Obrigado Europa, mas não vamos votar

A Polónia saiu do comunismo há 20 anos [em 2009] e entrou na UE há cinco. Para Anna, Aleksandra e Mariusz, estudantes da Universidade de Varsóvia, isso significa a “liberdade de não votar” para o Parlamento Europeu. (Ler mais | Read More…)

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Nas ruas de Varsóvia, capital da Polónia, há morangos e flores silvestres. Há Wojtyla, o Papa, e Madonna, (not) like a virgin. O que quase não há é cartazes dos candidatos às eleições europeias de hoje. E na velha universidade, criada em 1816 com o nome da cidade quase totalmente destruída durante a II Guerra Mundial, nem sinal de campanha.

Num campus multicolorido de petúnias e perfumado por árvores frondosas, o silêncio de uma manhã de terça-feira é interrompido pelo chilreio de pássaros ocultos, passos apressados, o tilintar de bicicletas, o sussurro de leituras.

A saborear um sol inclemente, num banco junto da Faculdade de Arqueologia onde são alunas do 3º ano, com sonhos de escavações no Médio Oriente, as amigas Anna Zawadzinska e Aleksandra Choluj, partilham um cigarro antes da próxima aula.

Desculpem interromper, vão votar para o Parlamento Europeu? “Não”, respondem em uníssono. Anna, 25 anos, tem um piquenique à beira do rio Vístula “marcado há muito tempo”. Aleksandra, de 22, vai estar “ocupada com o jubileu do casamento” dos pais.

Só Mariusz Kopec, 20 anos de vida e no primeiro ano do curso de História, se mostra disponível para sair de casa num domingo e votar nos candidatos da Plataforma Cívica (PO), o partido do primeiro-ministro, Donald Tusk, o seu favorito e o das sondagens.

“O meu entusiasmo foi maior nas eleições nacionais de 2007, quando foi necessário derrotar o PiS [partido Direito e Justiça, dos gémeos Jaroslaw e Lech Kaczynski]”, explica o jovem, olhos tímidos pousados no iPod.

“A minha mãe diz-me que não devemos perder a oportunidade de votar nos democratas, e eu acho que a PO criará mais oportunidades, abrirá novos horizontes na União Europeia.”

Lech Walesa, líder do movimento Solidariede - crucial para a queda do regime comunista - e futuro Presidente, durante uma greve nos Estaleiros Lenine, em Gdansk (Agosto 1980). @ Marek Zarzecki | Reuters

Lech Walesa, líder do movimento Solidariedade – crucial para a queda do regime comunista – e futuro Presidente, durante uma greve nos antigos estaleiros Lenine, em Gdansk (Agosto 1980)
© Marek Zarzecki | Reuters

Quer isso dizer que, em casa, o pai (em tempos quase campeão olímpico) e a mãe (atleta de ginástica artística), ele agora gestor desportivo e ela professora de Educação Física, falam das suas experiências sob o regime comunista? “Oh, não! Isso é passado”, esclarece Mariusz, num inglês vacilante. “Só de vez em quando referem que agora é mais fácil ir às compras ou comprar uma casa, mas tentam encarar tudo de forma natural. Importante é o futuro.”

O rapaz louro e pálido que nasceu em Janeiro de 1989, cinco meses antes das primeiras eleições semilivres de 4 de Junho, revela interesse na política. “Ocupamos uma região geoestratégica complicada e não são fáceis as relações com a Rússia”, nota.

“Entrar na UE [em 2004] foi muito bom para a Polónia, porque nos deixou mais próximos da Europa Ocidental. Só se passaram cinco anos, mas há uma grande diferença entre o antes e o depois da UE, mesmo que muitos por aqui não se mostrem animados.” As sondagens apontam que só dois em cada dez polacos deverão votar hoje [7 de Junho de 2009].

Mariusz lamenta que a UE “não se mostre unida na sua política externa”, porque isso o teria ajudado, por exemplo, a definir uma posição quanto a um novo alargamento. “Tenho a certeza que a Ucrânia deve ser membro, mas tenho dúvidas sobre a Turquia. Não que a religião islâmica seja problema, mas porque o país, geograficamente, ocupa uma parte maior da Ásia do que da Europa.”

Anna, óculos Chanel a repuxar o cabelo louro, também se regozija por fazer parte da UE, porque ainda se lembra de “longas filas à porta de lojas vazias, onde havia vinagre e mostarda, raramente carne”, e de onde as pessoas saíam com “o papel higiénico enrolado à cabeça e ao pescoço como se fosse jóias”. Agora, pode comprar produtos de vários países.

“Quando era criança, as minhas roupas e brinquedos eram em segunda mão. Vinham de parentes e amigos no estrangeiro, sobretudo da Hungria. Tudo clandestino.”

“O melhor que a UE nos deu foi a abertura das fronteiras, é muito bom poder viajar só com o meu bilhete de identidade”, interrompe Aleksandra, uma morena esguia, vestido H&M, ténis All Star.

“Até há 20 anos, tínhamos de pedir vistos à polícia, que só os dava ao pai ou à mãe e aos filhos, para não correr o risco de ver a família toda desertar”, acrescenta Anna.

Milhões de polacos acolhem o Papa João Paulo II, antigo cardeal Wojtyla, de Cracóvia, na sua primeira visita oficial a Varsóvia, em 1979. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Milhões de polacos acolhem o Papa João Paulo II, antigo cardeal Wojtyla, de Cracóvia, na sua primeira visita oficial a Varsóvia, em 1979. O chefe da Igreja Católica Romana é considerado, tal como Lech Walesa, uma figura fundamental para a transição pacífica do país para um regime democrático
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Das remotas memórias da luta contra uma ditadura pró-soviética, Anna, Aleksandra e Mariusz retiveram um nome: Lech Walesa, o sindicalista do Solidariedade que, nos antigos estaleiros que se chamaram Lenine, em Gdansk, forçou o Partido Operário de Unidade Polaco (POUP) a partilhar o poder: “Um Presidente vosso”, o general Wojciech Jaruzelski, e “um primeiro-ministro nosso”, Tadeusz Mazowiecki.

Nenhum dos três jovens compreende os historiadores Slawomir Cenckiewicz e Piotr Gontarczyk, autores de uma biografia onde acusam Walesa de ter sido o “informador Bolek” da extinta polícia secreta SB, cujos arquivos citam.

“Dizem que ele mijava num canto da igreja quando era miúdo, e outras coisas horríveis”, insurge-se Anna, filha única de um empresário e de uma assistente social. “Não acredito em nada do que foi escrito. É uma caça às bruxas. Lamento que alguns dos que lutaram contra o comunismo estejam agora a lutar uns com os outros.”

Aleksandra, a mais velha de três irmãos, pai gestor financeiro e mãe professora de liceu, remata: “Mesmo que as insinuações fossem verdade – e não acredito que sejam -, Walesa continuará a ser um símbolo. Para mim, é a pessoa mais importante da Polónia. Ele foi tão corajoso. Se não fosse ele, não teríamos sido salvos.”

Mariusz acentua: “Não é possível que ele tenha sido um colaboracionista. Ele é o herói da nossa liberdade e deveriam respeitá-lo, mesmo que não gostem dele. É o que eu faço com o nosso actual Presidente, [Lech] Kaczynski. [O chefe de Estado morreu num trágico acidente aéreo em 2010]. Não o apoio, e até critico as suas posições políticas, mas respeito-o, porque ele é o chefe de Estado.”

E o que acham do desmantelamento dos estaleiros de Gdansk, berço da revolta que culminou na queda do Muro de Berlim e no colapso da URSS? “É triste, porque vão ficar em mãos estrangeiras, e o Estado deveria garantir que permaneceriam um símbolo nacional.”

Nota-se que Anna hesita, mas não evita mencionar “um rumor na Internet de que os judeus se preparam para comprar os estaleiros e controlar o país”. Face a um olhar perplexo, elucida: “Não sabemos se é verdade. Talvez seja apenas uma expressão de anti-semitismo, embora, ao contrário do que dizem, não sejamos anti-semitas.”

Aleksandra também é hostil a uma venda a estrangeiros, embora, se isso acontecer, esteja convencida de que o complexo de Gdansk “nunca perderá o simbolismo”. A Comissão Europeia exigiu uma reestruturação dos estaleiros que envolve o despedimento de centenas de trabalhadores.

Muitos polacos ainda recordam "longas filas à porta de lojas vazias, onde havia vinagre e mostarda, raramente carne", e de onde as pessoas saíam com "o papel higiénico enrolado à cabeça e ao pescoço como se fosse jóias". Mas não vivem reféns do passado. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Muitos polacos ainda recordam “longas filas à porta de lojas vazias, onde havia vinagre e mostarda, raramente carne”, e de onde as pessoas saíam com “o papel higiénico enrolado à cabeça e ao pescoço como se fosse jóias”. Mas não vivem reféns do passado
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As duas amigas exprimem mágoa, em particular Anna, que vê nisto “uma perda nacional”, tal como a adesão ao euro (planeada, antes da crise económica mundial para 2010-2012, prazo agora considerado irrealista). “Eu quero muito ficar com os meus zlotys”, diz. “Abolidas as fronteiras, só nos restará a língua e a moeda.”

Aleksandra discorda: “Muitos países atravessam hoje uma situação difícil por estarem excluídos da zona euro. Eu acho que a Polónia deve aderir ao euro, porque é uma salvaguarda financeira, mesmo que a nossa economia ainda não se tenha ressentido.”

A religião também divide as duas jovens. “Ainda acredito em Deus mas já não na Igreja [Católica] desde que fiquei a saber que um padre da minha paróquia abusava sexualmente de crianças e que outro contratava serviços de prostitutas. Foi chocante esta descoberta.”

Com uma cruz ao peito que ergue até tocar os lábios, Aleksandra confessa: “Nasci em Katowice, zona de muita devoção religiosa. Mantenho a tradição familiar de ir à missa todos os domingos. Aqui, em Varsóvia, onde vivo com o meu namorado, isso tornou-se ritual de velhos. Sinto pena, mas a culpa é da Igreja, que deveria ter deixado de interferir na política, quando a democracia chegou em 1989.”

Seja como for, o cardeal Karol Wojtyla, de Cracóvia, que ao ser escolhido Papa (João Paulo II) foi fundamental no processo de democratização da Polónia, continua a ser uma figura tão reverenciada quanto os compatriotas Walesa e Chopin.

O seu retrato em outdoors espalhados pela capital ou em panfletos a promover um debate sobre uma Revwolucja Ducha (Revolução Espiritual) na Uniwersytet Warszawski parece competir com a propaganda de Madonna ao seu concerto de 15 de Setembro.

Aparentemente, no coração dos polacos há lugar para o antecessor de Bento XVI e para a cantora que em 2006, na digressão Confessions, chocou o Vaticano ao descer de um crucifixo de cristais Swarovski.

Numa ida a uma discoteca em que um DJ interrompeu a dance music para perguntar quantos na sala queriam um minuto de silêncio para louvar Deus, Nacho Temiño, jornalista espanhol a residir em Varsóvia há cinco anos, relatou a sua estupefacção: “Foram tantos os que colocaram os braços no ar, sem vergonha de assumir a fé, que só num país como a Polónia, onde o aborto é proibido e a educação religiosa [ou ética] obrigatória, isso seria possível.” 

Em 1 de Agosto de 2012, num novo concerto em Varsóvia, Madonna exibiu um vídeo, alegadamente, para homenagear as vítimas da sublevação no gueto judeu de Varsóvia, 68 anos antes. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A 1 de Agosto de 2012, num concerto em Varsóvia, Madonna voltou a gerar controvérsia, ao exibir um vídeo, alegadamente, para homenagear as vítimas da sublevação no gueto judeu de Varsóvia, 68 anos antes
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A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia

Este artigo, agora revisto e actualizado,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 7 de Junho de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 7, 2009

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