O primeiro judeu a ganhar o “Nobel árabe”

O cientista norte-americano Ronald Levy revolucionou o tratamento dos linfomas com um medicamento que hoje é usado na terapia de vários cancros. Transpôs outra barreira quando recebeu o Prémio Rei Faisal na categoria de Medicina. A sua mulher nascida em Israel obteve um raro visto saudita para o acompanhar. “Foi uma extraordinária surpresa”, disse-nos, numa entrevista – aqui na primeira pessoa. (Ler mais | Read more…) 

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Há cerca de um ano [2009], o meu amigo Philip Pizzo, reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford (Califórnia), onde sou director do Serviço de Oncologia, perguntou-me se podia propor a minha candidatura ao Prémio Rei Faisal. Disse-lhe que sim depois de ele me garantir que não era uma iniciativa política.

Agora que recebi o prémio fico feliz com a dimensão política que ele representa: nunca esperei que um judeu americano e casado com uma israelita pudesse ser escolhido por uma fundação real da Arábia Saudita. Foi uma extraordinária surpresa!

A fundação foi criada em 1976 pelos oito filhos do defunto Rei Faisal. Em 33 anos [até 2009] já atribuiu este prémio, conhecido como “Nobel árabe” – talvez porque 20 por cento dos galardoados venceram depois o verdadeiro Nobel -, a 19 americanos, mas nunca o havia dado a um judeu.

Inicialmente, nem queria acreditar quando vi o meu nome e a minha fotografia no site da fundação. Tinha sido seleccionado na categoria de Medicina pelo meu trabalho de investigação no tratamento de linfomas usando o sistema imunitário para combater a doença.

O medicamento que a minha equipa desenvolveu em 1981, depois de curarmos o primeiro doente, foi o Rituxan ou Rituximab, que na Europa se chama MabThera. Aprovado em 1997 pela Food and Drug Administration(FDA), tornou-se no primeiro anticorpo monoclonal usado na luta contra o cancro.

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O núcleo do sistema imunitário são os linfócitos B, glóbulos brancos que fazem soar o sinal de alarme em resposta a invasores externos. Quando um patogénio entra no organismo, as células B produzem anticorpos, proteínas que circulam através de toda a corrente sanguínea e marcam os patogénios para serem destruídos. Nos linfomas, estes linfócitos B multiplicam-se sem controlo e ultrapassam o número de células saudáveis.

[O reitor Philip Pizzo diz no ‘site’ da Universidade de Stanford que Ronald Levy “transformou todo o nosso conhecimento sobre imunologia dos tumores e biologia dos cancros”, e que a sua investigação contribuiu para “substanciais melhorias no tratamento e sobrevivência dos doentes com linfoma“.]

O Rituximab visa a proteína CD20, que se encontra à superfície das células normais B e está presente em muitos linfomas. A prevalência da CD20 faz com que o medicamento seja relativamente económico (não é preciso desenvolver um anticorpo à medida de cada paciente) e tem menos efeitos secundários do que outros tratamentos do cancro.

Mais de um milhão de pessoas já beneficiaram com o Rituximab, que também tem sido usado por outros investigadores para tratar os cancros da mama, do cólon e dos pulmões. No caso dos linfomas – o meu campo de trabalho –, mais de metade dos pacientes têm possibilidade de cura, combinando a quimioterapia com o tratamento de anticorpos. É um indicador que dá esperança, porque nos Estados Unidos há cerca de 30 mil casos novos diagnosticados por ano.

A fase actual da investigação é a das vacinas, com o objectivo de conseguir uma eficácia como a da poliomielite. No caso do cancro, em vez de darmos um anticorpo monoclonal, se pudermos fazer com que as pessoas o desenvolvam no seu próprio sistema imunitário, o efeito será muito mais duradouro.

É um projecto a longo prazo. Já temos resultados em animais e agora estamos a fazer ensaios em pessoas nas clínicas. Tal como aconteceu com o Rituximab, há investigadores interessados também em aplicar esta vacina a vários tipos de cancro que não apenas o linfoma. Foram os trabalhos do passado e para o futuro que levaram a Fundação Rei Faisal a dar-me o que designam por “Nobel árabe”.

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Inicialmente, pensei que teria de viajar sozinho até Riad para receber o prémio. Da minha biografia tinha sido apagado o meu pós-doutoramento no Instituto Weizman em Rehovot, a cidade onde nasceu uma das minhas três filhas; a minha mulher é natural de Telavive; e os nossos passaportes estavam cheios de carimbos israelitas, o que tem sido impedimento para entrar na Arábia Saudita [que não tem relações com o Estado judaico].

Quando fomos ao consulado de Los Angeles, os vistos foram dados sem quaisquer perguntas. À chegada a Riad, esperava-nos uma limusina com motorista, que nos acompanhou para todo o lado, até ao dia de partir. Ficámos os cinco num hotel que parecia uma fortaleza militar, rodeada de guardas de segurança e cães-polícia. A minha mulher e filhas receberam abayas (túnicas) e hijab (lenços) pretos para estarem presentes na cerimónia de 29 de Março para a qual foram convidadas 1500 pessoas.

As mesas estavam distribuídas como se fosse um banquete. O ambiente era segregado, mas este ano foi a primeira vez que as mulheres foram autorizadas a assistir. Shoshana Levy, a minha mulher, que também é professora de Oncologia em Stanford, e as minhas três filhas ficaram junto de algumas princesas.

Fui receber o prémio a um palco onde estava o rei Abdullah (1924-2015). Não senti que, por ser judeu, tivesse sido tratado de maneira diferente dos outros galardoados.

O prémio principal (Serviço ao Islão) foi atribuído à organização egípcia Sociedade para a Cooperação nos Ensinamentos do Corão e da Sunah. Nas restantes categorias foram contemplados o marroquino Abdul Salam Muhammad Shaddadi (Estudos Islâmicos); o saudita Abdul Aziz Bin Nasser Al-Mane (Literatura em Língua Árabe); o britânico Sir Richard Henry Friend e o russo Rashed Alievic Siniev (Física).

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A Fundação Rei Faisal assegura que os únicos critérios que segue para as suas escolhas são o mérito e a excelência. Nove dos premiados desde 1976 receberam posteriormente o Nobel.

O vencedor do prémio Ciência em 1993, e também Nobel da Física Steven Chu, foi designado pelo Presidente Barack Obama para dirigir o Departamento de Energia dos EUA.

Aos 67 anos de vida, o prémio que recebi, das mãos do Rei Abdullah, foi o mais importante em termos internacionais para a minha carreira.

Não por ter recebido um lindo certificado em caligrafia árabe, uma medalha de ouro de 200 gramas e 24 quilates e 200 mil dólares. Foi pelo facto de ter sido dado neste país [Arábia Saudita] e ter sido dado a mim [um judeu]. Isso transcende a medicina e a ciência.

O prémio é sempre um estímulo, mas sinto que este foi mais do que isso. Criou-se uma oportunidade de abrir um diálogo e um canal de comunicação que, de outro modo, não seriam possíveis. Quando conhecemos o outro lado e estabelecemos laços pessoais, muita da animosidade política desaparece. Eu fiz contactos fabulosos e há a promessa de uma reforço de colaboração com cientistas sauditas na investigação do cancro.

Visitei universidades e hospitais e, embora não tivesse conseguido avaliar o nível de desenvolvimento científico do reino, fiquei impressionado com o que vi. Mostraram-me equipamentos que nem sequer existem na Universidade de Stanford – considerada uma dez melhores faculdades de Medicina do mundo.

Antes de estar em Riad, só tinha visitado um país árabe, a Jordânia. Fui a Petra a partir de Eilat, em Israel. Fiquei maravilhado com a hospitalidade dos sauditas. Levaram-nos a todo o lado. Como a entrega do prémio foi transmitida pela televisão nacional, as pessoas que nos viam nas ruas ou em restaurantes vinham cumprimentar-nos e pediam para tirar fotografias connosco.

Sentíamo-nos como celebridades. Dei uma palestra para um auditório repleto de gente interessada. Fui às compras, e o ambiente parecia o do boom de Las Vegas, mas sem jogo e sem álcool.

O que vou fazer com 200 mil dólares? Servirá para fins pessoais ou profissionais? Sinceramente não sei.

(A partir de uma entrevista telefónica com Ronald Levy e artigos nos ‘sites’ da Universidade de Stanford e dos jornais ‘Saudi Gazette’, ‘Ha’aretz e ‘Jerusalem Post’)

rituxan

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Abril de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 28, 2009

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