Pagam milhares de dólares a traficantes para trocar de vida, mas muitos acabam no fundo do mar ou expulsos à força, porque são migrantes indesejáveis numa Europa de “muros e arame farpado”. No Mediterrâneo, ou do canal que une a França ao Reino Unido até à floresta que separa a Bielorússia da Polónia, 2021 foi um ano dramático. O Papa Francisco apela a que se evite um “naufrágio das civilizações”. (Ler mais | Read more…)
(…) entendam /ninguém coloca os seus filhos num barco / a menos que a água seja mais segura do que a terra / (…) a casa é o tambor da arma / e ninguém sairia de casa / a menos que a sua casa tenha dito / mexe as pernas / deixa a roupa para trás / rasteja pelo deserto / vagueia pelos oceanos / afoga-te / salva-te (…) *
(“Home”, Warsan Shire)
Em Novembro, Maryam Nouri Mohamed Amin, 24 anos, deixou a casa da família em Soran, na região semi-autónoma curda do Norte do Iraque, na fronteira com a Turquia e o Irão. Ansiava juntar-se ao noivo, Muhammad Karzan, imigrante na Grã-Bretanha, e aqui iniciar uma nova vida.
A jovem que todos conheciam por Baran investiu as poupanças para arranjar um visto Schengen e fez a sua primeira viagem de avião, com paragens em Itália, na a Alemanha e em França. Aqui, supostamente na área de Dunquerque, a leste do porto de Calais, embarcou num minúsculo, frágil e sobrelotado bote, controlado por traficantes, para atravessar o Canal da Mancha.
Só no dia 24, é que Karzan foi informado de que Maryam ia ao seu encontro. Era uma surpresa. Seguiu-a por GPS enquanto trocavam mensagens pela aplicação Snapchat, segundo relatos dos media britânicos. A meio do caminho, quando a embarcação insuflável começou a perder ar e a ficar alagada, numa zona de ventos fortes e agitadas correntes marítimas, ela tranquilizou-o, dizendo-lhe que o socorro estaria a caminho. Os passageiros haviam levado números de emergência. Mas a ajuda veio tarde de mais.
Maryam e outras 26 pessoas – incluindo três crianças – morreram numa das piores tragédias no Canal da Mancha dos últimos anos. Sobreviveram apenas dois homens, um iraquiano e um somali.
Maryam tentara por duas vezes entrar legalmente no Reino Unido, mas a embaixada britânica “adiou” o seu processo, obrigando-a a procurar a rota ilegal, criticaram familiares ouvidos pela BBC. “O mundo inteiro fala da Europa como um lugar calmo e agradável, mas que calma é esta quando cerca de 30 pessoas morrem no mar?”, revoltou-se o pai. “É um pecado forçarem as pessoas a enfrentar estas situações.”
“Sentimos uma grande tristeza e uma fúria imensa”, declarou Laurent Giovannoni, responsável pelo departamento de acolhimento e direitos dos estrangeiros na organização francesa Secours Catholique. “A fúria é imensa em relação às autoridades francesas e inglesas, porque são elas os verdadeiros responsáveis por estes dramas. Ao tornarem insuportáveis a vida destes exilados, elas privam-nos de qualquer saída. Ao fazê-lo, são elas que, literalmente, empurram os migrantes para os braços dos traficantes. Estes são o resultado de uma política que bloqueia todas as saídas das pessoas.”
“Três factores conduziram ao impasse actual”, especifica Giovannoni no site da Secours Catholique, ONG que há vários anos presta auxílio a migrantes. “O primeiro são as condições de vida intoleráveis mantidas pelas autoridades [francesas] no litoral, através de uma política repressiva e policial, de assédio e expulsões diárias, conduzindo a um tratamento humano degradante. Um segundo obstáculo é a impossibilidade de os exilados terem acesso a um processo em França, devido aos Acordos de Dublin [os quais exigem que um requerente de asilo se registe no país pelo qual entrou na UE]”
“Sugerem-lhes acolhimento a 200 km de Calais, mas para quê, se não podem pedir asilo em França?”, adianta Giovannoni. “Manter os Acordos de Dublin é dizerem-lhes: não sois bem-vindos em França, partam! Mas eles não podem partir – e este é o terceiro bloqueio – porque a França aceitou ser a guarda de fronteira dos ingleses e impedir que as pessoas entrem legalmente na Grã-Bretanha. Sem uma solução legal, as pessoas correm todos os riscos.”
Entre Janeiro e Novembro de 2021, entre 25 mil e 31 mil pessoas tinham feito a travessia de barco da França para o Reino Unido, mais do triplo em relação às 8404 em 2020, ano em que o fluxo migratório diminuiu, em grande medida devido à pandemia de covid-19, segundo estatísticas dos dois países.
Nos botes dos traficantes seguem iranianos, iraquianos, sírios, afegãos, tajiques, kuwaitis, turcos, palestinianos, egípcios, eritreus, sudaneses (do Norte e do Sul), iemenitas, guineenses, malianos, chadianos, somalis, nigerinos, líbios e albaneses. Fogem de guerras, da insegurança alimentar, de perseguições (porque são dissidentes políticos ou homossexuais), do serviço militar obrigatório…
Tal como aconteceu com a jovem Baran, também para o compatriota Zaid Ramadan, de 23 anos, foi a ausência de futuro, para si e a sua mulher, Delin, grávida do primeiro filho, que o levou a arriscar tudo por uma “vida digna”, na Alemanha.
Embora o Curdistão iraquiano, rico em petróleo, seja relativamente próspero e estável, a realidade é que, nos últimos anos, têm aumentado o nepotismo (a região é governada por duas famílias: os Barzani em Erbil e Dohuk; os Talabani em Sulaymaniyah), a repressão e a corrupção. Uma crise económica reduziu os salários da função pública e aumentou o desemprego, sobretudo de jovens. Muitas famílias têm vindo a vender as suas casas, carros e outros bens, para pagarem a traficantes e poderem chegar à União Europeia.
Zaid Ramadan, filho de um professor e de uma enfermeira, com duas irmãs dentistas que nunca entraram no mercado de trabalho, jamais conseguiu um emprego que não fosse precário, mas fez de tudo, de servente na construção civil a taxista, reportou a agência Associated Press.
Este ano, vencida a relutância da mulher, Ramadan deixou para trás a montanhosa província natal de Dohuk, numa viagem perigosa e onerosa (pagou 10.000 dólares a um traficante), e chegou à Bielorússia, onde o ditador Alexander Lukachenko facilitou a atribuição de vistos, servindo-se dos migrantes para se vingar das sanções impostas pela UE após a sua contestada vitória eleitoral em 2020. Rapidamente, Zaid e Delin viram os sonhos desfeitos.
Na densa e gélida floresta junto à fronteira com a Polónia, o casal juntou-se a centenas de outros migrantes, a maioria provenientes do Iraque e da Síria, Estados dilacerados por guerras e outros conflitos. As redes de contrabando proliferam no Curdistão, sobretudo desde que a queda dos preços do petróleo deixou o governo regional em “situação de insolvência”.
Os Ramadan acreditaram nas falsas promessas de um traficante de que chegariam sem dificuldades ao destino desejado, mas as autoridades polacas – que mobilizaram milhares de soldados, ergueram uma vedação de arame farpado e iniciaram a construção de um muro de 180 km para travar a passagem de migrantes e refugiados pelo país – expulsaram-nos (um acto ilegal segundo a lei internacional) para Minsk e obrigaram-nos a embarcar num voo de repatriamento para Dohuk. “Tenho o coração partido, voltei à estaca zero”, lamentou Zaid, em declarações à AP.
A restritiva política da Polónia e a acção violenta das suas forças de segurança (pelo menos 13 pessoas morreram e muitas outras foram feridas) têm sido contestadas por activistas cristãos que se mobilizaram, tal como a Secours Catholique em Calais, para impedir que os migrantes, agora menos do que em Novembro, morram de frio, de fome ou de doença na floresta onde muitos se esconderam. Oferecem-lhes uma sopa quente ou um agasalho, assistência médica ou ajuda no preenchimento de formulários de pedidos de asilo, carregam-lhes as baterias dos telemóveis, confortam-nos com palavras amigas.
“As nossas acções são consideradas um crime, mas lembramo-nos da lição do Papa Wojtyla [João Paulo II], de que precisamos de um coração grande, e seguimos o caminho da desobediência civil legal”, disse Wiktor Jarocki, membro de uma associação católica em Krynki, citado pelo site Vatican News.
No Mediterrâneo Central, que a ONU descreve como “a rota migratória mais mortífera” para a Europa, o drama humano é ainda mais pungente. Desde 2014, estima-se que ali perderam a vida 22.653 pessoas. Em 2021, entre Janeiro e Setembro, terão morrido 1369 (mais do que as 984 em 2020).
Teme-se que o número seja superior porque muitos naufrágios são “invisíveis” ou não são registados. Entre 2014 e 2018, por exemplo, cerca de 12 mil pessoas que se afogaram nunca foram encontradas; em 2019, a vasta maioria dos que se afogaram não foi identificada, pelo nome ou país de origem.
Nos primeiros nove meses de 2021, pelo menos 80.680 pessoas tentaram a travessia do Mediterrâneo (previa-se que o pico seria em Novembro e Dezembro), mais do que as 62.799 durante todo o ano de 2020). Estes migrantes são sobretudo líbios, mas também sudaneses, eritreus, somalis e chadianos. Entre eles estão grávidas e crianças. Muitos são detidos e expulsos em condições degradantes. No regresso forçado, são capturados por traficantes, vendidos e escravizados.
“O Mediterrâneo continua a ser um cemitério sombrio sem lápides”, lamentou o Papa Francisco durante uma visita, em 5 de Dezembro, ao campo de Mavrovouni, na ilha grega de Lesbos, onde cerca de 2200 migrantes e refugiados – um terço dos quais crianças – continuam a viver no mais abjecto desamparo.
Mavrovouni substituiu o sobrelotado e miserável campo de Mória, destruído por um incêndio em 2020. Há cinco anos, inesperadamente, quando mais de um milhão de pessoas entraram na Grécia vindas da Turquia, principal ponto de passagem, Francisco levou de Lesbos para o Vaticano 12 refugiados sírios, três famílias muçulmanas, que viajaram no seu avião para serem acolhidas pela Comunidade de S. Egídio. O gesto solidário não parece ter inspirado os líderes europeus, que optaram por uma “era de muros e arame farpado”.
A Grécia, cuja presidente, Katerina Sakellaropoulou, acompanhou o Papa no encontro com os refugiados em Mavrovouni, construiu recentemente uma longa muralha de aço na fronteira com a Turquia, e intercepta os barcos que transportam migrantes. Atenas desmente as alegações de que conduz deportações sumárias, mas grupos de direitos humanos têm documentado esse tipo de situações.
Mavrovouni é um centro temporário até ser erigido outro, “fechado e controlado”, à semelhança dos que já existem nas ilhas de Samos, Leros e Kos. Para a Amnistia Internacional, estes “campos de detenção”, financiados pela União Europeia, constituem “uma violação dos compromissos assumidos por Atenas para conceder protecção internacional a quem necessita.”
“Temos de admitir que este país [a Grécia), tal como outros, continua sob grande pressão, e que na Europa há quem persista em tratar o problema como se não lhe dissesse respeito”, destacou Francisco. “É angustiante ouvir propostas para que fundos comuns sejam usados para construir muros como uma solução. Não é erguendo muros mais elevados que se resolvem os problemas ou se melhora a coexistência, mas unindo forças para cuidarmos dos outros.”
“É fácil chamar a atenção da opinião pública instilando o medo dos outros”, adiantou o pontífice. “No entanto, não falamos com igual veemência sobre a exploração dos pobres; sobre as guerras, raramente mencionadas, mas frequentemente bem financiadas; sobre os acordos secretos que favorecem a proliferação dos negócios de armamento [a França acaba de firmar o seu mais valioso contrato de Defesa – 18 mil milhões de euros -, para a venda de caças e helicópteros de combate aos Emirados Árabes Unidos – país acusado de envolvimento em crimes de guerra no Iémen, na Líbia e na Etiópia].”
O que deve ser atacado, recomendou Francisco, é “as causas remotas [das migrações], não as pessoas pobres que pagam as consequências e são usadas para propaganda política”. Não basta improvisar soluções de emergência. São necessárias “acções coordenadas”.
“Não permitamos que o mare nostrum [nosso mar] se transforme num desolado mare mortuum [mar de morte]. Não deixemos que este local de encontro se transforme em teatro de conflito. Não permitamos que este ‘mar de memórias’ se torne num ‘mar de esquecimento’. Por favor, vamos parar com este naufrágio de civilizações”.
* (…) you have to understand, / that no one puts their children in a boat /unless the water is safer than the land / (…) home is the barrel of the gun /and no one would leave home / unless home chased you to the shore / unless home told you / to quicken your legs / leave your clothes behind / crawl through the desert / wade through the oceans / drown / save (…)
Warsan Shire, filha de pais somalis, nasceu no Quénia e vive em Londres. É poeta, escritora, editora e professora. Estes versos, aqui numa tradução livre, fazem parte da obra Conversations about home (at a deportation centre), que ela escreveu em 2009, depois de uma visita ao edifício abandonado da Embaixada da Somália na capital britânica que alguns jovens refugiados ocuparam para viver.
Este artigo foi publicado originalmente na edição de Janeiro de 2022 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, January 2022 edition
Estas “florestas subaquáticas” que produzem 54% do oxigénio disponível na Terra tornaram-se no “pulmão do mundo”, dizem cientistas. Graças à sua enorme capacidade de absorver as emissões de carbono terrestre, poderão ajudar-nos a combater o aquecimento global. Mas há riscos a ter em conta. (Ler mais| Read more...)
Na 26ª conferência do clima das Nações Unidas (COP26), que terminou em 12 de Novembro, ouviu-se um apelo aflitivo: é preciso reduzir as emissões de CO2 em 45% até 2030, em relação aos níveis de 2010, e chegar à “neutralidade carbónica líquida” em meados deste século.
Para isso, é necessário que se emita para a atmosfera “apenas gases de efeito estufa capazes de serem absorvidos por meios naturais ou artificiais”. Mas como chegar a esta meta, se os maiores poluidores continuam a fabricar carvão e a subsidiar combustíveis fósseis?
Alguns cientistas, como Halley Froehlich, professora na Universidade da Califórnia-Santa Bárbara, EUA, autora de um estudo pioneiro, vêem uma luz no fundo do oceano: “o cultivo em grande escala de algas marinhas”. Estes organismos, que não são plantas nem animais (ver segundo texto), crescem mais rapidamente do que as árvores, “não ardem” e têm uma capacidade extraordinária de armazenar carbono, porque libertam mais oxigénio do que precisam de consumir.
Além disso, como explica a revista National Geographic, “também ajudam a mitigar a acidificação, a desoxigenação e outros impactos marinhos do aquecimento global, que ameaça a biodiversidade dos mares e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas.”
Autora principal do estudo que quantificou, pela primeira vez, a capacidade global – “quase 48 milhões de quilómetros quadrados – para o cultivo de algas marinhas em larga escala, Halley Froehlich propõe plantá-las e colhê-las em estruturas industriais gigantes, para depois as afundar nos oceanos, “onde o dióxido de carbono capturado ficaria sepultado durante centenas ou milhares de anos”.
O estudo da bióloga americana, publicado na revista de ciência e tecnologia The Current Biology e citado pela National Geographic, conclui, por exemplo, que “a criação de microalgas em apenas 0,001% das águas propícias ao seu crescimento, poderia neutralizar a totalidade das emissões de carbono da indústria de aquicultura, que fornece metade do marisco do planeta”.
“Muitos pensam nas algas marinhas como aquela coisa nojenta que cobre as praias e nos atrapalha a diversão quando tentamos escapar ao calor do Verão”, escreve Alecia Bellgrove no site da Universidade de Deakin, em Victoria, Austrália, onde é professora de Biologia Marinha e Ecologia. “Elas chegam a ser invasivas, cheiram mal quando estão acima da linha de água e podem até arruinar o nosso dia na praia.”
Mas a verdade é que “estas gosmas viscosas em decomposição podem transformar-se em alimentos sustentáveis e em materiais muito mais benéficos para os nossos recursos, com o potencial de salvar o planeta”, destaca Alecia Bellgrove. As algas marinhas “são, essencialmente, os pulmões da Terra”.
“Como seres fotossintetizantes, as algas marinhas oferecem-nos o oxigénio que respiramos, além de que são macroalgas, microalgas e outras plantas aquáticas, como ervas marinhas, as responsáveis por quase dois terços de todo o oxigénio da Terra produzido nos oceanos”, especifica a académica australiana. “As algas marinhas não são apenas importantes a uma escala global para a oxigenação da atmosfera, mas são ainda a base da maioria das cadeias alimentares.”
Mais: devido à sua “capacidade de autorregeneração” (podem crescer 10 a 100 vezes mais rapidamente do que as plantas terrestres), as algas marinhas constituem também “uma fonte nutritiva de alimento de longo prazo”, podendo ajudar a resolver crises de escassez de alimentos como as que se registam atualmente em várias regiões do mundo. Porque a celeridade de crescimento permite tornar a energia cinco vezes mais eficiente, também já se estão a estudar as algas marinhas como fonte de biocombustíveis sustentáveis.
Outra potencial qualidade das “florestas subaquáticas”: se às rações dos animais, sobretudo bovinos – cuja produção de metano (através dos arrotos e, em menor grau, de flatulência) é “culpada” pelas quase 15% das emissões de gases de efeito estufa – adicionarmos pequenas quantidades de algas marinhas, a produção de CH4, que retém 28 vezes mais calor na atmosfera do que o C02, “pode diminuir em 82% em apenas cinco meses”.
A ideia de levar o gado a vaguear pelas praias onde se alimentavam com algas já vem da Grécia Antiga e da Islândia, no século XVII, conta a National Geographic. Nos anos 2000, Joe Dorgan, um criador de gado canadiano na Ilha do Príncipe Eduardo, comprovou que as suas vacas “ao passarem mais tempo na costa, alimentando-se das algas trazidas pelas tempestades, eram consideravelmente mais saudáveis, tinham melhor taxa de crescimento, reproduziam-se mais rapidamente e produziam mais leite” do que as manadas que ficavam nos prados.
Em 2011, quando se reformou, Dorgan quis aprofundar o conhecimento sobre as microalgas para a saúde animal e desenvolveu um novo negócio de ração orgânica aproveitando as milhares de toneladas de algas da ilha. Para valorizar o seu produto e conquistar o mercado, associou-se ao ambientalista Robert Kinley, professor numa universidade da Nova Escócia, que, estudando os ruminantes de Dorgan, identificou “reduções de metano de cerca de 20% nos animais alimentados com mistura de algas”.
Os estudos de Kinley, que, entretanto, se alargaram a outras instituições, revelaram ainda que, das várias espécies testadas em laboratório, “uma alga vermelha, a Asparogopsis taxiformis, mostrou ser claramente a solução mais poderosa, com taxas de inibição de metano de 98,9%”.
Nos Açores, a empresa de fornecimento de algas selvagens seaExpert está também a usar a Asparogopsis taxiformis na alimentação de vacas locais, esperando liderar “uma revolução alimentar”. No entanto, tal como constatou Halley Froehlich, ainda não estão criadas as condições, ou seja, não há a tecnologia nem os necessários investimentos, para o cultivo em larga escala.
“Mesmo que fossem explorados todos os locais onde existe esta alga, mesmo que todos os espécimes selvagens fossem apanhados, não chegava para abastecer uma indústria tão maciça como a produção animal, mesmo só bovina, sem falar de outros ruminantes – nunca na vida!”, sublinha o engenheiro biológico e director-geral da seaExpert, Artur Oliveira, em entrevista ao portal noticioso sapo.pt. “A dificuldade é mesmo cultivar. É possível produzir Asparogopsis taxiformis em aquicultura, mas não se sabe ainda como fazê-lo em larga escala. Vai demorar algum tempo.”
Há, porém, uma certeza, o sistema digestivo das vacas adaptou-se à Asparogopsis taxiformis. Os animais aumentam ligeiramente de peso. O sabor da sua carne e leite não se alteram. “Temos agora provas sólidas de que algas na dieta do gado são eficazes na redução dos gases de efeito estufa, e que esta eficácia não diminui ao longo do tempo”, garantiu, ao diário britânico The Guardian, Ermias Kebreab, director do World Food Center e professor universitário na Califórnia. “Há potencial.”
Todavia, aumentar a produção de macroalgas exige prudência. “Uma coisa é cultivar em balão, em condições ultracontroladas; outra é cultivar em tanques de maiores dimensões, ou em sistema aberto”, explica ao sapo.pt Paulo Cartaxana, investigador de biotecnologia marinha e aquicultura no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro. Em larga escala, “o principal problema é controlar todos os factores que mexem com o crescimento das algas, como a luz, os nutrientes, o azoto e o fósforo, principalmente”.
“Ao contrário da aquicultura de peixes, não vejo [na das algas] grandes desvantagens ecológicas”, confessa Cartaxana, elogiando o “bom exemplo” das produções de algas em salinas desactivadas em Aveiro. No entanto, se forem instalados em zonas ecologicamente importantes, pode haver “efeitos nocivos”. E, se para potenciar o crescimento das algas se adicionarem nutrientes, como a farinha usada na aquicultura de peixes, “estaremos a causar problemas ambientais de eutrofização”.
Ou seja, acrescenta Cartaxana, “até se pode estimular o crescimento de algas e plantas aquáticas à superfície da água – dando o aspecto de uma zona cheia de vida –, mas, abaixo da superfície, todas as espécies poderão estar mortas por falta de luz.”
Há agora uma mancha gigante de algas marinhas no oceano Atlântico, designada por “Grande Cintura de Sargaço do Atlântico”, que poderá confirmar ou não se as algas marinhas vão ajudar a salvar o planeta. Esta “cintura” no meio do oceano mede cerca de 6100 quilómetros quadrados abrangendo uma área que pode ser detectada e medida do espaço com a ajuda de satélites.
Os investigadores usam a informação que obtêm por este meio para calcular a quantidade de CO2 que as algas marinhas removem da atmosfera através da fotossíntese. Para já, chegaram à conclusão de que uma reflorestação à escala da Grande Cintura de Sargaço do Atlântico removeria apenas 0,0001-0,001% das emissões de carbono projectadas para 2100.
Esta percentagem baixa, afirma Tricia Thibodeau, investigadora da Universidade de Rhode Island (EUA), no blogue académico oceanbites.org, justifica-se, em parte, com o facto de as algas, por servirem de habitat a animais marinhos, serem também o lar de organismos como corais e conchas do mar, que produzem CO2 enquanto crescem e se calcificam, voltando a repor o dióxido de carbono na atmosfera.
Por outro lado, anota Tricia Thibodeau, porque precisam de nutrientes para se alimentar, as algas “diminuem os que são necessários ao fitoplâncton, reduzindo a capacidade de este organismo fazer a sua fotossíntese e remover o CO2 da atmosfera.”
Heather Smith, editora de ciência da revista digital Sierra, que pertence ao mais antigo e influente grupo ambientalista dos Estados Unidos (Sierra Club), acredita não haver dúvidas de que “as algas marinhas removem o carbono da atmosfera há pelo menos 500 milhões de anos”, mas também alerta que “mil toneladas de CO2 por ano e por quilómetro quadrado não são nada comparadas com 50 mil milhões de toneladas de gases de efeito estufa emitidos anualmente pelo mundo”.
“Para sequestrar o carbono capturado pela algas, estas teriam de ser afundadas a pelo menos a mil metros de profundidade, onde se decomporão para não retornar à superfície nem reintegrar o ciclo do CO2, pelo menos durante 100 anos”, precisa Heather Smith. “Investigadores estão a analisar a melhor maneira de afundar as algas, talvez usando bóias biodegradáveis. Quando as algas estiverem maduras e pesadas, as bóias deixarão de as poder segurar.”
No entanto, “mesmo que a reflorestação dos oceanos com algas seja alargada para compensar o carbono produzido pela indústria de aquicultura (300 mil toneladas por ano), não representará sequer um contributo significativo em relação aos objectivos definidos pelos acordos do clima de Paris”, em 2015-2016.
Há milhares de anos que se colhem algas marinhas, mas cultivá-las e afundá-las no oceano é um “território totalmente novo”, realça a editora da Sierra, avisando para “os perigos que as cordas e bóias usadas para o cultivo em larga escala podem colocar ao transporte marítimo, à pesca ou à vida selvagem aquática.”
Não obstante, Heather Smith crê que o cultivo de algas “é promissor”. Porque, além de capturar carbono, elas constituem um habitat para peixes e ajudam a minorar a acidificação dos oceanos. Ao contrário de outras formas de aquicultura, também “não precisam de depender de rações artificiais nem de antibióticos, que desequilibram os ecossistemas locais”.
Seja como for, “a maneira mais eficaz de sequestrar carbono continua a ser não o libertar”, recomenda a jornalista, lembrando estudos recentes de cientistas sobre o “arrasto de fundo”. Este método de pesca em que uma grande e pesada rede é arrastada ao longo do fundo do oceano, capturando tudo o que apanha, incluindo espécies não visadas, e destruindo leitos de águas rasas, “liberta tanto carbono na atmosfera quanto toda a indústria de aviação – cerca de mil milhões de toneladas por ano”. Por isso, ordenar “uma proibição global da pesca de arrasto ajudaria a concretizar já hoje o que o afundamento das algas poderá fazer no futuro.”
O conselho de Tricia Thibodeau, investigadora em Rhode Island, é semelhante. “Talvez as algas marinhas ajudem a salvar o planeta, mas os projectos em larga escala para as cultivar não podem ser a única solução. Cada um de nós tem de continuar a limitar a dependência em relação aos combustíveis fósseis, porque, no presente e no futuro próximo, é esse o caminho contra as alterações climáticas.”
As algas não são plantas nem animais. E são mais simples do que as primeiras, apesar da sua pomposa designação científica: “seres protistas, autróficos, fotossintetizantes [providos de clorofila e capazes de produzir oxigénio], unicelulares ou pluricelulares”.
Habitam ambientes terrestres húmidos (incluindo interiores, porque não requerem cultivo no solo), mas sobretudo mares, rios ou pântanos, desde que obtenham luz e nutrientes para se alimentarem.
Alguns são microscópicos – as microalgas –, geralmente unicelulares, crescendo em condições diversas e não apenas meios aquáticos, “dividindo-se em vários grupos taxonómicos, como as diatomáceas (eucariontes) ou as cianobactérias (procariontes)”. São, provavelmente, “as primeiras espécies vivas na Terra, remontando a cerca de 2500 milhões de anos”.
Outros – as macroalgas –, que podem atingir 50-60 metros de comprimento e crescem em água salgada ou ambiente marinho, são “organismos multicelulares complexos e visíveis a olho nu”. Em termos de pigmentação, podem ser classificados como Chlorophyta (de cor verde, com mais clorofila e ciclos de vida mais curtos), Rhodophyta (vermelhas) e Ochrophyta, Phaeophyceae (castanhas, com células mais intrincadas e ciclos de vida mais longos).
Crê-se que existam mais de 10.000 espécies de macroalgas identificadas em todo o mundo, 700 das quais listadas na costa portuguesa, apesar de só cerca de 70 serem comercializadas.
Quanto às microalgas – mais abundantes e produtoras de mais oxigénio do que as macroalgas –, há uma enorme biodiversidade. Calculam-se em cerca de 200.000 a 800.000 espécies –, embora apenas 40.000 a 50.000 estejam catalogadas. São cada vez mais usadas na alimentação humana (como a Arthrospira, a Chlorella spp, a Dunaliella salina e a Aphanizomenon flosaqua) e animal, mas também em produtos farmacêuticos.
Além de terem contribuído para possibilitar a vida na Terra – produzem 54% do oxigénio, sem elas não haveria plantas e animais e com elas mantém-se um “delicado equilíbrio entre CO2 e O2 atmosféricos” -, as algas representam também “uma fonte de alimento, directo ou indirecto, de seres vivos em ecossistemas marinhos”. Tal como os vegetais terrestres, são “produtores primários e constituem a base da cadeia alimentar na biosfera”, ajudando a alimentar os herbívoros.
Em termos nutricionais, as algas são “fonte alternativa” de proteína, fibras, vitaminas (A, B, C, E) e minerais (iodo, ferro, cálcio e sódio).
O teor lipídico das macroalgas é inferior aos das microalgas, mas em ambas “o conteúdo é elevado em ácidos gordos polinsaturados”, nomeadamente os essenciais EPA, DHA e ALA”. Já as microalgas “são as fontes primárias de EPA e de DHA para o zooplâncton, o pescado e outros organismos”.
As macroalgas também contêm elevadas quantidades de fibra (23,5 a 64% do peso seco), o que “pode facilitar maior sensação de saciedade e ajudar a controlar o peso”, além de “diminuir o risco da diabetes, do cancro do cólon e de doenças cardiovascular”.
Por serem “muito ricas em polissacarídeos” e terem “uma cadeia molecular muito longa”, as macroalgas não são absorvidas pelo sistema digestivo. Quando são ingeridas, “comportam-se como fibras hidrossolúveis, com zero calorias, regulando o trânsito intestinal e baixando os níveis de colesterol no sangue”.
É das macroalgas vermelhas que são extraídos os aditivos alimentares (E406 e E407) do agar e das carragenanas, muito utilizados na produção de sobremesas, como gelados ou gelatinas de origem vegetal.
A área em que os produtores de algas parecem estar a investir mais é nas rações para animais, sobretudo de gado bovino, com o objectivo de de diminuir a emissão de metano (CH4).
Outras áreas de grande potencial das algas: na indústria cosmética, graças às suas propriedades antioxidantes; na produção de biocombustíveis, para diminuir o impacto ambiental; como fertilizantes de solos agrícolas, para compensar as emissões de CO2; ou no fabrico de têxteis, para substituir pigmentos sintéticos.
Na Universidade de Aveiro, investigadores estão também a usar “nanomateriais preparados a partir de biopolímeros extraídos de algas para remover poluentes da água”. As algas do género Chlorella têm revelado capacidade de limpar esgotos.
Os dados mais recentes, divulgados pela FAO, indicam que a produção mundial de algas duplicou entre 2005 e 2015, para 30,4 milhões de toneladas. Portugal tem acompanhado a tendência: em 2017, produziu 952,3 toneladas (peso seco) de algas agarófitas, sendo, por ordem decrescente, as principais regiões de produção a zona sul da foz do rio Mondego até ao norte da Foz do Arelho; os Açores e a zona sul da Foz do Arelho até ao norte do Cabo da Roca.
Os maiores produtores de espécies selvagens (castanhas e vermelhas) são Chile, China e Noruega; os maiores produtores de espécies cultivadas são China, Indonésia, Coreia e Filipinas.
Os principais países consumidores de algas e produtos que nelas se baseiam (60% da produção mundial) situam-se na Ásia. Em 2016, a União Europeia ocupou a segunda posição no que diz respeito à importação (180 mil toneladas): Com a Dinamarca, a Alemanha e a Espanha, Portugal integrou o grupo da UE que mais comprou algas secas não comestíveis.
Algumas populações dos Açores há muito incluem algas na sua alimentação. Para os açorianos, o tremoço-do-mar (Fucus spiralis) é “petisco que se consome fresco”. A alga vermelha Porphyra, conhecida como erva patinha ou nori do Atlântico, é frita ou incorporada em sopas e omeletes. As algas vermelhas da espécie Osmundea, ou erva malagueta, são conservadas em vinagre, como pickles, e acompanham peixe frito, ao longo de todo o ano. Em Portugal Continental, não há ainda consumo generalizado, mas a fava-do-mar (Fucus vesiculosus) é recolhida por algumas populações costeiras e as algas vermelhas Gelidium e Pterocladia são apanhadas a sul de S. Martinho do Porto para a produção de agar.
Este artigo foi publicado originalmente na edição de Dezembro de 2021 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, December 2021 edition.
São mais de 200, de Angola à Zâmbia*. Chegam a muitos milhões de pessoas. Promovem a paz, os direitos humanos, a educação, a saúde, o desenvolvimento. Tentam curar traumas. Dão voz aos que não têm voz. Às vezes, são silenciadas. Conto aqui três histórias de superação e sucesso: Rádio Sol Mansi, na Guiné-Bissau; Rede de Rádios Católicas do Sudão do Sul e montes Nuba; Projeto Ditunga, na República Democrática do Congo. (Ler mais| Read more…)
Entre 1998 e 1999, uma guerra civil na Guiné-Bissau “dividiu amigos e familiares”. Vendo que as rádios “foram uma ‘arma’ fundamental” no conflito e que “toda a população escutava ‘religiosamente’ programas com propaganda das partes beligerantes”, o missionário católico italiano Davide Sciocco teve uma ideia: “Se a rádio foi usada para promover a guerra, por que não criar uma rádio para favorecer a paz, a reconciliação e o desenvolvimento?”
Foi assim que, em 14 de Fevereiro de 2001, nasceu a Rádio Sol Mansi (RSM), diz-me, numa entrevista por e-mail, Casimiro Jorge Cajucam, director desde 2016 da estação fundada pelo padre Sciocco e apoiada pelo Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (Pime) na Guiné-Bissau, aqui presente desde 1947.
“Sol Mansi significa ‘Amanhecer’ – amanhecer para um dia melhor, uma nova história, uma nova vida, um novo horizonte”, explica Casimiro Cajucam, um leigo que começou a carreira na rádio como correspondente da sua paróquia, de Cristo Redentor, quando frequentava o terceiro ano da licenciatura em Comunicação Social. Hesitou em assumir a liderança e só a aceitou porque “quando um cristão é chamado a servir não deve dar a luta à costa”.
Hoje, segundo um estudo da Universidade Católica de Lisboa conduzido entre 2018 e 2020, “a Rádio Mansi é claramente, sobretudo graças à autoridade da sua informação imparcial, a mais ouvida das 50 emissoras radiofónicas activas na Guiné-Bissau”, destaca o jornal L’Osservatore Romano.
As primeiras emissões da RSM começaram em Mansoa, 60 km a norte de Bissau, a capital, com um pequeno emissor de 250 Watts e um raio de alcance limitado, refere Casimiro Cajucam, que é também correspondente da Rádio Vaticano.
“De início, as pessoas não acreditavam e até gozavam com a iniciativa, porque nada tinha de profissional.” A situação mudou quando um jornalista da Rádio Renascença, a pedido de Sciocco, chegou para dar uma ajuda preciosa.
“Em 2008, a RSM já era a Rádio Nacional da Igreja Católica, com cobertura em todo o território nacional”, regozija-se o director. “O estúdio em Mansoa passou a funcionar como uma rádio-escola, oferecendo semanas de formação prática a todas as 25 rádios comunitárias da Guiné-Bissau – uma média de mais de 50 formandos a cada ano.”
Duas décadas após a sua criação, a RSM “é uma das rádios de referência, não só em termos de audiências como de credibilidade”, principalmente porque “nunca parou de construir pontes de diálogo com as diferentes religiões e grupos étnicos” num país onde, segundo o Pew Research Center, 45% dos 1,9 milhões de habitantes são muçulmanos, 31% segue crenças indígenas e 22% são cristãos, diz Casimiro Cajucam.
Em Agosto de 2009, a Rádio Sol Mansi assinou “um acordo histórico de colaboração” com a Rádio Corânica de Mansoa. “Numa particularidade talvez única no mundo, a emissora católica transmite um programa islâmico e a emissora islâmica transmite um programa católico”, salienta Cajucam.
Este diálogo foi acolhido de braços abertos pelas várias denominações religiosas, assim que a rádio abriu portas em Mansoa. A prova de que a coexistência se preserva está no facto de “o programa Voz do Islão e o programa Voz que grita no deserto, da comunidade evangélica, continuarem na grelha de programação e serem os mais antigos da emissora”.
Os programas da RSM (um dos mais ouvidos é Dez Minutos com Deus) abordam todos os temas, até os mais delicados, como a mutilação genital feminina, uma prática só punida por lei em 2011. “Sobre este assunto trabalhamos com o Comité Nacional para o Abandono de Práticas Nefastas”, esclarece o director da RSM.
Segundo dados oficiais, citados pela DW, “39% das crianças guineenses com menos de 15 anos foram excisadas em 2010 (antes da criminalização)”, estimando-se que “metade das mulheres” tenham sido vítimas deste procedimento que causa lesões permanentes, físicas e psíquicas.
“Também falamos de casamentos precoces e forçados, realidade ainda bem patente na sociedade guineense, sobretudo no interior. Falamos do estado de Direito, de democracia, justiça e igualdade de género. Falamos das mulheres em geral e das mulheres das aldeias.”
“Falamos de saúde, juventude, narcotráfico [o país é, supostamente, usado por traficantes estrangeiros para transportar cocaína e outras drogas da America Latina para a Europa], corrupção, ética profissional, doutrina social da Igreja. Os nossos programas estão de acordo com a realidade e a necessidade do país.”
No auge da pandemia de Covid-19 (só em Setembro foram levantados o estado de emergência e o confinamento), a Rádio Sol Mansi “assumiu um papel preponderante”, destaca o director. “Com as igrejas fechadas, a Santa Missa, as orações e a catequese em duas dioceses foram asseguradas via rádio. No plano social, continuamos a ter um papel preponderante na sensibilização para e a prevenção do coronavírus.”
Porque ganhou “respeito e credibilidade na sociedade guineense”, é na RSM que as pessoas “confirmam a veracidade das notícias que ouviram noutras rádios”, garante Cajucam. “Mesmo assim, não faltam pressões.”
“[Recentemente] fizemos uma entrevista a uma porta-voz do Departamento de Estado americano sobre um comunicado em que se oferecia 5 milhões de dólares por informações que conduzam à condenação ou detenção de António Indjai, ex-chefe das Forças Armadas da Guiné-Bissau. Só quando demos esta notícia é que as pessoas acreditaram. Dois dias depois, recebemos uma chamada telefónica do general Indjai, proferindo várias ameaças.”
“Outras pressões vêm da classe política e da elite governamental, cuja estratégia passa, por um lado, por amedrontar os jornalistas, e por outro, por os aliciar ou tê-los sob seu controlo”, critica o director da RSM. “Só fomos silenciados aquando do golpe militar de 12 de Abril de 2012. Aliás, todas as rádios foram silenciadas pelos militares golpistas durante 48 horas.”
Nos actuais três estúdios da Rádio Sol Mansi, trabalham 22 homens e 11 mulheres. A emissora conta também com uma rede de 50 correspondentes em todo o país, “que lhe permite dar voz aos que são excluídos do círculo da comunicação”. Os noticiários são emitidos 50% em português e 50% em crioulo (a língua de mais de 90% da população), mas só 10% dos programas são produzidos em português (falado por 27,1%).
Os jornalistas e técnicos recebem formação com colegas de Portugal, do Brasil, ou de Cabo Verde, da Fundação Pro Dignitate, em Lisboa, ou da Rhode Island College, em Providence, nos EUA. Fazem estágios em vários países, de Angola ao Zimbabwe. A RSM tem ainda uma equipa de “crianças jornalistas – dez repórteres e três da área de programas, que saem, fazem reportagens e entrevistas” dirigidas aos mais pequenos.
“Os nossos produtos são de facto muito bons!”, assegura Casimiro Cajucam. “O sucesso está no trabalho. Esta emissora é verdadeiramente a voz dos que não têm voz”, num Estado onde 88% das pessoas vive abaixo do limiar da pobreza (menos de 2 dólares por dia) e onde a esperança de vida é de 47 anos. A RSM afirmou-se uma “rádio modelo, pela isenção, objectividade e conteúdo das suas mensagens”.
Rede de Rádios Católicas do Sudão do Sul e montes Nuba
Ajudar a construir a paz na mais jovem nação do mundo, independente desde 2011, mas ferida por um conflito que parece não ter fim, é também o objetivo da Rede de Rádios Católicas do Sudão do Sul e montes Nuba (CRN), este ano galardoada com o prestigiado Prémio Internacional Pax Christi.
A rede de nove rádios (**) comunitárias que chega a mais de sete milhões de pessoas foi premiada por “promover a reconciliação, curar os traumas, ser uma plataforma para o diálogo construtivo, oferecer informação de confiança e dar uma atenção especial a grupos marginalizados, incluindo mulheres, crianças e todos os que não sabem ler ou escrever”.
Na sede da CRN em Juba, a capital, a voz da directora da CRN, Mary Ajith Goch, alegra-se quando a contacto, por WhatsApp: “A cerimónia de entrega do prémio será só em Dezembro, mas estamos muito felizes, porque este é o reconhecimento do trabalho que temos vindo a fazer desde há vários anos. Ganhámos um novo ânimo e sentimo-nos encorajados a fazer mais pelo nosso povo.”
E a CRN bem precisa de estímulo. Uma das suas emissoras, Radio Saut Al Mahaba / Voice of Love (Voz do Amor), em Malakal, foi destruída em 2014 durante combates – ou “crimes de guerra”, segundo a Human Right Watch – entre soldados governamentais e grupos da oposição. A própria cidade, a segunda maior do país, ficou vazia depois de tantos horrores e tantas vezes mudar de mãos.
“Só agora começámos a reerguer-nos, porque nada restou, nem as paredes”, informa Mary Ajith. “Pilharam tudo. Mudámo-nos para o perímetro da Catedral, esperando que agora respeitem o espaço da igreja. Queremos ir para o ar em breve, mas ainda nos falta algum equipamento e fundos.”
A Voz do Amor pertence à Diocese de Malakal, no estado do Alto Nilo, e é dirigida, desde 2009, pela missionária italiana Elena Balatti. Foram Irmãs Combonianas como ela que iniciaram a CRN, uma forma de celebrarem a canonização do fundador da congregação, Daniel Comboni, em 2003.
“A ideia inicial era termos uma emissora em onda média, a partir do Quénia, porque, nessa altura, o Sudão não nos dava uma licença”, explica-me o padre José da Silva Vieira, que colaborou com as Irmãs na criação da primeira estação, a Rádio Bakhita.
“Só em 2005, com o tratado de paz, é que pudemos avançar, mas desistimos da onda média porque, durante o dia, o calor era intenso. Tínhamos de transmitir de manhã ou à noite e, por isso, decidimo-nos por uma rede de rádios em cada diocese no Sul e nos montes Nuba, área controlada pelos rebeldes do SPLM-N” (Movimento de Libertação do Sudão-Norte).
As Irmãs fizeram um estudo de viabilidade e, logo em 2005, começaram a formar jovens, muitos deles vindos de campos de refugiados no Uganda e no Quénia, que tinham formação em inglês. Em 2016, um desses refugiados formados pela CRN seria Mary Ajith, mas contaremos adiante a sua história.
A princípio, apesar da ajuda crucial de dois técnicos italianos de alta e baixa tensão, a Rádio Bakhita consistia apenas “em dois contentores, alinhados um ao lado do outro, unidos por uma parede – do lado direito, um estúdio de emissão; do lado esquerdo, o gabinete da directora, a Irmã espanhola Cecília Sierra Salcido, e a redacção; no meio dos contentores, umas mesitas para fazer programas”, especifica José Vieira. “Era uma coisa muito rudimentar.”
“Com temperaturas de 45º, os contentores eram autênticas frigideiras””, adianta o padre português. “Lembro-me de que, quando não podíamos usar o ar condicionado durante as gravações, porque os microfones eram muito sensíveis e captavam todos os barulhos, nós suávamos por todo o lado.”
Mais tarde, a rádio-bandeira da CRN foi ampliada. Fizeram-se estúdios de cimento, insonorizados. “Fomos para o ar na noite de Natal de 2006, numa missão experimental, mas a primeira emissão oficial e regular só arrancou a 8 de Fevereiro de 2008, dia de Santa [Josefina] Bakhita – a primeira santa do Sudão”, uma antiga escravizada que o Papa João Paulo II canonizou em 2000.
De início, este foi um projecto integralmente pago pela Família Comboniana. Hoje, toda a rede de nove rádios**, cada uma com “uma média de 10-15 jornalistas”, é propriedade da Conferência Episcopal do Sudão do Sul, embora os Combonianos mantenham “um papel consultivo e de ponte para parcerias”, como refere a actual directora, Mary Ajith.
Para José Vieira, um das grandes qualidades da Rádio Bakhita foi aproveitar sinergias. “Fazíamos noticiários que cobriam todo o país, sem gastar praticamente nada, porque cada um dava e partilhava o que tinha. Esta filosofia atraiu outras emissoras, como a Dom Bosco, dos Salesianos, em Tonj, das primeiras a juntarem-se à rede.”
Outro factor para a conquista de audiências: comunicar em várias línguas. Os cerca de 10 milhões de habitantes do Sudão do Sul pertencem a 64 grupos étnicos (o maior é o povo Dinka – o primeiro a converter-se ao Cristianismo –, seguindo-se as tribos Nuer, Shilluk, Azande, Bari, Kakwa, Murle, Mandari e outras) e exprimem-se em mais de 60 línguas.
A Rádio Bakhita, com os seus “jornalistas poliglotas”, transmite em Inglês, árabe simplificado, bari e dinka; outras estações da rede juntam ao árabe e inglês, as línguas tira, otoro, lera, muru, otuho, madi, acholi, didinga, topasa, shiluk, nuer, balanda e zande.
“Quando a Bakhita chegou, já havia outras emissoras [hoje são mais de 30], como a do governo, que emitia em onda média; as privadas, que só davam música e publicidade; ou a da ONU (Miraya/Espelho), que não tocava em política ou religião para manter a imparcialidade”, relembra José Vieira.
“Nós anunciámo-nos como uma rádio comunitária que forma e informa. Os problemas da comunidade eram a prioridade. Tínhamos programas religiosos, claro, mas também de saúde, com dois médicos. Usávamos teatro educativo, orientado por algumas ONG, dirigido a crianças e jovens. Dávamos aulas de inglês. Procurava-se aliviar as dores da guerra.”
“Noticiávamos a actualidade internacional, nacional e local. Para as eleições de 2010 e referendo de 2011, entrevistámos todos os candidatos, mesmo os unipessoais, sem agenda, e ensinámos as pessoas a votar – preparando blocos de 10 minutos e linguagem simples. Cada um dos nossos radialistas explorava o que era novo no seu bairro para ser debatido diariamente.”
A missão da Bakhita, observa a directora da CRN, Mary Ajith, “ainda assenta em quatro pilares: evangelização, informação, educação e entretenimento”. “Continuamos a abrir a emissão com o Rosário e orações matinais e seguimos com o noticiário e programas diversos.”
“Os mais ouvidos são a Santa Missa e os que abordam a construção da paz. Porque, em tempo de instabilidade, as pessoas querem saber se as suas aldeias, muitas delas remotas, são seguras – e a rádio é, quase sempre, o seu único meio de comunicação.”
Saber por exemplo se vai recomeçar a guerra (quase permanente desde 1955, apenas com 4-5 anos de paz; desde Agosto que há combates mortíferos entre fiéis e rivais do vice-Presidente, Riek Machar, que terá sido afastado do seu partido) ou se as raras estradas transitáveis desapareceram.
Em Outubro, o Sudão do Sul enfrentou o que a ONU descreveu como “as chuvas mais implacáveis das últimas décadas”, que inutilizaram vias rodoviárias, inundaram campos, destruíram colheitas e deixaram sem abrigo “mais de 700 mil pessoas”, muitas delas já em risco de fome.
Os ouvintes adoram entrar em directo na rádio, para falar sobre a falta de água e de higiene ou o mau funcionamento das escolas; sobre corrupção na indústria petrolífera (receitas têm sido, alegadamente, desviadas e usadas para enriquecer alguns e financiar bandos que cometem atrocidades) ou sobre casamentos infantis.
No Sudão do Sul, “52% de todas as meninas casam-se antes dos 18 anos, por vezes aos 12, o que as priva de direitos básicos e até da vida, alerta a UNICEF. “Cerca de um terço engravida antes dos 15. Bebés nascem prematuros, o que os predispõe a doenças crónicas. Com o encerramento das escolas, devido à Covid, e mais tempo passado em casa, muitas meninas ficaram mais expostas a abusos sexuais.”
Se a antena aberta para desabafar mágoas é o que mais atrai os ouvintes, é também um gerador de pressões por parte das autoridades. Tal como José Vieira, também Mary Ajith diz que a CRN foi intimada pelo governo a “dedicar mais tempo à palavra de Deus e menos à política”.
Um dos programas “altamente vigiados” é Wake Up Juba (“Desperta Juba”), “um talk-show em que quem participa não se abstém de criticar os dirigentes”. Certos tópicos, que ela não especificou, tornaram-se “linhas vermelhas”.
“A censura e a insegurança, o nosso maior desafio, não nos poupam”, confirma-me, por e-mail, Bogere Charles Mark Kanyama, 35 anos, director interino da Bakhita, emissora que chega a mais de 1 milhão de ouvintes e tem uma área de cobertura de 300 km2. “Em 2015, a nossa estação foi encerrada só porque um dos jornalistas falou com Riek Machar, na altura o líder da oposição.”
No entanto, o presidente, Salva Kiir Mayardit, é um católico, cujos pés o Papa João Paulo II beijou quando o recebeu, a ele e a Machar, em Abril de 2019, para os convencer a consolidar um ténue acordo de armistício, firmado no ano anterior, depois da guerra civil que começou logo após a independência e causou 400 mil mortos, 2,1 milhões de deslocados internos e 2,5 milhões de refugiados (cálculos da ONU) – uma das maiores crises humanas desde o genocídio ruandês de 1994.
“A popularidade da Bakhita – embora esteja a perder-se devido a circunstâncias que escapam ao nosso controlo – deve-se ao facto de ser a única rádio católica que aborda questões sociais e políticas”, crê o director interino.
“Wake Up Juba é um programa essencialmente político”, adianta Bogere Charles. “Hoje, a censura impede muitos jornalistas de elucidar o público, e este tem cada vez mais dificuldade em encontrar plataformas para responsabilizar o governo. Nós, sendo uma instituição da Igreja, não abdicamos de criar fóruns que permitam às pessoas exprimirem-se livremente.”
Outro problema que a Bakhita e a CRN enfrentam é a míngua de fundos, apesar de significativos apoios à formação e programação, por parte de várias ONG, da Voz da América ou da BBC Media Action, e da ajuda na aquisição de equipamento por parte de organizações como a Internews, da Califórnia.
A publicidade pode servir de almofada financeira, mas quando há princípios a defender, às vezes perde-se dinheiro, como aconteceu com José Vieira. Não aceitou difundir anúncios da companhia malaia Petronas, por estar envolvida numa “violenta campanha de expulsão de populações em Unity State, para uma exploração de petróleo sem critérios, que polui terras e cursos de água”, com metais pesados e químicos tóxicos.
Tal como Mary Ajith, o jovem Bogere Charles juntou-se à CRN em 2016. Recebeu formação da agência Journalists for Human Rights (JHR), com sede em Toronto, no Canadá e entrou na Rádio Bakhita como estagiário do Media Development Institute of South Sudan.
Foi depois repórter, editor, gestor de programas e agora substitui o anterior director, Alfred Soka, que saiu do país para continuar os estudos. “Foi a minha dedicação ao trabalho e a Deus que me fez chegar tão longe”, exulta.
Mary Ajith, que teima em “lançar sementes de paz e esperança”, baseia o optimismo na sua experiência de vida. Tinha 2 anos, em 1991, quando escapou de um massacre na terra-natal, Bol. Toda a população fugiu e milhares foram mortos, incluindo o pai e a maioria dos familiares.
“Fiquei inicialmente ao cuidado de uma escola de freiras, numa terrinha entre o Sudão do Sul e o Quénia, mas depois atravessei a fronteira para viver num campo de refugiados”, revela. “Foi um tempo duro. Eu, a minha mãe e os meus quatro irmãos não fomos bem acolhidos. Dependíamos totalmente da ONU, mas consegui estudar e licenciar-me em Comunicação na Universidade de Nairobi. Em 2010, regressei ao meu país.”
Hoje, o papel de Mary Ajith é coordenar as várias estações da CRN, angariar fundos e recursos, trabalhar 12h por dia e ainda levar trabalho para casa. “O futuro parece sombrio, mas se continuarmos com determinação, veremos luz ao fundo do túnel e o futuro será brilhante”.
Na República Democrática do Congo (RDC), assolada por vários conflitos armados, insegurança alimentar (19,6 milhões de pessoas precisam de ajuda urgente) e várias epidemias – cólera, sarampo, Ébola e agora a Covid-19 -, uma outra rádio, na província de Kasai-Oriental, procura oferecer a quem a ouve um “conforto holístico”, assim descrito pelo fundador e director, padre Apollinaire Cibaka Cikongo, numa entrevista que me deu, por e-mail.
“O Projecto Ditunga [PRODI] é uma associação sem fins lucrativos criada em 2006, graças a “pessoas de boa vontade” e ao financiamento da fundação pontifical Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que “acreditaram no sonho de apoiar o trabalho da Igreja e das comunidades rurais na região de Ngandanjika e arredores”, informa o sacerdote.
A rádio com o mesmo nome começou as emissões em 17 de Julho de 2010. Está no ar, ininterruptamente, das 5h50 às 23:00, transmitindo em Ciluba (80%), uma das quatro línguas nacionais da RDC e a principal de Kasai-Oriental, e em francês (20%).
Nos últimos 15 anos, numa missão que “integra todos os eixos do desenvolvimento humano”, o Projeto Ditunga, embora de cariz religioso, num país onde 55% da população é católica e a Igreja de Roma é umas principais forças políticas, sociais e morais, não cuida apenas do espírito.
Fomenta também a vida associativa, a agricultura, a criação de gado – “soberania alimentar” – e a protecção do ambiente. Dinamiza a escolarização de crianças e a formação permanente de adultos. Contribui para o desenvolvimento cultural, social e económico das mulheres. Promove a nutrição, a saúde e a higiene. Defende os direitos humanos e a cultura democrática.
São mais de 100 os projectos da iniciativa Ditunga. Beneficiando “2146 famílias de camponeses”, precisa o sacerdote da diocese e professor da Universidade Oficial de Mbuji-Mayi, capital do estado de Kasai-Oriental e a segunda maior cidade da RDC, depois de Kinshasa.
Numa “fazenda-escola”, são criadas galinhas e porcos e aqui se plantou uma “floresta artificial” de 32 hectares, um palmeiral, campos de mandioca e de outras culturas. Abriram-se 72 escolas, do ensino pré-escolar ao universitário, e um instituto superior de construção civil. Edificaram-se dois hospitais e cinco centros de saúde. Construíram-se 11 centros de formação especial dirigidos a mulheres, em particular camponesas e analfabetas.
Na defesa dos direitos humanos, é dada ênfase a “433 crianças órfãs”, acolhidas em três grandes centros, “244 pessoas com albinismo, reclusos e protagonistas de delitos comuns e conflitos intercomunitários”.
O Projecto Ditunga desenvolve ainda actividades culturais, artísticas e científicas, assim como “a formação e a informação crítica e objectiva”, através de seminários, ateliers e media. Organiza, igualmente, obras pastorais e sociais da Igreja Católica e de outras comunidades de fé.
No que toca ao apostolado da Igreja, especifica Cikongo, 54 anos, autor de várias obras como La maison du Nègre, Libérer la théologie africaine ou Le mal congolais, o apoio “consiste em conceder-lhe espaços privilegiados na Rádio Ditunga, em construir igrejas e capelas para as comunidades pobres (há seis), em atribuir bolsas de estudo a seminaristas e apoio logístico a sacerdotes”.
Graças a uma “altitude favorável – 805 metros – e a potentes transmissores,” a Rádio Ditunga, com 16 jornalistas na redacção e 4 correspondentes, nacionais e locais, pode ser ouvida num raio de 350 km em linha recta. Cikongo, estima a audiência em cerca de 5 milhões de pessoas.
Em 11 anos de existência, a emissora “reinventou-se na fidelidade à sua identidade eclesial e comunitária. Conseguimos dotar-nos de uma grelha que vai ao encontro das expectativas de um público bastante complexo e heterogéneo.”
Não há temas tabu, garante Apollinaire Cikongo, que anima um programa dominical em francês e em Ciluba, no qual aborda “todos as questões sociais e da actualidade”, organizando depois debates contraditórios. Em Março e Abril, por exemplo, fez três emissões sobre poligamia, assunto sobre o qual diz divergir da “maioria dos pastores das seitas cristãs”.
As uniões polígamas são legais na RDC. Todavia, enquanto os homens podem ter várias mulheres, estas não têm protecção legal, nem direitos sobre o registo e a custódia dos filhos, nem direitos de propriedade ou de herança.
Outro tema muito discutido é o da violência doméstica, mas, apesar de “as mulheres serem muitas vezes cúmplices do sofrimento que lhes é imposto por tradições arreigadas na sociedade”, Apollinaire Cikongo realça que a situação “está a evoluir bem”. A Rádio Ditunga contribuirá para “lutar contra os casamentos precoces” e encorajar as meninas a ir à escola. Pelo menos 8000 seguiram este caminho, graças a bolsas de estudo.
O importante papel da emissora de Cikongo ficou evidente durante a Covid-19, sobretudo em 2020, com todas as medidas de distanciamento social. Durante três meses, foi “a escola primária e secundária de muitos alunos, uma escola de saúde e higiene, mas sobretudo um laço entre comunidades, a capela de muitos católicos e não católicos.”
“Não é fácil trabalhar com liberdade” na RDC, admite director. No entanto, “a situação tem melhorado desde a alternância política em Dezembro de 2018”, quando Félix Tshisekedi sucedeu a Joseph Kabila. “Antigamente, era habitual sermos interpelados por autoridades locais e provinciais, e pelos serviços de segurança. Os períodos de campanha eleitoral eram os mais perigosos, com ameaças de encerramento ou de morte contra um ou outro jornalista. Mas, graças a Deus, nunca passaram de ameaças e de intimidação.”
“Somos ‘Projecto’ porque somos um sonho”, lê-se no site da Rádio Ditunga. “Somos o sonho de um mundo em que cada ser humano tem o que comer e pode viver com saúde, em condições ambientais dignas; o sonho de um mundo em que o ser humano não é um analfabeto, à mercê da destruição causada por ignorância, superstição e manipulação; o sonho de um mundo em que o ser humano, plenamente responsável pelos destinos políticos da sua aldeia, goza dos seus direitos e deveres.”
**Bakhita Radio, Juba; Radio Voice of Peace, El Obeid; Radio Emmanuel, Torit; Radio Saut al Mahaba – Radio Voice of Love, Malakal; Good News Radio, Rumbek; Radio Easter FM – The voice of Truth and Love, Yei; Radio Anisa – The Voice of Truth and Peace, Yambio; Voice of Hope, Wau; Radio Dom Bosco, Tonj.
Este artigo foi publicado originalmente na edição de Novembro de 2021 da revista Além-Mar | This article was originally published in the November 2021 edition of the Portuguese news magazine Além-Mar. A summary of it in English can be read here
Em 7 de Outubro de 2001, os Estados Unidos iniciavam a Operation Enduring Freedom, para se vingarem dos ataques terroristas de 11 de Setembro cometidos pela Al-Qaeda de Osama bin Laden, protegido e patrono dos taliban. Depois de duas décadas de guerra, a América retira-se e os “estudantes do Islão” regressam. Para entender o que se passou, entrevistei Said Sabir Ibrahim, um ex-refugiado que é hoje investigador na Universidade de Nova Iorque. (Ler mais | Read more…)
Em 1996, quando os taliban conquistaram pela primeira vez Cabul, a capital afegã, Said Sabir Ibrahim e a família procuraram refúgio em Peshawar, no vizinho Paquistão. “[Naquela altura], tal como hoje, a economia colapsou e a pobreza disparou”, recorda, em entrevista que me deu por e-mail. “O regime forçou-nos a usar barbas, as minhas irmãs foram obrigadas a cobrir-se totalmente com burkas [que há séculos são tradicionais nas zonas] rurais, por eles consideradas vestes islâmicas e afegãs. E nós tivemos de partir.”
“Muitos paquistaneses abriram-nos os seus corações e casas, mas nunca fomos um fardo – trabalhámos, pagámos renda e contribuímos para a economia do Paquistão, que recebeu muitos milhões de dólares da comunidade internacional para ajudar os [mais de 3 milhões de] refugiados [de várias guerras]”, diz Ibrahim, que é agora investigador no Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova Iorque (NYU), onde completou um mestrado em Assuntos Globais.
O regresso à pátria aconteceu em 2002, um ano após a Operation Enduring Freedom dos Estados Unidos e da NATO responsável pelo derrube do regime dos “estudantes do Islão”, um movimento germinado nas escolas corânicas do Paquistão, que emergiu em Kandahar no final de 1994, hoje com cerca de 70 mil a 100 mil combatentes (eram 30 mil há uma década) e rendimentos anuais estimados em 1500 milhões de dólares, 60% dos quais assentes no tráfico de droga (do ópio do Afeganistão é extraída a maior parte da heroína consumida a nível mundial).
Em Cabul, Said Ibrahim colaborou com organizações sem fins lucrativos, como o Conselho Norueguês para os Refugiados e o Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional.
Em 2009, obteve uma bolsa do American Council para continuar os estudos em Nova Iorque, onde se tornou um eloquente activista pelos direitos humanos no seu país.
Por várias vezes voltou ao Afeganistão – a última visita foi em 2018 –, “para tentar contribuir para a prosperidade do país”. Desiludiu-se: “Corrupção e nepotismo impediram-me de querer fazer parte do governo.”
Em pouco mais de uma semana, no dia 15 de Agosto, os taliban reinstalaram-se em Cabul, após 20 anos de presença militar dos EUA e da NATO, de quase um milhão de mortos e de 23 mil milhões de dólares gastos para os derrotar. Como é que está a lidar emocionalmente com este retorno?
Têm sido dias duros para tantos de nós, excepto para os taliban e os seus simpatizantes. Nunca apoiei nenhum partido político no Afeganistão, mas sinto-me derrotado. Temo pela segurança dos meus familiares e de muitos outros com quem partilhei um país.
Sonhávamos com um Estado democrático para todos, incluindo os talibã, através de um processo de paz. Os taliban reconquistaram o poder pela força e pela violência – agora, muitos cidadãos estão em risco, e eu penso constantemente neles. Seja como for, temos de continuar a pressionar, a viver e a sonhar com um futuro melhor para esta nação.
A saída das tropas americanas, até 31 de Agosto, como determinou o presidente Joe Biden, que manteve o acordo assinado em 2020 por Donald Trump com os taliban, foi caótica e deixou para trás, à mercê de actos de represália, milhares de afegãos que com elas colaboraram. Poderia ter sido uma retirada mais bem organizada?
Compreendo que, caso tivessem ficado para além do prazo definido no acordo EUA-taliban em Doha [no Qatar], as forças americanas e da NATO poderiam ser atacadas. Também compreendo que os Estados Unidos quisessem retirar-se do Afeganistão para se concentrarem noutros objectivos estratégicos, como conter a China e a Rússia.
Eu próprio era a favor da retirada, mas só no contexto de um acordo político entre as facções afegãs – os taliban e outros. No entanto, os EUA retiraram-se sem esse acordo e foi prematuro.
Como é que os taliban conseguiram assumir o controlo tão súbita e inesperadamente?
Há muitos factores que explicam a queda do Governo em Cabul. A retirada dos EUA enfraqueceu o moral das forças de segurança afegãs [cerca de 300 mil homens, que, mal pagos e alvos fáceis, se foram rendendo ou desertaram, entregando armas e abandonando bases].
Os EUA haviam prometido apoio aéreo, mas não forneceram uma assistência consistente. Também se verificou uma guerra por procuração e de serviços secretos envolvendo o Paquistão, o Irão, a Rússia e a China, por um lado, e os EUA e a NATO, por outro.
O Paquistão há muito que quer subjugar o Afeganistão para que não se aproxime da Índia, e conseguiu o que queria. O Irão e a Rússia queriam humilhar os Estados Unidos, e conseguiram igualmente o que queriam.
E por que foi tão rápido o colapso do governo do presidente Ashraf Ghani? Poderia este governo ter sido salvo?
Sim, poderia sido salvo se tivesse chegado a um acordo político com os taliban. Mas o Governo afegão era, intrinsecamente, corrupto e fraco – não só por culpa da insurreição taliban. Dizia-se que o Governo em Cabul era dirigido por três pessoas: o presidente Ghani e os seus dois conselheiros – Hamdullah Moheb e Fezel Fazly. Cabul nem sempre enviava reforços para que as forças de segurança nas províncias repelissem os avanços dos taliban.
Era suposto que Moheb, inexperiente conselheiro nacional de segurança, ‘liderasse’ a guerra ignorando as chefias militares. Também havia uma luta pelo poder, predominantemente entre pashtun e tajiques [os maiores dos 14 grupos étnicos].
Em retrospectiva, vários comentadores têm apontado para um “erro crucial” por parte da Administração de George W. Bush em 2001, quando se terá recusado a aceitar a proposta dos taliban de uma rendição com amnistia, optando por dar poder a milícias e senhores da guerra, rivais e vingativos. Ao exigir nada menos do que uma capitulação incondicional, abrindo caminho a uma guerra “sem inimigo”, mais civil do que militar, terão os EUA facilitado o ressurgimento dos taliban?
Sim, a Administração Bush deveria ter tentado negociar, mas não tenho a certeza de que os talibã se tivessem rendido naquela altura. Não creio que a Rede Haqqani [o grupo mais violento, responsável por raptos e pelos mais sanguinários ataques contra soldados afegãos, activistas, intelectuais, jornalistas…] tivesse alguma vez mostrado interesse em negociar com os americanos ou com o governo de Cabul em 2001.
Além disso, se os EUA e a NATO tivessem permanecido no Afeganistão, veríamos certamente a emergência de outros bandos de insurrectos, porque invasões ou ocupações estrangeiras atraem sempre resistência.
Nos últimos 20 anos, apesar da violência, registaram-se mudanças importantes na sociedade afegã, sobretudo nas cidades – havia, por exemplo, tantas mulheres no Parlamento em Cabul como no Congresso em Washington. Até que ponto essas mudanças impedirão os taliban de governar como nos anos 1990, quando impuseram a sua ideologia deobandita, assente na rígida interpretação da escola hanafita do Islão e em severas tradições pashtun?
Muita coisa mudou, sim. Apareceu uma nova geração de afegãos [63,7% dos quase 40 milhões de habitantes tem menos de 25 anos]. Muitos afegãos lutaram arduamente para terem educação em vários campos. Havia liberdade de expressão.
A nova geração irá desafiar o poder dos taliban [tem havido manifestações de protesto, principalmente de mulheres], mas não tenho a certeza durante quanto tempo isso será possível sem apoio político da comunidade internacional.
Por outro lado, milhares de quadros afegãos deixaram ou estão a abandonar o país. Os taliban dizem que vão ser pragmáticos e que encorajam as pessoas a ficar, mas as pessoas têm medo dos taliban. Eles continuam a suprimir e a oprimir os dissidentes. Já limitaram a liberdade de imprensa vários jornalistas têm sido detidos e torturados] e segregaram as mulheres nas escolas superiores. Receio que esteja a formar-se um Estado policial semelhante aos das repúblicas islâmicas do Paquistão e do Irão.
Das 34 províncias afegãs, o Vale de Panchir, no Leste e 144 km a norte de Cabul, era o último reduto da oposição, mas, no início de Setembro, os talibã reivindicaram vitória. A derrota não foi assumida pela Frente Nacional de Resistência do Afeganistão (NRFA), o grupo multiétnico liderado pelo filho de Ahmad Shah Massoud, lendário comandante da Aliança do Norte que a Al-Qaeda assassinou, em 2001, como um favor aos anfitriões talibã. O que se passa?
Os taliban garantiram ter conquistado Bazarak, o centro da província, e cortaram as linhas de comunicação com Panchir. É difícil sabe o que se passa na realidade. A NRFA assegura que continuam os combates contra os taliban [apesar de uma dramática situação humanitária – sem alimentos, água e medicamentos].
É possível que os taliban se tenham apoderado da maior parte da província e que estejamos agora perante uma guerra de guerrilha – semelhante às dos anos 1980 contra a ocupação soviética.
Especulou-se, sobretudo após a recente visita do chefe dos espiões de Islamabad a Cabul, que, no ataque a Panchir, região rica em recursos minerais, os taliban receberam apoio do Paquistão e da Al-Qaeda. Confirma?
Há múltiplos relatos de que estiveram envolvidos combatentes estrangeiros, designadamente paquistaneses, árabes, tchetchenos e outros da Ásia Central. É plausível que tenham sido usados drones do Paquistão, mas não há confirmação por parte de fontes independentes. A resistência deverá continuar, à semelhança da luta [dos mujahedin financiados pela CIA] contra a URSS ou à semelhança da insurreição talibã contra os americanos.
Como define a resistência em Panchir e quem os pode apoiar?
A resistência em Panchir representa muitas pessoas no Afeganistão – pessoas que trabalharam durante os últimos 20 anos para estabelecer um sistema quase democrático que possa garantir direitos humanos básicos – não uma utopia liberal.
É difícil imaginar que Panchir, isoladamente, consiga criar um equilíbrio de poder e reconquistar o país – pelo menos não a curto prazo. Seria preciso apoio de outras províncias e de actores externos.
Infelizmente, isto poderá conduzir o país a uma nova guerra civil ou a uma guerra por procuração. Nesta fase, não imagino quem é que poderia financiar a resistência em Panchir, mas se os talibã arranjaram quem financiasse a sua rebelião no início dos anos 2000, a resistência também encontrará o seu caminho.
O governo do segundo “Emirado Islâmico do Afeganistão” foi anunciado em 7 de Setembro. O que acha da sua composição?
É o que se poderia esperar de um regime repressivo. Não é representativo nem inclusivo. Não tem minorias nem mulheres [o Ministério dos Assuntos da Mulher foi substituído pelo Ministério do Amr bil Ma’ruf wa Nahy aan al Munkar – “Promoção da Virtude e Prevenção do Vício”].
Quase todos os ministros pertencem a um único grupo étnico [o dos pashtun, com 30 pastas; aos tajiques foram atribuídas 2 e aos uzbeques apenas uma – os hazaras, a minoria mais perseguida, continuam excluídos], e são exclusivamente dirigentes religiosos [33 mullahs] sem experiência técnica.
Muitos dos nomeados fazem parte das listas de terroristas dos EUA e da ONU [o FBI, por exemplo, oferece 5 milhões de dólares pela captura de Sirajuddin Haqqani, o indigitado ministro do Interior]. Isto só irá dividir ainda mais o país.
Quais os desafios que este governo vai enfrentar e quem o vai reconhecer?
Os principais desafios são uma economia moribunda [dependente de ajuda externa – 75% das despesas públicas são comparticipadas pela comunidade internacional]; um elevado número de desempregados; os [cinco milhões de] deslocados internos ; a seca [que afecta pelo menos 3 milhões de afegãos e deixou mais de 12 milhões em situação de insegurança alimentar], a Covid-19, a resistência política e armada contra o novo regime [incluindo da parte dos rivais do Estado Islâmico de Khorassan, ISIS-K, grupo ainda mais extremista, nas palavras e actos].
O Paquistão continua a ser o principal aliado dos talibã. No entanto, outros países, como o Irão, o Qatar e, até certo ponto, a Rússia e a China também não se deverão abster de apoiar o movimento.
Como é que imagina o futuro a curto e longo prazo?
No curto prazo, os taliban vão tentar dominar todo o país. Precisam de ser bem-sucedidos neste curto prazo porque têm agora todo o poder. No longo prazo, porém, mesmo esmagada a resistência em Panchir, outros grupos poderão surgir para desafiar os taliban, por meios violentos ou não.
Disto poderá resultar uma guerra prologada, mais deslocados e refugiados, mais derramamento de sangue e mais miséria. E se o regime dos taliban continuar as políticas repressivas dos anos 1990, provavelmente irá ser sujeito a novas sanções por parte do Ocidente.
Vários analistas descrevem o Afeganistão como um país turbulento, dividido, ingovernável. Partilha dessa opinião?
Ainda não encontrámos uma fórmula em que as facções rivais possam viver lado a lado e competir por meios não violentos.
Os taliban insistem num emirado islâmico; outros querem um sistema democrático islâmico, não necessariamente uma democracia liberal ocidental. O Afeganistão é um Estado falhado e não apenas um país fragmentado. É o produto de divisões internas, de guerras por procuração, regionais e internacionais, e de jogos geopolíticos.
Said Sabir Ibrahim, um ex-refugiado afegão que é hoje investigador na Universidade de Nova Iorque
Esta entrevista, agora actualizada, foi originalmente publicada na revista ALÉM-MAR, edição de Outubro de 2021 | This interview, now updated, was originally published in the Portugueses news magazine ALÉM-MAR, October 2021 edition
Os taliban queimaram-lhe a escola, ameaçaram-no de morte, destruíram a sua casa. Matiullah Wesa não se rendeu nem pretende fugir, agora que eles regressaram ao poder. Fundador e presidente da organização Pen Path (Caminho da Caneta), ele mobiliza chefes tribais, líderes religiosos, famílias, voluntários e outros benfeitores para garantir a educação de quase 60 mil crianças e jovens. (Ler mais | Read more...
Ninguém jamais questionou a devoção de Haji Muhammad Khan. O seu primeiro nome atesta que cumpriu um dos cinco preceitos do Islão, a peregrinação (Haj) a Meca. No entanto, quando este respeitado chefe tribal pashtun de cinco dos dezoito distritos da província de Kandahar, no sul do Afeganistão, decidiu abrir uma escola, para rapazes e raparigas, a sua ideia foi acolhida com hostilidade.
Muhammad Khan não cruzou os braços. Andou de porta em porta, a tentar convencer as pessoas “a defenderem a educação como se defendessem as suas casas”, porque “a educação é um direito básico, um direito humano, um direito islâmico”.
Vencida a relutância inicial de uma população ultraconservadora, sugeriu-se um compromisso: uma escola segregada. E foi assim que, em 2003, as meninas começaram a ter aulas numa mesquita e os meninos em tendas ao ar livre nos campos verdejantes do distrito de Maruf.
Entre os 900 alunos provenientes de sete aldeias estava Matiullah Wesa, filho de Haji Muhammad Khan. É ele, de 29 anos, quem me conta a história , em várias conversas por WhatsApp. “Eu era um adolescente feliz”, recorda. “O meu pai arranjou livros, cadernos, lápis, todo o material escolar de que precisávamos.”
Era uma festa diária, mas toda a alegria se esfumou numa manhã de 2004, quando combatentes taliban – de regresso a Kandahar, o bastião onde, dez anos antes, lançaram as bases do seu primeiro “emirado”, e dois anos depois de derrotados pelas tropas americanas – irromperam para um ataque infame.
“Apontaram armas à cabeça dos nossos professores, ordenaram-nos que fugíssemos e queimaram todas as tendas da escola”, descreve Matiullah Wesa. “Chorámos tanto. Destruíram os nossos sonhos.”
“O que podíamos fazer, se eles eram mais poderosos do que nós?”, comenta Matiullah. Furioso, o pai ainda tentou retomar as aulas. “Doze dias depois, os taliban vieram ter connosco e ameaçaram-nos de morte. Fomos aconselhados pelos nossos líderes religiosos a mudarmo-nos para Spinbaldak”, outro distrito de Kandahar. “Assim que partimos, a nossa casa também seria incendiada. Tínhamos jardins e pomares. Vendíamos frutos secos. Perdemos quase tudo.”
Em 2008, Muhammad Khan enviou os dez filhos (seis rapazes e quatro raparigas) para estudarem em Cabul, a capital. Um ano depois, com saudades dos amigos de infância em Merokhil, a sua aldeia, Matiullah perguntou ao irmão Attaullah se ele achava bem lançarem uma campanha para reerguer o que os taliban haviam destruído.
O irmão entusiasmou-se e o pai, agora a viver na cidade de Kandahar, capital da província com o mesmo nome, logo se prontificou a financiar o projeto, para o qual obtiveram também a indispensável bênção dos chefes tribais e religiosos.
Assim nasceu a organização Pen Path (Caminho da Caneta), que, garante, Matiullah, recebe apenas donativos de benfeitores afegãos, muitos deles sensíveis aos seus apelos no Facebook e Twitter. “O nosso primeiro objetivo era reabrir as escolas fechadas, algumas há 10-15 anos, não apenas num distrito, mas por todo o Afeganistão.”
Só em 2009, os dois irmãos reabriram 46 escolas nas zonas mais inóspitas, onde milhares de crianças nunca tinha visto uma sala de aulas. Em 2010, abriram a primeira biblioteca em Kandahar, na casa da família em Spinbaldak.
“Conseguimos juntar uns 5500 livros” comprados e doados, exulta Matiullah. “Temos livros sobre o Islão, mas também romances e poesia. Há livros infantis, de gramática, inglês, geografia, filosofia…”
Com uma licenciatura em Ciência Política e um mestrado em Direitos Humanos, concluídos em duas universidades indianas, Matiullah está orgulhoso da sua caminhada: “Desde 2009, a Pen Path reabriu 100 escolas que as guerras fecharam. Obtivemos licença para construir e equipar outras 46 onde não havia nenhuma. Pelo menos 57 mil raparigas e rapazes vão à escola graças aos nossos esforços. Abrimos 38 bibliotecas em áreas esquecidas.”
“Organizámos cursos de alfabetismo para 340 jovens nas suas casas. Atribuímos bolsas de estudo a 280 estudantes universitários pobres. Lançámos a iniciativa #1bookforpeace, que permitiu distribuir 345 mil livros. Oferecemos manuais, mochilas e 1,5 milhões de objetos de papelaria. Apoiamos crianças órfãs e demos cadeiras de rodas a 220 portadores de deficiência para que possam deslocar-se à escola.”
Este trabalho é feito com a ajuda de “2300 voluntários, 400 dos quais são mulheres”, destaca Matiullah, que mobilizou também os dez irmãos e irmãs, para cumprir o lema “os livros ensinam-nos a ser livres”. Muitos destes voluntários circulam de motorizada – “o veículo dos taliban”, ironiza Matiullah – com a missão de sensibilizar os pais para a importância de educar os filhos e as filhas, em particular. As motorizadas servem também de bibliotecas ambulantes. “Já percorremos, até agora, 304 distritos das 34 províncias.”
Entre os voluntários da Pen Path está Zarlasht Wali, 26 anos, professora de inglês, natural de Andar, um dos distritos mais remotos de Ghazni, cidade estratégica no Sudoeste, cuja conquista em 18 de agosto precipitou o regresso dos taliban ao poder em menos de uma semana.
Ghazni, um reduto onde só em 2013 abriu a primeira escola para meninas, caiu sem resistir aos “estudantes do Islão”, mas, quando eles chegaram, Zarlasht já se tinha mudado para Cabul.
“Muitas áreas nunca deixaram de estar sob controlo dos taliban e do Daesh”, diz ela. “Eles não aceitaram bem que os rapazes fossem à escola”, por isso, ao dar aulas particulares e clandestinas a raparigas, a jovem educadora colocou-se na linha de fogo. “Os meus primos avisaram-me que os estava a pôr em risco, que podiam ser degolados.”
Agora, em Cabul, em cuja universidade se licenciou em Literatura Inglesa em 2017, Zarlasht continua a ensinar as alunas por WhatsApp (foi também por este meio que falou comigo), aproveitando as visitas dos primos para enviar livros e outro material de apoio “escondidos em roupas ou tapetes”.
Chegou a ter mais de 400 alunas, do 8º ao 12º ano. Ensina-lhes várias matérias, mas principalmente inglês. Por enquanto, “as escolas até ao 6º ano, continuam a ter autorização de funcionar, mas não há garantias.”
O pai de Zarlasht, viúvo há 18 anos, foi criticado por se ter instalado com os 3 filhos em Cabul, “cidade de pagãos”, onde ela “adorava a atmosfera refrescante, o bulício dos bazares, das praças, dos cafés de Internet e dos restaurantes, o convívio humano sem restrições, a liberdade de andar pela rua e de se vestir como queria.”
“Agora, poucas são as mulheres que se arriscam a sair de casa, a não ser para assuntos urgentes”, constata Zarlasht. “Toda a gente parece muito deprimida. Toda a gente tem medo do novo regime. Toda a gente tem medo do futuro. Também as minhas aulas são agora como consultas de psicologia. As crianças mostram-se angustiadas. O meu papel é ajudá-las a não se sentirem sozinhas, encorajá-las a não desistir.”
Que aspirações têm os seus alunos? “Muitos deles querem ser médicos, porque há doenças graves na família e porque os serviços de saúde são muito maus. Outros querem ser professores, porque há uma grande falta deles nas províncias, sobretudo mulheres. E todos querem ser voluntários, como eu”, responde Zarlasht.
Desde que há seis anos se juntou à Pen Path, em part-time, Zarlasht vem notando progressos importantes. “De início, os líderes tribais e religiosos em Ghazni nem sequer me queriam ouvir. Não estavam dispostos a aceitar sequer aulas para rapazes. Mas insisti e eles cederam. Noutras províncias, não foi tão duro. Assim que contactávamos as famílias, éramos recebidos com sorrisos.”
“Nas últimas duas décadas, as mentalidades foram mudando e tem havido progressos”, reconhece Zarlasht. A taxa de literacia entre os jovens, por exemplo, aumentou para 65%, embora permaneça um fosso entre raparigas (29,8%) e rapazes (55%); o número de crianças inscritas nas escolas também aumentou de 3,8 milhões em 2003 para os atuais 6,3 milhões. Mas será que os taliban mudaram?
Zarlasht não acredita nisso, mas acha que é preciso “dar tempo ao tempo”. Que as manifestações de protesto de mulheres, nas quais têm participado as suas amigas, podem ser “contraproducentes”, e que “seria melhor encontrar outros fóruns que não as ruas para dizer, na cara dos taliban, que a sua interpretação do Corão é uma fraude”.
Zarlasht quer lembrar-lhes que as mulheres de Maomé, profeta do Islão, foram empresárias, como Khadija, ou participaram em batalhas, como Aisha. “Não há suratas nem hadiths que neguem os direitos das mulheres.”
Apesar do medo e da angústia gerados por um movimento cujos dirigentes se gaba de não terem frequentado universidades e que quer reduzir as mulheres – metade da população – ao papel de mães, fechadas em burcas, Zarlasht Wali não tenciona abandonar o Afeganistão.
“Se nos formos embora, quem vai ficar para continuar a missão de salvar o país?”, pergunta ela. “Tenho responsabilidades para com o meu povo. Não receio perder a vida. Morreremos todos, mais cedo ou mais tarde. Para que a nossa luta na Pen Path não tenha sido em vão, temos de ser fortes e continuar.”
Em Kandahar, Matiullah Wesa suspira e dá uma gargalhada quando lhe perguntamos se os novos governantes o assustam, ainda mais depois de ele ter decidido alargar a sua missão educativa à “promoção dos direitos humanos, contra a discriminação e a violência, contra a exploração infantil [pelo menos ¼ das crianças afegãs entre os 5 os 14 anos trabalham ou mendigam nas ruas para alimentar as famílias] e contra o tráfico de drogas” (que representa 60% das receitas dos talibãs).
A Pen Path também distribui alimentos aos mais necessitados e envolveu-se numa campanha de prevenção da Covid-19. “É um trabalho humanitário e social”, assevera, confiante de que não será visto como uma “ameaça política”.
“A situação é difícil, mas estou disposto a correr todos os riscos”, assegura. Incansável, continua a percorrer as zonas rurais onde vivem mais de 70% dos afegãos, enfatizando a mensagem de que “educar uma menina, da primária à universidade, é educar uma nação”.
Numa gravação áudio em pashto que Matiullah traduziu para inglês, Gualai, uma garota de 13 anos, partilha a tristeza de a escola feminina Mohammad Akbar, em Spin Boldak, ter sido encerrada em 2019, e a alegria de poder continuar a estudar em casa graças aos livros distribuídos pelos voluntários da Pen Path.
“Só estou no 4º ano, mas já poderia estar no 6º, como os meus primos – a escola deles não fechou”, lamenta Gualai. “Espero que a comunidade internacional nos ajude a manter abertas as escolas para as meninas. Gostava de ser piloto de aviões. É o meu sonho.”
Este artigo, aqui na íntegra, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, edição de 17 de Setembro de 2021 | This article was originally published in the Portuguese weekly newspaper EXPRESSO, September 17, 2021 edition
A ilha a que os portugueses chamaram São Lourenço tem uma das menores pegadas carbónicas do mundo, mas está à beira de uma “fome de proporções bíblicas” causada pelo aquecimento global. Uma seca sem precedentes desde há quatro décadas e tempestades de areia que destroem as colheitas, em conjunto com o impacto económico da Covid-19, deixaram ainda mais pobre um dos países mais belos. (Ler mais | Read more…)
Voromasy Justine, camponesa de 48 anos, e os seus sete filhos abandonaram a aldeia de Androhondroho, na comuna de Ambanisarika, no Sul de Madagáscar, em busca de água e alimentos. Não podiam continuar a comer “pasta de tamarindos com argila, cactos cozidos e até gafanhotos”.
Tal como Voromasy, cuja história me foi contada, por telefone, com a ajuda de Lahaflorentin Razafindratsilizy, tradutor no centro do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas, na cidade de Ambovombe, também outros 200 habitantes da sua aldeia, não podendo cultivar o que habitualmente comem e vendem nos mercados locais, empreenderam uma penosa caminhada em busca da sobrevivência.
Madagáscar, vizinho de Moçambique, na costa oriental de África, é um Estado de beleza rara, com um eco-sistema único, mas é também um dos mais pobres do mundo.
Cerca de 75% dos seus quase 27 milhões de habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza (menos de 1,90 dólares por dia, segundo o Banco Mundial), e a região conhecida como “Grande Sul” é a mais carenciada do país (90%). Ou seja, 9 em cada 10 pessoas nas áreas afectadas por uma seca sem precedentes nas últimas quatro décadas, já viviam na miséria.
Num continente que emite as taxas mais baixas de CO2 per capita, a ilha a que navegadores portugueses deram o nome de São Lourenço, quando ali chegaram em 1500, é o primeiro país do mundo onde a insegurança alimentar e a fome são consequências das alterações climáticas e não de conflitos. Pelo menos um quarto dos seus 25 milhões de habitantes vive em áreas altamente propensas a ciclones, cheias e secas.
Para enfrentar uma crise que afecta 1,1 milhões de malgaxes – número que, nos próximos meses, poderá subir para 1,3 milhões – e evitar “uma fome de proporções bíblicas”, o PAM, maior agência humanitária do mundo, Prémio Nobel da Paz em 2020, pede 150 milhões de dólares (mais de 125 milhões de euros).
À semelhança de Voromasy, também Rengee Pâquerette, 38 anos e 8 filhos, da aldeia de Mitsangana, a sua vizinha Honorette, 42 anos e dez filhos, e Fetee, de 60 anos e oito filhos, da povoação de Tsiragonty, se juntaram a centenas de deslocados internos. Rengee e Honorette não sabem quantos moradores ficaram para trás. Fetee estima que pelo menos 40 abandonaram Tsiragonty.
Estas quatro mulheres e suas famílias foram acolhidas pela missão das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo em Berary, bairro de Ambovombe. As freiras católicas assumiram “os custos da alimentação, saúde e educação das crianças”, realça o tradutor Lahaflorentin. O PAM crê que pelo menos 3000 pessoas estarão a receber ajuda de religiosas católicas, que repetidamente, mas em vão, tentámos contactar para que dessem o seu testemunho.
“Se as chuvas vierem para poder cultivar as terras” Voromasy, Rengee, Honorette e Fetee tencionam regressar e “retomar a vida normal”. Têm esperança de que a próxima estação de sementeira e plantio, em Novembro-Dezembro, seja abençoada pela chuva, para poderem salvar as colheitas de Março-Abril de 2022.
“Imaginem uma região de 80 mil km2, o dobro da área da Suíça, que já era paupérrima em termos de nutrição, educação, saúde, infra-estruturas, e que agora está a ser castigada por secas crónicas”, diz-me Arduino Mangoni, director-adjunto do PAM-Madagáscar, em entrevista telefónica a partir de Antananarivo, a capital. “E não é só a seca mais intensa desde a que foi causada pelo fenómeno climático El Niño em 2016 [que destruiu 80% das colheitas e já deixara 1,1 milhões de habitantes em pobreza extrema].”
“Há ainda tempestades de areia [que podem durar 8 horas], arrastadas por ventos fortes que cobrem terras já amanhadas num raio de 30 km; há grupos de bandidos a aproveitar-se da crise; e há o impacto da Covid-19, que fez perder muitos empregos sazonais na indústria do turismo.”
Nas suas regulares visitas ao terreno, Mangoni encontrou muitas pessoas como Voromasy, Rengee, Honorette e Fetee, em “situação de catástrofe”, isto é, que “já esgotaram as estratégias de resposta à crise” – fase 5 na escala da insegurança alimentar. Pessoas sem sementes para deitar à terra, nem dinheiro para as comprar, forçadas a alimentar-se de “folhas, raízes e insectos”, obrigadas a migrar das aldeias de origem, “pois não lhes resta nada”.
“Venderam as terras, as casas e até os utensílios da cozinha”, salienta Mangoni. “Pela nossa experiência, quando uma mulher vende as suas panelas, isso significa que já nada lhe sobeja na aldeia onde vive com a família. São pessoas que perderam a esperança de sobreviver.”
“Muitas mudaram-se para a costa, em particular Ambovombe e outras cidades maiores”, acrescenta o responsável do PAM, especificando que as áreas mais atingidas são Androy, Anosy e Atsimo Andrefana, três regiões com dez distritos (Ambovombe-Androy, Bekily, Beloha, Tshihombe; Amboasary-Atsimo, Betroka, Taolagnaro; Ampanihy Ouest, Betioky Atsimo, Toliara 2).
Nas suas deslocações, Mangoni ficou chocado ao ver “em pele e osso uma muito elevada percentagem de crianças e adolescentes, mas também adultos”, algo que, nos seus 20 anos ao serviço de uma organização que alimenta, em média, por ano, 90 milhões de pessoas em 80 países, ele jamais havia encontrado.
“Nunca testemunhei nada assim, crianças e adultos, incapazes de falar, de comunicar, por estarem demasiado fracos, devido à insegurança alimentar e à desnutrição. Nem na República Democrática do Congo [onde há 27,3 milhões de pessoas a necessitar de comida], na República Centro-Africana [onde 47% da população, mais de 2,2 milhões, vive em insegurança alimentar] ou no Sudão do Sul [onde, diariamente, 7 milhões de pessoas têm dificuldade em encontrar sustento].”
“Parte-nos o coração ver, nos centros de saúde para os severamente desnutridos, centenas de miúdos em silêncio”, confessa Mangoni. “Tenho uma filha de três anos e sei que, quando pomos numa sala duas ou três crianças, o barulho pode ser ensurdecedor. Mas ali, havia um silêncio esmagador.”
“Também fiquei sensibilizado ao ver adolescentes, em especial raparigas de 14-15 anos, muito baixinhos e pequeninos. Uma em cada duas crianças no Sul de Madagáscar sofre de stunting [termo que designa uma espécie de nanismo; altura abaixo da média] – o que causa danos irreversíveis, física e mentalmente.”
“Vi diferentes gerações, avós, mães e filhos, todos na mesma aldeia, em pele e osso. Quando vemos adultos assim, é porque a segurança alimentar foi duramente afectada. Sem uma grande intervenção, será difícil salvar estas vidas.”
“É certo que a situação de insegurança alimentar no Sul de Madagáscar não se compara à do Iémen [24 milhões de pessoas], à do Afeganistão [11 milhões] ou à da Síria [9 milhões]”, reconhece Mangoni. “Ainda assim, estas pessoas precisam de assistência já, neste momento.”
“Em termos de desnutrição aguda das crianças, os números quadriplicaram desde o final de 2020, de 130 mil para meio milhão, e as projecções são as de que vão continuar a aumentar até Abril de 2022. Quero frisar que esta crise não é causada por nenhum conflito.”
Se todos reconhecem que Madagáscar, com uma das mais baixas pegadas carbónicas, é vítima de “injustiça climática”, alguns culpam também “a negligência das autoridades” em relação ao Sul, descrito como “um cemitério de projectos”.
Uma região onde 7 em cada 10 pequenos agricultores detêm apenas 1,2 hectares de terra. Uma região que depende de dois rios – o Mandrare, que atravessa Anosy, e o Onihaly, que flui por Atsimo Andrefana. Uma região onde os sistemas hidrográficos se centram em poços ou furos, que “mal servem para matar a sede ao gado e menos ainda para irrigar uma agricultura de subsistência”, segundo a ONG local Bel Avenir.
“Na origem da kéré [fome] não estão as alterações climáticas”, assegura, numa entrevista à revista parisiense L’Express, Gaëlle Borgia, jornalista franco-malgaxe que há dez anos vive na Grande Ilha.
“Esta situação é cíclica desde há mais de um século. As alterações climáticas, assim como a deflorestação maciça e a ausência de políticas, só agravaram a amplitude da crise, criando fenómenos que não existiam antes, como as tiomena [tempestades de areia], porque não há árvores para servirem de corta-vento.”
“A fome deve-se a políticas de desenvolvimento ineficazes, à falta de vontade política e ao abandono de uma região desertificada”, acrescenta a repórter do jornal The New York Times, que filmou deslocados internos desesperados a comer pele de sapatos, em Ambovombe.
“Não há estradas dignas deste nome, não há infra-estruturas para que as populações tenham acesso à água nas zonas rurais, não há centros de saúde e hospitais devidamente equipados. Esta fome é o resultado das políticas de sucessivos governos. (…) É difícil compreender o quão pouco se avançou, ou o quanto se regrediu, desde a independência em 1960.”
“Na sua base, o Sul é fértil, e esta fome era evitável”, garante Gaëlle Borgia, premiada com um Pulitzer por uma investigação sobre a ingerência russa nas eleições presidenciais em Madagáscar em 2018.
“As regiões de Anosy e Androy são prósperas e têm um grande potencial agrícola, turístico e haliêutico [arte da pesca], com produtos locais de valor acrescentado. Para mim, é a mais bela região de Madagáscar, com paisagens de cortar a respiração. Aqui, toda a gente é um artista. Têm uma cultura imensamente rica e generosa.”
“Há uma responsabilidade colectiva pela crise alimentar, porque, apesar da presença de várias ONG e dos fundos dos doadores, os resultados são quase invisíveis”, critica. “A corrupção e o banditismo são factores agravantes.”
Arduino Mangoni concede: “Há um acesso limitadíssimo à água, que é escassa; as estradas são poucas e más; as escolas são poucas e más; os centros de saúde são poucos e sem qualidade”. Mas anota: “Não é fácil, nem sequer para o governo, fazer mudanças estruturais para que a população local se desenvolva e floresça, porque é mesmo duro sobreviver nesta vasta região, de camponeses e pastores, em particular quando não há chuvas.”
“Salvar vidas” é o objectivo imediato do PAM. “Temos de garantir que as pessoas terão comida suficiente até às próximas colheitas”, enfatiza Mangoni. “Há duas linhas de trabalho que devem andar em paralelo: ajuda de emergência e a dimensão da resiliência a longo prazo, apoiando o governo.”
A situação exige uma resposta urgente. Se a seca fustigou o Sul de Madagáscar, todo o país foi vítima da Covid-19. Segundo o Banco Mundial, há agora mais 1,3 milhões de malgaxes na pobreza devido à pandemia. “Quando passamos por pequenas estâncias turísticas ao longo da costa, reparamos que a maioria dos hotéis está encerrada”, refere Mangoni.
“Quase todos os voos internacionais foram cancelados. Os turistas não chegam a um país que vive muito do turismo. E também não tem sido fácil a entrada de pequenas organizações não governamentais, como os Médicos Sem Fronteiras [MSF] ou Action Contre la Faim [Acção Contra a Fome], que não conseguem mobilizar as suas equipas. Até a ONU tem dificuldades.”
O Banco Mundial constatou que os alimentos escasseiam e que os preços aumentam na maioria dos distritos. O que mais falta nos mercados é o arroz produzido localmente. Nas comunas de Efoetse e Beheloaka, em Tulear II, por exemplo, o preço de 1kg de arroz subiu mais de 20%. A inflação fez-se sentir também nos preços do grão de milho, mandioca seca ou óleo importado, que são produtos básicos.
“A resposta multisectorial da comunidade internacional começou a chegar no outono de 2020”, informa o responsável do PAM. “No entanto, se olharmos para as projecções da IPC [sigla inglesa da Classificação Integrada de Fases, que descreve as cinco etapas da severidade das emergências alimentares], temos de admitir que não conseguimos reverter as tendências em termos de segurança alimentar e nutrição.”
“Tem havido um agravamento da situação. Os recursos existentes só nos permitiram intervir com metade das rações, o que é irrisório. Precisamos de mais. Nas fases 3, 4 e 5 da IPC, há 1,3 milhões de pessoas a precisar de ajuda alimentar. E temos de ajudar todos os miúdos com desnutrição aguda e severa.”
Em 2015, com a Declaração de Paris na COP21, Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, os Estados mais ricos concordaram em ajudar os países em desenvolvimento com 100 mil milhões de dólares (cerca de 85 mil milhões de euros) por ano, mas os dados mais recentes, de 2018, indicam que ainda estão longe de cumprir esse objetivo.
Arquipélago situado no Oceano Índico, 450 km a leste da costa de Moçambique, a República de Madagáscar ou Repoblikan’i Madagasikara ocupa a maior ilha do continente africano e a quarta maior do mundo (depois da Gronelândia, da Nova-Guiné e do Bornéu), além de várias ilhas periféricas menores. A principal cidade e capital é Antananarivo.
Navegadores portugueses da armada de Pedro Álvares Cabral deram a Madagáscar o nome de “Ilha de São Lourenço” quando aqui chegaram, provavelmente em 10 de Agosto de 1500, mas só se pode dizer que a “descobriram relativamente”, anota Luís Filipe Thomaz, historiador da Universidade Católica de Lisboa. “Há muito que a ilha era conhecida de árabes e até da Europa cristã”, graças aos relatos do mercador e explorador veneziano Marco Polo. Os portugueses chegaram à ilha quando a nau de Diogo Dias (irmão de Bartolomeu Dias), depois de, “sem se aperceber, ter dobrado a Cabo da Boa Esperança, se perdeu e foi parar à costa da Somália, avançando de seguida até à entrada do Mar Vermelho”. Segundo o cronista Gaspar Correia, citado por Thomaz, Diogo Dias “acreditava estar na costa de Moçambique, mas, na realidade, já percorria a costa oriental de Madagáscar, e só se deu conta disso quando atingiu a sua extremidade setentrional”.
Madagáscar, com um território maior do que a França, a antiga potência colonial, tem quase 27 milhões de habitantes, que pertencem a vários grupos étnicos, de origens malaio-indonésias, árabes e africanas.
Publicado em 1993, o último recenseamento oficial indica que 52% da população malgaxe é animista (crenças locais), 41% cristã e 7% muçulmana, embora o relatório International Religious Freedom de 2017 estime que os muçulmanos representem agora 20 a 25%.
O Cristianismo entrou em Madagáscar no século XVI, pela mão de padres católicos dominicanos, seguidos por jesuítas e lazaristas. No século seguinte, chegaram os missionários de São Vicente de Paulo. Este esforço de evangelização foi interrompido em 1673, após o assassínio de todos os missionários franceses. Só na segunda metade do século XIX, particularmente após a conversão de Ranavalona II em 1869, é que cessaram as perseguições contra os cristãos. Actualmente, a Igreja Católica conta com o trabalho, sobretudo no campo da educação, saúde, caridade e promoção humana, de numerosas congregações religiosas: jesuítas, dominicanos, salesianos, lassalistas, lazaristas, espiritanos, maristas, as Irmãs de Cluny, as carmelitas, as Missionárias Franciscanas de Maria. Os católicos têm 22 circunscrições eclesiásticas, 438 paróquias, 25 bispos, 1747 sacerdotes, 735 religiosos, mais de 5000 religiosas professas, 133 membros de institutos seculares, 1703 leigos e 14 395 catequistas (dados de 2019). O Episcopado malgaxe integra, juntamente com os luteranos, anglicanos e reformados, o Conselho das Igrejas Cristãs de Madagáscar (Ffkm), partilhando “o compromisso com a pacificação e reconciliação nacional”, mas também “os novos desafios” colocados pela proliferação de seitas neo-pentecostais e “o crescimento do Islão, financiado pela Arábia Saudita, Turquia e Paquistão”. (Fonte: Vatican News)
Com duas línguas oficiais (o malgaxe e o francês), Madagáscar é conhecida como “Grande Ilha Vermelha”, “Ilha do Arco-Íris” ou “Oitavo Continente”. É uma das nações com maior diversidade de fauna e flora do mundo, possuindo milhares de espécies que não se encontram em nenhuma outra parte da Terra. É uma realidade que se deve ao facto de se ter mantido isolada durante 88 milhões de anos (a vida humana existe aqui apenas há 1300 anos).
Em 2019, o país ocupava o 164º lugar entre os 189 que constam do Índice de Desenvolvimento Humano. A economia assenta na agricultura (24% do PIB em 2017); na pecuária (60% das famílias rurais dependem desta actividade); na pesca (de subsistência, comercial e desportiva); nas florestas (em 2015, ocupavam quase 21,44% da área terrestre, mas essa percentagem tem vindo a decair acentuadamente); e nos recursos minerais (especialmente, ouro, manganês e cobre).
Outra fonte de receitas de Madagáscar é o turismo. Em 2019, antes da pandemia de Covid-19 ter deixado a sociedade malgaxe com mais 1,3 milhões de pobres, pelo menos 375 mil estrangeiros visitaram a ilha, contribuindo com 900 milhões de dólares (mais de 750 milhões de euros) para a economia nacional. “Estes números só parecem modestos”, observou a revista The National Geographic, “se não tivermos em conta que cada turista gastou em média 3000 dólares num país onde 75% da população vice com menos 1,90 dólares por dia”.
Desde que se tornou independente da França, em Junho de 1960, a antiga República Malgaxe, tem enfrentado várias crises políticas, incluindo golpes de Estado (o último em 2009), protestos violentos, um regime de partido único, ameaça de secessão, eleições contestadas… Vive agora a “Quarta República”.
Em Janeiro de 2019, o empresário Andry Rajoelina assumiu a chefia do Estado, esperando pôr fim a “uma década de turbulência” que começou com o afastamento do presidente Marc Ravalomanana em 2009. O diferendo entre ambos remonta a esse ano, quando Ravalomanana demitiu Rajoelina do cargo de presidente da câmara de Antananarivo. Rajoelina encabeçou então uma revolta militar e popular que forçou o predecessor ao exílio, e passou a dirigir um governo interino, sujeito a sanções internacionais. Só em 2014 foi possível “acomodar os campos políticos rivais”. Em eleições presidenciais em 2018, Rajoelina derrotou os outros 2 candidatos: Rajaonarimampianina e Ravalomanana. Nas legislativas do ano seguinte, o seu partido conquistou a maioria absoluta – 84 dos 151 lugares – no Parlamento.
Conflitos, crises económicas agravadas pela Covid-19 e alterações climáticas extremas aumentaram a insegurança alimentar em 2020, e 2021 será igualmente um “ano difícil”. O objetivo de erradicar a fome até 2030 parece cada vez mais inatingível. É o que dizem dois relatórios, um da Rede Mundial contra as Crises Alimentares, aliança que integra a FAO, a União Europeia e PAM, e outro da UNICEF.
Quase um décimo da população mundial – entre 720 e 811 milhões de pessoas – passaram fome em 2020, ou seja, “entre 118 e 181 milhões mais do que em 2019”, segundo The State of Food Security and Nutrition in the World (“Estado da Segurança e Nutrição Alimentar no Mundo”, da UNICEF.
Os números revelam “desigualdades regionais preocupantes”: uma em cada cinco pessoas (21% da população) passou fome em África – mais do dobro de qualquer outra região. E isto representa um aumento de 3 pontos percentuais num só ano. Segue-se a América Latina e as Caraíbas (9,1%) e a Ásia (9,0%), com aumentos de 2,0 e 1,1 pontos percentuais, respectivamente, entre 2019 e 2010, refere o Fundo das Nações Unidas para a Infância.
Mais de metade dos 768 milhões de desnutridos do mundo vive na Ásia (418 milhões) e mais de um terço em África (282 milhões), enquanto a América Latina e as Caraíbas representam 8% ou 60 milhões, acrescenta a UNICEF. Em comparação com 2019, a fome afectou mais 46 milhões de pessoas em África, 57 milhões na Ásia e 14 milhões na América Latina/Caraíbas.
Novas projecções indicam que cerca de 660 milhões de pessoas continuarão a passar fome em 2030, em parte devido aos efeitos duradouros da pandemia sobre a segurança alimentar global, ou seja, mais 30 milhões do que num cenário sem Covid-19.
Em 2020, quase uma em cada três pessoas no mundo (2370 milhões) não teve acesso adequado a alimentos – uma subida de quase 320 milhões num só ano. Cerca de 12% da população global estava em situação de insegurança alimentar severa, representando 928 milhões, ou seja, mais 148 milhões do que em 2019.
Estima-se que, o ano passado, 22% ou 149,2 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade tivessem sofrido atrasos no crescimento e que 6,7% ou 45,4 milhões definharam – números que deverão aumentar em consequência da pandemia. A maioria das crianças desnutridas vive em África e na Ásia.
No seu detalhado relatório sobre 2020, a Rede Mundial contra as Crises Alimentares salienta, por seu turno, que 155 milhões de pessoas em 55 países/territórios estavam em situação de “crise” alimentar, “pior ou equivalente” – um aumento de 20 milhões em relação a 2019. Deste total, 66% vivem na República Democrática do Congo (21,8 milhões), no Iémen (13,5 milhões), no Afeganistão (13,2 milhões), na Síria (12,4 milhões), no Sudão (9,6 milhões), no Norte da Nigéria (9,2 milhões), na Etiópia (8,6 milhões), no Sudão do Sul (6,5 milhões), no Zimbabwe (4,3 milhões) e no Haiti (4,1 milhões).
Em três países, mais de metade da população está em situação de “crise, pior ou equivalente”: a Síria (60%), o Sudão do Sul (55%) e a República Centro-Africana (51%).
Mais de 28 milhões em 38 países/territórios estavam em situação de “emergência”, necessitando de ajuda urgente para salvar vidas e meios de subsistência. Outras 133 mil encontravam-se em situação de “catástrofe”, em particular no Burkina Faso, no Sudão do Sul e no Iémen.
Pelo menos 65% dos 46 milhões de deslocados internos em 2020 viviam na República Democrática do Congo, no Iémen, no Afeganistão, no Sudão, no norte da Nigéria, na Etiópia e no Sudão do Sul.
Dos 30,5 milhões de refugiados e requerentes de asilo em todo o mundo, 38% eram originários de três países em situação de crise alimentar: a Síria, o Afeganistão e o Sudão do Sul.
Para 2021, em grande medida devido a conflitos, mas também às repercussões económicas da Covid-19, às alterações climáticas e outras ameaças transfronteiriças, como pragas de gafanhotos, prevê-se que 142 milhões de pessoas fiquem em situação de “crise, pior ou equivalente” em pelo menos 40 países. Em dois deles, 155 mil pessoas deverão enfrentar o estado de “catástrofe”: Sudão do Sul (108 mil) e Iémen (47 mil).
É “inequívoco” que o aquecimento da atmosfera, do oceano e a da terra – sem precedentes pelo menos nos últimos 2000 anos –, se deve a actividades humanas, assegura a maior autoridade mundial em ciência climática. Algumas mudanças extremas já se tornaram “inevitáveis” e “irreversíveis”.
Até meados deste século, as temperaturas podem aumentar mais de 1,5ºC, acima dos níveis pré-industriais, o que irá causar maior devastação – a menos que, nesta década, já e rapidamente, se controlem as emissões dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa (GEE).
Este “alerta vermelho à humanidade”, como lhe chamou o secretário-geral da ONU, António Guterres, consta do mais recente relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa), divulgado em 9 de Agosto.
A situação é de uma tal gravidade que, sejam quais forem as medidas de contenção adoptadas doravante, se tornou impossível travar, por exemplo, o aquecimento e acidificação dos oceanos, a subida do nível médio do mar (de 2 a 3 metros em 2300, podendo chegar a 5-7 metros) ou o degelo do Ártico (que continuará por centenas a milhares de anos), destaca o relatório aprovado pelos 195 membros do IPCC.
Reduções drásticas nas emissões talvez evitem piores alterações, mas não farão com que se volte aos padrões climáticos mais moderados do passado.
É a sexta avaliação do IPCC desde 1988, considerada “a mais abrangente e conclusiva”, totalmente centrada em provas científicas recolhidas e analisadas nos últimos oito anos – a divulgação foi adiada devido à pandemia de Covid-19. Em 2022, deverão ser apresentados outros dois documentos, sobre impactos e mitigação.
“É inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”, garante, com “elevada confiança”, o IPCC. “Cada uma das últimas quatro décadas foi, sucessivamente, mais quente do que qualquer outra que a precedeu desde 1850. A temperatura global à superfície aumentou mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos, pelo menos nos últimos 2000 anos.”
As projecções do IPCC são as de que a temperatura no solo continuará a aumentar mais rapidamente do que nos oceanos, sendo a subida mais rápida no Ártico, que poderá aquecer duas vezes mais do que a superfície global terrestre, com consequências terríveis para a sua camada gelada (permafrost). Nos cinco cenários considerados pelos cientistas do Painel, o Ártico arrisca-se a ficar sem gelo no mês de Setembro, pelo menos uma vez, até 2050.
A crise agravou-se desde o anterior relatório do IPCC, em 2013, que já previa, até 2100, uma variação do aumento global da temperatura entre 0,3º e 4,8ºC e agora aponta para 1,4º a 4,4ªC. Quanto à subida do nível da água, as projecções que eram de 18 e 50 centímetros, sobem para 28cm a 1,88 metros.
“No pior cenário”, até 2100, pode ir a “quase dois metros”. Se em 2013, sempre comparando com valores pré-industriais, o IPCC estimava que a concentração na atmosfera de CO2, de CO4 (metano) e de N20 (óxido nitroso) aumentaria 40%, 150% e 20% respectivamente, agora calcula essa subida em 47%, 156% e 23%.
O CO2, o gás mais emitido pelos humanos (78%, através do uso de combustíveis fósseis – petróleo, carvão e gás natural), é o principal culpado pelo aquecimento global, mas o CO4 revela-se “um vilão” ainda mais perigoso.
Produzido pela decomposição de matéria orgânica (em aterros sanitários, lixeiras, hidro-eléctricas e na pecuária – que representa 16% das emissões de efeito estufa), mas também resultado da produção e distribuição de combustíveis fósseis, o metano tem um impacto sobre as alterações climáticas 20 vezes maior do que o dióxido de carbono – uma unidade de metano equivale a 20 de CO2.
Se não se limitar a subida da temperatura média a 1,5ºC – a meta estabelecida pelo Acordo de Paris de 2015 –, o mundo pode esperar o pior, avisa o IPCC:
– Ondas de calor mortíferas (talvez piores do que as registadas no noroeste do Pacífico e no Canadá) e consequentes incêndios florestais (como os que devastaram regiões da Argélia, da Grécia ou da Turquia);
– Secas crónicas (como as que assolam Madagáscar, onde a destruição de colheitas deixou o país à beira da fome, e o oeste dos Estados Unidos da América);
– Inundações (que aumentaram 30%, como as que fustigaram a China e causaram quase 200 mortos na Alemanha e na Bélgica);
– Furacões (ventos acima dos 119km/hora, cada vez mais fortes ao chegar a terra, como os do Atlântico Norte. Um exemplo: em Novembro de 2020, em apenas 15 dias, o Eta e o Iota, de categoria 4, atingiram a costa da Nicarágua, arrasando propriedades, matando centenas de pessoas e deixando sem lar milhares de outras);
– Whiplash do clima (oscilações violentas entre extremos secos e húmidos – como aconteceu na Califórnia, com inundações destrutivas num ano e seca extrema no ano seguinte; ou na Turquia onde, em Agosto, fogos vorazes consumiram mais de 100 mil hectares de terra no Norte e chuvas torrenciais alagaram várias províncias no Sul).
“Os sinais de alarme são ensurdecedores”, enfatizou o secretário-geral da ONU, para quem o relatório do IPCC “deveria soar como uma sentença de morte” para as emissões de gases de efeito estufa, provocadas por combustíveis fósseis e pela desflorestação, “antes que destruam o nosso planeta.” Em 2019, as emissões totalizaram “um recorde” de 34,1 milhões de toneladas.
António Guterres recomenda que a capacidade para as energias solar e eólica quadriplique até 2030, e que os investimentos em energias renováveis tripliquem, de modo a que “a trajectória de zero emissões seja mantida até meados deste século”.
E acrescenta: “Devemos isso em especial às comunidades e nações mais vulneráveis e pobres, que são as mais atingidas pela emergência climática”.
Aos líderes mundiais que, em Novembro, se vão reunir na conferência do clima (COP26) em Glasgow, na Escócia, o apelo do ex-primeiro-ministro português é o de que “unam forças para podermos evitar a catástrofe climática”, pois, como “claramente” indicam os cientistas, “não há tempo e não há lugar para desculpas”.
A lista dos dez maiores emissores de CO2 é encabeçada pelas três nações mais industrializadas: China (9,8 milhões de toneladas), Estados Unidos da América (4,9 milhões) e Índia (2,4 milhões). Seguem-se a Rússia, o Japão, a Alemanha (que, dependendo muito do carvão, contribui com ¼ do total das emissões de CO2 de toda a União Europeia), o Irão, a Coreia do Sul, a Arábia Saudita e o Canadá.
Per capita, contudo, a Índia nem sequer faz parte da tabela dos dez maiores poluidores, que é liderada por três monarquias do Golfo Pérsico – Qatar, Kuwait e Arábia Saudita (sobretudo devido à fraca densidade populacional e ao domínio da indústria do petróleo) –, às quais se seguem o Canadá, os EUA, a Alemanha, a China, a Espanha, a França e a Tailândia.
Em termos de pegada ecológica, que cada vez mais se agrava (em 2019, o planeta Terra consumira a 29 de Julho todos os recursos naturais do ano, – “a data mais prematura de sempre” – não os conseguindo regenerar para acompanhar a procura do ser humano), a lista dos dez países com a mais baixa capacidade biológica inclui Singapura, Bermudas, Reunião, Israel, Barbados, Ilhas Caimão, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Chipre.
Portugal esgotou já os recursos naturais disponíveis para todo o ano de 2021, e desde 14 de Maio que começou a gastar os recursos de 2022, segundo a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável. Em 2020, o recursos foram esgotados a 25 de Maio, “o que indicia que, além de estarem a acelerar o consumo, os portugueses acumulam um saldo negativo ao longo dos anos.”
Se cada pessoa na Terra vivesse como um português médio, “a humanidade exigiria mais de dois planetas para sustentar as suas necessidades de recursos”.
Fontes: BP Statistical Review of World Energy 2020; Global Footprint Network; climate.selectra.com
Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro de 2021. These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2021 edition
A resposta a esta pergunta, feita pela revista TIME, será dada nas próximas eleições gerais em 2024. Todos culpam o chefe de Governo de Nova Deli pela incapacidade de travar a segunda vaga de COVID-19, que poderá ter causado, segundo especialistas, pelo menos um milhão de mortos. A última sondagem indica que a sua taxa de aprovação desceu de 84 para 64%, e isso significa que continua a ser o líder, nacional ou estrangeiro, mais popular do mundo. (Ler mais | Read more…)
A pandemia de COVID-19 parece estar a abrandar na Índia, o país onde, em Abril e Maio, os hospitais recusavam pacientes por não terem suficientes ventiladores, oxigénio e camas nas unidades de cuidados intensivos, onde as pessoas morriam na estrada e em casa sem assistência, e onde os crematórios derretiam por incinerarem centenas de corpos diariamente.
O homem que muitos culpam por esta tragédia, o primeiro-ministro, Narendra Modi, “irá recuperar, no devido tempo, a popularidade que perdeu”, acredita Sanjay Kumar, apesar de “o horror e o medo continuarem a assombrar as mentes da grande maioria dos cidadãos”.
Professor no Centre for the Study of Developing Societies (CSDS), em Nova Deli, um dos principais institutos de ciências sociais e humanas da Índia, do qual foi director de 2014 até 2020, Kumar critica o Governo, que não soube reagir perante a segunda e mais mortífera vaga do vírus, mas dá o benefício da dúvida a Modi. “Ele está novamente ao leme, a tomar decisões rápidas, tentando mostrar que se preocupa com o país e o seu povo.”
“As taxas de infeção baixaram [em Junho] na maioria dos estados”, refere Kumar, numa entrevista que me deu por e-mail. “Todos os dias há mais pessoas curadas do que infectadas, o que, até certo ponto, aliviou a pressão sobre os hospitais e os profissionais de saúde. O Governo ganhou tempo para reflectir e agir com mais cautela, na eventualidade de uma terceira vaga.”
“As pessoas sentem-se menos temerosas. Já não existe o pânico dos últimos dois meses, quando as mortes eram em larga escala. As pessoas estão, lenta e gradualmente, a regressar às suas rotinas de trabalho, com todas as precauções. No entanto, os momentos trágicos permanecem no espírito de todos. Numa conversa de dez minutos com um amigo ou um familiar, 80% do tempo será gasto a falar de questões relacionadas com o coronavírus e as dificuldades causadas aos entes queridos.”
A Índia foi atingida duramente por várias razões, explica Sanjay Kumar. “Uma delas foi o facto de a variante da segunda vaga ser mais mortífera do que a da primeira. Depois, o aumento de casos foi muito mais rápido, porque, ao contrário do que aconteceu na primeira vaga, quando todo o país ficou confinado, na segunda, o confinamento existia apenas estado a estado, distrito a distrito. Podia-se circular entre estados quase sem limitações, e não havia nenhuma restrição às viagens aéreas, ferroviárias e rodoviárias.”
“Outra razão foi o desleixo de alguns cidadãos, que encararam a segunda vaga de forma leviana”, adianta Kumar. “Houve ainda outros erros graves. O governo de Uttar Pradesh, o maior estado da Índia, decidiu realizar eleições quando a pandemia estava no pico, em vez de as adiar, o que teria sido fácil.”
“Naquele e noutros estados, a comissão eleitoral, organismo supervisor, também errou ao permitir votações em várias fases. Muitos dirigentes e militantes dos partidos não seguiram os protocolos da COVID-19 durante comícios que atraíram gigantescas multidões. Tudo isto ajudou a propagar o vírus.”
Olhando para trás, Sanjay Kumar admite que “não dá qualquer dúvida de que o Governo de Narendra Modi avaliou mal a situação”.
O primeiro-ministro e a sua equipa “convenceram-se seriamente de que a Índia estava a ser capaz de travar o coronavírus e, em vez de acelerarem os preparativos para travar uma segunda vaga, abrandaram-nos e ignoraram os avisos dos especialistas, virando o foco para outras questões”. Essa “negligência” enviou um sinal errado aos cidadãos.
O balanço feito pela premiada escritora indiana Arundhati Roy, num artigo de opinião publicado no diário britânico The Guardian, é muito mais demolidor. Ela recorda a arrogância de Modi, quando a Europa e os Estados Unidos da América estavam no pico da segunda vaga: “Não teve uma palavra de simpatia para oferecer.”
Num discurso citado pela autora de O Deus das Pequenas Coisas, Modi gaba-se: “Previam que a Índia seria o país mais afectado em todo o mundo. Disseram que haveria um tsunami de infecções, alguns aventaram que 700-800 milhões de indianos seriam infectados, outros que dois milhões de indianos morreriam.”
“Não aconselharia a julgarem o sucesso da Índia comparando-a com qualquer outro país. O país que acolhe 18% da população mundial [1400 milhões de habitantes] salvou a humanidade de um grande desastre ao conter o corona eficazmente.”
Durante a primeira vaga, Modi foi implacável. Anunciou um confinamento com apenas quatro horas de antecedência. “Muitos trabalhadores das zonas rurais ficaram ao abandono nas cidades, sem trabalho, sem dinheiro para pagar a renda, sem alimentos nem transporte”, descreve Arundhati Roi.
“Muitos deles percorreram a pé centenas de quilómetros até às suas casas em aldeias remotas. Muitos deles morreram pelo caminho.” Foi uma medida penosa, sobretudo para os mais vulneráveis, mas Modi conseguiu conter a pandemia e daí a sua gabarolice.
Quando chegou a segunda vaga, sem confinamento, os trabalhadores partiram nos autocarros e comboios disponíveis. “Partiram porque sabem que, embora sejam o motor da economia neste enorme país, quando há uma crise, aos olhos do governo, eles simplesmente não existem”, lamentou Arundhati Roi.
“Este êxodo resultou num tipo diferente de caos: não havia centros de quarentena para eles ficarem antes de regressarem às suas aldeias”, onde acabaria por entrar “o vírus da cidade”.
Entre 12 e 29 de Abril, quando a Índia já ultrapassava o Brasil como o segundo país do mundo mais afectado pela pandemia, 9 milhões de hindus concentraram-se na antiga cidade himalaia de Haridwar, estado de Uttarakhand, para mergulharem nas águas sagradas do rio Ganges.
No festival “Kumbh Mela”, ninguém seguiu os protocolos contra a COVID. No dia 15, quando Narendra Modi apelou a que a peregrinação fosse apenas “simbólica”, já era tarde de mais.
O número de infecções aumentava, mas não impediu Modi de avançar com eleições no estado de Bengala Ocidental – um dos últimos bastiões da oposição que o seu partido ultranacionalista Bharatiya Janata Party (BJP) estava determinado a ganhar – prolongando-as durante um mês, em vez de se realizarem num dia, como recomendaram outras forças políticas.
Modi não conquistou Bengala Ocidental e, embora a sua taxa de aprovação tenha diminuído – de 84 para 64%, segundo dados divulgados em 1 de Junho pela empresa americana Morning Consult –, a verdade é que não há nenhum líder, nacional ou estrangeiro, com a sua popularidade.
Nos media e nas redes sociais, Modi foi condenado pela classe média e pela diáspora, que constituem grande parte da sua base de apoio. Nos corredores dos hospitais não morreram apenas pobres.
Quem tinha capacidade financeira teve de recorrer ao mercado negro para comprar, a preços exorbitantes (2000 dólares em vez de 100 por um cilindro de oxigénio, por exemplo), o que faltava no decadente e descurado sistema de saúde público. Nem nas clínicas privadas havia salvação.
A classe média (médicos, professores, empresários), um grupo de cerca de 600 milhões de pessoas, “os que conseguem gastar entre 2 e 10 dólares por dia”, segundo economistas da Universidade de Mumbai/Bombaim, foi duramente atingida pela recessão de 2020, mas continuou a acreditar nas promessas de Modi de combater a corrupção.
Inspirada pelo seu exemplo de “vendedor de chá que chegou ao topo da política”, não se importava com a sua carreira divisiva (Modi fechou os olhos a um dos piores massacres de muçulmanos no estado de Gujarat, quando era aqui ministro-chefe) ou com a sua dedicação extrema à ideologia nacionalista Hindutva.
A segunda vaga da COVID não silenciou, porém, as críticas a Modi, apesar das campanhas de relações públicas do chefe do Governo para conter os danos à sua imagem de líder invencível.
“Como é que Modi pode ser perdoado?” (How can Modi be forgiven?) perguntava, em Maio, a revista TIME. Em 12 de Junho, à hora do fecho desta edição, a Índia contabilizava 29.422.088 infectados e 370.088 mortos. Os números oficiais poderão não corresponder à realidade.
Especialistas falam no “cenário mais provável” de 539 milhões de infectados e de 1,6 milhões de mortos. No “pior cenário”, estes números sobem para 700,7 milhões e 4,2 milhões, respectivamente. No entanto, mais de 60% dos indianos continuam a confiar no seu primeiro-ministro.
“O que torna a tarefa do BJP e de Narendra Modi tão fácil é a falta de alternativas”, declara Sanjay Kumar, especialista em eleições no país que se convencionou chamar – “erradamente”, segundo Arundhati Roy –, “a maior democracia do mundo”.
“Há líderes nos outros partidos, mas Modi tem sido tão popular a nível nacional que todos os outros dirigentes parecem extremamente impopulares quando comparados com ele.”
“De momento, o rival mais próximo do BJP a nível nacional, o partido Congresso [Nacional Indiano, dirigido pelos herdeiros de Indira Gandhi], está muito atrás em termos de apoio de base”, indica Kumar.
“Há líderes de base no comando de partidos regionais, mas o problema é que, embora sejam populares nos seus próprios estados, essa popularidade não transcende as fronteiras locais, ao contrário do que acontece com Narendra Modi.”
Está Sanjay Kumar preocupado com o futuro num país onde a “personalidade forte” de Modi “está a destruir o sistema partidário” da Índia, como constatam alguns observadores? “O que mais me preocupa são as divisões na sociedade”, responde o autor e coordenador de vários livros de referência, tais como Changing Electoral Politics in Delhi: From Caste to Class e Measuring Voting Behaviour in India.
“A divisão política é natural porque os partidos disputam o poder, mas a grande divisão social é a maior inquietação. A divisão é entre quem apoia e não apoia Modi. Não há, praticamente, um meio termo na sociedade.”
“Na ausência de um diálogo que reforce os princípios democráticos, temo que estes, tão fortemente enraizados, venham a ser abalados. A Índia não precisa apenas de recuperar, mas de expandir este espaço, para que seja possível um debate saudável sobre as questões que preocupam os cidadãos.”
Sanjay Kumar, professor no Centre for the Study of Developing Societies (CSDS), em Nova Deli, um dos principais institutos de ciências sociais e humanas da Índia, do qual foi director de 2014 até 2020
Os números – oficiais e reais
No dia 12 de Junho, data do fecho desta edição, a Índia contabilizava, oficialmente, 29.422.088 infectados, 370.088 mortos, 28.011.730 recuperados e 1.040.270 casos activos. (Fonte) No dia 16 de Agosto, quando o artigo foi inserido neste site, o número de casos confirmados ascendia a 32.225.513, o de mortes a 431.674, tendo recuperado 31.411.924. (Fonte)
Os números oficiais subestimam, aparentemente, a verdadeira escala deste drama humano. O “cenário mais provável”, segundo especialistas contactados pelo diário The New York Times, estima em 539 milhões o número de infectados e em 1,6 milhões o de mortos. Estes números sobem para 700,7 milhões e 4,2 milhões, respectivamente, no “pior cenário”.
Os receios de que os números não sejam reais aumentaram depois de, em 10 de Junho, o estado de Bihar, um dos mais pobres do país, ter revisto em alta o número de mortos confirmados, de 5424 para 9429. Esta revisão em alta fez com que, em apenas 24 horas, a Índia registasse um recorde global de 6000 mortes.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) admite que o número total de mortos por Covid-19 em todo o mundo será duas a três vezes maior do que tem sido comunicado. No caso da Índia, essa discrepância é, talvez, mais acentuada por “motivos técnicos, culturais e logísticos”, segundo o NYT. “Com a sobrelotação dos hospitais, muitas mortes ocorreram em casa, sobretudo nas áreas rurais, não constando da contagem oficial.” Outras razões: há poucos testes disponíveis; muitas famílias não admitem que os entes queridos morreram de Covid; e “é duvidoso” o sistema indiano de guardar os registos vitais – mesmo antes da pandemia, “quatro em cada cinco mortes na Índia não eram medicamente investigadas”.
Em termos de vacinação, a Índia é o único país onde o Governo federal não é o comprador exclusivo e um dos poucos onde as vacinas não são gratuitas. Este processo seria sempre complexo numa nação de 1400 milhões de habitantes, mas poderia ter corrido melhor, criticam analistas, se o Governo não tivesse esperado até Janeiro para fazer as suas insuficientes encomendas. Até Maio, foram compradas cerca de 350 milhões de doses da Oxford-AstraZeneca, fabricada como Covishield pelo Serun Institute of India (SII), e da Covaxim, da firma indiana Bharat Biotech. As vacinas compradas não chegam para inocular sequer 20% da população.
Uma análise da BBC referente a 726 distritos indianos onde há dados disponíveis revela “amplas disparidades” nas taxas de vacinação per capita – “alguns vacinaram metade da população e outros apenas 3%”.
Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Julho-Agosto de 2021 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, July-August 2021 edition
Chamam-lhe “o país que não existe”, “país invisível”, “país-fantasma”, por não ter reconhecimento internacional. Mas o Estado que se separou da Somália em 1991 é quase um oásis de paz e estabilidade no turbulento Corno de África. Numa entrevista, o antropólogo Markus Virgil Hoehne explica-me porquê. (Ler mais | Read more…)
Em 2002, quando visitou a Somalilândia pela primeira vez, Markus Virgil Hoehne ficou “surpreendido com a vivacidade e a paz em Hargeissa”, a capital. É certo que uma guerra civil em 1985-1994 deixou “marcas profundas, traumas mentais e físicos”, mas a maioria das pessoas “demonstra uma vontade muito forte de superar o passado violento e de olhar para o futuro”.
A Somalilândia separou-se da Somália há 30 anos, em Maio de 1991. Para a comunidade internacional, é um país que não existe. A sua independência não é reconhecida. Só Taiwan – que também tem poucos amigos – estabeleceu recentemente relações diplomáticas bilaterais.
E, no entanto, assegura Hoehne, professor no Instituto de Antropologia Social da Universidade de Leipzig (Alemanha) e autor de Between Somaliland and Puntland: Marginalization, Militarization and Contradicting Political Visions, apesar da indiferença do mundo, a Somalilândia “tem certamente razões para celebrar”.
Antes de enumerar essas razões, comecemos por explicar as origens desta região do Corno de África onde o Islão chegou no século VII e que, entre os séculos XIV e XIX, se organizava em sultanatos.
Em 1889, disputado por três potências europeias (França, Grã-Bretanha e Itália), o território somali dividiu-se em cinco pedaços distribuídos por quatro países estrangeiros: a Costa Francesa dos Somalis; a Somalilândia Britânica; a província de Ogaden, considerada “parte integral da Etiópia”; a Somália Italiana; e o Distrito da Fronteira Norte, parte do território somali integrado na colónia do Quénia, em 1926. Tudo isto deveria ser a “Grande Somália”.
Inicialmente, alguns clãs locais insurgiram-se contra os britânicos, mas estes contaram com o apoio da família – que era e continua a ser – mais importante: os Isaaq. A rebelião durou de 1899 até 1920.
Em 26 de Junho de 1960, o antigo protectorado da Somalilândia (Norte), onde a “administração minimalista” dos ingleses nunca tentou impor uma cultura estrangeira aos clãs, tornou-se independente da Grã-Bretanha.
A soberania foi reconhecida por 35 países, incluindo os Estados Unidos da América. Em 1 de Julho, a Somália Italiana (Sul) também conquistou a independência, e os novos países decidiram unir-se. Foi um casamento que durou apenas uma semana.
Os problemas entre duas entidades não tardaram a aparecer. O Sul estava mais desenvolvido e o Norte subrepresentado nas instâncias governamentais. A situação agravou-se após um golpe militar que levou ao poder o general Siad Barre.
Embora este tivesse posto em marcha um plano para criar uma “nação forte”, instaurando uma língua oficial, por exemplo, para facilitar a comunicação entre as várias regiões somalis, a realidade é que se foi revelando um líder ditatorial.
Barre governava segundo uma doutrina de “socialismo científico”, assente em ideias importadas da China, da Coreia do Norte e do Egipto de Nasser, mas não deixava de privilegiar o seu clã, Darod, o que agravou o ressentimento dos Isaaq.
Ao ser derrotado na guerra contra a Etiópia, em 1978, Siad Barre perdeu credibilidade. Nos anos 1980, um grupo de opositores que a repressão forçara ao exílio, a maioria do Norte e do clã Isaaq, criou o Movimento Nacional Somali (SNM) e assumiu o controlo da Somalilândia.
Seguiu-se uma guerra civil entre o SNM e o Governo central, durante a qual milhares de pessoas foram mortas e milhões obrigadas a fugir de suas casas.
Em 18 de Maio de 1991, o SNM proclamou a independência do Norte, depois de uma conferência de chefes de clãs, intelectuais, artistas, empresários e outros, em Burco. No entanto, sem o inimigo comum que esbatia os problemas internos, surgiram divisões na sociedade e cisões no SNM, daqui resultando uma nova guerra civil.
Em Outubro de 1992, foi aprovado um cessar-fogo e, em Maio de 1993, realizada uma segunda conferência, em Borame, a qual elegeu um presidente civil, não membro do SNM (que seria dissolvido) e criou uma Câmara de Sábios (chefes de clã), com papel consultivo. Isto permitiu que o país funcionasse durante algum tempo.
Em 1994, porém, algumas regiões revoltaram-se, considerando-se desfavorecidas, e começou mais uma guerra civil, que durou até 1996. Em Fevereiro de 1997, uma terceira conferência de paz, em Hargeissa, conseguiu finalmente encontrar um “equilíbrio relativo”, com a aprovação de uma Constituição e de um governo que mistura a democracia representativa e o sistema tradicional de clãs.
Em entrevista que deu, por e-mail, Markus Virgil Hoehne, um dos maiores especialistas na Somalilândia, exalta o que testemunhou nas suas várias visitas ao país: depois de três guerras, “com a ajuda da diáspora, muitas infra-estruturas foram reconstruídas – casas de família, hotéis, restaurantes, escolas e até universidades”.
É certo que este desenvolvimento “não é igual em toda a parte”, admite Hoehne. “Enquanto Hargeissa floresceu, outras localidades no Leste ou no extremo ocidental não prosperam tanto, e há estagnação e conflitos nas periferias. Mas, apesar de tudo, em 2021, a Somalilândia como um todo é um Estado de facto.
Existe, tem um governo, uma população que se considera somalilandesa, e tem instituições políticas estáveis, como um parlamento, e uma Câmara dos Sábios, a qual recorre às tradições somalis para resolver conflitos entre clãs.”
As tradições nómadas e os sábios chegam a ser “mais influentes do que as leis estatutárias, os partidos políticos e os responsáveis governamentais”, constata Hoehne, para quem “o sistema tradicional oferece mais estabilidade, e é mais eficaz do que o sistema democrático”. O multipartidarismo serve, acima de tudo, para “promover a Somalilândia” no exterior.
“A Somalilândia é um Estado real”, sublinha Hoehne. “Quem chega ao aeroporto internacional de Hargeissa, não nota diferenças em relação ao do Djibuti ou de Nairobi. O país tem a sua própria moeda, é pacífico (exceto em algumas áreas no extremo leste), e os seus habitantes são amigáveis e curiosos no contacto com os estrangeiros.”
“Quem se sente um café em Hargeissa, Burco ou qualquer outra grande cidade, não ficará sozinho por muito tempo. Poucos minutos depois, alguém se senta à mesa e começa uma conversa – em inglês, italiano, árabe – seja qual for a língua dos visitantes.”
“Até no interior rural, encontramos somalis fluentes em espanhol, russo, finlandês ou hindi que conheceram uma grande parte do mundo antes de regressarem à Somalilândia para ajudar a reconstruir a pátria.”
Hoehne não tem dúvidas de que a Somalilândia merece festejar a independência, a paz, a estabilidade e a auto-suficiência. “No início dos anos 1990, e mesmo por volta de 2000, poucos acreditavam que sobreviveria politicamente”, anota o antropólogo.
“Muitos pensaram que o renascimento da Somália seria o colapso da Somalilândia. Infeliz e tragicamente, a Somália continua um caos. Continua um Estado em guerra. A Somalilândia, pelo contrário e em grande medida, conseguiu manter-se afastada de problemas como a pirataria, o terrorismo, a guerra civil. É um exemplo luminoso do que os somalis podem alcançar, mesmo sem ajuda da comunidade internacional.”
“A Somalilândia”, adianta Hoehne, “demonstra que sociedades ‘pobres’ e ‘devastadas pela guerra’ NÃO precisam de intervenções externas para prosperar. Neste sentido, pode ensinar ao mundo uma lição: menos intervenções e mais criatividade e responsabilidade nacionais conduzem à paz e à estabilidade de maneira mais confiável do que a ‘ajuda’ ou a ‘assistência’ externas (que tantas vezes obedecem a agendas estrangeiras e não criam legitimidade local).”
“A maioria dos países não é favorável a reconhecer a Somalilândia por várias razões”, explica Hoehne. “Na União Europeia, a Itália cultiva laços com a sua ex-colónia, conservando interesses económicos no sul da Somália. Membros da velha elite somali ainda se relacionam com a Itália.”
“O Egipto apoia a unidade somali, para manter sob controlo a Etiópia, com a qual compete pelo uso das águas do [rio] Nilo. Outros Estados árabes preferem uma Somália unida e forte no Corno de África. Os EUA e a maioria dos países da UE procuram estabilizar a Somália. Ora, reconhecer a Somalilândia não ajudaria [estes interesses].”
“Também é importante, para todos os Estados Africanos, a determinação da União Africana (UA) a que as fronteiras coloniais do continente não sejam alteradas, caso contrário, dinâmicas separatistas imprevisíveis poderiam explodir no resto do continente.”
“A retórica habitual daqueles que adoptam uma postura benevolente em relação à independência da Somalilândia é a de que Mogadíscio e Hargeissa devem negociar”, constata Hoehne. “É verdade que tem havido algum diálogo, embora sem resultados. Mogadíscio não quer que a Somalilândia se separe, e Hargeissa recusa voltar ao statu quo ante.”
Viver num limbo cria problemas às pessoas na Somalilândia. “Não podem viajar livremente. Os seus passaportes não são válidos. Muitos jovens gostariam de ir para o estrangeiro, estudar ou trabalhar, mas não o podem fazer legalmente. Isto é um problema real.”
“Economicamente, os problemas são menos agudos, dado que algumas empresas privadas (somalis e não somalis) estão a investir” no país, ressalva Hoehne, destacando que “o não reconhecimento até pode ser benéfico – uma vez que a Somalilândia não obtém grandes empréstimos do Banco Mundial ou do Fundo Monetário Internacional (FMI), não tem dívidas, e as suas elites políticas não podem desviar grandes somas de dinheiro! Por isso, há menos corrupção e menos ingerência externa.”
“O não reconhecimento, por si só, não é muito problemático”, insiste Hoehne. “A Somalilândia provou que a ordem política, o processo democrático e um certo grau de desenvolvimento podem ser obtidos sem grande assistência internacional.” O que o preocupa é “a perspectiva de um futuro governo somali poder tentar subjugar a Somalilândia, por não ser um Estado reconhecido – isto provocaria, provavelmente, um novo conflito militar”.
“O contínuo falhanço da Somália como Estado deu à Somalilândia tempo para amadurecer e tornar-se mais estável. Se a Somália se tivesse estabilizado em 2000 ou 2010, poderia ter desestabilizado a Somalilândia. Mas, hoje, a Somalilândia consolidou-se e creio que, mesmo se a Somália reemergisse como um Estado pacífico e estável nos próximos 5-10 anos, não poderia simplesmente ‘engolir’ a Somalilândia”, conclui Hoehne.
“A Somália está em grandes apuros e serão precisos uns dez anos para se tornar mais estável. Não acredito que a Somalilândia fique sob um regime federal da Somália na próxima década. Talvez ambos os países possam negociar, no futuro, uma confederação (há diferenças entre federação e confederação). Se a Somália tentar dominar a Somalilândia pela força, então isso significará nova guerra.”
[Em Junho de 2021, nas primeiras eleições (legislativas e locais) em 16 anos, dois partidos da oposição na Somalilândia obtiveram uma maioria de lugares no Parlamento, segundo a Comissão Eleitoral Nacional, e formaram de imediato uma aliança política. O Partido Nacional da Somalilândia, designado por Waddani, conquistou 31 dos 82 lugares, e o Partido da Justiça e do Bem-Estar ou UCID, obteve 21. O Partido da Paz, Unidade e Desenvolvimento, até agora no poder, terá 30 deputados. Dos quatro milhões de habitantes, mais de um milhão registou-se para votar. Os três principais partidos apresentaram 246 candidatos. Nenhuma das 13 mulheres conseguiu ser eleita.]
Markus Virgil Hoehne, professor no Instituto de Antropologia Social da Universidade de Leipzig (Alemanha) e autor de Between Somaliland and Puntland: Marginalization, Militarization and Contradicting Political Visions,
Retrato
Situada no leste do Corno de África, a República da Somalilândia é uma região estratégica e das mais homogéneas do continente. Muçulmanos sunitas e de origem somali, a maioria dos habitantes considera-se uma nação.
Área: 137.600 km2 (maior do que Portugal/92.212km2)
Fronteiras: República do Djibuti, a noroeste; República Federal da Etiópia, a sul e oeste; Somália, a leste. A linha costeira, a norte, estende-se por mais de 740 quilómetros ao longo do mar Vermelho. (A Puntlândia, um estado semi-autónomo da Somália, a leste, reivindica alguns territórios da Somalilândia.)
Capital: Hargeissa (as outras grandes cidades são Burao, Borame, Berbera – porto estratégico no Golfo de Áden -, Erigabo e Las Anod.)
População: 3,5 milhões (a maioria pertence ao clã Isaaq, umas das quatro famílias dominantes; as outras são os Hawiye, Darod e Dir).
Sistema político: Uma república com uma assembleia legislativa de duas câmaras (a Câmara dos Representantes e o Conselho dos Sábios, no qual estão representados os vários clãs), um presidente e um vice-presidente eleitos. O chefe de Estado nomeia o Governo, que é aprovado pelo Parlamento. O poder judicial é considerado independente. Há três partidos políticos – Waddani, Kulmiye e UCID.
Moeda: Xelim da Somalilândia.
Economia: Em 2018, o produto interno bruto (PIB) per capita era estimado em 500 dólares. A principal actividade económica é a produção de gado, sector que emprega 70% da população. A pecuária contribui em 60% para o PIB e em 85% para as receitas de exportação. A agricultura (17%) é o segundo sector mais importante. O país depende imenso das importações de alimentos, combustíveis e produtos manufacturados. É também muito dependente das remessas enviadas pela sua diáspora global, que totalizam mil milhões de dólares por ano.
Clima: As alterações climáticas têm causado seca e fome na Somália e na Somalilândia. A ONU alerta que 2,2 milhões de pessoas na região correm o risco de desnutrição.
Secessões e separatismos em África
Findo o poder colonial, vários povos têm lutado por alcançar a “forma mais radical” de autodeterminação. Apenas dois foram reconhecidos pelo mundo. Alguns falharam de forma trágica e outros prosseguem o combate. Eis alguns movimentos, do passado e do presente.
O primeiro movimento secessionista da África livre foi a tentativa de separação do Katanga, a província mais rica do antigo Congo Belga, cujas reservas de cobre, cobalto, prata, platina, urânio e zinco ainda totalizam 60% das receitas fiscais da atual República Democrática do Congo (RDC). As sementes da secessão foram plantadas em 1958, com a criação do partido semi-nacionalista CONAKAT (Confédération des associations tribales du Katanga). Em 11 de Julho de 1960, depois das primeiras eleições preparatórias da independência que colocaram na chefia do Estado Joseph Kasavubu, do partido ABAKO (Mouvement national Congolais), e na chefia do Governo Patrice Lumumba, do MNC (Mouvement national Congolais), o líder do CONAKAT, Moïse Tshombé, proclamou-se presidente do “Estado do Katanga”, precipitando uma guerra civil que ficou conhecida como Crise do Congo. Recusado o seu pedido de ajuda aos EUA, Lumumba bateu à porta da União Soviética, que lhe enviou “conselheiros técnicos”. Em plena Guerra Fria, a decisão alarmou Washington, Bruxelas e Paris. Em 14 de Setembro de 1960, um golpe do coronel Mobutu destituiu e prendeu Lumumba. No ano seguinte, a 17 de Janeiro, o primeiro-ministro seria torturado e executado no Katanga. Em Janeiro de 1963, uma intervenção da ONU derrotou as tropas de Tshombé. Em 1965, Mobutu derrubou Kasavubu e o Congo tornou-se Zaire. Tshombé morreu em Argel, sob detenção domiciliária, em 1969. No início da década de 1990, Mobutu instigou tensões entre imigrantes Luba do Kasaï e nativos do Katanga, para enfraquecer o principal rival, Étienne Tshisekedi (natural do Kasaï). O Katanga desempenhou “um papel significativo” na guerra de 1997-1998, que permitiu a Laurent Desiré Kabila, um lubakat (luba natural do Katanga) derrubar Mobutu. Quando o pai foi assassinado, em 2001, Joseph Kabila seguiu-lhe o exemplo e fez do Katanga um dos seus bastiões. Continua a usá-lo para desestabilizar o governo do sucessor, Félix Tshisekedi, filho de Étienne. Dividido em quatro províncias em 2015, o Katanga permanece uma terra de desigualdades, onde as elites beneficiam das riquezas minerais e a restante população vive na miséria.
A luta da Eritreia para se tornar independente da Etiópia durou 30 anos. Foi uma guerra brutal, que começou, oficialmente, em 1961 e terminou em 1991. O reconhecimento internacional chegou em 1993, depois de a soberania ter sido aprovada, em referendo, por 99,83% da população. Os nacionalistas eritreus nunca aceitaram nem o domínio colonial da Itália, que durou do século XIX até 1941; nem a Federação Etiópia-Eritreia imposta pela ONU em 1952, após a retirada dos britânicos que haviam derrotado os italianos em 1943; nem o imperialismo repressivo de Hailé Selassié; nem a ditadura marxista de Mengistu Hailé Mariam. A rebelião contra o poder etíope nasceu entre estudantes exilados no Egipto que fundaram a Frente de Libertação da Eritreia (ELF), a qual depois se cindiu para dar lugar à Frente Popular de Libertação da Eritreia (EPLF), mais organizada e disciplinada, liderada por Isaias Afwerki. Em meados dos anos 1970, no meio de motins militares e manifestações em massa, o exército formou um comité (“O Derg”), que derrubaria o imperador em 1974. O novo regime comunista, liderado por Mengistu e apoiado pela URSS, expulsou os rebeldes das cidades e vilas, sem conseguir desalojá-los dos seus redutos montanhosos. No final dos anos 1980, com o exército etíope de rastos, um novo líder em Moscovo, Mikhail Gorbatchov, recusou renovar o acordo de defesa com Adis Abeba. Em 1988, a EPLF venceu uma grande batalha em Afabet, que mudou o rumo da guerra. Em 1989, a região do Tigré, fronteiriça com a Eritreia, ficou sob controlo da Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF), que logo criou a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF). Em Maio de 1991, Mengistu fugiu do país, a EPLF assumiu o controlo de Asmara, e a EPRDF tomou o poder em Adis Abeba. O governo etíope, agora chefiado por Meles Zenawi e pela EPRDF, foi o primeiro a legitimar o novo Estado da Eritreia. Em 1994, a EPLF transformou-se em Frente Popular para a Democracia e Justiça (PFDJ) – partido único. Isaias Afwerki tornou-se um ditador. Em 1998, um ataque das forças armadas eritreias à disputada localidade fronteiriça de Badme degenerou numa guerra total com a Etiópia que causaria cerca de 100 mil mortos e um milhão de desalojados. Foi assinado um cessar-fogo em 2002, mas o conflito só terminou em 2018, quando o atual primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, assinou um acordo de paz com Isaias Afwerki. Poderia ter sido a oportunidade para o tirano em Asmara introduzir reformas, mas ele preferiu vingar-se da rival TPLF, grupo que governou a Etiópia desde a queda do “Derg”, e juntou-se à guerra de Abiy pelo controlo do Tigré.
A Guerra Civil de 1967-1970 para garantir a secessão da autoproclamada República do Biafra, no Sudeste da Nigéria foi “uma tragédia humana de proporções épicas”. O número estimado de mortos varia entre “mais de um milhão e três milhões”. Um bloqueio naval impediu o acesso de comida e medicamentos à região, e a fome tornou-se uma arma contra o povo igbo – o terceiro maior dos 250 grupos étnicos do país. Em 1960, quando a Nigéria se tornou independente do Reino Unido, os hausas muçulmanos conservadores do Norte, marginalizados pelo poder colonial britânico a favor dos igbos cristãos e ocidentalizados, passaram a ser a força dominante. Os igbos ressentiram-se, até porque o Leste era a região mais rica, graças às jazidas de petróleo descobertas no delta do rio Níger em 1956. Foram, pois, tensões políticas e económicas que abriram caminho à inevitável guerra civil, precedida de dois golpes de Estado em 1966, o segundo dos quais, degenerou em perseguições e massacres indiscriminados dos igbos. Calcula-se que 3000 a 10 mil foram mortos, e 500 mil a dois milhões expulsos de suas casas, pilhadas e queimadas. Em Julho de 1967, o coronel igbo Odumegwu Ojukwu proclamou a independência do Biafra, um estado de 14 milhões de habitantes e capital em Eunugu. O Governo em Lagos ripostou de imediato. A guerra atraiu actores externos. O Biafra contava com o apoio e armas de Portugal, França, Espanha, África do Sul, Israel. Foi reconhecido pelo Gabão e Costa do Marfim, Zâmbia e Tanzânia, apesar de a Organização de Unidade Africa ter condenado a secessão. Washington considerava a Nigéria “um baluarte anti-comunista” e a Londres interessava que se mantivesse na Commonwealth. Quando as armas inglesas começaram a faltar, a Nigéria virou-se para a URSS, e foram os aviões de combate e outro material bélico expedidos por Moscovo que contribuíram para a derrota do Biafra. A guerra acabou, mas, para alguns, o sonho permanece mais de 50 anos depois. Um novo movimento separatista, Indigenous People of Biafra/Povo Indígena do Biafra (IPOB), liderado por Nnamdi Kanu, reflecte e canaliza agora o descontentamento dos igbos. Desde Agosto de 2020 que se assiste a uma escalada de confrontos opondo o IPOB à polícia e ao exército nigerianos. Em Dezembro, Kanu anunciou a criação de uma organização paramilitar, Eastern Security Network/Rede de Segurança Oriental (ESN).
Opondo o Sul e o Norte do Sudão, foi a mais longa guerra civil em África: durou, com algumas interrupções, 50 anos. Causou 2 milhões de mortos e mais de 4 milhões de desalojados. O Sudão havia sido ocupado pelo Egipto no século XIX, primeiro em 1821-1822, com a conquista do Norte, e depois, numa aliança com a Grã-Bretanha que passou a administrar o Sul, em 1877. A partir de 1899, foi estabelecido um Condomínio Anglo-Egípcio, que durou até à independência, em 1956. No ano anterior, o Sul, animista e cristão, revoltou-se contra os privilégios do Norte, árabe e muçulmano, iniciando uma guerra de guerrilha. Em 1972, foi assinado um acordo que permitiu ao Sul alguma autonomia. Quando esta foi cancelada em 1983, o Exército de Libertação Popular do Sudão (SPLA), de John Garang, retomou as hostilidades. O conflito terminaria em 2005, após a assinatura de um Acordo de Paz, que permitiu um referendo sobre a independência, aprovada em Janeiro de 2011 por 98,83% dos votantes. Em 5 de Julho, a República do Sudão deixou de ser o maior país de África e a República do Sudão do Sul, com capital em Juba, tornou-se no mais novo país do mundo (e dos mais jovens – metade dos 11 milhões de habitantes tem menos de 18 anos). Tornou-se também um dos Estados mais pobres, apesar de aqui se situarem 75% das reservas petrolíferas antes controladas por Cartum. Em 2013, uma guerra entre o governo do presidente, Salva Kirr, e a oposição chefiada por Riek Machar (agora vice-presidente, após um acordo de partilha de poder) causou 400 mil mortos e dezenas de milhares de deslocados. Em 2021, uma década após a independência, o Sudão do Sul enfrenta uma grave crise de fome e insegurança alimentar, que afecta 8,3 milhões de pessoas, segundo a ONU. Três factores contribuem para o novo drama: intensos combates entre milícias de etnias rivais; chuvas torrenciais, derivadas das alterações climáticas; e o impacto da pandemia de covid-19.
Na província do Norte onde Angola vai buscar metade das suas receitas petrolíferas, o espírito separatista perdura desde a independência do país, em 1975. A população não beneficia das riquezas locais. Em 2021, a taxa de desemprego subiu de 21 para 42%, em parte devido à covid-19. O primeiro grupo secessionista neste território situado entre o Congo-Kinshasa e o Congo-Brazaville foi a Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda-Forças Armadas de Cabinda (FLEC/FAC), ainda activa. Nos anos 1970 e 1980, a FLEC/FAC travou, sobretudo, uma “guerra de guerrilha de baixa intensidade”. Atacava tropas governamentais e alvos económicos; raptava trabalhadores estrangeiros das indústrias do petróleo e da construção civil. Nunca conseguiu vitórias territoriais, militares ou diplomáticas, porque o Estado, que a via como “ameaça existencial”, combateu-a implacavelmente. Outras facções secessionistas apareceram depois: a Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC), que advoga “a via militar” para obter a independência; a FLEC-PM (Posição Militar); o Movimento Independentista de Cabinda (MIC); e a União dos Cabindenses para a Independência (UCI). Estes dois advogam uma luta não violenta, apelando a manifestações e à realização de um referendo. Apesar dos seus protestos pacíficos, dezenas de activistas têm sido presos e torturados, segundo a Amnistia Internacional. Cabinda não é a única província separatista de Angola. Uma vasta região rica em diamantes, designada por “Reino Lunda” e abrangendo a Lunda Norte, a Lunda Sul, o Moxico e o Kuando Kubango, clama por autonomia. O seu representante é o Movimento Protectorado Lunda Tchokwe (MPPLT), fundado em 2006 e cuja reivindicação se baseia num tratado celebrado em 1885, entre os chefes locais e Portugal, que teria garantido a soberania do território. Violentamente reprimido pelas autoridades, o MPPLT queixa-se de que aquele acordo foi ignorado durante as negociações para a independência de Angola.
A luta pela independência de Casamansa, província do Senegal encravada entre a Gâmbia e a Guiné-Bissau, na África Ocidental, começou em 1982 como um protesto pacífico antes de se tornar numa guerra de guerrilha, nos anos 1990. Milhares de pessoas foram mortas e desalojadas desde então. Em 2012, iniciou-se um diálogo entre governo e rebeldes, mediado pela Comunidade de Sant’Egídio, e em 2014 firmou-se um cessar-fogo, mas a paz revelou-se ilusória e o conflito reacendeu-se. Em 26 de Janeiro de 2021, uma operação aérea e terrestre do exército senegalês capturou três bases do Movimento das Forças Democráticas de Casamansa (MFDC), acusado de ataques contra civis e tráfico de madeira e canábis. A ofensiva foi apoiada pela Guiné-Bissau. O MFDC, que está dividido em facções (a “linha dura”, na fronteira com a Gâmbia; a “ala moderada”, na fronteira com a Guiné-Bissau), ameaçou retomar as suas incursões no vizinho a Sul, país onde, em 1999, ajudou a derrubar o presidente “Nino” Vieira. As populações de Casamansa e da Guiné-Bissau, que pertencem ao mesmo grupo étnico-linguístico, foram separadas por um acordo estabelecido em 1886, segundo o qual Portugal renunciou à baía do rio Casamansa, incluindo o porto de Ziguinchor, e a França, em contrapartida, abandonou a área de Cacine. Com 1,9 milhões de habitantes, Casamansa é o “celeiro” do Senegal, do qual faz parte desde 1960, assegurando 50% da produção total de arroz do país. Os seus recursos minerais incluem o ouro cinzento, explorado por ganeses, jazidas de ferro e inexploradas reservas offshore de petróleo.
Após a I Guerra Mundial, a colónia alemã dos Camarões ficou sob mandatos de Londres e de Paris. Em 1060, os Camarões Franceses ganharam a independência, como República dos Camarões. Em 1961, um referendo nos Camarões Britânicos determinou que o norte, de maioria muçulmana, se juntaria à Nigéria e o sul, predominantemente cristão, seria integrado na nova república independente, que passou a designar-se República Federal dos Camarões. Em 1972, um plebiscito pôs fim à experiência do federalismo e o país mudou de nome para República Unida dos Camarões. A partir de 1984, voltou a chamar-se República dos Camarões. Num país onde o francês e o inglês são línguas oficiais, a minoria que habita as duas províncias anglófonas queixa-se de ser marginalizada pelo governo maioritariamente francófono. No final de 2016, protestos pacíficos foram reprimidos por forças de segurança. Seguiu-se a criação de mais de 30 grupos armados separatistas e a proclamação, em 2017, da “República da Ambazónia” – não reconhecida pela ONU. O seu executivo é liderado sobretudo por camaroneses anglófonos na diáspora. A imparável guerra assimétrica entre exército e separatistas, ambos acusados de violações graves dos direitos humanos, incluindo ataques a escolas, já causou quase 4000 mortos. Pelo menos 700 mil civis são deslocados internos e 68 mil refugiados na Nigéria.
Durante a I Guerra Mundial, em 1914, a Grã-Bretanha e a França invadiram a colónia alemã da Togolândia, dividindo o território numa Togolândia Francesa (futuro Togo, onde a língua oficial é o francês) e numa Togolândia Britânica (actual Gana, onde a língua oficial é o inglês). Em 1956, num plebiscito organizado pela ONU, cerca de 2/3 dos habitantes da Togolândia Britânica optaram por integrar o Gana, das primeiras colónias independentes do império. Logo surgiram vários grupos secessionistas, sobretudo da etnia Ewe. Em 2017, o movimento Homeland Study Group Foundation (HSGF), liderado por Charles Kormi Kudzodzi, começou a exigir a independência, mas, em Maio de 2019, o Governo em Accra prendeu os principais dirigentes. Em 2020, um novo grupo, a Frente de Restauração da Togolândia Ocidental (WTRF), proclamou um Estado soberano, não reconhecido pela ONU, numa faixa de território de 550km de comprimento e 60km de largura, entre o Gana e o Togo, desde a fronteira com o Burkina Faso, no Norte, até ao Golfo da Guiné. A Togolândia Ocidental, rica em ouro e petróleo, é habitada por cerca de 4 milhões de pessoas, que se sentem mais próximas do Togo.
Fontes: africanews.com; blog.cei.iscte-iul.pt; britannica.com; Deutche Welle; france24.com; globalvoices.org; International Crisis Group; instituto-camoes.pt; International Institute Journal, da Universidade de Michigan; lepoint.fr; Secession and Separatist Conflicts in Postcolonial Africa; The Independence Struggles and The Struggles for Independence; The Guardian.; The New Humanitarian; voaportugues.com.
Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na edição de Junho de 2021 da revista ALÉM-MAR | These articles, now updated, were originally published in the June 2021 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR
Com cerca de 2000 anos de existência, a comunidade cristã síria é uma das mais antigas do mundo. As suas elites foram cruciais para a conquista da independência e formação de um Estado moderno, mas o regime de Assad fez deles reféns e a oposição islamista amaldiçoou-os. (Ler mais | Read more…)
Antes da chegada do Islão, no século VII, os cristãos constituíam 80% da população da Síria. Até 1967, representavam 30%. Um censo realizado em 2005 estimava que seriam apenas 10-12%. Em 2008, totalizariam 4,8% e agora não serão mais de 2%. (*) Em cidades como Deir Al-Zour e Raqqa, antigos bastiões do Daesh, já não há sequer presença cristã.
Dos 5,5 milhões de refugiados sírios, 825 mil serão cristãos – ou seja, mais de 40% dos dois milhões incluídos no recenseamento de 2005, segundo a ONU.
Os cristãos da Síria temem um destino semelhante ao dos seus irmãos no Iraque, em risco de extinção. Muitos alinharam com o regime, para proteger os seus interesses económicos e religiosos, outros apoiaram a revolução de 2011 sem reservas, mas “a maioria evitou tomar partido, centrando-se na sua própria sobrevivência”, concluiu Georges Fahmi, investigador da Chatham House, em Londres, autor do ensaio The Future of Syrian Christians After the Arab Spring, publicado pelo European University Institute, em Florença, Itália.
Em 2011, numerosos jovens cristãos juntaram-se aos revolucionários logo no primeiro dia, em defesa de “um regime democrático baseado na liberdade, na justiça e nos direitos humanos”, assegura Fahmi.
Afinal de contas, foi o político e intelectual cristão Michel Lutfallah quem liderou as negociações para a independência da Síria, em 1919, e foi outro cristão, Fares Al Khoury, que ajudou a criar o movimento pan-árabe e secular que está na génese do moderno Estado sírio. Foi até agora o único cristão a assumir a chefia do governo, em 1944-45.
Na revolução de 2011, um dos mais importantes dissidentes cristãos foi Bassel Shehadeh, jovem cineasta de Damasco que largou os estudos no estrangeiro para ir a Homs filmar os protestos populares contra Bashar. Em Maio de 2012, o regime matou-o ao bombardear a cidade.
Outros cristãos foram mortos, presos e torturados. O padre Paolo Dall’Oglio, um jesuíta italiano que fundou a comunidade monástica Deir Mar Musa al-Habashi, na região de Damasco, foi expulso pelo regime e, em 2013, durante uma visita a Raqqa, para tentar libertar presos políticos do Daesh, foi raptado e nunca mais visto.
“Bashar al-Assad não protege os cristãos, pelo contrário, instrumentaliza-os, para se manter no poder”, acusa Samira Moubaied, católica nascida em Damasco, onde o avô chegou no início dos anos 30 do século XIX, deslocado à força do sandjak de Alexandretta (actual Hatay turco).
“O regime quer mostrar aos governos ocidentais que luta contra o terrorismo, mas ficou à vista de todos, na última década, o conluio entre o regime e grupos islamistas.”
“O regime finge que protege os cristãos, para poder legitimar a sua violência e os crimes cometidos contra o povo”, condena a vice-presidente da ONG Syrian Christians for Peace, lembrando que, depois da revolução, Assad manipulou as minorias para que não se juntassem aos rebeldes. “Os cristãos são considerados cúmplices do regime e, no entanto, são eles mesmo vítimas.”
Destacada activista da oposição, Samira Moubaied admite que, apesar dos crimes de Assad, este “continuou a ser apoiado pela maior parte dos líderes religiosos, pela simples razão de que quem nomeia os bispos na Síria é o regime”. Damasco, em cuja estrada o fariseu Saulo se converteu no apóstolo Paulo, permanece a sede dos patriarcados da Igreja Ortodoxa Siríaca e da Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia e de Todo o Oriente (a mais antiga das 11 denominações cristãs na Síria).
Ao contrário de outras comunidades religiosas, em particular os drusos e curdos, os cristãos sírios estão espalhados por todo país, embora a maioria habite em centros urbanos, como Damasco (onde se queixam da ameaçadora presença de milícias xiitas pró-iranianas), Homs, Hama, Latakia e Al-Hassakah, informa Georges Fahmi.
Embora Hafez e Bashar al-Assad, pai e filho, tivessem adoptado um “discurso secular”, certo é que “sempre trataram as instituições religiosas cristãs como sendo representativas da comunidade perante o regime político, seguindo o sistema de millet instaurado pelos turcos otomanos”.
Explica Fahmi: “Aos cristãos são concedidos determinados direitos e às igrejas liberdade e prerrogativas limitadas na gestão dos seus assuntos internos, em troca de lealdade total e aquiescência à privação dos seus direitos políticos e parte dos seus direitos cívicos.” Ou seja, o regime oferece aos líderes religiosos “algumas vantagens políticas e económicas”, mas “mantém-nos sob rígido controlo de segurança”.
“A grande questão que se coloca hoje à maioria dos cristãos sírios não é se devem alinhar com o regime ou com a oposição islamista, mas como sobreviver aos riscos que ambos representam”, realça Fahmi.
Em Paris, Samira Moubaied concorda: “O regime de Assad e os islamistas fazem parte do mesmo sistema, um sistema que já dominava a vida política, a vida social e a vida económica antes da revolução e que conduziu à situação catastrófica em que a sociedade hoje se encontra.”
“Os cristãos sírios, assim como todos os sírios que não pertencem a nenhuma daquelas correntes ideológicas enfrentam hoje múltiplos partidos radicais”, anota a autora do livro A Primeira Mártir Síria, onde documenta a história da sua tia Samira Joseph Moubaied, assassinada pelo regime de Hafez al-Assad em 1975, por ter ousado “expor os seus crimes”.
“Se queremos proteger os cristãos e a restante sociedade civil na Síria, é preciso construir um Estado de direito que garanta a segurança e a cidadania de todos, longe do domínio das correntes extremistas: militarismos, religiosos radicais, nacionalistas radicais ou esquerdistas radicais”, defende Samira Moubaied.
“Para restabelecer a confiança entre os vários grupos étnicos e religiosos é necessário começar por instaurar a harmonia confessional a nível local, porque as divisões e os conflitos variam entre as diferentes regiões da Síria. É necessário estabelecer um novo contrato social, longe das tensões entre as grandes potências. É urgente investir na educação e na tomada de consciência de que a prioridade é obter cidadania plena.”
(*) Salam Kawakibi, The Migration of Syrian Christians, Middle East Institute