Ze’ev Schiff morreu. Quem vai analisar a próxima guerra?

O jornalista a quem os amigos chamavam Wolfy foi durante meio século um dos mais respeitados analistas de Defesa de Israel. Os seus artigos e livros eram análises, sugestões, críticas e quase premonições. Na hora da morte, aos 74 anos [em 2007], até os “inimigos” árabes o homenagearam. (Ler mais | Read more…)

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Ninguém em Israel saberia tanto sobre questões militares e de segurança como Ze’ev Schiff, excepto talvez o seu colega Ehud Yaari. Dizia-se que o primeiro era o jornalista preferido do Exército e que o segundo era o favorito dos serviços secretos.

Depois de meio século a analisar os conflitos com os árabes, os palestinianos e agora os iranianos, Schiff morreu aos 74 anos de idade.

O seu jornal, Há’aretz, onde era editor para a Defesa, anunciou o óbito na quarta-feira, mas não especificou as causas. “A sua morte foi uma surpresa”, escreveu o amigo Eitan Haber.

Tão respeitado era Schiff, carinhosamente tratado por Wolfy, que até o campo “inimigo” lhe prestou homenagem. Escreveu o site noticioso de capitais sauditas Elaph: “Ele faleceu em Telavive, na terça-feira, de uma maneira tranquila, totalmente incaracterística da natureza controversa e fascinante dos seus artigos.”

Ya’ari, que com ele escreveu duas obras de referência, sobre a guerra do Líbano de 1982 e sobre a primeira Intifada de 1987, emocionou-se na despedida, no cemitério de Kiryat Shaul, em Telavive: “Tu [Schiff] estavas sempre um, dois ou três passos à frente, aplicando o teu afiado bisturi para revelar o que o futuro tinha em armazém. (…) Nunca foste a caixa de correio de ninguém, e nunca distorceste a verdade para que ela se ajustasse a qualquer tipo de doutrina.”

Palestinian women and Israelian soldiers in Jabalya refugee camp in December 1987 @Jean-Claude Coutausse

Mulheres palestinianas e soldados israelitas no campo de refugiados de Jabalyia, na Faixa de Gaza, em Dezembro de 1987, o ano em que começou a primeira Intifada (terminou em 1984, quando Yasser Arafat, o chefe da OLP, foi autorizado a entrar para formar o seu governo, após os Acordos de Oslo. Schiff e Yaari foram historiadores desta revolta popular
© Jean-Claude Coutausse

Ponto vital: apesar das estreitas ligações de Schiff com o establishment militar, todos lhe reconheceram sempre isenção e independência – era membro da comissão de ética dos jornalistas de Israel.

Era um patriota, assumido e reconhecido, que nunca se absteve de criticar os erros e os abusos do Tsahal (Forças de Defesa), e muito menos as políticas dos governantes quando as considerava desastrosas.

Num dos seus últimos textos, atacou duramente responsáveis do Executivo e do Exército pelo “modo frouxo” como conduziram a ofensiva do Verão de 2006 contra o Hezbollah, no Líbano.

Na revista Foreign Affairs (Novembro-Dezembro de 2006), uma das várias publicações estrangeiras com as quais colaborava, Schiff foi mais longe, na sua análise deste confronto, ao identificá-lo como “o início de uma nova guerra entre Israel e o Irão”.

O mais perturbador é que as premonições de Schiff às vezes se materializavam. Em 1983, quando escreveu, com Ya’ari, um livro sobre a invasão que levou os tanques de Ariel Sharon até Beirute, no primeiro cerco a uma capital árabe, avisava: “A guerra no Líbano não diminuiu, de modo algum, a acuidade do problema palestiniano. Isso não surpreende porque as suas raízes não se encontram no Líbano.”

“É totalmente insensato acreditar que uma operação naquele país possa atenuar o conflito político entre a nação palestiniana e a israelita”, adiantou. “Bem pelo contrário: a guerra aumentou as tensões entre os dois povos.”

“É difícil hoje avaliar as incertezas do futuro, mas não é improvável que venhamos a assistir (…) a uma guerra civil entre israelitas e palestinianos. O maior drama da guerra foi talvez Israel, depois de ter vencido a OLP, não ter tido a sabedoria de escolher a via do compromisso político com os palestinianos.”

A invasão do Líbano, decisão do então ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, em 1982, abriu caminho aos massacres de civis palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. @Magnum |HH

A invasão de Beirute em 1982, decisão do então ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, abriu caminho ao massacre de centenas de civis palestinianos (homens, mulheres e crianças) nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. Schiff e Yaari lamentaram que, depois de vencer militarmente a OLP (Yasser Arafat e cerca de  8000 guerrilheiros foram obrigados a sair do Líbano)  tenha falhado, na altura, aos líderes em Telavive a coragem de assumir um compromisso político
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Seis anos depois, confirmando as previsões daquele livro sobre a “primeira guerra do Líbano”, Schiff e Yaari escreviam outro, Intifada, sobre a sublevação de 1987 nos territórios ocupados.

Foram eles os primeiros israelitas a tentar entender as razões da “revolta das pedras”, e a denunciar a estreiteza de vistas dos seus líderes ao permitirem que os islamistas do Hamas emergissem como um contrapoder aos nacionalistas da OLP.

Schiff nasceu em França em 1932 e, três anos depois, emigrou com a família para o território que, em 1948, viria a ser Israel.

Foi oficial de espionagem no Tsahal, estudou História Militar na Universidade de Telavive e ingressou nos quadros do Há’aretz em 1955, onde se tornou correspondente de guerra no Vietname, na antiga União Soviética, em Chipre e na Etiópia. Ganhou seis prémios de jornalismo e publicou vários livros (alguns traduzidos em árabe).

Ehud Yaari, colega e amigo, emocionou-se no dia do funeral de Schiff. "Tu estavas sempre um, dois ou três passos à frente, aplicando o teu afiado bisturi para revelar o que o futuro tinha em armazém. (…) Nunca foste a caixa de correio de ninguém, e nunca distorceste a verdade para que ela se ajustasse a qualquer tipo de doutrina.” @DR

Ehud Yaari, colega e amigo, emocionou-se no dia do funeral de Schiff. “Tu estavas sempre um, dois ou três passos à frente, aplicando o teu afiado bisturi para revelar o que o futuro tinha em armazém. (…) Nunca foste a caixa de correio de ninguém, e nunca distorceste a verdade para que ela se ajustasse a qualquer tipo de doutrina”
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Com a reputação consolidada, fez parte do Carnegie Endowment for International Peace e do Washington Institute for Near East Policy. Políticos e generais de vários países procuravam-no para ouvir os seus conselhos.

“Durante 50 anos a minha mão nunca deixou a sua”, comoveu-se o amigo Eitan Haber, no jornal Yediot Ahronot. “Falávamos quase diariamente durante longas conversas telefónicas, com discussões que duravam noite fora. Encontrámo-nos durante a escrita de livros em conjunto, quando revíamos os meus artigos antes de serem publicados ou já depois de publicados.

Os seus comentários eram quase sempre uma lição de etiqueta (…). ‘Talvez devesses ter escrito… talvez eu tivesse escrito…’ (…) Wolfy ganhou a sua elevada posição, a maior de todas, não apenas devido ao seu extenso conhecimento e capacidade de apresentar um retrato claro e detalhado, mas porque de todos os correspondentes militares, ao longo de gerações, ele foi um homem de paz e de compromisso. “

Ze’ev Schiff morreu no momento em que Israel enfrenta novos e perigosos desafios. Com o Irão a ameaçar a sua existência como “Estado judaico”, e os palestinianos divididos em duas “entidades”, a da Fatah na Cisjordânia, e a do Hamas na Faixa de Gaza.

Quem o irá substituir na análise da próxima guerra? É que, “nem sendo da esquerda nem da direita, estava acima das disputas políticas, e era objectivo como só ele sabia ser”, sublinhou o antigo ministro da Defesa Moshe Arens.

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Ze’ev Schiff

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 22 de Junho de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the newspaper PÚBLICO, on June 22, 2007 

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