Os jornais pedem desculpa porquê?

Sorry, imploram quatro tablóides britânicos ao casal McCann. Também o Nouvel Observateur lamentou a mágoa causada pela notícia de um alegado SMS de Sarkozy. O director da Society of Editors da Grã-Bretanha e o advogado Teixeira da Mota explicam o significado destes gestos. (Ler mais | Read more…)

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Entre o Verão de 2007 e Fevereiro deste ano, os tablóides britânicos Daily Express, Daily Star e as suas respectivas edições dominicais (Sunday Express e Daily Star Sunday) fizeram várias alegações sobre Kate e Gerry McCann, incluindo as de que o casal “vendeu” ou “matou” a sua filha Madeleine, desaparecida a 3 de Maio de 2007, no Algarve.

A 6 de Março [de 2008], o site nouvelobs.com noticiou que, oito dias antes de se casar com Carla Bruni, o Presidente Nicolas Sarkozy enviou um SMS à sua ex-mulher Cécilia Ciganer-Alberniz, dizendo-lhe, alegadamente, “se voltares, cancelo tudo.”

Todos pediram desculpas. O grupo Express assumiu, na primeira página, o carácter difamatório de mais de 100 artigos, aceitou desembolsar uma indemnização equivalente a 697 mil euros e apagou já todo o seu arquivo online sobre o caso Madeleine.

Foi um acordo amigável com os advogados dos McCann, ou uma “capitulação”, como sublinhou, no Guardian, Roy Greenslade, professsor de Jornalismo na Universidade de Londres, porque esta seria uma batalha perdida em tribunal.

Quanto ao Nouvel Observateur, depois de o seu director e co-fundador, Jean-Daniel, ter considerado “um erro” a publicação da história do suposto SMS de Sarko, também o autor do artigo na edição electrónica, Airy Routier, enviou uma carta pessoal a Carla Bruni em que lamenta tê-la “magoado”.

Assim que recebeu esta mensagem, a primeira-dama divulgou o seu conteúdo no diário Le Monde e revelou que o marido retirou a acção judicial que interpôs – um processo judicial inédito na V República, de um chefe de Estado contra um órgão de informação.

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Ao contrário dos jornais britânicos, porém, Routier insiste na “autenticidade” da sua notícia, ainda que a própria Cécilia tenha desmentido a recepção do referido SMS.

Num esclarecimento publicado na sua edição de 20 de Março [de 2008], o Nouvel Observateur reafirma que “esta confidência não deveria ter sido publicada”, mas realça também a “boa-fé” do jornalista, que se “mantém em funções”.

Sugere ainda “um rápido e necessário debate” sobre a lei de 1970 que rege as relações entre vida pública e privada e que “está hoje em crise”.

Como se chegou aqui? No caso britânico, Bob Satchwell, director-executivo da Society of Editors, em Londres, explica-me, por e-mail, que um dos problemas cruciais no caso de Madeleine McCann é “quase não ter factos”.

“Sabemos que a menina desapareceu do seu apartamento na praia da Luz e que os pais foram considerados arguidos pelas autoridades portuguesas”, disse. “Além disso, ao contrário do que acontece no Reino Unido, não houve muitas conferências de imprensa ou explicações oficiais.”

“O segredo conduz sempre à especulação”, observou Satchwell. “Isso prejudica a credibilidade e a confiança em qualquer organização.

Os media britânicos estão habituados a uma relação mais aberta com os investigadores e todo o sistema judicial é mais aberto.”

“O facto de os McCann terem sido considerados suspeitos também é muito diferente do sistema do Reino Unido”, referiu o antigo e premiado jornalista Satchwell.

“É um conceito difícil de entender, e o sistema português tem sido difícil de explicar a leitores, ouvintes e telespectadores na Grã-Bretanha. Duvido que a maioria já o compreenda. Isso aumentou a especulação que rodeava a história.

Além disso, a imprensa britânica confiou demasiado nos artigos que iam aparecendo nos media portugueses.”

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Francisco Teixeira da Mota, advogado do diário PÚBLICO, declarou-se impressionado com o modo “especulativo e temerário” com que os jornais do grupo Express, agora convictos da “inocência de Gerry e Kate” trataram o caso Maddie.

O segredo de justiça em Portugal, agora mais atenuado, pode ser uma dificuldade na recolha de informações, admite.

“Muita coisa circula debaixo da mesa, há muitos boatos, gente da polícia que fala não oficialmente” mas isso “não exime os jornalistas de conduzirem as suas próprias investigações”.

Se não há factos, “não se pode inventá-los”, frisa o advogado. E não há desculpa para os ingleses citarem os jornais portugueses se estes invocavam fontes anónimas ou pouco credíveis.

Por exemplo, quando o Daily Express reproduziu um rumor, a que fez alusão um antigo agente da Polícia Judiciária na RTP, de que Kate e Gerry McCann estariam envolvidos num esquema de “troca de casais” (swinging), Teixeira da Mota questiona a relevância de divulgar questões de intimidade.

“Se é mentira, é difamação; se é verdade será devassa da vida privada, e em Portugal isso é crime, o que poderá não ser o caso na Grã-Bretanha.”

Satchwell, por seu turno, observa que os McCann “sempre foram vistos [na imprensa britânica] como vítimas, e não há provas que sugiram o contrário. E foi por isso que o grupo Express teve de pagar uma indemnização e pedir desculpas”.

O que os jornais propriedade de Richard Desmond escreviam sobre os pais de Madeleine foi entendido como uma campanha de calúnia, que foi mais além do que “as críticas e o debate que se realizou no Reino Unido sobre a responsabilidade de ambos terem deixado os seus filhos sozinhos” na casa de férias.

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Sobre o impacto que os excepcionais pedidos de desculpa na primeira página terão para os leitores e outros editores, Satchwell diz que “é mais um aviso de como as leis antidifamação funcionam no Reino Unido. Se os media não puderem fornecer provas directas que suportem o seu noticiário ou comentários, o preço em termos de custas legais e danos são elevados.”

“Os leitores tirarão as suas conclusões e alguns reconhecerão que os jornais pelo menos admitiram os seus erros e pediram perdão pelas manchetes que fizeram”, adiantou. “Desta vez não se pode dizer que as desculpas não foram significativas. A lição que os jornalistas devem aprender é a de que não se deve noticiar rumores sem substância.”

Teixeira de Mota é mais céptico. Acha que, tratando-se de tablóides, a sua pouca credibilidade não será afectada.

“Este tipo de publicações vive do gossip [coscuvilhice] e do escândalo. O leitor, geralmente, quer sangue mesmo que não seja verdadeiro. Teria sido diferente se isto tivesse acontecido num jornal de referência.”

Vejamos então como um jornal de referência e um tablóide trataram o mesmo tema, a 9 de Outubro de 2007. David Brown e Patrick Foster, do diário The Times, escreveram:

– “Vestígios do ADN de Madeleine McCann recolhidos em dois apartamentos de férias portugueses não provam que ela está morta. Apesar da falta de provas conclusivas, os detectives ainda acreditam que foi justificado declarar Kate e Gerry MacCann suspeitos oficiais no desaparecimento da sua filha. (…) Testes levados a cabo pelo Serviço de Ciência Forense em Birmingham não provam que a menina de 4 anos foi morta, mas os resultados são considerados significativos.”

– A versão de Martin Evans, do Daily Express, é muito diferente: “Provas forenses cruciais ligam, alegadamente, os pais de Madeleine McCann ao seu desaparecimento, insistiu ontem à noite uma fonte próxima do caso. Os testes britânicos ao DNA indicam que a polícia portuguesa estava certa ao declarar suspeitos Kate e Gerry McCann. A fonte também rejeitou afirmações de que as provas encontradas no carro alugado de ambos são ‘inconclusivas’. A extraordinária viragem na investigação chocou os McCann que esperavam vir a ser em breve ilibados do envolvimento no desaparecimento da sua filha.”

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O Daily Express vende cerca de 700 mil exemplares por dia e o Daily Star terá aproximadamente 610 mil leitores, segundo a AFP. A indemnização que aceitaram pagar, e que irá para o Fundo Find Madeleine, livrou-os de uma multa ainda maior, que poderia ir, segundo a BBC, até quatro milhões de libras.

Um jornal português, ainda que já extinto (em Setembro de 2007), o Tal & Qual, tem contra si um processo de difamação pela notícia de capa “PJ acredita que os pais mataram Maddie”.

Teixeira da Mota considera esta “uma afirmação de prova praticamente impossível, já que a PJ é uma instituição e nunca afirmou oficialmente o que consta da manchete”. Por outro lado, “dificilmente responsáveis da PJ ligados a investigação viriam a confirma ter expresso essa opinião”.

Sobre o processo Sarko-Nouvel Obs, o advogado admite que o jornalista poderia ter evitado noticiar o alegado SMS “porque não era do interesse público, embora também se possa questionar por que motivo o Presidente francês “expôs a vida privada ao misturá-la com a política”, quando deu a conhecer o seu romance com Carla Bruni durante uma visita oficial a Jordânia.

Ainda assim, Teixeira da Mota repete que não vê “interesse público” na história de Routier, até porque não é o que os leitores esperam de uma revista como o Nouvel Observateur.

Quanto à decisão de Sarko de encerrar a polémica, lembra que o [antigo] Presidente, em queda de popularidade, “não estaria interessado em prolongar um processo, que até poderia ganhar nos tribunais mas que dificilmente lhe seria favorável em termos de opinião pública,” porque continuaria a ser uma avaliação política e uma intrusão na sua vida privada.

Outros arrependimentos

O pedido de desculpas do grupo Express ao casal McCann é inédito por aparecer simultaneamente nos quatro tablóides propriedade de Richard Desmond. Mas há precedentes:

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  • Nos anos 1980, o jornal The Sun pediu desculpas na primeira página à Rainha de Inglaterra que as aceitou, por ter publicado antecipadamente o seu discurso de Natal, e a Elton John, por alegações de que o cantor pagava relações sexuais com rapazes.
  • Em Maio de 2004, o influente jornal norte-americano The New York Times pediu desculpas, em editorial, aos seus leitores pelas notícias sobre as (não existentes) armas de destruição maciça no Iraque. O jornal confessou que a Administração de George W. Bush o exortara a publicar “informações sem fundamento para justificar a guerra”, e admitiu que a cobertura noticiosa “não foi rigorosa como deveria ter sido”. No mesmo mês, em Londres, o Daily Mirror publicou um pedido de desculpas na primeira página – Sorry… We were hoaxed – por ter publicado fotografias manipuladas de soldados britânicos a abusarem de um iraquiano. O jornal prometeu doar o dinheiro da venda das fotos à caridade.
  • Em Fevereiro de 2006, os jornais da Arábia Saudita publicaram uma página inteira, em árabe, com um pedido de desculpas do diário dinamarquês Jyllands-Posten por este ter encomendado caricaturas de Maomé, uma das quais com o profeta do Islão envergando um turbante em forma de bomba.
Em 2010, depois de mais um escândalo, envolvendo escutas telefónicas, o magnata Rupert Murdoch (no cartoon) encerrou o seu jornal News of the World, fundado 168 anos antes. © Cagle Cartoons

Em 2011, depois de mais um escândalo, envolvendo escutas telefónicas, o magnata Rupert Murdoch (nesta ilustração) encerrou o seu tablóide News of the World, fundado 168 anos antes
© Cagle Cartoons

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 21 de Março de 2008 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 21, 2008

A portuguesa “maire” de Noisy-le-Sec

Alda Pereira-Lemaître, apoiada por Segolène Royal em eleições locais, tem um sonho: chegar à Assembleia Nacional, como “herdeira de Élizabeth Guigou”.  (Ler mais| Read more…)

Alda Pereira-Lemaître, de dupla nacionalidade, francesa e portuguesa, foi presidente da Câmara de Noisy-le-Sec, entre 2008 e 2010
© Alda Pereira-Lemaître

Só a abstenção pode desfazer o sonho de Alda Pereira-Lemaître, nascida em 1965 na aldeia de Vales do Rio, a sete quilómetros da Covilhã, de ser eleita presidente da Câmara de Noisy-le-Sec, município a uns 8Km de Paris e que, até 2003, foi sempre um “bastião vermelho”. *

Se esta escritora de livros infantis que chegou a França no período revolucionário de Maio de 1968 vencer na segunda volta das municipais, a próxima etapa, diz-me, por telefone, é “chegar à Assembleia Nacional, como herdeira de Élizabeth Guigou”.

A actual deputada e três vezes ministra socialista será, em caso de vitória, a adjunta de Alda Pereira na câmara, depois de ter recusado ser a cabeça de lista, “para não acumular mandatos”.

“Foi uma grande honra ter sido escolhida por Elizabeth Guigou”, que representa no Parlamento as circunscrições de Noisy, Bondy e Romainville, exulta a candidata da “esquerda plural” (PSF, Verdes, Partido Radical de Esquerda/PRG e Movimento Republicano e Cidadão/MRC).

“Vejo-me a cumprir um primeiro mandato de seis anos, e talvez um segundo. Quando a senhora Guigou, que já tem 61 anos, deixar o Parlamento, eu concorro para ser deputada.”

Para Alda Pereira, foi também foi “muito importante ter contado com a presença a seu lado de Ségolène Royal”, derrotada nas presidenciais de 2007 por Nicolas Sarkozy.

Nas presidenciais de 2007, Alda tinha sido coordenadora activa na comissão Désirs d’avenir, de apoio a Ségolène. Como secretária-regional do PS em Seine-Saint-Denis, foi recompensada ficando entre os 25% de mulheres que os socialistas escolheram como candidatas às municipais de 2008.

Ao participar numa recente sessão de campanha em Noisy (onde 59% votaram para que ela entrasse no Palácio do Eliseu), Seégolène Royal fez um apelo vibrante à eleição de “uma mulher, socialista e a primeira oriunda da imigração portuguesa”.

Há uma semana, a abstenção foi de 44,5%, e Alda Pereira-Lemaître conseguiu apenas 27,13% dos votos, ficando atrás de Nicole Rivoire, a maire cessante, apoiada pela UDF e pela UMP (direita), que conquistou 40,98%.

Agora, porém, se somar os 26,71% obtidos pelo comunista Gilles Garnier, a socialista estará em vantagem para ganhar, mesmo sem maioria absoluta.

Alda Pereira-Lemaître foi adjunta do presidente adjunta do município, quando os comunistas governaram o município, de 2001 a 2002. Era responsável pelas questões do ambiente na equipa municipal de Jean-Louis Mons, do PCF.

Exerceu o mandato durante 18 meses, mas as eleições foram anuladas e, no escrutínio seguinte, a direita que ganhou. Ela ficou de fora – o seu lugar remoto na lista da oposição dificultava que fosse escolhida.

Se for eleita presidente da câmara, afirmou a protegida de Guigou, o seu primeiro acto será encontrar-se com os funcionários camarários, que têm sido “ameaçados pela actual maire de que perderão os seus empregos se votarem na oposição”.

O passo seguinte será reunir-se com os comités de bairro, para “avaliar as necessidades, desde o itinerário dos transportes à criação de espaços de diversão para crianças”.

Alda Pereira-Lemâitre, como maire de Noisy-le-Sec. O mandato durou de 2008 a 2010.
© Wikimedia Commons

Nicole Rivoire “não faz uma política para todos nem de transparência”, queixou-se Alda Pereira-Lemaître. “A candidata da direita privilegiou os bairros chiques e deixou ao abandono os mais pobres, e nós queremos mudar isso com uma democracia participativa.”

“Eu faço política como Ségolène”, sublinha a luso-descendente. “O importante é gerir o dia-a-dia das pessoas, sair dos gabinetes e ir para a rua, saber o que se passa à nossa volta, saber tudo, desde a educação ao ambiente.”

“Cada cidadão é um especialista no lugar onde vive. O meu objectivo é despertar consciências. Cada um deve tomar o destino nas suas próprias mãos.”

E tomar o destino nas mãos foi exactamente o que fez Alda Pereira-Lemaître. Tinha três anos quando chegou com a mãe e um irmão ao bidonville (bairro de lata) em Nanterre.

O pai já estava em França há três anos, a trabalhar na construção civil. A mãe foi empregada doméstica “durante muito, muito tempo”.

Só agora, a família, a viver em Seine-et-Marne, conseguiu comprar uma casa na Figueira da Foz, depois de ter fugido a uma vida de pobreza e de perseguição da PIDE.

“O meu pai era contra a guerra colonial e simpatizava com o Mário Soares, por isso teve de partir”, conta Alda Pereira, nesta entrevista.

“Quando cheguei aqui, foi muito, muito triste. Eu sofri na pele o racismo. Em França era a portuguaise e em Portugal “a francesa”. Era como se não tivesse pátria.”

“Culpei os meus pais por terem imigrado. Eu tinha saudades da minha avó e de uma tia, que depois apareceu morta, não sabemos se foi suicídio ou se Salazar a mandou matar.

A pouco e pouco, fui compreendendo que o meu pai e a minha mãe só me queriam proteger”, acrescenta Alda Pereira-Lemaître, agradecida pela “consciência política” que eles lhe deram.

A militância adquiriu-a na associação de pais das escolas dos seus três filhos – um jovem de 17 anos, uma rapariga de 16 e um outro rapaz de 15 – através da Fédération des Conseils des Parents d’Élèves (FCPE).

Élizabeth Guigou, que apoiou e depois retirou a confiança a Alda Pereira-Lemaître
© Paris Match

Segolène Royal, “fonte de inspiração” de Alda Pereira-Lemaître
© The Times

Sem ter frequentado a faculdade e apenas com a formação de “técnica superior”, Alda Pereira-Lemaître teve um primeiro emprego no banco Crédit Agricole, como “conselheira financeira”.

Passou a ser “responsável comercial” de uma empresa de jogos criativos e, ao mesmo tempo, escritora de livros infantis. Já publicou cinco. Tem também colaborado com artigos sobre mães e bebés para revistas.

A determinação em trabalhar fora de casa contribuiu para a ruptura do seu casamento com o francês que lhe deu o apelido Lemaître. Ela tinha 19 anos quando o conheceu no liceu e 25 quando se casaram.

“Ele achava que o lugar da mulher é no lar, e nunca deixou que os meus filhos falassem português, mas agora querem adoptar o sobrenome Pereira, porque têm muito orgulho em mim”, disse. “Quando se celebraram os 30 anos do 25 de Abril, eu e eles estávamos em Coimbra. Emocionados e a chorar.”

“Eu sou uma feminista, que luta pela igualdade e pela dignidade. Se só me divorciei em Dezembro foi porque dependia financeiramente do pai dos meus filhos.

Sustentar três adolescentes é complicado. Foi uma união psicologicamente violenta. Agora posso seguir o meu caminho.” Os filhos, conta, também vão pedir a dupla nacionalidade.

“Desde que aderi ao Partido Socialista em 1996 [secção de Noisy-le-Sec] e conheci Elizabeth Guigou em 2002, nada foi igual. No domingo [16 de Março de 2008] espero ser maire e provar que a política é para todos.”

  • [Em 2008, a vitória de Alda Pereira-Lemaître foi confirmada com 51% dos votos; derrotou Nicole Rivoire, do MoDem-UMP. Chefiou o município entre 2008 (tomou posse a 21 de Março) e 2010.
  • Em 2010, os Verdes e o os comunistas abandonaram a aliança com os socialistas que permitia uma maioria municipal em Noisy-le-Sec. A demissão de 20 de 39 vereadores forçou uma eleição parcial, em 5 e 12 de Dezembro. Alda Pereira-Lemaître foi apoiada pelo PS – contra uma votação interna da secção local do partido, que escolheu Jean-Paul Lefèbvre, agora apoiado por Élisabeth Guigou.
  • Em 2013, Alda recandidatou-se, às municipais de 2014, desta vez como cabeça de lista do Partido Radical de Esquerda (PRG).
  • Em 9 de Outubro de 2012, abandonou o PS.]

Alda Pereira-Lemaître
© Abrantes Pereira | Wikimedia Commons

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 16 de Março de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 16, 2008

“Sharia” em português suave

Dos 40 mil muçulmanos em Portugal, há muitos que só se casam, divorciam, saldam dívidas ou repartem heranças de acordo com a lei islâmica. Pedem conselhos aos teólogos, e eles funcionam como “uma espécie de tribunal”. Devemos preocupar-nos com este conjunto de regras, que tem sido alternativo ao código civil? Entrevista com Sheik David Munir, da Mesquita Central de Lisboa. (Ler mais | Read more…) 

Sheik David Munir
© Notícias Magazine

A sala é fria apesar do sol primaveril que desliza pela cúpula da Mesquita Central de Lisboa. Não já juízes nem advogados, mas aqui costumam reunir-se “sábios” que deliberam, sobre questões familiares ou sociais, como se estivessem num tribunal. A sua lei não é civil, mas islâmica – a Sharia.

É nesta sala que nos recebe um afável e sorridente Sheik David Munir. Tentando dissipar dúvidas e medos, o Imã (guia espiritual) fala pausadamente enquanto acalma o seu telemóvel, que não pára de tocar. Começa logo por clarificar que a exigência de a mulher “ser submissa” ao homem “não passa de uma metáfora”.

“O que é ser submissa? É o homem dizer: ‘levanta-te!’ e ela levantar-se? Ou ele dizer ‘senta-te!’ e ela sentar-se? Isso não é submissão, é ser escrava. Não tem nada a ver com a Shariah”, frisa David Munir. “O facto de em algumas sociedades a mulher ainda ser considerada inferior, não tem nada a ver com a Sharia, mas com a tradição e a cultura” dos países.

Do mesmo modo, o facto de haver maridos que proíbem as mulheres de exercerem profissões é incompreensível para o Sheik. “

“Já tivemos de decidir num caso em que uma jovem licenciada em Psicologia queria ter o seu emprego e o marido, por ciúmes ou machismo, não autorizava, mas conseguimos que ele mudasse de ideias.”

David Munir admite, todavia, que se os homens “ganharem o suficiente, as mulheres podem – se consentirem – ficar em casa a tratar da família”, porque o sustento não é obrigação delas. Outra recomendação que ele faz às mulheres é que “não gastem mais do que os maridos ganham”, se elas não contribuírem para as despesas.

É também com a “necessidade de o homem sustentar a família” que David Munir justifica a norma da Shariah de que o homem “tem direito ao dobro da herança” se um parente morrer, “porque ele é obrigado a ajudar e a mulher não”.

No entanto, quando se trata de partilhas, ressalva, “cabe à família decidir se quer um acordo segundo a lei islâmica ou os tribunais civis”. Também pode haver testamentos com cláusulas específicas que não sigam o que a Shariah determina, adianta.

© Rita Sousa Vieira | Madremedia | sapo.pt

Quanto a separações, Sheik Munir lembra-se de um caso em que um membro da comunidade se mostrava tão renitente em conceder o divórcio à mulher que os teólogos tiveram de tomar uma decisão “segundo a Shariah”. O casamento era apenas religioso e a deliberação foi “a favor da esposa, que tinha o direito de refazer a sua vida, mesmo que o marido não aceitasse.”

Uma interpretação rígida da Shariah dá ao homem o direito unilateral de se divorciar, sem causa (basta dizer três vezes, no decurso de três meses, “eu divorcio-me de ti”), enquanto a mulher tem de alegar “razões fortes”, como infertilidade, distúrbios mentais, doenças contagiosas ou não apoio financeiro por parte do marido para que o seu pedido seja aceite.

David Munir esclarece, porém, o que até alguns muçulmanos desconhecem: que antes de um contrato de casamento, a mulher pode exigir “o poder do divórcio”. Assim sendo, “é ela quem dá e é ele quem pede”. A ignorância leva a que os pais dos noivos às vezes recusem esta opção, porque questionam a validade da sua existência.

O imã aconselha “muita prudência” aos maridos que, num assomo de fúria, renegam as esposas três vezes, porque, uma vez declarado o divórcio, mesmo que depois se arrependam, terão de esperar que a sua mulher volte a casar-se com outro e se separe deste para voltar a unir-se a ela.

Os teólogos, acrescenta David Munir, aconselham sempre a que o casamento religioso islâmico (ainda não contemplado na lei portuguesa) seja em simultâneo com o civil.

Obter a documentação necessária é, contudo, um processo moroso (sobretudo quando se é imigrante ilegal), e as pessoas vêm à mesquita “porque querem regularizar a sua situação familiar para não viverem em pecado.”

Alexandra Antunes | MadreMedia | sapo.pt

Uma coisa é certa, embora o Islão permita que rapazes e raparigas possam casar assim que cheguem à puberdade, 14-15 anos, em Portugal, os teólogos seguem à risca a lei que exige autorização dos pais para quem quiser casar antes dos 18 anos. “Não queremos que nos acusem de casar menores nas mesquitas”, defende-se Sheik Munir.

“A Shariah não é uma lei bárbara e ultrapassada como alguns pensam. Trata todos como iguais. Não nos interessa agradar aos homens ou às mulheres, mas apenas fazer o que é justo de acordo com a lei”, enfatiza David Munir.

Em situações de separação de um casal, “damos até nove meses para ambos pensarem. Tentamos sempre obter o consentimento mútuo, mas quando não há essa possibilidade, o que ficou decidido está decidido. Se uma das partes não gostou, paciência.”

Mas, perguntamos nós, e quando há violência doméstica, a mulher terá de suportar durante nove meses os abusos do marido até os teólogos concluírem que a única solução é o divórcio? Responde David Munir: “O marido tem de sair de casa e ela fica. Se já não houver convivência pacífica, ele vai para a rua. E isto é Shariah!”

Sheik Munir admite que, no Corão, se diz que “quando uma mulher continua a ser desobediente”, depois de admoestada pelo marido, este pode “bater-lhe suavemente” – e exemplifica com uma palmadinha na mão. “Mas, isto é teoricamente”, realça. “Na prática, o profeta [Maomé] nunca levantou a mão a nenhuma das suas esposas, e até chamou a atenção de vários maridos para não baterem nas suas mulheres.”

Para que tudo fique bem claro, David Munir adianta: “Se vivemos numa sociedade onde é comum os homens baterem nas mulheres, não podemos dizer que isso é islâmico. É usar o Islão erradamente. Eu defendo que não se deve bater, que não se deve levantar a mão.”

“E, se por acaso, numa disputa, numa azeda troca de palavras, o homem for violento, que de imediato peça desculpas. Mas se persistir, e a mulher já não o conseguir aturar, ela tem o direito de pedir o divórcio, e o divórcio ser-lhe-á dado. Se ela se justificar, com provas, ele será obrigado a divorciar-se.”

© globalnoticias.pt

O imã reconhece que algumas mulheres preferem sofrer em silêncio do que denunciar os maus-tratos a que são sujeitas pelos maridos. “Para a comunidade, estes são uns santos, pessoas exemplares, e elas temem não ser levadas a sério.”

O que faz o Sheik? “Eu tento encorajar as mulheres a pedirem ajuda a instituições que as protejam, a si e aos seus filhos, ou que me deixem falar directamente” com os abusadores.

Já aconteceu a David Munir ser, “surpreendentemente”, chamado pela Comissão de Protecção de Menores, “porque envolveu até a polícia”, para dar o seu parecer numa disputa de tutela de filhos por um casal de muçulmanos convertidos.

Nestas situações, ele aconselha de acordo com a Sharia, mas a palavra final cabe aos tribunais civis – aliás,  faz questão de sublinhar que todos os casamentos litigiosos são encaminhados por si e pelos seus colegas imãs para as instâncias do Estado. Eles só tratam de separações amigáveis, e assevera que nunca tiveram de decidir sobre quem tinha direito à custódia das crianças.

Se ele tivesse de o fazer, não tem dúvidas de que avaliaria “o que seria melhor” para os filhos. “Há pessoas que dizem que os filhos, após um divórcio, pertencem ao pai, mas não é bem assim”, explica. “Se a criança for menor, nos primeiros dois anos, fica com a mãe por causa do aleitamento.”

“O que a natureza nos diz é que a criança precisa mais da mãe. O pai é obrigado a dar o sustento. A criança só tem de ficar com o pai se a mãe não tiver condições, físicas, mentais ou financeiras, de a criar. Há teólogos que defendem uma tutela conjunta.”

“Até agora, nunca fomos solicitados a decidir em termos de tutela, mas houve casos em que a questão se colocou, por exemplo, se um pai que passa o tempo fora de casa está em condições de manter os filhos.”

© cm-lisboa.pt

[Em 2015, David Munir foi acusado de agredir a mulher, Nazira Barakzay. A jovem refugiada afegã, com quem ele vivia desde 2014, teve de receber tratamento hospitalar e apresentou uma queixa-crime numa esquadra da Polícia. Após um acordo de divórcio, ela abandonou a Mesquita Central e mudou-se para um apartamento em Odivelas.]

Casos mais comuns que são submetidos à apreciação dos teólogos são os relacionados com dívidas. “Alguém vem à comunidade e queixa-se: ‘Aquele fulano, que vocês conhecem, deve-me dinheiro e não me paga’.”

“Então, chamamos a pessoa acusada, conversamos com ela, vemos como foi feito o contrato de empréstimo, se foi verbal ou por escrito, se passou ou não pelo notário, e as pessoas envolvidas acabam por aceitar as nossas decisões. É que o devedor, se não pagar, está a desrespeitar a sua crença, e fica numa situação desconfortável perante a comunidade.”

[Nota: no site da Comunidade Islâmica da Web, uma senhora apenas identificada como Patrícia pergunta: Sou cristã e busco respostas sobre casamento muçulmano – direitos e deveres. Meu marido deseja converter-se em muçulmano.

Uma das principais razões é o facto de desejar ter outra mulher, por sua vez muçulmana, que conhecer há pouco tempo. Acontece que amo o meu marido e desejo a sua felicidade mas seu comportamento mudou comigo.

Pretende que eu abdique do nosso quarto para estar com ela. Pretende que eu continue a trabalhar, enquanto ela fica em casa à espera dele. Até falou em arranjar empregada para ela não fazer nada em casa. Amo o meu marido mas sinto seu coração injusto.

E se meu marido deseja ser muçulmano, eu só desejo conhecer a lei muçulmana para saber se ele está sendo correcto comigo ou não. Dentro de 15 dias essa mulher muçulmana chega a nossa casa.]

Sheik Munir vai lendo em voz alta a mensagem à sua frente, linha a linha, e começa a dar respostas, sabendo que a poligamia é permitida pelo islão mas proibida em Portugal (e também em países muçulmanos de regimes laicos como a Tunísia e a Turquia).

“Se o homem for muçulmano, para casar com outra não pode dar a esta o quarto da primeira mulher”, sentencia. “Já está a começar mal. Isto não é Shariah. Se uma das mulheres trabalhar, a outra tem de trabalhar. Isto é Sharia.”

“Se ele arranjar empregada para uma, tem de arranjar para outra. Se ele já está a ser injusto, então não justifica ter outra mulher, porque vai manter a injustiça. O Alcorão diz: ‘se tiver receio de não ser justo [com as suas mulheres, que podem ser quatro], fique só com uma”.

“Eu aconselharia esta senhora [Patrícia] a divorciar-se do marido, para ele se casar com a outra. Vai custar, porque ela diz que gosta dele, mas é melhor ela sofrer durante seis meses ou um ano do que viver em permanente instabilidade.”

Mais informações sobre a Comunidade Islâmica de Lisboa podem ser encontradas aqui

Sheik David Munir
© Notícias Magazine

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 13 de Março de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 13, 2008

Há um “lobby” na América sem medo de criticar Israel

Chama-se J Street. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que “apoiam ruidosamente o Estado judaico em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz”. Tem um poderoso adversário: o AIPAC, “infiltrado” por Likudniks, neo-conservadores e cristãos fundamentalistas. Mas também um potencial aliado: Barack Obama. (Ler mais | Read more…)

“É muito difícil dizer ‘Eu apoio Israel, ponto final’. Porque a pergunta a seguir é. ‘Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas?”, declarou Daniel Levy, um dos fundadores de J Street
© Mohamad Torokman | Reuters

Em Washington não há nenhuma J Street (as ruas horizontais vão directamente do I ao K), mas é aqui que as palavras de Barack Obama de visita a Israel serão ouvidas, provavelmente, com mais atenção.

J Street é o nome de um novo lobby nos Estados Unidos que alguns analistas prevêem irá “mudar o mapa político americano e do Médio Oriente”.

Reparem no que me diz, por telefone, Daniel Levy, um dos cem membros do conselho consultivo de J Street.

“Hoje em dia, é muito difícil dizer ‘Eu apoio Israel, ponto final’. Porque a pergunta a seguir é. ‘Que Israel? Israel dos colonos ou Israel que quer acabar com a ocupação? Israel que quer destruir o Hamas ou Israel que acredita que é preciso negociar, ainda que indirectamente, com o Hamas? “

“Israel que quer reter os Montes Golã e não acha importante dialogar com a Síria ou Israel que quer tratados de paz com os vizinhos sendo que isso implica devolver territórios?”

“Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel”, frisa Levy, asseverando que J Street não terá medo de enfrentar um primeiro-ministro israelita [como Benjamin Netanyahu] que não comungue as posições do grupo.

Até podem acusá-lo de ser “antissemita” ou “self-hating Jew” (judeu que se odeia a si próprio) – expressões frequentemente usadas para silenciar os críticos das acções de Israel.

“Os israelitas, por estreita ou larga margem, podem eleger um líder que se opõe ao processo de paz, mas não seremos apoiantes de opositores de paz.”

“Haverá pessoas que irão intimar-nos: ’Vocês têm de apoiar o Governo israelita!’”, reconhece Levy. “Mas eu responderei que isso não se aplica a nenhum outro país. Eu posso ser pró-Venezuela e não apoiar a política de Hugo Chávez [1954-2013]. Posso ser um grande admirador da República Checa mas posso não achar uma boa ideia instalar ali um sistema americano de defesa antimíssil.”

“Todos nós, na América, sobretudo os judeus, temos ligações emocionais a Israel, mas não podemos deixar de ser racionais, como se Israel vivesse noutro planeta”, alerta Levy.

“Será uma política destrutiva ajudar Israel avaliando-o segundo padrões diferentes. Israel precisa de fronteiras negociadas e reconhecidas. Às vezes abraçamos Israel quase até à morte. Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado.”

Israel é o maior receptor de ajuda directa dos Estados Unidos (cerca de 3000 milhões de dólares anuais). No entanto, como já havia notado Levy num artigo na American Prospect, não é submetido a qualquer pressão.

Pelo contrário, “pode gozar uma ocupação de luxo – já gastou mais de dez mil milhões de dólares em colonatos desde 1967.” Ora, este “vício de mau comportamento sem consequências conduz à tentação de uma escalada (…) e estrangula uma solução viável de dois Estados.”

“Às vezes abraçamos Israel quase até à morte”, diz Daniel Levy. “Amamos Israel de uma maneira que não é saudável. É como darmos as chaves do carro a um amigo embriagado”
© Mohamad Torokman | Reuters

As palavras são duras, mas Levy é um “peso-pesado”. Cientista político de origem inglesa, é filho de Michael Levy, membro da Câmara dos Lordes, líder da comunidade judaica no Reino Unido e um dos maiores angariadores de fundos da campanha de Tony Blair. Foi conselheiro de três líderes israelitas – Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon.

Participou nas negociações com os palestinianos em 1995 (Oslo B) e em 2001 (Taba). Foi um dos principais redactores da Iniciativa de Genebra (ambicioso plano de paz), é senior research fellow na New American Foundation e é senior fellow da Middle East Task Force na Century Foundation e no European Council on Foreign Relations. Também dirigiu o Middle East Channel  da Foreign Policy Magazine, dos maiores fóruns de debate online.

Não o confundam com os anti-sionistas de extrema-esquerda Noam Chomsky ou Norman Finkelstein. Mas também não o incluam no grupo de neo-conservadores de Bernard Lewis. Assumidamente “liberal e progressista”, coloca-se no “centro político”.

Embora não pertença ao “núcleo duro” de J Street, cujo director executivo é Jeremy Ben-Ami, antigo conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e neto dos fundadores de Telavive, Daniel Levy tem sido descrito como “o ideólogo” e Ben-Ami como o “chefe de operações” do novo lobby.

E este, apresentando-se como “braço político do movimento pró-Israel e pró-paz” nos EUA (as suas bases são organizações como American for Peace Now e Israel Policy Forum), quer ser “uma alternativa” ao velho establishment judaico, “infiltrado” pela direita israelita do Likud, pelos neocon e por cristãos evangélicos fundamentalistas.

Ou como Levy os caracterizou, “uma combinação que tem sido um desastre para a política americana e para Israel.”

É uma tarefa árdua, “redefinir o que é ser pró-Israel”, já que o AIPAC tem 200 funcionários, 100 mil membros e um orçamento anual de 60 milhões de dólares, enquanto J Street tem [em 2008] quatro funcionários, 1,5 milhões de dólares e, por enquanto, apenas 40 mil “filiados”.

Nada que atemorize Daniel Levy. “Conseguir a adesão de 40 mil pessoas em apenas três meses é significativo”, sublinha. Mais: do orçamento de 1,5 milhões, cerca de 1,1 milhões já foram angariados online.

A Internet é uma das ferramentas com que J Street tenciona fazer a diferença. “Estamos a usar os instrumentos modernos de organização política, como o MoveOn.org [um projecto virtual que inspirou também a campanha de Obama].”

“Queremos criar uma grande circunscrição online, que permita financiar candidatos favoráveis à paz, já que somos também um PAC [Political Action Committee]”.

“Hoje, já não é convincente o argumento de que o modo incondicional como a América apoia Israel é bom para a América e para Israel”, sublinha Daniel Levy
© Ha’aretz

Entre os primeiros candidatos ao Congresso apoiados por J Street está um republicano, Charles Boustany, o que responde às dúvidas dos que se interrogavam sobre se o novo lobby só estaria ao lado de democratas. Há quem acredite que estes apoios vão abalar, ainda que modestamente, a influência do big brother AIPAC no Capitólio.

Exemplo: Agora, sempre que alguém vir o seu financiamento reduzido por ter feito declarações que o AIPAC considera “anti-Israel”, pode sempre telefonar para J Street a pedir o dinheiro que faltou, ainda que J Street seja mais um endereço URL do que um edifício.

O nome foi propositadamente escolhido para preencher um vazio, tem explicado Ben-Ami. Porque não há rua J em Washington e porque a K Street está cheia de lobbies que “apoiam ruidosamente Israel em situações de guerra mas ficam silenciosos em negociações de paz”.

Esta frase, colocada num anúncio no New York Times, é uma implícita referência ao AIPAC com o qual muitos judeus americanos e israelitas já não se identificam.

Entre os 100 membros do conselho consultivo de J Street há rabis, académicos, políticos, CEO e prémios Nobel. E entre os supporters (apoiantes) em Israel estão diplomatas, políticos, ex-generais e antigos operacionais dos serviços secretos.

É o caso de Yossi Alpher, que foi responsável da Mossad e agora colabora no site israelo-palestiniano Bitterlemons [desactivado em 2013, devido ao impasse que deixou moribundo no processo de paz, segundo os administradores].

Inquirido sobre a sua adesão ao novo lobby, Alpher respondeu por e-mail: “Estou convicto de que Israel merece estar mais bem representado entre os judeus americanos no que diz respeito a questões do processo de paz. J Street, ao contrário do AIPAC, é muito mais representativo da opinião dos judeus americanos.”

O cientista político Daniel Levy foi conselheiro de três dirigentes de Israel: Ehud Barak, Yossi Beilin e Haim Ramon
© New American Foundation

Isso não dissuadiu, porém, Barack Obama de discursar na conferência anual da AIPAC. O senador do Illinois, cujo nome do meio é Hussein, tinha de provar as suas credenciais “pró-Israel”, até porque precisa do eleitorado judeu que está a ser cortejado pelos republicanos em swing states, como a Florida.

Foi aplaudido de pé quando declarou que “Jerusalém permanecerá a capital de Israel e deve continuar indivisível”.

Claro está que os árabes, encorajados por anteriores declarações de Obama em que admitiu “não concordar com todas as acções do Estado de Israel” e retratou o conflito israelo-palestiniano como “uma ferida aberta que infecta toda a política externa dos EUA” (The Atlantic), ficaram decepcionados.

Dias depois, Obama deu uma entrevista à CNN, esclarecendo que o estatuto de Jerusalém “ é uma questão a ser negociada pelas partes”.

Levy achou importante esta clarificação. “Ele aceitou os ‘Parâmetros Clinton’, ou seja, que os bairros árabes em Jerusalém serão palestinianos e os bairros judeus serão israelitas.

O que ele quis dizer é que não deve haver um arame farpado a dividir a cidade como em 1967 [antes da Guerra dos Seis Dias], e até admitiu que a frase que usou [na convenção do AIPAC] não foi bem escolhida. Também disse que Israel precisa, para sua segurança, de uma solução de dois Estados. E esta é uma posição encorajadora.”

Além disso, mais do que a referência à Jerusalém, o que foi importante, para Levy, no discurso de Obama ao AIPAC foi a promessa de que resolver o conflito israelo-palestiniano será uma prioridade.

O apoio que exprimiu às negociações entre Israel e a Síria. E a afirmação de que, na abordagem ao Irão, privilegiará a diplomacia e não uma nova guerra.

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Jeremy Ben-Ami é co-fundador (tal como Daniel Levy) e director executivo de J Street. Membro do “núcleo duro” do novo lobby, foi conselheiro do ex-Presidente Bill Clinton e é neto dos fundadores da cidade de Telavive
© J Street

Quanto ao generalizado sentimento israelita de que o Irão constitui uma ameaça existencial e tem de ser contido, a análise de Levy é esta: “Acho que, em Israel, há uns genuinamente preocupados e outros que criam um pânico desnecessário, por causa das coisas nojentas que o [anterior] Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad diz e, também, das ambições do Irão de ser uma potência regional. Há uma mobilização em Israel para a necessidade de bombardear o Irão.”

“Os israelitas olham para o passado e dizem: ‘Bombardeámos o reactor no Iraque, bombardeámos algo na Síria e por isso OK, podemos bombardear os vizinhos, porque resulta. O problema é que o debate público não está a considerar que a situação no Irão é muito diferente e muito perigosa se houver uma guerra.”

Levy compara o ambiente em Israel com o que existe em muitas sociedades em conflito. “Os israelitas são frequentemente tentados a pensar: ‘Não há solução, vamos bombardeá-los’, o que até é compreensível, mas não é uma boa política. Uma maioria de israelitas apoiou a guerra no Líbano em 2006, mas agora admitem que foi um fucking mistake, mas na altura achavam que era uma grande ideia.”

“A maioria dos israelitas apoia ataques militares na Faixa de Gaza mas também apoia o cessar-fogo com o Hamas. Há muitas dissonâncias nas sociedades em conflito. Eu creio que os israelitas ficariam muito felizes se houvesse uma solução diplomática para o Irão.”

Levy está, por isso, entusiasmado com a campanha de J Street contra uma guerra ao Irão: “Uma carta a todos os candidatos ao Congresso obteve mais de 30 mil assinaturas online numa semana”.

Outro sucesso que o novo lobby reclama é uma petição que forçou o candidato republicano, John McCain, a renegar o apoio do reverendo John Hagee, pastor da congregação Christians United for Israel (CUI), aliada do AIPAC.

Na ânsia de apressar o “segundo regresso do Messias”, Hagee fez um sermão que causou uma onda de repulsa: “Deus disse a Jeremias: ‘Enviarei muitos pescadores e depois enviarei muitos caçadores’. Os pescadores são os sionistas, homens como Theodor Herzl. (…) E os caçadores? Hitler foi um caçador.”

“Como é que isso [o Holocausto] aconteceu? Porque Deus permitiu que acontecesse. Por que aconteceu? Porque Deus disse: ‘A minha máxima prioridade é fazer retornar o povo judeu à Terra de Israel.”

Mearsheimer e Walt atacaram o AIPAC, mas apoiam J Street

 John Mearsheimer eStephen Walt (à esquerda) e autores do livro The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy @Maarten Derkse

John Mearsheimer e Stephen Walt (dir.), autores de The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy
© Maarten Derkse

O aparecimento de um novo grupo de pressão para melhor defender os interesses da América e do Estado judaico “é um desenvolvimento positivo”, dizem ao P2 os autores do polémico livro The Israel Lobby

Em 2006, quando John J. Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, publicaram The Israel Lobby and the U.S. Foreign Policy, primeiro um artigo na London Review of Books (LRB) e depois um livro (em 2007), receberam mais insultos que elogios.

[O livro seria editado em Portugal, em 2010,  pela Tinta da China, com o título “O Lóbi de Israel e a Política Externa dos Estado Unidos da América”.]

Quebraram um tabu, ao afirmar que, depois da Guerra Fria, Israel se tornou um fardo mais do que um trunfo estratégico para os Estados Unidos.

Dois anos depois, o aparecimento de J Street vai ao encontro de uma das suas recomendações, no capítulo final: “A criação de um ‘novo lobby’ que pressione a favor de políticas mais inteligentes”.

Falando em seu nome e no de Mearsheimer, numa entrevista que me deu, via e-mail, Walt esclareceu que nenhum deles esteve envolvido na génese de J Street: “Achamos que é um desenvolvimento positivo [embora] não tenhamos provas de que haja uma ligação directa com o nosso livro.”

“O que é mais evidente é que ambos [o livro e o novo lobby] reflectem uma crescente tomada de consciência de que a política dos Estados Unidos para o Médio Oriente é obviamente má e não serve os interesses da América nem os de Israel.”

“Nós enfatizamos isto no nosso livro, mas outras pessoas, incluindo os fundadores de J Street, seguramente que compreenderam isto muito antes de o nosso livro ter sido publicado.”

“Não há nada de errado em ter uma comunidade pró-israelita politicamente influente nos Estados Unidos, se [o objectivo] for lutar por políticas com sentido estratégico e moral, em vez das políticas contraproducentes dos grupos que o AIPAC [American Israel Political Action Committee] tem apoiado”, frisam Walt, 53 anos, e Mearsheimer, de 61, seguidores da teoria do “realismo ofensivo”, segundo a qual o interesse nacional deve ser a única motivação da política externa de um país.

Ambos mantêm a afirmação de que “o apoio incondicional de Israel – sobretudo das suas políticas brutais em relação aos palestinianos nos territórios ocupados – é uma das razões, ainda que não a única razão, do anti-americanismo crescente no mundo árabe e islâmico”.

E acrescentam: “Uma política mais equilibrada dos EUA em relação a Israel e aos árabes não resolveria todos os problemas na região mas afastaria um dos principais focos de tensão e facilitaria a resolução de outros problemas. Também achamos que uma política mais equilibrada seria do interesse de Israel, porque estaria mais em consonância com as noções básicas de decência e justiça.”

Em The Israel Lobby, encomendado (em 2002) e rejeitado (em 2004) pela Atlantic Monthly, Mearsheimer e Walt recomendam que Israel seja tratado como “um país normal”. Esse é também um velho sonho sionista, mas que prazo para isso ser possível?

“Se começarmos a ter um discurso mais aberto e honesto sobre Israel e os Estados Unidos, as atitudes e as políticas podem mudar rapidamente”, respondem. “Mas, claro, é por isso que grupos no [velho] lobby se esforçam tão arduamente por impedir uma discussão franca.”

Apesar de acusações de “anti-semitismo”, de “ensaio conspirativo” ou de “trabalho científico medíocre”, os autores de The Lobby garantem que as suas carreiras, como membros de uma elite académica (Walt foi, entre 2002 e 2006, reitor da Kennedy School of Government em Harvard), não foram arruinadas.

“É cedo para avaliar o impacto do nosso livro, mas acreditamos que contribuímos para um debate mais livre sobre esta questão importante”, salientou Walt. “Ainda é muito complicado um diálogo crítico sobre a política israelita, as relações EUA-Israel e o próprio lobby.”

“Silenciar o debate, caluniando as pessoas como ‘anti-semitas’, é inconsistente com os princípios da liberdade de expressão e dificulta ainda mais a discussão séria de assuntos vitais. Se não pudermos discutir esses assuntos, os EUA vão provavelmente continuar as suas políticas insensatas no Médio Oriente, em detrimento de todos os envolvidos”.

© Times of Israel

Estes  artigos, agora revistos e actualizados,  foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO em 2008 | These articles, now revised and updated, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2008

Um “arquivo perdido” vai colocar o Corão no “lugar certo da História”

Durante mais de meio século, um arabista alemão manteve escondidos centenas de rolos de fotos de manuscritos antigos do Corão que poderiam ter permitido um estudo crítico semelhante ao da Bíblia. Os actuais investigadores rejeitam um cenário de “Indiana Jones e o Código Da Vinci”. E avisam que não se deve esperar um texto “novo” ou “diferente”. (Ler mais | Read more…) 

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Um total de 450 rolos de microfilmes e fotos de cópias antigas do Corão – quase contemporâneas de Maomé, datam do ano 700, ou seja, muito próximo do texto original – esteve escondido durante mais de meio século em caixas de charutos, tabuleiros de plástico e uma lata de bolachas, em Munique.

Em 1975, o arabista alemão Anton Spitaler lamentava que este arquivo tivesse sido “destruído”, quando o edifício do século XVI da Academia das Ciências e Humanidades da Baviera foi bombardeado pela aviação britânica, na noite de 24 de Abril de 1944, porque tornou “inteiramente impossível” um estudo crítico do livro sagrado dos muçulmanos.

Spitaler morreu em 2003 e hoje, com as imagens reencontradas e guardadas num cofre em Berlim, os investigadores do projecto Corpus Coranicum interrogam-se por que é que ele mentiu.

“É um enigma”, diz-me, numa entrevista por telefone, Michael Marx, o coordenador do projecto lançado em 2007 pela Academia das Ciências e Humanidades de Berlim-Brandenburgo.

No entanto, ao contrário do Wall Street Journal (WSJ), que revelou a história do “arquivo perdido” em primeira página, Marx não relaciona o adiamento de um estudo do Corão semelhante ao processo de exegese da Bíblia com as ligações ao III Reich de alguns académicos da época.

“Não se justifica dizer que os académicos tinham uma agenda nazi (….), ainda que alguns, mas não todos, simpatizassem com os nazis”, assegura Marx num artigo de resposta ao WSJ, que nos enviou e permitiu citar. Ele também não olha para o arquivo que, nos próximos 18 anos, com financiamento do Estado germânico, vai ser estudado por uma equipa de 12 pessoas, como sendo uma colecção de “misteriosos” documentos.

Em seu entender, “parece muito improvável” a hipótese de emergir um “novo texto”, um “texto diferente” ou um “cenário histórico completamente novo da génese do texto”, dada a “escassez de prova material”.

“As pessoas envolvidas nas primeiras investigações, [Gotthelf] Bergsträsser e [Otto] Pretzl morreram cedo, em 1933 e 1941, e os que lhes sucederam em Munique [como Spitaler] não estavam interessados”, diz Marx na conversa telefónica.

“Creio que não foi uma decisão deliberada esconder as fotos dos manuscritos, foi talvez um pouco de ignorância. Eles estavam a investigar outras coisas e não olharam para os textos históricos do Corão.”

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A história, tal como foi contada pelo WSJ, tem os condimentos do que o Asia Times Online designou posteriormente de “mistura de Indiana Jones e Código Da Vinci”, sendo que, aqui, os maus da fita até são nazis embora não haja bilionários e monges homicidas do Opus Dei .

Tudo começa com o linguista Bergsträsser, um dos maiores especialistas em línguas semitas (Aramaico, Hebraico e Árabe) que, no início do século XX, viajou pelo Médio Oriente, Norte de África e Europa, fotografando velhas cópias do Corão com a primeira câmara Leica transportável.

Em 1933, meses depois de Hitler se tornar chanceler, Bergsträsser morreu nos Alpes Bávaros em circunstâncias misteriosas. Era um montanhista experiente e o seu corpo nunca foi autopsiado. Especulou-se que teria sido suicídio ou um crime.

A Bergsträsser sucedeu Otto Pretzl, que, em 1934, partiu para Marrocos, também munido de uma Leica, tendo convencido “desconfiados” teólogos numa biblioteca real a deixá-lo registar um antigo manuscrito do Corão.

Quando Pretzl morreu em 1941 – o avião em que seguia despenhou-se –, foi Spitaler, que também ajudara a recolher algumas fotos, quem ficou como guardião do arquivo, até à sua morte, aos 93 anos.

Ao contrário de Bergsträsser, que era um opositor do regime hitleriano e ajudou a salvar muitos colegas judeus, Pretzl e Spitaler estiveram ao serviço dos nazis. Pretzl trabalhou, segundo o WSJ, nos serviços secretos militares, “interrogando soldados de língua árabe capturados durante a invasão da França”.

Terá sido também enviado numa “missão para provocar uma insurreição árabe contra as tropas britânicas no Iraque.”

Spitaler, por seu turno, terá sido “tradutor no Batalhão de Infantaria Germano-Árabe 845, uma unidade de voluntários árabes da causa nazi”. Quando a guerra acabou, Spitaler regressou ao mundo académico e dedicou-se à elaboração de um Dicionário de Árabe Clássico, que não concluiu, apesar de 50 anos de trabalho.

Em meados da década de 1970, já prestes a reformar-se da universidade em Munique, terá começado a mudar caixotes para uma sala da Academia das Ciências da Baviera.

A última aluna cuja tese de doutoramento orientou, Kathrib Müller, disse ao WSJ que espreitou os caixotes e viu rolos de fotos. Inquirido por ela sobre o que se tratava, o professor recusou responder. Agora, Müller tem “a certeza” de que eram as imagens dos manuscritos do Corão.

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“É claro que um estudo crítico podia ter sido feito há 60 anos, mas estamos a fazê-lo agora”, frisa Michael Marx, na conversa telefónica. “Não creio que tenha sido uma oportunidade perdida, porque o nosso projecto [Corpus Coranicum] está a trabalhar nele.”

Além disso, na resposta ao WSJ, Marx salienta que, “embora forneça uma excelente panorâmica de importantes manuscritos antigos de bibliotecas da Europa e do Médio Oriente, o arquivo de Bergsträsser não pode servir como varinha mágica.

Do material que já foi introduzido numa base de dados [que ficará disponível na Internet, revelou-nos, em 2009], são injustificadas as expectativas de que os velhos manuscritos corânicos (…) incluídos no arquivo ofereçam um texto diferente do Corão”.

Adianta Marx: “É interessante notar que as diferenças ortográficas observadas nos manuscritos do século VIII são variações de pronúncia que uma comparação com edições do Corão do século XX no Paquistão, Egipto, Arábia Saudita, Marrocos e Nigéria mostra ainda existirem.”

“(…) Podemos dizer que a atitude face ao texto de permitir ambiguidade e uma série de leituras é característica da tradição muçulmana desde os primeiros tempos.”

E Marx continua: “Até à data presente, o Corão é recitado de um modo acústico e textual ligeiramente ‘divergente’ em Marrocos e no Egipto.”

“O que [o Corpus Coranicum] procura é um estudo sistemático de todo o material disponível, manuscritos ou fontes sobre diferentes tradições islâmicas de leitura, de modo a estudar o texto do Corão – da mesma maneira que a Bíblia hebraica e o Novo Testamento são estudados – com a devida diligência, conhecimento e precisão.”

Nesta entrevista, Marx precisa: “O estudo crítico da Bíblia não se reduziu ao povo crente, não havia uma contradição com a teologia cristã ou judaica.”

“Pelo contrário, permitiu uma melhor compreensão do texto. No nosso projecto, não podemos responder à questão se o Corão veio ou não de Deus. Não é um estudo metafísico – ninguém pode fazer isso. Está para lá da nossa missão.”

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Este é um projecto “sensível”, admite Marx, mas “não podemos dizer que os muçulmanos se opõem, porque temos muçulmanos a cooperar connosco. Demos palestras, o ano passado, em países islâmicos – em Marrocos, no Irão, na Síria, na Turquia –, para termos discussões científicas.”

“(…) Seja no Médio Oriente ou na Europa, quase todos com quem falámos apoiam o nosso estudo, até Patricia Crone [uma historiadora revisionista, para quem o Corão é um texto falso] e académicos conservadores iranianos.”

Um dos muçulmanos que está a colaborar com o Corpus Coranicum é Islam Dayeh, discípulo de Angelika Neuwirth, reputada especialista em Corão na Universidade Livre de Berlim e actual guardiã dos 450 rolos que Spitaler ocultou.

Em resposta a perguntas enviadas por e-mail, o doutorando Dayeh lembra que o “arquivo perdido” é apenas constituído por fotos e microfilmes de manuscritos recolhidos durante viagens por países muçulmanos.

“Não são as Escrituras do Mar Morto nem o Evangelho de Judas!”, sublinha. “Os manuscritos originais ainda se encontram nos países muçulmanos.”

Além disso, “o arquivo de Bergsträsser e Pretzl não é a única fonte do estudo do Corão, porque muitas bibliotecas contêm manuscritos do Corão, e o maiores tesouros de manuscritos corânicos e literatura islâmica encontram-se em países muçulmanos, como a Turquia, o Egipto, Marrocos e o Iémen”, constatou Dayeh.

O aluno de Angelika Neuwirth, fundadora do Corpus Coranicum, juntamente com Michael Marx e Nicolai Sinai, critica o WSJ por não ter dado aos académicos muçulmanos “o direito de se representarem a si próprios”.

O jornal “não cita, manipula”, segundo Dayeh, Nasr Abu Zayd, um professor egípcio que teve de procurar asilo na Holanda pela “heresia” de descrever o Corão como “texto literário”, Moncef ben Abdeljelil, um tunisino que disse preferir “guardar silêncio” sobre o seu estudo crítico, e Filali Ansary, um marroquino para quem questionar o livro sagrado do islão “é como dizer que Jesus é gay”.

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“Estes académicos muçulmanos são apenas mencionados como confirmação das dificuldades de estudar um texto misterioso, exótico e perigoso chamado Corão”, lamenta Dayeh.

“Abu Zayd é meu professor, e eu conheço as obras dos outros dois académicos [Abdeljelil e Ansary]. Eles não são superficiais como o artigo [do WSJ] os apresenta.”

“Têm publicado sobretudo (mas não só) em árabe, para leitores árabes, e contribuíram com grandes estudos (sofrendo muitas vezes com isso), embora a maior parte da sua obra árabe não seja conhecida no Ocidente, até por académicos famosos.”

“Daí o interesse e a diferença da equipa de Angelika Neuwirth: nós levamos a sério o trabalho académico dos muçulmanos e envolvemo-nos com eles. Um texto não existe sem a sua comunidade.”

Bergsträsser, recorda Dayeh, “visitou o Egipto e encontrou-se com grandes estudiosos do Corão na Universidade de al-Azhar. Ficou fascinado com os seus progressos e falou positivamente do conhecimento deles. Respeitava-os e queria cooperar com eles.”

“Também Spitaler foi um grande orientalista e o seu trabalho na filologia árabe permanece importante. O modo como o WSJ o apresenta é claramente tendencioso. Por que foi necessário ligar a carreira de Spitaler aos nazis neste contexto? O Corão não era o seu único interesse académico. (…) Acho esta campanha contra ele muito bizarra.”

Inquirido sobre se o estudo crítico do Corão não poderá ser rejeitado pelo mundo islâmico como um risco existencial, Dayeh replica: “A história dos estudos bíblicos mostra como é difícil analisar os cânones religiosos (…), mas as comunidades evoluem e as suas preocupações políticas e religiosas evoluem com elas. (…)”

“A diversidade das tendências políticas e intelectuais mostra que os árabes estão a colocar questões e estão a rever de forma crítica o seu passado. (…) Ao colocarmos o texto no seu contexto histórico, estamos a permitir que ele nos fale tal como se dirigiu à sua audiência original. Significa que estamos a colocar o texto no lugar certo da História das religiões e das ideias.”

Angelika Neuwirth, a professor of Arabic studies at Freie Universität Berlin, was granted an honorary doctorate from Yale University’s Department of Religious Studies. She was selected for this award as she is one of the world’s leading scholars of the Koran. The honorary degree was presented by Richard C. Levin, the president of Yale University, during a ceremony in New Haven. Last year Neuwirth was named an honorary member of the American Academy of Arts and Sciences. @DR

Angelika Neuwirth, que dirige o projecto Corpus Coranicum, é professora de Estudos Árabes na Freie Universität Berlin (Alemanha). Em 2012, a Universidade de Yale atribuiu-lhe um doutoramento honorário, reconhecendo-a como “uma das maiores especialistas na exegese do Corão”. Em 2011, tornou-se membro de honra da American Academy of Arts and Sciences

O Islão visto numa perspectiva europeia

Ao estudarem o “arquivo perdido” em Munique, uma das prioridades dos investigadores do Corpus Coranicum, na Academia das Ciências e Humanidades de Berlim-Brandenburgo, é “mostrar que o Corão pode ser visto também como um texto europeu”, afirma Michael Marx, coordenador  do projecto, em entrevista que me deu.

“Vamos tentar perceber como é que o Corão está interligado com antigas tradições judaicas, cristãs e árabes, para entender como é que evoluiu este texto”, explica Marx, por telefone. “Na Europa, há a ideia de que Judaísmo e Cristianismo são religiões fortes para a identidade europeia,embora sejam do Médio Oriente.

Então, por que não incluir o Islão e os seus primeiros textos numa perspectiva europeia? Poderemos integrá-lo na Europa, e é esse, em parte, o nosso objectivo.”

“Queremos oferecer uma leitura europeia do Corão e acomodar o islão com as outras duas religiões [monoteístas]”, adianta Marx.

“Pretendemos colocar o Islão na História, de modo a entender que tipo de mensagem quis transmitir. Para perceber a comunicação é preciso reconstruir o contexto à volta, e é isso que tencionamos fazer.”

“O estudo da Bíblia, mais do que revolucionário, foi um passo necessário, e queremos agir de igual modo com o Corão. Temos de o colocar na mesma mesa que o Antigo e o Novo Testamentos, do ponto de vista académico, no Oriente e no Ocidente.”

“Não é uma revolução – ainda que algumas pessoas perguntem se estudar o Corão significa participar numa guerra. Tem de ser feito. E este é o tempo para o fazer”, concluiu Marx.

  Olhares críticos sobre um livro sagrado

Os Mu’tzalitas

A doutrina dos Mut’zalitas, síntese ente razão e revelação, prevaleceu durante o Califado Abássida de al-Ma’mun (813-833), mas a controvérsia que gerou, com a repressão violenta dos conservadores fiéis à teoria da eternidade, acabou por ser responsável pela sua queda, no final do século X. A partir daqui, foi instituída a doutrina do i’jaz ou “inimitabilidade” do Corão (só o texto árabe é reconhecido), o que muitos consideram ser “um ponto de viragem na história islâmica”.

Theodor Nöldeke

Académie des Inscriptions et Belles-Lettres de Paris lançou em 1857 um concurso para a “melhor história crítica do Corão” e Theodor Nöldeke ganhou, tornando-se desde logo uma referência para muitos orientalistas, sobretudo quando, no ano seguinte, a reescreveu para alemão, Geschichte des Korans.

Embora a obra deste linguista nascido em Hamburgo seja vasta e variada, ela centra-se sobretudo no estudo das línguas semitas (Árabe e Aramaico) – de que é considerado um dos maiores especialistas do século XIX– e na história da civilização do Islão.

Um dos seus discípulos foi Gotthelf Bergsträsser, o especialista em línguas semitas que começou a formar o “arquivo perdido” que o Wall Street Journal noticiou. Embora contestado por alguns académicos muçulmanos, Nöldeke é visto como tendo sido o que lançou no Ocidente as bases da investigação da história do Corão.

Patrica Crone e Michael Cook

Autores do livro Hagarism: The Making of the Islamic World, publicado em 1977, Patricia Crone e Michael Cook, na altura investigadores na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres, causaram polémica ao pôr em dúvida tudo o que até então se sabia sobre o Corão.

Baseando-se em provas arqueológicas e documentos contemporâneos escritos em árabe, arménio, copa, grego, Hebraico, Aramaico, Latim e Síriaco, a obra de Crone e Cook refere, designadamente, que o livro sagrado dos muçulmanos “não apareceu antes da última década do século VII” e que as conquistas árabes precederam a institucionalização do islão.

A provocação destes historiadores ficou evidente quando eles se identificaram como “infiéis dirigindo-se a infiéis”.

Hoje, ambos reconhecem que não subscreveriam algumas das teorias que publicaram, por exemplo, a de que o profeta Maomé viveu mais dois anos do que atesta a tradição islâmica.

Em todo o caso, Crone, hoje académica do Institute for Advanced Study, em Princeton (New Jersey), continua ser vista como uma “revisionista”, convicta, como ela própria disse num artigo, de que “elucidar passagens problemáticas do Corão só será possível quando for abandonado o relato convencional de como o Corão apareceu”.

John Wansbrough

Americano (1928-2002), John Edward Wansbrough é uma das referências académicas de Gerd Puin e de Patricia Crone, embora estudiosos muçulmanos ataquem o arcaísmo da sua obra – há quem a considere profundamente ofensiva sobre as origens do Islão –, redigida nos anos 1970, quando leccionava na School of Oriental and African Studies (SOAS), de Londres.

Ele terá adaptado ao texto corânico todos os “instrumentos e técnicas” do estudo crítico da Bíblia (na forma, na fonte, na redacção), para concluir que o Corão apareceu gradualmente “nos séculos VII e VIII”, como a “adaptação árabe de escrituras judaico-cristãs”.

Também a figura de Maomé é apresentada por Wansbrough como “um mito fabricado para fornecer às tribos árabes uma versão própria dos profetas judeo-cristãos”.

Gerd-Rüdiger Puin

mais importante autoridade mundial em paleografia corânica, o alemão Gerd-Rüdiger Puin, professor na Universidade do Sarre, anda desde 1979 a estudar “mais de 15 mil fragmentos” de manuscritos do Corão – talvez os mais antigos que se conhecem.

Foram encontrados por operários, sete anos antes, numa vala da Grande Mesquita de Sanaa, no Iémen, quando o edifício estava a ser restaurado. Algumas das páginas remontarão aos séculos VII e VIII d.C., ou seja, aos primeiros dois séculos do islão.

Financiada pelo Governo germânico, a primeira investigação de Puin ao material agora guardado na Casa de Manuscritos do Iémen, indica “uma ordenação dos versículos não convencional, variações de texto e estilos raros de ortografia que divergem da versão posteriormente autorizada, o que refuta a certeza de que o Corão é a palavra de Deus, perfeita, intemporal e inalterada”.

Além de Puin, só outro académico, H.C. Graf von Bothmer, historiador de arte islâmica, também da Universidade do Sarre, foram autorizados a consultar os fragmentos iemenitas.

Em 1997, Von Bothmer finalizou 35.000 microfilmes destes fragmentos e levou-os para um estudo mais aprofundado na Alemanha. “Até agora, o Corão tem estado fora da discussão”, disse Puin, citado num artigo do Atlantic Monthly.

“A única maneira de penetrar está parede é provar que o Corão [tal como a Bíblia] também tem uma história, e os fragmentos de Sanaa vão ajudar-nos a fazer isso. […] A minha ideia é que o Corão é uma espécie de cocktail de textos que não foram todos compreendidos no tempo de Maomé.”

“Muitos deles podem até ser 100 anos mais antigos do que o próprio Islão. Mesmo no âmbito das tradições islâmicas há uma grande parcela de informação contraditória, incluindo um significativo substracto cristão.”

“[…] O Corão clama ser mubeen, ou limpo,  mas se olharmos para ele veremos que cerca de uma em cada cinco frases não faz sentido. Muitos muçulmanos – e orientalistas –dirão obviamente o contrário.. No entanto, a verdade é que 1/5 do texto corânico é incompreensível. Foi isso que causou a tradicional ansiedade face à tradução.”

“Se o Corão não pode sequer ser entendido em árabe, por isso não pode ser traduzido para outra língua. É disso que os muçulmanos têm medo. Dado que o Islão assegura que é claro, mas não é, há uma dúvida e séria contradição. Algo se passa.”

Os manuscritos corânicos de Puin irão ser integrados num “futuro próximo”, no projecto Corpus Coranicum, disse-nos o seu coordenador, Michael Marx.

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 27 de Janeiro de 2008 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 27, 2008

Fairouz foi cantar à Síria e o Líbano ficou em estado de choque

A diva do Levante aceitou um convite para actuar nos festejos de Damasco Capital Árabe da Cultura 2008. Os críticos não lhe perdoam, ainda que interprete uma opereta que troça de um governante opressor. (Ler mais | Read more…)

Fayrouz durante a sua actuação em Damasco, na opereta Sah al-Nom (ou Sah Annom)
© Ramzi Haidar | The New York Times

Aos 73 anos, venerada como um tesouro do Líbano, a cantora Fairouz fez rolar lágrimas ao voltar à Síria, pela primeira vez nas últimas duas décadas, para oito dias de concertos, inseridos nos festejos de Damasco, capital árabe da cultura 2008.

Lágrimas de libaneses, amargurados por verem a sua “embaixadora das estrelas” em território “inimigo”. Lágrimas de sírios, emocionados com a voz muk hmali (de veludo) da celebridade que não tem rival no mundo árabe desde que morreu a egípcia Umm Kulthoum, em 1975.

Para os sírios, aliás, esta visita é muito natural. Dizem que foi a Rádio de Damasco que apresentou ao mundo Fairouz e as suas melodias.

Dizem que as emissões matinais das brigadas do exército sírio ainda começam com os hinos patrióticos que ela imortalizou. E dizem que o defunto Presidente Hafez al-Assad se manteve sempre em contacto pessoal com a cantora, tendo pago os tratamentos do seu falecido marido.

No entanto, na conjuntura actual no Levante, em que a Síria é suspeita de envolvimento numa série de assassínios de políticos, militares e intelectuais em Beirute, a presença de Fairouz em Damasco, mesmo a cantar em playback, causou perplexidade e choque.

Alguns lembram-se de que esta mulher nascida Nouhad (Esplendor) Haddad recusou dar um espectáculo em privado ao Presidente argelino Houari Boumediène, em 1969 (a sua música banida das rádios por seis meses).

E muitos também se recordam que, durante a guerra civil libanesa (1979-1990), a diva de longos cabelos ruivos manteve um silêncio de luto, para não tomar o partido de nenhum dos beligerantes.

Quando regressou ao Festival de Baalbeck, em 1998, actuando para uma audiência emocionada de milhares de cristãos (como ela) e muçulmanos, o jornal anglófono Daily Star descreveu a sua actuação como “catarse a nível nacional”.

Fairouz ­– nome artístico equivalente a “turquesa”, a pedra preciosa – deixou de ser intocável. O líder druso Walid Jumblatt disse que ela se tornou num “instrumento nas mãos dos serviços secretos” de Damasco.

Outro membro do Parlamento, Akram Shehayeb, pediu-lhe que não cantasse para os “carcereiros do Líbano”, alusão aos vizinhos que, de 1976 a 2005, mantiveram 40 mil soldados e espiões no “País do Cedro”.

Na Síria, também um grupo de activistas apelou a Fairouz para boicotar as festividades na cidade premiada pela UNESCO, lembrando que está em marcha uma ofensiva contra dissidentes.

Um deles, Riad Seif, terá sido detido apenas uma hora antes de a ilustre visitante subir ao palco, na segunda-feira. Neste dia de estreia, outros dez opositores foram acusados de “conspirar contra o Estado”, enfrentando longas penas de prisão, noticiou a Reuters.

Se as críticas foram várias, Fairouz contou também com o apoio de muitos dos seus numerosos fãs.

A defesa mais acérrima foi feita por Elias Harchoufe, no diário Al-Ayat, de Londres, sublinhando a mensagem da opereta Sah al-Nom ou Sah Annom (“Dormiste bem?”), libelo contra um governante opressor e corrupto, que ela escolheu interpretar [desempenhando o papel de uma mulher que obriga o ditador a enfrentar a verdade e  a aceitar reformas] “mais eloquente do que milhares de artigos e discursos políticos”.

A “rapariga da montanha”, como Fairouz era conhecida no início da carreira, permaneceu silenciosa face às críticas e aos elogios.

Da família, falou apenas o compositor Mansour Rahbani, irmão do seu defunto marido, Assi, garantindo que a actuação da cunhada era uma mensagem “de amizade à Síria, não de subserviência”. Deixou um apelo: “Por favor, abstenham-se de lançar o nosso nome na lama política.”

Estas palavras têm peso, porque a associação dos irmãos Rahbani (Mansour escrevia as letras e Assi a música) com Fairouz foi inscrita na história musical árabe como “um dos maiores fenómenos culturais do século XX”.

[Em 2013, Fairouz, uma cristã de rito ortodoxo siríaco, voltou a causar polémica quando exprimiu a sua admiração pelo xeque Hassan Nasrallah, líder do movimento xiita Hezbolhah. 

Ziad Rahbani, filho da cantora e também ele compositor, disse a um website libanês que a sua mãe “ama muito o ‘sayyid'”, numa referência ao título do chefe do Partido de Deus, milícia e partido com representação no Parlamento de Beirute.]

Fairouz actuando em Damasco, em 2008
© Reuters

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado no jornal PÚBLICO, em 27 de Janeiro de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 27, 2008

Sammy Gitau fez da (má) vida um conto de Natal

Tinha 13 anos quando lhe mataram o pai. Sendo o rapaz mais velho, fizeram dele “chefe de família”. Para alimentar a mãe e 11 irmãos, foi ladrão, membro de gangue e vendedor de droga. Depois de espancado quase até à morte, uma overdose de cocaína deixou-o em coma. Ele firmou, nessa altura, “um pacto com Deus”: iria ser um bom rapaz. Esta é a sua história – uma “viagem miraculosa”. Narrou-a numa conversa telefónica, com voz sorridente. (Ler mais | Read more…)

Sammy Gitau, depois de se formar, com um mestrado, na Universidade de Manchester (na foto), regressou a Nairobi para dirigir um projecto de apoio aos órfãos nos bairros de lata
© manchestereveningnews.co.uk

 

1. INFÂNCIA E MORTE

O meu nome é Sammy Gitau. Nasci há 35 anos, em Mathare, o mais antigo e dos mais populosos bairros de lata [habitado por cerca de 300 mil pessoas] de Nairobi, capital do Quénia. Tenho cinco irmãos e seis irmãs.

Fui o segundo filho a nascer, e sou o mais velho dos rapazes. Hoje, todos estão mais ou menos orientados. Uns casados, outros a viverem com a minha mãe e ainda a frequentar a escola. Continuam a lutar pela sobrevivência, mas nada que se compare com o que eu sofri.

O meu pai tinha vários negócios, mas dedicava-se sobretudo à venda ilegal de bebidas alcoólicas, como whisky. Ele construiu uma casa em propriedades que familiares directos disputavam. Também se envolvia na política local e, por isso, não sabemos muito bem quem o matou, em Fevereiro de 1998.

Temos apenas uma ideia vaga de quem terão sido os assassinos, por um lado políticos e, por outro, alguns parentes que queriam ficar com as suas terras.

Quando me levaram até junto dele, no dia em que o atacaram, o meu pai ainda estava vivo. O seu crânio tinha sido esmagado com um machado. Morreu lentamente nos meus braços. Foi muito traumático, para mim. Eu tinha apenas 13 anos.

Fui forçado, por ser o rapaz mais velho, a tornar-me no chefe da família. A minha comunidade dizia-me: “A partir de agora, tens de trabalhar, para ajudar a tua mãe e os teus irmãos”.

Mas foi muito, muito penoso. Eu era ainda um miúdo, e em nenhum emprego me podiam contratar, além de que eu não aprendera nem sabia fazer nada. A única maneira de conseguir dinheiro e comida foi ir para as ruas.

Eu estava na escola, quando mataram o meu pai, mas as aulas eram frequentemente interrompidas, porque não tínhamos dinheiro para pagar aos professores, ou porque eu fazia os trabalhos de casa no balcão onde vendíamos as bebidas, e havia regularmente brigas entre clientes, o que impedia a concentração. Nem cheguei a completar dois anos de instrução primária.

Kibera, Quénia, o bairro de lata onde Sammy Gitau intervém, é o maior de África, com 600 mil almas, cenário do filme O Fiel Jardineiro, do cineasta Fernando Meirelles
© Brian Otieno | Al Jazeera

 

2. LADRÃO, TRAFICANTE E VICIADO

Após a morte do meu pai, tentei concluir os estudos, mas as pessoas na comunidade não me encorajavam. Só me obrigavam a encontrar alguma coisa que ajudasse a sustentar a minha família. A escola não me iria dar dinheiro, repetiam. A minha frustração aumentou.

Decidi então ir para as ruas, e aqui só temos três opções. Uma é andar pelas lixeiras à procura de alimentos para comer, ou de plástico e metal que vendemos para a reciclagem.

Outra opção é aderir a um gang. E os gangs dedicam-se a roubar nas cidades. Isto era rentável mas muito duro.

Eu roubava, sobretudo, fios de ouro e relógios. Íamos a sítios que compravam o que furtávamos, mas nunca sabíamos o real valor do que tínhamos roubado, nem tínhamos remorsos por isso ser roubado. Aceitávamos o que nos pagavam.

Com o dinheiro que eu obtinha, comprava comida e roupas novas, e levava para casa. Nunca dizia como conseguia isto à minha mãe, que era uma senhora muito cristã. Geralmente, ela só me via uma vez ou duas vezes por mês.

Eu tentava ir a casa quando ela não estava, para não ter de a enfrentar. Voltava depois para dormir nas ruas, ou tentava arranjar hotéis onde pagava para me arranjarem um quartinho.

Pensava que controlava a minha vida, até ser apanhado pela polícia ou por uma turba enfurecida. Passei algumas noites e semanas em esquadras, embora nunca tenha ficado preso. Também fui espancado três vezes, duas delas quase até à morte, por multidões desvairadas.

A terceira opção foi dedicar-me à venda de droga. Depois de ter sido espancado por roubar, pensei que poderia vender sem cair na tentação de consumir.

Mas acabei por me viciar. Aos 19 ou 20 anos, depois de uma overdose de cocaína, fui parar ao hospital. Ora estava em coma, ora consciente. Muitas pessoas me visitaram, amigos e parentes.

Confuso, não sabia onde me encontrava. Foi um grande choque quando me apercebi de como caí bem no fundo. Pensei que a minha vida havia chegado ao fim. Aliás, à minha volta, todos diziam que eu ia morrer.

Foi então que fiz um pacto com Deus: ‘Senhor, dá-me a possibilidade de voltar atrás e emendar os meus erros. Deixa-me encontrar um meio de fazer o bem’. A minha recuperação foi um milagre.

Poluição, falta de infra-estruturas e um sistema degradado de saneamento básico propagam o ciclo de pobreza e desigualdade em Kibera, Quénia
© Brian Otieno | Al Jazeera

 

3. UMA CARTEIRA NA LIXEIRA

Estive no hospital três meses. Nem sei quem pagou a conta desse internamento. Talvez a assistência social. Nunca perguntei à minha mãe.

Quando me deram alta, voltei à minha comunidade. Fui viver para a casa da minha mãe, procurei os meus amigos e comecei a tentar motivá-los a mudar de vida. Mas eles mostravam-se relutantes.

“Por que havíamos de fazer isso? Até parece que foste enfeitiçado!”, desdenhavam. Foi difícil, para eles, compreenderem a minha mensagem, a de que eles acabariam por morrer. A pouco e pouco, os mais jovens foram aderindo.

Começámos a fazer, por exemplo, trabalhos de limpeza nas ruas. E a comunidade apreciava. Nós limpávamos e davam-nos comida, dinheiro ou tarefas para fazer. Criaram-se assim oportunidades de emprego.

Com a nossa obra, chamámos a atenção de algumas organizações não governamentais. Aproveitei a oportunidade de fazer um curso de carpintaria, consegui algumas ferramentas e passei a ensinar outros. Também fiz um curso de electrónica. Esta formação profissional ajudou-me a compensar a falta de estudos e a ajudar os habitantes dos bairros de lata.

O trabalho era feito nas ruas e não agradava a toda a gente. Optámos por voltar à comunidade, e reparámos que havia muita área disponível para as nossas actividades, sobretudo onde as pessoas deitavam lixo.

Limpámos essas zonas e montámos primeiro uma carpintaria. Não foi fácil. Foi então que me lembrei de usar contentores de carga. Se tivesse alguém que os oferecesse poderíamos transformá-los em oficinas, em bibliotecas, em escolas…

Uma organização internacional de mulheres e outras ajudaram-nos e, por esta altura, conhecemos Monica Quince, mulher do representante da União Europeia para a África, Caraíbas [e Pacífico, ACP] em Nairobi, que ficou impressionada com a nossa acção. Isto foi por volta de 1999.

Eu continuava a recrutar jovens para o nosso projecto, e foi nessa altura, tinha 24 ou 25 anos, quando andava por uma lixeira, próximo de um bairro de gente abastada, nas proximidades de Mathare, que encontrei uma carteira novinha. Abri-a e lá dentro estavam quatro prospectos da Universidade de Manchester.

Tentei lê-los, e percebi que um deles, referente ao IDPM (Institute for Development Policy and Management) e com uma menção ao Quénia, estava relacionado com o que eu gostaria mesmo de fazer. Guardei esse prospecto e levei-o para a comunidade.

Disse à minha gente, mas muitas pessoas gozaram comigo. Que era impossível, que eu não tinha sequer educação básica. Mas eu guardei o prospecto. 

Praticamente sem saneamento básico e estradas, a vida e a mobilidade dos residentes de Kibera, Quénia,  são de uma dureza atroz
© Brian Otieno | Al Jazeera

 

4. DUAS BOLSAS E UM VISTO RECUSADO

Um dia, em 2005, recebi a visita de Alex Waldorf, um diplomata da União Europeia, e de Mónica Quince. Depois de ver o nosso projecto comunitário, ele perguntou-me: “O que quer fazer com a sua vida?” Eu nem sabia o que responder. Então disse-lhe: “Olhe, há um curso em Manchester que eu gostava muito de tirar.”

Fomos à procura da brochura. Estava numa prateleira. A informação era pouca, e Alex tentou saber mais através da Internet.

Assim que soube, mandou-me imenso material. Posteriormente, telefonou-me a inquirir sobre se eu já tinha enviado a minha candidatura, mas eu não sabia como candidatar-me.

Ele tranquilizou-me: “OK, vamos candidatar-nos juntos”. Ele telefonou à universidade e perguntou se aceitariam um indivíduo que não tinha concluído o ensino primário para fazer um mestrado [risos]. Eu não tinha sequer feito o liceu.

A universidade aceitou-me, porque viu uma apresentação do meu trabalho diário na comunidade, e acharam que seria benéfico aceitarem-me, não só para mim, mas também para eles, como instituição.

Para poder ingressar, tive de aperfeiçoar o meu inglês. Fiz um curso intensivo, de um mês, no British Council do Quénia.

A nota máxima era nove valores e eu finalizei com sete – o mínimo exigido pela universidade. Fiquei orgulhoso, porque estudei muito arduamente.

Consegui uma bolsa de estudos integral, mas duas semanas antes de eu chegar à universidade foi-me negado um visto de entrada no Reino Unido.

[O Alto Comissariado Britânico em Nairobi, não o considerou “um sério candidato”, devido à sua fraca escolaridade].

Eu voltei para o Quénia e foi muito triste. Fui insultado, quase fisicamente agredido, porque as pessoas na comunidade ficaram muito desiludidas. Sentiram-se enganadas por eu ter dito que ia realizar meu sonho em Inglaterra.

Foi nessa altura que o meu amigo Alex Waldorf recorreu aos tribunais. [Ao fim de sete meses de batalha legal, um juiz ligado aos serviços de imigração revogou a decisão de recusa do visto como “insatisfatória e insustentável”].

Quando chegou o veredicto, porém, a minha bolsa tinha expirado e tive de me candidatar de novo, sempre com a ajuda e a recomendação de Alex. Foi quase um ano perdido.

A segunda bolsa já não foi integral. Servia só para estudar e tive de procurar donativos que pagassem o meu alojamento e alimentação. Beneficiei da generosidade de muitas pessoas que conheciam o meu projecto no Quénia.

Os mais pobres moradores em Kibera, Quénia, são obrigados a erguer as suas casas nas margens do rio. Quando vêm as época das chuvas, o impacto é gravíssimo: muitas pessoas morrem e muitos lares são destruídos
© Brian Otieno | Al Jazeera

 

5. O CAMPUS E O MESTRADO

Em Setembro de 2006, entrei finalmente na universidade. Deparei com muitas dificuldades, mas também fui muito ajudado por toda a gente, colegas e professores, que foram muito compreensivos. Basta dizer que eu nunca tinha consultado um livro numa biblioteca, nunca tinha apresentado um trabalho escrito.

[Em várias entrevistas, Pete Mann, o director de curso de Sammy Gitau, reconheceu que Manchester abriu uma excepção, mas destaca a determinação do aluno queniano. “É certo que ele teve mais de um orientador, mas a sua tese (de um total 32 mil palavras, segundo a imprensa britânica,) foi submetida a um examinador externo que não sabia quem ele era, por isso, não beneficiou de qualquer favorecimento”].

Eu estudava de manhã até à noite, dias úteis e fins-de-semana. Estava no paraíso, tinha um quarto só para mim, com casa de banho privativa, e toda a tranquilidade para me dedicar à minha formação. Que mais poderia eu pedir?

[No seu site, a Universidade de Manchester qualificou o percurso de Sammy Gitau de “viagem miraculosa”]. 

 

Um grupo de mulheres limpa esgotos a céu aberto em Kibera, Quénia, para impedir que a água das chuvas e os detritos que elas transportam entrem para dentro da suas casas
© Brian Otieno | Al Jazeera

6. O FUTURO

Agora, que tenho o mestrado [o diploma de Gestão e Política de Desenvolvimento foi entregue no dia 13 de Dezembro de 2007, numa cerimónia de formatura no campus da universidade], tenciono regressar ao Quénia, em Janeiro de 2008.

Neste momento, com cerca de 100 dólares por mês, às vezes até menos, estamos a ajudar mais de 20 mil pessoas, a saber usar o seu talento e os seus recursos [em áreas como alfaiataria, fabrico de sabão ou reparações eléctricas e informáticas, mas atraindo também serviços médicos], em cinco centros instalados em quatro bairros de lata.

[Um destes ‘slums’ onde Sammy Gitau intervém é Kibera, o maior de África, com 600 mil almas, cenário do filme ‘O Fiel Jardineiro’, do cineasta Fernando Meirelles.

De um total de 2,3 milhões de habitantes do Quénia, 60 por cento (sobre)vive neste tipo de comunidades, onde os gangs traficam não só drogas mas também água e electricidade, desviada das redes públicas e vendida a um preço seis vezes superior ao que pagam os bairros dos ricos.]

Eu quero alargar o meu programa de assistência, investir não só nas áreas urbanas mas também nas zonas rurais. Não temos nenhum edifício. Continuamos a trabalhar em contentores.

Sou uma pessoa de fé, embora não daquelas de ir à igreja. Leio muito a Bíblia que me dá muita esperança. Depois de Manchester, quero ser um modelo de inspiração para os meus três filhos.

Sammy Gitau, em Nairobi, com crianças e jovens que beneficiam do seu projecto de desenvolvimento humano. Tem enfrentando ameaças de prisão por ajudar os órfãos dos bairros de lata da capital queniana
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 24 de Dezembro de 2007 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 24, 2007

A “pérola negra” que desafiou Kadhafi

Rama Yade, secretária dos Negócios Estrangeiros e Direitos Humanos ou “a Condi Rice de Sarkozy”, não gosta de dirigentes que venham a França “limpar os pés ensanguentados dos seus crimes”. (Ler mais | Read more…)

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O “guia da revolução” líbia, habituado a dar ordens às suas 40 amazonas guarda-costas, não estaria à espera que uma bela negra, muçulmana e feminista, de origem senegalesa, o afrontasse publicamente à sua chegada a Paris [em 2007].

Mas foi o que aconteceu, quando Rama Yade, secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e dos Direitos Humanos no Governo de Nicolas Sarkozy, se insurgiu contra a visita a França de Muammar Kadhafi, a primeira nos últimos 34 anos.

“Podemos ter confiança absoluta em alguém que exige ser tratado como qualquer chefe de Estado e que, antes da sua chegada a solo francês, afirma [na cimeira União Europeia-África, em Lisboa] que o terrorismo é legítimo para os fracos?, perguntou Rama Yade em entrevista ao jornal Le Parisien.

“O coronel Kadhafi deve compreender que o nosso país não é um capacho sobre o qual um dirigente, terrorista ou não, pode vir limpar os pés ensanguentados dos seus crimes. A França não deve receber esse beijo da morte.”

E disse mais: Se é certo que o Kadhafi de hoje, que renunciou ao nuclear militar, “não é o mesmo dos tempos de Mitterrand e de Chirac”, sob o seu regime ainda “continua a haver desaparecidos. A imprensa não é livre. Detidos são torturados. A pena de morte foi suprimida para os líbios mas não para os africanos subsarianos”.

E quando ele exige indemnizações da Europa à África pelo passado colonial, Rama Yade, nascida em Dacar, responde-lhe: “Que ele pague também compensações pela escravatura intra-africana, ainda hoje com consequências nas relações entre Estados africanos do Norte e do Sul do Sara.” Sarkozy ficou tão embaraçado, que chamou a “sua Condi Rice” (a expressão é do diário Le Monde) ao palácio do Eliseu.

Se ela suavizou os comentários, minutos antes do rendez-vous com o Presidente, não deixou de sublinhar profunda hostilidade em acolher Kadhafi no simbólico dia internacional dos direitos humanos. Sarko reafirmou posteriormente confiança e amizade na “benjamim” do Executivo, salientando que esta “não se opôs ao princípio da visita”, e que as críticas que fez eram “naturais” dada a natureza do seu cargo.

Certo é que, nessa noite, Rama Yade não compareceu ao jantar oferecido a Kadhafi, após a assinatura de contratos de cerca de dez mil milhões de euros.

Rama Yade e Muammar Khadafi, durante uma visita controversa do ex-líder líbio a Paris, em 2007. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Rama Yade e Khadafi, durante a visita controversa do ex-líder líbio a Paris, em 2007

Não é a primeira vez Rama Yade enfrenta o “chefe”. Quando Sarkozy foi à China e não a levou, ela proclamou bem alto que ficou ofendida.

Na entrevista ao Parisien, repetiu: “Porquê esconder a secretária de Estado dos Direitos Humanos? Não é preciso virar as costas à diplomacia dos valores.[Assim] arrisco-me a ficar em desemprego técnico.”

Também não gostou que o Presidente felicitasse o homólogo Vladimir Putin pela vitória do partido Rússia Unida em eleições legislativas, e foi ao Senado reclamar que “sejam desfeitas todas as suspeitas de fraude”.

Na Tunísia, enquanto acompanhava o “patrão”, causou polémica ao encontrar-se com opositores políticos do autocrata Ben Ali, sem ter informado a sua própria entourage.

Outro incidente, que lhe mereceu uma reprimenda do primeiro-ministro, por estar a “interferir numa decisão judicial executada por um munícipe”, foi quando Rama Yade se deslocou a Aubervilles para apoiar um grupo de desalojados africanos expulsos pela edilidade comunista.

Posteriormente, no caso da Arca de Zoé, ofuscou o mediático ministro Bernard Kouchner ao acusar esta organização de ter agido de má fé quando tentou transportar ilegalmente 103 crianças do Chade para a França. A sua frase “Acabou-se a África do papá”, em pleno hemiciclo, causou calafrios.

Quem é, afinal, esta “pérola negra”, como a cognominaram os media? Ramatoulaye Yade-Zimet, de seu verdadeiro nome, vai completar amanhã [13 de Dezembro] 31 anos. Filha de um casal de professores – o pai foi conselheiro diplomático do defunto Presidente senegalês Leopold Senghor –, teve uma infância sem privações em Dacar.

A situação complicou-se quando, em 1987, os pais se divorciaram e, ela se mudou com a mãe e as três irmãs para Colombes, a sul de Paris. Foi aqui, dizem os biógrafos, que tomou consciência de que “pertencia a uma minoria discriminada”.

No entanto, recusou vitimização e fez questão de realçar, no lançamento do seu livro Noirs de France – Les Nouveaux Neg’marrons, que “a identidade não se deve reduzir à cor da pele”.

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Rejeitando a “visão miserabilista que os sociólogos têm dos subúrbios”, Rama Yade empenhou-se na realização pessoal. Formou-se em Ciências Políticas e passou no difícil teste da função pública francesa para obter um posto administrativo no Senado.

No seu percurso inicial, frequentando um colégio católico, foi ajudada pelo Partido Comunista, e “tinha tudo para ser de esquerda”, admite – até o facto de ser casada com Joseph Zimet, um judeu socialista. Ela assumidamente muçulmana – e feminista.

Em 1993, porém, deixou-se seduzir pela personalidade de Sarkozy, quando este era apenas maire de Neuilly e ajudou a resolver uma crise de reféns numa escola.

Em 2005, Rama Yade-Zimet aderiu à União para um Movimento Popular (UMP), porque a direita “oferece respeito e não piedade” quando aborda as questões da integração. Em 19 de Junho de 2007, foi nomeada secretária de Estado.

Nasceu uma estrela.

[Em Novembro de 2008, especulou-se que Rama Yade poderia suceder a Jean-Pierre Jouyet como secretária de Estado para os Assuntos Europeus. No ano seguinte, terá sido convidada para integrar as listas da UMP às eleições para o Parlamento Europeu, mas recusou concorrer, justificando que lhe interessava mais a política interna.

Segundo o diário parisiense ‘Le Monde’, o então Presidente Nicolas Sarkozy ficou muito desapontado, e disse-lhe que perdera a oportunidade de suceder a Jouyet – embora a sua taxa de popularidade entre os franceses fosse “superior a 70 (‘The Independent’, Londres). A 24 de Junho de 2009, Rama Yade assumiu o cargo de secretária de Estado do Desporto – o que foi considerado uma despromoção (‘The Guardian’, Londres).

O posto deu-lhe porém legitimidade para criticar a selecção nacional de futebol por se alojar em hotéis de luxo quando o país e o resto do mundo enfrentavam uma profunda recessão económica. Em 2010, um novo cargo a aguardava: embaixadora da França na UNESCO.

Exerceu funções apenas até Junho de 2011. Em 2012, deixou a UMP e aderiu ao Partido Radical, apoiando primeiro o candidato presidencial Jean-Louis Borloo, dando o seu voto a Sarkozy só depois daquele desistir. Actualmente, dirige o ‘think tank’ Allons Enfants!

Rama mudou-se entretanto com a filha, Jeanne, para os EUA, para trabalhar com o Banco Mundial. O marido, Joseph Zimet, ficou em França, a dirigir a missão do centenário da I Guerra Mundial.] 

No seu percurso inicial, frequentando um colégio católico, Rama Yade foi ajudada pelo Partido Comunista, e “tinha tudo para ser de esquerda”, admite – até o facto de ser casada com Joseph Zimet, um judeu socialista. Ela assumidamente muçulmana – e feminista

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Dezembro de 2007 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on December 2007

As mulheres que nos conduzem – por terra, mar e ar

Guarda-freios nos eléctricos, motoristas de autocarro, de táxi ou de camiões, agentes de condução no metropolitano ou comandantes de aviões eram, até há alguns anos, profissões exclusivamente masculinas. Hoje, não há limites para as mulheres, ainda que os homens sejam a maioria no sector dos transportes. (Ler mais | Read More…)

© Enric Vives-Rubio

Ana Lúcia Lino e Lucília Marcos

(Na maior empresa ibérica de transportes e logística, o grupo Luís Simões, há 948 homens e 5 mulheres camionistas)

Só com uma mão no volante e uma única manobra em marcha-atrás, Lucília Marcos estaciona o seu novo camião DAF XF-410, “que protege o ambiente”, num dos armazéns do grupo de transporte e logística Luís Simões, no Carregado.

Minutos antes, não conseguia “controlar os nervos” ao ver um motorista menos habilidoso ensaiar várias tentativas e quase destruir o fole do portão, para realizar “uma coisa tão fácil” com um veículo de 13 metros de comprimento.

Lucília, 45 anos, proprietária de seis camiões e patroa de seis empregados na Transportadora Rodoviária Transmarlino, é uma mulher determinada. Quando o marido adoeceu e ficou incapaz de gerir a firma criada há duas décadas, ela tomou conta do negócio.

Hoje, em casa ou na estrada (quase sempre das 21h00 às 9 da manhã), com o inseparável telemóvel – paga 600 euros de chamadas por mês –, é ela quem define e distribui o trabalho de recolha e entrega de mercadorias.

Já passou por situações complicadas, mas nunca desistiu. Numa delas, “ a galera [semi-reboque] soltou-se do tractor [máquina principal]” e ficou com “uma roda em cima de uma perna”. Noutra, rebentou-se um pneu e, “como viram que eu era mulher, passaram por mim e ninguém parou”.

Noutra ainda, colidiu com um ligeiro, cujo condutor “teve de ser desencarcerado”, e ela foi obrigada a andar de esquadra em esquadra de hospital em hospital, “um dia inteiro sem comer”, a fazer “testes de álcool e drogas”, para provar que não era responsável.

Há também uma “avaria divertida”, estava ela “encostada na berma de uma auto-estrada, com os quatro piscas ligados”, em que uma amável patrulha da GNR “tirou o pneu suplente, meteu o macaco, levantou o carro, desaparafusou as porcas e mudou a roda”, para lhe permitir seguir viagem.

Desde os 29 anos que Lucília conduz com semi-reboque. Era magrinha, conta, e “os homens ficavam muito admirados” de a verem num veículo possante. Uns “mandavam bocas ou buzinavam” e outros ofereciam ajuda, que ela recusava.

“Preferia demorar mais tempo e aprender certinho” do que aceitar que fizessem as coisas por ela, justifica. “A única coisa que me distingue dos homens é eu não ter tanta força, de resto, eu agora faço até melhor do que eles”.

© Enric Vives-Rubio

A seguir-lhe os passos está Ana Lúcia Marcos Lino, a filha, 26 anos de idade e quatro no camião, que faz o horário diurno e distâncias mais curtas, às vezes auxiliada pelo irmão mais novo, “muito jeitoso com a mecânica”. Também ela não tem medo – “só se for de acidentes”.

Se, excepcionalmente, tem de pernoitar em algum sítio, escolhe áreas de serviço bem iluminadas. Sintoniza a Rádio Orbital (a mãe prefere os CD de Tony Carreira) deita-se no beliche do camião, equipado com edredons e almofadas e protegido por umas cortinas bem femininas.

A fazer-lhe companhia, de portas trancadas, tem dois ursinhos de peluche de cada lado do vidro dianteiro, além da imagem da Senhora de Fátima e do redondo boneco da Michellin.

Não é só na aparência do seu veículo que Ana Lúcia investe. A jovem parece um modelo de catálogo – jeans, casaco brilhante, botas cor de bronze, cabelo com madeixas, maquilhagem perfeita, unhas de gel pintadas com desenhos. “Gosto muito de tudo o que é serviço de cabeleireira, manicure e pedicure”, revela.

Este mês [Dezembro de 2007], vai acabar o “curso de estética” e depois, talvez, vá trabalhar para “o salão de uma amiga”, sem no entanto deixar de conduzir o camião.

Com ar de quem ainda frequenta o liceu – completou só o nono ano enquanto a mãe foi até ao 11º –, não admira que a brigada de trânsito a mande parar frequentemente para lhe pedir os documentos. Ana Lúcia diverte-se e jamais se atrapalha. “Conduzir um camião é mais fácil do que andar num ligeiro”, garante.

“Quando estou lá em cima, sinto que tenho um poder enorme sobre quem está cá em baixo. É engraçado, sobretudo quando passamos pelos homens. Quase que dá para nos sentirmos superiores a eles.”

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Maria Miranda e Andreia Silva

(Do pessoal marítimo na Transtejo, há 191 homens e duas mulheres – nenhuma delas com a função de mestre, quem conduz as embarcações) 

A vida de Maria Manuela Miranda, 42 anos, solteira, passa-se entre dois mundos: o das embarcações da Transtejo e o do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Ela é maquinista, mas isso não significa que esteja ao leme dos navios.

Essa é a função do mestre, e ainda não há mulheres a exercê-la. Maria, como os colegas a tratam, apenas trata da casa das máquinas.

Antiga praticante de desportos náuticos, Maria formou-se na escola de marinha mercante Infante D. Henrique, em Paço de Arcos, onde entrou “tinha para aí uns vinte e tal anos”. Ainda tentou o curso de oficiais, mas interrompeu-o para se inscrever no ISEL.

“Aos 38, 39 anos”, quando se candidatou à Transtejo, depois de já ter passado por empregos em escritórios, notou que “havia um certo preconceito”. Alguns comandantes diziam: “Isto não é para mulheres”. Mas “eles precisavam de maquinistas e tiveram de me chamar”, regozija.

O cheiro a arroz de tomate e a peixe frito – o jantar da tripulação (um mestre, três marinheiros e a maquinista) – já se sente por todos os cantos do Eborense, um ferrry que liga Belém a Cacilhas, e Maria esfrega as mãos de contente.

Ela raramente confecciona as refeições, porque é tratada como uma mascote. Gostam dela, e quando se descuidam com “anedotas picantes” ou “ asneirolas”, logo se redimem: “Oh Maria, desculpa lá”.

Ela até os encoraja e, em troca, pede apenas que “deixem tudo limpinho e arrumado”. Porque a sua casa das máquinas é um lugar organizado. O ruído obriga ao uso de abafadores de som, sobre um boné com a resistência de um capacete.

De farda, luvas e botas de biqueira de aço, e enquanto explica aos visitantes para que serve cada peça e instrumento, Maria toca num depósito de combustível como se acariciasse uma criança.

“Cá em baixo, onde passamos metade do tempo de um turno de oito horas, inalamos muitos gases e temos de suportar muitos barulhos”, descreve.

“Ao fim do dia, é natural que me sinta cansada, mas aqui não há stress, mesmo em caso de avarias. Tudo tem solução.”

Quando a inspecção, que passa por ver o nível do gasóleo e dos óleos, está feita, Maria sobe à cabine do mestre e vai apreciar a vista.

“Há luas e tempestades muito bonitas”, exclama com o olhar perdido no horizonte, contando como, aos fins-de-semana mais calmos, “até dá para pescar”.

Quando não dá, e acontece ver “um cherne gigante”, por exemplo, passa a informação e a localização exacta aos pescadores cujos pequenos barcos se cruzam com o grande ferry.

Maria valoriza os companheiros de trabalho. “Podem ser pessoas com menos escolaridade do que eu mas são muito sábias”, salienta.

Fora da embarcação, ela tem outros amigos e os familiares com quem fala sobre “coisas diferentes”, embora o que goste mesmo é de ficar em casa, no Lumiar, a ouvir música, ler e ver filmes.

Não deixa que nada a influencie negativamente. Já teve de controlar um passageiro que queria sair a meio da viagem, e não conseguiu impedir que uma senhora se atirasse “borda fora”.

O que retém na memória é que, quando regressa de férias, são muitos os passageiros que lhe dizem: “Onde é que andou? Sentimos a sua falta.”

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Se Maria não tem aspirações a ser mestre, esse é o objectivo da marinheira Andreia Rosa Silva, agora a fazer “serviço no batelão”, no Seixal, porque está grávida do seu terceiro filho e não pode “lançar os cabos” nem “fazer amarrações”, a sua habitual tarefa, que inclui ainda “abrir e fechar o portaló” – a plataforma de entrada e saída nos navios.

“Estou à espera que abra um concurso de mestre e, assim que abrir, vou inscrever-me”, garante, já o catamaran Pedro Nunes está prestes a partir para o Cais do Sodré. “Quero mostrar aos homens que não são apenas eles que podem ser mestres.”

Andreia, 29 anos, foi ajudante de cozinha na turística fragata Afonso de Albuquerque e “adorava olhar para os veleiros das regatas Cutty Sark”.

Decidiu ser marinheira, ainda que só tenha “um mês de natação”, quando era empregada de bar numa das embarcações da Transtejo. “Um dia, houve temporal e lembro-me de as pessoas estarem todas assustadas.”

“Abanava tudo por todo o lado. Os copos voavam e, enquanto os outros gritavam, eu só tinha vontade de rir. Repetia para mim própria: ‘O que eu quero da vida é isto’. O temporal no mar é mesmo muito bonito.”

“Não tenho nada a provar aos homens”, sentencia Andreia, 1,57de altura e 52 quilos de peso. “Fui a primeira e única mulher [marinheira] a entrar cá dentro.”

“Passei o curso e logo aí disse tudo.” Aos que pensam que é preciso força para amarrar os cabos (não digam cordas) ao “cunho” ou ao “cabeço”, ela responde que “basta agilidade”.

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Dulce Carvalho e Emília Faria

(Segundo a Direcção-Geral de Transportes Terrestres e Fluviais, entre os taxistas que, a nível nacional, têm o Certificado de Aptidão Profissional, 20.108 são homens e 1978 mulheres – do total, há 49 que não especificaram o género, porque não é obrigatório)

Na primeira das quatro histórias do filme de Jim Jarmusch Noite na Terra, Gena Rowlands, agente de casting, tenta cativar Winona Ryder, uma jovem taxista, para ser estrela de cinema. A resposta ao convite é mais ou menos assim: “Nem pensar. Já tenho a vida organizada. O que eu quero mesmo é ser mecânica”.

Pois, perguntem à franzina Dulce Carvalho se ela aceita deixar o táxi que conduz toda a semana, excepto à segunda-feira, das 17h00 às 5 da manhã, que ela afiançará: “Mesmo que ganhe o Euromilhões, descanso dois ou três dias, e depois volto. Isto é como um vício.”

Já depois da entrevista feita, Dulce Carvalho, 48 anos, sofreu “uma espécie de ataque cardíaco”, que obrigou a ser hospitalizada.

Talvez, excesso de tabaco, suspeitam os médicos. Vai mudar o ritmo, agora que apanhou “um susto”, maior do que quando a tentaram assaltar e ela conseguiu enganar o bandido? “Não, retomar a minha vida normal e, talvez, deixe de fumar. Eu gosto mesmo disto.”

E isso sente-se quando a acompanhamos pelas ruas de Lisboa por onde ela, nascida na Graça e agora a viver na Póvoa de Santa Iria, circula com destreza e celeridade. “É muito despachada e sabe até onde ficam os becos de que ninguém ouviu falar”, reconheceu um colega.

Antes de realizar “o sonho”, Dulce trabalhou num restaurante e foi operadora na Rádiotáxis. De início, as antigas colegas indagavam quando ela respondia às chamadas (a que alguns colegas homens às vezes se sobrepunham, obrigando à intervenção dos inspectores): “O que andas a fazer aí fora?”

Hoje, conhece bem o meio, a ponto de saber identificar os lugares bons (24 de Julho, Bairro Alto, Expo, Docas) e os maus (Buraca, Amadora, Queluz, Casalinho da Ajuda); os clientes seguros e os perigosos; os simpáticos e os de “nariz empinado”.

Dulce admite que conduzir à noite “é desgastante”, mas não aprecia o dia, porque “o trânsito é mais confuso, os passageiros andam com mais stress e menos paciência”. Comum aos dois turnos é a dificuldade de arranjar uma casa de banho, “quando se está aflitinha”. Nesse caso, recorre a alguns hotéis, que já a conhecem.

Ela gosta da rotina de acordar por voltas 13h30, tomar banho, comer o pequeno-almoço (“enquanto os outros almoçam”), vestir-se e ir para a praça de táxis da Graça, onde inicia e conclui o serviço. Por volta das 21h00, janta com o marido, que também é taxista, e ainda arranja tempo para um cafezinho e ir à garagem “mandar lavar o carro”.

De manhã, entrega a viatura ao patrão e retira a quantia que lhe corresponde – 30 por cento do que marcar o taxímetro. “Uma noite razoável dá cento e poucos euros”, a repartir pelos dois. “Nunca me imaginei patroa, e nem gostava”, assegura Dulce.

© Enric Vives-Rubio

O contrário de Maria Emília de Sousa Faria, 77 anos, a mais antiga taxista – pelo menos no Norte de Portugal. Na pitoresca Travessa 5 de Outubro, em Ermesinde, Dona Emília já nos espera, num final de tarde, para recordar histórias que fizeram história.

Desce as escadas da moradia, com jardim, horta e um cão irrequieto, e chega à porta com documentos e fotos a preto e branco onde estão os filhos, ela e o marido. Mais importante, onde se vê um “exemplo do boné” – o dela já não existe –, que lhe causou tantos problemas.

Quando chega à praça na estação de comboios, os taxistas inclinam-se em sinal de respeito para com esta senhora que, aos 33 anos, “cismou” em fazer o exame da quarta classe, aos 34 tirou a carta e aos 35 já tinha licença profissional para poder conduzir os dois primeiros Austin de António Monteiro, o homem com quem se casou aos 22 anos (ele tinha mais 30) e de quem ficou viúva aos 55.

“Anda daí menina, vamos dar uma volta”, dizia António a Emília. E ela ia, indiferente às críticas dos “homens ressentidos” e às operações stop da PSP e da GNR.

A primeira vez que foi “apanhada”, ainda sem a obrigatória licença de aprendizagem, o marido recomendou: “Deixa-te ir devagar e toca-me bem nessas curvas, que nós cá estamos quando ele vier.” E ele, o agente, chegou e foi implacável: passou uma multa de 500 escudos, a maior que a família pagou.

Esse episódio encorajou Maria Emília a deixar de ser amadora. Quando isso aconteceu, foi à esquadra, num misto de orgulho e desafio, saber o que tinha de fazer.

Os polícias, boquiabertos, “foram à busca do livro de código”, e leram-lhe um excerto: “Os motoristas de carros de aluguer têm de fazer uso de boné”. E de um “distintivo do lado esquerdo”. Do grémio se fossem industriais; do sindicato, se fossem empregados.

A partir de 1972, porém, segundo um decreto do Ministério das Comunicações, o boné foi abolido para as mulheres, que passaram a ter de envergar “fato saia e casaco, de cor cinzenta lisa, confeccionado em fazenda ou tecido semelhante, e blusa branca (tipo camiseiro) com manga comprida e punho”.

Estipulava ainda que, “entre 1 de Maio e 31 de Outubro, é dispensável o uso do casaco”. O mesmo se aplicava aos homens que, salvo esse período, teriam também de usar “casaco ou blusão e gravata”. Uns e outros, em qualquer altura do ano, deviam apresentar-se “em irrepreensível estado de asseio.”

A dona dos Táxis Monteiro Lda foi “autuada muitas vezes”, porque andava com o boné no banco do lado, e não na cabeça. “Eu detestava usar aquilo, porque era feio e era de homem” (o filho brinca, dizendo que ela “não queria desmanchar a permanente”). Também foi multada porque, em vez da blusa, “uma vez vesti uma camisola de gola alta branca”. Após 25 de Abril de 1974, estes regulamentos acabaram.

Quando António morreu, Maria Emília “não tinha dívidas mas também não tinha dinheiro”. Trabalhava dia e noite, “das 6 da manhã até chegar o sono”.

Comia na estação “e, em casa, só fazia a cama e as limpezas”. Não tem dúvidas: “Ficaria nesta vida eternamente”, se não tivesse sofrido dois AVC, que lhe fizeram “perder os reflexos”.

Continua, todavia, a dirigir a actual frota de quatro Mercedes, a partir da sua vivenda, em cuja garagem ainda guarda a velhinha caixa do telefone da praça de táxis.

Por cima do aparelho telefónico que serve de central de comunicações com clientes e funcionários, está uma foto do fundador da empresa, o marido que a transformou de modesta “criada de servir” numa mulher sem medo de “homens de farda”.

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Carina Santos e Ana Maria Escobar

(Nos eléctricos da Carris, há 115 homens e 37 mulheres guarda-freio, tendo as primeiras sido admitidas em 17 de Outubro de 1994)

O pai fazia miniaturas de eléctricos em alumínio, e a guarda-freio Carina Santos, de 24 anos, admite que isso “talvez possa explicar” o seu fascínio pelo velhinho amarelo nº 18 da Carris, que ela faz deslizar do Alto da Ajuda até à Rua da Alfândega.

Carina é das mais novas da companhia. Depois de empregos temporários na Zara e na Worten, entrou em Agosto de 2006, primeiro para formação em autocarros. Em Novembro do mesmo ano, com a “carta D”, já andava sozinha nos eléctricos.

Embarcamos numa paragem de descida acentuada e curva apertada, e ela não se atrapalha. Se o piso resistir, explica, pressionará um dispositivo para lançar areia nos carris e garantir a segurança da viagem.Atenta a todos os pormenores, move com vigor, para a esquerda ou para a direita, a manivela com a designação de controler.

Vai carregando nos vários botões, um dos quais diz “homem morto”, que é um avisador de segurança e lhe “imobiliza o carro”, se algo corre mal. Toca frequentemente a buzina, para avisar peões distraídos e/ou automóveis atrevidos. E sorri sempre, radiosa no uniforme azul e amarelo, com brincos a condizer nas duas cores.

No nº 18, os passageiros são quase família – “Bom dia, precisa de ajuda?” –, sobretudo os mais idosos, que descem na Boa Hora para ir ao supermercado.

“Quando faço o caminho de volta, lá estão eles com os sacos das compras e, às vezes, dão-me maçãs, pêssegos, bolachas”, conta Carina. “Também já me ofereceram rosas, aqueles senhores que as vendem. E depois há os turistas que tiram muitas fotografias”.

Embora já sejam muitas as mulheres guarda-freio, ainda há quem não contenha a admiração. À chegada ao Terreiro do Paço, numa paragem nos semáforos, um homem salta do passeio para a frente do eléctrico, bate no vidro, gesticula e grita: “Ah, cara linda!”. Carina ruboriza-se e baixa os olhos, embaraçada e feliz.

© Enric Vives-Rubio

Carina também conduz o eléctrico 28, “rota da Lisboa antiga”, que vai do Martim Moniz a Campo de Ourique. Nas duas carreiras passa por dois cemitérios – Ajuda e Prazeres –, mas não há alma penada que lhe tire o sono, até porque há dias em que acorda às 4 da madrugada para, às 5, estar em Santo Amaro a “preparar o carro”.

O marido de Carina conduz autocarros na Carris. Entraram já casados na companhia e fizeram a formação juntos. Ele ambiciona dedicar-se ao turismo e ela, com o 12º, gostava de estudar Psicologia.

Por agora, acrescenta, “sinto-me muito bem assim”. É um sentimento partilhado por Ana Maria Escobar, 47 anos, condutora do moderno eléctrico nº 15, que nos leva da Praça da Figueira a Algés.

“Espero andar aqui até à reforma”, afirma convicta, enquanto tenta contornar um dos muitos obstáculos que vai encontrando pela via e, neste caso, um automóvel mal estacionado no Cais do Sodré.

“Isto é que me deixa nervosa, ou então se eu faço ou me fazem risquinhos na chapa, porque já sei que nessa noite não vou dormir”, desabafa.

Fechada na cabine envidraçada do seu nº 15, Ana Maria não tem o mesmo contacto com os passageiros que Carina Santos – só quando faz a carreira 28 –, mas ainda há quem lhe vá bater à porta ou espere que ela saia nos terminais para lhe dar os parabéns pela “maneira cuidadosa como conduziu”.

Uma grande diferença de comportamento em relação a 1974, quando entrou, depois de responder a um anúncio e de fazer os testes e o curso.

Nessa altura, a antiga vigilante de segurança e funcionária de um jardim infantil, mãe de três filhos, lembra-se que chegaram a intimá-la: “Oh, senhora, que faz aqui? Vá para casa, por amor de Deus!”

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Catarina Pinto e Eva Borges

(Na Pizza Hut, a maior cadeia de restauração organizada a nível nacional, há 393 homens e 9 mulheres no serviço de distribuição com motos)

É tão raro, uma mulher distribuir pizzas em motos que, às vezes, Catarina Pinto, de 25 anos, se depara com situações caricatas quando vai a casa dos clientes ao volante da sua nova Yamaha CT 50-S ou da obsoleta Yamaha DT 50-LC. “Aparecem-me homens em trajes menores, de “boxers” ou de roupão aberto”, revela a jovem universitária.

Ela nem pestaneja. Eles “escondem-se atrás das portas, olham de um lado para o outro, sem saber o que fazer”. Desprevenidos e embaraçados, por vezes são mais generosos nas gorjetas.

Só há duas mulheres no serviço de distribuição da loja de Massamá da Pizza Hut – o maior, em termos de entregas na zona de Lisboa, dos 90 estabelecimentos desta cadeia de restauração.

E uma delas é Catarina, estudante de Administração Pública do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), depois de ter desistido da licenciatura em Engenharia de Sistemas Informáticos e Multimédia.

A colega de entregas é Eva Borges, 42 anos, casada e com dois filhos, que anda de carro mas, influenciada por Catarina, está a pensar arranjar uma moto, “para ser ainda mais rápida” – qualidade que levou o patrão ir buscá-la à concorrência.

Pois foi a possibilidade de “conciliar emprego com o gosto pelas motos” que levou Catarina, aos 18 anos, a adaptar ao seu veículo uma caixa isotérmica onde transporta as pizzas aquecidas numa “exclusiva placa de indução”.

Massamá já é a terceira loja por que passa, além de outras “tarefas intercalares e temporárias”, como servir à mesa nas Docas ou ser administrativa na Caixa Geral de Depósitos.

Agora, na área de Monte Abraão, onde reside, “trabalho normalmente das 19 às 22”, um part-time flexível que pode render um mínimo de 400 euros por mês, sem incluir gorjetas.

Ela já conhece os percursos, alguns labirínticos, teve apenas pequenas avarias, um acidente com um cão – “foi ele que me atropelou e me fez cair a mota ao chão” – e nunca viveu qualquer situação de insegurança.

Só uma vez lhe roubaram o boné que acompanha o uniforme vermelho, mas ela nem estava presente. Além disso, “não há que temer” porque só anda com “o dinheiro necessário para os trocos”.

A emancipada Catarina surpreende-se com a surpresa que ainda aparece no rosto das pessoas quando ela chega com uma encomenda. Pais que chamam os filhos propositadamente para a verem, e exclamam: “Olha, que giro, é uma menina!”. Distribuir pizzas é uma maneira de suportar as despesas de quem já não vive com os pais, e o horário flexível permite tempo para se empenhar nos estudos.

No futuro, Catarina espera que “os quadros da função pública se renovem” e que ela possa entrar. Não quer continuar de porta em porta depois de se formar, até porque a família “não acha piada” a vê-la num serviço em que está exposta ao frio e à chuva. Uma coisa é certa, porém, nunca abandonará as motos.

“Quando era pequena e ia passear no shopping, eu não queria que me comprassem bonecas, mas uma mota para brincar”, recorda. “Tive a minha primeira mota aos 15 anos. A minha mãe não quis dar-me autorização para a licença. Mas eu, rebelde, desisti da escola para ir trabalhar, numa hamburgueria e na distribuição de publicidade, e assim consegui o dinheiro para comprar a mota. Custou, na altura, creio eu, 180 contos.”

© Enric Vives-Rubio

Helena Cunha e Marlene Nogueira

(A empresa Metro do Porto tem 186 homens e 9 mulheres agentes de condução. O Metro de Lisboa não tem mulheres nesta função)

Helena Maria Pinto Cunha, 36 anos, trabalhava desde os 17 e queria mudar de emprego. “Achava que era capaz de fazer algo mais do que estar a uma secretária”.

E conseguiu: tornou-se na primeira mulher agente de condução de metropolitano em Portugal e, mais tarde, na primeira reguladora europeia de um Posto Central de Comando (PCC).

Foi no dia 17 de Junho, “há sensivelmente cinco anos e meio”, que Helena mandou a candidatura a um lugar no PCI, o posto de informação áudio. “São as meninas que falam para as estações e fazem o atendimento ao cliente”, explica timidamente, nos escritórios da Transdev, a empresa operadora da Metro do Porto, em Guifões.

No PCI, primeiro degrau na carreira, Helena esteve cerca de um ano. Depois, “achei que também conseguia dar o passo seguinte, a condução”, refere.

Fez um curso intensivo, teórico e prático, oito horas diárias durante três semanas. Quando começou a conduzir, só havia uma linha – entre Trindade e Senhor de Matosinhos. Agora há cinco, até ao Estádio do Dragão.

Na primeira viagem não sentiu nervosismo. Sabia que tinha de ser cautelosa, porque nas áreas de intercessão urbana, peões e automóveis ainda não estavam habituados a ver o metro passar.

“Havia reacções de admiração, senhoras que me atiravam beijinhos, e havia comentários depreciativos, do género ‘se as mulheres conduzem isto, eu também consigo’”, recorda Helena. Logo de início, uma velhinha entrou com a neta, com uns dez anitos, e esta assustou-se: “Oh avó, é uma mulher, vamos morrer”.

Ao fim de oito meses, a agente de condução (não lhe chamem maquinista) avançou para outro lugar na escala: a regulação, “uma das funções mais bonitas”, exulta.

Trabalhava da meia-noite às 9h00 ou das 9h00 às 18h00 numa sala com um quadro cheio de luzinhas, espécie de torre de controlo do tráfego, onde ninguém pode ser perturbado.

Afinal, é aqui, 24 horas por dia, que se define a circulação e se localizam as composições (podem funcionar mais de 70 numa manhã, e a cadência aumenta em dias de jogos de futebol); se detectam as avarias e situações de emergência; se decide se são necessários veículos de substituição ou reforço.

Depois da condução e da regulação, Helena foi promovida a TPO, técnica de planeamento. É ela e mais cinco colegas que estabelecem os horários e serviços dos reguladores e condutores, um dos quais a pequena e loura Marlene da Conceição Nogueira, 29 anos, a fazer todas as linhas desde Outubro de 2006.

© Enric Vives-Rubio

Marlene, ao contrário de Helena, estava nervosa no primeiro dia de condução, mas já não tem medo, assevera, a não ser que tenha “uma avaria numa zona deserta”.

Com o 12º ano de escolaridade e depois de dois empregos que não deixaram saudades, a jovem ostenta agora com visível prazer o uniforme cinzento bem justinho ao corpo.

Sentada na cabine, com os olhos e as mãos em permanente movimento, confessa que se entusiasma quando os rapazes do FCP batem palmas à sua chegada à estação, sobretudo se estão eufóricos com as vitórias.

Mas, o que ela gosta mais é de emergir do túnel e atravessar a Ponte D. Luís – a “linha D”, que parece uma combinação de metro, comboio e eléctrico. O sorriso abre-se: “É um dos momentos mais bonitos, sobretudo se a manhã estiver de nevoeiro”.

Quais as perspectivas futuras de quem se levanta às 4 da madrugada e se deita às 6 da tarde para fazer um “trabalho solitário” e sempre a andar de um lado para o outro? Marlene fica pensativa por uns segundos, e responde: “Para já, imagino-me a fazer isto a vida toda”

© Enric Vives-Rubio

Rita Lopes

(Na TAP, os aviões são pilotados por um total de 762 homens e 20 mulheres, 7 das quais são comandantes)

Foi tudo a 1 de Abril, mas nada é mentira. Aos completar 16 anos, Rita Lopes iniciou o curso de brevet. Aos 17, fez o exame e, invulgarmente, obteve logo a licença.

Aos 20, começou o curso de PCA (piloto comercial de aviões); aos 24, fez o seu primeiro voo na TAP; aos 30, deu início a outro curso, o de comandante, que hoje a distingue com quatro divisas douradas na sua farda azul. “Também me irei reformar no mesmo dia, espero eu?”, diz sorridente, sentada num Airbus-320, que lhe é familiar, com o nome de Alexandre O’Neill.

Tudo começou numa escola de aviação que já não existe, a Aerocondor Transportes Aéreos (ATA). Rita, hoje com 31 anos, “já pensava nisto [de voar] há algum tempo”.

Ainda estava no colégio quando decidiu “fazer o curso de brevet devagarinho”. As aulas, que até os fins-de-semana a ocupavam, eram dadas no Aeródromo de Cascais, em Tires.

Frontal, ela não quer que se diga que isto era “um sonho”, e garante que o facto de o pai ser comandante na TAP não a influenciou em nada: “Somos três irmãs – uma tem medo, a outra enjoa, eu gosto imenso.”

O brevet não dava para trabalhar, apenas voos de recreio, com “umas voltinhas no Guincho”. Enquanto ficou à espera de fazer o PCA, Rita foi estudar Direito para a Universidade Católica. “Fiz três anos, mas percebi que estava a gastar tempo e energia.”

Depois de “um ano e tal de curso” de piloto comercial, que “nos ensina, por exemplo, a aeronáutica, a meteorologia, a performance, as comunicações”, concorreu à SATA, à Portugália e à TAP.

Enquanto esperou pelos resultados do concurso de admissão à TAP, “o que demorou mais ou menos um ano”, Rita trabalhou na ATA, a “fazer linhas regionais, Vila Real ou Bragança, táxis aéreos, voos mais pequenos em aviões pequenos”.

A entrada na TAP significou outro curso, o de piloto de linha aérea, “uma coisa mais específica e mais abrangente”. Rita lembra-se bem quando foi “largada” – expressão para o primeiro voo: num só dia fez Lisboa-Funchal; Funchal-Porto; Porto-Funchal; Funchal-Lisboa. O comandante do avião era, “coisa engraçada”, o seu pai.

Sentiu algum nervosismo por transportar mais de 100 passageiros? “Não, nada!”, responde Rita, com o mesmo à vontade com que vai cumprimentando os técnicos que entram e saem do avião onde esta entrevista é feita, num hangar do aeroporto de Lisboa. “Se eu tivesse medo, não andava cá.”

“Só uma pessoa irresponsável que está dentro de uma nuvem de gelo, com chuva e trovoada é que não fica apreensiva. Mas isso é ser consciente, saber o que estamos a fazer, o que temos de fazer. Ter medo é não controlar as emoções. Não tomar decisões. Ter medo é ficar parado.”

Situações complicadas “são para resolver”, porque um piloto “tem de estar sempre do lado da solução, nunca do lado do problema”.

© Enric Vives-Rubio

Quando os passageiros aplaudem uma aterragem – e Rita, que ouve as palmas no cockpit, até gosta mais de aterrar do que descolar –, talvez não saibam que qualidade nem sempre é suavidade.

“Numa situação de pistas curtas e molhadas, ventos fortes e cruzados, um piloto que estiver preocupado em fazer uma aterragem suave não fará uma boa aterragem”, explica.

“Num caso desses, a aterragem de ser positiva, no princípio da pista, no centro da pista, a pensar em travar, em aterrar com segurança e, por isso, não é nem pode ser uma aterragem suave.”

E para os que pensam que vida de piloto é “ir a Paris e ficar lá dois dias a fazer compras”, Rita, comandante de médio curso – voos para a Europa, África, Madeira e Açores – explica as dificuldades de conciliar vida profissional e familiar, e também os problemas de saúde de uma carreira de (ainda não reconhecido) desgaste rápido.

“Eu posso sair de casa e estar três dias ausente, mas isso não significa estar três dias no mesmo sítio. Faço uma média de três voos por dia, cinco vezes por semana.” Significa por exemplo, sair numa madrugada, às 6, e chegar a casa, dois dias depois, às 23h00.

É preciso um grupo de apoio – marido, pais, sogros, empregada – para que os filhos, Henrique, que vai fazer 5 anos, e Francisca, de 2, mantenham as rotinas, de ir à escola, ao parque, ao jardim zoológico, à praia ou ao Oceanário [de Lisboa]. Eles agradecem. Quando Rita tem um voo muito cedo, são eles que encaminham a mãe para o quarto e lhe vão contar uma história.

“Esta é uma profissão muito desgastante”, frisa a comandante. “ Ser piloto é chegar a trabalhar 12, 14 horas seguidas. Estamos sujeitos a raios violeta não filtrados (porque vamos em camadas altas da atmosfera), a doenças vibro-acústicas, que ninguém sabe bem o que é.”

“Eu faço três descolagens e três aterragens por dia, é como se subisse e descesse três vezes a Serra da Estrela em meia hora. O ar do avião tem 2 por cento e não 70% de humidade, como o ar normal.”

“Voamos com auscultadores na cabeça. Além disso, desde [os ataques terroristas de] 11 de Setembro [de 2001, nos EUA], já não é a mesma coisa andar de avião e num aeroporto como antigamente. Passamos pelos raios X imensas vezes, temos portas blindadas, temos códigos de acesso ao cockpit.”

“A nossa pele está mais exposta à luz do sol. A antena de radar fica mesmo por baixo de nós. No caso das mulheres, não podemos voar assim que ficamos grávidas devido às radiações cósmicas.”

Não obstante as condições adversas, Rita Lopes sente-se uma “pessoa realizada e, por isso mesmo, uma melhor mãe”. Não lhe perguntem se aspira ir para o longo curso que ela logo contrapõe: “Para quê? Porque há praias paradisíacas? Gosto mais de mudar as fraldas à minha filha. Eu acho que devemos estar contentes com o que temos. É o primeiro passo para sermos felizes. Há um tempo para tudo na vida.”

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Patrícia Pinto e Maria Cecília Barros

(Entre os maquinistas da CP, Companhia de Caminhos-de-Ferro Portugueses, há 1086 homens e 8 mulheres)

Em Abril de 2000, quando Patrícia Pinto, 36 anos, e a sua colega Isabel se tornaram maquinistas da CP, ela não tinha sequer licença para conduzir veículos ligeiros.

De início, recorda agitada, o cigarro entre os dedos, os homens na companhia murmuravam: “Vão ser protegidas. Não vão correr as escalas como nós [turnos de manhã, tarde e noite], vão ser as meninas do horário de escritório, das 9 às 5”.

No caso de Patrícia, o que faz é tentar trocar as manhãs pelas tardes, sempre que possível, para poder acompanhar o filho, Atila – ele tem dois anos e ela esperou sete para o ver nascer.

“O meu marido, que é carteiro, entra sempre às 6 da madrugada”, conta. “Então, eu fico com o menino de manhã, e o meu marido vai buscá-lo à tarde e toma conta dele até eu chegar, por volta das 11 ou meia-noite. Às vezes, nem vejo o meu marido.”

“São muitos os dias em que ele se levanta e eu ainda estou a dormir. Ele folga sempre ao fim-de-semana, mas eu não. Isto afecta a família, claro, é complicado.”

Ter sido segundo sargento no Arquivo Geral do Exército (e ela relembra esses tempos sempre que o comboio passa por aqui) pode ter-lhe dado o porte atlético com que se dirige para a locomotiva em Alcântara, mas não a deixou menos nervosa.

Na primeira viagem e, apesar de meio ano de formação, ficou assustada com as “muitas luzinhas e apitos”, e “qualquer barulhinho que ouvia, dizia: ‘Ai, meu Deus, o que me vai acontecer’?”

A pouco e pouco, a ex-militar que também foi operadora de caixa de supermercado foi-se habituando a dominar o convel, o painel onde estão múltiplos botões com diversas funções, e a alavanca de frenagem e tracção. E já não se ri quando pergunta a um colega se ele lhe “correu bem o engate” – do comboio, claro está.

Como outras mulheres nestas páginas, também Patrícia sentiu admiração – uns elogiavam a “coragem” – e rejeição – outros recusavam entrar na carruagem por “não confiarem” na condução feminina. Isso já não a incomoda.

Fica mais sensibilizada com outras situações. “Por causa de um cão, já cheguei a ir à [travagem de] emergência”. E saliente-se que, em situações como esta, a 90 quilómetros por hora, um comboio, que pesa muitas toneladas, só pára 800 metros à frente.

“Quando um cão entra na linha não consegue sair, porque o comboio nos carris cria-lhe uma barreira imaginária, como se existissem paredes”, explica Patrícia.

“Enquanto ouvir o comboio atrás dele, o cão não vai para a esquerda nem para a direita. Só se houver uma interrupção, como uma passadeira, é que ele sai. Já me aconteceu ir atrás de um cão do Campo Pequeno a Entrecampos, a dez à hora.”

É fácil acreditar nesta faceta sensível quando se vê Patrícia, em passo de marcha, segurar na sua malinha vermelha com um peluche branco, ou a fazer bijuteria nas horas livres.

Em Dezembro, também gosta de usar um capuz de “mãe Natal” e decorar a cabine com iluminação da época. Na passagem de ano, é certo e sabido que vai gastar ar comprimido para buzinar ao colega com quem se cruzar à meia-noite.

De resto, Patrícia Pinto, que só aprendeu a conduzir automóveis em Janeiro de 2006, seis anos depois da “carta de unidades motoras”, adora passar pela Segunda Circular só para ver os aviões “a subir e a descer”, porque “gostava mesmo de ser piloto”.

Não podendo, inebria-se com o nascer e o pôr-do-sol na Gare do Oriente e na Lezíria ribatejana – “aqui a água é como um espelho, os pássaros parecem pintados numa tela, e o céu fica cor-de-rosa”.

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© Enric Vives-Rubio

Também Maria Cecília Barros, 36 anos, que faz a linha de Sintra, se deixa deslumbrar com o castelo na serra, sobretudo em dias de nevoeiro e chuva, “porque parece assombrado”.

Maquinista da CP desde 2001, depois de ter sido auxiliar de acção médica, sente que alguma coisa mudou quando entrou para este “mundo de homens”.

Desapareceram, desde logo, os calendários de mulheres nuas das salas onde fazem pausas e refeições em conjunto. E os palavrões foram diminuindo, mesmo que alguns ainda ousem cortejá-la.

Cecília foi a primeira mulher grávida na empresa, que nem sabia como agir quando se confrontou com esta realidade. Os médicos recomendaram-lhe que ficasse “sem fazer nada”, porque não podia correr riscos – as linhas são de alta tensão, uma catenária tem mais de 25 mil voltes, pode haver quedas a subir e a descer dos comboios.

Hoje, com uma filha de 4 anos, muito apoiada pelos pais e marido, Cecília Barros, tal como Patrícia Pinto, não se arrepende de ter respondido ao anúncio para ser maquinista.

“Podemos não subir mais na carreira [ela não está interessada no Alfa nem no futuro TGV] mas compensa do ponto de vista financeiro”, justifica.

Com o 12º ano, o que ela “ queria realmente era ser enfermeira”, mas nunca teve nota suficiente para entrar na universidade.

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Anabela Malveira e Paula Joaquim

(Entre os motoristas de autocarro da Carris há 1661 homens e 39 mulheres, sendo que as primeiras foram admitidas em Maio de 1994)

Anabela Malveira já tinha licença para conduzir ligeiros, motos e pesados quando, em 1994, respondeu a um dos “primeiros anúncios M/F” para motorista da Carris. Só lhe faltava a de serviços públicos.

Olharam-na com desconfiança, mas um engenheiro da companhia, impressionado com “tanta carta”, decidiu fazer dela “uma experiência”.

Há 13 anos, era tão invulgar ver uma mulher no lugar do condutor de autocarros que, durante a formação de Anabela, ainda sem farda, que hoje é obrigatória, “as pessoas ficavam paradas na passadeira, não andavam para um lado nem para o outro”, espantadas a olhar para ela.

Às vezes, ela vestia umas blusas de cores garridas, e o espanto ainda era maior, ao ponto de o instrutor lhe recomendar roupas “mais discretas”, porque era vista como “um bicho raro”.

Hoje, Anabela Malveira, de 42 anos, é a mais antiga entre as mulheres ao volante dos autocarros da Carris. A sua carreira 38, do Alto de Santo Amaro à Quinta dos Barros, em Lisboa, faz a ligação entre uma “zona de ricos” e uma “zona de pobres”, com paragens onde nem olham para ela ou onde os passageiros já são gente conhecida.

Como Manuel Pinho, 59 anos, um cego que entra junto ao Liceu Pedro Nunes, “só para passear”, diz ele. Também pode ser “para visitar a irmã”, acrescenta a motorista, que lhe conhece os hábitos por ambos conversarem enquanto esperam nos terminais pela viagem seguinte.

Quando respondeu ao anúncio, Anabela vivia com os pais em Santiago do Cacém, no Alentejo. Filha única, “sem necessidade de trabalhar”, decidiu concorrer “por curiosidade e para um dia contar a aventura aos netos”.

Tinha 29 anos e inscreveu-se sem a mãe saber. Já tinha feito um curso de secretariado e depois concluiu o 11º ano na antiga Escola Ferreira Borges, agora Rainha D. Amélia – curiosamente, uma das etapas da carreira 18.

Assim que entrou na Carris – das 16 concorrentes ficaram três –, Anabela percebeu que o ambiente era mais pesado que o autocarro. Colegas (incluindo o homem com quem se casou há 12 anos) duvidavam da sua competência.

Uma passageira chegou a dizer-lhe: “Tanto homem com falta de trabalho e tu andas a tirar-lhe o lugar.” Já não é assim. Agora, desejam-lhe “força”.

Mas não é preciso força, garante Anabela, nem mesmo para os autocarros articulados de 18 metros de comprimento (mais seis do que os standard, como o 38). É certo que “o dia corre melhor” – mesmo acordando às 4 da madrugada na sua casa em Pinhal Novo – se conduzir um daqueles veículos que parecem rodopiar nas curvas como serpentes.

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É um desses, a carreira 50, que Paula Joaquim, de 30 anos, acabadinha de chegar à Carris (em Abril), “adora guiar” entre Algés e a Gare do Oriente.

De mangas arregaçadas e óculos escuros, ela roda o volante como se fosse o de um triciclo. Nem subidas íngremes, nem a passagem por bairros sociais problemáticos, nem a caótica entrada na Segunda Circular a perturbam.

“Sempre gostei de conduzir mas, de condução, não tinha prática nenhuma”, diz Paula, numa pausa em Cabo Ruivo, antes do segundo turno. “Só ao fim-de-semana é que andava com o meu carro. Eu sou do Barreiro. Nem sequer conhecia Lisboa.”

Depois de trabalhar em fábricas, Paula candidatou-se à Carris em busca de um emprego estável – “ao fim de nove meses entramos para os quadros, é uma maravilha”.

No primeiro contacto, tal como aconteceu com Anabela, também olharam para ela com cepticismo. “Deixe-me tentar, pelo menos”, pediu.

Como tinha (ainda tem) de fazer todas as carreiras, a partir de Miraflores, “vinha umas horas antes do serviço para reconhecer os percursos. Fazia um género de ‘croquis’, umas cábulas, para me ajudar.”

Agora, apesar do stress, sente-se realizada. Os pais e o namorado, militar da GNR, têm “muito orgulho” na sua profissão. “Tenho dias de sair às 23h00 e, como resido na Margem Sul, ainda tenho muitos quilómetros para fazer até casa”, afirma.

“Por vezes, é chegar, tomar banho, comer qualquer coisa e deitar-me”. Não é fácil ajustar madrugadas e noites à vida pessoal, mas tudo se consegue “com bom senso e boa vontade”.

© Enric Vives-Rubio

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© Enric Vives-Rubio

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Dezembro de 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in December 2007