Madagáscar: Primeira grande vítima das alterações climáticas

A ilha a que os portugueses chamaram São Lourenço tem uma das menores pegadas carbónicas do mundo, mas está à beira de uma “fome de proporções bíblicas” causada pelo aquecimento global. Uma seca sem precedentes desde há quatro décadas e tempestades de areia que destroem as colheitas, em conjunto com o impacto económico da Covid-19, deixaram ainda mais pobre um dos países mais belos. (Ler mais | Read more…)

Voromasy Justine, camponesa de 48 anos, e os seus sete filhos abandonaram a aldeia de Androhondroho, na comuna de Ambanisarika, no Sul de Madagáscar, em busca de água e alimentos. Não podiam continuar a comer “pasta de tamarindos com argila, cactos cozidos e até gafanhotos”.

Tal como Voromasy, cuja história me foi contada, por telefone, com a ajuda de Lahaflorentin Razafindratsilizy, tradutor no centro do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas, na cidade de Ambovombe, também outros 200 habitantes da sua aldeia, não podendo cultivar o que habitualmente comem e vendem nos mercados locais, empreenderam uma penosa caminhada em busca da sobrevivência.

Madagáscar, vizinho de Moçambique, na costa oriental de África, é um Estado de beleza rara, com um eco-sistema único, mas é também um dos mais pobres do mundo.

Cerca de 75% dos seus quase 27 milhões de habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza (menos de 1,90 dólares por dia, segundo o Banco Mundial), e a região conhecida como “Grande Sul” é a mais carenciada do país (90%). Ou seja, 9 em cada 10 pessoas nas áreas afectadas por uma seca sem precedentes nas últimas quatro décadas, já viviam na miséria.

Num continente que emite as taxas mais baixas de CO2 per capita, a ilha a que navegadores portugueses deram o nome de São Lourenço, quando ali chegaram em 1500, é o primeiro país do mundo onde a insegurança alimentar e a fome são consequências das alterações climáticas e não de conflitos. Pelo menos um quarto dos seus 25 milhões de habitantes vive em áreas altamente propensas a ciclones, cheias e secas.

© Associated Press | dailysabah.com

Para enfrentar uma crise que afecta 1,1 milhões de malgaxes – número que, nos próximos meses, poderá subir para 1,3 milhões – e evitar “uma fome de proporções bíblicas”, o PAM, maior agência humanitária do mundo, Prémio Nobel da Paz em 2020, pede 150 milhões de dólares (mais de 125 milhões de euros).

À semelhança de Voromasy, também Rengee Pâquerette, 38 anos e 8 filhos, da aldeia de Mitsangana, a sua vizinha Honorette, 42 anos e dez filhos, e Fetee, de 60 anos e oito filhos, da povoação de Tsiragonty, se juntaram a centenas de deslocados internos. Rengee e Honorette não sabem quantos moradores ficaram para trás. Fetee estima que pelo menos 40 abandonaram Tsiragonty.

Estas quatro mulheres e suas famílias foram acolhidas pela missão das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo em Berary, bairro de Ambovombe. As freiras católicas assumiram “os custos da alimentação, saúde e educação das crianças”, realça o tradutor Lahaflorentin. O PAM crê que pelo menos 3000 pessoas estarão a receber ajuda de religiosas católicas, que repetidamente, mas em vão, tentámos contactar para que dessem o seu testemunho.

“Se as chuvas vierem para poder cultivar as terras” Voromasy, Rengee, Honorette e Fetee tencionam regressar e “retomar a vida normal”. Têm esperança de que a próxima estação de sementeira e plantio, em Novembro-Dezembro, seja abençoada pela chuva, para poderem salvar as colheitas de Março-Abril de 2022.

“Imaginem uma região de 80 mil km2, o dobro da área da Suíça, que já era paupérrima em termos de nutrição, educação, saúde, infra-estruturas, e que agora está a ser castigada por secas crónicas”, diz-me Arduino Mangoni, director-adjunto do PAM-Madagáscar, em entrevista telefónica a partir de Antananarivo, a capital. “E não é só a seca mais intensa desde a que foi causada pelo fenómeno climático El Niño em 2016 [que destruiu 80% das colheitas e já deixara 1,1 milhões de habitantes em pobreza extrema].”

“Há ainda tempestades de areia [que podem durar 8 horas], arrastadas por ventos fortes que cobrem terras já amanhadas num raio de 30 km; há grupos de bandidos a aproveitar-se da crise; e há o impacto da Covid-19, que fez perder muitos empregos sazonais na indústria do turismo.”

© UNICEF

Nas suas regulares visitas ao terreno, Mangoni encontrou muitas pessoas como Voromasy, Rengee, Honorette e Fetee, em “situação de catástrofe”, isto é, que “já esgotaram as estratégias de resposta à crise” – fase 5 na escala da insegurança alimentar. Pessoas sem sementes para deitar à terra, nem dinheiro para as comprar, forçadas a alimentar-se de “folhas, raízes e insectos”, obrigadas a migrar das aldeias de origem, “pois não lhes resta nada”.

“Venderam as terras, as casas e até os utensílios da cozinha”, salienta Mangoni. “Pela nossa experiência, quando uma mulher vende as suas panelas, isso significa que já nada lhe sobeja na aldeia onde vive com a família. São pessoas que perderam a esperança de sobreviver.”

“Muitas mudaram-se para a costa, em particular Ambovombe e outras cidades maiores”, acrescenta o responsável do PAM, especificando que as áreas mais atingidas são Androy, Anosy e Atsimo Andrefana, três regiões com dez distritos (Ambovombe-Androy, Bekily, Beloha, Tshihombe; Amboasary-Atsimo, Betroka, Taolagnaro; Ampanihy Ouest, Betioky Atsimo, Toliara 2).

Nas suas deslocações, Mangoni ficou chocado ao ver “em pele e osso uma muito elevada percentagem de crianças e adolescentes, mas também adultos”, algo que, nos seus 20 anos ao serviço de uma organização que alimenta, em média, por ano, 90 milhões de pessoas em 80 países, ele jamais havia encontrado.

© UNICEF | UN0496500 | Andrianantenaina

“Nunca testemunhei nada assim, crianças e adultos, incapazes de falar, de comunicar, por estarem demasiado fracos, devido à insegurança alimentar e à desnutrição. Nem na República Democrática do Congo [onde há 27,3 milhões de pessoas a necessitar de comida], na República Centro-Africana [onde 47% da população, mais de 2,2 milhões, vive em insegurança alimentar] ou no Sudão do Sul [onde, diariamente, 7 milhões de pessoas têm dificuldade em encontrar sustento].”

“Parte-nos o coração ver, nos centros de saúde para os severamente desnutridos, centenas de miúdos em silêncio”, confessa Mangoni. “Tenho uma filha de três anos e sei que, quando pomos numa sala duas ou três crianças, o barulho pode ser ensurdecedor. Mas ali, havia um silêncio esmagador.”

“Também fiquei sensibilizado ao ver adolescentes, em especial raparigas de 14-15 anos, muito baixinhos e pequeninos. Uma em cada duas crianças no Sul de Madagáscar sofre de stunting [termo que designa uma espécie de nanismo; altura abaixo da média] – o que causa danos irreversíveis, física e mentalmente.”

“Vi diferentes gerações, avós, mães e filhos, todos na mesma aldeia, em pele e osso. Quando vemos adultos assim, é porque a segurança alimentar foi duramente afectada. Sem uma grande intervenção, será difícil salvar estas vidas.”

“É certo que a situação de insegurança alimentar no Sul de Madagáscar não se compara à do Iémen [24 milhões de pessoas], à do Afeganistão [11 milhões] ou à da Síria [9 milhões]”, reconhece Mangoni. “Ainda assim, estas pessoas precisam de assistência já, neste momento.”

“Em termos de desnutrição aguda das crianças, os números quadriplicaram desde o final de 2020, de 130 mil para meio milhão, e as projecções são as de que vão continuar a aumentar até Abril de 2022. Quero frisar que esta crise não é causada por nenhum conflito.”

© World Food Programme (WFP) | Shelley Thakral 

Se todos reconhecem que Madagáscar, com uma das mais baixas pegadas carbónicas, é vítima de “injustiça climática”, alguns culpam também “a negligência das autoridades” em relação ao Sul, descrito como “um cemitério de projectos”.

Uma região onde 7 em cada 10 pequenos agricultores detêm apenas 1,2 hectares de terra. Uma região que depende de dois rios – o Mandrare, que atravessa Anosy, e o Onihaly, que flui por Atsimo Andrefana. Uma região onde os sistemas hidrográficos se centram em poços ou furos, que “mal servem para matar a sede ao gado e menos ainda para irrigar uma agricultura de subsistência”, segundo a ONG local Bel Avenir.

“Na origem da kéré [fome] não estão as alterações climáticas”, assegura, numa entrevista à revista parisiense L’Express, Ga­ëlle Borgia, jornalista franco-malgaxe que há dez anos vive na Grande Ilha.

“Esta situação é cíclica desde há mais de um século. As alterações climáticas, assim como a deflorestação maciça e a ausência de políticas, só agravaram a amplitude da crise, criando fenómenos que não existiam antes, como as tiomena [tempestades de areia], porque não há árvores para servirem de corta-vento.”

“A fome deve-se a políticas de desenvolvimento ineficazes, à falta de vontade política e ao abandono de uma região desertificada”, acrescenta a repórter do jornal The New York Times, que filmou deslocados internos desesperados a comer pele de sapatos, em Ambovombe.

“Não há estradas dignas deste nome, não há infra-estruturas para que as populações tenham acesso à água nas zonas rurais, não há centros de saúde e hospitais devidamente equipados. Esta fome é o resultado das políticas de sucessivos governos. (…) É difícil compreender o quão pouco se avançou, ou o quanto se regrediu, desde a independência em 1960.”

© Rijasolo | AFP

“Na sua base, o Sul é fértil, e esta fome era evitável”, garante Ga­ëlle Borgia, premiada com um Pulitzer por uma investigação sobre a ingerência russa nas eleições presidenciais em Madagáscar em 2018.

“As regiões de Anosy e Androy são prósperas e têm um grande potencial agrícola, turístico e haliêutico [arte da pesca], com produtos locais de valor acrescentado. Para mim, é a mais bela região de Madagáscar, com paisagens de cortar a respiração. Aqui, toda a gente é um artista. Têm uma cultura imensamente rica e generosa.”

“Há uma responsabilidade colectiva pela crise alimentar, porque, apesar da presença de várias ONG e dos fundos dos doadores, os resultados são quase invisíveis”, critica. “A corrupção e o banditismo são factores agravantes.”

Arduino Mangoni concede: “Há um acesso limitadíssimo à água, que é escassa; as estradas são poucas e más; as escolas são poucas e más; os centros de saúde são poucos e sem qualidade”. Mas anota: “Não é fácil, nem sequer para o governo, fazer mudanças estruturais para que a população local se desenvolva e floresça, porque é mesmo duro sobreviver nesta vasta região, de camponeses e pastores, em particular quando não há chuvas.”

“Salvar vidas” é o objectivo imediato do PAM. “Temos de garantir que as pessoas terão comida suficiente até às próximas colheitas”, enfatiza Mangoni. “Há duas linhas de trabalho que devem andar em paralelo: ajuda de emergência e a dimensão da resiliência a longo prazo, apoiando o governo.”

© UNICEF

A situação exige uma resposta urgente. Se a seca fustigou o Sul de Madagáscar, todo o país foi vítima da Covid-19. Segundo o Banco Mundial, há agora mais 1,3 milhões de malgaxes na pobreza devido à pandemia. “Quando passamos por pequenas estâncias turísticas ao longo da costa, reparamos que a maioria dos hotéis está encerrada”, refere Mangoni.

“Quase todos os voos internacionais foram cancelados. Os turistas não chegam a um país que vive muito do turismo. E também não tem sido fácil a entrada de pequenas organizações não governamentais, como os Médicos Sem Fronteiras [MSF] ou Action Contre la Faim [Acção Contra a Fome], que não conseguem mobilizar as suas equipas. Até a ONU tem dificuldades.”

O Banco Mundial constatou que os alimentos escasseiam e que os preços aumentam na maioria dos distritos. O que mais falta nos mercados é o arroz produzido localmente. Nas comunas de Efoetse e Beheloaka, em Tulear II, por exemplo, o preço de 1kg de arroz subiu mais de 20%. A inflação fez-se sentir também nos preços do grão de milho, mandioca seca ou óleo importado, que são produtos básicos.

“A resposta multisectorial da comunidade internacional começou a chegar no outono de 2020”, informa o responsável do PAM. “No entanto, se olharmos para as projecções da IPC [sigla inglesa da Classificação Integrada de Fases, que descreve as cinco etapas da severidade das emergências alimentares], temos de admitir que não conseguimos reverter as tendências em termos de segurança alimentar e nutrição.”

“Tem havido um agravamento da situação. Os recursos existentes só nos permitiram intervir com metade das rações, o que é irrisório. Precisamos de mais. Nas fases 3, 4 e 5 da IPC, há 1,3 milhões de pessoas a precisar de ajuda alimentar. E temos de ajudar todos os miúdos com desnutrição aguda e severa.”

Em 2015, com a Declaração de Paris na COP21, Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, os Estados mais ricos concordaram em ajudar os países em desenvolvimento com 100 mil milhões de dólares (cerca de 85 mil milhões de euros) por ano, mas os dados mais recentes, de 2018, indicam que ainda estão longe de cumprir esse objetivo.

Retrato da “Ilha de São Lourenço”

© Marcus Westberg | The New York Times
  • Arquipélago situado no Oceano Índico, 450 km a leste da costa de Moçambique, a República de Madagáscar ou Repoblikan’i Madagasikara ocupa a maior ilha do continente africano e a quarta maior do mundo (depois da Gronelândia, da Nova-Guiné e do Bornéu), além de várias ilhas periféricas menores. A principal cidade e capital é Antananarivo.
  • Navegadores portugueses da armada de Pedro Álvares Cabral deram a Madagáscar o nome de “Ilha de São Lourenço” quando aqui chegaram, provavelmente em 10 de Agosto de 1500, mas só se pode dizer que a “descobriram relativamente”, anota Luís Filipe Thomaz, historiador da Universidade Católica de Lisboa. “Há muito que a ilha era conhecida de árabes e até da Europa cristã”, graças aos relatos do mercador e explorador veneziano Marco Polo. Os portugueses chegaram à ilha quando a nau de Diogo Dias (irmão de Bartolomeu Dias), depois de, “sem se aperceber, ter dobrado a Cabo da Boa Esperança, se perdeu e foi parar à costa da Somália, avançando de seguida até à entrada do Mar Vermelho”. Segundo o cronista Gaspar Correia, citado por Thomaz, Diogo Dias “acreditava estar na costa de Moçambique, mas, na realidade, já percorria a costa oriental de Madagáscar, e só se deu conta disso quando atingiu a sua extremidade setentrional”.
  • Madagáscar, com um território maior do que a França, a antiga potência colonial, tem quase 27 milhões de habitantes, que pertencem a vários grupos étnicos, de origens malaio-indonésias, árabes e africanas.  
  • Publicado em 1993, o último recenseamento oficial indica que 52% da população malgaxe é animista (crenças locais), 41% cristã e 7% muçulmana, embora o relatório International Religious Freedom de 2017 estime que os muçulmanos representem agora 20 a 25%.
© CNS | Paul Haring
  • O Cristianismo entrou em Madagáscar no século XVI, pela mão de padres católicos dominicanos, seguidos por jesuítas e lazaristas. No século seguinte, chegaram os missionários de São Vicente de Paulo. Este esforço de evangelização foi interrompido em 1673, após o assassínio de todos os missionários franceses. Só na segunda metade do século XIX, particularmente após a conversão de Ranavalona II em 1869, é que cessaram as perseguições contra os cristãos. Actualmente, a Igreja Católica conta com o trabalho, sobretudo no campo da educação, saúde, caridade e promoção humana, de numerosas congregações religiosas: jesuítas, dominicanos, salesianos, lassalistas, lazaristas, espiritanos, maristas, as Irmãs de Cluny, as carmelitas, as Missionárias Franciscanas de Maria. Os católicos têm 22 circunscrições eclesiásticas, 438 paróquias, 25 bispos, 1747 sacerdotes, 735 religiosos, mais de 5000 religiosas professas, 133 membros de institutos seculares, 1703 leigos e 14 395 catequistas (dados de 2019). O Episcopado malgaxe integra, juntamente com os luteranos, anglicanos e reformados, o Conselho das Igrejas Cristãs de Madagáscar (Ffkm), partilhando “o compromisso com a pacificação e reconciliação nacional”, mas também “os novos desafios” colocados pela proliferação de seitas neo-pentecostais e “o crescimento do Islão, financiado pela Arábia Saudita, Turquia e Paquistão”. (Fonte: Vatican News)
  • Com duas línguas oficiais (o malgaxe e o francês), Madagáscar é conhecida como “Grande Ilha Vermelha”, “Ilha do Arco-Íris” ou “Oitavo Continente”. É uma das nações com maior diversidade de fauna e flora do mundo, possuindo milhares de espécies que não se encontram em nenhuma outra parte da Terra. É uma realidade que se deve ao facto de se ter mantido isolada durante 88 milhões de anos (a vida humana existe aqui apenas há 1300 anos).
  • Em 2019, o país ocupava o 164º lugar entre os 189 que constam do Índice de Desenvolvimento Humano. A economia assenta na agricultura (24% do PIB em 2017); na pecuária (60% das famílias rurais dependem desta actividade); na pesca (de subsistência, comercial e desportiva); nas florestas (em 2015, ocupavam quase 21,44% da área terrestre, mas essa percentagem tem vindo a decair acentuadamente); e nos recursos minerais (especialmente, ouro, manganês e cobre).
© Marcus Westberg | The New York Times
  • Outra fonte de receitas de Madagáscar é o turismo. Em 2019, antes da pandemia de Covid-19 ter deixado a sociedade malgaxe com mais 1,3 milhões de pobres, pelo menos 375 mil estrangeiros visitaram a ilha, contribuindo com 900 milhões de dólares (mais de 750 milhões de euros) para a economia nacional. “Estes números só parecem modestos”, observou a revista The National Geographic, “se não tivermos em conta que cada turista gastou em média 3000 dólares num país onde 75% da população vice com menos 1,90 dólares por dia”.
  • Desde que se tornou independente da França, em Junho de 1960, a antiga República Malgaxe, tem enfrentado várias crises políticas, incluindo golpes de Estado (o último em 2009), protestos violentos, um regime de partido único, ameaça de secessão, eleições contestadas… Vive agora a “Quarta República”.
  • Em Janeiro de 2019, o empresário Andry Rajoelina assumiu a chefia do Estado, esperando pôr fim a “uma década de turbulência” que começou com o afastamento do presidente Marc Ravalomanana em 2009. O diferendo entre ambos remonta a esse ano, quando Ravalomanana demitiu Rajoelina do cargo de presidente da câmara de Antananarivo. Rajoelina encabeçou então uma revolta militar e popular que forçou o predecessor ao exílio, e passou a dirigir um governo interino, sujeito a sanções internacionais. Só em 2014 foi possível “acomodar os campos políticos rivais”. Em eleições presidenciais em 2018, Rajoelina derrotou os outros 2 candidatos: Rajaonarimampianina e Ravalomanana. Nas legislativas do ano seguinte, o seu partido conquistou a maioria absoluta – 84 dos 151 lugares – no Parlamento.

 Os números da fome

© World Food Programme (WFP) | Tsiory Andriantsoarana

Conflitos, crises económicas agravadas pela Covid-19 e alterações climáticas extremas aumentaram a insegurança alimentar em 2020, e 2021 será igualmente um “ano difícil”. O objetivo de erradicar a fome até 2030 parece cada vez mais inatingível. É o que dizem dois relatórios, um da Rede Mundial contra as Crises Alimentares, aliança que integra a FAO, a União Europeia e PAM, e outro da UNICEF.

  • Quase um décimo da população mundial – entre 720 e 811 milhões de pessoas – passaram fome em 2020, ou seja, “entre 118 e 181 milhões mais do que em 2019”, segundo The State of Food Security and Nutrition in the World (“Estado da Segurança e Nutrição Alimentar no Mundo”, da UNICEF.
  • Os números revelam “desigualdades regionais preocupantes”: uma em cada cinco pessoas (21% da população) passou fome em África – mais do dobro de qualquer outra região. E isto representa um aumento de 3 pontos percentuais num só ano. Segue-se a América Latina e as Caraíbas (9,1%) e a Ásia (9,0%), com aumentos de 2,0 e 1,1 pontos percentuais, respectivamente, entre 2019 e 2010, refere o Fundo das Nações Unidas para a Infância.
  • Mais de metade dos 768 milhões de desnutridos do mundo  vive na Ásia (418 milhões) e mais de um terço em África (282 milhões), enquanto a América Latina e as Caraíbas representam 8% ou 60 milhões, acrescenta a UNICEF. Em comparação com 2019, a fome afectou mais 46 milhões de pessoas em África, 57 milhões na Ásia e 14 milhões na América Latina/Caraíbas.
© trendingng.com
  • Novas projecções indicam que cerca de 660 milhões de pessoas continuarão a passar fome em 2030, em parte devido aos efeitos duradouros da pandemia sobre a segurança alimentar global, ou seja, mais 30 milhões do que num cenário sem Covid-19.
  • Em 2020, quase uma em cada três pessoas no mundo (2370 milhões) não teve acesso adequado a alimentos – uma subida de quase 320 milhões num só ano. Cerca de 12% da população global estava em situação de insegurança alimentar severa, representando 928 milhões, ou seja, mais 148 milhões do que em 2019.
  • Estima-se que, o ano passado, 22% ou 149,2 milhões de crianças com menos de 5 anos de idade tivessem sofrido atrasos no crescimento e que 6,7% ou 45,4 milhões definharam – números que deverão aumentar em consequência da pandemia. A maioria das crianças desnutridas vive em África e na Ásia.
  • No seu detalhado relatório sobre 2020, a Rede Mundial contra as Crises Alimentares salienta, por seu turno, que 155 milhões de pessoas em 55 países/territórios estavam em situação de “crise” alimentar, “pior ou equivalente” – um aumento de 20 milhões em relação a 2019. Deste total, 66% vivem na República Democrática do Congo (21,8 milhões), no Iémen (13,5 milhões), no Afeganistão (13,2 milhões), na Síria (12,4 milhões), no Sudão (9,6 milhões), no Norte da Nigéria (9,2 milhões), na Etiópia (8,6 milhões), no Sudão do Sul (6,5 milhões), no Zimbabwe (4,3 milhões) e no Haiti (4,1 milhões).
© Al Jazeera
  • Em três países, mais de metade da população está em situação de “crise, pior ou equivalente”: a Síria (60%), o Sudão do Sul (55%) e a República Centro-Africana (51%).
  • Mais de 28 milhões em 38 países/territórios estavam em situação de “emergência”, necessitando de ajuda urgente para salvar vidas e meios de subsistência. Outras 133 mil encontravam-se em situação de “catástrofe”, em particular no Burkina Faso, no Sudão do Sul e no Iémen.
  • Pelo menos 65% dos 46 milhões de deslocados internos em 2020 viviam na República Democrática do Congo, no Iémen, no Afeganistão, no Sudão, no norte da Nigéria, na Etiópia e no Sudão do Sul.
  • Dos 30,5 milhões de refugiados e requerentes de asilo em todo o mundo, 38% eram originários de três países em situação de crise alimentar: a Síria, o Afeganistão e o Sudão do Sul.
  • Para 2021, em grande medida devido a conflitos, mas também às repercussões económicas da Covid-19, às alterações climáticas e outras ameaças transfronteiriças, como pragas de gafanhotos, prevê-se que 142 milhões de pessoas fiquem em situação de “crise, pior ou equivalente” em pelo menos 40 países. Em dois deles, 155 mil pessoas deverão enfrentar o estado de “catástrofe”: Sudão do Sul (108 mil) e Iémen (47 mil).

Relatório do IPCC

“Alerta vermelho à humanidade”

© olsonfarlow.com

É “inequívoco” que o aquecimento da atmosfera, do oceano e a da terra – sem precedentes pelo menos nos últimos 2000 anos –, se deve a actividades humanas, assegura a maior autoridade mundial em ciência climática. Algumas mudanças extremas já se tornaram “inevitáveis” e “irreversíveis”.

Até meados deste século, as temperaturas podem aumentar mais de 1,5ºC, acima dos níveis pré-industriais, o que irá causar maior devastação – a menos que, nesta década, já e rapidamente, se controlem as emissões dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa (GEE).

Este “alerta vermelho à humanidade”, como lhe chamou o secretário-geral da ONU, António Guterres, consta do mais recente relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla inglesa), divulgado em 9 de Agosto.

A situação é de uma tal gravidade que, sejam quais forem as medidas de contenção adoptadas doravante, se tornou impossível travar, por exemplo, o aquecimento e acidificação dos oceanos, a subida do nível médio do mar (de 2 a 3 metros em 2300, podendo chegar a 5-7 metros) ou o degelo do Ártico (que continuará por centenas a milhares de anos), destaca o relatório aprovado pelos 195 membros do IPCC.

Reduções drásticas nas emissões talvez evitem piores alterações, mas não farão com que se volte aos padrões climáticos mais moderados do passado.

© Munir Uz Zaman | AFP | Getty Images | The Washington Post

É a sexta avaliação do IPCC desde 1988, considerada “a mais abrangente e conclusiva”, totalmente centrada em provas científicas recolhidas e analisadas nos últimos oito anos – a divulgação foi adiada devido à pandemia de Covid-19. Em 2022, deverão ser apresentados outros dois documentos, sobre impactos e mitigação.

“É inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra”, garante, com “elevada confiança”, o IPCC. “Cada uma das últimas quatro décadas foi, sucessivamente, mais quente do que qualquer outra que a precedeu desde 1850. A temperatura global à superfície aumentou mais rapidamente desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos, pelo menos nos últimos 2000 anos.”

As projecções do IPCC são as de que a temperatura no solo continuará a aumentar mais rapidamente do que nos oceanos, sendo a subida mais rápida no Ártico, que poderá aquecer duas vezes mais do que a superfície global terrestre, com consequências terríveis para a sua camada gelada (permafrost). Nos cinco cenários considerados pelos cientistas do Painel, o Ártico arrisca-se a ficar sem gelo no mês de Setembro, pelo menos uma vez, até 2050.

A crise agravou-se desde o anterior relatório do IPCC, em 2013, que já previa, até 2100, uma variação do aumento global da temperatura entre 0,3º e 4,8ºC e agora aponta para 1,4º a 4,4ªC. Quanto à subida do nível da água, as projecções que eram de 18 e 50 centímetros, sobem para 28cm a 1,88 metros.

© TIME

“No pior cenário”, até 2100, pode ir a “quase dois metros”. Se em 2013, sempre comparando com valores pré-industriais, o IPCC estimava que a concentração na atmosfera de CO2, de CO4 (metano) e de N20 (óxido nitroso) aumentaria 40%, 150% e 20% respectivamente, agora calcula essa subida em 47%, 156% e 23%.

O CO2, o gás mais emitido pelos humanos (78%, através do uso de combustíveis fósseis – petróleo, carvão e gás natural), é o principal culpado pelo aquecimento global, mas o CO4 revela-se “um vilão” ainda mais perigoso.

Produzido pela decomposição de matéria orgânica (em aterros sanitários, lixeiras, hidro-eléctricas e na pecuária – que representa 16% das emissões de efeito estufa), mas também resultado da produção e distribuição de combustíveis fósseis, o metano tem um impacto sobre as alterações climáticas 20 vezes maior do que o dióxido de carbono – uma unidade de metano equivale a 20 de CO2.

Se não se limitar a subida da temperatura média a 1,5ºC – a meta estabelecida pelo Acordo de Paris de 2015 –, o mundo pode esperar o pior, avisa o IPCC:

© The Times

– Ondas de calor mortíferas (talvez piores do que as registadas no noroeste do Pacífico e no Canadá) e consequentes incêndios florestais (como os que devastaram regiões da Argélia, da Grécia ou da Turquia);

– Secas crónicas (como as que assolam Madagáscar, onde a destruição de colheitas deixou o país à beira da fome, e o oeste dos Estados Unidos da América);

– Inundações (que aumentaram 30%, como as que fustigaram a China e causaram quase 200 mortos na Alemanha e na Bélgica);

– Furacões (ventos acima dos 119km/hora, cada vez mais fortes ao chegar a terra, como os do Atlântico Norte. Um exemplo: em Novembro de 2020, em apenas 15 dias, o Eta e o Iota, de categoria 4, atingiram a costa da Nicarágua, arrasando propriedades, matando centenas de pessoas e deixando sem lar milhares de outras);

Whiplash do clima (oscilações violentas entre extremos secos e húmidos – como aconteceu na Califórnia, com inundações destrutivas num ano e seca extrema no ano seguinte; ou na Turquia onde, em Agosto, fogos vorazes consumiram mais de 100 mil hectares de terra no Norte e chuvas torrenciais alagaram várias províncias no Sul).

© ed Wood / Cavan

“Os sinais de alarme são ensurdecedores”, enfatizou o secretário-geral da ONU, para quem o relatório do IPCC “deveria soar como uma sentença de morte” para as emissões de gases de efeito estufa, provocadas por combustíveis fósseis e pela desflorestação, “antes que destruam o nosso planeta.” Em 2019, as emissões totalizaram “um recorde” de 34,1 milhões de toneladas.

António Guterres recomenda que a capacidade para as energias solar e eólica quadriplique até 2030, e que os investimentos em energias renováveis tripliquem, de modo a que “a trajectória de zero emissões seja mantida até meados deste século”. 

E acrescenta: “Devemos isso em especial às comunidades e nações mais vulneráveis e pobres, que são as mais atingidas pela emergência climática”.

Aos líderes mundiais que, em Novembro, se vão reunir na conferência do clima (COP26) em Glasgow, na Escócia, o apelo do ex-primeiro-ministro português é o de que “unam forças para podermos evitar a catástrofe climática”, pois, como “claramente” indicam os cientistas, “não há tempo e não há lugar para desculpas”.

Os mais poluidores

© esgclarity.com

A lista dos dez maiores emissores de CO2 é encabeçada pelas três nações mais industrializadas: China (9,8 milhões de toneladas), Estados Unidos da América (4,9 milhões) e Índia (2,4 milhões). Seguem-se a Rússia, o Japão, a Alemanha (que, dependendo muito do carvão, contribui com ¼ do total das emissões de CO2 de toda a União Europeia), o Irão, a Coreia do Sul, a Arábia Saudita e o Canadá.

Per capita, contudo, a Índia nem sequer faz parte da tabela dos dez maiores poluidores, que é liderada por três monarquias do Golfo Pérsico – Qatar, Kuwait e Arábia Saudita (sobretudo devido à fraca densidade populacional e ao domínio da indústria do petróleo) –, às quais se seguem o Canadá, os EUA, a Alemanha, a China, a Espanha, a França e a Tailândia.

Em termos de pegada ecológica, que cada vez mais se agrava (em 2019, o planeta Terra consumira a 29 de Julho todos os recursos naturais do ano, – “a data mais prematura de sempre” – não os conseguindo regenerar para acompanhar a procura do ser humano), a lista dos dez países com a mais baixa capacidade biológica inclui Singapura, Bermudas, Reunião, Israel, Barbados, Ilhas Caimão, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Chipre.

Portugal esgotou já os recursos naturais disponíveis para todo o ano de 2021, e desde 14 de Maio que começou a gastar os recursos de 2022, segundo a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável. Em 2020, o recursos foram esgotados a 25 de Maio, “o que indicia que, além de estarem a acelerar o consumo, os portugueses acumulam um saldo negativo ao longo dos anos.”

Se cada pessoa na Terra vivesse como um português médio, “a humanidade exigiria mais de dois planetas para sustentar as suas necessidades de recursos”.

Fontes: BP Statistical Review of World Energy 2020; Global Footprint Network; climate.selectra.com

© vaticannews.va | World Food Programme (WFP)

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro de 2021. These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2021 edition

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.