Arménia: Um “genocídio” ou uma “grande catástrofe”?

Os números variam entre 300 mil mortos, versão turca, e 1,5 milhões, versão arménia. Não há consenso sobre crimes premeditados. Mas há mitos a cair. (Ler mais | Read more…)

Turkish official teasing starved Armenian children by showing bread, 1915 @DR

Um oficial turco otomano troça de crianças arménias famintas, mostrando-lhes pão, sem qualquer intenção de o distribuir (Foto de 1915) 
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O que aconteceu aos arménios otomanos em 1915 para que todos os anos, a 24 de Abril, os seus descendentes assinalem pelo mundo fora o que descrevem como “o primeiro genocídio, organizado e premeditado, do século XX”, ainda que, em 1985, o Whitaker Report da Nações Unidas tivessem dado essa classificação à tentativas de extermínio dos povos Herero e Nama, por parte dos colonialistas alemães, entre 1904 e 1907, no que é a actual Namíbia – uma política que depois seria aplicada pelos nazis

A narrativa oficial turca, Armenian File (The Myth of Inocence Exposed), do ex-diplomata Kamuran Gurun, indica que, durante a I Guerra Mundial, arménios otomanos levaram a cabo uma sublevação armada no Leste da Anatólia e colaboraram com o exército invasor russo.

Por isso, os Jovens Turcos no poder em Istambul, conhecidos como Ittihat ve Terakki Cemiyetti (Comité da União e Progresso ou CUP), decidiram “recolocar” a população arménia em desertos na Síria e no Iraque.

Esta transferência étnica, que causou “300 mil mortos”, teria sido, segundo Gurun, “uma simples medida estratégica para assegurar a retaguarda do Império Otomano, que combatia os russos na frente oriental”. A da historiografia arménia tem sido a de que as deportações e massacres – iniciados a 24 Abril de 1915, com a detenção e execução de 250 líderes comunais e intelectuais arménios – constituíram, até 1917, “um plano deliberado de pôr fim à existência colectiva” dos 1,7 milhões de arménios na Anatólia.

Actualmente, até alguns investigadores arménios, como Ara Sarafian, do Gomidas Institute, em Londres, admitem que há perguntas sem resposta. Numa entrevista à publicação Nouvelles d’Arménie, observou: “Ainda temos de explicar por que é que 100 mil arménios foram enviados para a Síria ocidental e não foram massacrados; por que não foi cometido nenhum grande massacre em Der Zor depois de 1916; por que é que alguns não foram mortos no exílio; será possível que o CUP não fosse tão poderoso e omnipresente como se julga; é possível que houvesse mais oposição ao CUP do que antes se admitia?”

Entre alguns académicos e intelectuais turcos intensificou-se também um processo de “busca interior”, sobretudo a partir de 2007, com o assassínio do jornalista de origem arménia Hrant Dink, e de 2008, com a publicação do Livro Negro, de Mehmet Talaat Pasha, ministro do Interior otomano em 1915, assassinado com uma só bala, em 15 de Março de 1921, na Alemanha, por um activista da Federação Revolucionária Arménia.

Armed Armenian civilians and self-defense units holding a line against Ottoman forces in the walled Siege of Van in May 1915. @DR

Civis arménios armados e unidades de autodefesa formam uma barreira contras as forças otomanas durante o Cerco de Van, em Maio de 1915
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O Livro Negro, de 77 páginas, estava na posse da viúva de Talaat Pasha que, em 1982, o entregou ao historiador Murat Bardakçi. Os dados que constam deste raro documento administrativo otomano contradizem a tese oficial turca de que as deportações foram “um processo ordeiro regido pela lei”.

Talaat Pasha revela que uns 90% dos arménios fora de Constantinopla foram deportados e que 90% dos deportados foram mortos. No total, terão “desaparecido” 970 mil – mais do que os 300 mil mencionados por Kamuran Gurun.

Richard Giragosian, director do Armenian Center for National and International Studies, em Ierevan, diz que a publicação do Livro Negro “deve ser elogiada, porque é muito importante, no âmbito do vasto processo de reavaliar este período específico da história turca ou otomana”.

Para os arménios, realça Giragosian em entrevista que nos deu, por email, “há muito que existem provas substanciais, incluindo documentos oficiais em vários arquivos (Estados Unidos, Grã-Bretanha ou França), de que as cerca de 1,5 milhões de mortes em 1915 resultaram de uma política oficial concertada”. As deportações e massacres, “vistos colectivamente, incluem todos os elementos de um crime de genocídio”.

Giragosian, que esteve recentemente numa conferência em Istambul, vê sinais muito positivos na Turquia, apesar de a minoria arménia, reduzida a 60 mil pessoas, ainda se sentir “vulnerável e insegura, tímida e passiva na expressão da sua identidade nacional”.

Armenian intellectuals who were arrested and later executed en masse by Young Turk government authorities on the night of 24 April 1915. @DR

Alguns dos intelectuais arménios que foram presos e depois vítimas de execuções em maça, atribuídas ao Governo dos Jovens Turcos, na noite de 24 de Abril de 1915 
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A campanha Nós Pedimos desculpa [ver texto abaixo] lançada por 200 intelectuais, “embora use a expressão ‘Grande Catástrofe’ em vez de ‘genocídio’, é muito significativa, porque reflecte o grau de mudança na própria sociedade turca. O uso deste ou daquele termo acaba por ser o menos importante.”

“Décadas de negacionismo oficial e tentativas de revisionismo histórico por parte da Turquia estão a ser desafiados por um reexame positivo e saudável da narrativa histórica”, sublinhou Giragosian.

“O intercâmbio de pessoas e ideias, académicos turcos e arménios ou vulgares cidadãos, está ajudar a quebrar a ‘demonização’ e os estereótipos negativos de uns e outros. “Há optimismo e esperança de que a opinião pública em ambos os lados está a mudar”, realça o investigador de Ierevan.

“Com a eventual normalização de relações, incluindo a abertura de fronteiras e laços diplomáticos, a Turquia e a Arménia podem reavaliar o legado comum de genocídio na procura partilhada do que ele significa, não para o passado ou presente mas para o futuro, como vizinhos.

“Nós reconhecemos uma grande catástrofe, partilhamos a dor e o sentimento dos arménios”, afirma Ayhan Turhan Aktar, professor de Sociologia na Universidade de Marmara, em Istambul, signatário da campanha Nós pedimos desculpa e um dos organizadores, em 2005, da primeira conferência sobre os arménios otomanos. “Não é minha competência, como cientista social, determinar se foi um genocídio”.

Greek and Armenian refugee children near Athens, Greece, in 1923, following their expulsion from Turkey. @DR

Crianças arménias e gregas, filhas e filhos de refugiados, perto de Atenas, numa imagem de 1923, após a expulsão das suas famílias da Turquia
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Este é “um debate complicado”, refere Aktar, co-autor de Nationalism in the Troubled Triangle: Cyprus, Greece and Turkey (New Perspectives on South-East Europena entrevista que nos deu, por telefone. “Genocídio é um termo legal, uma expressão que acarreta sanções legais. É um crime contra a humanidade. Eu não gosto do negócio de contar corpos.”

O debate sobre os massacres de arménios terminou com o último Parlamento otomano em Novembro-Dezembro de 1918, apontou Aktar.

Nessa altura, vários deputados exigiram que os responsáveis do CUP fossem julgados e condenados. E alguns reconheceram que muitos turcos desobedeceram às ordens do CUP e, arriscando serem executados à porta de casa, salvaram numerosos arménios do extermínio.

“Depois de 1918, o assunto ficou esquecido”, lamenta o historiador. “Eu estava no primeiro ano da universidade quando o cônsul-geral turco em Los Angeles foi assassinado [pelo grupo armado arménio ASALA] em 1973.”

“Não consegui encontrar qualquer livro para explicar o que acontecera. A polarização, o aparecimento de dois discursos distintos e inconciliáveis – os nacionalistas arménios a denunciarem um genocídio; os nacionalistas turcos a negarem – começou no final dos anos 1970, início de 1980.”

Talaat Pasha revela que uns 90% dos arménios fora de Constantinopla foram deportados e que 90% dos deportados foram mortos. No total, terão "desaparecido" 970 mil. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Mehmet Talaat Pasha, o ministro do Interior que ordenou as prisões, revela no seu Livro Negro que uns 90% dos arménios fora de Constantinopla foram deportados e que 90% dos deportados foram mortos. No total, terão “desaparecido” 970 mil – mais do que o número mencionado na narrativa até agora oficial
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Por que não mais foi possível discutir a questão arménia como fez o Parlamento otomano em 1918? “A elite turca que formou a república em 1933 era, na sua maioria, constituída por burocratas e soldados”, respondeu Aktar.

“A ocupação de Istambul pelos franceses e britânicos foi um grande trauma. Na construção da moderna identidade turca, esse trauma foi transferido para uma geração mais nova. É por isso que somos o único país cujo hino nacional começa com a expressão Não tenham medo.

“O sistema de educação kemalista [instaurado por Atatürk] injecta a ideologia de que a república está em permanente perigo”, realça Aktar.

“Hoje é o fundamentalismo islâmico; amanhã são os curdos; depois de amanhã é a diáspora arménia a reivindicar um pedaço de território. Há sempre medo. É uma espécie de paranóia social. Somos fisicamente perfeitos, mas razões psicológicas deixam-nos impotentes.

O “chocante assassínio” de Hrant Dink e “livros sentimentais” como My Grandmother A Memoir, de Fethye Cetin, obrigaram os turcos a ver a questão arménia de “uma perspectiva humana”, conclui Aktar.

Cetin descobriu que a sua avó Seher escondia um segredo. Era uma arménia que se chamava Heranush. Tinha nove anos quando os massacres começaram.

Abrigou-se numa igreja enquanto os homens da sua aldeia eram assassinados e deitados ao rio. Forçada a mudar-se para a Síria, foi raptada e entregue a um polícia turca. Este criou-a como sua filha.

Histórias como a de Seher/Heranush abundam nas províncias orientais da Turquia. Os locais chamam a estes arménios sobreviventes “aqueles que a espada deixou para trás”.

“Nós pedimos desculpa”

Uma petição online em que 200 intelectuais turcos pedem desculpa aos arménios pela “grande catástrofe” de 1915 atraiu 30 mil assinaturas. Baskin Oran, pioneiro da iniciativa, está ameaçado de morte mas feliz porque a Turquia começou a enfrentar os “fantasmas do passado”.

Baskin Oran @ArmenPress

Baskin Oran, o intelectual turco que decidiu “pedir desculpa” pela “grande catástrofe arménia” – sem usar o termo “genocídio – e tem sido, por isso, alvo de críticas insultuosas da parte de ultranacionalistas
© ArmenPress

O sociólogo Baskin Oran recebe diariamente centenas de “mensagens de ódio e ameaças de morte” desde que, a 15 de Dezembro de 2008, lançou na Internet a campanha Ozur Dileriz (Nós pedimos desculpa) pela “grande catástrofe” arménia de 1915, sob o Império Otomano.

“Eu e os meus três amigos estamos a ser protegidos por guarda-costas destacados pelo governo”, disse-nos Oran, por e-mail, referindo-se a Ahmet Insel, Ali Bayramoglu e Cengiz Aktar, os outros promotores da campanha a que aderiram desde logo 200 intelectuais turcos.

“Não posso conscientemente aceitar a indiferença da Grande Catástrofe que os arménios otomanos sofreram em 1915, e a sua negação”, diz a petição online. “Rejeito esta injustiça e, agindo por minha própria iniciativa, partilho os sentimentos e a dor dos meus irmãos e irmãs arménios, e peço-lhes desculpa.”

Oran explica que a ideia de lançar esta campanha nasceu em 2005 quando um grupo de académicos e historiadores organizou a primeira conferência sobre os arménios otomanos. “Mas é claro que o assassínio de [Hrant] Dink reforçou a nossa determinação”., acrescentou, numa alusão ao jornalista arménio-turco morto a tiro em 2007, em Istambul. A sua morte gerou manifestações de solidariedade, sob o lema “Somos todos arménios”, como jamais se vira na Turquia.

“Eu digo que não há responsabilidade colectiva nas leis penais no que concerne aos horrores de 1915, mas tem de haver uma consciência colectiva”, acentua Oran. “Isto é, não importa não termos sido responsáveis por 1915, ainda assim temos de pedir desculpa aos nossos amigos arménios. Digamos que há dois tipos de consciência na Turquia e em toda a parte: uma humanitária e outra nacionalista”.

o assassínio de [Hrant] Dink reforçou a nossa determinação”., acrescentou, numa alusão ao jornalista arménio-turco morto a tiro em 2007, em Istambul. A sua morte gerou manifestações de solidariedade, sob o lema “Somos todos arménios”, como jamais se vira na Turquia. @DR

O assassínio de Hrant Dink (na foto), jornalista arménio-turco, em 2007, em Istambul, gerou manifestações de solidariedade, sob o lema “Somos todos arménios”, como jamais se vira na Turquia. Foi também o impulsionador da iniciativa de Baskin Oran
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Quando Baskin Oran lançou Nós Pedimos Desculpa, os que na Turquia o chamaram de “traidor da identidade turca” puseram em marcha duas contra-campanhas: Não pedimos perdão e Espero um pedido de perdão (pelas alegadas atrocidades cometidas por arménios no mesmo período).

Estas críticas, que terão atraído “dezenas de milhares” de signatários, não retiraram a Oran a satisfação de dever cumprido. “Conseguimos 30 mil assinaturas, mas estamos prestes a terminar porque já atingimos os nossos objectivos: a plena discussão do ‘problema’ na Turquia e a manifestação de solidariedade com os nossos amigos arménios”, sublinhou.

Entre os detractores do académico não estão apenas ultranacionalistas turcos (que chegaram a envolver-se em agressões físicas e verbais no Parlamento de Ancara quando a campanha foi discutida) mas também representantes da diáspora arménia, que esperavam ver reconhecidos os massacres como “genocídio” e não “grande desastre”.

O "chocante assassínio" de Hrant Dink e "livros sentimentais" como My Grandmother A Memoir, de Fethye Cetin, obrigaram os turcos a ver a questão arménia de "uma perspectiva humana"

O “chocante assassínio” de Hrant Dink e “livros sentimentais” como My Grandmother A Memoir, de Fethye Cetin, obrigaram os turcos a ver a questão arménia de “uma perspectiva humana”

“As diásporas sempre foram mais nacionalistas”, justifica Oran. “Eles podem aprender, pensar e falar mais livremente. Têm também uma ‘causa’ nacional que é manter uma distinta identidade arménia num ambiente cristão. Na sua ideologia de linha dura são muito encorajados pela atitude negacionista do Estado turco.”

“Dezenas de milhões de pessoas sentem-se ameaçadas na Turquia”, observa Oran. “Ameaçadas por zombies – a questão curda, a questão arménia, a questão do islão, a questão de Chipre. Os turcos nunca resolveram nenhum grande problema desde 1915; agora esses cadáveres reaparecem juntos para nos aterrorizar.”

Exultante com a iniciativa Ozur Dileriz, Amberin Zaman, correspondente da revista The Economist na Turquia e ela própria turca, comentou: “Quando olharmos para esta campanha daqui a uns anos, não tenho dúvidas de que será vista como um ponto de viragem – não só para a reconciliação entre turcos e arménios mas, mais importante, por ter conseguido fazer com que a Turquia encerrasse um dos mais obscuros capítulos do seu passado recente.”

“Concorde-se ou não com a fraseologia usada, foi aberto um debate sem precedentes sobre o que aconteceu aos arménios otomanos. Enviou-se ainda um forte sinal de que a reaproximação entre os governos da Turquia e da Arménia ultrapassou em muito o desejo bem real a nível da sociedade de cicatrizar as feridas e seguir em frente. O génio está agora verdadeiramente fora da lâmpada.”

Oran também está confiante: “A normalização de laços entre a Turquia e a República da Arménia vai mudar muito a atmosfera – mesmo que uma parte da diáspora arménia não goste.”

© niod.nl/en/holocaust-and-other-genocides/armenian-genocide-1915

© niod.nl/en/holocaust-and-other-genocides/armenian-genocide-1915

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO, em 26 de Abril de 2009 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 26, 2009

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