O meu voo LH 4544

No day after da aterragem forçada de um avião da Lufthansa com destino a Lisboa, eu estava a bordo e conto aqui a minha experiência no voo. (Ler mais | Read more…)

© PASCAL DOURY

© Pascal Doury

Tenho pena de não ter tido lições de aviação antes de viajar para explicar o que é uma bolsa de ar. Quando subimos, como que sugados, e descemos abruptamente, tudo à nossa volta parece um tufão, um remoinho.

Eu nunca tinha passado por uma experiência destas, e pensei que o avião iria despenhar-se. Mentalizei-me que iríamos morrer. Só queria que fosse rápido.

O que verdadeiramente se passou naquele voo 4544 da Lufthansa proveniente de Munique e destino a Lisboa terá várias versões. Cada um teve a sua sensação. Houve um silêncio quase sepulcral. Como se os gritos e as palavras tivessem secado na garganta.

Fiquei apavorada quando vi duas hospedeiras projectadas para o tecto do avião mergulharem depois de cabeça para baixo, como atletas numa queda descontrolada após um salto de trampolim.

Não vi o carro da comida erguer-se no ar – como me relatou o [então] presidente da Assembleia da República, Jaime Gama -, mas vi a comida espalhada pela zona de Business Class – começavam por aqui a distribuição da refeição.

As hospedeiras não tinham cinto, naturalmente. Duas delas sofreram ferimentos graves. Em estado crítico terá ficado também quem se encontrava nas casas de banho naquele momento. Calculo que aqui o pânico terá sido ainda maior.

O comandante anunciou que ia seguir para Genebra porque não tinha condições para continuar a viagem, pouco mais de meia hora depois de descolarmos (19h25 locais-18h25 em Lisboa) e a duas horas de chegar a Portugal. Foi uma aterragem de emergência? Para mim foi, mesmo que não seja este o termo técnico.

Perguntei mais tarde ao comandante se alguém tinha sofrido um ataque cardíaco, se a decisão fora motivada por um caso de vida ou de morte; respondeu apenas, o rosto denotando preocupação, que havia muitas pessoas “magoadas”.

O próprio Jaime Gama disse-me que já tinha enfrentado turbulências mais graves nas suas viagens aos Açores mas nenhuma forçara a mudança de rota.

 

A aterragem também foi brusca, o que, para mim, era sinal de nervosismo do comandante, que só tranquilizou os passageiros “muito tempo” (não sei precisar quantos segundos ou minutos – diria que uma eternidade) depois da aterrorizante subida-descida.

Eu não podia ignorar que o avião transportava o presidente do Parlamento e três deputados dos principais partidos do país. E mesmo que eles não estivessem lá, se havia feridos – e confirmaram-se 14 (depois de uma versão inicial que apontava para 20) – eu tinha de noticiar.

Tentei transmitir para o jornal em Lisboa o que se passava, avisando que não devíamos alarmar os familiares. Apenas informá-los, porque o site da ANA, segundo os meus próprios familiares, só anunciava um atraso no voo, sem detalhes.

Durante a curta viagem Munique-Genebra, e não me lembro se antes ou depois da decisão de alterar a rota, o comandante pediu um médico (havia um, disseram alguns; não havia nenhum, disseram outros) e recomendou a quem não se sentisse bem que acendesse a luz de chamada. O corredor iluminou-se com várias luzinhas a piscar.

Incrível o número dos que pediam ajuda. Quando o avião chegou a Genebra, o aparato era imenso – mais de uma dezena de carros de bombeiros e ambulâncias, além de veículos da polícia. É normal nestas situações, mas impressiona esta visão.

As equipas de assistência entraram no avião. Não podíamos circular para não atrapalhar os seus esforços. Por isso, do meu lugar, só podia vislumbrar o que se passava no exterior. Rapidamente foi montado um hospital de campanha, com macas. Saiu um passageiro com a cabeça ligada, outro ligado a soro. Perdi a conta a este movimento, à medida que ia telefonando para Lisboa.

Não sei também precisar o momento em que o comandante anunciou que tínhamos de abandonar o avião, porque outro viria de Frankfurt com nova tripulação para nos levar de regresso – um inquérito seria aberto. Deram-nos passes de trânsito. Instalaram-nos numa sala e ofereceram água e sanduíches.

Vieram depois montar camas desdobráveis para quem quisesse aguardar pelo novo voo que partiria à 1h30 local (00h30 de Lisboa). Ficaram em hotéis os passageiros que tinham voos de ligação em Lisboa ou que, tendo Lisboa como destino final, preferiam regressar no dia seguinte.

O cônsul-geral de Portugal em Genebra chegou rapidamente para oferecer apoio. Foi ele que me foi dando pormenores sobre o estado dos passageiros, com base nas informações que ia recebendo do chefe da protecção civil suíça.

 

As pessoas estavam demasiado fatigadas para partilharem o que sentiram e sentiam. Não quis ser intrusiva. Recolhi depoimentos de quem aceitou falar – entre eles um turista da Estónia, Alvar Vidik, que vinha com a mulher, Jane Sinijarv (em estado grave no hospital), e um casal amigo, para as suas primeiras férias em Portugal.

Só quase à hora de partirmos o cônsul aceitou dar-me as identificações dos portugueses que foram levados para o Hospital La Tour e para o Hospital Cantonal (o principal da cidade). Ainda vi chegar Ana Paula Ribeiro Carvalho, a enfermeira que foi assistida em La Tour e que regressava de um congresso em Basileia com mais seis colegas. Vinha enrolada numa manta com um penso no nariz – mas não me forneceram pormenores sobre os ferimentos sofridos e ela vinha demasiado abalada para eu a incomodar.

Quando desliguei o telefone, depois de vários telefonemas para a directora de fecho em Lisboa, confesso que as lágrimas me caíram pela cara abaixo. A hospedeira Stefanie Kaup veio com o seu sorriso e um inglês doce confortar-me.

Eu também já tinha ajudado quem podia, oferecendo bolachas e um chocolate que trazia na mochila a uma criança, e emprestando um telefone a uma senhora sem saldo para comunicar com a filha que a vinha buscar. Não queria sentir-me uma sanguessuga a explorar a dor dos outros, e isso sossegou o meu espírito.

Desta viagem vou querer recordar apenas as histórias bem-humoradas que ouvi de Maria da Graça Jacinto, uma ex-imigrante que vinha de celebrar os seus 65 anos de vida com o filho e os netos na Alemanha. Ela sempre teve medo de andar de avião e, no sábado, no voo LH 4544, sentiu o mesmo calafrio de sempre.

“Eu rezei antes de embarcar mas depois, quando aquilo aconteceu, não me veio à cabeça nenhuma oração. Mas tenho a certeza que a Nossa Senhora nos pôs a mão por baixo, ah isso tenho.”

Este artigo de opinião, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 11 de Maio de 2009 | This opinion article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 11, 2009

O aparato no aeroporto de Genebra depois do desvio de rota e aterragem de emergência para socorrer os feridos. © Blick.ch

O aparato no aeroporto de Genebra depois do desvio de rota – o aparelho seguia de Munique para Lisboa – e a aterragem de emergência, para socorrer os feridos.
© Blick.ch

O meu testemunho sobre o que vivi a bordo foi relatado pelo jornal suíço Blick, aqui.

Fluggäste an Bord von LH 4544 hatten Todesangst

  • Publiziert: 10.05.2009, Aktualisiert: 19.01.2012
  • Von Gabriela Battaglia
Margarida Santos Lopes (50) sass in der Lufthansa-Maschine, die am Samstagabend in Genf notlanden musste. Die portugiesische Journalistin erzählt im BLICK, was sich auf dem Horrflug abspielte.

Margarida Santos Lopes (50) steht noch immer unter Schock. Die Journalistin der portugiesischen Zeitung «Público» war an Bord des Airbus A321, der am Samstagabend auf dem Flug nach Lissabon nach Turbulenzen (siehe Box) notlanden musste.

«Nach dem Start in München war zuerst alles normal», erzählt Santos Lopes gegenüber BLICK. Doch nach etwa 30 Minuten passiert es. «Die Maschine schnellte plötzlich mit einem heftigen Ruck nach oben», sagt Santos Lopes. «Ich hatte das Gefühl, dass uns etwas in den Himmel hineinsaugt. Dann sackte der Flieger nach unten.»

Die Journalistin ist weit gereist, unzählige Male geflogen. «So etwas habe ich aber noch nie erlebt», sagt Santos Lopes. «Ich dachte, lass uns rasch sterben.» Direkt vor ihr liegt die Business Class. Darin sitzen unter anderem der Präsident des portugiesischen Parlaments, Jaime Gama, drei weiter Abgeordnete und die bekannteste Fado-Sängerin Portugals, Dulce Pontes, mit ihrem jüngsten Sohn.

An Bord herrschte «totale Stille»

Als die Maschine in die Turbulenzen gerät, serviert die Crew gerade einen Imbiss. «Ich sah den Getränkewagen durch die Luft wirbeln», erzählt Santos Lopes. Die beiden Stewardessen werden in die Höhe katapultiert. Santos Lopes: «Sie donnerten mit ihren Köpfen an die Decke. Ihre Schuhe wirbelten durch die Luft.»

An Bord der Lufthansa-Maschine sind insgesamt 147 Passagiere und 6 Besatzungsmitglieder. «Es passierte so plötzlich und unerwarte, dass niemand schrie, nicht einmal die beiden Kinder an Bord», sagt Santos Lopes. «Es herrschte totale Stille.»

Passagier Alvar Vidik (42) aus Estland sitzt neben seiner Frau. «Sie flog plötzlich an die Decke. Dann fing sie an zu weinen. Sie konnte den Hals nicht mehr bewegen und hatte starke Kopfschmerzen», sagt er.
Vor den Turbulenzen gab es keine Warnung aus dem Cockpit. Auch die Lämpchen zum Anschnallen der Sicherheitsgurte leuchteten nicht auf.

«Danach dauerte es eine Weile, bis sich der Pilot endlich über den Lautsprecher meldete», erzählt Santos Lopes. «Er entschuldigte sich und fragte nach einem Arzt an Bord.»

Passagiere bluteten und standen unter Schock

Der Pilot empfiehlt denjenigen Passagieren, die sich schlecht fühlen, den Serviceknopf zu drücken. «Viele Lämpchen leuchteten auf», sagt Santos Lopes. Dann entschliesst sich der Pilot, wegen den Verletzten in Genf notzulanden. 13 Passagiere und zwei deutsche Stewardessen sind verletzt. «Viele verliessen das Flugzeug mit Verbänden am Kopf», sagt Santos Lopes.

Acht Personen aus der Maschine werden für 12 Stunden zur Beobachtung in zwei Genfer Spitäler gebracht. «Auch andere Passagiere bluteten und viele standen unter Schock», sagt Santos Lopes.
Die meisten Passagiere fliegen bereits in der Nacht auf gestern mit einer Ersatzmaschine weiter nach Lissabon. Lufthansa hatte das Flugzeug mit einer neuen Crew aus Frankfurt geschickt.

Auch Margarida Santos Lopes ist zurück in Lissabon. «Ich habe aber Schmerzen im Nacken und in den Beinen», sagt sie. Die Genfer Behörden haben eine Untersuchung eingeleitet. Zur Zeit der Turbulenzen tobte in der Nähe des Flugzeugs ein Unwetter. Zudem kann ein technischer Defekt als Ursache des Unglücks nicht ausgeschlossen werden.

«Auch ein menschlicher Fehler wäre möglich», sagt Margarida Santos Lopes. Ihre Stimme zittert dabei leicht.

© Yo Pedro | fineartamerica.com/

© Yo Pedro | fineartamerica.com/

Vencer o cancro de saltos altos

Se o cancro da mama é o segundo entre os que mais matam mulheres em todo o mundo, Marisa Acocella [Marchetto] crê ter encontrado uma arma ainda mais mortífera para o combater. Fez uma BD e mostrou como “tacões assassinos de 12 centímetros” intimidam qualquer “célula zangada”. (Ler mais | Read more…)

Marisa Acocella [Marchetto] continua a desenhar cartoons para as revistas The New Yorker e Glamour, e também para o jornal The New York Times. Os direitos de autor de Cancer Vixen foram doados integralmente à Breast Cancer Research Foundation, em Nova Iorque
© ELLE

Na primeira sessão de quimioterapia, Marisa Acocella [Marchetto] usou umas sandálias Charles Jourdan azul-metálico de lucite. Nas seguintes escolheu criações de Giuseppe Zanotti, Casadei ou Emilio Pucci.

“Em vez de me concentrar na agulha que me espetava a mão, olhava para os meus maravilhosos five-inch killer heels [saltos assassinos de 12 centímetros] para me descontrair”, diz a “ilustradora citadina, louca por sapatos, obcecada por batom, apreciadora de uma boa pinga, doida por massas e fanática por moda” a quem foi diagnosticado um cancro de mama, em Maio de 2004.

Tinha 43 anos e faltavam três semanas para se casar com “o homem perfeito”.

A dar um pontapé num tumor “do tamanho de uma pérola” é como ela se desenha a si própria em Cancer Vixen (edições Asa), a BD que veio lançar a Lisboa na semana passada – mais de 200 páginas coloridas de humor e amor.

Sim, ela cronometra o medo (10.12) que sentiu ao descobrir um caroço no peito, confessa a vergonha de nunca ter feito uma mamografia, alardeia o embaraço de ter deixado caducar o seguro de saúde e confessa o pavor de ser abandonada pelo amor da sua vida.

Por outro lado, é de forma hilariante e sem autocomiseração (mesmo no desconsolo) que vai dando conta de todas as etapas da batalha contra “um sacana que não veio nada a calhar” – quando ela, ainda de apelido Acocella, havia conquistado Silvano Marchetto às jovens que, descaradamente, o cobiçavam, planeava a compra de um gracioso vestido de noiva, e os editores da New Yorker e da Glamour lhe requisitavam mais trabalhos.

Oportunidade para aqui confirmar como é dura a vida de freelance (“por cada desenho vendido, há 100 que são rejeitados”). E ela não parou na doença, sempre acompanhada dos seus dois gravadores, câmara fotográfica, caderno de esboços e caneta favorita Rapdiograph 0.35.

Marisa, que vivia num “apartamento superchique – um minúsculo T1 no 2º andar de um prédio de 3, sem elevador, em West Village” e frequentava todos os “eventos in”, diz-me que trocou o lema take it off your chest (“tira isso do peito”) por take it off your breast (“tira isso da mama”).

Quando fala do passado, já está a pensar no futuro. “Antes de pensar na quimioterapia, concentrei-me na minha lua-de-mel.”

Marisa Acocella, que vivia num “apartamento superchique – um minúsculo T1 no 2º andar de um prédio de 3, sem elevador, em West Village”, diz que, depois do cancro, trocou o lema take it off your chest (“tira isso do peito”) por take it off your breast (“tira isso da mama”)
© The New York Times

 

É por isso que, com ela, zombamos das “células zangadas” (cancerosas), criaturas verdes de língua escarlate de fora e dedo em riste num gesto obsceno.

Que devoramos as tempestuosas conversas com Violleta, a mãe ou (S)mother – trocadilho para a expressão inglesa “asfixiar” –, “Sofia Loren versão Nova Jérsia”, e os mexericos com as APS (amigas para sempre).

Que rejubilamos com os raspanetes da Virgem Maria (“Se passares o dia na cama, nunca vencerás”) e de Mary Poppins (Acabou-se a lamúria! Levanta-te… Já, já”).

Que partilhamos a sua revolta por os testículos não serem “colocados num torno”, tal como as mamas são “espremidas, esborrachadas, esmagadas e entaladas” nas mamografias.

Que nos surpreendemos com a devoção a Santa Filomena e ao Beato Jacob, “protectores dos que sofrem”, conjugada com sessões espirituais no centro cabalístico judaico.

Conclusão de Marisa: “Se somarmos 29 agulhas, oito quilos, 11 técnicos de radioterapia, 11 assistentes médicos, 9 enfermeiras, oito médicos, 192.720,4 dólares, dois rabis e um padre, o resultado é uma experiência que me mudou para sempre”.

Em Lisboa, cinco anos depois de sentir que o universo a aspirara para um buraco negro, a loura que “apenas se preocupava com questões estúpidas e egoístas de auto-estima, pele e cabelo”, confessa que continua a ser uma fashionist.

“Oh sim, ainda gosto muito de andar na moda, mas agora na perspectiva de me fazer sentir mais poderosa”, confessa enquanto se senta na poltrona de um hotel, o sol primaveril a iluminar o rosto translúcido bem maquilhado.

“Deixei de ser uma vítima da moda para ser uma vencedora. Já não é uma questão de competição, mas a expressão de quem se sente bem. Se nos sentirmos bem, isso reforça o nosso sistema imunitário e, assim, são menos as probabilidades de adoecermos. É uma outra forma de terapia.”

“Hoje, trago umas calças de cabedal justas e um sapatos altíssimos como eu adoro, tudo preto e Alexander McQueen”, descreve-se a pequena Marisa, alongando as pernas para exibir o que qualifica de “grande extravagância” do ano corrente.

“Esta camisola [cor-de-rosa, ostentando um laço da luta contra o cancro da mama] não tem marca, e a camisa tem uns 20 anos, mas aprecio combinar velho e novo. A sombra dos olhos permanece azul. As unhas, pintei-as de turquesa. Combinam bem com os ténis do meu marido” – e com a pedra do anel de noivado.

Silvano Marchetto, o amor que ajudou Marisa Acocella a vencer o cancro. Em 2017, divorciaram-se depois de 12 anos de casamento. E ele encerrou o seu famoso restaurante em Nova Iorque depois de 41 anos de actividade. Em 2015, ela publicara mais um livro de banda desenhada, Ann Tenna: A Novel
© The Wall Street Journal

Encostado a uma janela, Silvano interrompe a conversa, fixando em Marisa os olhos azuis de ternura com que ela o retrata no livro a ele dedicado.

“Então era isso que vinha naqueles sete sacos que o empregado levou lá a casa!”, brinca num inglês-italiano (quase) imperceptível. “Sim”, ri-se a primeira ilustradora do jornal New York Times (‘autora de The Strip, que saía aos domingos alternados na secção Styles’). “Não lhe posso esconder nada”.

“Os tacões de 12 centímetros de salto fazem-nos sentir conquistadores do mundo”, elucida Marisa. “As pernas não ficam bonitas com saltos rasos e eu não me sinto confiante.”

Na sala VIP, enquanto a mulher caminha altiva nos seus pumps (sapatos fechados com abertura à frente), o marido desfila, divertido, os ténis de múltiplos tons, personalizados com o logótipo do restaurante (famoso pela gastronomia toscana e pela clientela famosa) de que é proprietário em Nova Iorque, o Da Silvano.

O logo – a cara bonacheirona de Silvano, de cabelo branco e óculos de sol – foi o princípio de uma relação que o cancro solidificou. Marisa tinha ido ao restaurante que Spielberg e Armani frequentam para escrever um artigo, sobre “o preço de estar na moda”.

A reportagem não chegou a ser publicada pela extinta revista Talk porque se tornou superficial depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001.

Em Janeiro de 2002, ela propôs a Silvano compensá-lo, desenhando o cartão de inauguração de um novo estabelecimento. Apresentou quatro sugestões e ele aceitou todas, depois de inúmeras modificações a que ela aquiesceu pacientemente. Difícil resistir a um galã que nunca se zanga e cuja palavra de ordem é che bella giornata.

Além de carros desportivos e relógios, Silvano também colecciona sapatos – terá o dobro de Marisa –, mas a paixão que ela sente por andar de saltos altos foi herança de Violetta Paolina Margarida Mazzucca d’Rentis Acocella.

“Quando comecei a desenhar, aos 3 anos, já imitava a minha mãe, que trabalhava em casa. Lembro-me que, aos 4 anos, tinha botas de verniz cor de marfim; aos 5, botas de verniz pretas; aos 6, botas de cano alto e salto quadrado, verniz de cores verde ácido e laranja vivo. Já naquela altura, eu era uma shoe-aholic [sapatoólica]!”

Marisa Acocella [que já não é Marchetto desde que se divorciou de Silvano]
© wmagazine.com

Violleta “tem um extraordinário fashion sense”, elogia Marisa. “Nos anos 1960, ela usava Pucci e tinha o cabelo preto comprido como o da Cher, com uma madeixa loura na franja – muito na vanguarda. Levava-me às compras e o seu gosto era sempre o mais ousado. Foi ela que me encorajou a exprimir-me pela moda.”

Numa troca de e-mails, a partir de Nova Jérsia, onde vive, a mãe de Marisa desvenda que começou a desenhar sapatos antes de terminar o liceu. “Eu ia para Nova Iorque aos sábados e deixavam-me fazer os meus sapatos durante o fim-de-semana. Fui depois completar os meus estudos para o Pratt Institute, mas sempre a desenhar sapatos.”

Quando se licenciou, Violletta foi trabalhar como designer na I. Miller Shoe Company, “naquele tempo, o mais requintado fabricante de sapatos de Nova Iorque”, mas foi na Bergdorf Goodman que ela conheceu Jacqueline Kennedy, que lhe fez uma encomenda.

“Quando ela me telefonou, pensei que era alguém a pregar-me uma partida”, relata. “Tinha uma voz doce e falava com eloquência. Tornámo-nos amigas e tínhamos algo mais em comum do que os sapatos. Estávamos ambas grávidas. Ela de John Jonh e eu de Marisa.”

“Lamentávamo-nos por termos os pés grandes – embora ela ficasse contente por os meus serem maiores (número 11) do que os dela (número 10). Foi este episódio que me fez desenvolver tamanhos grandes e desenhar para ela sapatos que a faziam parecer maravilhosa. Ainda guardo um par de sapatos que fiz para mim na mesma altura que fiz para Jackie”.

Marisa Acocella foi a primeira ilustradora do jornal New York Times (autora de The Strip, que saía aos domingos alternados na secção Styles)
© marisaacocella.com

Não foi só nos sapatos e na moda que Violleta influenciou Marisa. “Vi como Marisa era talentosa desde muito pequenina”, exulta a mãe. “Encorajei-a a seguir o seu talento. Aos 4 anos, levei-a a uma amiga que era professora de arte. Ela recusou inicialmente dizendo que não era baby siter.”

“Pedi-lhe que a deixasse assistir apenas a uma aula. E Marisa foi, aos 4 anos, a uma aula de adultos. No final, a professora estava deslumbrada com a filha fabulosa que eu tinha. Pegou nas duas aguarelas que ela pintou, emoldurou-as e apresentou-as a um concurso. Marisa ganhou o primeiro prémio.”

Marisa dá mais pormenores: “A minha mãe desenhava sapatos fabulosos para mulheres e eu, aos 3 anos, tentava desenhar mulheres que conhecia. Aos 8, cheguei à conclusão que essas mulheres eram muito aborrecidas. Não tinham nada para dizer. Um dia, o meu pai decidiu que iríamos ter umas férias grandes e fomos até às Bermudas.”

“Ficámos num hotel que a minha mãe detestou, porque era muito pequeno. Queixou-se ao gerente e ele deixou-nos ficar numa casa cor-de-rosa em frente ao resort. Nas paredes havia desenhos com legendas, e eu exclamei: ‘Oh meu Deus, as mulheres que eu desenho sabem falar!”

A casa era de James Thurber, lendário cartoonista da New Yorker. “Nessa noite fiquei a ler as revistas e os livros dele até de madrugada”, relembra.

“Duras horas depois, acordei com formigas a subirem-me pelo corpo. Fomos para uma carrinha e havia lá outras 400 formigas. Gosto de dizer que fui mordida pelo bicho do cartoon. Foi assim que a aventura começou.”

Inquirida sobre se a sua mãe gostou da maneira como a desenhou em Cancer Vixen (que esteve para se chamar Breast Cancer Scenario, “título horrível” que um amigo chumbou), Marisa dá uma gargalhada: “Depois de meses de ausência, já na arte final, fui visitar os meus pais. A minha mãe entrou na sala, tinha emagrecido 12 quilos, e disparou: ‘Não gostei da maneira como me desenhaste’.”

 

Violleta dá a sua versão: “Eu sei que Marisa me ama. O livro confirma esse amor e tocou-me o coração.” Quanto a ser tratada como (S)mother, admite: “É um modo carinhoso de mostrar a minha personalidade, mas sim, creio que amo os meus filhos DEMASIADO, e agora todos me chamam (S)mother.”

Se Violleta é uma mãe “sufocante”, Marisa só poderá ser madrasta de Leyla, a filha de Silvano. Uma das passagens mais comoventes do livro é quando ela interioriza que só poderá engravidar aos 49 anos, devido à ingestão do Tamoxifen, medicamento que “bloqueia o estrogénio no peito”.

Desenha um bebé num céu estrelado e o diálogo é tristonho: “Desculpa… pensei que tinha muito tempo, mas só tinha um piscar de olhos.” E a criança despede-se: “Adeus”. Violleta chora: “Sempre pensei que ias ter uma menina.”

Marisa conformou-se: “Muita gente ficou impressionada. Não poder ter filhos é uma realidade. Mas tenho uma enteada maravilhosa. Tenho uma vida muito ocupada. Tenho muito trabalho. Tenho uma vida cheia. Tenho um marido maravilhoso”. Vira-se para Silvano e pergunta: “Falta-nos alguma coisa?”. Ele murmura. “Nada!”

A grande missão de Marisa é agora o seu Cancer Vixen Fund, que tem Silvano com “principal benfeitor”, criado em colaboração com o Hospital de St. Vincent, onde foi operada e tratada. “Este projecto é dedicado às mulheres que não têm seguro de vida e a quem foi diagnosticado cancro de mama”, especifica.

“Mais de 49% correm o risco de morrer da doença. Porque adiam os exames ou, se estes dão positivo, não se tratam por falta de dinheiro. Temos vários patrocinadores: a fundação Estée Lauder, a Breast Awareness Campaign, os [armazéns] Bloomingdale’s e a [transportadora] Continental Airlines, entre outros. Também somos membros da American Cancer Society.”

Criar o Vixen Fund foi uma ideia que nasceu quase ao mesmo tempo que Marisa conheceu o seu diagnóstico. “Senti que tive muita sorte [o cancro foi detectado no início, uma leve quimioterapia não lhe fez cair o cabelo, amigos e chefes criaram uma rede de solidariedade, Silvano incluiu-a no seu seguro de saúde] e eu quis retribuir.”

Hoje, a instituição realiza duas vezes por ano cerca de 300 mamografias gratuitas. “Felizmente, só um caso deu positivo”. Não se espera, porém, um final feliz. Talvez um milagre. Marisa diz que a fé lhe ampara a vida.

  Uma entrevista em BD

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Tentar construir um MUNDO COR-DE-ROSA, comendo mais fruta e vegetais, frutos secos e sementes, reduzindo os alimentos, pessoas e situações tóxicas, ajudando a angariar fundos para a investigação sobre cancro da mama. Sonho: Um planeta cor-de-rosa.

Os cartoons que se seguem são as respostas de Marisa Acocella [Marchetto] a perguntas que lhe enviámos.

1

Descreva-se a.c. (antes do cancro) Marisa (eu). A.C. (antes do cancro). O meu peso. O meu cabelo. O meu isto. a Minha dieta. Os meus sapatos. A minha vida. Eu precisava de ter os melhores sapatos, a melhor mala, os melhores jeans, os melhores óculos de sol, ir às festas certas, e tudo tinha de ser bom, bom, bom.

Diapositivo1

Encontrar um caroço no peito e saber o diagnóstico de cancro da mama sem seguro de vida foi devastador. Como encontrou coragem para lutar?
Tenho este hábito nervoso. Chama-se desenhar… é melhor do que eu fazia antes para manter as minhas mãos ocupadas. Bem, senti que quando passamos para o papel os nossos sentimentos, isso se chama um diário um diário de objectivos. vejam como desenhei as “células do cancro”. E quando o fiz eu ri-me delas, e o cancro tornou-se menos intimidante.

Diapositivo2

De um modo geral, as pessoas ainda olham para o cancro da mama como uma sentença de morte. Por que motivo sentiu necessidade de contar a toda a gente – até a estranhos – que tinha cancro?
Cancro
Eu queria tirar o cancro para fora de mim…
Cancro
Cancro
E colocá-lo numa página
Tirem isso das vossas mamas, raparigas!
Escrevam!
Escrevam!
Escrevam!*
* Este processo chama-se “diário de um objectivo”

Diapositivo3

Foi fácil, para si, dizer a palavras “cancro”? Ri-me na cara do cancro! Ha ha ha ha ha!!!

Diapositivo4

Levou a obsessão pelos sapatos até às sessões de quimioterapia. Isso foi importante porquê? Pratiquei a ‘lei da distracção’, centrando-me em algo bonito e não algo doloroso… As agulhas não têm graça.
A única coisa que me fazia sentir bem era olhar para os meus sapatos.

Diapositivo5

Como é que aprendeu a aceitar todas as transformações do seu corpo depois dos tratamentos, e amar-se a si própria? Eu, d.d. (depois do diagnóstico). Lembro-me de dizer ao meu corpo…‘Corpo, tu vais entrar em dieta, fazer exercício e ganhar o respeito que mereces! E, obrigado por lutares e seres forte!

Diapositivo6

Como é que psicólogos, rabis e santos a ajudaram a sobreviver? Ainda precisa deles?
A minha fé tem-me amparado a vida. Maria, Rainha do Céu
Cabalistas, usam sobretudo branco. O padre Jake está comigo em espírito.

Diapositivo7

Escreveu que a experiência do cancro a mudou para sempre – até conseguiu perdoar pelo menos uma das suas “inimigas”. Qual é a “receita” para ser mais positiva e generosa?
Receita para uma vida feliz: Amor. Perdão. Tome uma dose saudável todos os dias.

Diapositivo8

Sem o grande amor de Silvano (e da sua mãe), a sua história seria diferente?
Eu não estaria aqui sem o AMOR. Silvano usa sempre os seus óculos escuros.

Diapositivo9

Vixen, uma guerreira, e não uma vítima – qual o objectivo do seu livro? O que recomenda a outras mulheres?
Não seja uma vítima, seja uma VIXEN. Desenhei-me a mim própria como uma vixen a pontapear o cancro, e esse desenho esteve na minha prancheta durante todo o ano do cancro Eu pensei nisso. Vi isso. Acreditei nisso. Agora chamo à prancheta a minha ‘prancheta hipnotizante’. Veja-se a si própria como vixen e será uma vixen!  

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 10 de Maio de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 10, 2009

A vida deu-lhe um diploma

João André já era “mestre” (na construção civil) quando voltou à escola. O aluno mais velho do programa Novas Oportunidades recebeu um diploma do 12º ano, aos 85 anos, em Salvaterra de Magos. Foi pedreiro e queria aprender a ser escultor.  (Ler mais | Read more..)

© Enric Vives-Rubio

Aos 7 anos, João André “tinha de ir umas 500 vezes ao interior dos barcos para, dois a dois, descarregar mil tijolos, ganhar cinco escudos e ficar com os dedos todos gastos.”

Aos 85 anos, o mais velho aluno do Programa Nova Oportunidades recebeu o diploma do 12º ano. “Não sei se comecei primeiro a trabalhar ou a estudar”, disse ao júri que ouviu as suas “experiências de vida” na Escola Profissional de Salvaterra de Magos.

A presença na cerimónia do [antigo] chefe do Governo, José Sócrates, e da ministra da Educação surpreendeu João André mas não o deixou nervoso. Afinal, preparou-se diariamente para este “exame” e já passou por testes mais difíceis.

Ele poderia ser Gineto, Gaitinhas, Malesso ou Maquineta, “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, glorificados por Soeiro Pereira Gomes em Esteiros.

Não trabalhou nas “cavidades abertas na margem do rio Tejo de onde saíam as lamas e entravam os barcos com as lenhas”. Mas ajudava o pai a descarregar os tijolos “ainda a ferver”, que seguiam de Alhandra até Salvaterra, porque “o dinheirinho ia para um mealheiro onde a mãe juntava mais qualquer coisa para comprar roupa na Páscoa ou no Natal”.

Mestre André – é assim que o povo [ainda] o trata na cidade onde nasceu “com muito gosto” – lamenta “o azar de ter nascido em 1924 e de, em 1928, Salazar ter subido ao poder”.

Naquele tempo, diz-nos na moradia que partilha com dois pintassilgos, “dava-se mais importância ao trabalho do que aos estudos, mas eu sempre quis aprender – e sentia raiva de não o conseguir.”

Sentemo-nos então num dos sofás coloridos da casa de João André, estantes com romances de Eça de Queirós e almanaques Reader’s Digest, bibelots e caixinhas de bolos, paredes enfeitadas com recordações de viagens e um relógio que abana o silêncio da manhã.

Os olhos pequeninos quase tapados por longas pálpebras que se fecham quando o sorriso se abre para contar histórias cujo fim ele sempre determinou. O cabelo todo branco não está cortado rente, como é hábito, porque tem falhas, e ele quer “parecer bem quando aparecer na televisão”.

“Andei na escola primária, aqui em Salvaterra, e depois de fazer o meu exame da quarta classe fui para o comércio, servir ao balcão numa taberna que também vendia mercearias e esmaltes”, relata Mestre André agitando as mãos calejadas.

“A minha tia vivia com o dono do estabelecimento e, quando ela morreu, comecei a ver que aquilo já não era ambiente para mim.” Foi aqui que aprendeu a ser desconfiado. “Um cliente fugia com as moedas depois do avio da aguardente e uma freguesa roubava farinheiras enquanto eu ia lá dentro buscar o petróleo.”

“Como não tinha futuro na loja, fui para a construção civil para me fazer homem. Ter a 4ª classe serviu-me a mim e a um encarregado, menos habilitado. Eu fazia os orçamentos para ele enviar para o sindicato. Trabalhei com ele até ir para a tropa, em 1945, quando acabou a II Guerra Mundial.”

Cumprido o serviço militar, com 22 anos de idade e quatro de namoro, João André deixou Lisboa e voltou a Salvaterra. Tinha chegado a hora de mudar de estado civil. Já casado, foi trabalhar primeiro para uma fábrica e depois na “instalação de água ao domicílio”, tarefa que o levaria até ao Alentejo.

Quando este trabalho acabou, dedicou-se à pesca do sável. “Num mês de Janeiro, com a água pelos peitos, no meio do rio, um rapaz amigo disse-me que estavam a começar umas obras na Glória [do Ribatejo]. Eu estava com o meu pai na pesca e disse-lhe: ‘Olhe, tire aí o peixe, faça a açorda que eu vou ver se arranjo trabalho; arranje ou não, venho almoçar consigo.”

© Enric Vives-Rubio

A demanda correu bem. O patrão ficou impressionado porque João André se ofereceu para trabalhar nessa mesma tarde.

“Fui de bicicleta – já nessa altura era o meu transporte.” Hoje tem três modelos. Com a mais eficiente, percorre 50 quilómetros quase todas as manhãs (as tardes são para pescar e velejar).

Foi assim que ele me guiou – calças de ganga presas com molas de roupa, camisa de riscas, pullover de lã e colete estilo Coronel Tapioca – até à urbanização onde se instalou há três anos “para fugir da má vizinhança”.

Uma casa onde vive sozinho – a mulher morreu há 11 anos, sem filhos –, e trata de dois canteiros com couves e tomates, salsa e morangos, favas e flores.

A fama de bom obreiro correu tão célere como o seu velocípede. “Estava eu a fixar uns motores que forneciam electricidade quando faltava a luz da Hidroeléctrica, como antes se chamava a EDP”, lembra.

“Um engenheiro da Raret [antiga Sociedade de Rádio-Retransmissão], na Glória, também conhecida por Rádio Europa Livre, perguntou-me se não queria ir para lá. Aceitei.”

“De início, cheguei a trabalhar de dia e de noite, porque a primeira subestação que se fez, que recebia a luz da Hidroeléctrica, tinha o prazo de um mês para ser feita. O empreiteiro conseguiu fazer a obra em 15 dias – trabalhámos por baixo e por cima uns dos outros, aquilo era um pandemónio, iluminados com candeeiros Petromax – e ele ganhou 50 contos de prémio.”

Na Raret, João André trabalhou dos 27 aos 65 anos, quando se reformou. Foi pedreiro mas também encarregado, chefiando uma equipa que chegou a ter 150 homens na manutenção de uma estrutura que integrava casas de tipo A (“para os responsáveis americanos”), B (“para os engenheiros graduados”) e C (“para os administrativos e outros técnicos”).

“Não soube logo o que se fazia ali mas depois percebi que os programas eram em checo, em húngaro, em búlgaro e outras línguas do Leste da Europa. Havia outra estação perto da Barrosa, no concelho de Benavente. Aqui recebiam os programas e depois enviavam-nos para a Glória que depois os retransmitia em onda curta – era a guerra fria na Cortina de Ferro.”

Para ser admitido na Raret era preciso preencher um formulário onde quem solicitava emprego “prometia repudiar o comunismo”.

No caso de João André, a recomendação foi verbal. “Um tipo disse-me uma vez que foi ele quem deu as informações a meu respeito. Não lhe agradeci nunca. ‘Ah, foste? Está bem!’, pensei para comigo: ‘És informador da PIDE!’ Ele estava de um lado e do outro. Nunca fui militante de nenhum partido, mas simpatizava com o PCP, o único que conseguia mobilizar as pessoas contra o Salazar. E eu, mesmo estando na Raret, ia a comícios políticos.”

Por exemplo, adianta, “quando o Arlindo Vicente se candidatou a par com o Humberto Delgado, eu estive num comício em Alpiarça, e a PIDE também. A malta sabia quem eram eles [os agentes] e onde estavam. Fazíamos um círculo à volta deles. Eles iam para outro lado e a malta voltava a fazer outro círculo. Nunca fui preso porque nunca me inscrevi em nenhum partido.”

© Enric Vives-Rubio

Se não foi preso, João André tem a certeza que era vigiado, mas não foi por isso que deixou de correr riscos.

“Tenho um cunhado, que era comunista. Esteve preso duas vezes, em Caxias e no Aljube. Cheguei a aproveitar o transporte da Raret para todos os fins-de-semana lá ir levar-lhe a roupinha e alguma coisa de comer. Temos de tirar partido das situações. Ninguém me fez mal. Respeitavam-me, talvez, até pelo facto de eu nunca me calar.”

Ainda não tinha 40 anos, mas já com conhecimentos de desenho geométrico, graças à ajuda de um colega, João André decidiu pedir um aumento de ordenado. “Andavam a entreter-me com uns três mil escudos”, informa.

“Quando fui entregar a minha carta de despedimento, o engenheiro tentou demover-me de sair. ‘Você tem de ver que Roma e Pavia não se fizeram num dia’. E eu respondi: ‘Pois não, mas uma grande parte já devia estar feita e nem vejo os alicerces’. Ele ficou a olhar para mim e deve ter pensado: ‘Olhem para este gajo!’”

Deixando os patrões “em estado de alerta”, Mestre André foi para França, por intercessão de um amigo, trabalhar como pedreiro.

Aproveitou os 22 dias que lá passou para conhecer Paris e subir à Torre Eiffel. “Era um sonho meu. Levei a minha mala de cartão, que ainda conservo no sótão. Fui sozinho e cheguei às 10h50, hora exacta. Parti de Santa Apolónia com destino a Austerlitz.”

Quando regressou, tinha o prometido aumento de salário. Aos 50 anos, foi estudar à noite para fazer o 5º ano de Mecânica.

“O ambiente era ruim”, queixou-se. “Os alunos enganavam os pais. Diziam que trabalhavam de dia e estudavam de noite, mas não faziam uma coisa nem outra. Eu andei lá enervado e não fui capaz de concluir o sexto ano.”

Quando surgiram as Novas Oportunidades, já viúvo e reformado, o especialista em maciços de antenas que deixou o seu cunho “no aeroporto de Bragança e Vila Real, no interior, nas serras, no quartel de Santa Margarida e no de Beja, no litoral até ao Cabo de São Vicente” decidiu chegar ao 9º ano.

“Fui à escola e perguntei se poderia inscrever-me com 83 anos. Que sim, responderam-me. Digo-lhe uma coisa: foi um enriquecimento! Eh pá, as pessoas são extraordinárias!”

Na Escola Profissional de Salvaterra, João André aprendeu português, matemática, história, geografia e “50 horas de inglês”. Já sabia algumas expressões em francês. Onde se sente “mais à vontade”, talvez seja no português.

“Modéstia à parte escrevo poemas com facilidade”, graceja o discípulo de António Aleixo. “Passei quase tudo ao computador, uma janela aberta ao mundo com 360 graus, mas não ligo à Internet. Há coisas que me ultrapassam. Tenho de me convencer que já não sou um garoto. Prefiro os meus hobbies.”

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Em Abril de 2009, o primeiro-ministro, José Sócrates, entregou a João André o diploma do 12º ano
© Rede Regional

Subimos agora uma escada que conduz a uma sala onde João André tem obras em pedra, cerâmica e ferro estilizado. Fados, fandangos e touradas predominam. Além do seu próprio busto, sobressaem ainda as figuras de Fernando Pessoa e Alfredo Marceneiro. “Ninguém me ensinou nada”, sublinha. “Nada vendo. Não preciso, e desfazer-me das peças seria como cortar um bocadinho de mim.”

A reforma deixou tempo a João André para se dedicar ao artesanato e ao seu barco, mas também a viagens anuais. “Já visitei quase todos os países da Europa e uma grande parte da América. Falta-me a Ásia. Talvez vá este ano à China ou à Índia.”

De tudo quanto viu o que mais o desiludiu foi ver como “a ditadura comunista negava a liberdade, como a de Salazar”. O que mais o chocou foi o antigo campo de concentração de Auschwitz, quando foi a Polónia depois de atravessar o recém-derrubado Muro de Berlim. “Vim de lá com a cabeça no chão.”

Também lhe vieram “as lágrimas aos olhos” quando começou a guerra em Ljubljana, a capital da Eslovénia. “Estive na Jugoslávia completa, e aquela era uma cidade tão linda.” Teria ficado para sempre na ilha italiana de Capri. Expôs trabalhos na Holanda e no Luxemburgo. Ao Brasil e a Cuba não tenciona ir. “Para miséria, bastou-me Marrocos.”

Finalizado o 12º ano, João André não tenciona inscrever-se na universidade. “A minha ideia é fazer um curso de escultura, o que eu mais gosto, mas não sei onde.” Para já, uma prioridade é recuperar duas pedras que levaram quase 600 horas a esculpir.

“A senhora presidente da Câmara [Ana Cristina Ribeiro] teve a coragem de mandar arrancá-las do pátio da escola onde fiz a 4ª classe e mandá-las para o lixo, só porque me dou bem com pessoas [do Partido Socialista] de quem ela não gosta”, vociferou.

A autarca do Bloco de Esquerda, em funções há 12 anos, está entre os raros inimigos de João André que os conterrâneos acarinham como uma celebridade.

Os outros são a GNR, porque “antes do 25 de Abril não permitiam que dois ou três rapazes se juntassem a conversar à noite – diziam que era ajuntamento ilegal”; e os padres, que “não queriam que as raparigas fossem aos bailes e ao cinema, mas depois aninhavam-se com elas”

Sem religião – “a mim não me convencem que Deus criou o mundo” –, João André não tem medo da morte. “Trabalhei, passeei e evolui. Já vivi muito. Se tiver que morrer, que seja rápido.”

[João André morreu, aos 87 anos, em 15 de Fevereiro de 2012. O funeral realizou-se no Cemitério de Salvaterra de Magos, vila e município do distrito de Santarém onde continua a ser herói.]

Em 2015, a Câmara Municipal de Salvaterra de Magos homenageou Mestre André com uma exposição pública das suas obras
© fazerporsalvaterra.blogspot.com

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 30 de Abril de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 30, 2009

Ronald Levy: O primeiro judeu a ganhar o “Nobel árabe”

Este cientista americano revolucionou o tratamento dos linfomas com um medicamento que hoje é usado na terapia de vários cancros. Transpôs outra barreira quando recebeu o Prémio Internacional Rei Faisal na categoria de Medicina. A sua mulher nascida em Israel obteve um raro visto saudita para o acompanhar. “Foi uma extraordinária surpresa”, disse-me numa entrevista. Testemunho na primeira pessoa. (Ler mais | Read more…) 

A investigação de Ronald Levy (aqui no seu laboratório) contribuiu para “substanciais melhorias no tratamento e sobrevivência dos doentes com linfoma”
© Stanford University

Há cerca de um ano [2009], o meu amigo Philip Pizzo, reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford (Califórnia), onde sou director do Serviço de Oncologia, perguntou-me se podia propor a minha candidatura ao Prémio Internacional Rei Faisal. Disse-lhe que sim depois de ele me garantir que não era uma iniciativa política.

Agora que recebi o prémio fico feliz com a dimensão política que ele representa: nunca esperei que um judeu americano e casado com uma israelita pudesse ser escolhido por uma fundação real da Arábia Saudita. Foi uma extraordinária surpresa!

A fundação foi criada em 1976 pelos oito filhos do defunto rei Faisal. Em 33 anos [até 2009] já atribuiu este prémio, conhecido como “Nobel árabe” – talvez porque 20 por cento dos galardoados venceram depois o verdadeiro Nobel -, a 19 americanos, mas nunca o havia dado a um judeu.

Inicialmente, nem queria acreditar quando vi o meu nome e a minha fotografia no site da fundação. Tinha sido seleccionado na categoria de Medicina pelo meu trabalho de investigação no tratamento de linfomas usando o sistema imunitário para combater a doença.

O medicamento que a minha equipa desenvolveu em 1981, depois de curarmos o primeiro doente, foi o Rituxan ou Rituximab, que na Europa se chama MabThera. Aprovado em 1997 pela Food and Drug Administration(FDA), tornou-se no primeiro anticorpo monoclonal usado na luta contra o cancro.

Ronald Levy recebe o Prémio Internacional Rei Faisal em Medicina, numa cerimónia que foi transmitida pela televisão nacional saudita e a que assistiram cerca de 1500 dignitários
© Stanford University

O núcleo do sistema imunitário são os linfócitos B, glóbulos brancos que fazem soar o sinal de alarme em resposta a invasores externos.

Quando um patogénio entra no organismo, as células B produzem anticorpos, proteínas que circulam através de toda a corrente sanguínea e marcam os patogénios para serem destruídos. Nos linfomas, estes linfócitos B multiplicam-se sem controlo e ultrapassam o número de células saudáveis.

[O reitor Philip Pizzo diz no ‘site’ da Universidade de Stanford que Ronald Levy “transformou todo o nosso conhecimento sobre imunologia dos tumores e biologia dos cancros”, e que a sua investigação contribuiu para “substanciais melhorias no tratamento e sobrevivência dos doentes com linfoma“.]

O Rituximab visa a proteína CD20, que se encontra à superfície das células normais B e está presente em muitos linfomas. A prevalência da CD20 faz com que o medicamento seja relativamente económico (não é preciso desenvolver um anticorpo à medida de cada paciente) e tem menos efeitos secundários do que outros tratamentos do cancro.

Mais de um milhão de pessoas já beneficiaram com o Rituximab, que também tem sido usado por outros investigadores para tratar os cancros da mama, do cólon e dos pulmões. No caso dos linfomas – o meu campo de trabalho –, mais de metade dos pacientes têm possibilidade de cura, combinando a quimioterapia com o tratamento de anticorpos.

É um indicador que dá esperança, porque nos Estados Unidos há cerca de 30 mil casos novos diagnosticados por ano.

A fase actual da investigação é a das vacinas, com o objectivo de conseguir uma eficácia como a da poliomielite. No caso do cancro, em vez de darmos um anticorpo monoclonal, se pudermos fazer com que as pessoas o desenvolvam no seu próprio sistema imunitário, o efeito será muito mais duradouro.

É um projecto a longo prazo. Já temos resultados em animais e agora estamos a fazer ensaios em pessoas nas clínicas.

Tal como aconteceu com o Rituximab, há investigadores interessados também em aplicar esta vacina a vários tipos de cancro que não apenas o linfoma. Foram os trabalhos do passado e para o futuro que levaram a Fundação Rei Faisal a dar-me o que designam por “Nobel árabe”.

Mais de um milhão de pessoas já beneficiaram com o medicamento desenvolvido pelo oncologista Ronald Levy – o Rituximab – que também tem sido usado por outros investigadores para tratar os cancros da mama, do cólon e dos pulmões
© Stanford University

Inicialmente, pensei que teria de viajar sozinho até Riad para receber o prémio. Da minha biografia tinha sido apagado o meu pós-doutoramento no Instituto Weizman em Rehovot, a cidade onde nasceu uma das minhas três filhas; a minha mulher é natural de Telavive; e os nossos passaportes estavam cheios de carimbos israelitas, o que tem sido impedimento para entrar na Arábia Saudita.

Quando fomos ao consulado de Los Angeles, os vistos foram dados sem quaisquer perguntas. À chegada a Riad, esperava-nos uma limusina com motorista, que nos acompanhou para todo o lado, até ao dia de partir.

Ficámos os cinco num hotel que parecia uma fortaleza militar, rodeada de guardas de segurança e cães-polícia. A minha mulher e filhas receberam abayas (túnicas) e hijab (lenços) pretos para estarem presentes na cerimónia de 29 de Março para a qual foram convidadas 1500 pessoas.

As mesas estavam distribuídas como se fosse um banquete. O ambiente era segregado, mas este ano foi a primeira vez que as mulheres foram autorizadas a assistir. Shoshana Levy, a minha mulher, que também é professora de Oncologia em Stanford, e as minhas três filhas ficaram junto de algumas princesas.

Fui receber o prémio a um palco onde estava o rei Abdullah (1924-2015). Não senti que, por ser judeu, tivesse sido tratado de maneira diferente dos outros galardoados.

O prémio principal (Serviço ao Islão) foi atribuído à organização egípcia Sociedade para a Cooperação nos Ensinamentos do Corão e da Suna. Nas restantes categorias foram contemplados o marroquino Abdul Salam Muhammad Shaddadi (Estudos Islâmicos); o saudita Abdul Aziz Bin Nasser Al-Mane (Literatura em Língua Árabe); o britânico Sir Richard Henry Friend e o russo Rashed Alievic Siniev (Física).

Faisal bin Abdulaziz Al Saud – que dá o nome ao prémio recebido por Ronald Levy – foi rei da Arábia Saudita de 1964 até 1975, o ano em que foi assassinado por um sobrinho. Foi um dos mais influentes políticos sauditas. Ainda era príncipe herdeiro quando aboliu a escravatura no reino. Subiu ao trono depois de convencer o rei Saud a abdicar. Como monarca, aplicou várias reformas para modernizar o país, tentando limitar o poder das autoridades religiosas. Era anti-comunista e pró-palestiniano. Morreu aos 68 anos
© Saudi Press Agency

A Fundação Rei Faisal assegura que os únicos critérios que segue para as suas escolhas são o mérito e a excelência. Nove dos premiados desde 1976 receberam posteriormente o Nobel.

O vencedor do prémio Ciência em 1993, e também Nobel da Física Steven Chu, foi designado pelo Presidente Barack Obama para dirigir o Departamento de Energia dos EUA.

Aos 67 anos de vida, o prémio que recebi, das mãos do rei Abdullah, foi o mais importante em termos internacionais para a minha carreira.

Não por ter recebido um lindo certificado em caligrafia árabe, uma medalha de ouro de 200 gramas e 24 quilates e 200 mil dólares. Foi pelo facto de ter sido dado neste país [Arábia Saudita] e ter sido dado a mim [um judeu]. Isso transcende a medicina e a ciência.

O prémio é sempre um estímulo, mas sinto que este foi mais do que isso. Criou-se uma oportunidade de abrir um diálogo e um canal de comunicação que, de outro modo, não seriam possíveis.

Quando conhecemos o outro lado e estabelecemos laços pessoais, muita da animosidade política desaparece. Eu fiz contactos fabulosos e há a promessa de uma reforço de colaboração com cientistas sauditas na investigação do cancro.

Visitei universidades e hospitais e, embora não tivesse conseguido avaliar o nível de desenvolvimento científico do reino, fiquei impressionado com o que vi. Mostraram-me equipamentos que nem sequer existem na Universidade de Stanford – considerada uma dez melhores faculdades de Medicina do mundo.

Antes de estar em Riad, só tinha visitado um país árabe, a Jordânia. Fui a Petra a partir de Eilat, em Israel. Fiquei maravilhado com a hospitalidade dos sauditas. Levaram-nos a todo o lado. Como a entrega do prémio foi transmitida pela televisão nacional, as pessoas que nos viam nas ruas ou em restaurantes vinham cumprimentar-nos e pediam para tirar fotografias connosco.

Sentíamo-nos como celebridades. Dei uma palestra para um auditório repleto de gente interessada. Fui às compras, e o ambiente parecia o do boom de Las Vegas, mas sem jogo e sem álcool.

O que vou fazer com 200 mil dólares? Servirá para fins pessoais ou profissionais? Sinceramente não sei.

(A partir de uma entrevista telefónica com Ronald Levy e artigos nos ‘sites’ da Universidade de Stanford e dos jornais ‘Saudi Gazette’, ‘Ha’aretz e ‘Jerusalem Post’)

Ronald Levy
© Stanford University

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Abril de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 28, 2009

Arménia: Um “genocídio” ou uma “grande catástrofe”?

Os números variam entre 300 mil mortos, versão turca, e 1,5 milhões, versão arménia. Não há consenso sobre crimes premeditados. Mas há mitos a cair. (Ler mais | Read more…)

Turkish official teasing starved Armenian children by showing bread, 1915 @DR

Um oficial turco otomano troça de crianças arménias famintas, mostrando-lhes pão, sem qualquer intenção de o distribuir (Foto de 1915) 

O que aconteceu aos arménios otomanos em 1915 para que todos os anos, a 24 de Abril, os seus descendentes assinalem pelo mundo fora o que descrevem como “o primeiro genocídio, organizado e premeditado, do século XX”, ainda que, em 1985, o Whitaker Report da Nações Unidas tivessem dado essa classificação à tentativas de extermínio dos povos Herero e Nama, por parte dos colonialistas alemães, entre 1904 e 1907, no que é a actual Namíbia – uma política que depois seria aplicada pelos nazis

A narrativa oficial turca, Armenian File (The Myth of Inocence Exposed), do ex-diplomata Kamuran Gurun, indica que, durante a I Guerra Mundial, arménios otomanos levaram a cabo uma sublevação armada no Leste da Anatólia e colaboraram com o exército invasor russo.

Por isso, os Jovens Turcos no poder em Istambul, conhecidos como Ittihat ve Terakki Cemiyetti (Comité da União e Progresso ou CUP), decidiram “recolocar” a população arménia em desertos na Síria e no Iraque.

Esta transferência étnica, que causou “300 mil mortos”, teria sido, segundo Gurun, “uma simples medida estratégica para assegurar a retaguarda do Império Otomano, que combatia os russos na frente oriental”.

A da historiografia arménia tem sido a de que as deportações e massacres – iniciados a 24 Abril de 1915, com a detenção e execução de 250 líderes comunais e intelectuais arménios – constituíram, até 1917, “um plano deliberado de pôr fim à existência colectiva” dos 1,7 milhões de arménios na Anatólia.

Actualmente, até alguns investigadores arménios, como Ara Sarafian, do Gomidas Institute, em Londres, admitem que há perguntas sem resposta. Numa entrevista à publicação Nouvelles d’Arménie, observou: “Ainda temos de explicar por que é que 100 mil arménios foram enviados para a Síria ocidental e não foram massacrados; por que não foi cometido nenhum grande massacre em Der Zor depois de 1916; por que é que alguns não foram mortos no exílio; será possível que o CUP não fosse tão poderoso e omnipresente como se julga; é possível que houvesse mais oposição ao CUP do que antes se admitia?”

Entre alguns académicos e intelectuais turcos intensificou-se também um processo de “busca interior”, sobretudo a partir de 2007, com o assassínio do jornalista de origem arménia Hrant Dink, e de 2008, com a publicação do Livro Negro, de Mehmet Talaat Pasha, ministro do Interior otomano em 1915, assassinado com uma só bala, em 15 de Março de 1921, na Alemanha, por um activista da Federação Revolucionária Arménia.

Armed Armenian civilians and self-defense units holding a line against Ottoman forces in the walled Siege of Van in May 1915. @DR

Civis arménios armados e unidades de autodefesa formam uma barreira contras as forças otomanas durante o Cerco de Van, em Maio de 1915

O Livro Negro, de 77 páginas, estava na posse da viúva de Talaat Pasha que, em 1982, o entregou ao historiador Murat Bardakçi. Os dados que constam deste raro documento administrativo otomano contradizem a tese oficial turca de que as deportações foram “um processo ordeiro regido pela lei”.

Talaat Pasha revela que uns 90% dos arménios fora de Constantinopla foram deportados e que 90% dos deportados foram mortos. No total, terão “desaparecido” 970 mil – mais do que os 300 mil mencionados por Kamuran Gurun.

Richard Giragosian, director do Armenian Center for National and International Studies, em Ierevan, diz que a publicação do Livro Negro “deve ser elogiada, porque é muito importante, no âmbito do vasto processo de reavaliar este período específico da história turca ou otomana”.

Para os arménios, realça Giragosian em entrevista que me deu, por email, “há muito que existem provas substanciais, incluindo documentos oficiais em vários arquivos (Estados Unidos, Grã-Bretanha ou França), de que as cerca de 1,5 milhões de mortes em 1915 resultaram de uma política oficial concertada”. As deportações e massacres, “vistos colectivamente, incluem todos os elementos de um crime de genocídio”.

Giragosian, que esteve recentemente numa conferência em Istambul, vê sinais muito positivos na Turquia, apesar de a minoria arménia, reduzida a 60 mil pessoas, ainda se sentir “vulnerável e insegura, tímida e passiva na expressão da sua identidade nacional”.

Armenian intellectuals who were arrested and later executed en masse by Young Turk government authorities on the night of 24 April 1915. @DR

Alguns dos intelectuais arménios que foram presos e depois vítimas de execuções em massa, atribuídas ao Governo dos Jovens Turcos, na noite de 24 de Abril de 1915 

A campanha Nós Pedimos desculpa [ver texto abaixo] lançada por 200 intelectuais, “embora use a expressão ‘Grande Catástrofe’ em vez de ‘genocídio’, é muito significativa, porque reflecte o grau de mudança na própria sociedade turca. O uso deste ou daquele termo acaba por ser o menos importante.”

“Décadas de negacionismo oficial e tentativas de revisionismo histórico por parte da Turquia estão a ser desafiados por um reexame positivo e saudável da narrativa histórica”, sublinhou Giragosian.

“O intercâmbio de pessoas e ideias, académicos turcos e arménios ou vulgares cidadãos, está ajudar a quebrar a ‘demonização’ e os estereótipos negativos de uns e outros. “Há optimismo e esperança de que a opinião pública em ambos os lados está a mudar”, realça o investigador de Ierevan.

“Com a eventual normalização de relações, incluindo a abertura de fronteiras e laços diplomáticos, a Turquia e a Arménia podem reavaliar o legado comum de genocídio na procura partilhada do que ele significa, não para o passado ou presente mas para o futuro, como vizinhos.

“Nós reconhecemos uma grande catástrofe, partilhamos a dor e o sentimento dos arménios”, afirma Ayhan Turhan Aktar, professor de Sociologia na Universidade de Marmara, em Istambul, signatário da campanha Nós pedimos desculpa e um dos organizadores, em 2005, da primeira conferência sobre os arménios otomanos. “Não é minha competência, como cientista social, determinar se foi um genocídio”.

Greek and Armenian refugee children near Athens, Greece, in 1923, following their expulsion from Turkey. @DR

Crianças arménias e gregas, filhas e filhos de refugiados, perto de Atenas, numa imagem de 1923, após a expulsão das suas famílias da Turquia

Este é “um debate complicado”, refere Aktar, co-autor de Nationalism in the Troubled Triangle: Cyprus, Greece and Turkey (New Perspectives on South-East Europena entrevista que nos deu, por telefone. “Genocídio é um termo legal, uma expressão que acarreta sanções legais. É um crime contra a humanidade. Eu não gosto do negócio de contar corpos.”

O debate sobre os massacres de arménios terminou com o último Parlamento otomano em Novembro-Dezembro de 1918, apontou Aktar.

Nessa altura, vários deputados exigiram que os responsáveis do CUP fossem julgados e condenados. E alguns reconheceram que muitos turcos desobedeceram às ordens do CUP e, arriscando serem executados à porta de casa, salvaram numerosos arménios do extermínio.

“Depois de 1918, o assunto ficou esquecido”, lamenta o historiador. “Eu estava no primeiro ano da universidade quando o cônsul-geral turco em Los Angeles foi assassinado [pelo grupo armado arménio ASALA] em 1973.”

“Não consegui encontrar qualquer livro para explicar o que acontecera. A polarização, o aparecimento de dois discursos distintos e inconciliáveis – os nacionalistas arménios a denunciarem um genocídio; os nacionalistas turcos a negarem – começou no final dos anos 1970, início de 1980.”

Talaat Pasha revela que uns 90% dos arménios fora de Constantinopla foram deportados e que 90% dos deportados foram mortos. No total, terão "desaparecido" 970 mil. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Mehmet Talaat Pasha, o ministro do Interior que ordenou as prisões, revela no seu Livro Negro que uns 90% dos arménios fora de Constantinopla foram deportados e que 90% dos deportados foram mortos. No total, terão “desaparecido” 970 mil – mais do que o número mencionado na narrativa até agora oficial

Por que não mais foi possível discutir a questão arménia como fez o Parlamento otomano em 1918? “A elite turca que formou a república em 1933 era, na sua maioria, constituída por burocratas e soldados”, respondeu Aktar.

“A ocupação de Istambul pelos franceses e britânicos foi um grande trauma. Na construção da moderna identidade turca, esse trauma foi transferido para uma geração mais nova. É por isso que somos o único país cujo hino nacional começa com a expressão Não tenham medo.

“O sistema de educação kemalista [instaurado por Atatürk] injecta a ideologia de que a república está em permanente perigo”, realça Aktar.

“Hoje é o fundamentalismo islâmico; amanhã são os curdos; depois de amanhã é a diáspora arménia a reivindicar um pedaço de território. Há sempre medo. É uma espécie de paranóia social. Somos fisicamente perfeitos, mas razões psicológicas deixam-nos impotentes.

O “chocante assassínio” de Hrant Dink e “livros sentimentais” como My Grandmother A Memoir, de Fethye Cetin, obrigaram os turcos a ver a questão arménia de “uma perspectiva humana”, conclui Aktar.

Cetin descobriu que a sua avó Seher escondia um segredo. Era uma arménia que se chamava Heranush. Tinha nove anos quando os massacres começaram.

Abrigou-se numa igreja enquanto os homens da sua aldeia eram assassinados e deitados ao rio. Forçada a mudar-se para a Síria, foi raptada e entregue a um polícia turca. Este criou-a como sua filha.

Histórias como a de Seher/Heranush abundam nas províncias orientais da Turquia. Os locais chamam a estes arménios sobreviventes “aqueles que a espada deixou para trás”.

“Nós pedimos desculpa”

Uma petição online em que 200 intelectuais turcos pedem desculpa aos arménios pela “grande catástrofe” de 1915 atraiu 30 mil assinaturas. Baskin Oran, pioneiro da iniciativa, está ameaçado de morte mas feliz porque a Turquia começou a enfrentar os “fantasmas do passado”.

Baskin Oran, o intelectual turco que decidiu “pedir desculpa” pela “grande catástrofe arménia” – sem usar o termo “genocídio – e por isso foi insultado por ultranacionalistas
© pirha.net

O sociólogo Baskin Oran recebe diariamente centenas de “mensagens de ódio e ameaças de morte” desde que, a 15 de Dezembro de 2008, lançou na Internet a campanha Ozur Dileriz (Nós pedimos desculpa) pela “grande catástrofe” arménia de 1915, sob o Império Otomano.

“Eu e os meus três amigos estamos a ser protegidos por guarda-costas destacados pelo governo”, disse-nos Oran, por e-mail, referindo-se a Ahmet Insel, Ali Bayramoglu e Cengiz Aktar, os outros promotores da campanha a que aderiram desde logo 200 intelectuais turcos.

“Não posso conscientemente aceitar a indiferença da Grande Catástrofe que os arménios otomanos sofreram em 1915, e a sua negação”, diz a petição online. “Rejeito esta injustiça e, agindo por minha própria iniciativa, partilho os sentimentos e a dor dos meus irmãos e irmãs arménios, e peço-lhes desculpa.”

Oran explica que a ideia de lançar esta campanha nasceu em 2005 quando um grupo de académicos e historiadores organizou a primeira conferência sobre os arménios otomanos. “Mas é claro que o assassínio de [Hrant] Dink reforçou a nossa determinação”, acrescentou, numa alusão ao jornalista arménio-turco morto a tiro em 2007, em Istambul. A sua morte gerou manifestações de solidariedade, sob o lema “Somos todos arménios”, como jamais se vira na Turquia.

“Eu digo que não há responsabilidade colectiva nas leis penais no que concerne aos horrores de 1915, mas tem de haver uma consciência colectiva”, acentua Oran.

“Isto é, não importa não termos sido responsáveis por 1915, ainda assim temos de pedir desculpa aos nossos amigos arménios. Digamos que há dois tipos de consciência na Turquia e em toda a parte: uma humanitária e outra nacionalista”.

O assassínio de Hrant Dink (na foto), jornalista arménio-turco, em 2007, em Istambul, gerou manifestações de solidariedade, sob o lema “Somos todos arménios”, como jamais se vira na Turquia. Foi também o impulsionador da iniciativa de Baskin Oran
© armenpress.am

Quando Baskin Oran lançou Nós Pedimos Desculpa, os que na Turquia o chamaram de “traidor da identidade turca” puseram em marcha duas contra-campanhas: Não pedimos perdão e Espero um pedido de perdão (pelas alegadas atrocidades cometidas por arménios no mesmo período).

Estas críticas, que terão atraído “dezenas de milhares” de signatários, não retiraram a Oran a satisfação de dever cumprido.

“Conseguimos 30 mil assinaturas, mas estamos prestes a terminar porque já atingimos os nossos objectivos: a plena discussão do ‘problema’ na Turquia e a manifestação de solidariedade com os nossos amigos arménios”, sublinhou.

Entre os detractores do académico não estão apenas ultranacionalistas turcos (que chegaram a envolver-se em agressões físicas e verbais no Parlamento de Ancara quando a campanha foi discutida) mas também representantes da diáspora arménia, que esperavam ver reconhecidos os massacres como “genocídio” e não “grande desastre”.

Manifestantes erguem velas e fotografias de vítimas numa cerimónia, em Istambul, evocativa do genocídio arménio
© Murad Sezer | Reuters

“As diásporas sempre foram mais nacionalistas”, justifica Oran. “Eles podem aprender, pensar e falar mais livremente. Têm também uma ‘causa’ nacional que é manter uma distinta identidade arménia num ambiente cristão. Na sua ideologia de linha dura são muito encorajados pela atitude negacionista do Estado turco.”

“Dezenas de milhões de pessoas sentem-se ameaçadas na Turquia”, observa Oran. “Ameaçadas por zombies – a questão curda, a questão arménia, a questão do islão, a questão de Chipre. Os turcos nunca resolveram nenhum grande problema desde 1915; agora esses cadáveres reaparecem juntos para nos aterrorizar.”

Exultante com a iniciativa Ozur Dileriz, Amberin Zaman, correspondente da revista The Economist na Turquia e ela própria turca, comentou:

– “Quando olharmos para esta campanha daqui a uns anos, não tenho dúvidas de que será vista como um ponto de viragem – não só para a reconciliação entre turcos e arménios mas, mais importante, por ter conseguido fazer com que a Turquia encerrasse um dos mais obscuros capítulos do seu passado recente.”

“Concorde-se ou não com a fraseologia usada, foi aberto um debate sem precedentes sobre o que aconteceu aos arménios otomanos. Enviou-se ainda um forte sinal de que a reaproximação entre os governos da Turquia e da Arménia ultrapassou em muito o desejo bem real a nível da sociedade de cicatrizar as feridas e seguir em frente. O génio está agora verdadeiramente fora da lâmpada.”

Oran também está confiante: “A normalização de laços entre a Turquia e a República da Arménia vai mudar muito a atmosfera – mesmo que uma parte da diáspora arménia não goste.”

Esta fotografia de 1915 mostra soldados otomanos junto dos crânios de vítimas numa aldeia arménia na Turquia
© Museu do Genocídio Arménio em Ierevan (Arménia)

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO, em 26 de Abril de 2009 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 26, 2009

Mata-te e limpa a nossa honra

Na Turquia, numerosas mulheres são forçadas ao suicídio para “lavar a vergonha” das famílias. Fecham-nas num quarto e dão-lhes veneno para ratos, uma pistola ou uma corda. São três de muitas opções. Os crimes de “honra” continuam a um ritmo de “mais de 5000 por ano”. São cometidos em comunidades religiosas e não religiosas. E entre as vítimas também há homens. (Ler mais | Read more…)

Pintura de denúncia de crimes de honra, violações e abusos contra mulheres. A artista iraquiana Havy Kahraman, a autora, sente que é sua obrigação envolver-se nestas causas. © Hayv Kahraman

Pintura de denúncia de crimes de honra, violações e abusos contra mulheres. A artista iraquiana Hayv Kahraman, a autora, sente que é sua obrigação envolver-se nestas causas
© Hayv Kahraman

Em Batman, já cognominada “cidade dos suicídios”, no Sudeste da Anatólia (Turquia), Derya, de 17 anos, percebeu que tinha de pôr termo à vida quando recebeu no telemóvel a seguinte mensagem, enviada por um tio: “Mata-te e limpa a nossa honra ou seremos nós a fazê-lo.” O seu crime? Ter-se apaixonado por um rapaz que conhecera na escola.

Sob intensa pressão, convencida de que havia “cometido o maior pecado do mundo”, Derya procurou “respeitar os desejos” da família, mas falharam as suas três tentativas: primeiro afogar-se no rio Tigre, depois enforcar-se e, finalmente, cortar os pulsos. Está agora num refúgio para mulheres, e foi aqui que contou a sua história ao jornal The New York Times.

Derya não é a única rapariga em Batman (pronuncia-se bot-mon), e noutras localidades da Turquia intimada por parentes, próximos e/ou afastados, a suicidar-se.

Desde que, em 1 de Junho de 2005, entrou em vigor um código penal que prevê prisão perpétua para os que cometerem crimes de “honra”, muitas famílias optam por esta “solução”. Evitam assim perder dois filhos – a rapariga que é morta e o rapaz que é preso, porque a matou.”

É impossível quantificar os suicídios forçados, mas temos a sensação que são mais desde que as novas leis começaram a ser aplicadas”, diz-me, numa entrevista por telefone, Meltem Agduk, que há seis anos é coordenadora na Turquia do programa de igualdade de género do Fundo das Nações Unidas para a População (UNPF, sigla em inglês) e há 20 milita pelos direitos das mulheres e contra a violência de que são vítimas.

No seu trabalho de campo e com diversas instituições, Meltem Agduk confirma a existência de casos em que raparigas são encerradas num quarto com veneno de ratos, uma pistola e uma corda. Têm de escolher um deles para se suicidarem. Geralmente, esta clausura é deliberada em conselho familiar.

Se a “condenada” não conseguir fazer o que lhe ordenaram – e algumas chegam a estar fechadas durante dias -, caberá ao irmão ou a um primo mais novo a “tarefa” de a eliminar. Ter menos de 18 anos pode ser atenuante na hora de o juiz ler a sentença.

© Hayv Kahraman

© Hayv Kahraman

Meltem Agduk admite que o número de suicídios é maior no Leste e Sudeste da Turquia, mas alerta que os crimes de “honra” são um fenómeno generalizado em todo o país e não se circunscrevem à minoria curda.

O que acontece na Turquia está, todavia, a repetir-se no Curdistão iraquiano, onde o governo autónomo também modificou o código penal. Há cada vez mais raparigas a tentarem o suicídio, a maioria imolando-se pelo fogo.

Um dos casos registados pela ONG Kurdish Women’s Rights Watch foi o de Rojan, de 13 anos, que sobreviveu com 99 por cento do corpo queimado. A mãe alegou que a filha foi vítima de “uma explosão acidental de gás”, mas o irmão, Wishyar, revelou à polícia que Rojan foi aconselhada a matar-se por ter recusado a ordem de um tio para se casar com um desconhecido de 28 anos.

“Há bases razoáveis para depreender que alguns dos suicídios registados são, na realidade, assassínios disfarçados”, concluiu Yakin Ertürk, relatora especial da ONU, num relatório apresentado em 2007, depois de uma missão a pedido do secretário-geral, para avaliar a violência contra as mulheres. “Noutros casos, os membros da família terão instigado os suicídios”, um acto criminalizado pelo artigo 84 do novo código penal.

O que é a “honra” que leva famílias a matar ou a exigir o suicídio das suas meninas e mulheres? Para a activista Meltem Agduk, “é uma questão cultural, mais do que religiosa”. O problema, afirma, “é que os homens querem ter poder, porque prevalece uma relação de desigualdade numa sociedade patriarcal. Se as mulheres ignoram as regras estabelecidas pelos homens, estes consideram que é um ataque à sua honra e merece castigo.”

Na Turquia, adianta Agduk, “há dois tipos de líderes religiosos, um que está directamente subordinado ao governo e que considera ‘um pecado’ matar as mulheres para defender a ‘honra’; e outro que está ligado a seitas islâmicas, mais moderadas ou mais fundamentalistas, que considera legítimo os assassínios e suicídios para lavar a ‘honra’ da família”.

A antropóloga norueguesa Unni Wikan, autora da aclamada obra In Honour of Fadime: Murder and Shame explica-me, por e-mail, que “‘honra’ significa coisas diferentes em tempos e lugares diferentes” Para casos como o de Derya, em Batman, “a ‘honra’ depende do controlo social/sexual das mulheres da família.”

“A honra é colectiva, partilhada por uma família ou clã, e pode ser perdida se uma rapariga ou uma mulher na família se comporta indecentemente. Neste sentido, a ‘honra’ é uma questão de reputação mais do que de comportamento. A ‘honra’, aqui, é uma questão de cultura ou tradição, não de religião, embora a religião possa ser usada ou abusada para apoiar noções específicas de honra.”

Há provas documentais, sublinha Wikan, de que os crimes de “honra” são cometidos entre cristãos, muçulmanos, hindus, sikhs, confucionistas, “assim como entre não-religiosos; a religião não é a questão”.

Na Índia, por exemplo, os crimes de “honra” representam mais de 10 por cento de todos os homicídios nos estados de Haryana e Punjab, no Norte, segundo a All India Democratic Women’s Association (AIDWA). São mulheres e homens, mortos “em nome da família, da comunidade ou da casta”.

Um destes casos foi o de Geeta Rani, de Hoshiarpur (Punjab), cujo marido, Jasveer, foi morto por um grupo de homens da aldeia dela por pertencer a uma casta “inferior”. Amputaram-lhe as mãos e as pernas antes de o assassinarem, segundo registos da AIDWA.

© Hayv Kahraman

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A Amnistia Internacional e as Nações Unidas calculam em mais de 5000 os crimes de “honra” cometidos em todo o mundo. “Em algumas sociedades, como o Paquistão, onde o número é de cerca de mil por ano, um terço das vítimas são homens”, revela Wikan. “Os homens vítimas de crimes de ‘honra’ são habitualmente mortos pela família das mulheres, não pela sua.”

Do que já foi feito na Turquia, onde “a namus [honra] é um valor importante na sociedade”, Meltem Agduk chama a atenção para o trabalho dos últimos 20 a 25 anos desenvolvido por ONG que lançaram campanhas contra os abusos, criaram refúgios para as vítimas e persuadiram o governo a envolver-se mais profundamente. “Se o código penal mudou, foi em grande medida graças à pressão destas organizações”, frisou.

Em 2005, por exemplo, foi criada uma comissão de inquérito parlamentar à violência sobre mulheres e aos crimes de “honra”, em particular. “A comissão apresentou um relatório e logo a seguir o primeiro-ministro emitiu directrizes. Agora, polícias, juízes, conselheiros, assistentes sociais e outros recebem formação profissional para combater actos de violência sobre as mulheres.”

Agduk está particularmente orgulhosa, porque “cada vez mais mulheres se sentem encorajadas a ir à polícia – as queixas nas esquadras aumentaram -, por saberem que vão encontrar apoio do governo”. “[Recentemente], acabámos um curso de treino de polícias, que envolveu uns 40 mil agentes”, exultou.

Apesar do caminho já percorrido, a coordenadora da ONU avisa que “este é um problema que só pode ser resolvido com uma mudança de comportamento – e isso vai demorar tempo a acontecer. Levará anos, senão mesmo séculos.”

“Estamos a tentar educar os homens a insurgir-se contra a violência e os crimes de ‘honra’, mas só poderemos acabar com isto se houver uma mudança de atitudes. Estes crimes estão muito ligados à estrutura cultural da comunidade.”

Uma das acções que Agduk acredita virão a ser benéficas a longo prazo é o trabalho que, há cinco anos, vem fazendo junto das forças armadas. “O serviço militar é obrigatório na Turquia, onde todos os homens, entre os 18 e os 25 anos, têm de cumprir pelo menos um ano. O exército, pilar da sociedade, tem agora um curso obrigatório sobre violência contra as mulheres.”

Sobre os crimes de “honra” cada vez mais frequentes em países europeus, como o Reino Unido, a Holanda ou a Suécia, Agduk constata que “há uma tendência para os imigrantes serem mais conservadores do que se vivessem no seu próprio país”. O imigrante “sente que tem de proteger a sua família dos ‘perigos’ da sociedade que o acolheu – é muito difícil de explicar!”, acentua.

Unni Wikan também reconhece que as tradições “são muito fortes em algumas comunidades imigrantes, e até se reforçaram na Europa”. As razões “são complexas”, prossegue a professora de Antropologia Social na Universidade de Oslo.

“Há um fracasso da integração em muitas sociedades europeias, e há pressão dos familiares e dos membros dos clãs ‘lá na terra’ para se conservarem as tradições. Manter o controlo das suas mulheres pode ser mais importante na Europa, onde o casamento abre portas ao green card – seguramente o caminho mais fácil para entrar na Escandinávia.”

Por que é que tantos crimes permanecem desconhecidos? “Há um código de silêncio nas comunidades imigrantes com um forte código de honra”, explica Wikan.

“As pessoas não falam nem testemunham em tribunal. Muitos crimes são ocultados como acidentes ou suicídios; o sistema judiciário também falha no reconhecimento da natureza do crime, por não compreender nem conhecer o código de honra.”

Unni Wikan começou a interessar-se pelo fenómeno dos crimes de “honra” na Europa em 1996 quando Sara, de 16 anos, foi morta por um irmão e um primo, de 16 e 17 anos, respectivamente. As provas indicaram que os dois rapazes foram “contratados” para o assassínio por cinco adultos da família, incluindo os seus pais. A família provinha do Curdistão iraquiano.

© Hayv Kahraman

© Hayv Kahraman

Entre os crimes de “honra” que mais chocaram Wikan está o de Fadime Sahindal em Uppsala, na Suécia, que deu origem ao seu livro. Outro, que muito a afectou e escandalizou, foi o assassínio de Ghazala Khan, de 18 anos, pelo seu irmão, em 2005, na Dinamarca.

O marido de Ghazala ficou mortalmente ferido, mas sobreviveu. Nove pessoas foram condenadas neste processo, incluindo o pai – que mandou o filho cometer o crime, tios e tias. “O pai, que era um homem digno, vivia na Dinamarca há 30 anos e falava fluentemente dinamarquês.”

Quanto a Meltem Agduk, disse que ficou perturbada com o caso de S. (pediu para não dar o nome da vítima porque a investigação nunca foi concluída), executada em Fevereiro de 1996, por volta das 16h locais, na praça central da aldeia de Sanh Urfa.

Um primo cortou-lhe a garganta com uma faca, enquanto os seus dois irmãos lhe agarravam os braços. A vítima tinha 16 anos e o atacante 14. S. foi acusada de se “afastar de casa e com isso ter colocado o nome na rua”.

Embora o homicídio tivesse sido cometido numa área muito movimentada e à luz do dia, ninguém se apresentou como testemunha. Exames forenses concluíram que era virgem. Nestas famílias, observou Unni Wikan, “a reputação significa mais do que a verdade”.

Hayv Kahraman Kahraman’s empathic approach towards crimes related to the female gender is evident in the Asian-influenced paintings she creates. Her work involves honour killings, rape and inequality towards women. She feels it is her duty to be involved in these matters, as both artist and female © Hayv Kahraman

© Hayv Kahraman

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 18 de Abril de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 18, 2009

Tributo a um amor proibido

No dia do funeral de Fadime Sahindal, morta pelo pai, curdo da Turquia que não aceitou o namoro da filha com um sueco, Unni Wikan decidiu escrever um livro sobre os chamados “crimes de honra”. (Ler mais | Read more…)

A vida de Fadime Sahindal ficou com os dias contados quando decidiu tornar público o seu amor pelo sueco Patrik Lindesjö, fez queixa do pai e do irmão, e estes foram acusados e condenados. “A incriminação oficial foi a humilhação final – prova de que os homens perderam o controlo”. © Direitos reservados | All Rights Reserved

A vida de Fadime Sahindal ficou com os dias contados quando decidiu tornar público o seu amor pelo sueco Patrik Lindesjö, fez queixa do pai e do irmão, e estes foram acusados e condenados. “A incriminação oficial foi a humilhação final – prova de que os homens perderam o controlo”
© memini.co

Em Fevereiro de 2002, entre as 2000 pessoas que encheram a antiga catedral da cidade de Uppsala, na Suécia, e outras 2000 que esperaram ao frio e à chuva para lhe prestar homenagem, estavam a princesa Vitória, herdeira do trono, o presidente do Parlamento, os ministros da Integração e da Justiça, e outros dignitários. Também lá estavam 250 membros da família, cujo “chefe” ordenou o seu assassínio.

Fadime Sahindal, 25 anos, foi morta pelo pai, um curdo da Turquia que vivia na Suécia há duas décadas mas foi incapaz de aceitar que a filha namorasse com o sueco Patrik Lindesjö. A sua história é contada pela norueguesa Unni Wikan, professora de Antropologia Social na Universidade de Oslo, no livro In Honour of Fadime: Murder and Shame.

O assassino de Fadime, que Wikan descreve como “obcecado com as noções de honra e desonra”, já havia ameaçado matar a filha várias vezes. Em 1998, pai e irmão espancaram-na. Ela fez queixa à polícia e os dois homens foram condenados. Um segundo ataque do irmão valeu a este cinco meses de cadeia.

“Fadime receava constantemente pela vida”, escreve Wikan no seu livro, onde deixa bem claro que “os crimes de “’honra’ pressupõem uma audiência que os aprova, um grupo de pessoas que recompensará o assassino – é isto que os distingue” dos crimes passionais ou de ciúmes.

“O sentimento de vergonha pode, é certo, ser profundo, sem os ‘outros’ saberem”, adianta Wikan a quem a Noruega atribuiu em 2004 o Prémio Liberdade de Expressão. “É verdade que se pode sofrer em segredo com insultos e humilhações. Mas no contexto das tradições em causa, só se pode ficar ‘limpo’ depois da vergonha ser conhecida. (…) A vergonha depende da desonra se ter tornado um facto para os de fora.”

A história de Fadime Sahindal é contada pela norueguesa Unni Wikan, professora de Antropologia Social na Universidade de Oslo, no livro In Honour of Fadime: Murder and Shame
© morgenbladet.no

A vida de Fadime ficou com os dias contados a partir do momento em que ela decidiu tornar público o seu amor por Patrik, fez queixa do pai e do irmão, e estes foram acusados e condenados. “Isso atiçou as chamas da raiva familiar em ebulição. A incriminação oficial foi a humilhação final – a prova de que os homens perderam o controlo.”

Para Unni Wikan, o pai de Fadime, membro do clã Sahindal, poderoso e influente na Turquia, também é “vítima de uma cultura que lhe exige não aceitar qualquer desafio à sua honra”, uma cultura onde “o grupo estrangula o indivíduo”.

Os problemas de Fadime começaram quando o pai, depois de a ver na rua com Patrik, em 3 de Setembro de 1997, lhe fez um ultimato: ou se separava de Patrick ou da família. Ela escolheu Patrick. Mas Patrik morreu num desastre de automóvel (não suspeito) a 3 de Julho de 1998, o dia em que ambos iam morar juntos.

Apesar da perda, a jovem manteve-se determinada, reclamando “os direitos de quem vive num país livre”. Em 11 de Setembro de 2001, regressou de Nova Iorque em estado de choque depois dos atentados da al-Qaeda. Pediu aos amigos que, se algo lhe acontecesse, queria ser enterrada no mesmo lugar onde sepultaram o namorado.

Em 2002, a menina que chegou a Suécia aos 7 anos de idade, foi morta pelo pai, aos gritos de “sua prostituta!”, com um tiro no rosto e outro na nuca, à queima-roupa.

No dia do funeral, rompendo as tradições que dão aos homens o exclusivo de carregar os caixões, o de Fadime foi erguido por seis mulheres vestidas de negro e cabeça destapada.

Perante um funeral “quase de Estado”, transmitido em directo pela televisão nacional sueca, a família (“não muçulmana”, dizem uns, “muçulmana mas não praticante”, dizem outros), teve de aceitar que, até na morte, Fadime Sahindal quebrou tabus. Jaz ao lado de Patrick no cemitério de uma catedral
© sverigesradio.se

Perante um funeral “quase de Estado”,  transmitido em directo pela televisão nacional sueca, a família (“não muçulmana”, dizem uns, “muçulmana mas não praticante”, dizem outros), não teve outro remédio senão aceitar que, até na morte, Fadime quebrasse tabus. Jaz ao lado de Patrick no cemitério de uma catedral.

Outros casos posteriores na Escandinávia e na Grã-Bretanha, em 2002, impeliram Unni Wikan a “tentar explicar ao grande público e aos políticos o que está em jogo: quantas raparigas na Europa se arriscam a ser mortas pelas suas próprias famílias por escolherem um modo de vida independente ou por motivos triviais.”

“Eu posso falar com autoridade porque tenho um sólido percurso profissional, nacional e internacional, e sou fluente em árabe. Esta língua permite-me entender os muçulmanos”, disse-nos a antropóloga, por e-mail.

“Acho que tenho o direito cívico de usar o meu conhecimento de diversas culturas e sociedades para, ainda que com possibilidades limitadas, melhorar o mundo. Dou imensas entrevistas a rádios, televisões e jornais, faço numerosas palestras por ano para todos os tipos de audiências, escrevo artigos de opinião, sou chamada como antropóloga em sessões de tribunal – umas vezes a pedido da defesa, outras da acusação.”

Em 2002, Fadime Sahindal, a menina que chegou a Suécia aos 7 anos de idade, foi morta pelo pai, aos gritos de “sua prostituta!”, com um tiro no rosto e outro na nuca, à queima-roupa
© nettavisen.no

Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO  em 18 de Abril de 2009| This article was originally published in Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 18, 2009

Nora al-Fayez entrou no governo e fez história na Arábia Saudita

A ministra adjunta da Educação (só para raparigas) comunica com o seu chefe por um circuito fechado de televisão – a segregação mantém-se. Mas algo poderá estar a mudar na Casa de Saud, quando uma mulher aparece (numa foto) de rosto destapado ao lado do homem que vai liderar a temível polícia religiosa. Esta é a sua primeira entrevista a um jornal ocidental. (Ler mais | Read more…)

Socióloga de 54 anos, formada nos EUA, Nora al-Fayez tutelou apenas a “educação de raparigas”, mas o simbolismo da sua nomeação é inegável

Uma semana antes de 14 de Fevereiro, Dia de São Valentim, os pregadores nas mesquitas da Arábia Saudita relembram aos fiéis que é “pecado” celebrar este mártir cristão, decapitado em 270 por realizar casamentos proibidos pelo imperador romano Cláudio II.

A polícia religiosa ou Comissão (Hai’a) para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, não descansa enquanto não confiscar tudo o que de vermelho aparecer nas lojas, sejam rosas ou ursos de peluche. Comerciantes e clientes são multados, detidos e/ou chicoteados.

Este ano [2009], porém, os temíveis mutaww’in tiveram uma inesperada prenda no Dia dos Namorados: o seu chefe foi demitido e uma mulher escolhida – pela primeira vez – para entrar no governo, assumindo uma pasta que pertencia ao “mais conservador e barbudo” zelota do reino.

Abdullah Bin Abdul Aziz, o octogenário monarca absoluto [que morreria em Janeiro de 2015, aos 90 anos], surpreendeu os súbditos ao nomear Nora al-Fayez ministra-adjunta da Educação [ou vice-ministra].

Socióloga de 54 anos, formada nos Estados Unidos, ela será apenas responsável pela “educação de raparigas” (da pré-primária ao liceu), mas o simbolismo não esmorece. A sua tarefa era exclusiva de um departamento totalmente masculino – a maior promoção até agora era a supervisora ou reitora.

O assombro aumentou quando a foto da sorridente Norah Al Fayez foi publicada na primeira página do Al Eqtisadiya (versão saudita do Financial Times).

De rosto maquilhado e descoberto, sem a abaya (túnica) negra que tapa o corpo da cabeça aos pés e apenas com um hijab (lenço) invulgarmente branco a ocultar o cabelo, ela aparece na mesma galeria do também recém-designado chefe da Hai’a, Abdul Aziz bin Humain.

Na primeira entrevista, ao diário árabe Al Watan, Nora al-Fayez declarou-se indignada, “mas disposta a perdoar”, por terem ousado expor os seus bâton, blush, eyeliner e rímel sem autorização.

“Fiquei profundamente perturbada, e nunca aceitaria que publicassem a minha foto em lado nenhum. Sou uma mulher saudita de Najd [a mais conservadora região, onde nasceu o rei e o fundador da doutrina wahabita] e uso o niqab [que apenas deixa ver os olhos]. Se tivesse instaurado um processo em tribunal, ganharia de certeza”, explicou.

Disse ainda que não sabia onde o Al Eqtisadiya foi buscar a imagem mas, quando a contactei (vários telefonemas, SMS, faxes e e-mails) para esta entrevista –, a primeira a um jornal ocidental – encaminhou-nos, sem qualquer restrição, para a mesma fonte: a edição digital de Leaders of Saudi Arabia.

O académico americano Toby C. Jones, que estuda as monarquias árabes, nota: “Mais radical teria sido designar uma mulher como responsável pela educação dos rapazes – isso, sim, seria um passo revolucionário”
© Middle East Monitor

Oriunda de uma das mais importantes tribos pré-islâmicas, os Bani Tamim, antepassados dos Quraysh, do profeta Maomé, compreende-se que Nora al-Fayez não quisesse ofender a sua base. Essa inquietude desapareceu, aparentemente, quando as perguntas chegaram do estrangeiro e ela viu aqui a oportunidade de passar uma imagem “moderna” do berço de Osama bin Laden.

Foi no dia 12 de Fevereiro, dois dias antes do decreto real, que Nora al-Fayez recebeu um telefonema da corte a convidá-la para entrar na história de um país onde as mulheres têm sido privadas dos seus direitos básicos com base na rígida teologia wahhabita. “Foi um momento sublime, a nível pessoal”, disse-nos, por correio electrónico.

“É uma honra assumir as grandes responsabilidades que Sua Majestade me conferiu. (…) É, definitivamente, um passo no sentido de dar às mulheres papéis de relevo que elas saberão desempenhar nos círculos onde se tomam decisões.”

“A minha nomeação reflecte a visão de Sua Majestade de que a educação é uma prioridade estratégica da nossa nação, que as mulheres e os homens sauditas podem ajudar a transformar o sistema educativo, para desenvolver os recursos humanos e ir ao encontro das exigências de um mundo cada vez mais competitivo”, explicou.

“De início, fiquei intrigada com a questão ‘porquê eu?’, mas agora estou mais ocupada em obter respostas para o que pode ser feito, e como fazê-lo da maneira mais correcta e positiva.”

“Acredito que qualquer problema pode ser resolvido se formos até às suas raízes, e não nos limitarmos a um conserto rápido, nem nos centrarmos nos efeitos secundários. Homens e mulheres podem obter soluções duradouras para grandes problemas – e um deles é o analfabetismo [13,7 por cento em 27 milhões de habitantes]”.

Quem encorajou a abertura das primeiras escolas para meninas na Arábia Saudita foi Iffat al-Thunayan, a terceira e favorita mulher do rei Faisal, em 1956. Enfrentou tribos e imãs para introduzir uma educação secular que não fosse apenas a das madrassas (seminários religiosos mais do que escolas)
© qswownews.com

O combate ao analfabetismo não é, porém, a razão número um para mudar o sistema educativo, mas sim o controlo deste por extremistas religiosos, sobretudo os salafistas, que em 1979 (ano da Revolução Islâmica no Irão) tentaram derrubar a Casa de Saud com um ataque à Grande Mesquita de Meca.

São os salafistas, defensores da jihad (guerra santa), os mentores da al-Qaeda, a rede que atacou primeiro nos EUA, em 11 de Setembro de 2001 (15 dos 19 suicidas eram sauditas), e depois em Riad, a capital do reino, em 2003.

Se a nomeação de Nora Al Fayez é histórica, igualmente memorável é o afastamento de Ibrahim al-Gaith, o anterior chefe da polícia religiosa, cuja brutalidade e poderes começaram a ser questionados, em 2002.

Em Março deste ano, um incêndio deflagrou numa escola e os bombeiros foram impedidos pelos mutaww’in de socorrer as 835 alunas e 35 professoras. “Não estavam vestidas de acordo com o código islâmico”, e 15 crianças morreram queimadas.

Em 2007, mais um escândalo abalou a imagem da Casa de Saud: o “crime de Qatif”, cidade no Leste, onde a mais odiada instituição do país – os seus agentes vagueiam pelas ruas ou espreitam às esquinas, munidos de varapaus – condenaram a prisão e 200 chicotadas uma adolescente vítima de violação.

Outra decisão notável do rei foi a demissão de Saleh al-Lihedan, presidente do Supremo Conselho de Justiça, o mais importante tribunal do reino –, que em Setembro de 2008 emitiu uma fatwa (édito religioso) legalizando o assassínio de quem possuísse antenas parabólicas para captar “programas de conteúdo imoral”.

Em 1963, o rei Faisal chegou a mobilizar as forças de segurança para reprimir uma revolta de beduínos que recusavam enviar as filhas às aulas. Em 2009, quando Nora Al Fayez chegou ao governo, havia cerca de “12 mil escolas só para raparigas e o número de alunas ultrapassava os 2,5 milhões”
© Wall Street Journal

Na era da Al Jazeera (com sede no Qatar) e da Al Arabiya (estação de capitais sauditas), a condenação foi geral.

A leitura que Nora al-Fayez faz do decreto real de 14 de Fevereiro é a de que a Arábia Saudita “quer mudar o futuro dos seus jovens, homens e mulheres”.

E acrescenta: “O mercado de trabalho está a enviar os sinais certos de que como deve funcionar em paralelo com as reformas educativas. Ao longo da minha carreira como directora-geral da secção feminina do IPA [Instituto de Administração Pública], adquiri um sólido conhecimento de quais as profissões que o mundo do trabalho precisa e não precisa.”

“Além disso, todos sabem que a taxa de desemprego é maior entre as mulheres. Ora, se a integração das mulheres for um valor acrescentado, irá equilibrar a balança, e estabelecer uma nova dinâmica de igualdade e importância de género no mercado de trabalho.”

O desafio, adianta a técnica que desde 1984 tem estado ligada a escolas públicas e privadas, “é formar cidadãos que não sejam obrigados a pôr em prática reformas, mas que sejam verdadeiros crentes nas reformas (ou nos méritos que estas têm)”.

As universidades sauditas “mantêm um compromisso intocável com os valores islâmicos, mas precisamos de melhorar a qualidade dos nossos eruditos”, sublinhou, numa implícita alusão aos que fazem uma retrógrada interpretação dos textos religiosos.

Em Março de 2019, Nora al-Fayez (à esq.), afastada do Governo pelo rei Salman, foi homenageada na Universidade de Taif por “quatro décadas de uma carreira extraordinária”
© Asharq al-Awsat

Quem encorajou a abertura das primeiras escolas para meninas na Arábia Saudita foi Iffat al-Thunayan, a terceira e favorita mulher do Rei Faisal, em 1956. Enfrentou tribos e imãs para introduzir uma educação secular que não fosse apenas a das madrassahs (seminários religiosos mais do que escolas).

Em 1963, Faisal chegou a mobilizar as forças de segurança para reprimir uma revolta de beduínos que recusavam enviar as filhas às aulas. Hoje, diz Norah Al Fayez, “há 12 mil escolas só para raparigas e o número de alunas ultrapassa os 2,5 milhões”.

Segundo a UNESCO, são mulheres 70 por cento dos alunos inscritos nas universidades sauditas, 56 por cento dos licenciados e 40 por cento dos que concluem o doutoramento. No mercado de trabalho, porém, elas representam apenas 5 por cento da força activa – a mais baixa taxa em todo o mundo.

Wajeha al-Huwaider, uma das mais importantes fundadoras da Associação para a Protecção e Defesa dos Direitos das Mulheres na Arábia Saudita, relata-nos, por telefone, que “as mulheres são encorajadas a estudar nas universidades sauditas para serem médicas, enfermeiras, professoras e até banqueiras, mas se quiserem ser engenheiras, geólogas, arqueólogas ou jornalistas terão de se formar no estrangeiro”.

Quando regressam, “terão dificuldades em encontrar emprego, com raras excepções na indústria do petróleo”, de que o reino é o maior produtor mundial.

“Todo o sistema está concebido para perpetuar a segregação. Cerca de 90% dos empregos estão reservados aos homens – porque eles têm medo das capacidades das mulheres. Os homens sauditas são mimados. Sem competição, não precisam de se esforçar para realizar sonhos.”

A activista que, desde 1990, lidera a campanha para que as mulheres possam conduzir (seja automóveis ou bicicletas) no único país do mundo onde estão proibidas de o fazer saudou a nomeação de Nora al-Fayez como “uma coisa boa”, motivada pela tomada de consciência de que “a Arábia Saudita já não é vista apenas como a terra do petróleo mas também de terroristas”.

Em 2017, pela primeira vez, a Arábia Saudita introduziu a educação física no currículo das escolas para meninas – uma das medidas que Nora al-Fayez sempre quis aplicar, mas que enfrentava a oposição dos ultraconservadores do reino
© South China Morning Post

No entanto, ressalva Wajeha, “fazer parte do governo não significa que Norah venha a ter margem de manobra para grandes mudanças”. E uma das mudanças mais prementes “é revogar a lei do mahram ou guardião masculino que nos retira o controlo da nossa vida. Não temos qualquer poder de decisão, sobre estudos, trabalho, casamento, sair de casa ou viajar, nem sequer sobre tratamentos médicos, sem a aprovação de pai, irmão, marido, filho.”

“É um paradoxo que, sob o pretexto de não haver mistura entre homens e mulheres, não podermos guiar mas sermos forçadas a contratar estranhos para motoristas”, lastima-se Wajeha, 47 anos, divorciada e mãe de dois jovens (os seus tutores).

“Outra aberração é só os homens terem autorização para vender lingerie [muitos risos]. A nossa luta é pela mudança das leis, incluindo a que permite o casamento de meninas de 8 ou 9 anos.”

Wajeha não desvaloriza o decreto de Abdullah – o monarca que ascendeu ao trono em 2005 e em quem deposita “grandes esperanças” desde que era príncipe herdeiro.

As pessoas escolhidas para o Governo, entre eles, os novos ministros da Saúde, um cirurgião especialista em separar gémeos siameses, e o da Educação, príncipe Faisal bin Abdullah [cessou funções em Dezembro de 2013], cunhado do soberano, “são moderados que têm convivido com outras culturas e trouxeram novas ideias”, sublinhou.

Isso não significa, porém, que Nora al-Fayez vá ter uma relação de trabalho com Faisal como se vivesse no Utah, onde concluiu um mestrado em técnicas de educação na universidade estadual, em 1982, ou em Oxford, Bruxelas e Amesterdão, onde tem participado em palestras e seminários.

Se quiser falar com o príncipe ou com subordinados masculinos será – disse ela ao jornal Al Watan, “naturalmente, através de um circuito fechado de televisão”.

Uma das primeiras imagens públicas de Norah Al Fayez, após a nomeação para o Governo. @ Center for Human Rights & Democracy in Saudi Arabia

Uma das primeiras imagens públicas de Nora al-Fayez, após a histórica nomeação para o Governo do rei Abdullah, em 2009
©  Center for Human Rights & Democracy in Saudi Arabia

A experiência de ter ido para os EUA, logo após o casamento com o engenheiro Suleiman al-Suwlai e a licenciatura em Sociologia numa universidade de Riad, “foi um marco na carreira”, realça Nora al-Fayez.

“Aprendi com os livros, com os amigos e com os professores que a procura do saber é uma viagem de uma vida. Desde o primeiro trabalho na função pública, nunca mais deixei de desenvolver as minhas capacidades. Ao seguir a via do autoconhecimento, contribuo para a prosperidade do meu país”.

E qual o impacto das suas frequentes viagens pela Europa? “Tive a oportunidade de interagir e comunicar com pessoas de culturas diferentes. Apresentei-me como mensageira das mulheres sauditas, e mostrei que a nossa posição e estatuto têm sido muitas vezes denegridos por estereótipos negativos. Também aprendi a não olhar para as outras culturas a preto e branco, mas como um arco-íris.”

Sair do país, ao contrário do que acontece com a maioria das compatriotas, não parece ser um obstáculo para Nora. “A minha família adaptou-se ao meu estilo de vida. Aprendi a gerir o tempo, e acho que é possível construir uma grande carreira e manter um extraordinário equilíbrio em casa.”

“O sucesso não depende das circunstâncias. Requer devoção, disciplina e definição de prioridades profissionais. Começo o dia às 7h30, no meu gabinete. Às 14h30, almoço com a família e, as horas restantes, dedico-as a reuniões de trabalho ou a instituições de caridade a que estou ligada.”

“Tenho três filhos”, prossegue. “O mais velho, Bader, licenciou-se em marketing; o segundo, Shadi, é engenheiro aeronáutico; o terceiro, Mohammad, estuda Informática na América. Tenho duas filhas: Sarah está no 11º ano e Mashael está no 10º. Partilho com eles as minhas ambições. Recentemente, fui abençoada com a chegada de dois netos.”

Nora al-Fayez nasceu, em 1955, numa pequena vila nas proximidades de Riade, num lar de classe média. “Não tenho qualquer relação com a família real”, esclarece, desfazendo rumores a esse respeito. “Mas tenho orgulho em pertencer a esta amada nação onde todos os sauditas são uma família.”

[Em Abril de 2015, Nora al-Fayez foi afastada do cargo pelo novo rei Salman, sucessor de Abdullah, sem qualquer explicação oficial. Certo é que ela foi o motor para a introdução, em 2017, da educação física no currículos das escolas femininas, algo a que se opunham os círculos ultraconservadores agora marginalizados pelo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (MBS). Em Março de 2019, este contributo foi implicitamente reconhecido, quando a Universidade de Taif homenageou a ex-vice-ministra por “quatro décadas de uma carreira extraordinária”.]  

Em 2009, a revista TIME incluiu Nora al-Fayez, assim ilustrada, na sua lista dos “100 mais influentes” do mundo
© Jeffrey Smith

Reformas? Que reformas?

Toby Craig Jones, historiador da Casa de Saud, e Eman Fahad Al Nafjan, autora de um dos mais populares blogues sauditas, explicaram-nos o que significou o “decreto real do Dia dos Namorados”.

© alaraby.co.uk

A inédita nomeação de uma mulher para o Governo – pela primeira vez desde que a Arábia Saudita se tornou um Estado em 1932 – e uma remodelação nos ramos executivo, religioso e judicial “são sinais simbólicos, mas não mudanças significativas”, garante o historiador Toby C. Jones, antigo analista em Riade do think tank International Crisis Group e autor de Desert Kingdom: How Oil and Water Forged Modern Saudi Arabia, publicado em 2010.

“Não devemos esquecer que o rei Abdullah ascendeu ao trono, em 2005, depois de ter sido durante vários anos receptivo a um movimento interno que pedia reformas substanciais – se não a instauração de uma monarquia constitucional, pelo menos, a introdução de medidas que permitissem uma maior participação política dos súbditos”, diz-nos Jones, por telefone. “O que ele anunciou, a 14 de Fevereiro, não se aproxima, sequer remotamente, dessas reivindicações”.

Professor na Universidade de Rutgers (New Jersey, EUA), Jones concorda que a nomeação de Nora al-Fayez como ministra-adjunta da Educação (de raparigas), “é uma pujante mensagem, em consonância com a vontade que o rei tem demonstrado de atribuir mais poderes às mulheres”. No entanto, acrescenta, “não são estas as mudanças fundamentais que têm sido pedidas.”

Na opinião de Jones, Abdullah tinha de demitir Ibrahim al-Gaith, chefe do que alguns sauditas desdenham como “polícia do vício”, e Saleh al-Lihedan, presidente do mais importante tribunal do reino, porque ambos “representavam instituições fora de controlo”.

Por outro lado, “constituíam uma franja extremista do establishment religioso, e o regime já não se sentia confortável com a autoridade que exerciam. Era como se casa real estivesse a dormir com fanáticos. Enfraqueciam a monarquia. Se a Casa de Saud não agisse, ainda que timidamente, para controlar o ritmo das reformas, os extremistas acabariam por assumir o poder.”

© Reuters

O decreto do Dia dos Namorados “é uma resposta a pressões da sociedade”, acredita Jones. Mas não é o que diz Eman Al Nafjan, “uma liberal” de 30 anos, professora de inglês, filha de um oficial do Exército, casada com um engenheiro de computação, mãe de três filhos e autora de Saudiwoman’s Weblog, um dos mais populares blogues do reino.

“Não creio que tenha sido uma resposta à sociedade, porque a maioria da sociedade está feliz com os conservadores”, disse-nos, por e-mail. “Foi mais uma resposta às pressões do mundo exterior e das elites na Arábia Saudita. O establishment religioso tem aqui muita força, e o Governo tem de andar sobre uma linha ténue para não o hostilizar.”

Outros analistas regionais notaram que o rei foi aconselhado (o decreto não terá sido iniciativa pessoal) a escolher pessoas da sua própria tribo, para evitar convulsões sociais.

Todos os nomeados para o Governo – excepto o ministro da Cultura e Informação, Abdul-Aziz Al-Khoja (o sucessor de Iyad bin Amin Madani, que estava sob fogo por permitir liberdade de expressão aos que criticam as autoridades), – provêm da região central de Nejd. Sabem bem como lidar com os ultraconservadores sem grandes atritos.

Em todo o caso, quer Eman Al Nafjan quer Toby C. Jones enalteceram a escolha de personalidades de vários backgrounds tribais e culturais, e também de diferentes escolas do Islão, não apenas a rígida hanbalita, para o Grande Conselho dos Ulema, a mais alta autoridade religiosa (21 membros).

“É uma decisão ao encontro de vozes que têm sido marginalizadas por quem detinha o monopólio [da interpretação dos textos religiosos]”, justificou o académico norte-americano.

Sobre se a Casa de Saud está dividida quanto à necessidade de mudanças, Jones comenta: “Suspeito, mas não tenho a certeza, que o príncipe Nayef [ministro do Interior, que haveria de morrer em 2012] esteja mais próximo dos conservadores, e que o rei [e seu irmão] Abdullah simpatize com os reformistas.”

A blogger Eman, a completar o doutoramento em Linguística na Universidade de Riade após um mestrado na Universidade de Birmingham (Inglatera), afirma: “Não tenho muita informação sobre a família real, mas tenho a certeza que Abdullah é um tradicionalista convicto – ele tenta fazer reformas à maneira tradicional. A sua mãe é oriunda de uma tribo beduína, e as tribos beduínas tratam as mulheres com equidade”.

© STR | AFP | Getty Images
Financial Times

A Arábia Saudita, destaca Jones, mudou a partir de 1979 depois do ataque à Grande Mesquita de Meca. “Foi um momento de viragem. A partir daqui, a família real passou a dever a sua legitimidade ao establishment religioso.”

“Muitos falam na aliança entre a Casa de Saud e os wahhabitas, mas a aliança que mais pesa é com os salafistas, mais politizados e adeptos do confronto. [Próximos da Irmandade Muçulmana], vêem a Casa de Saud como um governo impuro.”

A escolha de Nora al-Fayez “deixou muitos entusiasmados, mas poucos acreditam que ela irá deter poder genuíno”, adianta Jones. “Há até o receio de que o Ministério da Educação se torne um gueto de onde as mulheres jamais poderão escapar.”

Eman Al Nafjan deu conta que, no passado dia 24, os jornais sauditas anunciavam que a educação das raparigas passará a ser exclusivamente uma missão das mulheres – até agora, era só de homens.

Jones nota que “mais radical seria designar uma mulher como responsável pela educação dos rapazes – isso, sim, seria um passo revolucionário. O rei poderia ter ido muito mais longe, mas a grande prioridade é preservar o seu poder.”

“Ter a certeza de que, ao fim do dia, não está sob ameaça de ninguém. Ao designar uma personalidade liberal e tecnocrata para uma posição de mínima responsabilidade não é muito diferente do que Abdullah tem feito, excepto que, desta vez, se trata de uma mulher.”

Que país é, afinal, a Arábia Saudita? “Não é um lugar maléfico”, responde Jones. “Não tem um regime prestes a cair e não está à beira de uma revolução. Acabará por se transformar, mas a muito longo prazo.”

Eman descreve a pátria: “São muitos países dentro de um só. Somos extremamente fechados. Um estranho que venha viver aqui, provavelmente, nunca saberá muito da nossa cultura e modo de viver, devido à natureza tribal e familiar da sociedade.”

Eman Al Nafjan

Toby C. Jones

Wajeha al-Huwaider
© acelebrationofwomen.org

Este artigo, com outro título e agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 28 de Março de 2009 | This article, under a different headline and now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 2, 2009

A Índia rendeu-se ao príncipe que assumiu ser gay em horário nobre

O marajá de Rajpipla deserdou e repudiou o filho quando ele confessou publicamente a sua homossexualidade. A reconciliação veio depois de Manvendra Singh Gohil aparecer no programa de Oprah Winfrey. A ONU deu-lhe um prémio pelo seu activismo na luta contra a sida. Encontrou o amor num reality show, mas não deu certo. Na primeira pessoa, esta é a sua história. (Ler mais | Read more…)

Manvendra Singh Gohil, descendente de uma dinastia com 600 anos, nasceu num berço de ouro, como ele próprio nos disse: “Tive todos os luxos reservados a um príncipe herdeiro. Nada me faltou – a melhor educação, a melhor alimentação, as melhores roupas, o melhor de tudo para a vida”. Mas não era feliz. @Renee Nowytarger/Newspix/Getty Images)

Manvendra Singh Gohil descende de uma dinastia com 600 anos. Nasceu num berço de ouro, como ele próprio disse: “Tive todos os luxos reservados a um príncipe herdeiro. Nada me faltou – a melhor educação, a melhor alimentação, as melhores roupas, o melhor de tudo para a vida”
© Renee Nowytarger | Newspix | Getty Images

Manvendra Singh Raghubir Singh Sahib Gohil é o meu nome completo, mas podem chamar-me Pink Prince. Não me ofendo, pelo contrário.

Os meus antepassados, provavelmente, já adivinhavam que teriam um descendente gay, porque eu vivo num palácio vitoriano cor-de-rosa em Rajpipla, distrito de Gujarat, um dos mais prósperos estados da Índia.

Nasci a 23 de Setembro de 1965 e sou o yuvaraj (príncipe) herdeiro do marajá (grande rei) Shri Raghubir Rajendrasinghji Sahib e da maharani (grande rainha) Rukmani Devi Sahiba. Tenho uma irmã mais nova, uma princesa que se casou com um príncipe de Jammu e Caxemira.

A minha dinastia, Gohil, tem aproximadamente 600 anos. À semelhança de outras famílias reais que governavam os seus domínios durante o Império Britânico, a minha aceitou integrar-se na União Indiana, após a independência em 1947. Em 1968, a República da Índia invalidou os títulos de nobreza.

O meu bisavô foi o último rei reconhecido, mas ainda mantivemos poderes e privilégios. Em 1971, a primeira-ministra, Indira Gandhi, desconfiada de que as famílias reais se estavam a tornar demasiado poderosas politicamente, retirou-nos prerrogativas e privilégios.

Hoje, o nosso papel é meramente protocolar, mas ainda muito respeitado pelo povo, porque somos guardiões das tradições.

Nasci num berço de ouro. Tive todos os luxos reservados a um príncipe herdeiro. Nada me faltou – a melhor educação, a melhor alimentação, as melhores roupas, o melhor de tudo para a vida.

Estudei em Bombaim (actual Mumbai). Fiz aqui toda a minha formação. Licenciei-me em Direito, mas nunca tive intenção de praticar.

O objectivo era ter conhecimento para gerir as nossas propriedades e bens. Se sabemos direito, não dependemos de advogados. Chegámos a ter 11 palácios, agora só temos três. Muitos foram vendidos e alugados.

O palácio onde nasci tinha 35 quartos – alguns fazem agora parte de um hotel, gerido por nós. Temos mais de 100 funcionários, 25 dos quais criados da família. Eu tenho cinco. A minha cozinheira, por exemplo, tem 65 anos, e o meu secretário 85 – vão comigo para todo o lado.

Há mais de dois séculos que os seus parentes trabalham para nós. Dependo muito dos meus criados. Tinha 15 anos quando atravessei sozinho uma rua, pela primeira vez.

Só para conduzir é que dispenso o chauffeur – ele viaja comigo no banco de trás. Apenas conduz quando eu estou cansado. De resto, fica a guardar o meu jipe ou o meu automóvel, e encarrega-se das questões de oficina.

Em 2018, numa decisão histórica, o Supremo Tribunal da Índia discriminalizou a homossexualidade, considerando que a discriminação com base na orientação sexual é uma violação dos direitos humanos
© huffpost.com

A relação com os meus criados é tão estreita que, quando comecei a ter lições de condução, fiz mal uma manobra, embati numa árvore e o instrutor saiu pelo vidro da frente com dois dentes partidos. Nunca quis ir ao dentista – disse-me que estar desdentado é uma boa recordação.

Talvez tenha sido essa dependência que levou Gareth McLean, do diário britânico The Guardian, a achar “fraquinho” o meu aperto de mão quando me entrevistou. Disse que eu estou “mais habituado a vénias”, o que é verdade.

O importante foi ele ter concluído que sou “um tipo doce, franco e amigável, embora um pouco desligado da realidade, talvez por ser da realeza”. Sim, é mais próxima a minha relação com os criados do que com os meus pais biológicos.

Uma governanta cuidou de mim desde que nasci. Não chamo mãe à minha mãe, nem pai ao meu pai. Trato ambos por Sua Alteza. Eles chamam-me príncipe. Se eu quiser encontrar-me com o meu pai, tenho de marcar dia e hora com os seus secretários pessoais.

É uma relação muito fria, formal. Não há amor, não há afecto. Por isso, não foi um grande desgosto quando o meu pai anunciou – depois de eu ter assumido publicamente a minha homossexualidade – que me retirava o título de príncipe herdeiro e me deserdava.

Ou quando a minha mãe publicou um anúncio nos jornais ameaçando processar quem dissesse que eu era filho dela.

Ashok Row Kavi, um dos primeiros activistas pelos direitos LGBT na Índia e director da newsletter Bombay Dost, foi fundamental para que o príncipe Manvendra aceitasse a sua homossexualidade: “Ele retirou-me o sentimento de culpa, o peso na consciência. Garantiu-me que eu era normal”
© Hindustan Times

Eu até percebo por que agiram assim. Foram pressionados por outros membros de famílias reais, receosos que eu, o primeiro a ousar “sair do armário”, identificasse quem, entre eles, eram os gays e as lésbicas – e eu sei bem quem são. Em todo o caso, as acções dos meus pais foram consideradas ilegais pelo Supremo Tribunal da Índia.

A descoberta da minha homossexualidade não foi fácil. Eu tinha 13 anos e percebi que não me sentia atraído por raparigas.

A minha avó escolheu um rapaz de 12 anos para tomar conta de mim, porque eu não podia misturar-me com plebeus, e as mulheres e homens têm aposentos separados nos palácios. Foi com esse rapaz que percebi a atracção por pessoas do meu sexo.

Andávamos a cavalo e nadávamos. Eu não gostava de actividades desportivas e preferia ler livros e ouvir música clássica. Aos cinco anos, aprendi a tocar harmónio.

Ainda hoje tenho lições em Bombaim, onde vou frequentemente. Tenho aqui um grande apartamento (e uma antiga mansão, que aluguei a um banco), onde me instalo com os meus cinco criados.

A princípio, pensei que o casamento mudaria a minha orientação sexual. Julgava que era uma fase temporária. Estava confuso e não tinha ninguém com quem desabafar.

A participação no programa de Oprah Winfrey permitiu a reconciliação do príncipe com os seus pais, que antes o haviam repudiado por ser gay
© saugatuck.gaycities.com

Comecei a ser apresentado a várias princesas e escolhi uma, Chandrika Kumari, de Jhabua, estado de Madhya Pradesh. Casámo-nos em 1991. Eu tinha 25 anos e ela 22. Foram 15 meses de fracasso.

Era uma relação de irmãos que não foi consumada. A princesa nunca chegou a saber que eu era homossexual. Nunca falámos no assunto. Ela pensou, inicialmente, que eu tinha outra mulher, mas depois convenceu-se de que não havia ninguém.

Em 1992, decidimos separar-nos e, no ano seguinte, anulámos o casamento. Em tribunal, assegurei que ela continuava virgem, e provei que não era impotente – ambos apresentámos atestados médicos.

Quando ela saiu do palácio, deu-me um conselho: “Por favor, que mais nenhuma rapariga seja infeliz por tua culpa.” Fiquei emocionado, e prometi que não voltaria a casar-me.

Por volta de 2000, começou a ser publicada uma newsletter chamada Bombay Dost (Amigo de Bombaim). Tinha uma tiragem limitada e eu comprava-a às escondidas. Lia-a na minha casa de banho. Comecei a corresponder-me com alguns leitores usando endereços de amigos, para ninguém me identificar.

Um dia telefonei a uma das pessoas que me escreviam e combinámos encontrar-nos na cantina da minha universidade.

Foi assim que conheci Ashok Row Kavi, o director de Bombay Dost, e o primeiro activista gay da Índia. Ele, curiosamente meu vizinho, retirou-me o sentimento de culpa, o peso na consciência. Garantiu-me que eu era normal.

Manvendra Singh Gohil ganhou celebridade quando entrou num reality show da BBC 3, Undercover Princes, juntamente com os príncipes Remigius Kanagarajah, do Sri Lanka, e Africa Zulu, da casa real sul-africana Onkweni: foi um convívio atribulado
© The New York Times

Em 2000, juntámos uns 60 homossexuais num dos meus palácios e, na presença de representantes do governo, fundei o Lakshya Trust, a primeira organização de prevenção contra o HIV/sida entre a comunidade gay de Bombaim. Dou a esta instituição, que tem três centros de aconselhamento e tratamento em Gujarat, 65 por cento dos meus rendimentos.

Em 2006, reconhecendo o valor do meu trabalho – também sou director da APCOM, uma coligação da Ásia-Pacífico que lida com a saúde sexual masculina –, as Nações Unidas atribuíram ao Lakshya Trust o Civil Society Award.

O prémio foi entregue pela Fundação Bill e Melinda Gates. O Lakshya Trust tem três centros em Gujarat. O seu trabalho é educar gays e toxicodependentes para prevenirem a propagação do HIV/ sida.

Planeamos também, para breve, a abertura de um hospício para doentes terminais. Temos cerca de 150 funcionários e ajudamos uns 17 mil homens.

A Índia tem 2,5 milhões de infectados – são dados oficiais, mais realistas do que os da ONU (que aponta para 5,7 milhões), porque se baseiam em censos locais, levados a cabo também com a nossa colaboração.

Não deixa de ser trágico, a Índia é segundo país do mundo, depois da África do Sul, mais assolado pelo HIV/sida. O problema é tanto mais grave quanto 80% dos gays são casados – a homossexualidade é um crime ao abrigo do Artigo 377 do Código Penal da Índia, resquício dos tempos coloniais. [Deixou de ser em 2018, numa decisão histórica do Supremo tribunal.]

Uma das nossas acções é distribuir preservativos, alertar para o risco de múltiplos parceiros e promover o sexo seguro.

Em 2006, eu já me sentia mais confiante. Quatro anos antes, tinha sido hospitalizado, com um colapso nervoso, porque a minha mãe insistia em que voltasse a casar-me para me curar do que ela considerava ser “uma doença”. Quando uma jornalista me pediu uma entrevista para falar sobre o meu papel no Lakshya (Alvo), decidi assumir-me, publicamente, como homossexual.

Não esperava o impacto que a notícia teria. Foi uma espécie de terramoto que fechou o país. A entrevista espalhou-se pela Índia. Estava em todos os noticiários, e ninguém falava em mais nada.

© reporters.media

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© Le Monde

Não foram só os meus pais que me repudiaram por “actividades objectáveis pela sociedade”, os 100 mil habitantes de Rajpipla queimaram as minhas fotos e efígies. Ir ao show da Oprah Winfrey, em 2007, foi como uma revolução nas mentalidades.

As reacções homofóbicas diminuíram, pelo menos em Rajpipla. Muitas pessoas desconheciam o meu activismo no Lakshya e ficaram sensibilizadas.

E as que beneficiavam da minha ajuda – dou aulas de ioga, ensino técnicas de agricultura biológica (tenho a minha própria quinta), faço doações para hospitais e escolas, ofereço oportunidades de emprego – voltaram a tratar-me como um nobre e não como um pária.

Participei depois numa parada gay na Suécia – o melhor lugar do mundo para os homossexuais viverem.

Fiquei impressionado ao ver ministros e deputados a desfilarem pelas ruas sem quaisquer complexos. Também entrei num reality show da BBC 3, Undercover Princes, juntamente com os príncipes Remigius Kanagarajah, do Sri Lanka, e Africa Zulu, da casa real sul-africana Onkweni.

Foram quatro episódios, uma hora cada [o último foi exibido este mês de Fevereiro de 2009], gravados numa casa em Brighton, onde assumíamos falsas identidades, em busca do “amor verdadeiro”.

Para não ser reconhecido, rapei o meu bigode, pela primeira vez. Fingi ser camareiro no New Madeira Hotel, e foi muito duro. Nunca antes tinha ido a um supermercado, e muito menos lavado pratos ou o chão.

Igualmente complicada foi a convivência com o príncipe zulu. Ele ficou escandalizado quando soube que eu era gay. Levou uma Bíblia, e avisou-me que era pecado um homem gostar de outro homem. Eu respondi que, felizmente, era hindu e que o Kama Sutra já existia antes de Jesus Cristo nascer.

Seja como for, encontrei o meu amor. Foi num bar, em Agosto de 2008. Ele chama-se Michael Lower e tem 35 anos. O programa jamais passará na Índia, por causa da criminalização da homossexualidade.

Não há cenas de sexo, mas há muitos abraços, beijos e mãos dadas. Levei-o para Rajpipla, e apresentei-o ao meu pai, que o aceitou – com as câmaras da BBC a gravar este encontro.

Foi uma bonita experiência, mas chegámos à conclusão de que não daria certo. Havia uma grande diferença social entre nós. Ele era empregado de um quiosque de jornais cujo dono é um indiano.

Eu sou um príncipe. Continuamos amigos. Falamos quase todos os dias, por telefone ou e-mail. Ele voltará em Outubro para assistir ao festival de música e belas-artes que eu organizo todos os anos.

Como é tão difícil encontrar um companheiro (há mais homens interessados no meu dinheiro do que em amar-me), decidi que, quando o meu pai morrer e eu subir ao trono, vou adoptar um filho. Será alguém, sensível e inteligente, da minha família alargada.

Não quero que esta linhagem termine comigo, que sou o 39º. Rajpipla era governado pelos Parmar, que não tinham herdeiros masculinos.

Uma princesa deste clã casou-se então com o marajá de Bhavnagar e um dos seus filhos foi adoptado pelos Parmar. Assim nasceu, com uma adopção, a minha dinastia Gohil.

(A partir de uma entrevista telefónica com o príncipe, em Bombaim, e uma troca de ‘e-mails’ com o jornalista Gareth McLean, do diário ‘The Guardian’, em Londres).

Em 2018, o príncipe Manvendra Singh Gohil prometeu abrir o seu palácio à vulnerável comunidade LGBT da Índia, sobretudo os que vivem sem-abrigo
© South China Morning Post

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 22 de Março de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 22, 2009