A portuguesa “maire” de Noisy-le-Sec

Alda Pereira-Lemaître, apoiada por Segolène Royal em eleições locais, tem um sonho: chegar à Assembleia Nacional, como “herdeira de Élizabeth Guigou”.  (Ler mais| Read more…)

Alda Pereira-Lemaître, de dupla nacionalidade, francesa e portuguesa, foi presidente da Câmara de Noisy-le-Sec, entre 2008 e 2010
© Alda Pereira-Lemaître

Só a abstenção pode desfazer o sonho de Alda Pereira-Lemaître, nascida em 1965 na aldeia de Vales do Rio, a sete quilómetros da Covilhã, de ser eleita presidente da Câmara de Noisy-le-Sec, município a uns 8Km de Paris e que, até 2003, foi sempre um “bastião vermelho”. *

Se esta escritora de livros infantis que chegou a França no período revolucionário de Maio de 1968 vencer na segunda volta das municipais, a próxima etapa, diz-me, por telefone, é “chegar à Assembleia Nacional, como herdeira de Élizabeth Guigou”.

A actual deputada e três vezes ministra socialista será, em caso de vitória, a adjunta de Alda Pereira na câmara, depois de ter recusado ser a cabeça de lista, “para não acumular mandatos”.

“Foi uma grande honra ter sido escolhida por Elizabeth Guigou”, que representa no Parlamento as circunscrições de Noisy, Bondy e Romainville, exulta a candidata da “esquerda plural” (PSF, Verdes, Partido Radical de Esquerda/PRG e Movimento Republicano e Cidadão/MRC).

“Vejo-me a cumprir um primeiro mandato de seis anos, e talvez um segundo. Quando a senhora Guigou, que já tem 61 anos, deixar o Parlamento, eu concorro para ser deputada.”

Para Alda Pereira, foi também foi “muito importante ter contado com a presença a seu lado de Ségolène Royal”, derrotada nas presidenciais de 2007 por Nicolas Sarkozy.

Nas presidenciais de 2007, Alda tinha sido coordenadora activa na comissão Désirs d’avenir, de apoio a Ségolène. Como secretária-regional do PS em Seine-Saint-Denis, foi recompensada ficando entre os 25% de mulheres que os socialistas escolheram como candidatas às municipais de 2008.

Ao participar numa recente sessão de campanha em Noisy (onde 59% votaram para que ela entrasse no Palácio do Eliseu), Seégolène Royal fez um apelo vibrante à eleição de “uma mulher, socialista e a primeira oriunda da imigração portuguesa”.

Há uma semana, a abstenção foi de 44,5%, e Alda Pereira-Lemaître conseguiu apenas 27,13% dos votos, ficando atrás de Nicole Rivoire, a maire cessante, apoiada pela UDF e pela UMP (direita), que conquistou 40,98%.

Agora, porém, se somar os 26,71% obtidos pelo comunista Gilles Garnier, a socialista estará em vantagem para ganhar, mesmo sem maioria absoluta.

Alda Pereira-Lemaître foi adjunta do presidente adjunta do município, quando os comunistas governaram o município, de 2001 a 2002. Era responsável pelas questões do ambiente na equipa municipal de Jean-Louis Mons, do PCF.

Exerceu o mandato durante 18 meses, mas as eleições foram anuladas e, no escrutínio seguinte, a direita que ganhou. Ela ficou de fora – o seu lugar remoto na lista da oposição dificultava que fosse escolhida.

Se for eleita presidente da câmara, afirmou a protegida de Guigou, o seu primeiro acto será encontrar-se com os funcionários camarários, que têm sido “ameaçados pela actual maire de que perderão os seus empregos se votarem na oposição”.

O passo seguinte será reunir-se com os comités de bairro, para “avaliar as necessidades, desde o itinerário dos transportes à criação de espaços de diversão para crianças”.

Alda Pereira-Lemâitre, como maire de Noisy-le-Sec. O mandato durou de 2008 a 2010.
© Wikimedia Commons

Nicole Rivoire “não faz uma política para todos nem de transparência”, queixou-se Alda Pereira-Lemaître. “A candidata da direita privilegiou os bairros chiques e deixou ao abandono os mais pobres, e nós queremos mudar isso com uma democracia participativa.”

“Eu faço política como Ségolène”, sublinha a luso-descendente. “O importante é gerir o dia-a-dia das pessoas, sair dos gabinetes e ir para a rua, saber o que se passa à nossa volta, saber tudo, desde a educação ao ambiente.”

“Cada cidadão é um especialista no lugar onde vive. O meu objectivo é despertar consciências. Cada um deve tomar o destino nas suas próprias mãos.”

E tomar o destino nas mãos foi exactamente o que fez Alda Pereira-Lemaître. Tinha três anos quando chegou com a mãe e um irmão ao bidonville (bairro de lata) em Nanterre.

O pai já estava em França há três anos, a trabalhar na construção civil. A mãe foi empregada doméstica “durante muito, muito tempo”.

Só agora, a família, a viver em Seine-et-Marne, conseguiu comprar uma casa na Figueira da Foz, depois de ter fugido a uma vida de pobreza e de perseguição da PIDE.

“O meu pai era contra a guerra colonial e simpatizava com o Mário Soares, por isso teve de partir”, conta Alda Pereira, nesta entrevista.

“Quando cheguei aqui, foi muito, muito triste. Eu sofri na pele o racismo. Em França era a portuguaise e em Portugal “a francesa”. Era como se não tivesse pátria.”

“Culpei os meus pais por terem imigrado. Eu tinha saudades da minha avó e de uma tia, que depois apareceu morta, não sabemos se foi suicídio ou se Salazar a mandou matar.

A pouco e pouco, fui compreendendo que o meu pai e a minha mãe só me queriam proteger”, acrescenta Alda Pereira-Lemaître, agradecida pela “consciência política” que eles lhe deram.

A militância adquiriu-a na associação de pais das escolas dos seus três filhos – um jovem de 17 anos, uma rapariga de 16 e um outro rapaz de 15 – através da Fédération des Conseils des Parents d’Élèves (FCPE).

Élizabeth Guigou, que apoiou e depois retirou a confiança a Alda Pereira-Lemaître
© Paris Match

Segolène Royal, “fonte de inspiração” de Alda Pereira-Lemaître
© The Times

Sem ter frequentado a faculdade e apenas com a formação de “técnica superior”, Alda Pereira-Lemaître teve um primeiro emprego no banco Crédit Agricole, como “conselheira financeira”.

Passou a ser “responsável comercial” de uma empresa de jogos criativos e, ao mesmo tempo, escritora de livros infantis. Já publicou cinco. Tem também colaborado com artigos sobre mães e bebés para revistas.

A determinação em trabalhar fora de casa contribuiu para a ruptura do seu casamento com o francês que lhe deu o apelido Lemaître. Ela tinha 19 anos quando o conheceu no liceu e 25 quando se casaram.

“Ele achava que o lugar da mulher é no lar, e nunca deixou que os meus filhos falassem português, mas agora querem adoptar o sobrenome Pereira, porque têm muito orgulho em mim”, disse. “Quando se celebraram os 30 anos do 25 de Abril, eu e eles estávamos em Coimbra. Emocionados e a chorar.”

“Eu sou uma feminista, que luta pela igualdade e pela dignidade. Se só me divorciei em Dezembro foi porque dependia financeiramente do pai dos meus filhos.

Sustentar três adolescentes é complicado. Foi uma união psicologicamente violenta. Agora posso seguir o meu caminho.” Os filhos, conta, também vão pedir a dupla nacionalidade.

“Desde que aderi ao Partido Socialista em 1996 [secção de Noisy-le-Sec] e conheci Elizabeth Guigou em 2002, nada foi igual. No domingo [16 de Março de 2008] espero ser maire e provar que a política é para todos.”

  • [Em 2008, a vitória de Alda Pereira-Lemaître foi confirmada com 51% dos votos; derrotou Nicole Rivoire, do MoDem-UMP. Chefiou o município entre 2008 (tomou posse a 21 de Março) e 2010.
  • Em 2010, os Verdes e o os comunistas abandonaram a aliança com os socialistas que permitia uma maioria municipal em Noisy-le-Sec. A demissão de 20 de 39 vereadores forçou uma eleição parcial, em 5 e 12 de Dezembro. Alda Pereira-Lemaître foi apoiada pelo PS – contra uma votação interna da secção local do partido, que escolheu Jean-Paul Lefèbvre, agora apoiado por Élisabeth Guigou.
  • Em 2013, Alda recandidatou-se, às municipais de 2014, desta vez como cabeça de lista do Partido Radical de Esquerda (PRG).
  • Em 9 de Outubro de 2012, abandonou o PS.]

Alda Pereira-Lemaître
© Abrantes Pereira | Wikimedia Commons

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 16 de Março de 2008 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 16, 2008

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