá-la pela sua perda, recorrendo a linguagem poética e a imagens religiosas de grande profundidade”.

Um poema escrito à mão por Arthur Rimbaud (entre 59.000 e 87.000 euros) e uma carta do poeta russo Alexandre Pushkin de 1831 (avaliada em 44.000 a 73.000 euros) completam, juntamente com a mensagem de Napoleão a Josefina,  o lote mais valioso.

Venning destaca ainda outra carta, “totalmente diferente”, que o escritor Ernest Hemingway enviou ao seu colega Ezra Pound. “Ele deixa bem claro como odeia a alta sociedade moderna e prefere os touros – o que já indiciava um dos grandes temas da sua obra”.

Dizia Hemingway em 1925 ao amigo e poeta americano: “Os touros de 25 anos não casam com mulheres de 55 e não esperam ser convidados para jantar. (…) Os touros não pedem dinheiro emprestado. Os touros comem-se depois de serem mortos.”

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLCO em 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2007

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