Está na moda casar na ilha de Afrodite

Todos os anos, milhares de pessoas acorrem a Chipre para celebrarem casamentos civis. A maioria provém de países onde são apenas permitidas uniões religiosas. E onde o amor ainda é refém de conversões forçadas. (Ler mais | Read more…)

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© Milla Cyprus Wedding Photographer (www.thecypruswedding.co.uk)

Era sexta-feira, dia 13, às 12h45, quando Timothy Andrew Alchin aceitou unir-se, “até que a morte ou um tribunal os separe”, a Miriam Angela Ryan, numa cerimónia na Câmara Municipal de Nicósia, que durou exactamente 15 minutos. Começou com os trompetes e clarins da marcha nupcial de Mendelssohn e acabou com Cliff Richard a cantar Congratulations.

Católicos irlandeses, com um filho de sete meses, ambos escolheram a capital cipriota para trocarem alianças, em parte, porque acham “muito bonita” a cidade onde deverão trabalhar “talvez mais três anos”. Mas não é apenas a beleza da terra-natal de Afrodite, deusa do amor, que leva milhares de estrangeiros a procurar esta ilha do Mediterrâneo para casamentos civis.

A Internet está cheia de casos como o dos israelitas Shai e Michal, dois ateus que casaram em Chipre porque o Estado hebraico força os nubentes a passar pelas sinagogas, igrejas ou mesquitas.

Do mesmo modo, Marina e Ievgeni, antigos imigrantes da extinta União Soviética, oficializaram a união em Nicósia, porque o seu judaísmo não foi reconhecido pelo rabinato ortodoxo em Jerusalém.

Os libaneses Carla e Wissam passaram por uma experiência semelhante. Ele é muçulmano sunita, ela cristã ortodoxa grega. Como nem um nem outro queriam abdicar das suas respectivas confissões religiosas encontraram uma saída comprando um bilhete para o país vizinho, onde os casamentos civis de cipriotas estão autorizados desde 1923, e os de estrangeiros se realizam desde 1986. 

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Israelitas e libaneses, mas também jordanos e sírios, são os principais “clientes” dos municípios cipriotas que recolhem grande parte das suas receitas da celebração de casamentos civis.

O site da Câmara de Nicósia, por exemplo, abre com a oferta deste serviço, detalhando os horários, os passos a dar e os documentos a apresentar para que todo o processo seja reconhecido nos países de origem dos noivos.

São cobradas cerca de 250 libras cipriotas (quase o dobro em euros). Até à festa de Timothy e Miriam, a 13 de Julho, já haviam sido realizados, na capital da ilha, um total de 217 casamentos de estrangeiros, segundo estatísticas oficiais.

Tem havido tentativas, pelo menos em Israel e no Líbano, de mudar as leis para permitir os casamentos civis, mas o establishment religioso ainda é mais poderoso do que a vontade dos deputados, e trava qualquer esforço de mudança. Rabis, padres e xeques não querem ser privados dos avultados fundos que recolhem cada vez que casam alguém.

[Em 25 de Abril de, 2013, o Ministério do Interior em Beirute autorizou o registo do  primeiro contrato de casamento civil “made in Lebanon”. O casal que entrou na história plítica e constitucional do país foi Kholoud Sukkarieh and Nidal Darwish.]

É assim que Chipre e, em particular Nicósia, se tornaram numa espécie de Las Vegas do Mediterrâneo para quem aspira a um casamento singular. Há uma verdadeira indústria, com centenas de empresas a propor “momentos de sonho inesquecíveis” num país com “340 dias de sol por ano”. A Cyprus Dream Weddings, a MedWeds, a Aphrodite Weddings ou a Marriage in Cyprus vendem tudo.

Os “pacotes” promovidos na Web incluem cabeleireiro e esteticista, fatos e alianças, fotos e vídeos, iates e limusines, luas-de-mel em apartamentos modestos ou em hotéis de luxo. Das límpidas praias da baía de Larnaca às deslumbrantes montanhas Troodos, com os seus mosteiros bizantinos.

Timothy e Miriam preferiram uma cerimónia simples. Compareceram à hora marcada numa pequena sala da Câmara de Nicósia com as paredes decoradas com grandes fotos, a preto e branco, de quatro casamentos em que os pares se parecem com artistas de cinema mudo.

Miriam optou por um simples vestido curto, sem qualquer adorno no cabelo, e sandálias. Tim envergava um fato clássico com camisa branca às pintinhas, a combinarem com o lilás da gravata.

De mãos dadas e sorridentes, Timothy e Miriam não desviaram os olhos um do outro enquanto a presidente da edilidade, Eleni Mavrou, usando ao peito o medalhão da cidade, lia em inglês os direitos e os deveres do casal. Ao lado de uma aparelhagem sonora, a caixa de lenços de papel, colocada por empregados diligentes, não chegou a ser usada para limpar eventuais lágrimas. Todos se emocionaram, mas ninguém chorou.

Câmara Municipal de Nicósia, onde se celebram muitos dos casamentos civis em Chipre. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Câmara Municipal de Nicósia, onde se celebram muitos dos casamentos civis em Chipre
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A cerimónia foi tão breve que, quando um dos convidados chegou, já Tim e Miriam eram “marido e mulher, na alegria e na tristeza; na saúde e na doença”.

O restrito grupo de testemunhas – entre os quais o chefe da missão da ONU em Chipre, Michael Moller, a melhor amiga da noiva, Allison, que ela “conhece desde dos 8 anos”, e o melhor amigo do noivo, Alexei, com quem “costuma jogar futebol” – saudou efusivamente os recém-casados, brindando com taças de champanhe.

Numa posterior troca de mensagens por correio electrónico, Tim explicou que, ao contrário de outros que procuram a ilha dividida, ele e Miriam têm planos para um casamento religioso. “Será em Outubro, quando todos os amigos e familiares viajarem até Chipre para celebrarem connosco”, escreveu. “Para nós, a cerimónia civil, embora tenha sido, obviamente, um casamento oficial, foi o primeiro de dois casamentos. O segundo terá ainda mais significado porque será partilhado com os nossos entes queridos.”

Filho de mãe irlandesa e pai chinês, nascido em Londres, Tim especifica como tratou da documentação: “Pedimos à Embaixada da Irlanda o nosso Certificat de Coutume, garantindo que estávamos livres para casar, ou seja, que não éramos casados, mas só definimos a data a 10 de Julho – três dias antes [da cerimónia], quando fomos à Câmara Municipal [de Nicósia] e pedimos uma licença.”

“Foi um processo muito rápido. Queríamos casar naquela semana, porque a melhor amiga da minha mulher estava aqui de visita, e gostaríamos que ela fosse uma das testemunhas. Foi um impulso de último minuto”.

Tim refere que ele e Miriam já planeavam um casamento civil antes do religioso, “como é exigido por lei”, mas não tinham a certeza de quando poderia ser.

“Ficámos felizes por ter sido a uma sexta-feira, 13 (fomos os únicos a casar nesse dia, porque suponho que, para a maioria das pessoas, é um número de azar), já que foi numa sexta-feira, 13 de Setembro de 2005, que começámos a namorar.”

Um namoro iniciado quando ele tinha 32 anos e ela “era um bocadinho mais nova” (a diferença entre 1970 e 1972). Os dois eram funcionários na Comissão Europeia em Bruxelas. “Dizem que não devemos apaixonar-nos por colegas de trabalho mas não lhe consegui resistir”, confessa.

“A primeira vez que falámos foi engraçado. Reparei num papel que estava na impressora a publicitar um clube de ioga. Interessado, deixei um bilhete a perguntar se me podia juntar a ele ou a ela. Não fazia ideia de quem era. Nessa tarde, ela veio ao meu gabinete e apresentou-se. Ficámos parceiros de ioga e em breve verdadeiros companheiros”.

De início, adianta Tim, “mantivemos tudo muito discreto e em segredo, mas acabou por se saber, é claro. Fizemos tudo ao contrário. Primeiro, comprámos uma casa em Bruxelas, depois veio nosso filho, Caleb, e finalmente casámos. O amor acaba sempre por encontrar o seu caminho, e eu não teria feito as coisas de outro modo.”

Em Chipre, onde trabalha directamente com Michael Moller, o chefe de missão da ONU, depois de vários anos ao serviço da Comissão Europeia, Tim descreve assim a sua tarefa: “Tentar que ambas as partes da ilha – cipriotas gregos no Sul e cipriotas turcos no Norte – conversem e negoceiem uma solução” do conflito.

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A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República de Chipre 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Julho de 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in July 2007

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