A vida deu-lhe um diploma

João André já era “mestre” (na construção civil) quando voltou à escola. O aluno mais velho do programa Novas Oportunidades recebeu um diploma do 12º ano, aos 85 anos, em Salvaterra de Magos. Foi pedreiro e queria aprender a ser escultor. [Morreu em Fevereiro de 2012.(Ler mais | Read more..)

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© Enric Vives-Rubio

Aos 7 anos, João André “tinha de ir umas 500 vezes ao interior dos barcos para, dois a dois, descarregar mil tijolos, ganhar cinco escudos e ficar com os dedos todos gastos.” Aos 85 anos, o mais velho aluno do Programa Nova Oportunidades recebeu o diploma do 12º ano. “Não sei se comecei primeiro a trabalhar ou a estudar”, disse ao júri que ouviu as suas “experiências de vida” na Escola Profissional de Salvaterra de Magos.

A presença na cerimónia do [antigo] chefe do Governo, José Sócrates, e da ministra da Educação surpreendeu João André mas não o deixou nervoso. Afinal, preparou-se diariamente para este “exame” e já passou por testes mais difíceis.

Ele poderia ser Gineto, Gaitinhas, Malesso ou Maquineta, “os filhos dos homens que nunca foram meninos”, glorificados por Soeiro Pereira Gomes em Esteiros.

Não trabalhou nas “cavidades abertas na margem do rio Tejo de onde saíam as lamas e entravam os barcos com as lenhas”. Mas ajudava o pai a descarregar os tijolos “ainda a ferver”, que seguiam de Alhandra até Salvaterra, porque “o dinheirinho ia para um mealheiro onde a mãe juntava mais qualquer coisa para comprar roupa na Páscoa ou no Natal”.

Mestre André – é assim que o povo [ainda] o trata na cidade onde nasceu “com muito gosto” – lamenta “o azar de ter nascido em 1924 e de, em 1928, Salazar ter subido ao poder”. Naquele tempo, diz-nos na moradia que partilha com dois pintassilgos, “dava-se mais importância ao trabalho do que aos estudos, mas eu sempre quis aprender – e sentia raiva de não o conseguir.”

Sentemo-nos então num dos sofás coloridos da casa de João André, estantes com romances de Eça de Queirós e almanaques Reader’s Digest, bibelots e caixinhas de bolos, paredes enfeitadas com recordações de viagens e um relógio que abana o silêncio da manhã.

Os olhos pequeninos quase tapados por longas pálpebras que se fecham quando o sorriso se abre para contar histórias cujo fim ele sempre determinou. O cabelo todo branco não está cortado rente, como é hábito, porque tem falhas, e ele quer “parecer bem quando aparecer na televisão”.

“Andei na escola primária, aqui em Salvaterra, e depois de fazer o meu exame da quarta classe fui para o comércio, servir ao balcão numa taberna que também vendia mercearias e esmaltes”, relata Mestre André agitando as mãos calejadas. “A minha tia vivia com o dono do estabelecimento e, quando ela morreu, comecei a ver que aquilo já não era ambiente para mim.” Foi aqui que aprendeu a ser desconfiado. “Um cliente fugia com as moedas depois do avio da aguardente e uma freguesa roubava farinheiras enquanto eu ia lá dentro buscar o petróleo.”

“Como não tinha futuro na loja, fui para a construção civil para me fazer homem. Ter a 4ª classe serviu-me a mim e a um encarregado, menos habilitado. Eu fazia os orçamentos para ele enviar para o sindicato. Trabalhei com ele até ir para a tropa, em 1945, quando acabou a II Guerra Mundial.”

Cumprido o serviço militar, com 22 anos de idade e quatro de namoro, João André deixou Lisboa e voltou a Salvaterra. Tinha chegado a hora de mudar de estado civil. Já casado, foi trabalhar primeiro para uma fábrica e depois na “instalação de água ao domicílio”, tarefa que o levaria até ao Alentejo.

Quando este trabalho acabou, dedicou-se à pesca do sável. “Num mês de Janeiro, com a água pelos peitos, no meio do rio, um rapaz amigo disse-me que estavam a começar umas obras na Glória [do Ribatejo]. Eu estava com o meu pai na pesca e disse-lhe: ‘Olhe, tire aí o peixe, faça a açorda que eu vou ver se arranjo trabalho; arranje ou não, venho almoçar consigo.”

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© Enric Vives-Rubio

A demanda correu bem. O patrão ficou impressionado porque João André se ofereceu para trabalhar nessa mesma tarde. “Fui de bicicleta – já nessa altura era o meu transporte.” Hoje tem três modelos. Com a mais eficiente, percorre 50 quilómetros quase todas as manhãs (as tardes são para pescar e velejar).

Foi assim que ele me guiou – calças de ganga presas com molas de roupa, camisa de riscas, pullover de lã e colete estilo Coronel Tapioca – até à urbanização onde se instalou há três anos “para fugir da má vizinhança”. Uma casa onde vive sozinho – a mulher morreu há 11 anos, sem filhos –, e trata de dois canteiros com couves e tomates, salsa e morangos, favas e flores.

A fama de bom obreiro correu tão célere como o seu velocípede. “Estava eu a fixar uns motores que forneciam electricidade quando faltava a luz da Hidroeléctrica, como antes se chamava a EDP”, lembra. “Um engenheiro da Raret [antiga Sociedade de Rádio-Retransmissão], na Glória, também conhecida por Rádio Europa Livre, perguntou-me se não queria ir para lá. Aceitei.”

“De início, cheguei a trabalhar de dia e de noite, porque a primeira subestação que se fez, que recebia a luz da Hidroeléctrica, tinha o prazo de um mês para ser feita. O empreiteiro conseguiu fazer a obra em 15 dias – trabalhámos por baixo e por cima uns dos outros, aquilo era um pandemónio, iluminados com candeeiros Petromax – e ele ganhou 50 contos de prémio.”

Na Raret, João André trabalhou dos 27 aos 65 anos, quando se reformou. Foi pedreiro mas também encarregado, chefiando uma equipa que chegou a ter 150 homens na manutenção de uma estrutura que integrava casas de tipo A (“para os responsáveis americanos”), B (“para os engenheiros graduados”) e C (“para os administrativos e outros técnicos”).

“Não soube logo o que se fazia ali mas depois percebi que os programas eram em checo, em húngaro, em búlgaro e outras línguas do Leste da Europa. Havia outra estação perto da Barrosa, no concelho de Benavente. Aqui recebiam os programas e depois enviavam-nos para a Glória que depois os retransmitia em onda curta – era a guerra fria na Cortina de Ferro.”

Para ser admitido na Raret era preciso preencher um formulário onde quem solicitava emprego “prometia repudiar o comunismo”.

No caso de João André, a recomendação foi verbal. “Um tipo disse-me uma vez que foi ele quem deu as informações a meu respeito. Não lhe agradeci nunca. ‘Ah, foste? Está bem!’, pensei para comigo: ‘És informador da PIDE!’ Ele estava de um lado e do outro. Nunca fui militante de nenhum partido mas simpatizava com o PCP, o único que conseguia mobilizar as pessoas contra o Salazar. E eu, mesmo estando na Raret, ia a comícios políticos.”

Por exemplo, adianta, “quando o Arlindo Vicente se candidatou a par com o Humberto Delgado, eu estive num comício em Alpiarça, e a PIDE também. A malta sabia quem eram eles [os agentes] e onde estavam. Fazíamos um círculo à volta deles. Eles iam para outro lado e a malta voltava a fazer outro círculo. Nunca fui preso porque nunca me inscrevi em nenhum partido.”

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© Enric Vives-Rubio

Se não foi preso, João André tem a certeza que era vigiado, mas não foi por isso que deixou de correr riscos. “Tenho um cunhado, que era comunista. Esteve preso duas vezes, em Caxias e no Aljube. Cheguei a aproveitar o transporte da Raret para todos os fins-de-semana lá ir levar-lhe a roupinha e alguma coisa de comer. Temos de tirar partido das situações. Ninguém me fez mal. Respeitavam-me, talvez, até pelo facto de eu nunca me calar.”

Ainda não tinha 40 anos, mas já com conhecimentos de desenho geométrico, graças à ajuda de um colega, João André decidiu pedir um aumento de ordenado. “Andavam a entreter-me com uns três mil escudos”, informa.

“Quando fui entregar a minha carta de despedimento, o engenheiro tentou demover-me de sair. ‘Você tem de ver que Roma e Pavia não se fizeram num dia’. E eu respondi: ‘Pois não, mas uma grande parte já devia estar feita e nem vejo os alicerces’. Ele ficou a olhar para mim e deve ter pensado: ‘Olhem para este gajo!’”

Deixando os patrões “em estado de alerta”, Mestre André foi para França, por intercessão de um amigo, trabalhar como pedreiro. Aproveitou os 22 dias que lá passou para conhecer Paris e subir à Torre Eiffel. “Era um sonho meu. Levei a minha mala de cartão, que ainda conservo no sótão. Fui sozinho e cheguei às 10h50, hora exacta. Parti de Santa Apolónia com destino a Austerlitz.”

Quando regressou, tinha o prometido aumento de salário. Aos 50 anos, foi estudar à noite para fazer o 5º ano de Mecânica. “O ambiente era ruim”, queixou-se. “Os alunos enganavam os pais. Diziam que trabalhavam de dia e estudavam de noite, mas não faziam uma coisa nem outra. Eu andei lá enervado e não fui capaz de concluir o sexto ano.”

Quando surgiram as Novas Oportunidades, já viúvo e reformado, o especialista em maciços de antenas que deixou o seu cunho “no aeroporto de Bragança e Vila Real, no interior, nas serras, no quartel de Santa Margarida e no de Beja, no litoral até ao Cabo de São Vicente” decidiu chegar ao 9º ano.

“Fui à escola e perguntei se poderia inscrever-me com 83 anos. Que sim, responderam-me. Digo-lhe uma coisa: foi um enriquecimento! Eh pá, as pessoas são extraordinárias!”

Na Escola Profissional de Salvaterra, João André aprendeu português, matemática, história, geografia e “50 horas de inglês”. Já sabia algumas expressões em francês. Onde se sente “mais à vontade”, talvez seja no português.

“Modéstia à parte escrevo poemas com facilidade”, graceja o discípulo de António Aleixo. “Passei quase tudo ao computador, uma janela aberta ao mundo com 360 graus, mas não ligo à Internet. Há coisas que me ultrapassam. Tenho de me convencer que já não sou um garoto. Prefiro os meus hobbies.”

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Em Abril de 2009, o então primeiro-ministro, José Sócrates, entregou a João André o diploma do 12º ano, no âmbito do programa Novas Oportunidades, que frequentou na Escola Profissional de Salvaterra de Magos
© Rede Regional

Subimos agora uma escada que conduz a uma sala onde João André tem obras em pedra, cerâmica e ferro estilizado. Fados, fandangos e touradas predominam. Além do seu próprio busto, sobressaem ainda as figuras de Fernando Pessoa e Alfredo Marceneiro. “Ninguém me ensinou nada”, sublinha. “Nada vendo. Não preciso, e desfazer-me das peças seria como cortar um bocadinho de mim.”

A reforma deixou tempo a João André para se dedicar ao artesanato e ao seu barco, mas também a viagens anuais. “Já visitei quase todos os países da Europa e uma grande parte da América. Falta-me a Ásia. Talvez vá este ano à China ou à Índia.”

De tudo quanto viu o que mais o desiludiu foi ver como “a ditadura comunista negava a liberdade, como a de Salazar”. O que mais o chocou foi o antigo campo de concentração de Auschwitz, quando foi a Polónia depois de atravessar o recém-derrubado Muro de Berlim. “Vim de lá com a cabeça no chão.”

Também lhe vieram “as lágrimas aos olhos” quando começou a guerra em Ljubljana, a capital da Eslovénia. “Estive na Jugoslávia completa, e aquela era uma cidade tão linda.” Teria ficado para sempre na ilha italiana de Capri. Expôs trabalhos na Holanda e no Luxemburgo. Ao Brasil e a Cuba não tenciona ir. “Para miséria, bastou-me Marrocos.”

Finalizado o 12º ano, João André não tenciona inscrever-se na universidade. “A minha ideia é fazer um curso de escultura, o que eu mais gosto, mas não sei onde.” Para já, uma prioridade é recuperar duas pedras que levaram quase 600 horas a esculpir.

“A senhora presidente da Câmara [Ana Cristina Ribeiro] teve a coragem de mandar arrancá-las do pátio da escola onde fiz a 4ª classe e mandá-las para o lixo, só porque me dou bem com pessoas [do Partido Socialista] de quem ela não gosta”, vociferou.

A autarca do Bloco de Esquerda, em funções há 12 anos, está entre os raros inimigos de João André que os conterrâneos acarinham como uma celebridade. Os outros são a GNR, porque “antes do 25 de Abril não permitiam que dois ou três rapazes se juntassem a conversar à noite – diziam que era ajuntamento ilegal”; e os padres, que “não queriam que as raparigas fossem aos bailes e ao cinema, mas depois aninhavam-se com elas”

Sem religião – “a mim não me convencem que Deus criou o mundo” –, João André não tem medo da morte. “Trabalhei, passeei e evolui. Já vivi muito. Se tiver que morrer, que seja rápido.”

[João André morreu, aos 87 anos, em 15 de Fevereiro de 2012. O funeral realizou-se no Cemitério de Salvaterra de Magos, vila e município do distrito de Santarém onde continua a ser herói.]

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Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 30 de Abril de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 30, 2009

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