A vitória histórica da deputada Aseel Al-Awadi

Quatro mulheres entraram, pela primeira vez, no Parlamento do Kuwait. A sua ascensão coincidiu com o declínio dos grupos fundamentalistas sunitas. “As pessoas votaram em nós porque temos soluções”, disse-nos uma das recém-eleitas. Estipular o salário do emir será uma das suas competências. (Ler mais | Read more…)

Nas eleições gerais de 2009, no Kuwait, foram eleitas para a Assembleia Nacional, pela primeira vez, 4 mulheres – uma delas Aseel al-Awadi (na foto); o número deputados islamistas foi reduzido a metade © Yasser al-Zayyat | AFP | Getty Images

Aseel al-Awadi (na foto), eleita em 2009, manteve-se no cargo até 2012. Não se candidatou em 2013
© Yasser al-Zayyat | AFP | Getty

Ser eleita deputada foi “uma vitória histórica” de Aseel al-Awadi. E derrotar na sua circunscrição, “sem qualquer apoio das tribos”, candidatos islamistas e salafistas que dominaram a vida política da última década foi um triunfo ainda mais extraordinário.

Hoje [31 de Maio de 2009], esta professora de Filosofia e Pensamento Crítico, 40 anos, divorciada e sem filhos, vai ocupar, sem véu, um lugar na Majlis al-Umma (Assembleia Nacional) do Kuwait.

Aseel, que sempre se opôs ao sistema de quotas porque “negava a possibilidade de as mulheres serem eleitas por mérito”, diz-nos que está “muito, muito feliz” com o resultado que obteve: 11.860 votos. Havia 210 candidatos, dos quais 16 mulheres.

Ela ficou em segunda posição entre as quatro vencedoras, atrás de Massuma al-Mubarak, que já foi ministra da Saúde, dos Transportes e do Planeamento, e à frente da economista Rola Dashti e da académica Salwa al-Jassar. As quatro representarão 9 por cento dos 50 lugares do Parlamento – número superior à média de 4,6 noutros países árabes.

“Mais do que uma vitória pessoal é uma vitória para as muitas mulheres no meu país que lutaram pelo direito à educação”, sublinha Aseel al-Awadi numa entrevista, por correio electrónico. “Nos anos 1950, um primeiro grupo de mulheres foi estudar para o Cairo e Beirute.

Muitos criticaram-nas, mas elas não desistiram, porque sabiam que tinham esse direito. Depois veio o movimento sufragista que, em 2005, permitiu às mulheres exercerem o direito de votar.

Os resultados das recentes eleições confirmam o reconhecimento, há muito devido, do contributo das mulheres para a sociedade [44% da força activa]. Não só o das militantes, também o das mães que criam os filhos, das professoras, das advogadas, das actrizes, de todas as que têm trabalhado duramente por este país mas que nunca estiveram representadas no Parlamento.”

As quarto deputadas eleitas para a Majlis al-Umma (Assembleia Nacional) do Kuwait na sessão inaugural, a 31 de Maio de 2009. Da esquerda para a direita: Salwa al-Jassar, Rola Dashti, Massuma al-Mubarak e Aseel al-Awadhi. Todas completaram os seus doutoramentos em universidades nos Estados Unidos © Yasser al-Zayyat |AFP | Getty Images

As quarto deputadas eleitas para a Majlis al-Umma (Assembleia Nacional) do Kuwait na sessão inaugural, a 31 de Maio de 2009. Da esquerda para a direita: Salwa al-Jassar, Rola Dashti, Massuma al-Mubarak e Aseel al-Awadhi. Todas completaram  doutoramentos em universidades nos EUA
© Yasser al-Zayyat |AFP | Getty

Uma mulher que teve “grande influência” na vida de Aseel al-Awadi foi a sua mãe, professora de Matemática reformada. “Ela e o meu pai, antigo funcionário do Ministério da Água e Electricidade, sempre me ensinaram, desde criança, a depender de mim própria, e a dar grande valor à educação. As expectativas deles em relação a mim sempre foram elevadas e sempre tentei corresponder, sobretudo por ser mais velha que a minha irmã e os meus dois irmãos.”

Oriunda da classe média, Aseel al-Awadi já foi casada e não tem filhos, estatuto ainda inadmissível em muitas sociedades com forte peso tribal. Aparentemente, não no Kuwait, a primeira monarquia árabe do Golfo Pérsico a criar um parlamento e a aprovar uma Constituição, em 1963, dois anos após a independência.

“A minha querida família dá-me um apoio formidável e estou muito grata”, realça a deputada. “A missão, a partir de agora, será a de ajudar outras famílias para que possam enfrentar os desafios da vida e concretizar os seus sonhos.”

O sonho de Aseel al-Awadi, blogger ligada ao Facebook e ao Twitter, passou por estudar na América, onde durante seis anos fez um mestrado e se doutorou em Filosofia Política na Universidade de Texas-Austin.

“Todas as experiências ajudam a formar a nossa personalidade e, certamente, que ter estudado no estrangeiro contribuiu para ser o que eu sou hoje. No entanto, tenho orgulho da minha herança, cultura e ideais, por isso regressei ao meu país, para dar aulas na Universidade do Kuwait, a maior de todas e a única que é estatal.”

No emirado, as escolas são segregadas, “depois de uma lei aprovada muito recentemente pelo Parlamento”, confirma Aseel, indiciando reprovação pela iniciativa dos grupos fundamentalistas sunitas que nestas eleições desceram de 21 para 11 lugares. “Eu dava aulas a rapazes e raparigas, em classes separadas.”

“O nosso sistema educativo tem falhas, como noutros países, mas fiz uma promessa eleitoral de melhorar este sistema. Os alunos não devem decorar as matérias, mas usar a cabeça para pensar. É preciso também dar estímulos aos professores e melhorar os currículos.”

Os alunos de Aseel al-Awadi incentivaram-na a candidatar-se e exultaram com a sua eleição, ainda mais valorosa porque a Aliança Democrática Nacional de que ela é membro decidiu não apresentar nenhuma lista.

“Concorri como independente”, informa. “Sempre fui activa politicamente desde 1987, nos meus tempos de estudante universitária. Teve muita influência o modo como fui educada na minha adolescência. Participei em várias campanhas eleitorais, fui membro de vários grupos de defesa da liberdade e dos direitos cívicos.”

Inquirida sobre a sua “família política”, responde: “As definições de liberal e conservador são relativas. Um liberal no Kuwait poderá ser um conservador noutro país. No Kuwait, sou considerada liberal.”

E aspira a fazer parte do governo? “A minha ambição é pôr em prática os ideais que apresentei aos meus eleitores. Não me interessa ser ministra. As pessoas elegeram-me para as representar, e é isso que tenciono fazer.”

Em 2005, Aseel, Massuma e Rola já se haviam candidatado. Perderam por estreita margem. Desta vez foram eleitas e, no caso de Rula, foi uma vitória igualmente memorável. Durante a campanha, a antiga consultora do Banco Mundial pediu aos eleitores que votassem “com o país em mente, não com a tribo ou a comunidade religiosa”.

O jornal Daily Star, do Líbano (um Estado com 17 credos), reconheceu o prodígio: “Vencer como candidata xiita [um terço da população] num distrito esmagadoramente sunita é excepcional nestes tempos de infeliz tensão sectária na região.” Massuma também é xiita, mas ganhou numa circunscrição maioritariamente xiita.

Tal como Rula (e ao contrário de Massuma e Salwa, que se cobrem da cabeça aos pés), também Aseel al-Awadi não oculta o cabelo com um hijab. “Não é um political statement”, clarifica.

“Respeito o véu e as tradições islâmicas, mas é uma escolha pessoal. A minha mãe usa-o, e muitas mulheres na minha família também o usam. Não me coloco na posição dos que criticam algo em que a sociedade acredita.”

Oriunda da classe média, Aseel al-Awadi já foi casada e não tem filhos, estatuto ainda inadmissível em sociedades com forte peso tribal. Aparentemente, não no Kuwait, a primeira monarquia árabe do Golfo Pérsico a criar um parlamento e a aprovar uma Constituição, em 1963, dois anos após a independência. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

De classe média, Aseel al-Awadi já foi casada e não tem filhos, estatuto ainda inadmissível em sociedades com forte peso tribal. Aparentemente, não no Kuwait, primeira monarquia árabe do Golfo Pérsico a criar um parlamento e a aprovar uma Constituição, em 1963, dois anos após a independência
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

O facto de as quatro deputadas se terem doutorado nos EUA (Rula em Economia, na Universidade John Hopkins; Salwa em Educação, na Universidade de Pittsburg; e Massouma em Relações Internacionais, na Universidade de Denver) “não foi determinante para a escolha dos eleitores”, supõe Aseel a-Awadi.

“Embora as qualificações académicas sejam importantes, penso que as pessoas não votaram em nós por termos PhD”, realçou. “Votaram porque acreditam que temos soluções para este país, não apenas retórica. As mulheres são mais de 50%  da população e sofrem com a desigualdade.”

“É nosso deve obrigar o Estado a reconhecer que homens e mulheres são iguais perante a lei. Não se trata de tornar a sociedade mais liberal ou conservadora, mas sim de a tornar mais justa e mais igual – farei isso no Parlamento.”

As novas deputadas vão assumir funções com o país mergulhado numa crise política. “Muitos grupos fundamentalistas contribuíram para o impasse em que a nação se encontra e, por isso, foram rejeitados nas urnas”, diz Aseel al-Awadi. “O povo provou com esta eleição que pode sempre corrigir o rumo da nossa democracia e que o fará sempre que necessário. Esta era a mensagem da minha campanha. Estou contente por as pessoas terem respondido favoravelmente.”

A estabilidade, adianta Aseel, “é algo que o ramo legislativo e o executivo terão de alcançar. Os eleitores querem reformas, os resultados expressam isso claramente. Chegou a hora de o governo tentar responder às aspirações do povo. Os resultados demonstraram a frustração dos kuwaitianos. Não por terem eleito mulheres, mas pela mudança primordial de rostos que ocorreu.”

Haverá 21 caras novas no Parlamento, a única instituição no Kuwait com competência para legislar e a que estipula o salário do emir. Aseel al-Awadi, fotografada sempre com um largo sorriso, não esconde a alegria por ser uma das caras novas.

“No domingo, 17 de Maio (um dia após as eleições], eu e os meus colaboradores, familiares e amigos seguíamos pela televisão a contagem dos votos. À medida que a percentagem aumentava, as pessoas à nossa volta, na sede de campanha, gritavam e batiam palmas. Eu nem queria acreditar que tinha vencido.”

“Quando tive a certeza absoluta, fui com a minha irmã celebrar para a principal praça da Cidade do Kuwait [a capital]”, acrescentou. “Centenas de apoiantes esperavam-nos com muita música e aplausos. Parecia um casamento, e eu era a noiva. Todos queriam apertar-me a mão e dar-me os parabéns. Assim que vi o meu pai e a minha mãe fui a correr abraçá-los. Eu podia ver o orgulho nos olhos deles e nos de toda a gente.”

Aseel Al-Awadi com companheiros da sua lista eleitoral durante a campanha para as legislativas de 2008. Foi a única candidata pelo partido liberal Aliança democrática Nacional liberal National. © Stephanie McGehee | Reuters

Aseel Al-Awadi com companheiros da sua lista eleitoral durante a campanha para as legislativas de 2008. Foi a única candidata pela Aliança Democrática Nacional, um partido liberal 
© Stephanie McGehee | Reuters

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no diário PÚBLICO em 31 de Maio de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 31, 2009

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