As mulheres que nos conduzem – por terra, mar e ar

Guarda-freios nos eléctricos, motoristas de autocarro, de táxi ou de camiões, agentes de condução no metropolitano ou comandantes de aviões eram, até há alguns anos, profissões exclusivamente masculinas. Hoje, não há limites para as mulheres, ainda que os homens sejam a maioria no sector dos transportes. (Ler mais | Read More…)

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Ana Lúcia Lino e Lucília Marcos

(Na maior empresa ibérica de transportes e logística, o grupo Luís Simões, há 948 homens e 5 mulheres camionistas)

Só com uma mão no volante e uma única manobra em marcha-atrás, Lucília Marcos estaciona o seu novo camião DAF XF-410, “que protege o ambiente”, num dos armazéns do grupo de transporte e logística Luís Simões, no Carregado.

Minutos antes, não conseguia “controlar os nervos” ao ver um motorista menos habilidoso ensaiar várias tentativas e quase destruir o fole do portão, para realizar “uma coisa tão fácil” com um veículo de 13 metros de comprimento.

Lucília, 45 anos, proprietária de seis camiões e patroa de seis empregados na Transportadora Rodoviária Transmarlino, é uma mulher determinada. Quando o marido adoeceu e ficou incapaz de gerir a firma criada há duas décadas, ela tomou conta do negócio.

Hoje, em casa ou na estrada (quase sempre das 21h00 às 9 da manhã), com o inseparável telemóvel – paga 600 euros de chamadas por mês –, é ela quem define e distribui o trabalho de recolha e entrega de mercadorias.

Já passou por situações complicadas, mas nunca desistiu. Numa delas, “ a galera [semi-reboque] soltou-se do tractor [máquina principal]” e ficou com “uma roda em cima de uma perna”. Noutra, rebentou-se um pneu e, “como viram que eu era mulher, passaram por mim e ninguém parou”.

Noutra ainda, colidiu com um ligeiro, cujo condutor “teve de ser desencarcerado”, e ela foi obrigada a andar de esquadra em esquadra de hospital em hospital, “um dia inteiro sem comer”, a fazer “testes de álcool e drogas”, para provar que não era responsável.

Há também uma “avaria divertida”, estava ela “encostada na berma de uma auto-estrada, com os quatro piscas ligados”, em que uma amável patrulha da GNR “tirou o pneu suplente, meteu o macaco, levantou o carro, desaparafusou as porcas e mudou a roda”, para lhe permitir seguir viagem.

Desde os 29 anos que Lucília conduz com semi-reboque. Era magrinha, conta, e “os homens ficavam muito admirados” de a verem num veículo possante. Uns “mandavam bocas ou buzinavam” e outros ofereciam ajuda, que ela recusava.

“Preferia demorar mais tempo e aprender certinho” do que aceitar que fizessem as coisas por ela, justifica. “A única coisa que me distingue dos homens é eu não ter tanta força, de resto, eu agora faço até melhor do que eles”.

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A seguir-lhe os passos está Ana Lúcia Marcos Lino, a filha, 26 anos de idade e quatro no camião, que faz o horário diurno e distâncias mais curtas, às vezes auxiliada pelo irmão mais novo, “muito jeitoso com a mecânica”. Também ela não tem medo – “só se for de acidentes”.

Se, excepcionalmente, tem de pernoitar em algum sítio, escolhe áreas de serviço bem iluminadas. Sintoniza a Rádio Orbital (a mãe prefere os CD de Tony Carreira) deita-se no beliche do camião, equipado com edredons e almofadas e protegido por umas cortinas bem femininas.

A fazer-lhe companhia, de portas trancadas, tem dois ursinhos de peluche de cada lado do vidro dianteiro, além da imagem da Senhora de Fátima e do redondo boneco da Michellin.

Não é só na aparência do seu veículo que Ana Lúcia investe. A jovem parece um modelo de catálogo – jeans, casaco brilhante, botas cor de bronze, cabelo com madeixas, maquilhagem perfeita, unhas de gel pintadas com desenhos. “Gosto muito de tudo o que é serviço de cabeleireira, manicure e pedicure”, revela.

Este mês [Dezembro de 2007], vai acabar o “curso de estética” e depois, talvez, vá trabalhar para “o salão de uma amiga”, sem no entanto deixar de conduzir o camião.

Com ar de quem ainda frequenta o liceu – completou só o nono ano enquanto a mãe foi até ao 11º –, não admira que a brigada de trânsito a mande parar frequentemente para lhe pedir os documentos. Ana Lúcia diverte-se e jamais se atrapalha. “Conduzir um camião é mais fácil do que andar num ligeiro”, garante.

“Quando estou lá em cima, sinto que tenho um poder enorme sobre quem está cá em baixo. É engraçado, sobretudo quando passamos pelos homens. Quase que dá para nos sentirmos superiores a eles.”

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Maria Miranda e Andreia Silva

(Do pessoal marítimo na Transtejo, há 191 homens e duas mulheres – nenhuma delas com a função de mestre, quem conduz as embarcações) 

A vida de Maria Manuela Miranda, 42 anos, solteira, passa-se entre dois mundos: o das embarcações da Transtejo e o do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Ela é maquinista, mas isso não significa que esteja ao leme dos navios. Essa é a função do mestre, e ainda não há mulheres a exercê-la. Maria, como os colegas a tratam, apenas trata da casa das máquinas.

Antiga praticante de desportos náuticos, Maria formou-se na escola de marinha mercante Infante D. Henrique, em Paço de Arcos, onde entrou “tinha para aí uns vinte e tal anos”. Ainda tentou o curso de oficiais, mas interrompeu-o para se inscrever no ISEL.

“Aos 38, 39 anos”, quando se candidatou à Transtejo, depois de já ter passado por empregos em escritórios, notou que “havia um certo preconceito”. Alguns comandantes diziam: “Isto não é para mulheres”. Mas “eles precisavam de maquinistas e tiveram de me chamar”, regozija.

O cheiro a arroz de tomate e a peixe frito – o jantar da tripulação (um mestre, três marinheiros e a maquinista) – já se sente por todos os cantos do Eborense, um ferrry que liga Belém a Cacilhas, e Maria esfrega as mãos de contente. Ela raramente confecciona as refeições, porque é tratada como uma mascote. Gostam dela, e quando se descuidam com “anedotas picantes” ou “ asneirolas”, logo se redimem: “Oh Maria, desculpa lá”.

Ela até os encoraja e, em troca, pede apenas que “deixem tudo limpinho e arrumado”. Porque a sua casa das máquinas é um lugar organizado. O ruído obriga ao uso de abafadores de som, sobre um boné com a resistência de um capacete.

De farda, luvas e botas de biqueira de aço, e enquanto explica aos visitantes para que serve cada peça e instrumento, Maria toca num depósito de combustível como se acariciasse uma criança.

“Cá em baixo, onde passamos metade do tempo de um turno de oito horas, inalamos muitos gases e temos de suportar muitos barulhos”, descreve. “Ao fim do dia, é natural que me sinta cansada, mas aqui não há stress, mesmo em caso de avarias. Tudo tem solução.”

Quando a inspecção, que passa por ver o nível do gasóleo e dos óleos, está feita, Maria sobe à cabine do mestre e vai apreciar a vista. “Há luas e tempestades muito bonitas”, exclama com o olhar perdido no horizonte, contando como, aos fins-de-semana mais calmos, “até dá para pescar”.

Quando não dá, e acontece ver “um cherne gigante”, por exemplo, passa a informação e a localização exacta aos pescadores cujos pequenos barcos se cruzam com o grande ferry.

Maria valoriza os companheiros de trabalho. “Podem ser pessoas com menos escolaridade do que eu mas são muito sábias”, salienta. Fora da embarcação, ela tem outros amigos e os familiares com quem fala sobre “coisas diferentes”, embora o que goste mesmo é de ficar em casa, no Lumiar, a ouvir música, ler e ver filmes.

Não deixa que nada a influencie negativamente. Já teve de controlar um passageiro que queria sair a meio da viagem, e não conseguiu impedir que uma senhora se atirasse “borda fora”.

O que retém na memória é que, quando regressa de férias, são muitos os passageiros que lhe dizem: “Onde é que andou? Sentimos a sua falta.”

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Se Maria não tem aspirações a ser mestre, esse é o objectivo da marinheira Andreia Rosa Silva, agora a fazer “serviço no batelão”, no Seixal, porque está grávida do seu terceiro filho e não pode “lançar os cabos” nem “fazer amarrações”, a sua habitual tarefa, que inclui ainda “abrir e fechar o portaló” – a plataforma de entrada e saída nos navios.

“Estou à espera que abra um concurso de mestre e, assim que abrir, vou inscrever-me”, garante, já o catamaran Pedro Nunes está prestes a partir para o Cais do Sodré. “Quero mostrar aos homens que não são apenas eles que podem ser mestres.”

Andreia, 29 anos, foi ajudante de cozinha na turística fragata Afonso de Albuquerque e “adorava olhar para os veleiros das regatas Cutty Sark”.

Decidiu ser marinheira, ainda que só tenha “um mês de natação”, quando era empregada de bar numa das embarcações da Transtejo. “Um dia, houve temporal e lembro-me de as pessoas estarem todas assustadas.”

“Abanava tudo por todo o lado. Os copos voavam e, enquanto os outros gritavam, eu só tinha vontade de rir. Repetia para mim própria: ‘O que eu quero da vida é isto’. O temporal no mar é mesmo muito bonito.”

“Não tenho nada a provar aos homens”, sentencia Andreia, 1,57de altura e 52 quilos de peso. “Fui a primeira e única mulher [marinheira] a entrar cá dentro.”

“Passei o curso e logo aí disse tudo.” Aos que pensam que é preciso força para amarrar os cabos (não digam cordas) ao “cunho” ou ao “cabeço”, ela responde que “basta agilidade”.

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Dulce Carvalho e Emília Faria

(Segundo a Direcção-Geral de Transportes Terrestres e Fluviais, entre os taxistas que, a nível nacional, têm o Certificado de Aptidão Profissional, 20.108 são homens e 1978 mulheres – do total, há 49 que não especificaram o género, porque não é obrigatório)

Na primeira das quatro histórias do filme de Jim Jarmusch Noite na Terra, Gena Rowlands, agente de casting, tenta cativar Winona Ryder, uma jovem taxista, para ser estrela de cinema. A resposta ao convite é mais ou menos assim: “Nem pensar. Já tenho a vida organizada. O que eu quero mesmo é ser mecânica”.

Pois, perguntem à franzina Dulce Carvalho se ela aceita deixar o táxi que conduz toda a semana, excepto à segunda-feira, das 17h00 às 5 da manhã, que ela afiançará: “Mesmo que ganhe o Euromilhões, descanso dois ou três dias, e depois volto. Isto é como um vício.”

Já depois da entrevista feita, Dulce Carvalho, 48 anos, sofreu “uma espécie de ataque cardíaco”, que obrigou a ser hospitalizada. Talvez, excesso de tabaco, suspeitam os médicos. Vai mudar o ritmo, agora que apanhou “um susto”, maior do que quando a tentaram assaltar e ela conseguiu enganar o bandido? “Não, retomar a minha vida normal e, talvez, deixe de fumar. Eu gosto mesmo disto.”

E isso sente-se quando a acompanhamos pelas ruas de Lisboa por onde ela, nascida na Graça e agora a viver na Póvoa de Santa Iria, circula com destreza e celeridade. “É muito despachada e sabe até onde ficam os becos de que ninguém ouviu falar”, reconheceu um colega.

Antes de realizar “o sonho”, Dulce trabalhou num restaurante e foi operadora na Rádiotáxis. De início, as antigas colegas indagavam quando ela respondia às chamadas (a que alguns colegas homens às vezes se sobrepunham, obrigando à intervenção dos inspectores): “O que andas a fazer aí fora?”

Hoje, conhece bem o meio, a ponto de saber identificar os lugares bons (24 de Julho, Bairro Alto, Expo, Docas) e os maus (Buraca, Amadora, Queluz, Casalinho da Ajuda); os clientes seguros e os perigosos; os simpáticos e os de “nariz empinado”.

Dulce admite que conduzir à noite “é desgastante”, mas não aprecia o dia, porque “o trânsito é mais confuso, os passageiros andam com mais stress e menos paciência”. Comum aos dois turnos é a dificuldade de arranjar uma casa de banho, “quando se está aflitinha”. Nesse caso, recorre a alguns hotéis, que já a conhecem.

Ela gosta da rotina de acordar por voltas 13h30, tomar banho, comer o pequeno-almoço (“enquanto os outros almoçam”), vestir-se e ir para a praça de táxis da Graça, onde inicia e conclui o serviço. Por volta das 21h00, janta com o marido, que também é taxista, e ainda arranja tempo para um cafezinho e ir à garagem “mandar lavar o carro”.

De manhã, entrega a viatura ao patrão e retira a quantia que lhe corresponde – 30 por cento do que marcar o taxímetro. “Uma noite razoável dá cento e poucos euros”, a repartir pelos dois. “Nunca me imaginei patroa, e nem gostava”, assegura Dulce.

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O contrário de Maria Emília de Sousa Faria, 77 anos, a mais antiga taxista – pelo menos no Norte de Portugal. Na pitoresca Travessa 5 de Outubro, em Ermesinde, Dona Emília já nos espera, num final de tarde, para recordar histórias que fizeram história.

Desce as escadas da moradia, com jardim, horta e um cão irrequieto, e chega à porta com documentos e fotos a preto e branco onde estão os filhos, ela e o marido. Mais importante, onde se vê um “exemplo do boné” – o dela já não existe –, que lhe causou tantos problemas.

Quando chega à praça na estação de comboios, os taxistas inclinam-se em sinal de respeito para com esta senhora que, aos 33 anos, “cismou” em fazer o exame da quarta classe, aos 34 tirou a carta e aos 35 já tinha licença profissional para poder conduzir os dois primeiros Austin de António Monteiro, o homem com quem se casou aos 22 anos (ele tinha mais 30) e de quem ficou viúva aos 55.

“Anda daí menina, vamos dar uma volta”, dizia António a Emília. E ela ia, indiferente às críticas dos “homens ressentidos” e às operações stop da PSP e da GNR.

A primeira vez que foi “apanhada”, ainda sem a obrigatória licença de aprendizagem, o marido recomendou: “Deixa-te ir devagar e toca-me bem nessas curvas, que nós cá estamos quando ele vier.” E ele, o agente, chegou e foi implacável: passou uma multa de 500 escudos, a maior que a família pagou.

Esse episódio encorajou Maria Emília a deixar de ser amadora. Quando isso aconteceu, foi à esquadra, num misto de orgulho e desafio, saber o que tinha de fazer.

Os polícias, boquiabertos, “foram à busca do livro de código”, e leram-lhe um excerto: “Os motoristas de carros de aluguer têm de fazer uso de boné”. E de um “distintivo do lado esquerdo”. Do grémio se fossem industriais; do sindicato, se fossem empregados.

A partir de 1972, porém, segundo um decreto do Ministério das Comunicações, o boné foi abolido para as mulheres, que passaram a ter de envergar “fato saia e casaco, de cor cinzenta lisa, confeccionado em fazenda ou tecido semelhante, e blusa branca (tipo camiseiro) com manga comprida e punho”.

Estipulava ainda que, “entre 1 de Maio e 31 de Outubro, é dispensável o uso do casaco”. O mesmo se aplicava aos homens que, salvo esse período, teriam também de usar “casaco ou blusão e gravata”. Uns e outros, em qualquer altura do ano, deviam apresentar-se “em irrepreensível estado de asseio.”

A dona dos Táxis Monteiro Lda foi “autuada muitas vezes”, porque andava com o boné no banco do lado, e não na cabeça. “Eu detestava usar aquilo, porque era feio e era de homem” (o filho brinca, dizendo que ela “não queria desmanchar a permanente”). Também foi multada porque, em vez da blusa, “uma vez vesti uma camisola de gola alta branca”. Após 25 de Abril de 1974, estes regulamentos acabaram.

Quando António morreu, Maria Emília “não tinha dívidas mas também não tinha dinheiro”. Trabalhava dia e noite, “das 6 da manhã até chegar o sono”.

Comia na estação “e, em casa, só fazia a cama e as limpezas”. Não tem dúvidas: “Ficaria nesta vida eternamente”, se não tivesse sofrido dois AVC, que lhe fizeram “perder os reflexos”.

Continua, todavia, a dirigir a actual frota de quatro Mercedes, a partir da sua vivenda, em cuja garagem ainda guarda a velhinha caixa do telefone da praça de táxis.

Por cima do aparelho telefónico que serve de central de comunicações com clientes e funcionários, está uma foto do fundador da empresa, o marido que a transformou de modesta “criada de servir” numa mulher sem medo de “homens de farda”.

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Carina Santos e Ana Maria Escobar

(Nos eléctricos da Carris, há 115 homens e 37 mulheres guarda-freio, tendo as primeiras sido admitidas em 17 de Outubro de 1994)

O pai fazia miniaturas de eléctricos em alumínio, e a guarda-freio Carina Santos, de 24 anos, admite que isso “talvez possa explicar” o seu fascínio pelo velhinho amarelo nº 18 da Carris, que ela faz deslizar do Alto da Ajuda até à Rua da Alfândega.

Carina é das mais novas da companhia. Depois de empregos temporários na Zara e na Worten, entrou em Agosto de 2006, primeiro para formação em autocarros. Em Novembro do mesmo ano, com a “carta D”, já andava sozinha nos eléctricos.

Embarcamos numa paragem de descida acentuada e curva apertada, e ela não se atrapalha. Se o piso resistir, explica, pressionará um dispositivo para lançar areia nos carris e garantir a segurança da viagem.Atenta a todos os pormenores, move com vigor, para a esquerda ou para a direita, a manivela com a designação de controler.

Vai carregando nos vários botões, um dos quais diz “homem morto”, que é um avisador de segurança e lhe “imobiliza o carro”, se algo corre mal. Toca frequentemente a buzina, para avisar peões distraídos e/ou automóveis atrevidos. E sorri sempre, radiosa no uniforme azul e amarelo, com brincos a condizer nas duas cores.

No nº 18, os passageiros são quase família – “Bom dia, precisa de ajuda?” –, sobretudo os mais idosos, que descem na Boa Hora para ir ao supermercado.

“Quando faço o caminho de volta, lá estão eles com os sacos das compras e, às vezes, dão-me maçãs, pêssegos, bolachas”, conta Carina. “Também já me ofereceram rosas, aqueles senhores que as vendem. E depois há os turistas que tiram muitas fotografias”.

Embora já sejam muitas as mulheres guarda-freio, ainda há quem não contenha a admiração. À chegada ao Terreiro do Paço, numa paragem nos semáforos, um homem salta do passeio para a frente do eléctrico, bate no vidro, gesticula e grita: “Ah, cara linda!”. Carina ruboriza-se e baixa os olhos, embaraçada e feliz.

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Carina também conduz o eléctrico 28, “rota da Lisboa antiga”, que vai do Martim Moniz a Campo de Ourique. Nas duas carreiras passa por dois cemitérios – Ajuda e Prazeres –, mas não há alma penada que lhe tire o sono, até porque há dias em que acorda às 4 da madrugada para, às 5, estar em Santo Amaro a “preparar o carro”.

O marido de Carina conduz autocarros na Carris. Entraram já casados na companhia e fizeram a formação juntos. Ele ambiciona dedicar-se ao turismo e ela, com o 12º, gostava de estudar Psicologia.

Por agora, acrescenta, “sinto-me muito bem assim”. É um sentimento partilhado por Ana Maria Escobar, 47 anos, condutora do moderno eléctrico nº 15, que nos leva da Praça da Figueira a Algés.

“Espero andar aqui até à reforma”, afirma convicta, enquanto tenta contornar um dos muitos obstáculos que vai encontrando pela via e, neste caso, um automóvel mal estacionado no Cais do Sodré.

“Isto é que me deixa nervosa, ou então se eu faço ou me fazem risquinhos na chapa, porque já sei que nessa noite não vou dormir”, desabafa.

Fechada na cabine envidraçada do seu nº 15, Ana Maria não tem o mesmo contacto com os passageiros que Carina Santos – só quando faz a carreira 28 –, mas ainda há quem lhe vá bater à porta ou espere que ela saia nos terminais para lhe dar os parabéns pela “maneira cuidadosa como conduziu”.

Uma grande diferença de comportamento em relação a 1974, quando entrou, depois de responder a um anúncio e de fazer os testes e o curso.

Nessa altura, a antiga vigilante de segurança e funcionária de um jardim infantil, mãe de três filhos, lembra-se que chegaram a intimá-la: “Oh, senhora, que faz aqui? Vá para casa, por amor de Deus!”

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Catarina Pinto e Eva Borges

(Na Pizza Hut, a maior cadeia de restauração organizada a nível nacional, há 393 homens e 9 mulheres no serviço de distribuição com motos)

É tão raro, uma mulher distribuir pizzas em motos que, às vezes, Catarina Pinto, de 25 anos, se depara com situações caricatas quando vai a casa dos clientes ao volante da sua nova Yamaha CT 50-S ou da obsoleta Yamaha DT 50-LC. “Aparecem-me homens em trajes menores, de “boxers” ou de roupão aberto”, revela a jovem universitária.

Ela nem pestaneja. Eles “escondem-se atrás das portas, olham de um lado para o outro, sem saber o que fazer”. Desprevenidos e embaraçados, por vezes são mais generosos nas gorjetas.

Só há duas mulheres no serviço de distribuição da loja de Massamá da Pizza Hut – o maior, em termos de entregas na zona de Lisboa, dos 90 estabelecimentos desta cadeia de restauração. E uma delas é Catarina, estudante de Administração Pública do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), depois de ter desistido da licenciatura em Engenharia de Sistemas Informáticos e Multimédia.

A colega de entregas é Eva Borges, 42 anos, casada e com dois filhos, que anda de carro mas, influenciada por Catarina, está a pensar arranjar uma moto, “para ser ainda mais rápida” – qualidade que levou o patrão ir buscá-la à concorrência.

Pois foi a possibilidade de “conciliar emprego com o gosto pelas motos” que levou Catarina, aos 18 anos, a adaptar ao seu veículo uma caixa isotérmica onde transporta as pizzas aquecidas numa “exclusiva placa de indução”. Massamá já é a terceira loja por que passa, além de outras “tarefas intercalares e temporárias”, como servir à mesa nas Docas ou ser administrativa na Caixa Geral de Depósitos.

Agora, na área de Monte Abraão, onde reside, “trabalho normalmente das 19 às 22”, um part-time flexível que pode render um mínimo de 400 euros por mês, sem incluir gorjetas.

Ela já conhece os percursos, alguns labirínticos, teve apenas pequenas avarias, um acidente com um cão – “foi ele que me atropelou e me fez cair a mota ao chão” – e nunca viveu qualquer situação de insegurança.

Só uma vez lhe roubaram o boné que acompanha o uniforme vermelho, mas ela nem estava presente. Além disso, “não há que temer” porque só anda com “o dinheiro necessário para os trocos”.

A emancipada Catarina surpreende-se com a surpresa que ainda aparece no rosto das pessoas quando ela chega com uma encomenda. Pais que chamam os filhos propositadamente para a verem, e exclamam: “Olha, que giro, é uma menina!”. Distribuir pizzas é uma maneira de suportar as despesas de quem já não vive com os pais, e o horário flexível permite tempo para se empenhar nos estudos.

No futuro, Catarina espera que “os quadros da função pública se renovem” e que ela possa entrar. Não quer continuar de porta em porta depois de se formar, até porque a família “não acha piada” a vê-la num serviço em que está exposta ao frio e à chuva. Uma coisa é certa, porém, nunca abandonará as motos.

“Quando era pequena e ia passear no shopping, eu não queria que me comprassem bonecas, mas uma mota para brincar”, recorda. “Tive a minha primeira mota aos 15 anos. A minha mãe não quis dar-me autorização para a licença. Mas eu, rebelde, desisti da escola para ir trabalhar, numa hamburgueria e na distribuição de publicidade, e assim consegui o dinheiro para comprar a mota. Custou, na altura, creio eu, 180 contos.”

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Helena Cunha e Marlene Nogueira

(A empresa Metro do Porto tem 186 homens e 9 mulheres agentes de condução. O Metro de Lisboa não tem mulheres nesta função)

Helena Maria Pinto Cunha, 36 anos, trabalhava desde os 17 e queria mudar de emprego. “Achava que era capaz de fazer algo mais do que estar a uma secretária”. E conseguiu: tornou-se na primeira mulher agente de condução de metropolitano em Portugal e, mais tarde, na primeira reguladora europeia de um Posto Central de Comando (PCC).

Foi no dia 17 de Junho, “há sensivelmente cinco anos e meio”, que Helena mandou a candidatura a um lugar no PCI, o posto de informação áudio. “São as meninas que falam para as estações e fazem o atendimento ao cliente”, explica timidamente, nos escritórios da Transdev, a empresa operadora da Metro do Porto, em Guifões.

No PCI, primeiro degrau na carreira, Helena esteve cerca de um ano. Depois, “achei que também conseguia dar o passo seguinte, a condução”, refere. Fez um curso intensivo, teórico e prático, oito horas diárias durante três semanas. Quando começou a conduzir, só havia uma linha – entre Trindade e Senhor de Matosinhos. Agora há cinco, até ao Estádio do Dragão.

Na primeira viagem não sentiu nervosismo. Sabia que tinha de ser cautelosa, porque nas áreas de intercessão urbana, peões e automóveis ainda não estavam habituados a ver o metro passar.

“Havia reacções de admiração, senhoras que me atiravam beijinhos, e havia comentários depreciativos, do género ‘se as mulheres conduzem isto, eu também consigo’”, recorda Helena. Logo de início, uma velhinha entrou com a neta, com uns dez anitos, e esta assustou-se: “Oh avó, é uma mulher, vamos morrer”.

Ao fim de oito meses, a agente de condução (não lhe chamem maquinista) avançou para outro lugar na escala: a regulação, “uma das funções mais bonitas”, exulta.

Trabalhava da meia-noite às 9h00 ou das 9h00 às 18h00 numa sala com um quadro cheio de luzinhas, espécie de torre de controlo do tráfego, onde ninguém pode ser perturbado.

Afinal, é aqui, 24 horas por dia, que se define a circulação e se localizam as composições (podem funcionar mais de 70 numa manhã, e a cadência aumenta em dias de jogos de futebol); se detectam as avarias e situações de emergência; se decide se são necessários veículos de substituição ou reforço.

Depois da condução e da regulação, Helena foi promovida a TPO, técnica de planeamento. É ela e mais cinco colegas que estabelecem os horários e serviços dos reguladores e condutores, um dos quais a pequena e loura Marlene da Conceição Nogueira, 29 anos, a fazer todas as linhas desde Outubro de 2006.

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Marlene, ao contrário de Helena, estava nervosa no primeiro dia de condução, mas já não tem medo, assevera, a não ser que tenha “uma avaria numa zona deserta”.

Com o 12º ano de escolaridade e depois de dois empregos que não deixaram saudades, a jovem ostenta agora com visível prazer o uniforme cinzento bem justinho ao corpo.

Sentada na cabine, com os olhos e as mãos em permanente movimento, confessa que se entusiasma quando os rapazes do FCP batem palmas à sua chegada à estação, sobretudo se estão eufóricos com as vitórias.

Mas, o que ela gosta mais é de emergir do túnel e atravessar a Ponte D. Luís – a “linha D”, que parece uma combinação de metro, comboio e eléctrico. O sorriso abre-se: “É um dos momentos mais bonitos, sobretudo se a manhã estiver de nevoeiro”.

Quais as perspectivas futuras de quem se levanta às 4 da madrugada e se deita às 6 da tarde para fazer um “trabalho solitário” e sempre a andar de um lado para o outro? Marlene fica pensativa por uns segundos, e responde: “Para já, imagino-me a fazer isto a vida toda”

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Rita Lopes

(Na TAP, os aviões são pilotados por um total de 762 homens e 20 mulheres, 7 das quais são comandantes)

Foi tudo a 1 de Abril, mas nada é mentira. Aos completar 16 anos, Rita Lopes iniciou o curso de brevet. Aos 17, fez o exame e, invulgarmente, obteve logo a licença.

Aos 20, começou o curso de PCA (piloto comercial de aviões); aos 24, fez o seu primeiro voo na TAP; aos 30, deu início a outro curso, o de comandante, que hoje a distingue com quatro divisas douradas na sua farda azul. “Também me irei reformar no mesmo dia, espero eu?”, diz sorridente, sentada num Airbus-320, que lhe é familiar, com o nome de Alexandre O’Neill.

Tudo começou numa escola de aviação que já não existe, a Aerocondor Transportes Aéreos (ATA). Rita, hoje com 31 anos, “já pensava nisto [de voar] há algum tempo”.

Ainda estava no colégio quando decidiu “fazer o curso de brevet devagarinho”. As aulas, que até os fins-de-semana a ocupavam, eram dadas no Aeródromo de Cascais, em Tires.

Frontal, ela não quer que se diga que isto era “um sonho”, e garante que o facto de o pai ser comandante na TAP não a influenciou em nada: “Somos três irmãs – uma tem medo, a outra enjoa, eu gosto imenso.”

O brevet não dava para trabalhar, apenas voos de recreio, com “umas voltinhas no Guincho”. Enquanto ficou à espera de fazer o PCA, Rita foi estudar Direito para a Universidade Católica. “Fiz três anos, mas percebi que estava a gastar tempo e energia.” Depois de “um ano e tal de curso” de piloto comercial, que “nos ensina, por exemplo, a aeronáutica, a meteorologia, a performance, as comunicações”, concorreu à SATA, à Portugália e à TAP.

Enquanto esperou pelos resultados do concurso de admissão à TAP, “o que demorou mais ou menos um ano”, Rita trabalhou na ATA, a “fazer linhas regionais, Vila Real ou Bragança, táxis aéreos, voos mais pequenos em aviões pequenos”.

A entrada na TAP significou outro curso, o de piloto de linha aérea, “uma coisa mais específica e mais abrangente”. Rita lembra-se bem quando foi “largada” – expressão para o primeiro voo: num só dia fez Lisboa-Funchal; Funchal-Porto; Porto-Funchal; Funchal-Lisboa. O comandante do avião era, “coisa engraçada”, o seu pai.

Sentiu algum nervosismo por transportar mais de 100 passageiros? “Não, nada!”, responde Rita, com o mesmo à vontade com que vai cumprimentando os técnicos que entram e saem do avião onde esta entrevista é feita, num hangar do aeroporto de Lisboa. “Se eu tivesse medo, não andava cá.”

“Só uma pessoa irresponsável que está dentro de uma nuvem de gelo, com chuva e trovoada é que não fica apreensiva. Mas isso é ser consciente, saber o que estamos a fazer, o que temos de fazer. Ter medo é não controlar as emoções. Não tomar decisões. Ter medo é ficar parado.”

Situações complicadas “são para resolver”, porque um piloto “tem de estar sempre do lado da solução, nunca do lado do problema”.

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Quando os passageiros aplaudem uma aterragem – e Rita, que ouve as palmas no cockpit, até gosta mais de aterrar do que descolar –, talvez não saibam que qualidade nem sempre é suavidade.

“Numa situação de pistas curtas e molhadas, ventos fortes e cruzados, um piloto que estiver preocupado em fazer uma aterragem suave não fará uma boa aterragem”, explica. “Num caso desses, a aterragem de ser positiva, no princípio da pista, no centro da pista, a pensar em travar, em aterrar com segurança e, por isso, não é nem pode ser uma aterragem suave.”

E para os que pensam que vida de piloto é “ir a Paris e ficar lá dois dias a fazer compras”, Rita, comandante de médio curso – voos para a Europa, África, Madeira e Açores – explica as dificuldades de conciliar vida profissional e familiar, e também os problemas de saúde de uma carreira de (ainda não reconhecido) desgaste rápido.

“Eu posso sair de casa e estar três dias ausente, mas isso não significa estar três dias no mesmo sítio. Faço uma média de três voos por dia, cinco vezes por semana.” Significa por exemplo, sair numa madrugada, às 6, e chegar a casa, dois dias depois, às 23h00.

É preciso um grupo de apoio – marido, pais, sogros, empregada – para que os filhos, Henrique, que vai fazer 5 anos, e Francisca, de 2, mantenham as rotinas, de ir à escola, ao parque, ao jardim zoológico, à praia ou ao Oceanário [de Lisboa]. Eles agradecem. Quando Rita tem um voo muito cedo, são eles que encaminham a mãe para o quarto e lhe vão contar uma história.

“Esta é uma profissão muito desgastante”, frisa a comandante. “ Ser piloto é chegar a trabalhar 12, 14 horas seguidas. Estamos sujeitos a raios violeta não filtrados (porque vamos em camadas altas da atmosfera), a doenças vibro-acústicas, que ninguém sabe bem o que é.”

“Eu faço três descolagens e três aterragens por dia, é como se subisse e descesse três vezes a Serra da Estrela em meia hora. O ar do avião tem 2 por cento e não 70% de humidade, como o ar normal.”

“Voamos com auscultadores na cabeça. Além disso, desde [os ataques terroristas de] 11 de Setembro [de 2001, nos EUA], já não é a mesma coisa andar de avião e num aeroporto como antigamente. Passamos pelos raios X imensas vezes, temos portas blindadas, temos códigos de acesso ao cockpit.”

“A nossa pele está mais exposta à luz do sol. A antena de radar fica mesmo por baixo de nós. No caso das mulheres, não podemos voar assim que ficamos grávidas devido às radiações cósmicas.”

Não obstante as condições adversas, Rita Lopes sente-se uma “pessoa realizada e, por isso mesmo, uma melhor mãe”. Não lhe perguntem se aspira ir para o longo curso que ela logo contrapõe: “Para quê? Porque há praias paradisíacas? Gosto mais de mudar as fraldas à minha filha. Eu acho que devemos estar contentes com o que temos. É o primeiro passo para sermos felizes. Há um tempo para tudo na vida.”

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© Enric Vives-Rubio

Patrícia Pinto e Maria Cecília Barros

(Entre os maquinistas da CP, Companhia de Caminhos-de-Ferro Portugueses, há 1086 homens e 8 mulheres)

Em Abril de 2000, quando Patrícia Pinto, 36 anos, e a sua colega Isabel se tornaram maquinistas da CP, ela não tinha sequer licença para conduzir veículos ligeiros.

De início, recorda agitada, o cigarro entre os dedos, os homens na companhia murmuravam: “Vão ser protegidas. Não vão correr as escalas como nós [turnos de manhã, tarde e noite], vão ser as meninas do horário de escritório, das 9 às 5”.

No caso de Patrícia, o que faz é tentar trocar as manhãs pelas tardes, sempre que possível, para poder acompanhar o filho, Atila – ele tem dois anos e ela esperou sete para o ver nascer.

“O meu marido, que é carteiro, entra sempre às 6 da madrugada”, conta. “Então, eu fico com o menino de manhã, e o meu marido vai buscá-lo à tarde e toma conta dele até eu chegar, por volta das 11 ou meia-noite. Às vezes, nem vejo o meu marido.”

“São muitos os dias em que ele se levanta e eu ainda estou a dormir. Ele folga sempre ao fim-de-semana, mas eu não. Isto afecta a família, claro, é complicado.”

Ter sido segundo sargento no Arquivo Geral do Exército (e ela relembra esses tempos sempre que o comboio passa por aqui) pode ter-lhe dado o porte atlético com que se dirige para a locomotiva em Alcântara, mas não a deixou menos nervosa.

Na primeira viagem e, apesar de meio ano de formação, ficou assustada com as “muitas luzinhas e apitos”, e “qualquer barulhinho que ouvia, dizia: ‘Ai, meu Deus, o que me vai acontecer’?”

A pouco e pouco, a ex-militar que também foi operadora de caixa de supermercado foi-se habituando a dominar o convel, o painel onde estão múltiplos botões com diversas funções, e a alavanca de frenagem e tracção. E já não se ri quando pergunta a um colega se ele lhe “correu bem o engate” – do comboio, claro está.

Como outras mulheres nestas páginas, também Patrícia sentiu admiração – uns elogiavam a “coragem” – e rejeição – outros recusavam entrar na carruagem por “não confiarem” na condução feminina. Isso já não a incomoda.

Fica mais sensibilizada com outras situações. “Por causa de um cão, já cheguei a ir à [travagem de] emergência”. E saliente-se que, em situações como esta, a 90 quilómetros por hora, um comboio, que pesa muitas toneladas, só pára 800 metros à frente.

“Quando um cão entra na linha não consegue sair, porque o comboio nos carris cria-lhe uma barreira imaginária, como se existissem paredes”, explica Patrícia. “Enquanto ouvir o comboio atrás dele, o cão não vai para a esquerda nem para a direita. Só se houver uma interrupção, como uma passadeira, é que ele sai. Já me aconteceu ir atrás de um cão do Campo Pequeno a Entrecampos, a dez à hora.”

É fácil acreditar nesta faceta sensível quando se vê Patrícia, em passo de marcha, segurar na sua malinha vermelha com um peluche branco, ou a fazer bijuteria nas horas livres.

Em Dezembro, também gosta de usar um capuz de “mãe Natal” e decorar a cabine com iluminação da época. Na passagem de ano, é certo e sabido que vai gastar ar comprimido para buzinar ao colega com quem se cruzar à meia-noite.

De resto, Patrícia Pinto, que só aprendeu a conduzir automóveis em Janeiro de 2006, seis anos depois da “carta de unidades motoras”, adora passar pela Segunda Circular só para ver os aviões “a subir e a descer”, porque “gostava mesmo de ser piloto”.

Não podendo, inebria-se com o nascer e o pôr-do-sol na Gare do Oriente e na Lezíria ribatejana – “aqui a água é como um espelho, os pássaros parecem pintados numa tela, e o céu fica cor-de-rosa”.

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© Enric Vives-Rubio

Também Maria Cecília Barros, 36 anos, que faz a linha de Sintra, se deixa deslumbrar com o castelo na serra, sobretudo em dias de nevoeiro e chuva, “porque parece assombrado”.

Maquinista da CP desde 2001, depois de ter sido auxiliar de acção médica, sente que alguma coisa mudou quando entrou para este “mundo de homens”.

Desapareceram, desde logo, os calendários de mulheres nuas das salas onde fazem pausas e refeições em conjunto. E os palavrões foram diminuindo, mesmo que alguns ainda ousem cortejá-la.

Cecília foi a primeira mulher grávida na empresa, que nem sabia como agir quando se confrontou com esta realidade. Os médicos recomendaram-lhe que ficasse “sem fazer nada”, porque não podia correr riscos – as linhas são de alta tensão, uma catenária tem mais de 25 mil voltes, pode haver quedas a subir e a descer dos comboios.

Hoje, com uma filha de 4 anos, muito apoiada pelos pais e marido, Cecília Barros, tal como Patrícia Pinto, não se arrepende de ter respondido ao anúncio para ser maquinista.

“Podemos não subir mais na carreira [ela não está interessada no Alfa nem no futuro TGV] mas compensa do ponto de vista financeiro”, justifica. Com o 12º ano, o que ela “ queria realmente era ser enfermeira”, mas nunca teve nota suficiente para entrar na universidade.

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Anabela Malveira e Paula Joaquim

(Entre os motoristas de autocarro da Carris há 1661 homens e 39 mulheres, sendo que as primeiras foram admitidas em Maio de 1994)

Anabela Malveira já tinha licença para conduzir ligeiros, motos e pesados quando, em 1994, respondeu a um dos “primeiros anúncios M/F” para motorista da Carris. Só lhe faltava a de serviços públicos. Olharam-na com desconfiança, mas um engenheiro da companhia, impressionado com “tanta carta”, decidiu fazer dela “uma experiência”.

Há 13 anos, era tão invulgar ver uma mulher no lugar do condutor de autocarros que, durante a formação de Anabela, ainda sem farda, que hoje é obrigatória, “as pessoas ficavam paradas na passadeira, não andavam para um lado nem para o outro”, espantadas a olhar para ela. Às vezes, ela vestia umas blusas de cores garridas, e o espanto ainda era maior, ao ponto de o instrutor lhe recomendar roupas “mais discretas”, porque era vista como “um bicho raro”.

Hoje, Anabela Malveira, de 42 anos, é a mais antiga entre as mulheres ao volante dos autocarros da Carris. A sua carreira 38, do Alto de Santo Amaro à Quinta dos Barros, em Lisboa, faz a ligação entre uma “zona de ricos” e uma “zona de pobres”, com paragens onde nem olham para ela ou onde os passageiros já são gente conhecida.

Como Manuel Pinho, 59 anos, um cego que entra junto ao Liceu Pedro Nunes, “só para passear”, diz ele. Também pode ser “para visitar a irmã”, acrescenta a motorista, que lhe conhece os hábitos por ambos conversarem enquanto esperam nos terminais pela viagem seguinte.

Quando respondeu ao anúncio, Anabela vivia com os pais em Santiago do Cacém, no Alentejo. Filha única, “sem necessidade de trabalhar”, decidiu concorrer “por curiosidade e para um dia contar a aventura aos netos”.

Tinha 29 anos e inscreveu-se sem a mãe saber. Já tinha feito um curso de secretariado e depois concluiu o 11º ano na antiga Escola Ferreira Borges, agora Rainha D. Amélia – curiosamente, uma das etapas da carreira 18.

Assim que entrou na Carris – das 16 concorrentes ficaram três –, Anabela percebeu que o ambiente era mais pesado que o autocarro. Colegas (incluindo o homem com quem se casou há 12 anos) duvidavam da sua competência.

Uma passageira chegou a dizer-lhe: “Tanto homem com falta de trabalho e tu andas a tirar-lhe o lugar.” Já não é assim. Agora, desejam-lhe “força”.

Mas não é preciso força, garante Anabela, nem mesmo para os autocarros articulados de 18 metros de comprimento (mais seis do que os standard, como o 38). É certo que “o dia corre melhor” – mesmo acordando às 4 da madrugada na sua casa em Pinhal Novo – se conduzir um daqueles veículos que parecem rodopiar nas curvas como serpentes.

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É um desses, a carreira 50, que Paula Joaquim, de 30 anos, acabadinha de chegar à Carris (em Abril), “adora guiar” entre Algés e a Gare do Oriente.

De mangas arregaçadas e óculos escuros, ela roda o volante como se fosse o de um triciclo. Nem subidas íngremes, nem a passagem por bairros sociais problemáticos, nem a caótica entrada na Segunda Circular a perturbam.

“Sempre gostei de conduzir mas, de condução, não tinha prática nenhuma”, diz Paula, numa pausa em Cabo Ruivo, antes do segundo turno. “Só ao fim-de-semana é que andava com o meu carro. Eu sou do Barreiro. Nem sequer conhecia Lisboa.”

Depois de trabalhar em fábricas, Paula candidatou-se à Carris em busca de um emprego estável – “ao fim de nove meses entramos para os quadros, é uma maravilha”.

No primeiro contacto, tal como aconteceu com Anabela, também olharam para ela com cepticismo. “Deixe-me tentar, pelo menos”, pediu. Como tinha (ainda tem) de fazer todas as carreiras, a partir de Miraflores, “vinha umas horas antes do serviço para reconhecer os percursos. Fazia um género de ‘croquis’, umas cábulas, para me ajudar.”

Agora, apesar do stress, sente-se realizada. Os pais e o namorado, militar da GNR, têm “muito orgulho” na sua profissão. “Tenho dias de sair às 23h00 e, como resido na Margem Sul, ainda tenho muitos quilómetros para fazer até casa”, afirma.

“Por vezes, é chegar, tomar banho, comer qualquer coisa e deitar-me”. Não é fácil ajustar madrugadas e noites à vida pessoal, mas tudo se consegue “com bom senso e boa vontade”.

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Dezembro de 2007 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in December 2007

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