O “tio” do Curdistão já não quer ser um problema

Dez anos após a sua captura, o líder do PKK apresentou um Roteiro para pôr fim a um conflito que, num quarto de século, custou mais de 40 mil vidas. Quem é este Abdullah Öcalan, que em criança queria ser um soldado como Atatürk mas se transformou no inimigo número um da Turquia? (Ler mais | Read more…)

O inimigo nº 1 da Turquia é o único recluso da prisão de segurança máxima na ilha de Imrali, no Mar de Marmara. É aqui que Abdullah Öcalan cumpre pena perpétua (a sentença de morte inicial foi comutada, sob pressão da União Europeia) depois de o seu Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) ter iniciado uma guerra de guerrilha em 1984
© rudaw.net

A ilha de Imrali, no Mar de Marmara, é uma prisão de segurança máxima. Os seus 25 quilómetros quadrados são vigiados por forças terrestres e marítimas, navios de guerra e submarinos. Nenhum avião civil a pode sobrevoar e ninguém dela se pode aproximar num perímetro de cinco milhas.

Nesta fortaleza há uma rede digital de 165 câmaras de vídeo e três sistemas de raio-X para verificação da retina e impressões digitais.

Há um guarda e dois assistentes, 40 agentes de segurança e 700 militares. Tudo isto para garantir que Abdullah Öcalan, 61 anos, cumprirá uma pena perpétua pela guerra que o seu Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) declarou à Turquia em 1984 – o primeiro ataque foi em 15 de Agosto.

Único prisioneiro em Imrali desde que foi capturado em 1999, Öcalan está confinado a uma cela de 13 metros quadrados, com uma cama, uma secretária, um chuveiro e uma sanita. Todos os dias, durante uma hora, é autorizado a “apanhar ar” num pátio de 40 metros quadrados, cercado por muros e arame farpado.

Durante uma hora, e uma vez por semana, Öcalan recebe a visita dos seus advogados, porta-vozes com o mundo exterior que lhe levam cartas e livros – ele gosta de Nietszche e de Fernand Braudel. Uma vez por mês, os familiares mais próximos podem vê-lo, mas ele não pode ver televisão e só tem permissão para ouvir uma estação de rádio sintonizada pelas autoridades prisionais.

Numa década de isolamento, e não obstante “problemas na próstata” e “deterioração do estado mental”, Öcalan escreveu (e publicou) quatro dos seus “mais de 40 livros”, um deles sobre “as raízes da civilização”.

Apresentou também um Roteiro [em Agosto de 2009] para “solucionar” o conflito que, num quarto de século, matou entre 30 mil e 40 mil pessoas, e custou à Turquia cerca de 300 mil milhões de dólares.

Um cessar-fogo, uma amnistia para o PKK, mais direitos e autonomia para os curdos seriam algumas das propostas de Öcalan. “Ele não pede para ser aceite como interlocutor em negociações, apenas está a ver se desempenha o papel de facilitador”, justificou Irfund Dundar, um dos seus advogados.

O ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Ahmet Davutoglu, respondeu: “A questão curda será resolvida em Ancara, não em Imrali”.

Pode o Governo permanecer indiferente às ideias desta figura curdos veneram como “um profeta” e os turcos renegam como “assassino de bebés”?

Escreveu o comentador político Cengiz Çandar no Turkish Daily News: “Não devemos esquecer-nos de que Öcalan é, sem dúvida, o ‘número um’ do PKK. Por um lado, podemos interrogar-nos como é que os membros do PKK vão ser convencidos a deixar os campos nas montanhas, como serão desarmados, como é que a violência como parte da questão curda vai acabar; e por outro, podemos apenas ignorar o decisor número um do PKK.”

“Será que isto soa a razoável? Transformar Öcalan em parte da solução só pode ser conseguido através do contributo sério, genuíno e sólido do Roteiro para a erradicação da violência. Ele deve ser encorajado a seguir nesta direcção.”

O comentário de Çandar demonstra bem como a Turquia mudou desde que, há dez anos, condenou Öcalan à forca. A mudança começou em 2002 quando a pena de morte foi abolida (por pressão da União Europeia) e o chefe do PKK viu a sua sentença comutada para cárcere vitalício em Imrali – onde passou a ter, posteriormente, a companhia de mais nove detidos, como anunciaram jornais turcos.

A história de Abdullah Öcalan confunde-se com a dos curdos (na foto, guerrilheiro do PKK nas montanhas Kandil, cerca de 50 Km a sul do eixo Turquia-Iraque-Irão). É uma história de traições e sonhos desfeitos que começa em 1920 com a assinatura do Tratado de Sèvres, imposto pelas potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial ao derrotado Império Otomano
© juliengoldstein.com

A Turquia – por iniciativa do governo do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, pós-islamista), de Recep Tayyip Erdoğan, e com o silêncio das Forças Armadas, apesar da fúria dos partidos da oposição ultranacionalistas (MHP e CHP) – dá provas de querer emendar os erros do passado. Procura uma solução no âmbito de um processo democrático. A dúvida entre os turcos é se Öcalan, carismático e cruel, também mudou ou se apenas se quer salvar?

A história de Abdullah Öcalan confunde-se com a dos curdos – actualmente, o maior grupo étnico do Médio Oriente e do Cáucaso, 25 milhões de pessoas, metade das quais a viver na Turquia. É uma história de traições e sonhos desfeitos que começa em 1920 com a assinatura do Tratado de Sèvres, imposto pelas potências vitoriosas da Primeira Guerra Mundial ao derrotado Império Otomano.

Sèvres previa a criação de um estado para os curdos e outro para os arménios, na Anatólia, mas nunca foi aplicado devido à resistência do Movimento de Libertação Nacional dirigido por Mustafa Kemal Pasha.

Inicialmente, os curdos apoiaram-no na luta pela independência que conduziu ao Tratado de Lausanne de 1923, mas rapidamente se aperceberam que as suas aspirações seriam suprimidas pelo homem que se proclamou Atatürk (pai dos turcos), obstinado a unificar uma Turquia moderna.

Forçado a deixar o seu refúgio na Síria, sob ameaça turca de ver cortado o abastecimento de água, e convencido de que depois do Quénia, onde entretanto se asilara, seria acolhido na Holanda, Öcalan tinha à sua espera uma surpresa. A caminho do aeroporto de Nairobi, em Fevereiro em 1999, o carro que o transportava foi desviado por comandos enviados por Ancara. Levaram-no algemado e vendado, num avião, até à prisão de Imrali. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Forçado a deixar o seu refúgio na Síria, sob ameaça turca de ver cortado o abastecimento de água, e convencido de que depois do Quénia, onde entretanto se asilara, seria acolhido na Holanda, Abdullah Öcalan tinha à sua espera uma surpresa. A caminho do aeroporto de Nairobi, em Fevereiro em 1999, o carro que o transportava foi desviado por comandos enviados por Ancara. Levaram-no algemado e vendado, num avião, até à prisão de Imrali
© BBC

Em 1925, eclodiu a primeira revolta curda, liderada pela ordem sufi Naqshbandi e pela velha liderança social feudal, os agas (senhorios). Seguiu-se outra rebelião em 1929.

Um ano depois, o Estado, que já havia proibido a língua curda, adoptou uma lei que instigava à repressão desta minoria – os assassínios e outros actos de violência cometidos contra curdos não seriam considerados crimes. Foi também por esta altura que surgiu a fantasia de que os curdos não eram mais do que “turcos da montanha”.

Tão determinados quanto Atatürk, os curdos ajudaram o Partido Democrático, de Adnan Menderes, a subir ao poder nas eleições turcas de 1950, consideradas as primeiras com uma verdadeira oposição.

Durante o mandato de Manderes, líderes curdos no exílio foram encorajados a regressar e recuperaram bens e terras. Alguns chegaram a deputados e ministros. A repressão diminuiu e começaram a ser construídas escolas, hospitais e estradas nas regiões de maioria curda.

O problema é que, em 1958, a Turquia estava à beira da bancarrota e o descontentamento popular aumentou, sobretudo entre os que no Exército haviam perdido privilégios para uma nova “classe” de latifundiários e burgueses. Em 1960, os militares derrubaram Menderes num golpe e, em 1961, executaram-no na prisão de Imrali.

Centenas de notáveis e intelectuais curdos foram posteriormente detidos e deportados. Aldeias e vilas curdas perderam os seus nomes originais para serem “turquicizadas”.

Esta campanha já não podia, porém, travar as mudanças empreendidas na sociedade. Em 1961, com um governo civil, foi aprovada uma Constituição que garantia direitos democráticos, como a liberdade de pensamento, de expressão e de formar associações independentes e sindicatos.

Os curdos e, em particular a sua intelligensia, beneficiaram da abertura, participando em novos partidos políticos e arriscando a publicação de jornais, revistas e ensaios em língua curda.

Em 1966, receando que a subversão curda no Iraque alastrasse à Turquia, as autoridades governamentais e militares em Ancara decidiram criar unidades de comando antiguerrilha no Sudeste.

Em 1971, na sequência de mais um golpe militar e de uma revisão constitucional, a maioria dos grupos “revolucionários” turcos e curdos na Turquia optou por centrar a sua estratégia em acções de guerrilha de grande visibilidade. Foi neste ambiente violento e radicalizado que Öcalan e o PKK emergiram para reivindicar um Estado independente.

Abdullah Öcalan (um apelido que, em turco, significa “vingador”) nasceu em 1948 de uma família de camponeses pobres em Omerli, aldeia curda no Sudeste da Turquia. Em criança queria ser “um soldado como Atatürk”, cuja estátua costumava admirar, revela num dos seus livros de memórias – embora os turcos o tenham acusado de “fuga ao serviço militar”.

Terá pedido para ingressar no Exército mas foi recusado. Por ser curdo, denuncia. Foi, no entanto, aceite no competitivo curso de Ciência Política da Universidade de Ancara, depois de frequentar apenas um ano a Faculdade de Direito em Istambul.

Influenciado pela ideologia marxista que mobilizava os estudantes europeus nos anos 1970, Öcalan foi detido durante um breve período, por distribuição de panfletos da extrema-esquerda. Abandonou os estudos e mudou-se para Diyarbakir, a maior cidade curda no Sudeste.

Öcalan (um apelido que, em turco, significa “vingador”) nasceu em 1948 de uma família de camponeses pobres em Omerli, aldeia curda no Sudeste da Turquia
© freeocalan.org

Em 1974, o homem que os fiéis chamam Apo (tio, em curdo, bem ao jeito de uma cultura de clãs) fundou com três dezenas de curdos uma organização maoísta (APOCU) empenhada em levar a cabo uma “revolução socialista” na Turquia.

Só em 27 de Novembro de 1978, quando criou o marxista-leninista PKK, Öcalan deu uma nova dimensão ao nacionalismo curdo.

A primeira preocupação foi eliminar o que considerava o “facciosismo” do movimento. No final dos anos 1970, os alvos de Öcalan eram os agas, não o Governo turco. A sua visão maoísta ficou patente nas ordens para matar mulheres e crianças das famílias que considerava “feudais”, não apenas os homens.

Em 1980, depois de mais um golpe militar que deixou a Turquia sob lei marcial, Öcalan mudou-se para Damasco (rival de Ancara) onde recebeu autorização para treinar, no Líbano, um exército de guerrilha. No Vale de Bekaa, a “academia” do PKK formava curdos turcos, sírios e iraquianos. Também recrutava mulheres, o que chocava com as tradições.

O primeiro ataque do PKK na luta pela independência, a 15 de Agosto de 1984, foi o assassínio de vários “guardas de aldeia”, milícia curda ao serviço do exército, na província de Siirt, no Sudeste.

Nos anos seguintes, a organização firmaria a reputação de uma das “mais brutais e eficazes guerrilhas do mundo”. Contrabando de droga e extorsão financiavam as suas campanhas.

Segundo as 400 páginas de acusações apresentadas em tribunal, em 1999, Öcalan ordenou a morte de centenas de civis, o rapto de turistas estrangeiros e a destruição de incontáveis esquadras da polícia e outras instituições turcas.

Mandou prender uma ex-mulher, por deslealdade, e executar um número indeterminado de camaradas, por criticarem ou contrariarem as suas directivas.

Ao invés de se afastarem deste ferino Öcalan, os curdos, tratados pela Turquia como “um problema de terrorismo”, encheram as fileiras e os cofres do PKK. Em 1992, as regiões curdas do Sudeste, começaram a cobrar “impostos” e a emitir “vistos” para os estrangeiros interessados em visitar o “Curdistão”.

A reacção do Exército foi uma “política de terra queimada”: a evacuação de 3000 aldeias e a transferência forçada de três milhões de curdos da Anatólia. Sem apoio logístico, muitos combatentes instalaram-se no Norte do Iraque onde o PKK, sempre perseguido pelas forças turcas, tem mantido um elo, ora de cooperação ora de confronto, com a dupla Massoud BarzaniJalal Talabani e os seus peshmerga (“os que enfrentam a morte”).

Abdallah Öcalan, líder do PKK, com guerrilheiros num campo de treino em Helweh, Vale de Bekaa (Líbano), a poucos quilómetros da fronteira com a Síria. Esta base foi encerrada em Maio de 1992 (ano da foto) depois de negociações entre o regime de Damasco e a Turquia
© Ramzi Haidar | AFP | Getty Images

O exílio de Öcalan em Damasco chegou ao fim em 1998, quando a Turquia ameaçou a Síria com uma declaração de guerra. Em Outubro, os sírios fecharam os campos do PKK e pediram ao líder curdo que deixasse o país. Não o extraditaram, como reclamava Ancara, e ele foi bater primeiro à porta de Moscovo.

A URSS, aliada de Öcalan, fora dissolvida em 1991 e o novo governo russo expulsou Apo, cedendo às pressões turcas e americanas. As paragens subsequentes foram a Itália e a Grécia. Sabendo que a presença de Öcalan na Ilha de Corfu irritaria Ancara (e Berlim, que também o acusa do assassínio de dissidentes na Alemanha), os gregos tentaram encontrar-lhe refúgio num país africano.

Foi alojado na Embaixada da Grécia no Quénia, e a partir daqui há diferentes versões. Forçaram-no a abandonar o edifício (segundo o PKK) ou ele abandonou-o de sua iniciativa (segundo Atenas), convencido pelos quenianos de que iria ser acolhido na Holanda.

Certo é que, a caminho do aeroporto de Nairobi, em Fevereiro em 1999, o carro que transportava Öcalan foi desviado por comandos turcos, que o levaram, algemado e vendado num avião até à prisão de Imrali. Durante o voo, os agentes encapuzados celebraram esta bizarra operação e gravaram um vídeo humilhante para o lendário inimigo número um da Turquia.

Milhares de curdos espalhados pelo mundo protestaram violentamente, enquanto os turcos regozijaram com a perspectiva de verem enforcado “o carniceiro”. A captura de Öcalan não neutralizou, porém, o PKK.

As operações do Exército podem ter enfraquecido a guerrilha, que, no seu auge, chegou a ter 10 mil a 15 mil membros e hoje terá uns 5000, mas o que ditou o Roteiro de Öcalan terão sido mudanças geopolíticas: o fim do apoio da Síria e do Irão; o reconhecimento da “questão curda” na Turquia; a necessidade de os curdos do Norte do Iraque terem a bênção de Ancara para enfrentar os árabes e fazer chegar o seu petróleo ao oleoduto europeu Nabucco.

Por e-mail, diz-nos Sahim Alpay, professor no Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Bahcesehir, em Istambul, e colunista do jornal Today’s Zaman: “Öcalan é reverenciado por metade dos curdos como seu líder e representa a identidade suprimida dos curdos.”

“A vasta maioria dos turcos odeia-o por ter iniciado a insurreição que matou 30 mil a 40 mil cidadãos, incluindo 7000 agentes das forças de segurança. Outra metade dos curdos acha que ele foi usado por reaccionários turcos para extinguir as aspirações curdas, ao identificar estas com a violência e o terrorismo.”

Henri Barkey, analista do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, e autor de Turkey’s Kurdish Question, acrescenta: Öcalan “tornou-se um símbolo importante para muitos curdos que estão convencidos de que, sem ele e o PKK, o Estado turco jamais faria concessões. Até os curdos que detestam as suas tácticas reconhecem, mesmo que com relutância, a sua importância.”

Numa entrevista por correio electrónico, Barkey conclui: “O problema curdo é, de longe, a mais importante questão na Turquia. Deu azo a todo o tipo de actividades ilegais, incluindo esquadrões da morte dentro do Estado. Mais importante, impediu a Turquia de ocupar um lugar democrático e estável. Sem a resolução do problema curdo, a Turquia não tem qualquer hipótese de entrar na UE.”

Tratados pela Turquia como “um problema de terrorismo”, os curdos encheram as fileiras e os cofres do PKK (na foto, um guerrilheiro equipado com granadas nas montanhas Qandil, no Iraque, em 2010). Nos anos 1990, a reacção do Exército foi uma “política de terra queimada”: a evacuação de 3000 aldeias e a transferência forçada de três milhões de curdos da Anatólia. Sem apoio logístico, muitos combatentes instalaram-se no Norte do Iraque (na foto), onde o PKK tem mantido um elo, ora de cooperação ora de confronto, com Massoud Barzani (líder desta região semi-autónoma) e Jalal Talabani (Presidente em Bagdad)
© Shiho Fukada | The New York Times

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 14 de Agosto de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 14, 2009

As primeiras-damas de Jacob Zuma

A Constituição da África do Sul foi redigida para um chefe de Estado com um casamento cristão e monogâmico. Não previa um Presidente zulu e polígamo, diz Rian Malan. (Ler mais | Read more…)

Jacob Zuma perdeu a presidência em 2019. Em 2019, prepara-se para o seu sétimo casamento
© Themba Hadebe | AP

Rian Malan, descendente da “tribo branca” que em 1949 instituiu o apartheid como ideologia oficial da África do Sul, está exultante com a ideia de ter um presidente da República com quatro mulheres de seis casamentos e pelo menos 20 filhos.

Jacob Zuma (JZ) “representa a verdadeira África, e a sua eleição tem um significado quase comparável ao de Barack Obama nos Estados Unidos”.

Não é de espantar que esta seja a opinião do jornalista, escritor e músico que grafitava as paredes do bairro branco onde vivia com a palavra de ordem Say it loud, we are black and we are proud (Digam bem alto, somos negros e temos orgulho).

Neto de Magnus Malan, ministro da Defesa do regime de segregação racial de que o seu tio-avô Daniel Malan, fundador do Partido Nacional, foi um teórico, Rian tentou sempre escapar ao “clã”.

Em miúdo, Rian trabalhou numa loja para comprar guitarras e LSD, tocava blues nos townships negros e, aos 18 anos, já era um jornalista contra o sistema.

Fugiu para Los Angeles quando quis escapar ao serviço militar obrigatório e só regressou nos anos 1980. Para os seus parentes, ele era o kaffir boetie ou nigger lover.

Autor do controverso My Traitor’s Heart: A South African Exile Returns to Face His Country, His Tribe, and His Conscience, livro onde afirma “eu amo os negros e tenho pavor deles” – e agora guitarrista da banda jazz Hot Club D’Afrique, Rian mostra-se tão divertido quanto Zuma quando se especula sobre quem o novo Presidente irá escolher para primeira-dama.

“Eu amo as minhas mulheres e tenho orgulho nos meus [22] filhos”, tem repetidamente afirmado o sucessor de Thabo Mbeki, criticando os “políticos hipócritas que mantêm amantes secretas”.

Zuma ainda vive com a sua primeira mulher, Gertrude Sizakele MaKhumalo, apoio fundamental durante os tempos que passou na prisão de Robben Island, por ter sido membro do braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC).

Ela nasceu em 1940. Começaram a relação em 1963, mas separaram-se quando ele foi detido pelo regime do apartheid em 1963 e condenado a dez anos de prisão. Casaram-se em 1973 e não tiveram filhos.

Sizakele MaKhumalo-Zuma, a primeira mulher de JZ, que continua a seu lado, seguindo a tradição zulu de poligamia, apesar de ele estar a caminho do sétimo casamento
© Schalk Zuydam | Reuters

 

Nkosazana Dlamini-Zuma, a segunda mulher e a única de quem se divorciou. Activista do ANC, tem tido uma carreira política fulgurante desde os tempos de Nelson Mandela
© News24

Dois anos depois, Sizakele MaKhumalo-Zuma ficou sozinha na África do Sul, quando JZ foi para o exílio, e aqui conheceu a que viria a ser a sua segunda mulher, Nkosazana Clarice Dlamini, nascida em 1949. O casamento foi abençoado pela primeira mulher, de acordo com as tradições zulus de poligamia. Tiveram quatro filhos, mas divorciaram-se em 1998, ela alegando “diferenças irreconciliáveis”.

O divórcio não impediu que NDZ (iniciais de Nkosazana Dlamini-Zuma), também ela activista do ANC, seguisse uma ascendente carreira política: foi ministra da Saúde, dos Negócios Estrangeiros e da Administração Interna, sob as presidências, respectivamente, de Nelson Mandela, Thabo Mbeki e Jacob Zuma. Em 2002, foi eleita presidente da Comissão da União Africana – a primeira mulher na liderança [até 2007] desta organização que antes de chamava Organização de Unidade Africana (OUA) e sempre foi um bastião masculino.

[Em 2015, a BBC incluiu NDZ na sua lista das “100 Mulheres Mais Importantes”. Em 2019, um ano depois de JZ, suspeito de corrupção ter sido forçado a sair de cena para Cyril Ramaphosa assumir a presidência da República – um posto que ela ambicionava -, a ex-mulher de Zuma exerce funções de ministra dos Assuntos Tradicionais.]

A terceira mulher de Zuma foi Kate Mantsho, de origem moçambicana (cinco filhos em 24 anos de união, desde 1976). Suicidou-se, aos 44 anos, em 2000, queixando-se de ter “vivido um inferno”. Terá deixado uma nota a um reverendo, a justificar a sua decisão. Proibiu o marido de assistir ao funeral.

O quarto casamento, em 2008, em vésperas de JZ ascender à chefia do Estado e, por isso, muito badalado, foi com Nompumelelo MaNtuli, tinha ela 35 anos (nasceu em 1973). Tiveram três filhos.

[Em 2010, JZ casou-se com Thobeka Stacy Mabijha também nascida em 1973, com quem tem dois filhos. Como primeira-dama a (quinta) mulher agora conhecida como Thobeka Madiba-Zuma envolveu-se numa campanha da Unicef contra os casamentos infantis, incentivando o governo sul-africano a ilegalizar esta prática.

Em 2012, Zuma casou-se com Gloria Bongi Ngema – a sexta mulher – que já o acompanhava em viagens diplomáticas (a França, por exemplo), com quem já tinha um filho de três anos e que agora ostenta também o seu apelido. 

2015, surgiram rumores de que Nompumelelo MaNtuli-Zuma tentou envenenar JZ, o que terá forçado o seu “desterro” da casa da família em Nkandla para KwaMaphumulo, outra localidade da província de KuaZulu-Natal. 

Em Abril de  2018, foi anunciado o noivado do ex-presidente com Nonkanyiso Conco, de 24 anos – mais de 50 mais nova do que ele – que será a sétima mulher. Por se envolver com o ex-presidente e não revelar esse relacionamento, teve de se demitir de tesoureira e porta-voz de uma organização não lucrativa, She Conquers, criada por Cyril Ramaphosa em 2016 para apoiar as mulheres no combate à sida e à segregação de género.

Em Janeiro de 2019, um mês depois de o futuro marido se juntar ao Twitter, também  Nonkanyso se fez anunciar nesta rede social, com uma declaração de amo (My hubby is fit and fresh, I love you bae @PresJGZuma) e com duas fotografias suas em top-less.]

Em 2015, surgiram rumores de que Nompumelelo MaNtuli-Zuma, a quarta mulher de JZ, tentou envenenar o marido, o que forçou a sua expulsão da casa familiar no KuaZulu Natal
© joziwire.co.za

Thobeka Madiba-Zuma, a quinta mulher de JZ, envolveu-se numa campanha da Unicef contra os casamentos infantis, incentivando o governo sul-africano a ilegalizar esta prática.
© huffingtonpost.com

Estas são as mulheres “oficiais”, mas Zuma teve e terá outras namoradas, assumidas ou não publicamente. [Uma delas é Minah Shongwe, com quem teve o filho mais velho, Edward, 36 anos, homem de negócios, com acções e posições de administrador em mais de 20 companhias.]

Quanto ao número de filhos, tem sido estimado entre 13 e 22. Na imprensa sul-africana, alguns apostavam que a favorita para ser primeira-dama seria a tímida Sizakele MaKhumalo, mas outros acreditavam que seria a mais extrovertida e ambiciosa Nompumelelo Ma Ntuli.

Outros admitiam que a escolha recaísse numa das suas sua filhas, Duduzile Zuma, que tem estado sempre a seu lado nos vários processos judiciais a que tem sido sujeito, desde fraude e desvio de fundos até violação.

Inquirido sobre o aparente incómodo de Zuma ser um polígamo que se vangloria da sua virilidade, Rian Malan responde-me, por e-mail, de Joanesburgo: “A Constituição da África do Sul é um texto muito ocidental. Os que a redigiram imaginaram claramente que o presidente seria bem casado com uma só mulher, segundo a tradição cristã. Esta mulher seria a primeira-dama com direito a participar em banquetes oficiais.”

“Quando o presidente termina o seu mandato, continuará a receber o seu salário completo para o resto da vida; e quando morrer, o salário (mas também a protecção policial, etc.) passará para a sua mulher.”

“Ora, Zuma tem cinco, talvez seis mulheres, o que significará um extraordinário aumento de custos para os contribuintes (sobretudo, porque a mais recente das suas mulheres vai sobreviver em muitas décadas ao marido, que tem 70 anos.”

“Em termos de lei, a família mais próxima do presidente também tem direito a viajar gratuitamente pela South African Airways – uma despesa maciça para um homem com várias mulheres e pelo menos 22 filhos.”

[Os gastos com as mulheres estão a ser revistos por uma comissão económica para que só uma delas possa receber financiamento do Estado].

Em 2012, Zuma casou-se com Gloria Bongi Ngema – a sexta mulher – que já o acompanhava em viagens diplomáticas (a França, por exemplo), com quem já tinha um filho de três anos e que agora ostenta também o seu apelido
© Spencer Platt | pri.org

Em Abril de  2018, foi anunciado o noivado do ex-presidente com Nonkanyiso Conco, de 24 anos – mais de 50 mais nova do que ele – que será a sétima mulher
© dailymaverick.co.za

Num país onde o ANC e a sua Liga das Mulheres (que votou esmagadoramente em Zuma) lutaram pela igualdade de género e onde a sida é uma doença que mata milhares, todos os anos, ainda há lugar para a poligamia?

Rian Malan, que gerou polémica em 2003 quando, num artigo publicado na revista britânica The Spectator, considerou “grotescamente exageradas” as estatísticas sobre “30 milhões” de mortes por HIV, responde: “Só jornalistas e activistas ocidentalizados estão preocupados.”

“Thabo Mbeki seguiu políticas para [o combate à] sida que o vexaram em todo o mundo, mas a esmagadora maioria das massas sul-africanas não se incomoda. Quando as massas se ergueram contra ele, nem sequer foram referidas as suas políticas inúteis, alguns dirão genocidas.”

“Muitos activistas ficaram surpreendidos e desapontados. Eles pensam que a sida é uma questão central neste país”, adiantou Rian.

“O proletariado discorda porque se livrou de Mbeki sem hesitação, e se virou, em grande número, para Zuma, para as suas múltiplas mulheres e para o seu famoso banho anti-sida [depois de uma relação sexual, pela qual foi ilibado da acusação de violação, com uma mulher infectada com o vírus].”

Aos 55 anos, Rian Malan vai ainda mais longe na análise do desconforto sentido em alguns sectores sul-africanos com a vida excêntrica de Zuma. “O ANC foi buscar os seus líderes a uma classe burguesa de cristãos africanos, cultos e ocidentalizados. Oliver Tambo e Nelson Mandela eram advogados.”

“Mbeki descendia dos primeiros convertidos, atraídos para Jesus por missionários católicos nos anos 1860. Na sua família havia académicos, matemáticos, compositores de música clássica. A mãe avisava-o que se não fizesse os trabalhos de casa acabaria como ‘essa gente’ analfabeta.

Referia-se a pessoas como Jacob Zuma, um homem com estudos rudimentares que se orgulha das suas raízes camponesas e da sua fidelidade às tradições zulus, incluindo a poligamia”.

“O preconceito de classe na comunidade negra é um tema de que ninguém gosta de falar mas, em privado, os negros cultos, ou ‘assimilados’, desdenham de Zuma como um anormal e sentem-se mortificados por ele continuar adepto de hábitos culturais ‘atrasados’, como a poligamia, o sacrifício de animais e as danças com peles de leopardo.”

A elite do ANC considera que “este comportamento ridiculariza os africanos, mas Zuma está-se nas tintas! Alguns dizem que é só política, um plano engenhoso para atrair os votos zulus, mas eu não acredito nisso.”

Duduzile Zuma é a filha mais conhecida e influente do presidente sul-africano. Numa entrevista, quando lhe pediram opinião sobre poligamia, respondeu assim: No way. Hell no. Not that I don’t believe in it. My father practises it. I understand it. I accept it, but it’s just not my choice. Em 2016, depois de cinco anos de casamento, Duduzile divorciou-se: uma separação tão milionária quanto a união, alegando infidelidade do marido
© Mail & Guardian

A poligamia “é uma questão repleta de ironia cómica”, observou Rian. “Os liberais e revolucionários sul-africanos prestam homenagem à ideia de africanidade, mas só da boca para fora, porque o seu grande sonho é criar uma sociedade que não é de todo africana.”

“As raízes do ANC foram plantadas por missionários cristãos e depois transplantadas para o marxismo, que via o tribalismo como barbárie feudal, desligada de todas as religiões e apegada a ‘superstições’ que mantinham os africanos atrasados.”

“Lembro-me de há alguns anos ter entrevistado, a este propósito, o [já falecido] amigo e médico de Mandela, Dr. [Nthatho] Motlana, que exprimiu o seu desprezo por selvagens que tocam tambores na floresta, têm múltiplas mulheres e dançam à volta de peles de animais. Se ele tivesse poder, tais práticas teriam sido, eventualmente, proibidas aqui, como foram em Moçambique.”

Agora, “o sonho de Motlana está a desvanecer-se – não é só Zuma que está a fazer ressurgir África. Até o maior jornal da África do Sul, o tablóide Daily Sun, deve o seu êxito ao facto de oferecer aos negros o que eles querem ler, e nada disso tem a ver com o que os missionários e marxistas tentaram empurrar-lhes pela garganta a baixo.”

“E o que querem eles ler? Histórias sobre mistério e magia, possessões demoníacas e intervenções sobrenaturais de espíritos ancestrais. Os pobres são assim. E os seus primos ricos também gostam das velhas tradições, sacrificando animais nos jardins das suas mansões nos subúrbios, para agradecer aos antepassados a boa sorte.”

“Estas manifestações de África são perturbadoras para os brancos liberais e para os assimilados da variedade de Mbeki”, acentua Rian. “O sonho deles, suponho eu, era o de um país em que a educação e a ideologia progressista transformaria os africanos em europeus de pele negra.”

“A ascensão de Zuma é o prenúncio da morte dessa ideia. No final, África acabará por triunfar. Talvez para pior, quem sabe? Mas o que nós precisamos neste momento é de um bom rei negro que imponha disciplina, restaure e reinvente uma ideia que possa reunificar uma nação fracturada.”

“Há possibilidade de Zuma ser esse rei”, vinca. “Eu nunca me deixei impressionar pelo projecto de transformar a África do Sul numa democracia de estilo ocidental, com direitos de género, casamentos gay e por aí adiante.”

“Essas são ideias de uma civilização estranha. As únicas soluções que funcionam aqui assentam na história, na cultura, na tradição do povo africano. A ascensão de Zuma é o fim definitivo e velhas ilusões e o início de uma longa e dolorosa busca por algo de novo.”

Jacob Zuma,  presidente da África do Sul de 2009 a 2018, dança no dia em que se casou com Bongi Ngema, numa cerimónia tradicional, designada por Umgcagco, em Nkandla, província do KwaZulu Natal, em 20 de Abril de 2012. “Há ainda um preconceito de classe na comunidade negra”, diz Rian Malan. “Em privado, os negros cultos, ou ‘assimilados’, desdenham de Zuma como um anormal e sentem-se mortificados por ele continuar adepto de hábitos culturais ‘atrasados’, como a poligamia, o sacrifício de animais e as danças com peles de leopardo”
@ Elmond Jiyane |GCIS | Reuters

As palavras de Rian parecem confirmar as análises de que são os xhosas, como Mbeki e Mandela, e não os africânders ou boers (“agricultores”, em holandês), como ele, quem se mostra mais receoso de Zuma e das suas tradições.

“O tribalismo é um dos aspectos da vida na África do Sul que só é discutido em privado”, anota Rian Malan, que dormia com uma arma no bolso e uma faca na almofada.

Em My Traitor’s Heart, ele relata assassínios em série, de mulheres brancas massacradas nos seus quartos e homens negros linchados nos seus pátios; vinganças tribais e ajustes de contas policiais. “Oficialmente, o ANC eliminou o demónio do tribalismo mas, em privado, as pessoas admitem que permanece um factor – ainda que pequeno.”

Durante o mandato de Mbeki, prossegue Rian, “os membros da sua tribo xhosa estavam sobrerepresentados na hierarquia, daí o termo Xhosa [lê-se Cósa] Nostra, sugerindo um certo tipo de máfia.”

“Os zulus esperam, fervorosamente, que Zuma ofereça iguais oportunidades nos negócios e no governo aos membros do seu clã. Mas o ANC tem até agora preservado o nepotismo tribal suficientemente subtil para impedir que se torne uma causa de conflito com outras tribos.”

“Zuma e os Boers… hum. Quando eu era miúdo, na escola primária diziam-nos que os africanos preferiam os boers aos ingleses, ainda que este fossem mais liberais. Explicavam-nos que os ingleses falavam com uma língua bifurcada, enquanto os boers eram, honesta e abertamente, racistas (o humorista americano P.J. O’Rourke afirmou uma vez que o problema com os africânders era ‘nunca terem aprendido a mentir como os brancos’).”

“Na universidade, concluímos que isto era um cliché racista inventado por cientistas loucos do apartheid, mas trinta anos depois… ainda ouvimos os negros dizer que os boers são okay.”

Rian recorda um dia em que Zuma declarou, perante uma plateia de africânders, que “os boers e os negros percorreram juntos um longo caminho e que ‘o africânder aprendeu, de muitos modos, a viver com os negros’. Chegou a descrever-nos como ‘os únicos brancos verdadeiramente africanos’ e a gabar-nos por termos sinceramente procurado soluções para os nossos incomensuráveis problemas.”

“Foi muito divertido. Era uma manobra eleitoral, é óbvio, mas muito inteligente. Curiosamente, muitos brancos anglófonos sentiram-se ofendidos mas, que eu me lembre, não houve uma única palavra de protesto da parte dos negros.”

Que futuro prevê Rian Malan para a África do Sul liderada por Zuma? “Nunca acertei nos meus prognósticos, por isso cedi essa honra ao meu cão Tommy – ele acha que os nossos problemas só acabam com uma invasão de extraterrestres que obrigarão negros e brancos a lutarem juntos contra um inimigo comum. Podem ver Tommy em acção no YouTube, numa canção chamada Siener, que significa profeta”.

Até à chegada dos aliens, Rian Malan toca com os Hot Clube d’Afrique. “Sempre adorei a música manouche da Europa. O nosso lema é ‘cigano/boer/judeu’. É música das pequenas minorias largamente ultrapassadas por pessoas de quem suspeitam virão um dia a matá-las e a comê-las, mas que entretanto dançam. Que mais podemos fazer?”

Rian Malan: O sul-africano rebelde que desafiou a sua família e o Estado do apartheid
© The Nation

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, in 2009

A república dos “mullahs” é agora dos Pasdaran?

Os Guardas da Revolução tornaram-se uma força poderosa e temível no Irão, diz o analista Meir Javedanfar, nascido em Teerão e a viver em Telavive. “Desde que se tornou Supremo Líder, em 1989, o Ayatollah Ali Khamenei olha para os outros dirigentes religiosos, em particular Rafsanjani e Khatami, como rivais e uma ameaça maior.” (Ler mais | Read More…)

Os Guardas da Revolução (Pasdaran) detêm poder político e económico, e controlam o nuclear. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Os Guardas da Revolução (Pasdaran) detêm poder político e económico, e controlam o nuclear

Com dupla nacionalidade iraniana e israelita, Meir Javedanfar nasceu em Teerão, de onde saiu oito anos depois da revolução islâmica do Ayatollah Khomeini. Formado em Relações Internacionais e Estudos Estratégicos na universidade inglesa de Lancaster, vive agora em Telavive onde é director da Middle East Economic and Political Analysis Company (meepas).

Escreveu com Yossi Melman o livro Nuclear Sphinx of Tehran – Mahmoud Ahmadinejad and the State of Iran, colabora com a Jane’s Intelligence Digest e é um dos conselheiros da Aliança das Civilizações. O jornal Asia Times descreve-o como “um dos observadores mais bem informados”, e o blogue reformista iraniano Negarkha considerou-o “um dos analistas mais objectivos”, Javedanfar deu-nos esta entrevista, por telefone, a partir do Brasil, onde está de férias.

A reeleição de Mahmoud Ahmadinejad [em 2009] foi confirmada pelo Conselho dos Guardiões. Será que a “revolução verde” chegou ao fim?

Isto não foi uma revolução. Foi um protesto. As pessoas não estavam a lutar por uma mudança de regime. Exigiam uma contagem justa dos votos e que as suas vozes fossem ouvidas pelo Supremo Líder. Queriam que o ‘Ayatollah’ Ali Khamenei reconsiderasse o seu apoio ao Presidente Mahmoud Ahmadinejad.

ayatollah não cedeu. O facto de não ter cedido criou mais frustrações entre as pessoas. A resposta violenta aos protestos contribuiu para uma redução das manifestações. No entanto, acho que os protestos, em maior ou menor número, não acabaram. De modo algum!

A batalha no regime continua?

Sim. Nós não vemos, mas há uma luta entre Akbar Hashemi Rafsanjani, Mir-Hossein Mousavi e os teólogos [moderados] de um lado, e Ali Khamenei, Ahmadinejad e os messiânicos liderados pelo ‘Ayatollah’ Mesbah Yazdi do outro. Por agora, os aliados de Khamenei estão numa posição de vantagem. Muito vai depender do que Khamenei pode oferecer ao outro lado.

Ou mais importante: vai depender da margem de manobra que [o campo de Mousavi] terá para forçar Khamenei a uma espécie de compromisso. Num futuro a médio prazo, não vejo isso a acontecer.

Houve muita especulação de que o Ayatollah Akbar Hashemi Rafsanjani, presidente da Assembleia de Peritos, estaria a congregar apoios para afastar Khamenei, mas o Supremo Líder parece ter saído vitorioso. O que aconteceu?

Para confrontar Khamenei, Rafsanjani não podia avançar sozinho. Ele precisa dos ‘mullahs’, e nenhum deles tem agora um grande poder. Precisava que as pessoas continuassem a manifestar-se durante várias semanas e precisava do apoio dos manifestantes. O problema é que o próprio Rafsanjani tem um passado obscuro.

Depois, os mullahs estão muito distantes do povo. Há uma coisa que é muito importante frisar: Rafsanjani não quer pressionar muito Khamenei. Porque se este cair devido à instabilidade, ou se as pessoas começarem a reclamar uma democracia total no Irão, isso será muito mau para Rafsanjani.

É certo que há teólogos que não estão satisfeitos com a situação mas não têm poder suficiente para a mudar. Os Guardas da Revolução estão com Khamenei e Ahmadinejad.

Também há mullahs que receiam pressionar Ahmadinejad porque isso se pode virar contra eles. Se pressionarem muito, todo o regime pode cair. Eles têm de ser muito cuidadosos. Acho que até os ‘mullahs’ na Assembleia de Peritos duvidam que os Guardas da Revolução aceitariam o afastamento de Khamenei.

"Tecnicamente [os pasdar] recebem ordens do Rahbar (Líder), mas será que ele, Ali Khamenei alguma vez ousou contradizê-los?", perguntou Gary Sick, que foi conselheiro do Presidente Jimmy Carter durante a "crise dos reféns" norte-americanos na Embaixada dos EUA em Teerão, em 1979. @AP Photo/Vahid Salemi)

“Tecnicamente [os Pasdaran] recebem ordens do Rahbar (Líder), mas será que Ali Khamenei alguma vez ousou contradizê-los?”, pergunta Gary Sick, que foi conselheiro do Presidente Carter durante a “crise dos reféns” na Embaixada dos EUA em Teerão, em 1979
© Vahid Salemi

Os Guardas da Revolução estão em vantagem?

Sim, porque nos últimos dez anos, Khamenei reduziu, gradualmente, o poder dos teólogos. Já não estamos em 1979, quando a maioria da liderança, tendo Khomeini à cabeça, era composta por dirigentes religiosos.

[Exemplos: o Ayatollah Mohammad Behesthi era o chefe do sistema judiciário, o Hojatoleslam Mohammad Reyshahri foi ministro dos serviços secretos, o Ayatollah Sadegh Khalkhali foi juiz dos tribunais revolucionários, Khamenei formou os Guardas da Revolução e foi Presidente da República, tal como Rafsanjani e Khatami. Em 1997, metade dos candidatos à chefia do Estado eram “mullahs”. Este ano (2009), só houve um: Mehdi Karroubi.]

Por que é que Khamenei reforçou o poder dos Guardas da Revolução e reduziu o dos mullahs, como ele?

Porque são mais leais. Os Guardas da Revolução combateram na guerra contra o Iraque, e são os que têm mais a perder. Os mullahs terão sempre as mesquitas, mas os Guardas da Revolução não têm nada mais nada.

Esta gente veio do interior do país, foi-lhes dado poder e por isso estão mais dispostos a correr riscos. Depois é uma questão de know-how.

Educados em seminários religiosos, os ayatollahs têm fraca ideia de como se governa um país – só conhecem o Corão. Não se lhes pode entregar os ministérios da Saúde, da Defesa ou do Petróleo.

Há ainda outro factor, muitos dos mullahs da revolução estão a ficar velhos e a nova geração não tem qualificações nem espírito de sacrifício, porque não lutaram pela revolução nem na guerra com o Iraque, ao contrário dos revolucionários não-mullahs.

É por isso que Khamenei prefere investir nestes. Há ainda mais outro factor: desde que se tornou Supremo Líder, em 1989, Khamenei olha para os outros mullahs, em particular Rafsanjani e Khatami, como rivais e uma ameaça maior.

[Os Guardas da Revolução”foram dotados de uma extraordinária influência sobre todas as funções na República Islâmica – militar, política, económica e até islâmica”, salienta, no seu blogue, Gary Sick, que foi conselheiro de Jimmy Carter durante a crise dos reféns na embaixada americana em Teerão. “Tecnicamente eles recebem ordens do Rahbar (Líder), mas será que ele alguma vez ousou contradizê-los?”

“Pelo contrário, parece estar sempre a cortejá-los, oferecendo-lhes mais poder e responsabilidades. (…) Ao contrário do exército profissional, que sempre abjurou exercer um papel político, os Guardas da Revolução foram reconhecidos como protectores da República Islâmica. Eles e as suas empresas obtiveram grandes contratos, da construção de aeroportos às telecomunicações e fabrico de automóveis. 

O Estado corporativo e militarista reduziu os privilégios de outros. Para Rafsanjani, o segundo homem mais poderoso e em competição directa com os Guardas da Revolução, é um momento existencial”.]

Mir-Hossein Mousavi (esq.) e Mehdi Karroubi: os líderes do Movimento Verde, de oposição a Mahmoud Ahmadinejad nas eleições de 2009
© Associated Press

Quais são agora as opções de Mousavi e de Mehdi Karroubi?

Se as manifestações se tornarem muito violentas, talvez possam recorrer a greves. Ou podem chegar a um compromisso com Khamenei. É possível que Karroubi aceite afastar-se durante algum tempo, mas Mousavi vai esperar para ver se tem apoio popular. Ele vai ter de mostrar liderança.

Como vai liderar se está quase sob detenção domiciliária?

A detenção não será um impedimento. Basta pensar em Khomeini que foi exilado para o Iraque [e depois para França] e fez a revolução fora do país.

Há risco de que possa ser preso ou deportado?

Seria um grave erro, da parte de Khamenei, prender Mousavi, mas tudo é possível. Se Mousavi for preso ou pedir asilo, por exemplo, à embaixada sueca em Teerão, Khamenei enfrentará a mais credível oposição desde meados dos anos 80.

Para Mousavi, a prioridade é deixar o vento soprar, transformar estes protestos num movimento de desobediência civil. O próximo passo, ninguém sabe. Mousavi não é Khomeini. É um intelectual. Também não é um político astuto como Rafsanjani. É surpreendente que tenha chegado até aqui.

Qual será o papel do Parlamento – a instituição que pode demitir o Presidente?

Se Khamenei quiser que Ali Larijani [o presidente do Majlis-Parlamento] se mantenha à margem, não haverá oposição viável. Mas se Khamenei permitir que Larijani seja alternativa, então prevê-se que Ahmadinejad enfrentará problemas no Parlamento.

Larijani não gosta de Ahmadinejad e poderá ser o próximo Presidente iraniano daqui a quatro anos. A melhor maneira de o conseguir é ser agora uma boa alternativa a Ahmadinejad.

[Ali Larijani, filho do grande Ayatollah Mirza Hashem Amoli, um teólogo xiita que morreu em 1993, está a emergir como “uma terceira força”, escreveu Kamal Nazer Yasin, no site Eurasianet.org. “Com laços ao establishment religioso e com sólidas credenciais religiosas, esforça-se arduamente para criar um perfil público distinto de Khamenei e de Mousavi.

(…) A apoiá-lo tem familiares influentes. O irmão Sadegh é um dos 12 membros do Conselho dos Guardiões e terá sido ele que forçou o reconhecimento de que houve irregularidade em três milhões de votos. O irmão Mohammad Javad é um destacado estratego político. O genro Ali Motahari é uma proeminente figura da direita conservadora.]

Como vai Ahmadinejad relacionar-se com a comunidade internacional?

Acho que a América vai negociar com o Irão, mesmo que seja muito mais difícil. O regime iraniano perdeu muita credibilidade, dentro e fora do país.

Meir Javedanfar, analista iraniano-israelita. @Dr (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Meir Javedanfar, analista iraniano-israelita
© ladiaria.com.uy

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 1 de Julho de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 1, 2009

Rafsanjani: O turbante branco da “revolução verde”

A cara barbuda e sorridente de Mir-Hossein Mousavi pode ter sido a bandeira dos manifestantes que desafiaram o regime em 2009, das ruas de Teerão às de Tabriz. Mas o arquitecto da revolta terá sido um ayatollah de rosto quase imberbe que convenceu Khomeini a beber “um cálice de veneno” e a quem Reagan ofereceu uma Bíblia autografada. (Ler mais | Read more…)

Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, o discípulo mais fiel e confidente do Ayatollah Khomeini, tornou-se posteriormente na maior ameaça ao regime que ele ajudou a estabelecer em 1979
© Alexis Duclos | Getty Images | The Times

A palavra persa kusseh, com o duplo significado de imberbe e tubarão, tem sido frequentemente usada para caracterizar Akbar Hashemi Rafsanjani.

Num país onde mullahs e “bons revolucionários” têm barba, para imitar a piedade do profeta Maomé, o ayatollah que provocou a maior crise de liderança no Irão nos últimos 30 anos tem apenas alguns pelinhos no rosto, talvez devido à sua ascendência mongol. Pode parecer insignificante, mas não é.

O intrigante aspecto físico, o facto de usar um turbante branco e não negro (sinal de descendência do “Mensageiro de Alá”), a enorme fortuna e uma ambição ainda maior fazem dele uma figura temida e odiada.

Rafsanjani, 75 anos, não era visto em público desde as eleições presidenciais do dia 12 [de Junho de 2009], mas os que conhecem o seu estilo dizem: se está em silêncio, está a conspirar. O homem que deve a sua sobrevivência política à prática xiita de takiya (dissimulação) só revela e joga os trunfos no momento certo.

Especulou-se que Rafsanjani se encontraria na cidade santa de Qom – centro religioso do Irão –, onde recolhera o apoio “da maioria” dos 88 membros da Assembleia dos Peritos, de que era presidente, para afastar o Supremo Líder, Ayatollah Ali Khamenei.

Algumas fontes diziam que uma decisão ainda não tinha sido tomada porque persistiam divergências sobre quem deveria ser o sucessor, outras admitiam que estaria a ser negociada uma solução de compromisso para que nenhum dos campos perdesse a face.

Como é que o discípulo mais fiel e confidente do Ayatollah Khomeini se tornou na maior ameaça ao regime que ele ajudou a estabelecer em 1979? Comecemos por descodificar o seu nome. Ali Akbar é um dos primeiros mártires do xiismo.

Hashemi é o apelido de família e Rafsanjani deriva da província de Rafsanjan a que pertence a aldeia onde nasceu em 1934, no Sudeste desértico do Irão.

Rafsanjani foi para Qom, púlpito de Khomeini, aos 14 anos, influenciado pelo futuro sogro, um mullah. © Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Rafsanjani foi para Qom, púlpito de Khomeini, aos 14 anos

Um dos nove filhos de uma família de cultivadores de pistáchios, moderadamente abastada, Rafsanjani foi para Qom, aos 14 anos, influenciado pelo futuro sogro, um mullah. Deixou para trás a paixão pelo futebol e, sob a orientação de Khomeini, dedicou-se ao estudo da jurisprudência.

Foi um dos primeiros a adoptar o conceito de velayat-e faqhi (“um regime islâmico para substituir um monarca injusto”), que rompeu o dogma xiita de que “todo o poder temporal é profano até a à chegada do 12º imã”.

Rafsanjani adorava fazer sermões e quando não tinha audiência no seminário pregava para si próprio. Amigos e adversários descrevem-no como um bem-humorado contador de histórias. Até conseguia fazer rir o mestre sisudo.

Os seus discursos estão mais próximos do povo do que da aristocracia religiosa. Quando fala, ora puxa o turbante para a nuca, ora arregaça as mangas do longo robe, como se a indumentária o incomodasse.

A carreira política de Rafsanjani arrancou no princípio dos anos 1960, como activista contra a “Revolução Branca” do Xá Mohammad Reza Pahlavi. O projecto de modernização do imperador foi um duro ataque aos Mullahs, porque abalava velhos privilégios.

A reforma agrária, por exemplo, retirava-lhes a propriedade de grandes latifúndios de onde obtinham grandes recursos.

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Rafsanjani foi obrigado a cumprir serviço militar do qual estavam anteriormente isentos os seminaristas. O Exército imperial, inquieto com as suas prédicas aos soldados, enviou-o de volta ao centro teológico de Qom, na assunção de que aqui causaria menos sarilhos. Enganou-se. Como membro de uma organização religiosa leal a Khomeini, forneceu a arma usada no assassínio do primeiro-ministro Ali Mansour, em 1964

Obrigado a cumprir serviço militar do qual estavam anteriormente isentos os seminaristas, Rafsanjani aproveitou a oportunidade para pregar aos seus colegas soldados. O Exército, inquieto com estas prédicas, afastou-o das suas fileiras, e enviou-o de volta a Qom, na assunção de que ali causaria menos sarilhos. Enganou-se.

Khomeini havia sido enviado para o exílio no Iraque mas deixara organizações religiosas no Irão e foi como membro de uma delas que, em 1964, Rafsanjani forneceu a arma usada no assassínio do primeiro-ministro Hassan Ali Mansour. Foi preso pelo menos dez vezes. A sua biografia oficial salienta que foi “desumanamente torturado” pela polícia secreta SAVAK.

Qom e Khomeini permaneceram influências determinantes na vida de Rafsanjani – mas não as únicas. Em 1967, ainda na prisão, publicou uma biografia de Amir Kabir (1807-1852), o grande vizir reformista do século XIX, que ele admira por ter usado o Ocidente para modernizar a Pérsia. Estranha escolha, para um mullah.

Representante nas negociações para pôr fim a cem anos de guerra entre os persas e o Império Otomano, Amir Kabir ajudou a subir ao trono o Xá Naser al-Din (da dinastia Qajar) e este, agradecido, ofereceu-lhe uma irmã em casamento e o cargo de primeiro-ministro.

Nestas funções, reduziu a influência estrangeira nos assuntos iranianos, criou um sofisticado serviço de espionagem, fundou a Dar ul-Funun, a primeira universidade de estilo europeu, em 1848, apoiou a criação do primeiro jornal persa, Vaghaye al Etefaghiyeh e tentou abrir no Irão todas as indústrias que então existiam pelo mundo. Por exemplo, fábricas de aço, de armas, de açúcar, de vidro, de chá, de cerâmica, além de estaleiros navais.

Era também o vizir quem definia salário do Xá. No entanto, quando ousou cortar nas finanças da família imperial, para reduzir as despesas públicas e no âmbito de uma campanha contra a corrupção, Amir Kabir enfrentou a fúria de toda a nobreza. Demitido e forçado a um exílio interno, em Kashan, foi executado por uma ordem que Nasrudin não se lembra de ter assinado porque estava embriagado.

Este foi o destino que teve Siyyid ‘Alí-Muhammad ou Báb, o fundador da religião Babí (actual Baha’í), que Amir Kabir mandou matar em 1850. Mas este não é certamente o destino que Rafsanjani quer para si, por muito que admire o vizir reformista.

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Do casamento com Effat Mar’ashi, em 1962, Rafsanjani teve três filhos (Mohsen, Mehdi e Yasser) e duas filhas (Fatmeh e Faezeh)

Em 1978, quando saiu da prisão, Rafsanjani tornou-se membro de um comité secreto, criado pelo exilado Khomeini, para organizar uma sublevação contra o Xá.

O comité só emergiu da clandestinidade quando teve a certeza absoluta de que a revolução triunfaria. Em Fevereiro de 1979, quando Khomeini regressou do exílio, o então hojatoleslam (um grau abaixo de ayatollah no escalão dos Mujtahids, ou jurisconsultos) rapidamente deu provas de ser dos mais competentes e implacáveis executivos.

Como ministro interino do Interior, Rafsanjani foi o elemento central de uma campanha feroz dirigida contra nacionalistas e comunistas, que contribuíram para a destruição da monarquia mas ameaçavam o poder de um novo déspota.

Os tribunais revolucionários enviavam um número indeterminado de críticos dos Mullahs para os pelotões de fuzilamento, e Rafsanjani declarava: “A revolução islâmica não tem alternativa às depurações violentas e sangrentas.”

Alvo de várias tentativas de assassínio, Rafsanjani sobreviveu à mais aparatosa de todas, em Outubro de 1981, quando as depurações atingiam o auge. Tinha deixado a sede do entretanto extinto Partido Islâmico Revolucionário (PRI), de que foi fundador, cinco minutos antes de uma gigantesca explosão ter soterrado um grupo de dirigentes.

O ataque, que causou mais de 100 mortos, entre eles o Presidente da República, Mohammed Ali Rajaii, foi reivindicado pelos Mujahedin-e Khalq (MEK, Combatentes do Povo,), organização que ajudou Khomeini a derrubar o Xá e depois foi marginalizada, tal como os comunistas, sociais-democratas e nacionais, que lutavam por uma democracia.

Foi por esta altura que um relutante Khamenei, aos 42 anos, aceitou suceder a Rajaii. Venceu duas eleições e exerceu o cargo até 1989, ano em que o voltaram a chamar para ser Supremo Líder.

Khomeini tinha um sucessor designado, o Ayatollah Ali Montazeri, mas este tornou-se demasiado crítico do rumo que o país levava e caiu em desgraça. É hoje um dos mais proeminentes dissidentes.

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Em Junho, de 1989, foi Rafsanjani (esq.) quem convenceu a Assembleia de Peritos a aprovar, por 60 votos a favor contra 14, a promoção a ayatollah do obscuro hojatoleslam Khamenei (centro), sucessor de Khomeini, apesar da oposição das elites religiosas em Qom [e dos líderes xiitas no Líbano e no Iraque]

Como a Constituição da República exigia que o Supremo Líder fosse um Grande Ayatollah, Khomeini ordenara uma revisão do texto, em Abril de 1989, três meses antes de morrer, definindo para o seu herdeiro o único requisito de ter “competências políticas e de gestão adequadas”.

Quem mais contribuiu para a ascensão de Khamenei foi Rafsanjani, então presidente do Majlis (Parlamento). Em Junho, de 1989, convenceu a Assembleia de Peritos a aprovar, por 60 votos a favor contra 14, aquele obscuro hojatoleslam, apesar de as elites religiosas em Qom [e os líderes xiitas no Líbano e no Iraque] se terem sentido ultrajadas com a sua súbita promoção a ayatollah.

Rafsanjani fez de Khamenei Supremo Líder porque acreditava que o podia controlar. Khamenei sabia disso e, uma vez ao leme da mais importante instituição iraniana, começou lenta e metodicamente, a consolidar o seu poder.

Ele passou a dominar tudo, desde os Pasdaran (Guardas da Revolução) aos serviços secretos, das Bonyads (fundações de “caridade” que gerem milhões de dólares) aos imãs das orações de sexta-feira, da milícia Bassij aos tribunais.

Tornou-se intocável, o único líder que não podia ser criticado. Um dos seus irmãos foi brutalmente espancado por ter constatado que “o guia tem demasiado poder”.

Com Khamenei e Rafsanjani a ocuparem os dois mais importantes postos da hierarquia, as diferentes visões políticas de ambos ficaram em evidência. Observou Christopher Dickey, na Newsweek: “A base de poder de Rafsanjani encontra-se entre as classes comerciantes – ‘o Bazar’.

Se ele não diz bem, como algumas personagens de Wall Street que ‘a ganância é boa’, tem frequentemente dado a impressão de que acredita nisso. Colocou o crescimento económico e o desenvolvimento no centro das suas políticas, e a sua família cresceu conspicuamente rica.”

Rafsanjani, derrotado (e humilhado) por Ahmadinejad na segunda volta das presidenciais de 2005, decidiu em 2009, oferecer a Mir-Hossein Mousavi fundos e conselheiros para afastar da chefia de Estado o ultraconservador que marginalizava a “velha guarda” dos Mullahs para a substituir por uma nova geração nos Guardas da Revolução e na milícia Bassij. Começou também a “conspirar” para derrubar Khamenei. ornou-se assim o financiador o Movimento Verde. © Vahid Salemi | AP

Rafsanjani, derrotado (e humilhado) por Ahmadinejad na segunda volta das presidenciais de 2005, decidiu em 2009, oferecer a Mir-Hossein Mousavi fundos e conselheiros para afastar da chefia de Estado o ultraconservador que marginalizava a “velha guarda” dos mullahs para a substituir por uma nova geração nos Guardas da Revolução e na milícia Bassij
© Vahid Salemi | AP

Khamenei, pelo contrário, “construiu a sua base de apoio entre os religiosos, os militares e o aparelho burocrático – onde a lealdade e a obediência ofereciam uma saída para a pobreza”, acrescentou Dickey.

A partir da guerra com o Iraque (1980-88), o Supremo Líder também “forjou laços estreitos com os serviços de segurança, talvez convencido de que a melhor maneira de evitar a opressão é eliminar os inimigos.”

Talentoso, perspicaz, inteligente e hábil manobrador, Rafsanjani tem procurado passar a imagem de um conservador pragmático.

Apoiou a ocupação da Embaixada dos Estados Unidos, em 1979, mas quando os que tomaram de assalto o “ninho de espiões” em Teerão exigiam o regresso de Mohammad Reza Pahlavi, como moeda de troca pelos funcionários americanos sequestrados, o orador eloquente que atraía mulheres de chador às portas do Parlamento, aos gritos de “Queremos Hashemi”, terá oferecido uma “solução interessante” a um jornalista: “Se o Xá morresse, ajudava muito”. A 27 de Julho de 1980, o imperador morria de cancro, no Cairo.

Em 1980, como representante pessoal de Khomeini no Conselho Supremo de Defesa, Rafsanjani teve responsabilidades especiais na condução da guerra contra o Iraque, o que terá fortalecido a sua “moderação”.

Opunha-se à integração mal preparada de vagas de mártires contra os tanques e artilharia do inimigo. Dizia que os combates deviam ser travados com o menor número de baixas possível, mas não conseguiu evitar três fúteis ofensivas finais.

Em 1986, cinco anos depois do atentado que quase o matou, Rafsanjani entrou num outro campo minado: contactos secretos com os Estados Unidos, que venderam armas ao Irão, apesar de um embargo, para libertar reféns estrangeiros no Líbano e financiar a guerrilha dos Contra na Nicarágua. Foi quase o seu fim.

Do seu casamento com Effat Mar’ashi, em 1962, Rafsanjani teve três filhos (Mohsen, Mehdi e Yasser) e duas filhas (Fatmeh e Faezeh). Devido à hostilidade entre o pai e Khamenei, Faezeh foi condenada, em 2012, a seis meses de prisão por “difundir propaganda contra o Estado”; em Dezembro do mesmo ano, Mehdi foi libertado, sob fiança, após dois meses isolado numa cena, sob a acusação de “agir contra o regime islâmico e corrupção financeira”). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em 2012, Fatmeh, filha de Rafsanjani, foi condenada a seis meses de prisão, por “difundir propaganda contra o Estado”; o filho Mehdi foi libertado, sob fiança, após dois meses isolado numa cela, sob a acusação de “agir contra o regime islâmico e corrupção financeira”
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Quando a ala dura do regime expôs o escândalo, Rafsanjani insurgiu-se contra eles nas orações de sexta-feira. Relato no diário britânico The Guardian de David Hirst, um dos mais veteranos correspondentes no Médio Oriente: “Sim, admitiu ele aos fiéis, o Irão recebeu o conselheiro nacional de segurança Robert McFarlane e o coronel Oliver North. Mas eles foram rejeitados e humilhados.

Tinham trazido um bolo em forma de chave para simbolizar ‘a nova abertura’, mas agentes de iranianos ‘ficaram com fome e comeram o bolo’. Num grande final, mostrou o exemplar da Bíblia, autografado pelo Presidente Ronald Reagan, que os emissários tinham trazido. Os fiéis riram-se.”

Em Junho de 1988, surgiu um ponto de viragem na história da República Islâmica: o cessar-fogo na guerra com o Iraque sem ter conseguido derrubar Saddam Hussein foi uma terrível admissão de fracasso. Rafsanjani persuadiu Khomeini de que o Irão tinha de beber este “cálice de veneno”.

Em 1989, Khomeini morreu, não antes de proclamar que “a revolução viverá enquanto Hashemi viver”, e Rafsanjani chegou à Presidência da República com 95% dos votos. Com ele, a sociedade começou lentamente a abrir-se. A sua mulher, Effat Mar’ashi, deu o exemplo, emergindo como uma figura pública e uma primeira-dama moderna.

Ao lado do marido, Effat aparecia por vezes de calças de ganga e blusas de manga curta, é certo que debaixo do chador, mas em recepções a visitantes estrangeiros chegaram a vê-la com fatos ocidentais, bem penteada e maquilhada.

Rafsanjani encorajou outras mulheres a vestirem-se com menos rigor, embora todo este esforço de abertura tenha fracassado quando os preços do petróleo começaram a cair fazendo subir a força dos radicais.

Homem de negócios interessado na globalização, Rafsanjani quebrou o isolamento do Irão ao estabelecer relações comerciais com a Rússia, a China, a Arábia Saudita e os Emirados.

Nos anos 1990, recomeçou o programa nuclear, lançou a privatização de empresas estatais e liberalizou o comércio externo. Neste processo, os melhores contratos foram parar às mãos dos seus aliados e familiares.

O Conselho dos Guardiões desqualificou Rafsanjani para concorrer às eleições de Junho de 2013. O ayatollah apoiou, então, Hassan Rouhani (dir.), que derrotaria outros cinco candidatos
© Atta Kenare | AFP | Getty Images | CBC

“A revolução islâmica de 1979 transformou o clã de Rafsanjani em paxás comerciais”, constatou a revista Forbes num artigo intitulado Millionaire Mullahs. “Um irmão dirige a maior mina de cobre do país; outro controla a rede de televisão estatal; um cunhado tornou-se governador da província de Kerman, enquanto um primo gere a exportação de pistáchios, no valor de 400 milhões de dólares; um sobrinho e um filho exercem cargos de chefia no Ministério do Petróleo; um outro filho é responsável pela construção do metro de Teerão.

Operando através de várias fundações e companhias testas-de-ferro, a família Rafsanjani controla, aparentemente, um dos maiores grupos de engenharia do Irão, uma fábrica de produção de automóveis e a melhor companhia aérea do país.”

Nas ruas, comenta-se que Rafsanjani detém contas bancárias de milhões de dólares na Suíça e no Luxemburgo, é proprietário dos melhores terrenos nas zonas económicas livres do Golfo Pérsico e possui residências de veraneio em “praias idílicas do Dubai, de Goa e da Tailândia”.

A riqueza sob suspeita de Rafsanjani levou Mahmoud Ahmadinejad, o anterior Presidente, a acusá-lo publicamente de corrupção, num frente-a-frente televisivo com Mir-Hossein Mousavi, durante a campanha para as presidenciais do dia 12  de Junho de 2009. O facto de Khamenei não ter vindo imediatamente a público em defesa da sua dignidade, azedou ainda mais as relações entre os dois ayatollahs.

Rafsanjani, derrotado (e humilhado) por Ahmadinejad na segunda volta das presidenciais de 2005, decidiu em 2009, depois de reeleito para a presidência da Assembleia de Peritos, oferecer a Mousavi fundos e conselheiros para afastar da chefia de Estado o ultraconservador que marginalizava a “velha guarda” dos mullahs para a substituir por uma nova geração nos Guardas da Revolução e na milícia Basij. Ao ver Khamenei alinhar abertamente com o Presidente, abandonando o dever de manter um equilíbrio entre facções,

Rafsanjani começou a “conspirar” para afastar o Vali-e Faqhi (Supremo Líder) que, por sua vez, estaria a preparar o seu filho, Mojtaba, para lhe suceder.

Conseguirá Rafsanjani, cognominado “o fazedor de reis”, sobreviver a mais um desafio? Como dizem os iranianos: “Só Deus todo-poderoso saberá.”

[Em Maio de 2013, o Conselho dos Guardiões desqualificou Rafsanjani para concorrer às eleições de Junho de 2013. O ‘ayatollah’ declarou então publicamente que votaria em Hassan Rouhani, que integrara a sua equipa de segurança quando  foi Presidente. Logo à primeira volta, um resultado surpreendente, Rouhani derrotou outros cinco candidatos, incluindo o que era visto como potencial vencedor, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente da Câmara de Teerão. A 3 de Agosto, Rouhani tomou posse.]

O Supremo Líder do Irão, Ali Khamenei (ao centro) e o presidente, Hassan Rouhani (primeiro à esquerda) despedem-se de Ali Rafsanjani, no dia do seu funeral, em 10 Janeiro de 2017
© Reuters

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Junho de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 28, 2009

Obrigado Europa, mas não vamos votar

A Polónia saiu do comunismo há 20 anos e entrou na UE há cinco. Para Anna, Aleksandra e Mariusz, estudantes da Universidade de Varsóvia, isso significa a “liberdade de não votar” para o Parlamento Europeu. (Ler mais | Read More…)

Bandeiras da Polónia e da UE em Varsóvia
© Kacper Pempel | Reuters

Nas ruas de Varsóvia, capital da Polónia, há morangos e flores silvestres. Há Wojtyla, o Papa, e Madonna, (not) like a virgin.

O que quase não há é cartazes dos candidatos às eleições europeias de hoje. E na velha universidade, criada em 1816 com o nome da cidade quase totalmente destruída durante a II Guerra Mundial, nem sinal de campanha.

Num campus multicolorido de petúnias e perfumado por árvores frondosas, o silêncio de uma manhã de terça-feira é interrompido pelo chilreio de pássaros ocultos, passos apressados, o tilintar de bicicletas, o sussurro de leituras.

A saborear um sol inclemente, num banco junto da Faculdade de Arqueologia onde são alunas do 3º ano, com sonhos de escavações no Médio Oriente, as amigas Anna Zawadzinska e Aleksandra Choluj, partilham um cigarro antes da próxima aula.

Desculpem interromper, vão votar para o Parlamento Europeu? “Não”, respondem em uníssono. Anna, 25 anos, tem um piquenique à beira do rio Vístula “marcado há muito tempo”. Aleksandra, de 22, vai estar “ocupada com o jubileu do casamento” dos pais.

Só Mariusz Kopec, 20 anos de vida e no primeiro ano do curso de História, se mostra disponível para sair de casa num domingo e votar nos candidatos da Plataforma Cívica (PO), o partido do primeiro-ministro, Donald Tusk, o seu favorito e o das sondagens.

“O meu entusiasmo foi maior nas eleições nacionais de 2007, quando foi necessário derrotar o PiS [partido Direito e Justiça, dos gémeos Jaroslaw e Lech Kaczynski]”, explica o jovem, olhos tímidos pousados no iPod.

“A minha mãe diz-me que não devemos perder a oportunidade de votar nos democratas, e eu acho que a PO criará mais oportunidades, abrirá novos horizontes na União Europeia.”

Lech Walesa, líder do movimento sindical Solidariedade (Solidarnosk) – crucial para a queda do regime comunista na Polónia – e futuro presidente, durante uma greve nos antigos estaleiros navais Lenine, em Gdansk (Agosto 1980)
© euobserver.com

Quer isso dizer que, em casa, o pai (em tempos quase campeão olímpico) e a mãe (atleta de ginástica artística), ele agora gestor desportivo e ela professora de Educação Física, falam das suas experiências sob o regime comunista?

“Oh, não! Isso é passado”, esclarece Mariusz, num inglês vacilante. “Só de vez em quando referem que agora é mais fácil ir às compras ou comprar uma casa, mas tentam encarar tudo de forma natural. Importante é o futuro.”

O rapaz louro e pálido que nasceu em Janeiro de 1989, cinco meses antes das primeiras eleições semilivres de 4 de Junho, revela interesse na política. “Ocupamos uma região geoestratégica complicada e não são fáceis as relações com a Rússia”, nota.

“Entrar na UE [em 2004] foi muito bom para a Polónia, porque nos deixou mais próximos da Europa Ocidental. Só se passaram cinco anos, mas há uma grande diferença entre o antes e o depois da UE, mesmo que muitos por aqui não se mostrem animados.” As sondagens apontam que só dois em cada dez polacos deverão votar hoje [7 de Junho de 2009].

Mariusz lamenta que a UE “não se mostre unida na sua política externa”, porque isso o teria ajudado, por exemplo, a definir uma posição quanto a um novo alargamento.

“Tenho a certeza que a Ucrânia deve ser membro, mas tenho dúvidas sobre a Turquia. Não que a religião islâmica seja problema, mas porque o país, geograficamente, ocupa uma parte maior da Ásia do que da Europa.”

Anna, óculos Chanel a repuxar o cabelo louro, também se regozija por fazer parte da UE, porque ainda se lembra de “longas filas à porta de lojas vazias, onde havia vinagre e mostarda, raramente carne”, e de onde as pessoas saíam com “o papel higiénico enrolado à cabeça e ao pescoço como se fosse jóias”. Agora, pode comprar produtos de vários países.

“Quando era criança, as minhas roupas e brinquedos eram em segunda mão. Vinham de parentes e amigos no estrangeiro, sobretudo da Hungria. Tudo clandestino.”

“O melhor que a UE nos deu foi a abertura das fronteiras, é muito bom poder viajar só com o meu bilhete de identidade”, interrompe Aleksandra, uma morena esguia, vestido H&M, ténis All Star.

“Até há 20 anos, tínhamos de pedir vistos à polícia, que só os dava ao pai ou à mãe e aos filhos, para não correr o risco de ver a família toda desertar”, acrescenta Anna.

Milhões de polacos acolhem o Papa João Paulo II, antigo cardeal Wojtyla, de Cracóvia, na sua primeira visita oficial a Varsóvia, em 1979
© Wikimedia Commons

Das remotas memórias da luta contra uma ditadura pró-soviética, Anna, Aleksandra e Mariusz retiveram um nome: Lech Walesa, o sindicalista do Solidariedade que, nos antigos estaleiros que se chamaram Lenine, em Gdansk, forçou o Partido Operário de Unidade Polaco (POUP) a partilhar o poder: “Um Presidente vosso”, o general Wojciech Jaruzelski, e “um primeiro-ministro nosso”, Tadeusz Mazowiecki.

Nenhum dos três jovens compreende os historiadores Slawomir Cenckiewicz e Piotr Gontarczyk, autores de uma biografia onde acusam Walesa de ter sido o “informador Bolek” da extinta polícia secreta SB, cujos arquivos citam.

“Dizem que ele mijava num canto da igreja quando era miúdo, e outras coisas horríveis”, insurge-se Anna, filha única de um empresário e de uma assistente social. “Não acredito em nada do que foi escrito. É uma caça às bruxas. Lamento que alguns dos que lutaram contra o comunismo estejam agora a lutar uns com os outros.”

Aleksandra, a mais velha de três irmãos, pai gestor financeiro e mãe professora de liceu, remata: “Mesmo que as insinuações fossem verdade – e não acredito que sejam -, Walesa continuará a ser um símbolo. Para mim, é a pessoa mais importante da Polónia. Ele foi tão corajoso. Se não fosse ele, não teríamos sido salvos.”

Mariusz acentua: “Não é possível que ele tenha sido um colaboracionista. Ele é o herói da nossa liberdade e deveriam respeitá-lo, mesmo que não gostem dele. É o que eu faço com o nosso actual Presidente, [Lech] Kaczynski. [O chefe de Estado morreu num trágico acidente aéreo em 2010]. Não o apoio, e até critico as suas posições políticas, mas respeito-o, porque ele é o chefe de Estado.”

E o que acham do desmantelamento dos estaleiros de Gdansk, berço da revolta que culminou na queda do Muro de Berlim e no colapso da URSS? “É triste, porque vão ficar em mãos estrangeiras, e o Estado deveria garantir que permaneceriam um símbolo nacional.”

Nota-se que Anna hesita, mas não evita mencionar “um rumor na Internet de que os judeus se preparam para comprar os estaleiros e controlar o país”.

Face a um olhar perplexo, elucida: “Não sabemos se é verdade. Talvez seja apenas uma expressão de anti-semitismo, embora, ao contrário do que dizem, não sejamos anti-semitas.”

Aleksandra também é hostil a uma venda a estrangeiros, embora, se isso acontecer, esteja convencida de que o complexo de Gdansk “nunca perderá o simbolismo”. A Comissão Europeia exigiu uma reestruturação dos estaleiros que envolve o despedimento de centenas de trabalhadores.

Muitos polacos ainda se recordam de “longas filas à porta de lojas vazias, onde havia vinagre e mostarda, mas raramente carne” (na foto, habitantes de Varsóvia à porta de um talho em 1980), e de onde as pessoas saíam com “o papel higiénico enrolado à cabeça e ao pescoço como se fosse jóias”
© AFP | Getty Images

As duas amigas exprimem mágoa, em particular Anna, que vê nisto “uma perda nacional”, tal como a adesão ao euro (planeada, antes da crise económica mundial para 2010-2012, prazo agora considerado irrealista). “Eu quero muito ficar com os meus zlotys”, diz. “Abolidas as fronteiras, só nos restará a língua e a moeda.”

Aleksandra discorda: “Muitos países atravessam hoje uma situação difícil por estarem excluídos da zona euro. Eu acho que a Polónia deve aderir ao euro, porque é uma salvaguarda financeira, mesmo que a nossa economia ainda não se tenha ressentido.”

A religião também divide as duas jovens. “Ainda acredito em Deus mas já não na Igreja [Católica] desde que fiquei a saber que um padre da minha paróquia abusava sexualmente de crianças e que outro contratava serviços de prostitutas. Foi chocante esta descoberta.”

Com uma cruz ao peito que ergue até tocar os lábios, Aleksandra confessa: “Nasci em Katowice, zona de muita devoção religiosa. Mantenho a tradição familiar de ir à missa todos os domingos. Aqui, em Varsóvia, onde vivo com o meu namorado, isso tornou-se ritual de velhos. Sinto pena, mas a culpa é da Igreja, que deveria ter deixado de interferir na política, quando a democracia chegou em 1989.”

Seja como for, o cardeal Karol Wojtyla, de Cracóvia, que ao ser escolhido Papa (João Paulo II) foi fundamental no processo de democratização da Polónia, continua a ser uma figura tão reverenciada quanto os compatriotas Walesa e Chopin.

O seu retrato em outdoors espalhados pela capital ou em panfletos a promover um debate sobre uma Revwolucja Ducha (Revolução Espiritual) na Uniwersytet Warszawski parece competir com a propaganda de Madonna ao seu concerto em 15 de Agosto – que os católicos celebram, anualmente, como Dia da Assunção da Virgem Maria ao Céu – e que é também o Dia das Forças Armadas da Polónia.

Aparentemente, no coração dos polacos há lugar para o antecessor de Bento XVI e para a cantora que em 2006, na digressão Confessions, chocou o Vaticano ao descer de um crucifixo de cristais Swarovski.

Numa ida a uma discoteca em que um DJ interrompeu a dance music para perguntar quantos na sala queriam um minuto de silêncio para louvar Deus, Nacho Temiño, jornalista espanhol a residir em Varsóvia há cinco anos, relatou a sua estupefacção:

– “Foram tantos os que colocaram os braços no ar, sem vergonha de assumir a fé, que só num país como a Polónia, onde o aborto é proibido e a educação religiosa [ou ética] obrigatória, isso seria possível.” 

Em 15 de Agosto de 2009, católicos polacos mais conservadores saíram à rua em protesto, acusando Madona de “blasfémia” por dar um concerto (Sticky and Sweet tour) em Varsóvia num dia santo (Assunção de Nossa Senhora). Os fãs, que enchiam a sala de espectáculos, acolheram-na em delírio, cantando-lhe os parabéns (ela fazia 51 anos)
© af11.wordpress.com

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia

Este artigo, agora revisto e actualizado,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 7 de Junho de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 7, 2009

Andrzej Wajda não esperava ver uma Polónia livre

O cineasta polaco Andrzej Wajda, galardoado com um Óscar honorário em 2000, diz que “nenhum lunático” destruirá a democracia conquistada em 1989. (Ler mais | Read more…)

© bfi.org.uk

Andrzej Wajda [1926-2016] não tenciona fazer um filme sobre Lech Walesa [mas fez e foi exibido em 2013], o ex-Presidente e líder do Solidariedade, que divide os polacos entre os que “defendem a lenda” e os que acham que “o mito deve ser desmascarado”.

Essa é uma tarefa que o cineasta deixa aos seus estudantes, “quanto mais tarde melhor, porque, como Aristóteles dizia, é mais fácil chamar herói a quem já morreu, porque os vivos ainda nos podem surpreender”.

Não se iludam, todavia, os que procuram críticas de Wajda ao homem que, em 1989, o convidou, “porque precisava de nomes sonantes”, a integrar o primeiro Governo pós-comunista na Europa de Leste.

“Se eu fizer um filme será sobre os que estão a deitar lama para cima de Walesa e o tentam denegrir”, afirma o realizador, em Varsóvia, a um grupo de jornalistas europeus.

“Será sobre a história de um Instituto [da Memória Nacional, IPN] que viola direitos constitucionais, facilitando carreiras rápidas a jovens historiadores. Estes seguem uma agenda e escolhem os arquivos [da ex-polícia secreta] consoante os nomes que querem atacar. Situação moralmente desprezível.”

Wajda refere-se a uma biografia de 750 páginas, de Slawomir Cenckiewicz e Piotr Gontarczyk, em que Walesa, o líder sindical dos estaleiros de Gdansk, é apresentado como “o informador Bolek” da extinta SB.

O livro foi elogiado pelo ex-primeiro-ministro Jarosaw Kaczynski, mas muitos críticos, incluindo ex-agentes, vêem-no como “um ajuste de contas” entre velhos camaradas que o poder transformou em inimigos.

Walesa alega que os ficheiros em seu nome foram falsificados pelo regime comunista, e nega que, quando era chefe de Estado, tivesse destruído quaisquer documentos comprometedores. Ficou tão indignado com as “calúnias” que ameaçou deixar de viver na Polónia.

A imagem que o elegante Wajda, camisa preta e cabelo branco, quer preservar de Walesa é a do sindicalista que, em Gdansk, quando lhe foi perguntar se os tanques soviéticos entrariam na Polónia em 1989, recebeu esta garantia: “Não, eles não virão! Não te preocupes!”

O realizador regressou a Varsóvia e deu “a boa nova” a todos os amigos de que não haveria invasão.

“Acreditei nele, porque era um verdadeiro político. Foi chefe de um sindicato e tornou-se chefe de Estado. Não quero comentar o que Walesa fez depois disso. Não sei o que ele ainda pretende ser. Talvez queira voltar à política e recuperar a sua antiga popularidade.”

Imagem do filme Katyn, de Andrej Wada, sobre um massacre que assombrou a Polónia. @ A V

Imagem de Katyn, de Andrzej Wajda, sobre o massacre de 20 mil oficiais polacos cometido por forças estalinistas em 1939

Andrzej Wajda, 83 anos de vida e 58 de cinema [em 2009], combatente da resistência francesa durante a II Guerra Mundial, em 1942, considera sua obrigação lembrar o passado, embora enalteça “a liberdade de privilegiar o futuro” dada aos jovens.

“Estou feliz por estar vivo, porque não esperava ver uma Polónia livre e próspera. Estou feliz porque os meus filmes influenciaram os grevistas do Solidariedade que, em 1989, formaram um governo democrático.”

Um dos mais populares filmes de Wajda – na Polónia, não no estrangeiro (ele culpa “desinteressados distribuidores russos e americanos”) – é Katyn. A cena de abertura há muito estava na sua cabeça. Dois grupos de polacos numa ponte, de um lado estão os que fogem das tropas nazis de Hitler, do outro, os que tentam escapar ao Exército Vermelho de Estaline.

Num campo de prisioneiros de guerra, um militar constata: “Os alemães levaram os nossos soldados; os soviéticos os nossos oficiais.” Outro comenta: “Que diferença faz? Cativeiro é cativeiro!”

O filme narra as quase simultâneas invasões soviética e alemã da Polónia em Setembro de 1939 e o subsequente massacre, pelos estalinistas, de 20 mil oficiais polacos nas florestas perto da aldeia russa de Katyn.

Lech Walesa, o líder do sindicato Solidariedade e ex-presidente que convidou Andrzej Wada a integrar o primeiro governo pós-comunista na Europa, “porque precisava de nomes sonantes”
© Katarina Stoltz | Reuters | Financial Times

Katyn, o filme, prova que Katyn, o crime, “foi cometido contra a inteligentsia polaca e não contra o exército”, comenta Wajda.

“A maioria dos oficiais executados eram profissionais e reservistas, a elite do país. Não foi coincidência que, enquanto os oficiais em Katyn eram mortos, professores em Cracóvia eram levados para campos de concentração. Se eliminassem os mais cultos, seria mais fácil controlar uma nação.”

Vinte anos após a “revolução” que abriu o caminho à queda do Muro de Berlim, o cineasta polaco, que também recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1981, com O homem de ferro, considera-se um optimista.

“As decisões e as mudanças [em 1989] foram tão profundas que nem os mais lunáticos conseguirão jamais eliminar o novo sistema. Fomos parte da Europa durante 2000 anos e agora, depois de um parêntesis, voltámos a ser parte dela. A Europa sempre foi a nossa referência.”

Esta declaração de amor está também gravada no filme Katyn, quando um general polaco diz aos compatriotas prisioneiros dos invasores soviéticos: “A derrota e o cativeiro fazem parte do destino de um soldado, tal como o regresso a casa para retomar o combate.”

“Não entregámos as armas ao inimigo mas a nós próprios. Por isso, só depende de nós permanecermos soldados ou sermos vencidos. (…) O nosso objectivo é pôr de novo a Polónia no mapa da Europa.”

[Andrzej Witold Wajda morreu em 9 de Outubro de 2016, aos 90 anos. O seu último filme foi Afterimage (Powidoki), centrado na vida do pintor polaco Władysław Strzemiński, perseguido por recusar a ideologia do partido comunista na era regime estalinista].

© criterion.com

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 6 de Junho de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 6, 2009

O pai do capitalismo polaco defende a sua terapia de choque

Leszek Balcerowicz não está arrependido do seu plano para “salvar” a economia nacional. As suas medidas deixaram 1,1 milhões de desempregados em empresas públicas que perderam subsídios e/ou foram privatizadas. Para alguns, tratou-se de “uma bênção”. (Ler mais | Read more…)

Para Leszek Balcerowicz, “o problema actual não é o capitalismo, mas os gastos públicos das economias mais proteccionistas”
© Albert Zawada | weekend.gazeta.pl

Diversos edifícios da avenida Marszalkowska, no centro de Varsóvia, reconstruídos depois da Segunda Guerra Mundial, ainda exibem o austero estilo arquitectónico da era comunista.

Mas a proliferação de bancos (um deles o português Millennium BCP), hotéis e centros comerciais – cheios de gente, de cor e de luz – é a prova de que, em 1989, Leszek Balcerowicz foi bem sucedido na transição de uma economia estatizada para o capitalismo.

O processo foi doloroso: 1,1 milhões de desempregados em empresas públicas que perderam subsídios e/ou foram privatizadas. Chamaram-lhe “terapia de choque”, expressão de que Balcerowicz diz não gostar – “assusta as pessoas e elas deixam de pensar”.

Homenageado por 11 universidades, da Alemanha ao Peru, o ex-ministro das Finanças e antigo presidente do Banco Central da Polónia exibe vaidade e orgulho na obra que outros tentaram imitar: “Os últimos 20 anos foram melhores do que os 200.”

O economista que trabalhou no Instituto do Marxismo-Leninismo (1978-1980) e foi membro do Partido Operário de Unidade Polaco (POUP) de 1969 até à proclamação da lei marcial em 1981, antes de se colocar ao serviço do Solidariedade, elogia o comportamento da Polónia face à actual crise, prevendo que o país será menos afectado do que a República Checa ou a Hungria.

Leszek Balcerowicz (à esq.) foi membro do Partido Operário de Unidade Polaca (POUP) de 1969 até à proclamação da lei marcial em 1981, antes de se colocar ao serviço do Solidariedade, o sindicato fundado por Lech Walesa (à dir.)
© tvn24.pl/magazyn-tvn24

Apesar de afastado da vida política (hoje lidera uma organização não governamental de combate à pobreza e é membro dos think tanks Peterson Institute, em Washington, e Bruegel, em Bruxelas), Balcerowicz, 62 anos, ainda tem recomendações a fazer: “O Governo deve reformar a legislação, as privatizações devem ser aceleradas, o défice tem de ser reduzido, a inflação deve ser controlada e a economia precisa de se tornar mais flexível para absorver os choques.”

Aderir à moeda única europeia compensa? “Se não compensasse, ninguém a queria adoptar”, responde com um sorriso trocista, embora dê a entender que o prazo de 2012 será difícil de cumprir.

“O euro vai ajudar a economia a crescer mais rapidamente, mas não pode ser um substituto de reformas. Se nos prepararmos devidamente, poderemos entrar na zona euro sem sobressaltos. Vamos precisar de pelo menos dois anos de estabilidade e boas perspectivas das finanças públicas, para evitar surpresas desagradáveis.”

Balcerowicz cita Dostoievski para avisar que “quanto maior o crime, maior o castigo”. Uma grande dívida pública, frisa, impede o crescimento.

“Nem sempre há uma reacção positiva dos consumidores aos estímulos financeiros. O melhor é reduzir as despesas, porque os grandes investimentos públicos são um disparate.”

O problema actual “não é o capitalismo, mas os gastos públicos das economias mais proteccionistas. Não devemos presumir que toda a intervenção estatal é a solução, porque pode ser prejudicial. É preciso conhecer as causas do problema e não as confundir com os sintomas.”

Protestos em Varsóvia, em 1989, contra o "Balcerowicz". @ Beyond the Transition Blog

Protestos em Varsóvia, em 1989, contra o “Plano Balcerowicz
© Beyond the Transition Blog

Em 1989, quando começou a ser aplicado o “Plano Balcerowicz“, a taxa de inflação na Polónia ascendia a 639,6%, a dívida externa atingia 42.300 milhões de dólares, o desemprego era quase inexistente, os salários baixos e as lojas estavam praticamente vazias. Vinte anos depois, o país tem-se revelado um dos mais bem preparados da União Europeia para resistir à crise, em melhor situação do que os vizinhos.

A receita que o economista condecorado com a mais alta distinção polaca, a Ordem da Águia Branca, pôs em prática facilitou a declaração de falência das empresas, proibiu o Banco Central de financiar o défice público e a emissão de nova moeda; ligou as taxas de juro à inflação; acabou com os créditos preferenciais às empresas estatais; introduziu o chamado “Imposto Popiwek“, que limitou os aumentos salariais nas empresas públicas para evitar a hiperinflação; introduziu impostos comuns a todas as empresas, deixando de penalizar as privadas; autorizou o investimento estrangeiro e a exportação dos seus lucros; aboliu o monopólio do Estado sobre o comércio internacional, entre outras medidas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) ajudou com créditos. As reformas foram aprovadas pelo Sejm (Parlamento) e a economia deixou de ser regida pelo Gabinete Central de Estatística. Em 1992, já tinham sido criadas mais de 600 mil empresas, que deram trabalho a aproximadamente 1,5 milhões de pessoas.

Duas décadas após a queda do regime comunista, a Polónia mostra-se confiante. Em 2008, o consumo representava 61% do produto nacional bruto (PNB), graças a um rápido crescimento dos salários e a uma dívida pública baixa.

O Governo controlou o boom imobiliário e uma rígida regulação bancária restringiu os créditos, sobretudo em moeda estrangeira. “Tudo o que criticaram à Polónia no passado revelou agora ser uma bênção”, comentou um analista financeiro recentemente citado pela revista britânica The Economist.

© Tomasz Bołt | dziennikzachodni.pl

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia 

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 5 de Junho de 2009 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 5, 2009

Donald Tusk: “Nunca imaginámos vencer um terrível opositor”

A liberdade chegou a 4 de Junho de 1989. Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, exalta a “revolução pacífica” que abriu caminho à queda do Muro de Berlim. (Ler mais | Read more…)

© Kacper Pempel | Reuters

Donald Tusk tem um brilho nos olhos azuis, e percebe-se porquê. “Desde a minha infância, a pergunta que todos fazíamos era: ‘Os tanques soviéticos virão ou não’? Havia milhares de soldados que podiam entrar na Polónia a qualquer momento. Mas o que aconteceu, em 1989, foi espectacular.”

“Vencemo-los!”, proclama o primeiro-ministro e antigo activista do sindicato Solidariedade em Gdansk, cidade onde nasceu, em 1957. “Foi uma obra-prima o que conseguimos: um regime opressivo caiu sem derramarmos uma gota de sangue.”

“A rendição dos soviéticos, terrível opositor, foi uma vitória sem precedentes na História da Europa. Numa imaginámos que o desfecho seria tão vasto e que uma tão grande responsabilidade estaria sobre os nossos ombros.”

“Há 20 anos, eu era professor, vivia numa pousada perto da universidade [de Gdansk] com a minha mulher e dois filhos, dirigia um semanário clandestino e nunca pensei que um dia poderia comprar um carro”, exulta Tusk, num encontro em Varsóvia com jornalistas europeus.

“Em 4 de Junho de 1989, eleições livres permitiram estabelecer o primeiro governo não-comunista nesta parte do mundo e influenciaram outros países, a uma velocidade galopante, até à queda do Muro de Berlim. Foi uma revolução pacífica de cidadãos”.

Foram quase livres as eleições, depois de uma Mesa-Redonda, entre figuras do regime e da oposição. Os comunistas reservaram para si próprios 65% dos lugares no Parlamento, embora todo o Senado, excepto um lugar, tivesse ido parar às mãos do Solidariedade. O resultado foi “um Presidente vosso [o general Wojciech Jaruzelski] e um primeiro-ministro nosso [Tadeusz Mazowiecki]”.

Donald Tusk, numa foto nos anos 1980
© Quora

Filho de um carpinteiro e de uma enfermeira, sobreviventes de campos de trabalho forçado alemães na II Guerra Mundial, o historiador Tusk frisa que “a unificação da Europa só foi possível graças aos esforços do Solidariedade, à sua capacidade de sacrificar os seus interesses a favor de um bem comum.”

“Hoje, ‘solidariedade’ é uma palavra que ainda faz sentido. É preciso que a Europa ultrapasse o egoísmo, se quer ser uma grande potência. Nós [polacos] reconquistámos a nossa independência depois de um período de escravidão, e gostava que todos valorizassem a importância da liberdade.”

A liberdade, por exemplo, de votar ou não nas eleições europeias. As sondagens prevêem que só “dois em cada dez” polacos irão às urnas, e inquéritos de rua revelam o desconhecimento de muitos de que o ex-primeiro-ministro Jerzy Buzek é candidato a presidente do Parlamento Europeu (PE) ou que o país assumirá a presidência da UE em 2011.

Tusk espera que o entusiasmo demonstrado em 2007, nas últimas eleições nacionais – quando a sua Plataforma Cívica (PO) derrotou o Partido Direito e Justiça (PiS), dos irmãos Jaroslaw e Lech Kaczynski -, seja reavivado, mas compreende os que optarem pela abstenção, apesar dos esforços do Governo para sensibilizar os cidadãos.

“Um dos momentos mais humilhantes da Polónia comunista era a obrigação de votar nas chamadas ‘eleições’ em que a taxa de participação era de 99,9 por cento”, recordou o primeiro-ministro.

Donald Tusk também valoriza a liberdade de Lech Walesa ser pago pelo milionário Declan Ganley, o líder do movimento antieuropeu irlandês Libertas para dar palestras em capitais europeias. “O [antigo] Presidente Walesa surpreende-nos muitas vezes, até a mim que o conheço há tantos anos!”, comenta, divertido.

“Ele não teria sido um líder eficaz do Solidariedade sem essa qualidade”, nota. “Graças a essa inteligência especial, venceu o comunismo sem cometer um único erro. Podemos dizer, com 100% de certeza, que o Libertas se vai arrepender de ter chamado Walesa para os seus comícios.”

“Em Paris, já apelou à aprovação do Tratado de Lisboa, e até prometeu ir à Irlanda convencer os eurocépticos. Não mudou de opinião em questões fundamentais [como a adesão à moeda única], mesmo que o seu comportamento seja controverso.”

O ex-presidente Lech Walesa (dir.) e Donald Tusk depositam flores em Gdansk, para assinalar o 30º aniversário da central sindical Solidariedade, a 29 de Agosto de 2010
© Rafal Malko | Agencja Gazeta

Walesa permanece, aparentemente, um aliado do conservador Tusk (o seu filho, Jaroslaw, de 33 anos, é candidato ao PE, em Estrasburgo, pela PO – o partido favorito), sendo ambos opositores dos gémeos Kaczynski, que seguem uma abordagem política tradicionalista e xenófoba.

“A minha disputa com o Presidente [Lech] Kaczynski [que morreu em 2010 num acidente aéreo] não faz sentido noutro país europeu, mas as diferentes perspectivas da PO e do PiS não paralisam o Estado polaco nem abalam a imagem da Polónia no mundo”, assegurou Tusk.

“O chefe de Estado pode participar nos conselhos europeus sempre que entender, mas a política é definida pelo primeiro-ministro, como deliberou o Tribunal Constitucional. É claro que os políticos são temperamentais e o Presidente Kaczynski não mudou a sua atitude [hostil] em relação a mim – também não esperava isso.”

Hoje [4 de Junho de 2009], as cerimónias oficiais dos 20 anos da transição para a democracia não se realizarão em Gdansk (embora Lech Kaczynski tenha prometido que vai lá dar apoio ao Solidariedade), mas em Cracóvia (aonde Jaroslaw Kaczynski já disse que não vai).

O Solidariedade, agora parceiro do PiS, ameaçara com manifestações, queima de pneus e barricadas, para protestar contra o desmantelamento dos antigos Estaleiros Lenine onde começaram as greves contra o regime do Partido Operário de Unidade Polaca (POUP).

Um plano de reestruturação, exigido pela Comissão Europeia e elaborado pelo Governo, contempla a venda de uma parte do complexo e uma significativa redução dos 2300 trabalhadores.

“Decidi trocar Gdansk por Cracóvia para garantir a dignidade dos convidados e evitar distúrbios”, explicou Tusk. “Não é surpreendente que haja divergências entre os sindicatos e o Governo.2

“Hoje, a tensão entre ambos é compreensível e aceitável. O Solidariedade actual é só um sindicato. O passado, para mim, é História. Ninguém deveria reivindicar como seu o legado de 4 de Junho de 1989. Devemos recordá-lo como um dia nacional.”

Russia's Prime Minister Vladimir Putin (R) comforts his Polish counterpart Donald Tusk as they visit the site of a Polish government Tupolev Tu-154 aircraft crash near Smolensk airport April 10, 2010. Poland's President Lech Kaczynski and his wife Maria, its central bank head and the country's military chief, were among 97 people killed when their plane crashed in thick fog on its approach to a Russian airport on Saturday. BLACK AND WHITE ONLY REUTERS/CIR/Grzegorz Roginski (RUSSIA - Tags: POLITICS DISASTER TRANSPORT OBITUARY) Putin e Donald Tusk, durante a visita do líder russo, em 1989: "A confirmação simbólica de que a guerra acabou em Gdansk", segeundo o primeiro-ministro polaco. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

10 de Abril de 2010:  Vladimir Putin conforta Donald Tusk durante uma visita ao local onde se despenhou um avião Tupolev Tu-154, próximo do aeroporto de Smolensk. No acidente morreu o Presidente Lech Kaczynski, a sua mulher, Maria, o director do Banco Central e o chefe das Forças Armadas – num total de 97 pessoas. A primeira visita do então primeiro-ministro e actual chefe de Estado russo,  em 1989, foi “a confirmação simbólica de que a guerra acabou em Gdansk”
© Grzegorz Roginski | Reuters | CIR

A prioridade de Tusk é agora preparar a Polónia para entrar no euro. “O calendário previsto era 2010-2012 mas ninguém esperava esta crise económica”, refere o primeiro-ministro.

“É claro que agora será mais difícil do que quando elaborámos os nossos planos com o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. Não se trata, para nós, de um dogma, mas continuamos confiantes de que iremos cumprir o prazo definido sem prejuízo para os contribuintes polacos.”

A Polónia, adianta, tem conseguido enfrentar bem a crise. “Não foi necessário socorrer bancos ou empresas, não aumentámos a dívida para estimular a procura, não tencionamos aumentar impostos e preferimos reduzir a produção a despedir ou recorrer ao lay off. Estes são tempos difíceis para os líderes europeus”.

Mas as promessas de alargamento da UE “têm de ser cumpridas. Não podemos aceitar que um país que fez tudo [para cumprir os critérios de adesão] não seja recompensado. Um dos princípios da UE é o cumprimento da palavra dada.”

Sobre escudo antimíssil que a anterior Administração de George W. Bush pretendia instalar na Polónia e que o Presidente Barack Obama poderá abandonar, o atlantista Tusk esclarece: “A defesa estratégica está a ser revista nos Estados Unidos. [Muito vai depender das políticas para a Coreia do Norte e Irão]. Nós já assinámos um acordo e estamos dispostos a aceitar o escudo, porque somos um importante aliado dos EUA e porque temos de reforçar as nossas próprias defesas.”

Donald Tusk, que reconhece o papel facilitador da Rússia de Mikhail Gorbatchov para a “revolução” do Solidariedade em 1989, declarou-se satisfeito por Moscovo, “que, infelizmente, seguiu um caminho diferente” do de Varsóvia, “estar aberto a uma solução conjunta” relativamente ao escudo.

No dia 1 de Setembro [de 2009], a visita de Vladimir Putin à Polónia “poderá ser a confirmação simbólica de que a guerra acabou em Gdansk.”

Donald Tusk tornou-se presidente do Conselho Europeu em 2014, e voltou a ser reeleito para essa posição em 2017
© Yves Herman | Reuters

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 4 de Junho de 2009 | This article, now revised and updated, was originally  published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 4, 2009 

A vitória histórica da deputada Aseel Al-Awadi

Quatro mulheres entraram, pela primeira vez, no Parlamento do Kuwait. A sua ascensão coincidiu com o declínio dos grupos fundamentalistas sunitas. “As pessoas votaram em nós porque temos soluções”, disse-nos uma das recém-eleitas. Estipular o salário do emir será uma das suas competências. (Ler mais | Read more…)

Nas eleições gerais de 2009, no Kuwait, foram eleitas para a Assembleia Nacional, pela primeira vez, 4 mulheres – uma delas Aseel al-Awadi (na foto); o número deputados islamistas foi reduzido a metade © Yasser al-Zayyat | AFP | Getty Images

Aseel al-Awadi, eleita em 2009, manteve-se no cargo até 2012. Não se candidatou em 2013
© Yasser al-Zayyat | AFP | Getty Images

Ser eleita deputada foi “uma vitória histórica” de Aseel al-Awadi. E derrotar na sua circunscrição, “sem qualquer apoio das tribos”, candidatos islamistas e salafistas que dominaram a vida política da última década foi um triunfo ainda mais extraordinário.

Hoje [31 de Maio de 2009], esta professora de Filosofia e Pensamento Crítico, 40 anos, divorciada e sem filhos, vai ocupar, sem véu, um lugar na Majlis al-Umma (Assembleia Nacional) do Kuwait.

Aseel, que sempre se opôs ao sistema de quotas porque “negava a possibilidade de as mulheres serem eleitas por mérito”, diz-nos que está “muito, muito feliz” com o resultado que obteve: 11.860 votos. Havia 210 candidatos, dos quais 16 mulheres.

Ela ficou em segunda posição entre as quatro vencedoras, atrás de Massuma al-Mubarak, que já foi ministra da Saúde, dos Transportes e do Planeamento, e à frente da economista Rola Dashti e da académica Salwa al-Jassar. As quatro representarão 9 por cento dos 50 lugares do Parlamento – número superior à média de 4,6 noutros países árabes.

“Mais do que uma vitória pessoal é uma vitória para as muitas mulheres no meu país que lutaram pelo direito à educação”, sublinha Aseel al-Awadi numa entrevista, por correio electrónico. “Nos anos 1950, um primeiro grupo de mulheres foi estudar para o Cairo e Beirute.

Muitos criticaram-nas, mas elas não desistiram, porque sabiam que tinham esse direito. Depois veio o movimento sufragista que, em 2005, permitiu às mulheres exercerem o direito de votar.

Os resultados das recentes eleições confirmam o reconhecimento, há muito devido, do contributo das mulheres para a sociedade [44% da força activa]. Não só o das militantes, também o das mães que criam os filhos, das professoras, das advogadas, das actrizes, de todas as que têm trabalhado duramente por este país mas que nunca estiveram representadas no Parlamento.”

As quarto deputadas eleitas para a Majlis al-Umma (Assembleia Nacional) do Kuwait na sessão inaugural, a 31 de Maio de 2009. Da esquerda para a direita: Salwa al-Jassar, Rola Dashti, Massuma al-Mubarak e Aseel al-Awadhi. Todas completaram os seus doutoramentos em universidades nos Estados Unidos © Yasser al-Zayyat |AFP | Getty Images

As quarto deputadas eleitas para a Majlis al-Umma (Assembleia Nacional) do Kuwait na sessão inaugural, a 31 de Maio de 2009. Da esquerda para a direita: Salwa al-Jassar, Rola Dashti, Massuma al-Mubarak e Aseel al-Awadhi. Todas completaram  doutoramentos em universidades nos EUA
© Yasser al-Zayyat |AFP | Getty Images

Uma mulher que teve “grande influência” na vida de Aseel al-Awadi foi a sua mãe, professora de Matemática reformada. “Ela e o meu pai, antigo funcionário do Ministério da Água e Electricidade, sempre me ensinaram, desde criança, a depender de mim própria, e a dar grande valor à educação.”

“As expectativas deles em relação a mim sempre foram elevadas e sempre tentei corresponder, sobretudo por ser mais velha que a minha irmã e os meus dois irmãos.”

Oriunda da classe média, Aseel al-Awadi já foi casada e não tem filhos, estatuto ainda inadmissível em muitas sociedades com forte peso tribal. Aparentemente, não no Kuwait, a primeira monarquia árabe do Golfo Pérsico a criar um parlamento e a aprovar uma Constituição, em 1963, dois anos após a independência.

“A minha querida família dá-me um apoio formidável e estou muito grata”, realça a deputada. “A missão, a partir de agora, será a de ajudar outras famílias para que possam enfrentar os desafios da vida e concretizar os seus sonhos.”

O sonho de Aseel al-Awadi, blogger ligada ao Facebook e ao Twitter, passou por estudar na América, onde durante seis anos fez um mestrado e se doutorou em Filosofia Política na Universidade de Texas-Austin.

“Todas as experiências ajudam a formar a nossa personalidade e, certamente, que ter estudado no estrangeiro contribuiu para ser o que eu sou hoje. No entanto, tenho orgulho da minha herança, cultura e ideais, por isso regressei ao meu país, para dar aulas na Universidade do Kuwait, a maior de todas e a única que é estatal.”

No emirado, as escolas são segregadas, “depois de uma lei aprovada muito recentemente pelo Parlamento”, confirma Aseel, indiciando reprovação pela iniciativa dos grupos fundamentalistas sunitas que nestas eleições desceram de 21 para 11 lugares. “Eu dava aulas a rapazes e raparigas, em classes separadas.”

“O nosso sistema educativo tem falhas, como noutros países, mas fiz uma promessa eleitoral de melhorar este sistema. Os alunos não devem decorar as matérias, mas usar a cabeça para pensar. É preciso também dar estímulos aos professores e melhorar os currículos.”

Os alunos de Aseel al-Awadi incentivaram-na a candidatar-se e exultaram com a sua eleição, ainda mais valorosa porque a Aliança Democrática Nacional de que ela é membro decidiu não apresentar nenhuma lista.

“Concorri como independente”, informa. “Sempre fui activa politicamente desde 1987, nos meus tempos de estudante universitária. Teve muita influência o modo como fui educada na minha adolescência. Participei em várias campanhas eleitorais, fui membro de vários grupos de defesa da liberdade e dos direitos cívicos.”

Inquirida sobre a sua “família política”, responde: “As definições de liberal e conservador são relativas. Um liberal no Kuwait poderá ser um conservador noutro país. No Kuwait, sou considerada liberal.”

E aspira a fazer parte do governo? “A minha ambição é pôr em prática os ideais que apresentei aos meus eleitores. Não me interessa ser ministra. As pessoas elegeram-me para as representar, e é isso que tenciono fazer.”

Em 2005, Aseel, Massuma e Rola já se haviam candidatado. Perderam por estreita margem. Desta vez foram eleitas e, no caso de Rula, foi uma vitória igualmente memorável. Durante a campanha, a antiga consultora do Banco Mundial pediu aos eleitores que votassem “com o país em mente, não com a tribo ou a comunidade religiosa”.

O jornal Daily Star, do Líbano (um Estado com 17 credos), reconheceu o prodígio: “Vencer como candidata xiita [um terço da população] num distrito esmagadoramente sunita é excepcional nestes tempos de infeliz tensão sectária na região.” Massuma também é xiita, mas ganhou numa circunscrição maioritariamente xiita.

Tal como Rula (e ao contrário de Massuma e Salwa, que se cobrem da cabeça aos pés), também Aseel al-Awadi não oculta o cabelo com um hijab. “Não é um political statement”, clarifica.

“Respeito o véu e as tradições islâmicas, mas é uma escolha pessoal. A minha mãe usa-o, e muitas mulheres na minha família também o usam. Não me coloco na posição dos que criticam algo em que a sociedade acredita.”

Oriunda da classe média, Aseel al-Awadi já foi casada e não tem filhos, estatuto ainda inadmissível em sociedades com forte peso tribal. Aparentemente, não no Kuwait, a primeira monarquia árabe do Golfo Pérsico a criar um parlamento e a aprovar uma Constituição, em 1963, dois anos após a independência. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

De classe média, Aseel al-Awadi já foi casada e não tem filhos, estatuto ainda inadmissível em sociedades com forte peso tribal. O Kuwait foi a primeira monarquia árabe do Golfo Pérsico a criar um parlamento e a aprovar uma Constituição, em 1963, dois anos após a independência

O facto de as quatro deputadas se terem doutorado nos EUA (Rula em Economia, na Universidade John Hopkins; Salwa em Educação, na Universidade de Pittsburg; e Massouma em Relações Internacionais, na Universidade de Denver) “não foi determinante para a escolha dos eleitores”, supõe Aseel a-Awadi.

“Embora as qualificações académicas sejam importantes, penso que as pessoas não votaram em nós por termos PhD”, realçou. “Votaram porque acreditam que temos soluções para este país, não apenas retórica. As mulheres são mais de 50%  da população e sofrem com a desigualdade.”

“É nosso deve obrigar o Estado a reconhecer que homens e mulheres são iguais perante a lei. Não se trata de tornar a sociedade mais liberal ou conservadora, mas sim de a tornar mais justa e mais igual – farei isso no Parlamento.”

As novas deputadas vão assumir funções com o país mergulhado numa crise política. “Muitos grupos fundamentalistas contribuíram para o impasse em que a nação se encontra e, por isso, foram rejeitados nas urnas”, diz Aseel al-Awadi.

“O povo provou com esta eleição que pode sempre corrigir o rumo da nossa democracia e que o fará sempre que necessário. Esta era a mensagem da minha campanha. Estou contente por as pessoas terem respondido favoravelmente.”

A estabilidade, adianta Aseel, “é algo que o ramo legislativo e o executivo terão de alcançar. Os eleitores querem reformas, os resultados expressam isso claramente. Chegou a hora de o governo tentar responder às aspirações do povo. Os resultados demonstraram a frustração dos kuwaitianos. Não por terem eleito mulheres, mas pela mudança primordial de rostos que ocorreu.”

Haverá 21 caras novas no Parlamento, a única instituição no Kuwait com competência para legislar e a que estipula o salário do emir. Aseel al-Awadi, fotografada sempre com um largo sorriso, não esconde a alegria por ser uma das caras novas.

“No domingo, 17 de Maio (um dia após as eleições], eu e os meus colaboradores, familiares e amigos seguíamos pela televisão a contagem dos votos. À medida que a percentagem aumentava, as pessoas à nossa volta, na sede de campanha, gritavam e batiam palmas. Eu nem queria acreditar que tinha vencido.”

“Quando tive a certeza absoluta, fui com a minha irmã celebrar para a principal praça da Cidade do Kuwait [a capital]”, acrescentou. “Centenas de apoiantes esperavam-nos com muita música e aplausos. Parecia um casamento, e eu era a noiva. Todos queriam apertar-me a mão e dar-me os parabéns. Assim que vi o meu pai e a minha mãe fui a correr abraçá-los. Eu podia ver o orgulho nos olhos deles e nos de toda a gente.”

Aseel Al-Awadi com companheiros da sua lista eleitoral durante a campanha para as legislativas de 2008. Foi a única candidata pelo partido liberal Aliança democrática Nacional liberal National. © Stephanie McGehee | Reuters

Aseel Al-Awadi  durante a campanha para as legislativas de 2008. Foi a única candidata pela Aliança Democrática Nacional, um partido liberal 
© Stephanie McGehee | Reuters

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no diário PÚBLICO em 31 de Maio de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 31, 2009