As fronteiras onde morrem os sonhos

Pagam milhares de dólares a traficantes para trocar de vida, mas muitos acabam no fundo do mar ou expulsos à força, porque são migrantes indesejáveis numa Europa de “muros e arame farpado”. No Mediterrâneo, ou do canal que une a França ao Reino Unido até à floresta que separa a Bielorússia da Polónia, 2021 foi um ano dramático. O Papa Francisco apela a que se evite um “naufrágio das civilizações”. (Ler mais | Read more…)

“O mundo inteiro fala da Europa como um lugar calmo e agradável, mas que calma é esta quando [tantas] pessoas morrem no mar?” perguntou o pai de Maryam Nouri Mohamed Amin, uma das vítimas dos traficantes de refugiados no Mediterrâneo
© Middle East Monitor

(…) entendam /ninguém coloca os seus filhos num barco / a menos que a água seja mais segura do que a terra / (…) a casa é o tambor da arma / e ninguém sairia de casa / a menos que a sua casa tenha dito / mexe as pernas / deixa a roupa para trás / rasteja pelo deserto / vagueia pelos oceanos / afoga-te / salva-te (…) *

(“Home”, Warsan Shire)

Em Novembro, Maryam Nouri Mohamed Amin, 24 anos, deixou a casa da família em Soran, na região semi-autónoma curda do Norte do Iraque, na fronteira com a Turquia e o Irão. Ansiava juntar-se ao noivo, Muhammad Karzan, imigrante na Grã-Bretanha, e aqui iniciar uma nova vida.

A jovem que todos conheciam por Baran investiu as poupanças para arranjar um visto Schengen e fez a sua primeira viagem de avião, com paragens em Itália, na a Alemanha e em França. Aqui, supostamente na área de Dunquerque, a leste do porto de Calais, embarcou num minúsculo, frágil e sobrelotado bote, controlado por traficantes, para atravessar o Canal da Mancha.

Só no dia 24, é que Karzan foi informado de que Maryam ia ao seu encontro. Era uma surpresa. Seguiu-a por GPS enquanto trocavam mensagens pela aplicação Snapchat, segundo relatos dos media britânicos. A meio do caminho, quando a embarcação insuflável começou a perder ar e a ficar alagada, numa zona de ventos fortes e agitadas correntes marítimas, ela tranquilizou-o, dizendo-lhe que o socorro estaria a caminho. Os passageiros haviam levado números de emergência. Mas a ajuda veio tarde de mais.

Maryam e outras 26 pessoas – incluindo três crianças – morreram numa das piores tragédias no Canal da Mancha dos últimos anos. Sobreviveram apenas dois homens, um iraquiano e um somali.

Maryam Nouri Mohamed Amin, 24 anos, deixou a casa da família no Curdistão iraquiano, para se juntar ao noivo, Muhammad Karzan, imigrante na Grã-Bretanha. Não chegou ao destino
©https://metro.co.uk

Maryam tentara por duas vezes entrar legalmente no Reino Unido, mas a embaixada britânica “adiou” o seu processo, obrigando-a a procurar a rota ilegal, criticaram familiares ouvidos pela BBC. “O mundo inteiro fala da Europa como um lugar calmo e agradável, mas que calma é esta quando cerca de 30 pessoas morrem no mar?”, revoltou-se o pai. “É um pecado forçarem as pessoas a enfrentar estas situações.”

“Sentimos uma grande tristeza e uma fúria imensa”, declarou Laurent Giovannoni, responsável pelo departamento de acolhimento e direitos dos estrangeiros na organização francesa Secours Catholique. “A fúria é imensa em relação às autoridades francesas e inglesas, porque são elas os verdadeiros responsáveis por estes dramas. Ao tornarem insuportáveis a vida destes exilados, elas privam-nos de qualquer saída. Ao fazê-lo, são elas que, literalmente, empurram os migrantes para os braços dos traficantes. Estes são o resultado de uma política que bloqueia todas as saídas das pessoas.”

“Três factores conduziram ao impasse actual”, especifica Giovannoni no site da Secours Catholique, ONG que há vários anos presta auxílio a migrantes. “O primeiro são as condições de vida intoleráveis mantidas pelas autoridades [francesas] no litoral, através de uma política repressiva e policial, de assédio e expulsões diárias, conduzindo a um tratamento humano degradante. Um segundo obstáculo é a impossibilidade de os exilados terem acesso a um processo em França, devido aos Acordos de Dublin [os quais exigem que um requerente de asilo se registe no país pelo qual entrou na UE]”

“Sugerem-lhes acolhimento a 200 km de Calais, mas para quê, se não podem pedir asilo em França?”, adianta Giovannoni. “Manter os Acordos de Dublin é dizerem-lhes: não sois bem-vindos em França, partam! Mas eles não podem partir – e este é o terceiro bloqueio – porque a França aceitou ser a guarda de fronteira dos ingleses e impedir que as pessoas entrem legalmente na Grã-Bretanha. Sem uma solução legal, as pessoas correm todos os riscos.”

Refugiados no Sudão do Sul: ainda antes da guerra na Ucrânia [iniciada em Fevereiro de 2022] já mais de 82 milhões de pessoas haviam sido obrigadas a fugir das guerras e conflitos nos seus países
© https://www.nrc.no

Entre Janeiro e Novembro de 2021, entre 25 mil e 31 mil pessoas tinham feito a travessia de barco da França para o Reino Unido, mais do triplo em relação às 8404 em 2020, ano em que o fluxo migratório diminuiu, em grande medida devido à pandemia de covid-19, segundo estatísticas dos dois países.

Nos botes dos traficantes seguem iranianos, iraquianos, sírios, afegãos, tajiques, kuwaitis, turcos, palestinianos, egípcios, eritreus, sudaneses (do Norte e do Sul), iemenitas, guineenses, malianos, chadianos, somalis, nigerinos, líbios e albaneses. Fogem de guerras, da insegurança alimentar, de perseguições (porque são dissidentes políticos ou homossexuais), do serviço militar obrigatório…

Tal como aconteceu com a jovem Baran, também para o compatriota Zaid Ramadan, de 23 anos, foi a ausência de futuro, para si e a sua mulher, Delin, grávida do primeiro filho, que o levou a arriscar tudo por uma “vida digna”, na Alemanha.

Embora o Curdistão iraquiano, rico em petróleo, seja relativamente próspero e estável, a realidade é que, nos últimos anos, têm aumentado o nepotismo (a região é governada por duas famílias: os Barzani em Erbil e Dohuk; os Talabani em Sulaymaniyah), a repressão e a corrupção. Uma crise económica reduziu os salários da função pública e aumentou o desemprego, sobretudo de jovens. Muitas famílias têm vindo a vender as suas casas, carros e outros bens, para pagarem a traficantes e poderem chegar à União Europeia.

Uma mãe e o seu filho, refugiados oriundos da cidade curda de Kobani, na Síria, percorrem o acampamento de tendas erguido em Sanliurfa, na fronteira com a Turquia, um dos países envolvidos num conflito que se arrasta desde 2011
© Gokhan Sahin | Getty Images

Zaid Ramadan, filho de um professor e de uma enfermeira, com duas irmãs dentistas que nunca entraram no mercado de trabalho, jamais conseguiu um emprego que não fosse precário, mas fez de tudo, de servente na construção civil a taxista, reportou a agência Associated Press.

Este ano, vencida a relutância da mulher, Ramadan deixou para trás a montanhosa província natal de Dohuk, numa viagem perigosa e onerosa (pagou 10.000 dólares a um traficante), e chegou à Bielorússia, onde o ditador Alexander Lukachenko facilitou a atribuição de vistos, servindo-se dos migrantes para se vingar das sanções impostas pela UE após a sua contestada vitória eleitoral em 2020. Rapidamente, Zaid e Delin viram os sonhos desfeitos.

Na densa e gélida floresta junto à fronteira com a Polónia, o casal juntou-se a centenas de outros migrantes, a maioria provenientes do Iraque e da Síria, Estados dilacerados por guerras e outros conflitos. As redes de contrabando proliferam no Curdistão, sobretudo desde que a queda dos preços do petróleo deixou o governo regional em “situação de insolvência”.

Os Ramadan acreditaram nas falsas promessas de um traficante de que chegariam sem dificuldades ao destino desejado, mas as autoridades polacas – que mobilizaram milhares de soldados, ergueram uma vedação de arame farpado e iniciaram a construção de um muro de 180 km para travar a passagem de migrantes e refugiados pelo país – expulsaram-nos (um acto ilegal segundo a lei internacional) para Minsk e obrigaram-nos a embarcar num voo de repatriamento para Dohuk. “Tenho o coração partido, voltei à estaca zero”, lamentou Zaid, em declarações à AP.

Migrantes vindos do Médio Oriente concentraram-se perto de Grodno, na fronteira da Bielorússia com a Polónia em Novembro de 2021: foram usados pelo regime em Minsk como “arma contra a União Europeia”, mas as autoridade de Varsóvia fecharam-lhes as portas
© Leonid Shcheglov | BelTA via AP Photo | Al Jazeera

A restritiva política da Polónia e a acção violenta das suas forças de segurança (pelo menos 13 pessoas morreram e muitas outras foram feridas) têm sido contestadas por activistas cristãos que se mobilizaram, tal como a Secours Catholique em Calais, para impedir que os migrantes, agora menos do que em Novembro, morram de frio, de fome ou de doença na floresta onde muitos se esconderam. Oferecem-lhes uma sopa quente ou um agasalho, assistência médica ou ajuda no preenchimento de formulários de pedidos de asilo, carregam-lhes as baterias dos telemóveis, confortam-nos com palavras amigas.

“As nossas acções são consideradas um crime, mas lembramo-nos da lição do Papa Wojtyla [João Paulo II], de que precisamos de um coração grande, e seguimos o caminho da desobediência civil legal”, disse Wiktor Jarocki, membro de uma associação católica em Krynki, citado pelo site Vatican News.

No Mediterrâneo Central, que a ONU descreve como “a rota migratória mais mortífera” para a Europa, o drama humano é ainda mais pungente. Desde 2014, estima-se que ali perderam a vida 22.653 pessoas. Em 2021, entre Janeiro e Setembro, terão morrido 1369 (mais do que as 984 em 2020).

Teme-se que o número seja superior porque muitos naufrágios são “invisíveis” ou não são registados. Entre 2014 e 2018, por exemplo, cerca de 12 mil pessoas que se afogaram nunca foram encontradas; em 2019, a vasta maioria dos que se afogaram não foi identificada, pelo nome ou país de origem.

Sudão: Mais de 900 refugiados da Etiópia fazem fila para receber ajuda do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) depois de fugirem da sua aldeia de Basunga, num país onde a guerra parece não ter fim
© news.un.org

Nos primeiros nove meses de 2021, pelo menos 80.680 pessoas tentaram a travessia do Mediterrâneo (previa-se que o pico seria em Novembro e Dezembro), mais do que as 62.799 durante todo o ano de 2020). Estes migrantes são sobretudo líbios, mas também sudaneses, eritreus, somalis e chadianos. Entre eles estão grávidas e crianças. Muitos são detidos e expulsos em condições degradantes. No regresso forçado, são capturados por traficantes, vendidos e escravizados.

“O Mediterrâneo continua a ser um cemitério sombrio sem lápides”, lamentou o Papa Francisco durante uma visita, em 5 de Dezembro, ao campo de Mavrovouni, na ilha grega de Lesbos, onde cerca de 2200 migrantes e refugiados – um terço dos quais crianças – continuam a viver no mais abjecto desamparo.

Mavrovouni substituiu o sobrelotado e miserável campo de Mória, destruído por um incêndio em 2020. Há cinco anos, inesperadamente, quando mais de um milhão de pessoas entraram na Grécia vindas da Turquia, principal ponto de passagem, Francisco levou de Lesbos para o Vaticano 12 refugiados sírios, três famílias muçulmanas, que viajaram no seu avião para serem acolhidas pela Comunidade de S. Egídio. O gesto solidário não parece ter inspirado os líderes europeus, que optaram por uma “era de muros e arame farpado”.

A Grécia, cuja presidente, Katerina Sakellaropoulou, acompanhou o Papa no encontro com os refugiados em Mavrovouni, construiu recentemente uma longa muralha de aço na fronteira com a Turquia, e intercepta os barcos que transportam migrantes. Atenas desmente as alegações de que conduz deportações sumárias, mas grupos de direitos humanos têm documentado esse tipo de situações.

De visita ao campo de refugiados de Mavrovouni, na ilha grega de Lesbos, o Papa Francisco apelou ao mundo para enfrentar este drama humano com respeito e criticou as nações europeias por não praticarem os valores que promovem
© Guglielmo Mangiapane | Reuters | The New York Times

Mavrovouni é um centro temporário até ser erigido outro, “fechado e controlado”, à semelhança dos que já existem nas ilhas de Samos, Leros e Kos. Para a Amnistia Internacional, estes “campos de detenção”, financiados pela União Europeia, constituem “uma violação dos compromissos assumidos por Atenas para conceder protecção internacional a quem necessita.”

“Temos de admitir que este país [a Grécia), tal como outros, continua sob grande pressão, e que na Europa há quem persista em tratar o problema como se não lhe dissesse respeito”, destacou Francisco. “É angustiante ouvir propostas para que fundos comuns sejam usados para construir muros como uma solução. Não é erguendo muros mais elevados que se resolvem os problemas ou se melhora a coexistência, mas unindo forças para cuidarmos dos outros.”

“É fácil chamar a atenção da opinião pública instilando o medo dos outros”, adiantou o pontífice. “No entanto, não falamos com igual veemência sobre a exploração dos pobres; sobre as guerras, raramente mencionadas, mas frequentemente bem financiadas; sobre os acordos secretos que favorecem a proliferação dos negócios de armamento [a França acaba de firmar o seu mais valioso contrato de Defesa – 18 mil milhões de euros -, para a venda de caças e helicópteros de combate aos Emirados Árabes Unidos – país acusado de envolvimento em crimes de guerra no Iémen, na Líbia e na Etiópia].”

O que deve ser atacado, recomendou Francisco, é “as causas remotas [das migrações], não as pessoas pobres que pagam as consequências e são usadas para propaganda política”. Não basta improvisar soluções de emergência. São necessárias “acções coordenadas”.

“Não permitamos que o mare nostrum [nosso mar] se transforme num desolado mare mortuum [mar de morte]. Não deixemos que este local de encontro se transforme em teatro de conflito. Não permitamos que este ‘mar de memórias’ se torne num ‘mar de esquecimento’. Por favor, vamos parar com este naufrágio de civilizações”.

* (…) you have to understand, / that no one puts their children in a boat / unless the water is safer than the land / (…) home is the barrel of the gun /and no one would leave home / unless home chased you to the shore / unless home told you / to quicken your legs / leave your clothes behind / crawl through the desert / wade through the oceans / drown / save (…)

Warsan Shire, filha de pais somalis, nasceu no Quénia e vive em Londres. É poeta, escritora, editora e professora. Estes versos, aqui numa tradução livre, fazem parte da obra Conversations about home (at a deportation centre), que ela escreveu em 2009, depois de uma visita ao edifício abandonado da Embaixada da Somália na capital britânica que alguns jovens refugiados ocuparam para viver.
No Mediterrâneo Central, a ONU descreve a rota migratória como “a mais mortífera” para a EuropaDesde 2014, estima-se que ali perderam a vida 22.653 pessoas. Em 2021, entre Janeiro e Setembro, terão morrido 1369 (mais do que as 984 em 2020)
© msf.org

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Janeiro de 2022 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, January 2022 edition

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