A nova revolução escreve-se em “caligraffiti”

Não sabemos o seu nome verdadeiro, porque ele apenas se identifica como eL Seed. Pintou o mais alto minarete da Tunísia com um versículo do Corão. Com sprays e caligrafia árabe, um jovem muçulmano está a colorir murais e a derrubar barreiras (Ler mais | Read more…)

eL Seed
© AFP | Middle East Eye

Aos 16 anos, numa escola de Paris, a cidade onde nasceu, o filho de uma família de imigrantes tunisinos ficou fascinado ao ler Le Cid, de Pierre Corneille, tragicomédia onde há “mouros atrevidos” na Castela de D. Urraca.

“Eu já sonhava com a vida de artista, e achei que seria um ‘mestre’ se adoptasse o nome da obra daquele escritor francês. O meu professor disse-me que ‘Cid’ era o mesmo que ‘Sayyid’, em árabe, ou seja, ‘o homem’ ou ‘o senhor’. E foi assim que me tornei eL Seed”.

“Chame-me eL Seed”, pede o próprio, quando iniciamos a entrevista, por telefone, desde o Canadá, onde ele reside com a mulher e o filho de 3 anos. “Este nome, que a princípio era ‘El Scid’, evoca as minhas raízes e as minhas origens, um árabe muçulmano no Ocidente.”

“Não é por acaso que investi na caligrafia árabe (comecei a ter lições em 2000), uma arte distinta e profundamente islâmica que se desenvolveu devido às restrições de representação directa de seres humanos.”

“A minha obra insere-se nesta nova categoria, caligraffiti, que alguns, e eu concordo, consideram revolucionária.”

Hoje, aos 31 anos, eL Seed faz do seu trabalho um veículo de transmissão de mensagens políticas, sociais e religiosas, mas os seus primeiros murais, em 1998, tinham apenas o carácter “subversivo” da adolescência.

Ele ousava grafitar em espaços públicos, como viadutos de autoestrada, não “porque se tratava de vandalismo mas porque era uma arte ilegal e, portanto, apelativa”.

De início, “foi apenas um passatempo”, mas depois entusiasmou-se e foi refinar o talento e o processo criativo com aprendizagem da caligrafia árabe.Em 1999, el Seed já chamava a atenção: pagaram-lhe por um trabalho. Não se lembra da quantia.

Desde há quatro anos, quando se mudou de Nova Iorque para Montreal, as encomendas não mais cessaram, seja na Arábia Saudita ou na Austrália, e o valor de uma obra pode ascender aos 20 mil euros.

Um dos seus ídolos é Elph, artista de graffiti de Edimburgo (Escócia). Segue-o desde que era miúdo, e sentiu-se “honrado” quando, em 2011, cerca de 15 anos depois de o ter conhecido no liceu, participaram juntos numa exposição.

Em 2016, já reconhecido como “artista, pensador e cidadão do mundo”, eL Seed realizou a sua primeira exposição a solo no Médio Oriente, na galeria Tashkeel, no Dubai (Emirados Árabes Unidos). Declaration é um conjunto de esculturas em 3D, inspiradas em versos do grande poeta sírio Nizar Qabbani
© buro247.me/culture/arts

A notoriedade – e “credibilidade”, acentua – consolidou-se quando foi convidado pela organização Al-Khaldounia a pintar o maior minarete da Tunísia, na Mesquita de Jara, em Gabes.

“Demorei três semanas a concluir a tarefa, e foi muito duro porque pintei durante o Ramadão [mês de jejum e data mais sagrada do calendário islâmico]”, contou eL Seed.

“Eram dois turnos, das 5 da manhã às 13h00, com imenso calor, e depois das 16h00 às 19h30. Interrompi apenas por quatro dias para ir a uma exposição na Alemanha.”

“Obtive financiamento da Barjeel Art Foundation, nos Emirados Árabes Unidos, e surpreendeu-me que até o imã da mesquita tivesse concordado”, disse, entusiasmado, misturando o inglês com o francês.

“Estou orgulhoso, não apenas porque nunca pintei uma área tão vasta [47 metros de altura, 10 de largura, cobrindo os dois lados do minarete] mas, sobretudo, porque quebrei todos os estereótipos: que o islão não é compatível com arte; que um muçulmano não pode ser artista. Rompi barreiras com este projecto.”

O seu objectivo, adiantou, “foi unir as pessoas”, depois da revolução de Janeiro de 2011 que derrubou o ditador Ben Ali.

“Decidi pintar o versículo 13 do capítulo 49 do Corão [Ó humanos, em verdade/ Nós vos criámos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros], e foi interessante avaliar a reacção popular.

“Os únicos que não gostaram foram os extremistas religiosos, que criticaram a obra como haram [pecaminosa, proibida], e os extremistas laicos, que não a consideram arte.”

Tendo comprado as próprias tintas e investido tanto neste empreendimento, que envolveu pintar com uma escada elevatória, eL Seed, confessou ter ficado “desiludido” por nenhum meio de comunicação social na Tunísia ter noticiado o que ele fez.

“No entanto, dei entrevistas à CNN e a outros media internacionais: até parece que o novo regime não está interessado na coesão social e nacional”, lamentou.

“A minha arte é simples: tenho uma ideia, desenho um sketch a preto e depois pinto em free style, de improviso”, explicou. “Uso muito a cor negra – propícia à caligrafia árabe –, e raramente o azul; para o amarelo prefiro pincel ao spray.”

“Gosto de escolher o perfeito spot, aquele onde posso mostrar o espírito do lugar. Não é preciso entender árabe para compreender a minha mensagem de paz. Não me dirijo aos olhos, mas ao coração das pessoas.”

“Por isso não é difícil cativar audiências, seja no Dubai ou em Frankfurt. Em breve, vou fazer uma digressão pela Malásia, Singapura e Indonésia, mas onde quero muito ir é ao Japão. Porquê? Acho que deve ser muito cool!”

© eL Seed

Assabah

Tunes (Tunísia, 2011)

A palavra ‘Assabah’ significa “A Manhã”. Inspirei-me no poeta tunisino Abu al-Qasim al-Shabi ele próprio musa das revoluções na Tunísia e no Egipto. A minha mensagem é de esperança: a de que os ditadores jamais conseguirão impedir que o sol nasça.

Foi lindo. Eu estava na Medina, ou Cidade Velha, de Tunes, e enquanto eu pintava ofereciam-me café e todos celebravam à minha volta. 

[Al-Shabi é autor de ‘Aos tiranos do mundo’, e num dos seus mais famosos poemas traduzido sob o título de ‘The will of life’, para inglês: “As’ad Abu Khalil, lê-se: ‘If the people will to live/ Providence is destined to favourably respond/ And night is destined to fold/ And the chains are certain to be broken/ And he who has not embraced the love of life/ Will evaporate in its atmosphere and disappear’].

© eL Seed

Open your heart

Paris (França, 2012)

A Gallery Itinerrance em Paris, onde fiz uma exposição a solo de 12 de Setembro a 12 de Novembro de 2012, convidou-me a pintar vários murais em Paris, com autorização do município.

Encontrei um edifício e o proprietário deu licença para que avançasse, mas quando reparou que eu era árabe e usava caligrafia árabe, recusou.

Duas semanas depois, porém, a galeria encontrou uma parede mesmo em frente à casa daquele homem. E eu pintei a mensagem ‘Open your heart’ (Abre o teu coração).

Um apelo à tolerância que ele tem de encarar todos os dias quando abre a porta para sair à rua.

© eL Seed

Tower Side

Gabes (Tunísia 2012)

Este é o maior minarete da Tunísia. Fica na Mesquita de Jara e na terra da minha família, em Gabes. Era só cimento e já havia sido construído há oito anos.

Em Agosto, com apoio da organização Al-Khaldounia, financiamento da Barjeel Art Foundation, nos Emirados Árabes Unidos, e bênção do imã local, pintei o versículo 13 do capítulo 49 do Corão (‘Ó humanos, em verdade, Nós vos criámos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros’), no que é até agora a minha maior obra.

© eL Seed

We don’t write what we want but what we can

Montreal (Canadá, 2012)

Esta é a minha homenagem à liberdade de expressão, na sequência do filme insultuoso [‘Innocence of Islam’] para o profeta Maomé.

Não acho que possamos dizer tudo o que queremos. Podemos criticar sim, mas se é só para provocar e não para iniciar um diálogo construtivo, então não devemos escrever o que nos apetece.

Photo 7 - eL Seed - Montreal

© eL Seed

My name is Palestine

Montreal (Canadá, 2009)

A Palestina faz parte da minha identidade como árabe e partilho-a como uma causa. Fugi do estafado ‘slogan’ “Free Gaza” (Libertem Gaza) porque não a quis representar apenas como uma terra de conflito, mas pretendi sobretudo ilustrar a sua grandeza cultural.

© eL Seed

Balance

Montreal (Canadá, 2008)

Este é um trabalho de colaboração com outro artista de ‘graffiti’, Hest, um dos mentores que muito me influenciou.

Com “Balance” (Equilíbrio), tentámos passar a mensagem de que, embora possamos estar num mesmo lugar estamos em constante movimento. A nossa imaginação não tem fronteiras.

© eL Seed

You won’t convince

Frankfurt (Alemanha, 2012)

Perante a crise financeira que abala o mundo, fui reler a obra de um filósofo espanhol do século XIII, Miguel de Unamuno. Em 12 de Outubro de 1936, num discurso na Universidade de Salamanca, ele virou-se para os falangistas fascistas e disse: “Venceréis pero no convenceréis” (Vencereis mas não convencereis). Isto é, os poderes económicos podem estar acima de nós, mas a razão continuará do nosso lado.

© eL Seed

Respect your elders

Montreal (Canadá), 2010

Este é um tributo aos idosos. Pintei isto depois de ter visto uma velhinha à procura de um lugar num parque e de nenhum jovem se ter levantado para ela se poder sentar. É uma mensagem para o Ocidente onde abundam os lares de terceira idade.

No mundo árabe, respeitamos os nossos velhos como fonte de sabedoria, embora tenha de admitir que, infelizmente, também esta tradição comece a desaparecer.

Opening at Galerie Itinerrance - Paris Updated over a year ago Exhibition ran from October 12th to November 10th. © eL

Inauguração da exposição de eL Seed na Galerie Itinerrance em Paris, que esteve aberta ao público de 12 de Outubro a 12 de Novembro de 2012
© eL Seed

Um mural de eL Seed no bairro de Manshiyet Naser, no Cairo, abrange 50 edifícios, e a partir de mosteiro nas imediações revela as palavras de Santo Atanásio, o primeiro patriarca cristão copta de Alexandria (Foto de 2016)
© Jihad Abaz | Middle East Eye

Este artigo, agora actualizado, foi  publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 7 de Outubro de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 7, 2012

Nem a crítica imbecil atinge o que é sagrado

Só em liberdade a imaginação funciona, diz Salman Rushdie. Mas o medo da ira religiosa obriga os criadores à autocensura. Um sacerdote católico, uma advogada muçulmana e um escritor judeu garantem que Deus e os seus profetas não são intocáveis. (Ler mais | Read more…)

Um vídeo colocado no YouTube, baseado num “filme” chamado Innocence of Islam, no qual Maomé, o profeta do Islão, é apresentado como “bandido, mulherengo e pedófilo” foi o detonador de uma vaga de ataques, visando sobretudo interesses norte-americanos, desde a Líbia ao Bangladesh (na foto, 13 Setembro 2012) © A.M.Ahad | AP

Um vídeo colocado no YouTube, baseado no “filme”  Innocence of Islam, no qual Maomé, profeta do Islão, é apresentado como “bandido, mulherengo e pedófilo” foi o detonador de uma vaga de ataques, visando sobretudo interesses dos EUA, da Líbia ao Bangladesh (2012)
© A.M.Ahad | AP

A 1 de Janeiro de 2006, em Santa Maria da Feira, Anselmo Borges ficou sentado ao lado de Salman Rushdie num seminário sob o tema Qual o Deus do Mediterrâneo? Ao remontar a esse tempo, numa entrevista que me deu, o professor de Filosofia na Universidade de Coimbra lembra-se de o autor de Os Versículos Satânicos assumir que era ateu e ter ficado “muito admirado” quando ele, padre católico, defendeu “uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados, a separação da Igreja e do Estado, da religião e da política”.

Ainda sobre o escritor que publicou  em 2012 Joseph Anton: Uma Memória, sobre como foi viver ameaçado de morte por uma fatwa de Khomeini durante mais de uma década, acrescenta Borges: “Não fiquei com a impressão de arrogância; diria antes que tem consciência do seu valor.”

Em 2010, na mesma localidade, o sacerdote e académico voltou a participar num debate, intitulado Identidade, Liberdade e Violência, com outro “proscrito” Kurt Westergaard, que desenhou Maomé com um turbante em forma de bomba.

Aqui, era evidente “a presença de muitos polícias”, talvez porque o caricaturista do jornal norueguês Jyllands-Posten, ao contrário de Rushdie, ainda vive, desde 2005, sob protecção para não ser assassinado.

“Penso que são intoleráveis condenações à morte, ameaças de morte, violência, tumultos e assassinatos por causa de um romance e alguns cartoons críticos”, sublinha Anselmo Borges, cronista e também autor de vários livros, que descobriu a vocação aos 19 anos, teve a primeira crise de fé aos 25 e ainda sente necessidade de “ajustar contas com Deus”, por haver “tanto mal no mundo”.

Rushdie, para quem “a imaginação só funciona quando é livre”, lamentou recentemente, em declarações à BBC Radio4, a censura que os criadores artísticos e seus editores se impõem pelo medo de ofender sensibilidades de determinadas culturas, em particular do Islão.

Talvez hoje, admitiu, não se tivesse inspirado em Versículos Satânicos, expurgados do Corão, para publicar Os Versículos Satânicos. A sua ideia, garante, era mostrar um profeta que, perante a fraqueza (o demónio tentando-o a aceitar três deusas pagãs para poupar os crentes de Meca) se mostrou forte.

Anselmo Borges, padre católico, teólogo e professor de Filosofia: “Seja qual for o fundamentalismo, e venha de onde vier — esquece-se frequentemente que não é só islâmico, pois também há fundamentalismo judaico e cristão —, afirmo que ele só pode ser fruto da ignorância e da estupidez: de facto, quem somos nós, seres finitos, para poder dizer que possuímos o Fundamento?” © leduardolourenco.blogspot.pt/

Anselmo Borges, padre católico, teólogo e professor de filosofia: “Seja qual for o fundamentalismo, e venha de onde vier — esquece-se frequentemente que não é só islâmico, pois também há fundamentalismo judaico e cristão; e só pode ser fruto da ignorância e da estupidez”
© leduardolourenco.blogspot.pt

Sobre a “problemática da liberdade de expressão e respeito pela religião”, Anselmo Borges resumiu a sua reflexão nos seguintes pontos:

1) “Distingo entre a crítica inteligente, mesmo se mordaz e cáustica, e a crítica imbecil, de mau-gosto, soez;

2) A mim, mesmo esta não me incomoda enquanto crente. De facto, a crítica nunca atinge o Sagrado ou Deus em si mesmo, mas apenas as ideias e imagens que os crentes fazem do Sagrado ou de Deus, tantas vezes vergonhosas;

3) Considero uma aquisição saudável e irrenunciável a afirmação do filósofo Immanuel Kant: ‘O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado’, e isso ‘sobretudo nas coisas de religião’. Por isso, a própria religião, apesar da sua majestade, não pode considerar-se imune à crítica. Julgo que mostraria fraqueza, uma religião que não admitisse a crítica, mesmo quando é cáustica. Ai de nós, se não houvesse críticos da religião, que chamam a atenção para aspectos das religiões tantas vezes ridículos e supersticiosos;

4) Pergunta-se: e quem se sente ofendido? Resposta: não pode de modo nenhum recorrer à violência, mas deve ser-lhe garantido o direito de manifestação e de recurso às instâncias jurídicas adequadas;

5) Dito isto, acrescento que quem critica deveria evitar a crítica gratuita e ter em atenção a prudência, também a prudência política. Para lá de certos limites, a humilhação das pessoas, dos grupos e dos povos termina, inevitavelmente, em violência.”

O teólogo que frequentava o botequim de Natália Correia, fazia teatro no seminário, lia obras proibidas, tinha “cadastro” na PIDE e foi acusado de “herético”, em 1970, pelo Bispo de Portalegre e Castelo Branco adianta:

– “Eu compreendo, até certo ponto, o mal-estar e até o ressentimento dos muçulmanos em relação ao Ocidente, quando se pensa concretamente na guerra em curso no Afeganistão e, sobretudo, no Iraque.”

“Mas também penso que muitos desses países islâmicos não aproveitaram adequadamente a riqueza proveniente do petróleo para um desenvolvimento sustentável e democrático. Também tenho a convicção de que, em ordem à paz, é essencial o diálogo inter-religioso e este, entre outros pressupostos, implica a urgência de perceber que não se pode continuar com uma leitura literal dos livros sagrados.”

“O Estado deve ser laico, portanto, não confessional, para poder garantir a liberdade igual de todos os cidadãos.”

“Quanto ao fundamentalismo, seja ele qual for e venha de onde vier — esquece-se frequentemente que não é só islâmico, pois também há fundamentalismo judaico e cristão —, afirmo que ele só pode ser fruto da ignorância e da estupidez: de facto, quem somos nós, seres finitos, para poder dizer que possuímos o Fundamento?”, acentuou.

Salman Rushdie, o autor de Os Versículos Satânicos, vivei vários anos sob ameaça de morte depois de uma fatwa emitida por Khomeini no Irão. A sua obra não gerou apenas manifestações de protesto (como na foto), mas ataques contra os seus tradutores. © Direitos reservados | All Rights Reserved

Salman Rushdie, autor de Os Versículos Satânicos, viveu vários anos sob ameaça de morte depois de uma fatwa emitida pelo Ayatollah Khomeini no Irão. A sua obra não gerou apenas manifestações de protesto (na foto), mas ataques contra os seus tradutores
© Indranil Mukherjee | AFP  | Getty Images

O “padre ateu”, como um dia o apelidaram sem que tomasse isso como ofensa, rejeita “um Deus que mete medo”, e concluiu que “o inferno é uma invenção”. Por isso, quando lhe pergunto sobre se alguma vez se autocensurou para evitar ser punido pela hierarquia da Igreja Católica, recomendou a consulta dos seus escritos.

Aqui, adianta, se encontram “afirmações explícitas a favor do fim da lei do celibato obrigatório para os padres; a favor da ordenação das mulheres e do uso do preservativo; nomeadamente quando, por causa da sida, está em perigo a vida das pessoas — neste caso, não só é permitido, mas obrigatório moralmente”.

Anselmo Borges frisa que condenou publicamente a pedofilia do clero, “ um crime hediondo e vergonhoso”. Quanto ao luxo ostensivo do Vaticano perante a pobreza de tantas comunidades cristãs, foi pertinaz: “Jesus não entraria lá e, possivelmente, a Cúria Romana é responsável por mais ateus do que Marx, Nietzsche e Freud.”

Sobre a caricatura de João Paulo II com um preservativo no nariz, desenhada por António para o semanário Expresso, Anselmo Borges não hesita: “O Papa tem de sujeitar-se à crítica e à caricatura como os políticos. Isso vai obrigar a pensar.”

E os filmes que irritam a Santa Sé, como A Vida de Brian, dos Monty Python, por exemplo, que a BBC recusou transmitir e foi interdito na Noruega e na Irlanda?

“Eu estava em Nova Iorque, quando apareceu o filme A Última Tentação de Cristo [de Martin Scorsese], e entrei no cinema ladeado por polícias. O filme [que levou uma multidão enfurecida a incendiar a sala onde se exibia em Paris e foi proibido e no México, Chile e Argentina] não me fez diferença nenhuma. Por que é que há-de ser condenável levantar questões, por exemplo, sobre a sexualidade de Jesus?”

Islamist bedroht Mohammed-Karikaturisten

Kurt Westergaard desenhou Maomé com um turbante em forma de bomba. Ao contrário de Salman Rushdie, que recuperou a liberdade (quando o Irão anulou a fatwa de morte de Khomeini) caricaturista do jornal norueguês Jyllands-Posten ainda vive, desde 2005, sob protecção para não ser assassinado
© nydailynews.com

Se, em 2005, os cartoons de Maomé indignaram o mundo islâmico, este mês um videoclipe, Innocence of Muslims, colocado no YouTube, injuriando o profeta do Islão, designadamente, como “bandido, mulherengo e pedófilo”, realizado e produzido por cristãos radicais, foi o detonador de uma vaga de ataques, visando sobretudo interesses norte-americanos, desde a Líbia ao Paquistão.

No entanto, para Ayesha Ijaz Khan, muçulmana paquistanesa residente em Londres, são mais políticas do que religiosas as razões do que alguns designaram como “a raiva muçulmana”.

O propósito, disse esta advogada, escritora e colunista, em declarações que nos fez, via Twitter e e-mail, “era provocar uma reacção violenta”, particularmente no Egipto, para afrontar a Irmandade Muçulmana, que triunfou nas legislativas e presidenciais.

Os autores do filme Innocence of Islam, que teve um só visionamento, com uma ínfima plateia, na Califórnia, “traduziram o trailer para árabe e enviaram-no a uma estação de TV dirigida por salafistas; foi como deitar gasolina a um fogo”.

“Porque, tal como o produtor copta tencionava semear divisões entre cristãos e muçulmanos no Egipto, os salafistas daquele canal televisivo tinham, aparentemente, o mesmo objectivo. Em vez de ignorarem o filme, transmitiram-no, o que gerou o caos.”

“É muito importante notar aqui duas coisas”, constatou Ayesha Ijaz Khan. “Primeiro, o vídeo feriu os sentimentos de todos os muçulmanos praticantes porque mostrou o nosso profeta, que nós honramos, a uma luz negativa. Mas a maioria esmagadora dos muçulmanos, embora se tenha sentido ferida, não protestou.”

“Os mais violentos não estão tão preocupados com o profeta, mas em exibir o seu poder (por exemplo, como alguns partidos políticos marginais no Paquistão); e em explorar facilmente os sentimentos da população.”

“Além disso, refira-se que, com uma elevada taxa de desemprego, uma inflação galopante e má governação, não é difícil levar as pessoas para rua, onde elas exprimem as suas frustrações de um modo violento.”

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Ayesha Ijaz Khan, advogada muçulmana paquistanesa, que viveu na Arábia Saudita antes de se mudar para Londres: “O vídeo Innocence of Islam feriu os sentimentos de todos os muçulmanos. Mas a maioria, embora ferida, não protestou. Os mais violentos não estão  preocupados com o profeta, mas em exibir o seu poder e em explorar facilmente os sentimentos da população”

Outrora advogada em firmas paquistanesas e americanas e agora colunista de “questões de significado político transnacional”, como a si própria se define, Ayesha Khan lamentou que o Governo em Islamabad tenha desempenhado “um papel muito irresponsável, ao declarar sexta-feira [passada] um feriado especial para os protestos.”

Em seu entender, “não havia necessidade disso e o único motivo foi político: vai haver eleições em breve e não há progressos. As pessoas chegam a estar 16 horas sem electricidade no pico do Verão em muitas regiões.”

“Talvez os governantes quisessem tirar proveito de um tema que mexe com emoções.” Outro factor: “A percepção de que os Estados Unidos interferem na região iniciando várias guerras. Daí, também que a fúria dirigida contra a América seja encorajada por alguns líderes políticos.”

Anselmo Borges partilha a análise de Ayesha Khan: “Infelizmente, quem tem o poder exerce-o, e nem sempre a favor dos mais desfavorecidos e desprotegidos. Julgo que raramente se combate directamente por Deus e por motivos religiosos, mas por interesses outros que não os religiosos: interesses políticos, económicos, geoestratégicos.”

“Na maior parte das vezes, a religião é apenas invocada para legitimar a luta por esses interesses. E isso é assim de todos os lados e, infelizmente, em toda a parte. Devemos ser optimistas e combater pela liberdade e pela paz, mas não podemos ser ingénuos.”

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Uma cena de Innocence of Islam: Os autores do filme, que teve um só visionamento, com ínfima plateia, na Califórnia, traduziram o trailer para árabe e enviaram-no a uma estação de TV dirigida por salafistas no Egipto. Foi como deitar gasolina a um fogo

Khaled Diab, jornalista egípcio e não crente, chamou a atenção, num artigo publicado no diário israelita Ha’aretz, para a Albânia, um país maioritariamente muçulmano, com “uma longa história de ateísmo” durante a ditadura comunista, onde “não há leis contra a blasfémia por insultos à religião e ninguém é perseguido por esse crime”.

Na Rússia, por outro lado, a banda feminina Pussy Riot foi condenada por “hooliganismo motivado por ódio religioso”, porque a sua “oração punk ofendeu o cristianismo”. Diab e a maioria dos analistas acham que foram castigadas por terem criticado “outra divindade”: o Presidente Vladimir Putin.

Tendo nascido no Paquistão e vivido na Arábia Saudita, que conselho daria Ayesha Khan para equilibrar a liberdade de expressão com a liberdade religiosa? “Não apenas nos países muçulmanos, mas também em grande parte do Oriente, e aqui incluo lugares como a Tailândia e a Índia onde a maioria das populações não é muçulmana, as pessoas são, de um modo geral, mais religiosas do que no Ocidente”, responde.

“Muita gente no Oriente respeita seriamente a religião, e muitos no Ocidente prezam seriamente os valores seculares, que incluem a liberdade de, por exemplo, troçar da religião. No Oriente, isto é uma irreverência e, de facto, existem até leis de blasfémia em muitos países.”

“Creio que não podemos esperar que o Ocidente mude os seus ideais de liberdade de expressão do mesmo modo que não podemos esperar que o Oriente mude os seus valores religiosos. Hoje, e isso é evidente, o mundo é muito mais global.”

“No Ocidente”, continua “há também significativas populações migrantes que têm sistemas de valores ligeiramente diferentes. Por isso, a grande necessidade dos nossos tempos é construir pontes, tentar entender uma parte e outra, e procurar os valores universais. Por exemplo, creio que muitas pessoas concordarão que, talvez, não seja boa ideia ofender os outros sem razão e que, por outro lado, deve haver liberdade universal de religião.”

“As comunidades minoritárias, como os muçulmanos no Ocidente ou os cristãos no Paquistão e no Egipto, não devem ter medo de revelar a sua identidade e prática religiosa. No Ocidente, sei que há pessoas que atribuem todos os males ao Islão como ‘religião violenta’ e que tratam os muçulmanos como ‘selvagens’; e nos países islâmicos também há pessoas para quem ‘a América é o demónio’. Este tipo de liberdade de expressão é, infelizmente, muito prejudicial para a harmonia e paz global.”

Um dos filmes que irritaram a Santa Sé foi A Vida de Brian, dos Monty Python. A BBC recusou transmiti-lo e também foi interdito na Noruega e na Irlanda.

Uma das críticas que é feita aos líderes muçulmanos é, precisamente, a de que eles são rápidos a querer vingar-se dos que ofendem o Islão mas que também eles perseguem os cristãos ou os bahá’ís, não permitindo a construção de templos ou incendiando os já existentes, negando o acesso a direitos básicos, imitando ou sendo ainda piores do que os que condenam.

“A lógica da vingança coloca-nos num beco de horror sem saída”, declara Anselmo Borges. “O perdão é um verdadeiro milagre, pois está para lá da justiça e do cálculo: nem a vítima é obrigada a perdoar nem o algoz tem direito ao perdão.”

“O filósofo Derrida dizia que o pensamento da religião começa aqui: com o perdão. Mas, o diálogo não pode ser unidireccional. É necessário reconhecer que, ao contrário do passado, o cristianismo hoje é mais tolerante do que o Islão.”

“O Cristianismo é hoje a religião mais perseguida”, lamenta o padre e académico. “No Ocidente, de modo geral, os muçulmanos têm liberdade. No mundo muçulmano, pelo contrário, não sucede o mesmo com os cristãos, que se vêem mesmo impedidos de construir edifícios religiosos. No Médio Oriente, o cristianismo pode até desaparecer.”

Comenta Ayesha Khan: “Pessoalmente, sinto que há necessidade de conter os que promovem o ódio em ambas as partes. Não se trata apenas de comunidades minoritárias, como os cristãos ou os bahá’ís. Por vezes, o ódio também é pregado contra as mulheres. Isto tem de ser monitorizado pelos Estados, quer islâmicos como ocidentais.”

“Creio que, por vezes, no seu zelo pela ‘liberdade de expressão’, os países ocidentais permitem todo o tipo de prédicas mesmo que algumas delas violem totalmente as normas da sociedade ocidental, depois concluem que foram longe de mais e proíbem o que consideram ser símbolos como os minaretes na Suíça. Isto é contraproducente.”

O filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, onde se abordam questões como a sexualidade de Jesus, levou uma multidão enfurecida a incendiar a sala de cinema onde se exibia em Paris e foi proibido e no México, Chile e Argentina

“Há muitos muçulmanos, no Ocidente e nos países islâmicos, que interpretam a religião de modo a que seja totalmente compatível com a vida moderna, a democracia, os direitos das mulheres e ideais que todos partilham. São estes que deveriam ter o poder de dirigir as suas comunidades.”

“Mas isto só será possível se os sentimentos dos muçulmanos também merecerem respeito no Ocidente. Se assim não for, se eles estiverem constantemente a ser ridicularizados poderão não se sentir suficientemente fortes para liderar, porque facilmente serão renegados como traidores.”

Sobre as queixas de que o medo da ira dos muçulmanos, em particular dos muçulmanos, impele a autocensura, Ayesha Khan invoca de novo o Paquistão: “Enfrentamos aqui um gigantesco problema com os Taliban e grupos armados que operam com impunidade.”

“Muita gente, incluindo políticos, tem perdido a vida por exprimir as suas convicções. Eu não me autocensuro demasiado, mas acredito que aqueles que discursam perante grandes audiências públicas sintam a necessidade de se retrair.”

Ayesha Khan acautela, porém, que “há também autocensura nos media mainstream ocidentais – o que aconteceu a Julian Assange [o fundador daWikiLeaks] é a prova disso”. É óbvio, reconhece, que “está ausente do Ocidente a situação débil em termos de lei e ordem que existe no Paquistão.”

“E na Arábia Saudita, o controlo é ainda mais rígido, porque o Estado é que define o que se pode e não se pode dizer. No Paquistão, isso é imposto não tanto pelo Estado mas por grupos vigilantes que estão a conquistar o poder.”

Há um argumento que tem sido usado por vários analistas muçulmanos para que, tal como acontece em França, onde a negação do Holocausto e do genocídio arménio são criminalizados, os mesmos “peso e medida” sejam aplicados aos muçulmanos quando filmes (como Innocence of Islam) são, unanimemente, classificados de “incitamento ao ódio”.

Foto 7

Roi Ben-Yehuda, académico judeu, israelita e americano: “A ofensa pessoal faz parte da nossa integração numa sociedade aberta. Se as pessoas são livres de criticarem também são livres de troçar”

Roi Ben-Yehuda, escritor, académico e jornalista israelita-americano, doutorado em Resolução de Conflitos na Universidade de George Mason, em Washington, observou: “Creio que leis contra a negação de qualquer coisa são erradas à partida.”

“Acabam por reforçar o poder ilegítimo ou tornar atraentes tabus estúpidos. Deixemos que o mercado das ideias afaste a obtusidade intelectual, a desonestidade e a falsidade. Se episódios históricos e reivindicações religiosas são tão frágeis que não podem suportar o escrutínio, então não há razão para nos exigirem autocensura.”

“Nunca me autocensurei conscientemente por medo de uma resposta inesperada contra mim”, disse-me, por Facebook e e-mail, o autor do blogue Roi World. “No entanto, numa ocasião, na sequência de um pedido editorial, consenti com relutância em retirar conteúdo que poderia colocar os escritórios e o pessoal da publicação em risco.”

“Dito isto, nunca me esqueço que tenho uma determinada audiência em mente, e gosto de pensar que as minhas palavras têm impacto nos meus leitores. Essa audiência em mente, por mais fictícia que seja, também me influencia. Isso é óbvio na linguagem, no vocabulário e no estilo de escrita que uso.”Isso é também visível na maneira como comunico e no contexto que apresento.”

“Aprendi, ao longo dos anos, que a pior maneira de persuadir é atacar directamente as crenças e os valores mais íntimos dos outros. Posso autocensurar-me se acreditar que algo que escrevi vai impedir o debate e um nível elevado do discurso.”

Sobre se alguma vez o acusaram de ser self-hating Jew (judeu que se odeia a si próprio), acusação frequente, como a de anti-semita, geralmente para impedir críticas às políticas dos governos israelitas, Roi afirma:

– “A ofensa pessoal faz parte da nossa integração numa sociedade aberta. Se as pessoas são livres de criticarem também são livres de troçar. Esperamos sempre poder cultivar os media e a cidadania, e que se compreenda a diferença entre crítica e troça, mas isso é o papel da educação – no âmbito mais lato da palavra – e não do sistema legal.”

© Martin Bureau | AFP | Getty Images

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Setembro de 2012 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 28, 2012

“O deus que os extremistas veneram tem medo”

O “pior vídeo do YouTube” incendiou o mundo islâmico. Porquê? Ignorância religiosa e ressentimentos políticos ajudam a explicar, dizem dois muçulmanos e um cristão copta. (Ler mais | Read more…)

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Khalil | AFP | Getty Images

O palestiniano Aziz Abu Sarah ficou “magoado e ofendido” ao ver Innocence of Muslims, mas irritou-se mais com os actos de violência que “um filme medíocre” gerou.

O americano de origem iraniana Omid Safi sentiu repulsa por Maomé ser apresentado como “mulherengo, bandido, tarado, pedófilo”, mas acredita que, hoje, o seu profeta não se juntaria às multidões encolerizadas que atearam fogos pelo mundo islâmico.

Numa entrevista, por telefone, a partir de Washington, diz-me Aziz, director executivo do Centro de Religiões Mundiais, Diplomacia e Conflito de Resoluções na Universidade de George Mason: “Nem Maomé nem Deus precisam que os defendam; o deus que os extremistas veneram tem medo. Não é omnipotente nem confiante, o que prova o quanto eles ignoram a sua religião.”

“Olho para a TV, vejo autoproclamados ‘imãs’ [guias espirituais] a protestar – a atacar, a matar – e pergunto-me: porquê?”, adianta Aziz. “São eles que insultam o profeta e o seu legado. São eles que insultam o Islão! Há milhares de pessoas a morrer diariamente na Síria, numa guerra sectária que envolve sunitas e alauitas (esta sim, é uma ofensa a Deus!), mas não se vêem muçulmanos unidos a insurgir-se nas ruas contra estes massacres.”

“Alguém crê seriamente que Deus precisa de se defender de uma porcaria de um filme e que não gostaria mais de ver os fiéis a proteger vidas inocentes?”

Omid Safi, autor da biografia Memories of Muhammad:  Why The Prophet Matters Today, respondeu assim a questões que lhe enviámos por Facebook: “Não sou daqueles muçulmanos alheados da realidade que nos mandam ‘arrefecer os ânimos’ ou que deixemos de ser ‘tão sensíveis’. Longe disso.”

“Cada vez que aparece algo de ofensivo há a tentação de reduzir isso ao ‘direito à liberdade de expressão’, tido como absoluto versus a sensibilidade dos muçulmanos. Este quadro mental não ajuda nada ou, pelo menos, só ajuda parcialmente.”

“Na realidade, coisas como Innocence of Muslims deveriam ser classificadas como ‘discurso de ódio’, porque são do mesmo género dos filmes anti-semitas dos anos 1930 ou de Birth of a Nation, do Ku Klux Klan.”

“É falso que só os muçulmanos exprimam a sua sensibilidade religiosa”, frisa o professor de Estudos Islâmicos na Universidade da Carolina do Norte (EUA). “Os muçulmanos em sociedades relativamente livres, como a Turquia, ou sob regimes mais opressivos, como o Irão, têm uma tradição rica de cinema, cartoons políticos e sátira.”

“Muitos jornalistas e comediantes pagam o preço por defenderem a liberdade de expressão. São essas pessoas que merecem estar na ribalta e não os que fazem propaganda ao ódio.”

© nationalinterest.org

Interrompemos aqui, e mais adiante retomaremos, os argumentos de Aziz e Omid, para explicar como as chamas se propagaram.

“O pior filme do YouTube”, segundo a revista The Atlantic, começou por ser atribuído ao “produtor e agente imobiliário Sam Bacile”, que se vangloriou à agência Associated Press de ter “angariado cinco milhões de dólares de ‘100 judeus americanos’”, alegada tentativa de “usar o anti-semitismo para se proteger”.

A BBC fez uma pesquisa mas não encontrou ninguém na Califórnia que correspondesse à descrição de Bacile. Notícias recentes dão conta de que o “incendiário” de Innocence of Muslims é um extremista copta americano, Nakoula Basseley Nakoula.

Esta figura, que inventou para si próprio 13 identidades irreais, já tinha estado detido por fraude financeira. Teria ligações a um “produtor obscuro” chamado Steve Klein, por sua vez, membro de uma milícia de extrema-direita, que não gosta de gays, imigrantes, muçulmanos… e mórmones, como o candidato presidencial republicano Mitt Romney.

O produtor terá dito que exibiu o filme “apenas numa sala de cinema, quase vazia”, em Hollywood. A distribuição terá ficado a cargo de Terry Jones, o pastor da Florida que, em 2011, exortara à queima de exemplares do Corão.

Excertos do filme, legendados em inglês, terão sido colocados no YouTube por grupos de coptas radicais, embora as principais organizações desta minoria cristã do Egipto tenham sido rápidas na condenação dos malfeitores.

Os primeiros protestos ocorreram no Egipto, com manifestantes a tentar escalar a Embaixada dos EUA no Cairo, mas o ponto de viragem foi a morte do embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, um diplomata amado e respeitado, durante um ataque ao consulado de Washington em Bengazi.

Este crime (atribuído a grupos próximos da al-Qaeda) foi condenado pelos novos líderes que ocuparam o lugar do coronel Muammar Kadhafi e por várias associações islâmicas na América.

Na Internet circularam também dezenas de imagens de líbios com cartazes, sublinhando a diferença entre Islão e terrorismo, exprimindo gratidão a Stevens e à comunidade internacional pelo derrube de um ditador.

© Ivan Lieman | AFP | Getty Images

Paul Sedra, cristão copta de origem egípcia, nascido em Toronto (Canadá), professor associado do Departamento de História da Universidade Simon Fraser (Vancouver) não esconde a inquietude. “A curto prazo, prevê-se que mais coptas venham a ser vítimas de agressão por parte de muçulmanos”, observou, numa entrevista, por e-mail.

“Desde a revolução no Egipto [em 2011] várias igrejas foram alvo de ataques e os perpetradores nunca foram punidos.”

Na quinta-feira da semana passada, por exemplo, o copta Albert Ayyad foi detido quando uma multidão se concentrou em frente à sua residência, no bairro de Marg, na capital egípcia, incitando a que fosse assassinado, por “ter difamado o islão” com um videoclip que, supostamente, colocou em redes sociais.

A mãe pediu protecção à Polícia, mas quando os agentes chegaram não dispersaram os agitadores. Pelo contrário, confiscaram o computador do filho e levaram-no para a cadeia, informou o diário Egypt Independent, citando a Association for Freedom of Thought and Expression.

“Na esquadra, um responsável encorajou abusos físicos de outros reclusos contra Ayyad, que foi ferido no pescoço com uma lâmina.” Na sexta-feira, face a ameaças de que a matariam e incendiariam a sua casa, a mãe fugiu.

Os coptas (membros da Igreja Ortodoxa de Alexandria, na sua maioria, mas também católicos e protestantes) constituem ainda, apesar das perseguições, a maior comunidade cristã do Médio Oriente. Representam cerca de 10 por cento dos 82,5 milhões de habitantes do país mais populoso da região, e recusam ser descritos como “minoria”, porque antes da conquista islâmica eram dominantes no Egipto.

Inquirido sobre a aparente diferença entre uma nova geração de coptas egípcios, que rejeita o auto-isolamento (muitos estiveram da Praça Tahrir a exigir a queda de Hosni Mubarak e ofereceram-se como escudos humanos em mesquitas), e coptas na diáspora que perfilham facilmente o discurso islamófobo de cristãos fundamentalistas, Paul Sedra, que é também editor de Médio Oriente Moderno da revista académica History Compass, explica:

“É difícil fazer generalizações vagas sobre os coptas, seja no Egipto como na diáspora. Mas há razões para que alguns coptas, em particular na diáspora, usem uma retórica de islamofobia:

– 1) talvez estes coptas tenham deixado o Egipto por, sendo cristãos, terem sido discriminados, o que os fez adoptar uma atitude hostil em relação aos muçulmanos; 2) os coptas na diáspora podem falar abertamente desta discriminação, o que não é permitido no Egipto, e isso também contribui para as críticas aos muçulmanos; 3) os coptas na diáspora têm pouca ligação aos imigrantes egípcios muçulmanos, e este afastamento pode fomentar a intolerância.”

O facto de um extremista copta estar por detrás de Innocence of Muslims, adianta Paul Sedra, “levará a que, a longo prazo, os coptas temam uma maior marginalização e mais discriminação, não só da parte de muçulmanos egípcios mas do próprio Estado egípcio, agora que os pilares do poder são controlados, em larga medida, por islamistas”.

© Observer Research Foundation

Se na Líbia, o clamor popular contra os extremistas ajudou, parcialmente, a serenar o rancor político, sobretudo nos EUA, com o Presidente Barack Obama, em plena campanha eleitoral, a ser responsabilizado pelos adversários por aplicar “políticas falhadas”, o novo líder do Egipto, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, também não se livrou de críticas ao seu silêncio inicial.

Paul Sedra analisa: “É difícil explicar o timing do filme – mas quanto à reacção das autoridades egípcias há duas possibilidades. A primeira, a mais plausível, para mim, é a de que o Presidente Morsi não estava preparado para esta crise, e foi apanhado desprevenido. Ele recebia, no Cairo, uma delegação americana quando os protestos começaram, e ficou, muito provavelmente, embaraçado com a tentativa de atacar a Embaixada dos EUA.”

“Morsi está apenas a começar o que irá ser uma prolongada batalha para assumir o controlo do gigantesco aparato estatal egípcio. E ainda se está a habituar a lidar com o protocolo e a forma de agir nestas circunstâncias. Afinal, ele é o primeiro Presidente democraticamente eleito desde a independência do Egipto.”

A segunda possibilidade, acrescenta Sedra, é a de que “o silêncio de Morsi foi deliberado, e que ele está a servir-se deste incidente para garantir ganhos políticos. Ninguém questiona que Morsi está envolvido numa luta séria pelo poder com várias forças políticas, mas o timing dos acontecimentos (coincidindo com a visita da delegação americana e os esforços subsequentes para melhorar as relações com os EUA e resolver o incidente da embaixada, sugerem que Morsi faz um esforço para evitar que os acontecimentos escapem ao seu controlo.”

Alguns analistas, como Robert Wright, da Atlantic, ressalvando que não justifica a violência nem culpa a América, apontou pelo menos “três efeitos secundários” das políticas dos EUA que “têm sido ignorados” e contribuíram, presumivelmente, para a fúria gerada pelo filme.

Wright enuncia ataques com drones (veículos aéreos não tripulados) que têm causado numerosas vítimas civis em países muçulmanos; o apoio incondicional a Israel no conflito com os palestinianos; a presença de tropas ocidentais no Iraque e no Afeganistão.

“Tudo isto, que deixou muita gente melindrada, é interpretado como prova do desprezo americano pelo mundo islâmico, e o vídeo foi apenas mais uma confirmação”, comentou.

No caso do Egipto, um dos 40 países onde se registaram tumultos, o historiador Paul Sedra também encontra motivos para a animosidade que explodiu após a divulgação de Innocence of Muslims.

“Durante três décadas, o antigo Presidente Mubarak manteve uma paz fria com Israel e boas relações com os EUA, apesar de a maioria da população condenar os maus tratos aos palestinianos, por parte dos israelitas, e as repetidas intervenções militares americanas no Iraque”, constatou.

“Na sequência da revolução, os egípcios sentem que ganharam a liberdade que antes lhe era negada de se exprimirem sobre questões políticas. Não é, portanto, surpreendente que venha à superfície este ressentimento sobre os erros da América no mundo árabe, no passado.”

Até que ponto, no entanto, é que a ira contra um filme obsceno não serve também os salafistas intransigentes e a mais “pragmática” Irmandade Muçulmana em vésperas de novas eleições legislativas no Egipto?

“É uma certeza que os salafistas estiveram inicialmente envolvidos na primeira vaga de protestos”, anuiu Paul Sedra. “Mas há dúvidas sobre se terão sido eles que instigaram um assalto à embaixada ou se encorajaram a violência.”

© B.K. Bangash | AP

Aziz Abu Sarah, designado National Geographic Emerging Explorer 2011 por dedicar a sua vida à tolerância e não à vingança depois de o seu irmão mais velho ter morrido, sob tortura, numa prisão israelita após ter alegadamente apedrejado soldados, considera que “o elemento político agravou uma situação delicada.”

“É tempo de eleições, nos EUA e Obama não pode baixar a guarda face a Romney, enquanto no Egipto, Morsi não pode mostrar que está ao lado do Ocidente para não afugentar votantes quando tenta uma maioria parlamentar”, disse o jovem natural de Jerusalém que criou uma agência de turismo em que dois guias, um judeu e um palestiniano, mostram os lugares disputados da “Terra Santa”, cada um com a sua distinta narrativa.

Inspirado pelas visitas em que leva judeus a campos de refugiados na Cisjordânia e palestinianos ao Museu do Holocausto de Yad Vashem, testemunhando o reconhecimento mútuo da dor, Aziz reprova a atitude dos media de “darem o pódio aos extremistas e não aos moderados.”

Cita um encontro que organizou com imãs defensores de uma “interpretação do Corão e dos hadith [tradição oral do tempo de Maomé], para ser alternativa e contrariar a doutrina exclusiva dos Taliban.”

Foi impossível reunirem-se em Cabul, no Afeganistão (teve de ser em Istambul, Turquia), por motivos de segurança: um dos convidados foi ameaçado de morte. Além disso, “nenhuma estação de televisão árabe fez a cobertura do acontecimento”, lamenta. “Também fomos ignorados no Ocidente, porque o que fazemos não é sexy! Para mim, é um quebra-cabeças.”

“Uma das histórias que aprendi na escola islâmica fala-nos de um vizinho de Maomé que detestava os muçulmanos”, conta Aziz.

“Diariamente, essa pessoa costumava deixar o lixo à porta da casa do profeta. Um dia, o vizinho ficou demasiado doente para despejar o lixo. O profeta, preocupado, foi visitá-lo para lhe oferecer assistência. É incrível, como a minha religião tem sido maltratada por muçulmanos que não são representantes de Maomé nem de Deus.”

Como biógrafo de Maomé, Omid Safi tentou imaginar como o “Mensageiro de Alá” agiria se tivesse visto Innocence of Muslims. “Convém não esquecer que o profeta e a sua comunidade sofreram insultos e perseguições durante pelo menos 13 anos na cidade em que ele nasceu, Meca”, recorda o académico que, embora tenha nascido nos EUA, tem vivido em vários países, de Marrocos à Índia, promovendo o misticismo sufi.

“Os mais fracos da comunidade foram espancados, torturados e até mortos. Depois de dez anos numa outra cidade, (Yathrib, renomeada Medina), Maomé teve a oportunidade de regressar triunfalmente a Meca. Poderia ter optado por se vingar daqueles que o maltrataram ou procurar outro caminho. E ele escolheu ser misericordioso.”

“Os extremistas que odeiam Maomé pretendem lançar-nos uma armadilha: que comecemos um novo ciclo de violência a terminar num banho de sangue para todos”, alerta Omid Safi.

“Não podemos cair nesta ratoeira. Naturalmente que todos os muçulmanos têm o direito de se sentirem ultrajados por mais esta provocação deliberada, mas sabemos que o profeta, tantas vezes alvo de troça, perdoou os inimigos para ser exemplo de moral elevada, mesmo nos momentos de glória quando tinha o poder de castigo.”

Paul Sedra @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Paul Sedra

Aziz Abu Sarah @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Aziz Abu Sarah

Omid Safi @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Omid Safi

Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 19 de Setembro de 2012 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 19, 2012

O tempo em que Salman Rushdie foi condenado a ser Joseph Anton

Durante 11 anos o autor de Os Versículos Satânicos vestiu a pele de uma personagem ficcional juntando os primeiros nomes de Conrad e Tchekov. Para celebrar a vida depois de uma fatwa de morte, publica agora as memórias desse tempo, que aqui reconstituímos. (Ler mais | Read more…)

 

© El País

Em 1989, o octogenário Khomeini agonizava numa clínica nos arredores de Teerão, o coração ainda mais debilitado depois de “beber o cálice de veneno” do cessar-fogo numa guerra de oito anos com o Iraque de Saddam Hussein.

A 4 de Fevereiro, intrigado com as imagens que vira no noticiário da tarde, inquiriu o filho sobre o que se passava, e este informou o ayatollah de que muçulmanos estavam a ser mortos na Índia e no Paquistão em protestos contra Os Versículos Satânicos, um livro “insultuoso para o islão”.

“Poucas horas depois, um documento foi levado aos escritórios da rádio iraniana e apresentado como um édito [fatwa] de Khomeini”, relata o autor do “livro blasfemo” em Joseph Anton: Memórias, obra centrada no período em que deixou de ser Salman, estrela literária que, em 1981, ganhara o Booker Prize com Filhos da Meia-Noite, para se tornar apenas Rushdie, ser maldito que poderia render um milhão de dólares a quem o matasse.

A nova obra de Salman Rushdie em que revisita o seu tormento mistura, no título, os primeiros nomes de dois dos seus escritores favoritos, Joseph Conrad e Anton Tchecov –, a “personagem ficcional” que que inventou para se “tornar invisível” durante 11 anos.

Embora o lançamento [estivesse] marcado para o próximo dia 18, a revista The New Yorker deu já a conhecer uma parte, The Disappeared – How the fatwa changed a writer’s life, que serviu de base para as citações usadas neste artigo (traduzidas pela editora D. Quixote, que detém o exclusivo para Portugal).

O édito do teólogo que, em 1979, derrubara o imperador Mohammad Reza Pahlavi instaurando a primeira república islâmica, “era apenas um pedaço de papel com um texto escrito à máquina”, observou Rushdie. Aparentemente, “ninguém viu jamais o documento formal, se é que ele existiu. O pedaço de papel foi entregue ao locutor da estação que o leu” ao país.

As palavras de Khomeini terão sido estas: “Informo o orgulhoso povo muçulmano que o autor deste livro, ‘Versículos Satânicos’, que é contra o islão, o profeta [Maomé] e o Corão, e todos os envolvidos na sua publicação e conscientes do seu conteúdo, estão condenados à morte, a partir de agora.”

“Apelo a todos os muçulmanos zelosos que os executem rapidamente, onde quer que os encontrem, para que nenhum deles se atreva a ofender a santidade islâmica. Quem morrer a fazer isto será admirado como mártir e irá directamente para o paraíso.” 

© literary-arts.org

Era Dia de São Valentim e, em Londres, Rushdie teve conhecimento desta “sentença” quando a BBC o contactou. Esqueceu-se do nome da jornalista que lhe dissera “que tinha sido posto um ponto final em toda a sua antiga vida e estava prestes a iniciar-se uma existência nova”.

Mas recorda-se de ter pensado: “Sou um homem morto”, e de se ter questionado sobre quantos dias lhe restavam, “provavelmente um número de um só dígito”.

Como se “tivesse sido atingido por uma corrente eléctrica”, deambulou sem nexo pela casa, fechando cortinas, verificando as trancas das janelas, incapaz de explicar o que lhe estava a acontecer.

Naquele Dia dos Namorados, a crise no casamento com a romancista americana Marianne Wiggins, foi suspensa e adiado o divórcio inevitável, porque ela o alentou a ser corajoso.

Não desistiu, por exemplo, de dar uma entrevista à CBS anteriormente marcada, nem de estar presente na homenagem fúnebre ao seu grande amigo, o também escritor Bruce Chatwin.

No entanto, quando saiu de casa, na 41 St. Peter’s Street, onde vivia “há mais de meia década”, teve a certeza que não regressaria tão cedo.

Na entrevista à CBS, na primeira reacção ao que lamentava ser “uma tentativa de apagar o seu passado”, enfurecido com a violência e as injúrias por porte muçulmanos extremistas, Rushdie declarou, com orgulho assumido: “Quem me dera ter escrito um livro mais crítico”.

Mas, o medo criava raízes. Ele temia pela segurança da mãe e da irmã mais nova, que viviam em Carachi, no Paquistão – onde os protestos causaram dezenas de mortos e feridos –, e de outros familiares, mas sobretudo preocupava-o a protecção do filho Zafar, prestes a completar 10 anos e que residia com a mãe, Clarissa, perto de Clissold Park.

Foi para aqui que Rushdie se dirigiu depois das exéquias de Chatwin, na centenária catedral ortodoxa grega de Santa Sofia. À sua espera estava uma patrulha da polícia que o aconselhou a manter-se discreto até que responsáveis políticos e de segurança decidissem o que fazer.

E Foi na casa de Clarissa que ele combinou com o Zafar ligar todas as noites às 19h00 e, se não mãe e filho não estivessem em casa, teriam de deixar mensagens nos gravadores dos telefones – num tempo em que “os termos PC, portátil, telemóvel, Internet, Wi-Fi, SMS e e-mail eram desconhecidos ou muito recentes.”

Voltaire, observa Rushdie em Joseph Anton, recomendava que os escritores vivessem perto de uma fronteira para que, caso irritassem poderosos, pudessem fugir – o que aconteceu ao grande pensador francês do Iluminismo quando importunou um aristocrata e se exilou na Inglaterra durante três anos. Só que, em tempos de “acção extraterritorial”, ninguém está a salvo.

© the-talks.com

A partir de agora, a vida diária de Rushdie seria regida segundo dois conceitos; “Segurança” e “risco”. Ou como ele explica: “o nível de ameaça era geral, mas o risco era específico” e, neste caso, cabia ao , unidade de elite da Polícia Metropolitana, avaliar a gravidade da situação.

Assim, a partir de 15 de Fevereiro de 1989, porque o nível de ameaça era “extremamente sério”, ou seja, “de grau 2”, passou a ser escoltado pelos polícias (ambos voluntários devido aos “imponderáveis”) Stanley Doll e Ben Winters (nomes fictícios). Teria ainda ao seu dispor dois carros (para o caso de um se avariar) e dois motoristas.

Embora se sentisse um prisioneiro a caminho da cadeira eléctrica, os serviços de segurança britânicos não olharam a meios para garantir que os executores de Khomeini não ganhariam o prémio pela execução de Rushdie. Levavam-no, por exemplo, ao cinema, quando a sala já estava escura para que não fosse reconhecido.

Um dia, quando lhe apeteceu ver Zafar, o filho, e Sameen, a irmã mais velha, foi transportado num Jaguar blindado que o impressionou pela estrutura sólida e elevado consumo de combustível. Na descrição, sobressai o prazer de uma conversa com Dennis, um dos condutores. “Sabe qual é o termo técnico para nós, motoristas do Special Branch? (…) É O.F.D.’s (…) Only Fucking Drivers.”

Como advogada, Sameen ofereceu-se para defender o irmão, mas este recusou que ela fosse igualmente vítima da fatwa que via como uma forma de Khomeini arregimentar de novo os fiéis após a derrota humilhante imposta ao Irão pelo Iraque (graças a satélites, fundos e armas dos EUA e Europa) num conflito que causou mais de um milhão de mortes. Rushdie tornou-se “o homem que ninguém amava e muitos odiavam”.

Omid Memarian tinha 14 anos e vivia em Teerão quando Khomeini condenou o escritor que, em 2007, seria condecorado “Sir” pela Rainha de Inglaterra.

“Foi a primeira vez que o ayatollah emitiu uma fatwa contra um escritor”, disse-me numa entrevista por Facebook, o jornalista freelance que colabora com a agência IPS (Inter Press Service), o serviço persa da BBC, os jornais New York Times e Los Angeles Times, entre outras publicações.

“Os livros de Rushdie, antes de Os Versículos Satânicos, eram muito populares no Irão. A primeira reacção entre os leitores foi a de ir à procura das suas obras anteriores, e toda a gente esperava para ver quem iria fazer a primeira tradução para farsi, de modo a encontrar resposta para a questão: ‘porquê uma fatwa por escrever um livro?’”

© washtimes.com

Para Memarian, que teve de fugir do seu país em 2004, depois de ter sido detido numa cela solitária e torturado, de Outubro a Dezembro, por ter publicado artigos em vários jornais favoráveis reformistas, “o incidente” com Rushdie mostrou a muitos compatriotas “a verdadeira natureza do regime islâmico”.

Na mesma altura, ou seja, finda a guerra com o Iraque e na sequência de uma tentativa dos Mujahedin-e Khalq (Combatentes do Povo), principal organização de resistência armada de conquistar o poder, “milhares de dissidentes políticos foram executados nas prisões iranianas.”

A fatwa contra Rushdie, acrescentou Memarian, “foi uma forma de os líderes religiosos no Irão mostrarem que controlam a vida de toda a gente. Foi também um forte sinal de que o sentido criativo e de imaginação de escritores, escultores ou outros não podiam ultrapassar os limites do islão.”

“Recordo-me ainda de que havia uma ânsia enorme para ler o livro de Rushdie em farsi, mas quem podia correr esse risco? Essa pessoa, se a encontrassem, seria acolhida também com outra fatwa de morte. E, no Irão, não falta generosidade para emitir esses éditos absurdos.”

Omid Memarian não tem dúvida de que a sentença decretada por Khomeini “mudou o mundo para Rushdie e mudou a imagem do fundador da República Islâmica para milhões de pessoas – e, ambos os casos, para sempre.”

Nos primeiros dias de “clandestinidade”, Rushdie foi notificado por Stan e Benny de que a sua salvação poderia estar num pedido de desculpas sugerido por Ali Khamenei, na altura Presidente do Irão e futuro sucessor de Khomeini como Supremo Líder. Os polícias aconselharam que ele “deveria fazer qualquer coisa para baixar a temperatura”.

Entregaram-lhe um “texto aprovado” que poderia ser alterado, se “não lhe agradasse o estilo”. Só que, “assiná-lo seria admitir derrota”, e como poderia ele aceitar “abandonar os seus princípios e a defesa do seu livro em troca do apoio e protecção das autoridades britânicas?”

Havia outras vidas em jogo, como a do empresário Roger Cooper, preso na cadeia de Evin, em Teerão, desde 1985, condenado à morte e mais dez anos por espionagem.

Também era preciso resgatar no Líbano 96 reféns, a maioria britânicos e americanos, sequestrados pelo Hezbollah, movimento xiita criado pelos Guardas da Revolução iranianos. “A situação deles é pior do que a sua”, disse Stan a Rushdie, pedindo-lhe que “fizesse a sua parte”.

© Los Angeles Times

Rushdie cedeu. E a sua declaração foi esta: “Como autor de Os Versículos Satânicos, reconheço que os muçulmanos em muitas partes do mundo ficaram genuinamente desgostosos com a publicação do meu romance.”

“Lamento profundamente este desgosto que a publicação causou aos sinceros fiéis do islão. Vivendo nós num mundo de muitas crenças, esta experiência ajudou a lembrar-nos de que temos estar conscientes da sensibilidade dos outros.”

O futuro Comandante da Ordem das Letras e das Artes de França (1999) e membro honorário estrangeiro da Academia Americana das Artes e Letras (2008) interiorizou que se desculpara pela mágoa causada mas não pelo livro.

O “texto subliminar” era: “Sim, devemos estar conscientes das sensibilidades dos outros, mas não devemos render-nos a elas.”

O gesto foi primeiro “rejeitado, depois parcialmente aceite e de novo rejeitado, quer pelos muçulmanos britânicos como pela liderança iraniana”, queixou-se o escritor.

Khomeini, que haveria de morrer, de paragem cardíaca, a 3 de Junho de 1989, manteve-se inflexível: “Mesmo que Salman Rushdie se arrependa e se torne no mais pio dos homens de todos os tempos, é dever de todos os muçulmanos retirarem-lhe tudo o que ele tem, a sua vida, e a sua riqueza, e enviá-lo para o inferno.”

Porque os seus tradutores foram assassinados, livrarias incendiadas e editoras recusaram imprimir a sua obra, Rushdie mostra-se também implacável na crítica aos responsáveis muçulmanos, em particular no Reino Unido.

Para isso, cita a sua irmã Sameen, que os ataca como hipócritas e oportunistas: “Quem é que, exactamente, eles lideravam? Eram líderes sem seguidores.”

“(…) Durante uma geração, a política das minorias étnicas na Grã-Bretanha foi secular e socialista. Era a maneira de as mesquitas controlarem a religião. Os asiáticos britânicos nunca antes se haviam dividido em facções hindus, muçulmanas e sikhs.”

© Murdo Macleod | The Guardian

© Murdo Macleod | The Guardian

O actual presidente da Associação dos Muçulmanos Britânicos, David Rosser-Owen, foi um dos “envolvidos no Rushdie Affair”, como ele designou o processo do escritor de origem indo-paquistanesa num conversa comigo, por Facebook e e-mail.

Na época, ele era apenas membro executivo, mas participou em reuniões com a sua mulher, Bashiera, que trabalhava para a Penguin Books, editora britânica de os Versículos Satânicos; com o seu antecessor, Rasjid Skinner; com Ayman Abdelkader Ahwal, um inglês já falecido, marido da cantora pop francesa Catherine [Aziza] le Forestier, e membro da World Muslim League em Londres.

“Temos de sublinhar, antes de mais, que a histeria à volta da publicação do livro surgiu quase exclusivamente da comunidade oriunda do Paquistão e do Bangladesh”, afirma o Shaikh David.

“Da comunidade árabe e da turca, a única observação foi do defunto Ramazan Güney, que disse: ‘Coisas piores foram escritas em turco por Ziya Gökalp’ [sociólogo, poeta e activista político que ajudou Kemal Atatürk a definir o nacionalismo do país que emergiu do Império Otomano] ou em árabe, por Taha Hossein [um dos mais influentes intelectuais egípcios do movimento modernista].”

Os jornalistas, segundo David, procuravam “comentários de loucos”, mas como as declarações que obtinham “eram demasiado razoáveis”, acabaram por citar apenas Yusuf Islam, o cantor que se chamava Cat Stevens até se converter ao islão.

“Também não houve reacções da parte da comunidade da Malásia e da Indonésia, nem sequer dos cidadãos de origem na África Oriental e Ocidental.”

É certo que, “em Bradford e em Burnley, as comunidades quiseram queimar o livro de Rushdie em público”, admite o Shaikh. “Advertimos contra essas acções, salientando que ninguém as iria compreender; que seriam actos comparáveis à queima de livros na Alemanha dos nazis nos anos 1930; e que seria um ataque ultrajante à liberdade de expressão.”

“Fomos ignorados. Ayman Ahwal chegou a ir lá para os tentar dissuadir. Skinner foi pressionado a participar na fogueira em Breadford, mas conseguiu escapar.”

“Há muitos elementos que precisam ser levados em consideração, porque muitas pessoas, no jornalismo e nas editoras naquela altura pensavam, cinicamente, que enviar um exemplar de Os Versículos Satânicos a Khomeini seria uma forma de ganhar notoriedade e vender mais livros”, lastima-se David, evocando um episódio antigo para justificar o seu raciocínio.

© USA Today

“Em 1970”, conta, Auberon Waugh [escritor e jornalista britânico] publicou no semanário The Sunday Times um artigo jocoso, na realidade, bastante engraçado como a maioria dos seus textos, no qual chamava ‘apanhadores de Alá’ às shalwar, as calças largas usadas pelos turcos no passado e pelos paquistaneses na actualidade.”

“Isso gerou uma tumultuosa manifestação de cerca de 250 muçulmanos junto à sede da News International em Londres onde foram queimados exemplares do Times.”

“Foi exigido aos governos muçulmanos que boicotassem o jornal, que expulsassem os correspondentes do Times em países de maioria muçulmana e um pedido de desculpas, na primeira página, por Waugh ter ‘insultado e difamado o Islão’.”

“Ainda mais surpreendente, uma multidão enfurecida incendiou a biblioteca do British Council em Rawalpindi. Waugh foi despedido do Times – algo que os manifestantes nunca reclamaram.”

Estes “250 muçulmanos” eram todos paquistaneses, realça David, que fazia a reportagem para o entretanto extinto Maida Vale and Bayswater News.

“Isto é relevante, porque, depois daquela manifestação e do incêndio em Rawalpindi, subiram as vendas dos exemplares antigos que continham o artigo de Waugh e, durante algum tempo, a tiragem dos jornais The Times e The Sunday Times atingiram números recorde. A lição a tirar é que chatear os paquistaneses dá lucro.

A esta conclusão se chegou também em 1989, quando uma cópia de Os Versículos Satânicos foi enviada a Khomeini pela própria Penguin Books.

E o representante da Penguin na Índia, um sikh, alertou contra a publicação do livro, quando o manuscrito ainda estava a ser revisto pela editora, porque iria provocar uma convulsão no subcontinente.”

David Rosser-Owen não esconde a antipatia por Rushdie: “É uma pessoa arrogante e bastante desagradável, que não é o típico paquistanês, quer no Reino Unido como na América. Ele provém de uma classe social bastante superior e, além disso, foi educado na Rugby School e na Universidade Cambridge.”

“Conheço muito bem alguns dos membros da sua extensa família. Um dos seus primos em primeiro grau é a filha de um general do Exército Indiano Britânico (mais tarde o Exército Paquistanês), por exemplo.”

“A locutora da BBC Mishal Husain é uma prima distante. Por isso, a dedução que, devido ao seu livro Os Versículos Satânicos, ele tem vivido um pesadelo não é credível.”

© Penguin Books Australia

O presidente da Associação dos Muçulmanos Britânicos nota que, em Os Filhos da Meia-Noite, já adaptado ao cinema e com estreia para breve, Rushdie “enfureceu os indianos”, com o retrato peculiar da sua cultura, e com Shame, “irritou os paquistaneses”, numa sátira aos generais do país.

Sendo que estas duas obras “antecederam Os Versículos Satânicos, em cinco ou mais anos”, David conclui que, “obviamente, Rushdie procura atrair notoriedade com os seus livros.”

Inquirido sobre se leu o livro que instigou a ira de Khomeini, o Shaikh britânico assegura: “Sim, eu li! Foi uma tarefa extremamente árdua, porque está muito mal escrito. Acho que o editor o devia ter devolvido para ser reescrito. Contudo, porque Os Filhos da Meia-Noite havia ganho o Booker Prize, presumo que Rushdie foi tratado com luvas de criança e que fosse qual fosse o lixo da sua autoria tudo seria bem recebido.”

“Um dos polícias que o protegeu disse-me em tom jocoso que a recompensa oferecida por Khomeini teria valido a pena só pelos danos que Rushdie fez à literatura inglesa. Para mim, é lixo literário.”

Ao contrário de Khomeini, porém, David acha que “nem o islão – nem qualquer outra religião – pode ser insultado, seja por Salman Rushdie ou Dan Brown [o autor do Código Da Vinci, criticado pela Igreja Católica]. Aliás, ele “tem quase a certeza” de que Khomeini nem sequer leu Os Versículos Satânicos.

“Porque é uma leitura muito difícil até para os falantes de inglês e, além disso, um chefe de Estado teria outras coisas para fazer. Provavelmente, ter-lhe-ão dado uma sinopse e, como todos sabemos, as sinopses reflectem as opiniões dos burocratas que as redigem – portanto, suponho que a sua fatwa foi emitida a partir disso.”

Quanto ao édito, David dá a sua opinião como muçulmano sunita: “Não seria válido sem um tribunal e um julgamento, fosse o castigo o corte dos pulsos, uma multa ou a pena capital. Em todo o caso, provocar uma rebelião civil é inaceitável em qualquer civilização.”

© Washington Examiner

A explicação em termos de doutrina xiita é-nos dada, por Facebook, por Shaikh Muhammad Amin-Evans, perito na corrente islâmica seguida pela maioria dos iranianos e professor na Queen’s Foundation em Londres, uma faculdade teológica  das congregações Anglicana /Metodista /Reforma Unida.

“O que me foi dado a perceber na fatwa contra Rushdie, por parte dos meus orientadores próximos do ayatollah Khomeini naquele tempo, é que pessoas já ligadas aos protestos foram pedir-lhe uma opinião em abstracto, por exemplo, ‘se um homem faz isto e aquilo, qual é o castigo?’. A resposta foi então aplicada a Rushdie e uma associação privada de ‘caridade’ ofereceu uma recompensa.”

“A jurisprudência xiita”, especificou Amin, “é talvez mais formal na estrutura do que outras escolas islâmicas de pensamento. Estuda-se [no xiismo] o Corão, os hadith [tradições da era de Maomé], História, Direito, Filosofia, Línguas…, para receber o título que lhe permite ser designado por Alim.”

“Depois desse patamar, alguns estudiosos tiram o curso de Dars ak-Kharaj. Os que completam este processo com aprovação dos seus pares e teólogos mais veteranos tornam mujtahids, podendo exprimir, a partir daí, pareceres legais e actuar como juízes.”

“Só um pequeno número de mujtahids é validado pelos seus pares e aceita a responsabilidade de publicar opiniões legais, agindo como guias em assuntos de direito religioso para quem escolha segui-los. Os que são reconhecidos são venerados como Marja al-Taqlid” ou Fonte de Emulação.

Ora, segundo o “Imã Evans”, guia espiritual que também pertence à Associação dos Muçulmanos Britânicos, o ayatollah que derrubou a monarquia e conferiu aos mullahs os poderes temporais que pertenciam aos reis persas, “nunca foi aceite como um jurisconsulto porque os seus estudos avançados tendiam para a espiritualidade, filosofia e política”.

No caso de uma fatwa, esta “requeria um julgamento constitucional, como vários teólogos xiitas repetiram durante o ‘Caso Rushdie’”.

Amin-Evans não revelou se leu Os Versículos Satânicos, mas Daayee Abdullah, outro membro da Associação dos Muçulmanos Britânicos, não hesita em dizer-nos, também por Facebook, que comprou o livro a um colega recém-chegado dos EUA, quando vivia no Cairo em 1987-88, onde uma editora fazia cópias caseiras.

“Gostei da obra e não acho nada que seja um insulto ao islão”, frisou. “Algumas pessoas são demasiado rigorosas na expressão da sua fé. Quando os muçulmanos aceitarem que os hadith não são exactos nem a verdade absoluta, poderemos ter uma visão alternativa dos textos corânicos e acabar com a violência.”

“Ao contrário dos cristãos, em situações semelhantes, os muçulmanos não seguem os padrões mais elevados dos seus ensinamentos religiosos.”

Uma edição ilegal de Os Versículos Satânicos, em persa. A tradução do original, publicado em inglês em 1988, foi feita por uma mulher que assinou sob o pseudónimo de Roshanak Irani – todos os tradutores do livro foram, como o autor, condenados à morte por Khomeini

Omid Safi, professor de Estudos Islâmicos na Universidade da Carolina do Norte (EUA), também nos diz, por e-mail, que leu Os Versículos Satânicos mas achou o livro “muito fraco para os padrões de Salman Rushdie” de quem se considera “um grande admirador”.

Ao contrário de Abdullah, ele achou a obra condenada por Khomeini “deliberadamente insultuosa e ofensiva.” Cita, por exemplo, o facto de Mahound, um dos protagonistas, “ser a forma pejorativa que os cristãos medievais usavam para retratar Maomé como diabo.”

Em Joseph Anton, Rushdie insurge-se com “distorção subtil” do título completo do seu livro. Os Versos Satânicos. Perdeu o inicial “Os” e, com isso, “deixou de ser um romance” para se confundir com Satanic Verses, “versículos realmente satânicos”.

Trata-se de um episódio, fonte de discussão entre teólogos muçulmanos e expurgado do Corão, que terá sido uma tentativa de o demónio convencer Maomé a aceitar três deusas pagãs (al-Lat, al-Uzza e Manat).

Ele resistiu, mantendo-se leal a Deus, embora tivesse mais difícil enfrentar a hostilidade em Meca contra a Umma ou comunidade de crentes que os muçulmanos tentavam formar.

A inspiração, confessa Rushdie, surgiu em 1966, quando ele estudava História em Cambridge. “Aqui estava um paradoxo fascinante: uma teologia essencialmente conservadora que olhava para o passado (…) tornou-se numa ideia revolucionária, porque as pessoas que atraía eram, sobretudo, as que tinham sido marginalizadas pela urbanização – os pobres, a gente da rua. Talvez fosse assim porque o Islão, a nova ideia, era tão ameaçadora para a elite de Meca.”

Omid Safi renega “os demagogos que pretendem ser teólogos e juristas para incitar a populaça a sublevações. Eles fingem que operam segundo a tradição islâmica, mas não se deve dar um pódio aos zelotas e idiotas, muçulmanos ou não.”

“O mais importante a reter é isto: é falsa a dictomia entre islão e liberdade de expressão. Na verdade, isso coloca os muçulmanos ocidentais na posição insustentável de terem de escolher entre a sua fé – que eles prezam – e as suas liberdades políticas – que eles também valorizam.”

Quanto a Rushdie, adoptou os lemas de dois marinheiros. O de James Wait, personagem de O Negro do Narciso, de Joseph Conrad: “Devo viver até morrer”. E “as palavras imortais” de Popeye, que acompanham a sua conta de Twitter: I yam what I yam and that’s all that I yam.

Os amigos e aliados de Salman Rushdie que o ajudaram a sobreviver ao pesadelo da fatwa de Khomeini – todos juntos em Nova Iorque, 2014
© Vanity Fair

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 16 de Setembro de 2012 | This article was originally published by the newspaper PÚBLICO, on September 16, 2012

Pragulic fez dos sem-abrigo guias turísticos

Se quer encontrar uma boa loja de livros em segunda mão, em Praga, Honza, que adora literatura, leva-o lá. E se quer conhecer “a elite da prostituição” da cidade, Karim é o homem certo, porque essa tem sido a sua “profissão”. Ambos dormem nas ruas da capital checa e nenhum recanto escapa à procura de uma guarida. Fazem  parte de um grupo que três estudantes universitários contrataram para um projecto humanitário. (Ler mais | Read more…)

Pragulic - photo 1

Katarina Chalupková, Tereza Jurecková e Ondrej Klugl, os três jovens checos que criaram o projecto Pragulic — combinação das palavras checas “Praga” e “rua”
© PRAGULIC

Com 1,2 milhões de habitantes, Praga tem, segundo estatísticas oficiais, 4000 sem-abrigo, mas Katarina Chalupková assegura que “é difícil saber o número exacto, provavelmente mais elevado [um anterior guia mencionou cerca de 15 mil], porque muitos não querem ser conhecidos e não se registam”.

Katarina, 25 anos, é um dos cérebros do projecto Pragulic — combinação das palavras checas Praga e Rua. Os outros são Tereza Jurecková e Ondrej Klugl, ambos de 23, alunos do programa de pós-graduação em Estudos da Sociedade Civil na Faculdade de Humanidades da Universidade Karlova (ou de Carlos) de Praga.

A ideia nasceu em Março deste ano para concorrer ao Social Impact Awards, prémio instituído na República Checa, Roménia e Áustria para encorajar jovens a resolver problemas sociais. “Foi tudo tão rápido”, explica Katarina, por telefone.

“Discutimos a ideia, fizemos pesquisas no Google em busca de inspiração. Vimos que havia um projecto semelhante em Londres [o Sock Mob] e decidimos concorrer. Ficámos surpreendidos quando nos informaram que ganhámos. Recebemos o prémio em Junho, em Viena e, com os 1500 euros, passámos rapidamente do papel à realidade.”

Até agora, e porque têm recebido apoios externos, “os 1500 euros ainda não foram totalmente gastos”, exulta Katarina, salientando que o projecto dos três amigos, envolvendo já 300 pessoas, incluindo tradutores (de inglês, francês, espanhol, vietnamita e até português) e fotógrafos voluntários, “não é financeiramente exigente e é sustentável a longo prazo”.

As visitas guiadas começaram em 15 de Agosto [de 2012], a um ritmo de cinco por semana. Cada uma dura cerca de duas a três horas, sendo uma efectuada de noite e as restantes durante o dia. O ingresso nestes circuitos custa oito euros por pessoa (50% dos quais é repartido com os sem- abrigo a cada 15 dias). Os estudantes e os idosos beneficiam de um desconto.

O objectivo de Pragulic é também “tentar definir o retrato desta comunidade, mostrar que a maioria deles não está nas ruas por vontade própria — embora estes casos existam —, mas porque diversas circunstâncias os empurraram para a exclusão e a indigência”, explica Katarina, a voz denotando o entusiasmo de quem tem consciência de que pode “marcar a diferença perante a indiferença generalizada”.

E acrescenta: “Queremos ajudar os sem-abrigo a adquirir novos hábitos de trabalho que facilitem a sua procura por um lugar digno na sociedade que eleve a sua auto-estima.”

Katarina, Tereza e Ondrej sabem que as mudanças serão lentas, mas esperam que, com estas visitas guiadas, possam “erradicar os preconceitos e alertar para os problemas que são frequente- mente ignorados”.

Por enquanto, o público-alvo de Pragulic são jovens, sobretudo checos, mas também “começam a aparecer estrangeiros de vários escalões etários, e já notamos que as percepções se começam a alterar. Um sem-abrigo já não é, necessariamente, olhado por todos como um bêbado e maltrapilho”.

“É certo que há sem-abrigo que não se empenham em sair da miséria”, reconhece Katarina, “mas os nossos — para já, são sete, havendo mais interessados — querem mesmo ser tratados com respeito, e estão determinados a fazer tudo para o conseguir; pode ser difícil mas é possível”.

Ela faz questão de realçar que entre os sem-abrigo “há gente fixe e inteligente — artistas, músicos, bailarinos, pintores… pessoas que sofreram dramas como o divórcio ou o desemprego, marginalizadas pelo sistema mas que precisam de ser aceites”.

Pragulic - photo 2

Honza Badalec, um dos guias que vive sem lar desde 1998. No acompanhamento personalizado a templos e monumentos populares, recônditos restaurantes em caves ou “locais de má fama”, Katarina observa que o que mais toca os turistas é a história pessoal dos sem-abrigo
© PRAGULIC

Honza Badalec, por exemplo, “tem uns 50 anos e adora livros”. Quando passeia com os turistas, “sabe indicar quais as melhores lojas para comprar exemplares raros em segunda mão”, refere Katarina. De um modo geral, ele começa as visitas na principal estação ferroviária de Praga porque foi num dos seus bancos que se tornou homem sem lar em 1998.

De um percurso que inclui, inevitavelmente, alguns dos lugares mais pitorescos de Praga, como a Ponte de Dom Carlos, a igreja neogótica de S. Pedro e S. Paulo ou o cemitério de Viserad, Karim faz questão, por seu turno, de dar as conhecer as ruas onde desde os seus 17 anos (tem 40) se dedicou à prostituição para sobreviver. E, no centro da cidade, ele chama a atenção para os indivíduos de 50 e 60 anos que se prostituem, mas também crianças apanhadas no tráfico sexual.

No acompanhamento personalizado a templos e monumentos populares, recônditos restaurantes em caves ou “locais de má fama”, Katarina observa que o que mais toca os turistas é a história pessoal dos sem-abrigo que os guiam.

E, para que estes (previamente seleccionados junto das instituições que os ajudam) sejam bem-sucedidos, Pragulic dá- lhes “uma formação profissional de quatro semanas que se centra na motivação pessoal e no espírito de entreajuda”.

Entre as qualidades que os três estudantes checos procuram nos sem-abrigo que contratam, estão as de “serem sérios e disciplinados, sociáveis e capazes de falar perante desconhecidos e, também, terem uma experiência de vida inspiradora que possa ser partilhada”, explicou-nos Katarina. “Queremos estabelecer um relacionamento de longo prazo e é nosso propósito poder recrutar outros no futuro.”

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Um dos primeiros guias de Pragulic era José, que vive nas ruas desde os 18 anos. Estudava Fotografia nos tempos do regime comunista. Em 1987, durante um protesto estudantil, foi condenado a oito anos de trabalhos forçados
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Um dos primeiros guias de Pragulic chama-se José e vive nas ruas desde os 18 anos. Já não colabora com o projecto, esclareceu Katarina, sem mencionar as razões da ruptura.

Ainda assim, vale a pena recordar o que ele contou à Rádio Praga: “O que eu gosto de mostrar aos turistas é a vida nocturna dos que procuram qualquer coisa para viver. Quando procuram, seja através do pequeno furto ou da recolha de papel, preferem a noite porque a noite os pode esconder.

À noite, há muita gente embriagada o que atrai o roubo. Perguntamo-nos: ‘Por que é que os sem-abrigo roubam?’ Eles fazem isso porque precisam de se manter vi- vos; ninguém lhes dá comida e ninguém lhes diz: ‘Vem dormir a minha casa’.”

José costumava iniciar os passeios pela Praça de Carlos, no centro de Praga. “Porquê? Porque eu vinha aqui com os meus colegas quando estudava Fotografia, nos tempos do regime comunista. Embora a polícia nos expulsasse, foi sempre um sítio especial para nós.”

“Do ponto de vista histórico, também, porque a chamada Nova Praga começou aqui, a Nova Cidade”, adianta.

“Parece estranho, mas ainda podemos ver uma árvore plantada por Carlos IV [imperador romano e rei da Boémia] no século XIII. Ele [que foi o artífice da expansão desta capital] terá plantado aproximadamente 20 a 30 árvores em Praga e arredores. Duas ou três ainda se mantêm de pé; as outras estão em Kampa.”

A razão por que José, filho de um estudante peruano que se mudou para a antiga Checoslováquia, começava o percurso turístico na Praça de Carlos era, revelou à Rádio Praga, porque ali também se situa o edifício do tribunal onde, em 1987, durante um protesto estudantil, foi condenado a oito anos de trabalhos forçados (apenas dois concluídos).

“Era incrível como as coisas aconteciam por estes lados, durante o período em que o país era um satélite da União Soviética”, evocou José. “Devo ter sido o único tipo de pele morena a ser sentenciado por conspirar contra a república.”

Era incrível como as coisas aconteciam por estes lados, durante o período em que o país era um satélite da União Soviética”, evocou José. “Devo ter sido o único tipo de pele morena a ser sentenciado por conspirar contra a república.”

José ainda se lastima: “É certo que vemos muitos sem-abrigo, alcoolizados e com uma garrafa de vinho à sua beira, mas também há pessoas deambulando pelas ruas apenas procurando um emprego. O Estado admite que temos direitos, porque estudámos, mas que podemos fazer com 50 ou 55 anos?”

“A Segurança Social não funciona: não tem fundos e quem a dirige não é competente. Há algumas associações de caridade, como o Exército de Salvação, mas não acredito que a situação vá melhorar.”

Com as reservas de turistas a aumentar e sem tempo para férias, porque dividem o tempo entre Pragulic e os estudos, Katarina, Tereza e Ondrej recusam o pessimismo de José. Diz a primeira: “Se uma pessoa ouvir as histórias dos sem-abrigo, talvez mude de opinião e passe a palavra a outra e, assim, talvez possamos mudar mentalidades.”

De um percurso que inclui, inevitavelmente, alguns dos lugares mais pitorescos de Praga, como a Ponte de Dom Carlos, a igreja neogótica de S. Pedro e S. Paulo ou o cemitério de Viserad, Karim faz questão, por seu turno, de dar as conhecer as ruas onde desde os seus 17 anos (tem 40) se dedicou à prostituição para sobreviver. @Pragulic

De um percurso que inclui, inevitavelmente, alguns dos lugares mais pitorescos de Praga, como a Ponte de Dom Carlos, a igreja neogótica de S. Pedro e S. Paulo ou o cemitério de Viserad, Karim faz questão de dar as conhecer as ruas onde desde os seus 17 anos (tem 40) se dedicou à prostituição para sobreviver
© PRAGULIC

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 16 Setembro 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 16, 2012

O Egipto não esconde o véu e quer mostrar a barba

Os egípcios estão confusos quanto ao rumo do país desde a queda de Mubarak. Receiam uma islamização, mas ainda confiam na “revolução inacabada”. Parecem aceitar que este é o tempo de a Irmandade Muçulmana brilhar – para o bem e para o mal. (Ler mais | Read more…)

Em Março de 2012, um grupo de polícias barbudos participou, pela primeira vez, numa manifestação, no Cairo, contestando a ordem do ministro egípcio do Interior, Ahmed Gamal el-Din, para que voltassem a usar a lâmina
@ Amr Nabil | AP Photo

Shahira Amin olhou para o “rosto da nação” – a televisão estatal egípcia – e não o reconheceu. [Em Setembro de 2012] nos écrãs do Canal 1 apareceu, pela primeira vez em décadas, uma locutora envergando um hijab.

Fatma Nabil apresentou o noticiário das 16h00 com o cabelo oculto por um lenço que realçava a sua face luminosamente maquilhada.

Se alguns se sobressaltaram com esta imagem, temendo uma acelerada islamização do país, a correspondente da CNN no Cairo ficou sossegada: “É uma questão de liberdade pessoal, e esta é uma conquista da revolução, inimaginável há pouco tempo”, diz-me Shahira.

A proibição de as mulheres lerem as notícias com hijab não constava de qualquer lei, mas era, aparentemente, uma directriz de Suzanne Mubarak, a mulher do “ditador suave” derrubado em 2011 que pretenderia, deste modo, promover um Egipto secular.

O impacto do gesto de Fatma Nabil, possível depois de os directores da estação terem acatado uma ordem judicial, foi ainda mais significativo do que o de Shahira Amin quando, a 3 de Fevereiro do ano passado, se demitiu da também oficial Nile TV, no auge dos protestos na Praça Tahrir, no Cairo.

Num diálogo por Facebook, Shahira Amin recorda-nos o que muito contribuiu para ser uma das jornalistas egípcias mais populares e influentes – foi ela, por exemplo, quem denunciou os testes de virgindade impostos pelos militares às mulheres nas prisões.

“A polícia irrompera com camelos contra uma multidão em Tahrir”, contou. “Quando me deram o boletim noticioso para ler não havia qualquer referência ao que eu tinha visto na estação Al-Arabiya. A minha directora, depois de questionada, explicou que havia instruções para omitir o que se passara.”

“Disse-lhe que tínhamos de contar ao mundo o que o país estava a viver. Os revolucionários eram vilipendiados como rufias e mercenários ao serviço de agentes estrangeiros.”

“Fui ordenada a fazer cobertura apenas dos comícios favoráveis a Hosni Mubarak; para os da oposição não me forneciam câmaras”, adiantou. “Recusei e fui para Tahrir de onde saí só quando terminaram os protestos. Estaria a arriscar a minha credibilidade se me tivesse mantido no cargo.”

“Ao demitir-me, não imaginei que saltaria para as primeiras páginas. Esperava que outros colegas seguissem o meu exemplo, mas não o fizeram. Não os julgo. Quando se vive sob repressão durante tantos anos desenvolvemos um medo interior, e era difícil desafiar a censura.”

Com a chegada da Irmandade Muçulmana ao poder, Fatma Nabil apresentou, pela primeira vez, o noticiário com o cabelo oculto por um lenço que realçava a sua face luminosamente maquilhada – o hijab na televisão estatal tinha sido proibido pela ex-primeira dama Susanne Mubarak
© The Independent

Shahira Amin assegura que “nunca os media foram tão livres e diversificados” como desde que a outrora ilegalizada Irmandade Muçulmana (Ikhwan al-Muslimun) ganhou as eleições parlamentares e a segunda volta das presidenciais: “Não há qualquer pressão sobre as locutoras para usarem o véu islâmico, e não estou preocupada com uma “ikhwanização” dos meios de comunicação social.”

“Um canal televisivo foi recentemente suspenso porque incitou à morte do Presidente, Mohamed Morsi [entretanto afastado do poder, por ordem do Exército, chefiado pelo poderoso general Abdel Fattah al-Sisi, julgado e condenado, à morte e a prisão perpétua, em processos judiciais separados], o que não é aceitável em nenhum Estado democrático.”

“Um jornal foi confiscado porque apelou, em manchete, a um golpe contra a Irmandade, o que foi considerado estímulo à rebelião e, talvez, à guerra civil. Morsi usou os seus poderes legislativos para impedir a detenção de jornalistas antes de serem julgados. Isto tranquiliza-me.”

Vale a pena enunciar a sequência de acontecimentos a que Shahira Amin se refere porque explica a reviravolta histórica que Morsi protagonizou, no dia 12 de Agosto, ao forçar a passagem à reserva do temível ministro da Defesa, marechal Hussein Tantatwi, e do chefe de Estado-Maior do Exército, Sami Anan.

Nas primeiras semanas da sua presidência, depois de ter derrotado o candidato favorito dos militares, general Ahmad Shafiq, o homem que foi a segunda escolha da Irmandade quando o omnipotente Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA) chumbou o “número um” da Irmandade, Khairat Al-Shater, evitou confrontar a instituição militar, demonstrando inclusive uma certa reverência para conquistar confiança.

Neste período, porém, Morsi foi também pesando os vários equilíbrios de poder entre as forças de segurança, conseguindo identificar quem era e não era leal a Tantawi e a Anan, segundo uma investigação de Esam Al-Amin, publicada pelo site Counterpunch.

Tudo se precipitou quando, a 5 de Agosto, em pleno Ramadão, dezenas de combatentes atacaram um checkpoint na Península do Sinai, fronteiriça com a Faixa de Gaza, numa altura em que soldados quebravam o jejum requerido pela data mais sagrada do calendário islâmico.

Mataram 16 e feriram sete. Morsi aproveitou imediatamente “a oportunidade” para demonstrar que não era, como o denegriam, um Presidente fraco.

No dia 8, demitiu o chefe da espionagem militar, Murad Muwafi. Também afastou os responsáveis pela polícia militar e pela força de segurança do Cairo, ambos membros do CSFA, substituindo-os por oficiais fiéis.

Tendo em conta a mortandade no Sinai, território que o tratado de paz com Israel deixou num limbo de segurança habitado por beduínos beligerantes e cobiçado por jihadistas fanáticos, Tantawi teve de aceitar as decisões de Morsi, que não parou aqui.

Na manhã de 12 de Agosto, o Presidente mandou chamar ao seu gabinete Abdel Fattah al-Sisi, 57 anos, que era chefe da espionagem militar, e Sedki Sobhi, 55 anos, chefe do 3º Exército. Os dois pertencem ao CSFA, mas também eram críticos de Tantawi, 76 anos, e de Anan, 74, por estes terem envolvido os militares na cena política.

13 de Agosto de 2012: Abdel-Fattah el-Sisi (à esquerda) é recebido pelo Presidente Mohamed Morsi, que o promoveu a ministro da Defesa. Foi uma aliança de curta duração, porque o general rapidamente destituiu e mandou prender o sucessor de Hosni Mubarak, aspirando aa ocupar o seu lugar. @ AP | Egyptian Presidency

13 Agosto de 2012: Abdel-Fattah El Sisi (esq.) é recebido pelo presidente Mohamed Morsi, que o promoveu a ministro da Defesa. Foi uma aliança de curta duração, porque o general rapidamente destituiu e mandou prender o sucessor de Hosni Mubarak, ocupando o seu lugar
© Associated Press

Morsi promoveu Sisi e Sobhi a generais e ofereceu-lhes, respectivamente, os cargos de ministro da Defesa e chefe de Estado-Maior. Eles aceitaram e tomaram posse, logo ali, na presença de Morsi, do primeiro-ministro e de outros conselheiros presidenciais.

À tarde, Tantawi e Anan foram convocados para uma audiência com Morsi. Segundo o relato de Esam Al-Amin, ele agradeceu-lhes os serviços prestados e informou-os que tinham sido afastados dos seus postos e já tinham sucessores.

Num gesto de conciliação, deu a entender que não seriam julgados nem humilhados pelas suas acções violentas durante o regime de Mubarak e no período de transição. Foi ainda mais longe ao nomeá-los consultores e condecorá-los com a mais alta distinção nacional, o Colar do Nilo e da República.

O passo seguinte foi anular uma emenda constitucional que o CSFA impusera, atribuindo-se muitos poderes presidenciais e legislativos. Na ausência do Parlamento, também dissolvido pelos militares, Morsi ficou com todas as prerrogativas.

Nomeou depois para vice-presidente Mahmoud Mekki, um jurista com reputação de independência e seriedade, para servir de contrapeso a outros juízes ligados ao antecessor destituído que pudessem contestar as suas deliberações.

Imparável, Morsi afastou ainda os chefes da Marinha, da Força Aérea e da Defesa Aérea, colocando-os como administradores civis em companhias como a que gere o Canal do Suez.

As acções de Morsi foram elogiadas pela maioria dos egípcios, mas esta popularidade incomodou os adversários. Primeiro, fóruns na Internet convocaram uma manifestação para 24 de Agosto, “contra o poder da Irmandade”.

Havia até apelos a que fossem atacadas as sedes da Ikhwan por todo o país. Um antigo deputado, Mohamed Abou Hamed, não se limitou a exortar a uma “marcha de um milhão”, mas encorajou uma “verdadeira revolução”, semelhante à de 25 de Janeiro de 2011 que conduziu à queda de Hosni Mubarak.

A 15 de Julho, Tantawi deixara o aviso de que os militares nunca aceitariam que “uma facção” governasse o Egipto. Esta declaração pública foi interpretada como uma advertência clara contra o domínio da Irmandade e um sinal de que figuras proeminentes do Exército estavam a angariar apoios em vários sectores para um golpe contra a Ikhwan.

Depois da eleição de Mohamed Morsi, por todo o Egipto os homens mais devotos começaram a exigir liberdade de usar barba onde antes era interdito, por lei ou tradição
© voanews.com

Numa das manchetes do Al-Dostour, o jornal confiscado, lia-se: “Não poderemos defender o Egipto de uma anunciada destruição sem a unidade do Exército e do povo, sem uma frente de salvação nacional, que consista em líderes políticos e militares, e sem a criação de um Estado inequivocamente civil com protecção militar, exactamente segundo o sistema turco.”

“Se isto não acontecer nos próximos dias, o Egipto entrará em colapso e lamentaremos ter desperdiçado os dias que nos restam antes de aprovar uma nova Constituição. Protestos populares pacíficos são imperativos e um dever nacional.”

Ora, tudo isto foi subentendido como um plano de alguns membros do CSFA para invalidar a presidência de Morsi. O marechal Tantatwi, por exemplo, teria recusado estar presente em reuniões marcadas pelo primeiro-ministro, Hesham Qandil, para não ter de prestar contas a um líder civil.

Por isso, Shahira Amin insiste em dar o benefício da dúvida ao primeiro presidente eleito. Até agora, pelo menos, não foi coagida pela sua condenação implacável das novas autoridades, designadamente, por estas defenderem que a mutilação genital feminina deve ser interdita até aos 8 anos mas legalizada a partir da puberdade.

“Sob o antigo regime, fui ameaçada várias vezes pela segurança de Estado,” contou a premiada jornalista, que é também correspondente da agência russa Novosti, e colunista do Daily News Egypt.

“A pior situação foi em 2006, quando fiz uma reportagem sobre refugiados sudaneses massacrados pelas forças de segurança. Apareceu-me um tipo destes serviços que me disse: “‘Tudo o que é noticiado no país pode ser usado pelo povo para exprimir a sua fúria, e a repórter pode desaparecer da face da terra, ficou bem claro?'”

“Durante meses, afastei-me da política, mas depois pensei, ‘se és jornalista tens de cobrir todas as histórias’, e retomei o que fazia.”, adiantou. “Quando me demiti, o Governo colocou o meu nome numa lista de pessoas proibidas de deixar o país. Ameaçaram incendiar a minha casa e alvejar-me a tiro. Felizmente, para mim, Mubarak caiu e tudo mudou. O medo desapareceu. Já não podem fazer isto.”

Com Morsi, começou a haver “receios de se estar a caminhar, lentamente, para um totalitarismo conservador islâmico“, segundo o analista Osama Diab
© egyptianstreets.com

A opinião de Shahira Amin não difere muito da do académico egípcio Adel Iskandar, professor na Universidade de Georgetown (EUA) [o seu livro mais recente é “Egypt in Flux: Essays on an Unfinished Revolution”], embora ele se mostre mais prudente. O véu de Fatma Nabil não o perturbou.

“De um modo geral”, disse-me numa entrevista por e-mail, “é justo assumir que qualquer lei ou regulamento proibindo as mulheres de aparecerem na televisão devido à sua indumentária ou aparência é, em si só, uma discriminação, seja porque estão vestidas de mais ou de menos.”

“No caso da TV estatal egípcia, impedir que as mulheres lessem as notícias com o lenço tornou-se problemático, em parte porque a maioria das mulheres no país usa de facto o véu e, portanto, as locutoras não representavam o padrão da sociedade.”

Iskandar, especialista em media e autor da primeira grande obra de referência sobre um dos maiores fenómenos televisivos no Médio Oriente (Al-Jazeera: The Story of the Network that is Rattling Governments and Redefining Modern Journalism), comparou o que se passava na televisão egípcia com o que acontecia nos anos de 1980 e 1990 em alguns países da América do Sul.

“Exigiam locutores de ascendência europeia, sobretudo nos países com uma substancial população aborígene, negra ou de qualquer outra etnia.”

“Ver uma mulher com véu a ler as notícias foi um acontecimento monumental no Egipto, até porque representa a vitória das funcionárias da televisão que há muito travavam uma prolongada batalha judicial”, salientou Iskandar.

“Os que estão preocupados com os símbolos religiosos e a sua imposição na vida pública não deixam de ter razão, mas este caso particular não deve ser transformado num campo de batalha porque não parece, ainda, ser uma tendência e é, predominantemente, uma questão de escolha pessoal.”

“Uma vitória para a liberdade de expressão” é também o parecer de Osama Diab, jornalista egípcio independente que colaborou recentemente com a BBC numa investigação sobre a fortuna da família Mubarak congelada no Reino Unido – um escândalo que está a abalar o Governo britânico que tem, supostamente, dificultado a devolução desses fundos.

“As mulheres só apareciam de véu em programas religiosos”, referiu Diab, em declarações por e-mail. Quero pensar que, tal como permitir que os polícias usem barba, não é uma tentativa de islamizar gradualmente os media e as instituições do Estado; que não é uma nova forma de opressão para com quem não é muçulmano. Só retrospectivamente, porém, isso poderá ser avaliado.”

O primeiro canal de televisão por satélite, no Egipto, operado totalmente por mulheres usando o niqab (que cobre todo o rosto e corpo) foi inaugurado em 20 de Julho de 2012. A data coincidiu com o primeiro dia do mês sagrado islâmico (de jejum) do Ramadão. A estação - onde não homens não seriam admitidos - deveria chamar-se Maria. seria uma "homenagem" a um cristã copta que o profeta dos muçulmanos libertou da escravatura e com quem se casou. @ Al-Ahram

O primeiro canal de televisão por satélite, no Egipto, operado totalmente por mulheres usando o niqab (que cobre todo o rosto e corpo) foi inaugurado em 20 de Julho de 2012.  A estação – onde não homens não são admitidos – chama-se Maria, “homenagem” a uma antiga escrava cristã copta com quem o profeta dos muçulmanos se casou
© Al-Ahram

Sim, como os véus, as barbas têm sido foco de tensão. Na terça-feira, 4 de Setembro [2012], um grupo de polícias barbudos participou, pela primeira vez, numa manifestação, contestando a ordem do ministro do Interior, Ahmed Gamal el-Din, para que voltem a usar a lâmina.

“Ninguém nos impedirá de seguir a orientação do nosso profeta [Maomé] e as pessoas irão ver-nos, com a ajuda de Deus, no meio delas, nas ruas do nosso querido Egipto, no nosso uniforme da Polícia, com as barbas que temos”, proclama uma página do Facebook que foi traduzida pelo site AllAfrica como “Sou um polícia com barba”.

As leis egípcias exigem que os polícias e soldados tenham uma “aparência apresentável” e sucessivos governos entendem isso como “cara bem barbeada”.

A manifestação seguiu-se a um veredicto do Tribunal Administrativo do Cairo que deu razão ao ministro, irredutível na proibição das barbas e na suspensão dos agentes infractores. Para muitos teólogos, segundo o jornal Egypt Independent, a barba é sinal do compromisso do homem para com a sua fé, mas a Polícia e o Exército não admitem barbas e cabelos compridos.

Os polícias que recusaram barbear-se haviam instaurado um processo judicial contra o processo disciplinar interposto pelo ministro, acusando-o de “violação da liberdade individual e da Shariah”, a lei islâmica que é uma das principais bases da Constituição de 1971, ainda em vigor. As duas partes podem ainda recorrer ao Supremo Tribunal Administrativo.

É significativo o braço-de-ferro entre polícias e ministro porque Gamal el-Din, 59 anos, é um oficial de carreira escolhido por Morsi para levar a cabo uma das mais urgentes e difíceis tarefas da sua presidência: a reforma do que foi, durante 30 anos, um dos principais pilares do aparelho de repressão de Mubarak.

Como constatou Yasmine Saleh, da agência Reuters, “o Ministério do Interior no Cairo, uma espécie de fortaleza cercada por torres de vigia, simbolizou o poder, o privilégio e o secretismo da Polícia.

Muitos fundos foram atribuídos a esta força, que esmagou a rebelião islamista nos anos 1990 e cujo orçamento era superior aos dos ministérios da Educação e da Saúde em conjunto. Para o biénio 2012-2013, tem à sua disposição o equivalente a 2800 milhões de dólares.”

A antipatia da Polícia para com Morsi ficou evidente no dia em que prestou juramento quando alguns agentes comentaram aos repórteres, sob condição de anonimato: “Ele não é o nosso presidente; como é que alguém que nós prendemos pode mandar em nós?”

Mais do que o Exército foi a Polícia que acabou por se tornar num dos rastilhos da sublevação de 2011 quando o activista Khaled Said foi morto enquanto detido numa esquadra. Foi também a Polícia que usou gás lacrimogéneo e munições reais para dispersar os manifestantes anti-Mubarak em Tahrir.

Morsi garante estar determinado a eliminar os vestígios malignos da “velha ordem” e a superar o vazio de segurança que se instalou no país, com um aumento da criminalidade, agora que é mais difícil corromper os polícias.

Familiares de membros da Irmandade Muçulmana reagem em choque depois de saberem que eles foram condenados à morte pelo tribunal, em 28 Abril de 2014
© Mohamed Abd El Ghany | Reuters | TIME

O facto de o barbudo Morsi não ter sucumbido à tentação de ceder às exigências dos polícias mais devotos animou Shahira Amin, que não é mulher de ostentar símbolos religiosos em público e foi encorajada pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, a regressar à Nile TV (“só aceitei voltar na condição de não interferirem com o meu trabalho”).

Tornou-se produtora e anfitriã de um programa de entrevistas, mantendo a sua colaboração com a CNN. “Nunca ninguém me forçará a usar o hijab, e não há sinais de que isso possa acontecer, mas caso venha a ser obrigatório, eu não o usarei.”

Fatma Nabil não é a única que apresenta os noticiários com a cabeça coberta. Outras quatro locutoras que há muito reclamavam este direito em tribunal, algumas das quais depois de terem sido despedidas, aparecem agora frequentemente na televisão estatal.

“Eu apoio esta decisão porque representa o fim da discriminação”, frisa a jornalista que ficou sob fogo cerrado depois de ter entrevistado o soldado israelita Gilad Shalit quando este foi libertado pela ala militar do movimento palestiniano Hamas.

“Suportei as mais duras críticas mas depois pediram-me desculpa e reconheceram que não fui desumana [embora tenha concordado em fazer as perguntas na presença dos raptores. o que condicionava as respostas].”

Mais dificuldade tem Shahira Amin em entender a abertura, em Julho, durante o Ramadão, de um canal só para mulheres com niqab, o lenço que até os olhos esconde.

“Num país democrático encontramos todas as tendências, e todos são livres de se exprimirem da forma que quiserem mas, neste particular, creio que seria preferível que elas tivessem lançado uma estação de rádio – afinal, ninguém jamais as poderá ver, qual é o propósito?”

Nada abala o optimismo de Shahira Amin: “Acredito que as coisas vão melhorar. Já conseguimos tanto embora falte muito caminho para percorrer. Elegemos um presidente civil que substituiu uma ditadura militar. É um presidente que podemos desafiar e a quem podemos pedir contas. Somos livres de protestar e exprimir as nossas reivindicações.”

Cairo, 3 Julho de 2014: Manifestação de apoiantes de Morsi contra a sua destituição. Os Irmãos Muçulmanos que tinham desistido da dissidência quando a revolução de 2011 derrubou Mubarak, voltaram às rua exigindo o poder que lhes foi usurpado
© Khaled Kamel | media.pri.org

O jovem Osama Diab, um dos autores de The Chronikler, galardoado pela Deutsche Welle com o Prémio do Melhor Blogue em Língua Inglesa 2012, é mais cauteloso, nas suas declarações: “Os poderes que Morsi detém na ausência de uma Constituição e de um novo Parlamento são mais do que os de Mubarak. A única diferença é que Morsi foi eleito e goza de algum apoio popular.”

“Ele foi rápido a usar esses poderes, inesperadamente, para fortalecer o seu controlo sobre todas as instituições, dos militares aos media”, observou Diab.

Tal como tudo no Egipto, nada é preto e branco do ponto de vista da democracia. Isto pode ser considerado o triunfo de um poder civil eleito mas, ao mesmo tempo, há receios de que possamos estar a caminhar, lentamente, para um totalitarismo conservador islâmico.”

“Quanto ao que resta do regime de Mubarak, uma parte é apenas constituída por grupos de interesses corruptos sem pendor ideológico”, analisou Diab.

“Muitos deles acorreram a aproximar-se dos novos líderes. Alguns empresários que estavam ligados a Mubarak, como o bilionário Mohamed Farid Khamis, acompanharam Morsi na sua recente viagem à China. A outra parte, que conseguiu escapar à prisão, irá facilmente integrar-se também na nova ordem da Irmandade.”

Adel Iskandar, o professor em Georgetown, não tem, por seu turno, qualquer dúvida de que “o Estado no Egipto está a ser “ikhwanizado”, embora isso não fosse totalmente imprevisível dado o sucesso extraordinário da Irmandade em todas as etapas eleitorais nos últimos 20 meses.”

E acrescentou: “É muito natural, em qualquer parte do mundo, que um partido que consolidou poder em eleições tente nomear figuras que lhe são leais para cargos importantes no Governo e no Estado. Por isso, é saudável que não critiquemos o que é típico num processo político.”

“É, todavia, legítima a preocupação quanto à ideologia e doutrina da Irmandade – ambas secretas e opacas; e também quanto à sua restrita hierarquia institucional. Isto é, fundamentalmente, problemático e não é um bom augúrio num contexto pós-revolucionário que deve ser centrado na garantia de transparência.”

O afastamento de Tantawi e de Anan, e a sua substituição por oficiais de uma geração mais jovem e ambiciosa, uns próximos da Ikhwan outros porque, talvez, odiassem o antigo titular da Defesa mais do que Morsi, têm gerado conjecturas sobre a natureza dos laços entre os Irmãos e os generais.

“Creio que a relação entre o Exército e a Irmandade é agora de um benefício mútuo simbiótico”, observou Iskandar.

“Não serve a nenhuma das instituições a disputa de poder e controlo, por isso, ambas decidiram colaborar em vez de se confrontarem. Acredito também que esta relação foi forjada com o entendimento de que cada uma exerce a sua autoridade e domínio sobre determinados aspectos do Estado, e que ninguém anda a pisar os calcanhares dos outros.”

“Não prevejo qualquer rivalidade conflituosa entre os militares e os Irmãos, excepto se Morsi e os seus tentarem ‘ikhwanizar’ o Exército e o seu vasto poder económico.”

Cerca de 800 pessoas foram mortas na praça de Rabaa, no Cairo, num massacre ordenado pelo general El Sisi. “O colapso das forças de segurança [em 2011] colocou o Exército na posição insustentável de ou intervir para deixar o regime intacto, ou optar pela decapitação do regime [de Mubarak], a opção final”, diz o analista Hussein Ibish
© Mosa’ab Elshamy | TIME

Sobre esta questão, Osama Diab constatou: “Desde a revolução de 1952 [que levou os Oficiais Livres de Gamal Abdel Nasser a pôr fim à monarquia], as forças de segurança revelaram-se sempre capazes de, rapidamente, demonstrar lealdade para quem está no poder. Havia receios de que isso pudesse não acontecer se o Presidente não proviesse dessas instituições.”

“Muitos duvidavam que um presidente civil fosse capaz de exercer autoridade sobre o “Estado profundo” [o sistema que detinha os privilégios]. Até agora, tudo parece estar a correr bem, sobretudo porque Morsi não levou perante a Justiça os que mataram centenas de manifestantes no último ano e meio, nem prejudicou os seus interesses. Terá sido este o acordo implícito entre o presidente e as forças de segurança.”

Face a uma aparente “coexistência”, têm sido publicados, entretanto, vários ensaios reflectindo sobre o que aconteceu exactamente no Egipto em Janeiro de 2011.

“Não penso que, de facto, tenha havido uma “revolução” – de todo!”, sentenciou Hussein Ibish, académico de origem libanesa e residente nos Estados Unidos, onde é um destacado comentador político e senior fellow na American Task Force on Palestine.

“O que realmente aconteceu durante a queda de Mubarak foi que os manifestantes em Tahrir superaram as forças de segurança em número e na determinação depois de vários dias de confrontos intensos”, diz-me Ibish, numa entrevista por e-mail.

“O colapso das forças de segurança colocou o Exército na posição insustentável de ou intervir para deixar o regime intacto, ou optar pela decapitação do regime, a opção final. Eles [militares] afastaram o presidente, os seus filhos e algumas figuras-chave para salvar as estruturas que restavam do “Estado profundo” e as instituições estabelecidas que governam o Egipto.”

Ibish salvaguarda: “Não quer isto dizer que a mudança foi cosmética, mas foi, efectivamente, mais evolucionária do que revolucionária. Foi uma espécie de transição obtida através de um pacto, sem que os termos acordados por cada uma das partes alguma vez tenham sido clarificados.”

Os egípcios Osama Diab e Adel Iskandar concordam que o termo “revolução” adquiriu “significados múltiplos”.

Diz o primeiro: “Para a esquerda, é a luta pela justiça social e direitos económicos – uma luta que ainda continua; para a Irmandade, a revolução foi mais ou menos os 18 dias de protestos até à queda de Mubarak, porque é convicção da Ikhwan que chegou o seu tempo de poder e já não há necessidade de prosseguir a dissidência.”

“Agora, são os Irmãos quem mais prega a ideia de estabilidade; para os liberais, a revolução parece nunca ter acontecido, e eles começam a encará-la como um golpe contra Mubarak para que a Irmandade ascendesse ao poder.”

Milhares de egípcios protestam junto ao Palácio Presidencial de Qoubba, no Cairo, contra Mohammed Morsi e a Irmandade Muçulmana, em Julho de 2013, antes de o Exército o derrubar
© Getty Images | Mirror Online

Iskandar acrescenta: “O termo “revolução” é extremamente complexo. Há os que lamentam a revolução e a vêem como fonte de todos os seus males por ter conduzido a Ikhwan ao poder; há os que a vêem como um momento efémero de esperança que não mais voltará; e há os que acreditam que a partir do actual Governo irá emergir uma nova república revolucionária que irá preservar a santidade de Tahrir e de tudo o que ela representa.”

“Nenhuma destas visões está correcta e nenhuma está incorrecta”, avalia Iskandar. “Em resumo, o Egipto está num fluxo. E, enquanto a economia permanecer em decadência e declínio, a revolução estará inacabada.”

A situação económica vai ser, tal como a reforma dos serviços de segurança, um dos grandes desafios de Morsi e da Irmandade, que podem ser ideologicamente herméticos mas são ardentes defensores do mercado livre e do capitalismo.

“A Ikhwan está a adoptar um modelo económico insustentável, similar ao de Gamal Mubarak [o filho que Hosni preparava para ser seu sucessor], envolvendo a privatização de indústrias estratégicas e a eliminação de subsídios que têm sido a única forma de milhões de famílias egípcias colocarem comida na mesa”, reprovou Osama Diab.

“Prevê-se que, devido a estas políticas, o Egipto registe um aumento abrupto dos preços dos combustíveis e de produtos básicos que consomem a maior parte do rendimento familiar do cidadão médio”, adiantou o blogger que reparte o seu tempo entre Londres e o Cairo. “Assim sendo, a próxima fase da sublevação já não deverá centrar-se na liberdade mas na economia.”

As receitas do turismo, sector que mais emprega e é talvez a maior fonte de moeda estrangeira do Egipto, caíram cerca de 30% em 2011, para 9 mil milhões de dólares, e a recuperação está a ser muito lenta.

Interessado em manter um “arco sunita” no Médio Oriente que diminua a influência do islão xiita, o Qatar anunciou na sexta-feira a concessão de 18 mil milhões de dólares ao país que permanece “o coração do mundo árabe”.

Os fundos serão concedidos num período de cinco anos, e juntam-se aos cerca de 500 milhões já doados e à promessa de outros 2 mil milhões a ser enviados ao Banco Central.

“O Egipto está num fluxo“, comenta Adel Iskandar. “E, enquanto a economia permanecer em decadência e declínio, a revolução estará inacabada”
© Newsday

Sinal de que a Irmandade deixou de ser um papão é a disponibilidade do Fundo Monetário Internacional (FMI) para negociar um empréstimo que Morsi pediu no valor de 4800 milhões de dólares, que deverá ser aprovado até ao final deste ano.

Também a Administração de Barack Obama não exclui um perdão parcial (mil milhões de dólares) da dívida do Egipto para com os EUA que ultrapassa os 3 mil milhões. Outros créditos e investimentos no valor de centenas de milhões estão igualmente a ser ponderados por companhias norte-americanas.

Ainda que a percepção generalizada seja a de que a Irmandade está a solidificar o seu poder, tem-se assistido nos últimos meses à emergência de novas formações políticas liberais e laicas que esperam destronar o monopólio da Ikhwan nas próximas eleições parlamentares.

Osama Diab está relativamente céptico: A maior parte dos novos partidos ou coligações parecem apostar apenas no sucesso relativo de alguns candidatos presidenciais, como o nasserista Hamdeen Sabahy e o islamista moderado Abdelmoniem Aboul Fotouh, não tendo programas claros nem apoio popular. Ainda que os seus nomes possam constituir um ímpeto inicial, não é suficiente para o êxito a longo prazo de um partido político.”

Segundo Diab, “o único dos partidos recém-criados que tem o potencial de ser um rival sério da Irmandade é o al-Dostour (A Constituição), de Mohamed ElBaradei [antigo director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica], que poderá conquistar um quinto dos deputados nas próximas eleições legislativas.

Também a oposição de esquerda, embora com uma fraca representação no Governo e no Parlamento, continua a manter um certo grau de poder na sociedade civil, no activismo independente e na política de rua.”

Adel Iskandar revelou-se mais optimista: “Considero estes novos partidos não-islamistas uma alternativa viável, e eles podem muito bem captar apoio suficiente para desafiar a Irmandade em eleições futuras. Há, contudo, o receio de que a Ikhwan consiga criar uma situação em que se coloque numa posição injustamente vantajosa em futuros escrutínios.”

“Os processos eleitorais têm de permanecer transparentes para que as pessoas confiem neles”, acrescentou. “Além disso, ficou claro nas anteriores eleições que a terceira corrente – não islamista e não-alinhada com o anterior regime – constitui o maior bloco de votantes no país.”

“Se concorrer unida constituirá uma ameaça significativa ao controlo que a Ikhwan exerce sobre o Governo. Por enquanto, este é o tempo de a Ikhwan brilhar – para o bem e para o mal”.

[Em 2013, Morsi foi derrubado e preso. Em 2019, morreu durante uma audiência em tribunal.]

Shahira Amin

"No caso da TV estatal egípcia, impedir que as mulheres lessem as notícias com o lenço tornou-se problemático, em parte porque a maioria das mulheres no país usa de facto o véu e, portanto, as locutoras não representavam o padrão da sociedade", disse o académico Adel Iskandar. @ Jadaliyya

Adel Iskandar

 "As mulheres só apareciam de véu em programas religiosos", referiu o blogger Osama Diab. "Quero pensar que, tal como permitir que os polícias usem barba, não é uma tentativa de islamizar gradualmente os media e as instituições do Estado." @ Egypt Daily News

Osama Diab

Hussein Ibish

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 9 de Setembro de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on September 9, 2012

Elad Vazana prometeu ao filho que vai mudar o mundo

Um miúdo algemado e um sonho em que se viu criança em Portugal levaram um ex-soldado a unir israelitas e palestinianos num projecto de perdão. Contou-me a história por Skype – e ela aqui está, na primeira pessoa. (Ler mais | Read more)

Elad Vazana com a palestiniana de cidadania israelita Noor Assi e a judia israelita Anat Shuhman, durante um encontro de meditação, em Maio de 2013. © Udi Goren

Elad Vazana com a palestiniana de cidadania israelita Noor Assi e a judia israelita Anat Shuhman, durante um encontro de meditação, em Maio de 2013
© Udi Goren

Aos 18 anos, quando ingressei no Exército israelita, nunca tinha falado com um palestiniano. Na minha cabeça só havia uma certeza: não posso confiar nesta gente porque me querem matar.

Nos três anos de tropa obrigatória, em Gaza e em Rafah, mas também em Ramallah, Nablus, Jenin e outras povoações da Cisjordânia, fui comandante de uma unidade de blindados. Revistava casas, controlava checkpoints, fazia patrulhas, lançava emboscadas, procurava suspeitos e armas…

Era um excelente comandante, mas tinha medo dos árabes. Ninguém gosta de servir nos territórios ocupados. Ficamos mais violentos depois de passarmos por ali. O grau de tensão e pavor é tão elevado que expele o que de mais extremista existe em nós.

Não quero comparar a situação de um menino palestiniano que precisa de atravessar barreiras de estrada todos os dias para poder ir às aulas com a de um soldado, mas acreditem que este também se sente apavorado. Que alguém se faça explodir à sua frente, por exemplo.

Sei o que é a guerra e a ocupação. O momento em que comecei a transformar-me surgiu no decurso de uma operação militar em Jenin. Entrámos num bairro, noite cerrada. Era crucial que ninguém detectasse a nossa presença.

De manhã, recebi uma ordem via rádio para avançar sozinho. Logo me deparei com um rapazito, de uns 10 anos, sentado sobre uma pedra com um livro na mão.

Fiquei sem reacção. Comuniquei com o meu superior: “Está aqui um miúdo, o que devo fazer?” Ele respondeu: “Ata-o, até acabarmos a missão”. Peguei numas algemas de plástico e amarrei as mãos e os pés da criança.

Senti-me muito mal. Ali estava eu, com 20 companheiros a apoiar-me, armado e com colete à prova de balas, todo-poderoso. Por que fiz aquilo? Voltei para trás e libertei-o. Ele olhou para mim, por segundos, e fugiu.

Começámos a ouvir os aldeões a assobiar e a ulular, sinais de aviso de que havia soldados na área. A operação falhou. Não fui detido porque ninguém me denunciou. O mais importante, porém, foi ter despertado para ver humanidade daquela criança.

Dafna Karta Schwartz, a co-directora israelita do Sulha Project, com um dos coordenadores palestinianos, durante uma reunião em Jerusalém, no Verão de 2013. © Udi Goren

Dafna Karta Schwartz, a co-directora israelita do Sulha Project, com um dos coordenadores palestinianos, durante uma reunião em Jerusalém, no Verão de 2013
© Udi Goren

O segundo momento transformativo ocorreu em Maio de 2001, aos 29 anos, quando já dirigia a minha empresa de multimédia e high-tech em Telavive. Sonhei que também era um miúdo, de 8 anos, a caminhar por uma aldeia, pequena e antiga, em Portugal.

Não sei explicar porquê, porque nunca aqui estivera. Foi um sonho de uma só noite, mas intenso. Quis saber mais sobre o país. Li muita coisa e comprei vários CD. Um deles, em particular, Portugal: Music from the Edge of Europe [que inclui Amália Rodrigues, Carlos Paredes, Sérgio Godinho, entre outros], fascinou-me. Gostei muito do fado.

Na mesma altura, conheci um professor de Antropologia que escrevera sobre o meu trisavô, um rabi e curandeiro famoso nas Montanhas Atlas em Marrocos, de onde os meus pais vieram, em 1955, para se fixarem em Israel.

Nasci aqui, em 1972, no subúrbio de Ofakim, lugar onde nós, judeus mizrahim [de origem no Magrebe e Mashreq] éramos mal-encarados como árabes e ensinados a odiar os árabes. O meu antepassado exorcizava demónios e rezava com os muçulmanos.

Senti uma vontade irresistível de conhecer as minhas raízes e ir ao encontro do meu sonho. Precisei de quatro meses para terminar o projecto empresarial, vender a casa e terminar o romance com a namorada. Comprei um bilhete para Málaga, em Espanha, fiz a mala e preparava-me para partir, no dia 11 de Setembro de 2001.

Os atentados nos Estados Unidos adiaram o voo. Não desisti. Cheguei a Málaga e também não consegui visto para Marrocos – a comunidade judaica aqui tem sido protegida, mas depois do 11/9 não era fácil um israelita entrar num país árabe.

Decidi ir para Córdova. Após breve estadia, fui para uma estação rodoviária, hesitante sobre se haveria de seguir para Granada ou para Portugal. Decidi que apanharia o primeiro autocarro que aparecesse. Era o de Granada. Fiquei aqui um ano e senti-me abraçado pela cidade. Aprendi a língua, a dançar flamenco e a fazer escultura em pedra. Abri um restaurante de sopas e ajudei a criar websites para empresas locais.

Um dia, no Miradouro de San Nicolás, em Alhambra, conheci um homem que me ofereceu boleia até Portugal. Aluguei a casa onde vivia e andámos de carro durante 13 horas até ao posto fronteiriço de Cáceres. Fiquei três dias com outras pessoas que contemplavam a natureza.

Uma tarde, fui passear à beira do rio Erges, que liga os dois países vizinhos por uma ponte romana, e avistei uma aldeia. De imediato, tive a sensação de que entrara no meu sonho.

Nibal Hamdan Raj, a co-directora palestiniana do Sulha Project, durante uma reunião de coordenadores, em Jerusalém, no Verão de 2013. © Udi Goren

Nibal Hamdan Raj, a co-directora palestiniana do Sulha Project, durante uma reunião de coordenadores, em Jerusalém, no Verão de 2013
© Udi Goren

Era a aldeia de Segura. Ali estavam as mesmas casas, pedras graníticas da calçada e até o edifício público que aparecera no meu sonho. Pensei: se estou aqui é porque deve haver um tesouro. Falei com uns velhotes e encontrei nada de especial. Uma hora depois, voltei para Granada, mas ficou um vazio que, posteriormente, me fez ir a Lisboa e aqui permanecer duas semanas.

Em Agosto de 2002, após seis meses em Granada, foi crescendo em mim a convicção de que se foi possível, nesta cidade, 700 anos de coexistência entre judeus, cristãos e muçulmanos eu teria de levar esta harmonia para Israel. Instalei-me Norte, não longe do mar da Galileia, e coloquei um anúncio num jornal a oferecer-me como mediador.

É uma profissão que facilita a resolução de conflitos, na Educação, Justiça, Comércio… Fiquei responsável por 70 escolas.

O meu objectivo era organizar encontros na natureza com jovens israelitas e palestinianas. Os directores das escolas mostraram-se muito receptivos. Por volta de 2003, fundimo-nos com o Sulha Peace Project, que envolve adultos. Sulha é um ritual de reconciliação entre as tribos beduínas quando procuram pôr fim a contendas por vezes sangrentas.

As tribos desavindas recorrem a uma terceira parte e marcam um ponto de encontro. Sentam-se em círculo, saboreiam a mesma refeição, bebem chá e café, enquanto cada um dos queixosos conta a sua versão dos acontecimentos.

A tradição exige que a parte lesada deve ser indemnizada financeiramente, como forma de reconhecimento da dor e dos danos sofridos. Depois, as duas partes beligerantes pedem perdão uma à outra.

Assim procedemos nós. Israelitas e palestinianos. Judeus, cristãos, muçulmanos, beduínos, drusos, homens, mulheres, crianças. Cinco dias no deserto, em caminhadas, a comer, a cantar, a dançar e a partilhar narrativas pessoais.

Desde 2000, já juntámos mais de 20 mil pessoas. Gaza tem sido a parte mais difícil. Os autocarros esperam por vezes cinco a seis horas por uma autorização do exército, mas vale a pena.

Israelitas e palestinianos (a jovem de cabelos longos ao centro é agora soldado, porque a tropa é obrigatória, mas não em unidades de combate, para evitar servir nos territórios ocupados), juntos num encontro do Sulha Project, em Neve Shalom, em Maio de 2013. © Udi Goren

Israelitas e palestinianos (a jovem de cabelos longos ao centro é agora soldado, porque a tropa é obrigatória, mas não em unidades de combate, para evitar servir nos territórios ocupados), juntos num encontro do Sulha Project, em Neve Shalom, em Maio de 2013
© Udi Goren

Valorizo imenso o que eu faço com jovens de 16 e 17 anos. No caso dos judeus israelitas, quando vão cumprir o serviço militar, se encontrarem um palestiniano, talvez se interroguem sobre se ele não será familiar dos que se tornaram seus amigos.

Aconteceu isso comigo. Estava a contar a minha experiência militar, e uma rapariga disse-me: “O meu irmão foi morto por soldados; era tão fácil odiá-los, mas agora vejo o seu rosto em cada um deles e penso: ‘Talvez este soldado seja como Elad, de quem eu gosto’.”

Uma das histórias que mais comove quem me ouve é a da relação com o meu pai. Maltratou-me na infância, mas ao aproximar-se a hora da morte, passei os últimos três meses com ele num quarto de hospital. Durante esse tempo, esperei que me pedisse perdão.

O tempo passava e eu não conseguia a minha sulha. Antes do último suspiro, porém, apertou a minha mão. De repente, eu já não precisava do pedido de perdão – era o meu ego que o exigia. Ele viu o meu sofrimento e aceitou-me como seu filho.

Com isto, não quero dizer que não seja fundamental dizer: “Lamento muito a dor que te causei”. Só que entre israelitas e palestinianos há tanta dor, tanto ódio, tanto trauma, tanta morte, que é demasiado pedir perdão. A simples expectativa do outro nos pedir desculpa já é frustrante. Apenas isso magoa.

Nos encontros que organizo procuro, acima de tudo, aceitação mútua da nossa existência. A palavra “paz” tem sido tão abusada. Um palestiniano em Ramallah dirá que paz é ter o direito à liberdade; um israelita em Telavive dirá que paz é ter o direito à segurança. As definições são diferentes, o essencial é saber o que estamos dispostos a sacrificar para ter paz.

Mantenho a esperança. As revoluções no Médio Oriente vão abrir a porta da reconciliação. Sou testemunha de como é possível mudar uma pessoa em alguns minutos, falando com ela, olhos nos olhos. Quando o meu filho, que tem agora sete meses nasceu, peguei nele ao colo e prometi-lhe: “Vou melhorar o mundo!”

Elad Vazana num retiro com membros do Sulha Project, em Maio de 2013 © Udi Goren

Elad Vazana num retiro com membros do Sulha Project, em Maio de 2013
© Udi Goren

Este artigo (com fotos de 2013) foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 19 de Agosto de 2012 | This article (updated with 2013 photos) was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 19, 2012

“Vender o corpo” para uma declaração de amor ao Irão

Ao partir, à boleia, de Londres até Teerão, Jamie Maslin, o autor de Iranian Rappers and Persian Porn pouco sabia da “república dos mullahs”. Agora, após outra viagem por quase 20 países, o jovem inglês diz que este “é o lugar mais espantoso”. Aqui, por exemplo, o etanol disfarça-se de vodka; Celine Dion funde-se com Eminem; e os DVD de sexo explícito designam-se por “super filmes”. (Ler mais | Read more…)

Iranian grooms, Javad Jafari, left, and his brother, Mehdi, right, pose for photographs with their brides, Maryam Sadeghi, second left, and Zahra Abolghasemi, who wear their formal wedding dresses prior to their wedding in Ghalehsar village, about 220 mi (360 km) northeast of the capital Tehran, Iran, on July 15, 2011. @AP Photo/Vahid Salemi)

Noivos iranianos, Javad Jafari, à esquerda, e o seu irmão, Mehdi, à direita, posam com as futuras mulheres,  Maryam Sadeghi, segunda à esquerda, e Zahra Abolghasemi, envergando vestidos formais antes da cerimónia, na aldeia de  Ghalehsar village, cerca de 360 quilómetros a nordeste de Teerão, a capital (15 de Julho de 2011) 
© Vahid Salemi | AP | The Atlantic

Desde que abandonou a escola aos 16 anos, Jamie Maslin teve “mais de 40 empregos diferentes”, incluindo funcionário de limpeza em fábricas e arrumador em concertos de rock. “Também vendi o meu corpo à ciência médica como cobaia”, diz-me, numa entrevista por e-mail, o autor de Iranian Rappers and Persian Porn: A Hitchhikers’ Adventures in the New Iran, a hilariante narrativa de uma viagem a um país para onde partiu cheio de preconceitos e (quase) vazio de conhecimento.

A ideia inicial do jovem britânico era ir de Inglaterra à China, explorando a Rota da Seda, do veneziano Marco Polo, o que já incluiria atravessar território iraniano.

Assim, poupou “religiosamente” o que ganhava num “trabalho chato e mal pago”, e inscreveu-se nos testes de um novo medicamento para a gripe, na esperança de obter fundos necessários. O seu ritmo cardíaco era acelerado mais duas batidas do que o requerido, e chumbou.

Restaram-lhe 1400 dólares e dois vistos: um para o Uzbequistão, facilmente adquirido; outro para o Irão, que demorou dois meses a obter.

“Seria um desperdício terrível não o usar”, interiorizou Maslin, tentando esquecer um documentário televisivo, “horrífico e assustador” sobre direitos humanos no “reino” de [Mahmoud] Ahmadinejad [o anterior Presidente, substituído após as eleições de Junho de 2013 pelo “pragmático” Hassan Rouhani].

“Eu era ignorante antes de partir, em parte devido à propaganda dos media mainstream, mas à medida que fui escrevendo o livro, levei a cabo uma extensa e exaustiva investigação”, contou Maslin, confirmando que foi deliberada a intenção de assumir o quanto desconhecia o Irão.

Outra característica da sua obra é a diversão que imprime a vários capítulos, como aquele em que se misturam a voz de Celine Dion e os gestos de Eminem.

O sentido de humor, destaca o “especialista na arte da sobrevivência” e que mais tarde publicaria Socialist Dreams and Beauty Qeens: A Couchsurfer’s Memoir of Venezuela, é “uma ferramenta eficaz não apenas para captar a atenção do leitor, mas também para dar vida aos lugares em cada página escrita.”

“Muitos livros de viagens que li são demasiado sisudos no modo como se apresentam; se isso resulta bem num ensaio académico, raramente conseguem colocar o leitor nos pés do autor – a não ser que o leitor também seja um chato, claro!”, comentou Maslin, nesta entrevista, dada poucas horas antes de partir para “dez dias de férias” (não revelou o local), que o deixariam incomunicável.

Sobre o título, o viajante profissional justifica-se: “Rappers é uma referência à fama da música ocidental interdita, o rap em particular; e também porque fui convidado para um concerto de rap; Porn refere-se à popularidade dos filmes porno (obviamente) ilegais – ou os “super filmes”, como são conhecidos.”

Sevan Shahmirian, a member of the underground music band "Wednesday Call" prepares for a practice session at a home music studio in Tehran, on July 7, 2011. Many Iranian bands do not bother asking for the mandatory government permits to release their music and seek contracts with foreign companies or put their music on websites blocked by the state but still accessible to anyone with a modicum of technical skill. @Reuters/Morteza Nikoubazl)

Sevan Shahmirian, membro da banda underground Wednesday Call, treina no seu estúdio, que é a própria casa, em Teerão (7 de Julho de 2011) . Muitos grupos e artistas já não se incomodam em pedir licenças obrigatórias para divulgar, assinar contratos com companhias discográficas estrangeiras e/ou colocar as suas músicas em websites bloqueados pelo Governo
© Morteza Nikoubazl | Reuters | The Atlantic

Como é que a aventura começou? “Bem, sou um tipo que adora viajar, sobretudo à boleia e com orçamentos extremos, além de odiar estar preso a trabalhos braçais – que, em todo o caso, tenho feito muito, para financiar o amor que sinto pelas viagens. Todos os meus empregos têm sido temporários, sempre a pensar em empreendimentos mais criativos para tempos livres.”

 “Não posso dizer que tencionei fazer da escrita de viagens uma carreira”, admite Maslin. “Estava frustrado e deprimido com um emprego banal e mergulhei em mais uma aventura louca, só que desta vez decidi seguir o conselho de um amigo e colocar a minhas ‘explorações’ em papel. E assim nasceu o primeiro livro, Iranian Rappers and Persian Porn.”

E porquê à boleia no Irão e couchsurfing na Venezuela? “Não me interessam as viagens convencionais e estas, passadas a escrito, são aborrecidas. Escrevo livros que gostaria de ler, que não sirvam para estar à beira da piscina, a saborear piña colada, mas que nos permitam mergulhar num país e na sua cultura – e só podemos fazer isso se nos lançarmos no terreno.”

“Acabei o livro sobre a Venezuela há um ano e meio e, desde então, já quase completei um terceiro – 400 páginas que ainda não terminaram. É uma viagem à boleia, que começa na Austrália e acaba em Londres, seguindo pela Indonésia, Malásia, Tailândia, Laos, China, Quirguistão, Cazaquistão, Azerbaijão, Geórgia, Turquia, Bulgária, Sérvia, Croácia, Eslovénia, Áustria, Alemanha, França e um pouco do Reino Unido. ”

“Eu já havia viajado à boleia pela Tunísia, tendo contribuído para uma espécie de blogue de um amigo no qual enumerava os lugares que explorava, personagens que encontrava e escapadinhas que desvendava”, explica Maslin.

“O meu amigo encorajou-me a tentar ir mais longe. E foi esta a génese do meu livro sobre o Irão. Teria sempre ido à boleia de Londres até à República Islâmica mas sem este encorajamento, provavelmente, não teria escrito obsessivamente um diário a especificar os meus passos.”

“Não tive aconselhamento sobre como escrever, apenas me sentei, dia após dia, 12 horas por dia, e deixei que os meus pensamentos e experiências saltassem para o teclado. Não tendo background académico, foi um desafio enorme, embora não veja isso como desvantagem.”

“Já passei por tantas experiências que, de do ponto de vista da escrita, é provavelmente mais importante [do que ter concluído os estudos].”

Ao longo de mais de 260 páginas (na edição de 2012, em paperback), Maslin dá a conhecer um Irão livre e libertino, desmontando o retrato de um país monolítico, subjugado por governantes messiânicos. A imagem que difunde poderia tê-lo conduzido à prisão, mas ele garante que não recebeu quaisquer ameaças.

“Dei uma longa entrevista a uma emissora com sede no Reino Unido que transmite para o Irão e Afeganistão, e não me abstive de contar alguns costumes não-islâmicos: embebedar-me com espírito cirúrgico (96 por cento de etanol), frequentar festas ilegais onde não se viam mulheres com hijab e até assistir a filmes pornográficos hardcore com um grupo de estudantes contra o sistema – algo que é punido com a extracção dos olhos!”

A trader stands in Tabriz historic market, 633 km (393 miles) northwest of Tehran, early in the morning of August 28, 2011. The Tabriz market was located along the Silk Road trade route and comprised of interlinked structures and spaces for various commercial, religious and educational uses. This market was registered as a UNESCO heritage site on July 31, according to UNESCO's website. @Morteza Nikoubazl)

Bazar de Tabriz, mais de 630 quilómetros a noroeste de Teerão, classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, em 2011. Situava-se ao longo da Rota da Seda. As suas estruturas serviam não apenas para o comércio mas também como escolas e instituições religiosas
© Morteza Nikoubazl | Reuters | The Atlantic

“É claro que não fiquei nas boas graças do governo”, adiantou Maslin. “Quando pedi outro visto, para celebrar a publicação do meu livro, o cônsul iraniano em Londres, em termos bem claros, declarou que eu não era bem-vindo.”

“No entanto, se eu pudesse voltar, viajaria já amanhã, porque este é um país extraordinário, com as pessoas mais hospitaleiras que jamais conheci.”

“Esqueçam aquelas multidões enfurecidas em autoflagelação e que os media mainstream adoram exibir. Os iranianos são pessoas como nós, e o seu maior defeito é a generosidade. Estranhos vinham ter comigo só por eu ser estrangeiro; sendo uma visita no país era um hóspede nas suas casas, tratado como realeza.”

No Irão, Maslin teve como companheiro de viagem, durante algum tempo, o português Ricardo, que estava de passagem a caminho do Nepal. “Era um tipo fantástico, com sorriso fácil e bem-disposto”, elogia o britânico.

“Ah, e também é bonito, mas não lhe digam, para que não fique demasiado vaidoso. Claro, que ele já tem um exemplar autografado do meu livro, e foi generoso ao fornecer algumas das fotos que estão na edição de capa dura. Trocámos e-mails, mas já há muito tempo que não contactamos – vou já rectificar isso.”

Quanto aos amigos iranianos, “as despedidas foram mesmo definitivas”, lamentou Maslin. “Como a correspondência no Irão é rigorosamente vigiada, não os quis colocar em risco. Todos os seus nomes no livro são pseudónimos e as fotos deles (na edição em capa dura) têm os rostos branqueados; também alterei certos pormenores, mínimos e insignificantes, para proteger as suas identidades.”

“Em relação aos iranianos na diáspora, obtive uma excelente reacção; foi um grande elogio, dizerem-me que mudei a má imagem do Irão que tem sido propagada.”

“Só posso enaltecer a bondade genuína dos iranianos, que me ofereceram uma hospitalidade humilde, apesar de eu provir de um país, conhecido agora como ‘velha raposa’, cujo governo interferiu nos assuntos internos do Irão [quando ajudou a CIA a derrubar, em 1953, o primeiro-ministro [Mohammad] Mossadegh por ter nacionalizado a Anglo-Iranian Oil Company].”

Tão marcante como o Irão só mesmo, aparentemente, o Porto, onde Jamie Maslin garante ter passado “as melhores férias de sempre”. Perguntámos porquê, mas ele respondeu apenas: “Por causa do vinho!”

Jamie Maslin, o autor

© Jamie Maslin, o autor de Iranian Rappers and Persian Porn

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 8 de Agosto de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 8, 2012

O objecto sagrado do profeta secular

A imaginação de David Grossman é tão prodigiosa que confirma o aviso de Amos Oz: a palavra “ficção” não existe em hebraico. Tudo é existencial. (Ler mais | Read more…)

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(…) Arranca, disse quando se sentou ao lado de Sami.

Para onde?

Ela pensou durante um momento e, sem olhar para ele, disse:

Até onde o país acabar.

Para mim já acabou há muito tempo, silvou ele. (pág. 161)

Um livro que, no mesmo dia, em Israel, merece os elogios de um dos mais controversos activistas da esquerda (Gideon Levy) e de um dos mais acutilantes porta-vozes da direita (Effie Eitam) tem de ser universal.

Ou como sublinhou Jacqueline Rose, académica judia britânica, “não fazemos nenhum favor” a David Grossman se transformarmos Até ao fim da terra num “objecto sagrado”.

É inegável que já atingiu um “estatuto mítico”, a partir do momento em que o processo de escrita foi interrompido pela morte de Uri, filho do autor.

É deste destino que Ora, a protagonista comparada pelo romancista americano Paul Auster a Anna Karenina, de Tolstoi, e a Emma Bovary, de Flaubert, quer salvar o seu próprio filho, o soldado Ofer.

Ora é, pois, a força centrifugadora do monumental Até ao fim da Terra, 684 páginas na edição portuguesa Dom Quixote/LeYa), com uma brilhante tradução (e notas), a partir do hebraico, de Lúcia Liba Mucznik.

Mulher de meia-idade (seca, murcha, varizes, verrugas, gordura, lábios, aquele seu lábio, seios, flacidez, manchas, rugas, carne, carne – pág.301), mãe de Ofer e de Adam, recentemente abandonada pelo marido, o advogado Ilan, Ora decidiu “fugir” de casa quando Ofer se ofereceu como voluntário para uma ofensiva na Cisjordânia.

Desiludida e desorientada por o filho ter preferido a adrenalina do combate à mansidão de um passeio pela Galileia, para celebrar a sua iminente desmobilização do exército, Ora arrasta consigo primeiro Sami, o taxista palestiniano (motorista era a profissão do pai de Grossman), empregado e amigo da família; depois Avram, o artista, antigo namorado e ex-prisioneiro de guerra do Egipto na guerra do Yom Kippur, em 1973.

Curiosamente, foi durante este período, numa base na Península do Sinai, que David conheceu a recruta Michal Eshel, psicóloga com quem haveria de se casar e que impediu que ele sucumbisse à “arrogância do conquistador”.

Não é de estranhar, portanto, o realismo com que Grossman descreve não apenas os dramas, físicos e psicológicos, de Avram, companheiro de Ora (e o pai relutante de Ofer), mas também a dor e o amor que unem todas as personagens.

Antigo jornalista que se alistou no Tsahal em 1971 e serviu numa unidade de espionagem por ser fluente em árabe, Grossman não esconde que, a partir de 1967, ficou inebriado com a ideia de Israel se ter tornado “um império em seis dias”, ao derrotar e humilhar os árabes.

Michal fez dele um “ateu esquerdista” e hoje – apesar de Uri ter sido morto no Líbano – toda a família se junta, às sextas-feiras, no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Leste, numa vigília nocturna em solidariedade com desalojados por colonos judeus.

Em Até ao fim da terra, o autor de O Vento Amarelo (fruto de uma investigação que despertou os israelitas para o infortúnio dos palestinianos sob ocupação), de Sleeping on a Wire (a angústia dos palestinianos de cidadania israelita obrigados a ser leais a um Estado que se classifica como judaico) e Smile of the Lamb (a amizade entre um soldado, chamado Uri, e Khilmi, um árabe contador de fábulas) regressa assim, pela primeira vez desde há vários anos, à “situação” (ha-matsav), ou o conflito.

Neste romance, sem ordem cronológica, Grossman infiltra-nos na intimidade de núcleos familiares, fazendo-nos trepar penhascos e enredar nos espinhos, adivinhar pensamentos, dividir culpas, palpar cicatrizes, saborear desejos, gemer medos.

Como o pavor de Ofer, numa noite em que arde em febre e delira, “vendo um árabe no quarto”. Ora acende a luz e invoca Sami, o motorista, “que também é árabe e não é inimigo”. O rapaz não sossega.

Na manhã seguinte, ela leva-o até Latrun, monte estratégico anexado por Israel e que permitiu o livre acesso a Jerusalém, depois de arrasadas três aldeias palestinianas. Aqui, num museu militar, expõem-se dezenas de carros de combate.

E foi aqui que Ofer subiu a um tanque soviético para se sentir invencível. Porquê Latrun?, perguntou Avram. Pensei que o que é bom para um país inteiro, também é bom para o meu filho. (Páginas 451-453)

Ilan e Adam saíram do país em férias. Ofer foi para a guerra. Ora e Avram emaranham-se na Galileia – ela fala e ele ouve. Todos parecem em fuga e, ao mesmo tempo, todos são resistentes. É como um tributo de Grossman ao país que ele nunca considerou “um refúgio” mas “a casa” do povo judaico.

O lugar onde a sua avó paterna, um tenaz viúva polaca, se instalou com o filho e a filha, depois de uma viagem de autocarro, comboio e barco, no final da II Guerra Mundial – não por ser religiosa mas porque um polícia a insultou na rua.

Ela personifica uma citação da antropóloga americana Margaret Mead que David tem em destaque na sua secretária: Nunca subestimem o poder de um pequeno grupo de indivíduos de mudar o mundo; na realidade, eles foram os únicos que conseguiram.

Grossman é um sabra, como se designam os judeus nascidos em Israel, tal como a sua mãe, Michaella. O pai, Yitzhak (bibliotecário depois de reformado da empresa de transportes), foi quem lhe incutiu o gosto pelos livros.

E revelou-se fundamental quando chegou o momento de escrever aquela que é elogiada, por muitos, como a obra-prima, Ver: Amor.

Yitzhak “apresentou” ao filho o ucraniano Sholem Aleichem, um dos maiores escritores em yiddish, dizendo-lhe: “Era assim que as coisas se passavam lá”.

Até ler Aleichem, cujas histórias inspiraram Um Violino no Telhado, David pensava que o Holocausto “pertencia aos adultos”. Durante duas gerações, a do seu pai e a sua, as conversas sobre campos de concentração eram desviadas quando crianças estavam presentes.

Indelével foi também o momento em que, no dia do casamento de David, uma tia, sobrevivente de Aushwitz, decidiu tapar com um penso rápido o número tatuado pelos nazis num dos seus braços. Ela não queria “atrair o azar”, e o sobrinho pensou: “Deve ser terrível sentir-se culpada pelo que lhe fizeram.”

Ao perder Uri, David tentou relativizar o sofrimento pessoal, lembrando-se que toda a família do avô foi dizimada no Holocausto. “Que coragem super-humana a de dar filhos ao mundo depois da Shoah!”

Por tudo isto, Grossman fez de uma criança, Momik, a figura central de Ver: Amor. Este miúdo investiga, clandestina e minuciosamente, “o país habitado pelo Mal nazi” e, mais tarde, já adulto e escritor, continua a descodificar o Holocausto, deixando-se “infectar pelo vírus da humanidade”.

O livro aplaudido como “de uma potente ressonância, beleza luminosa e visão excepcional”, termina com uma oração. Pedimos tão pouco: que um homem possa viver neste mundo da nascença até à sua morte e nada conhecer da guerra.

Se Ver: Amor já tinha sido “uma necessidade de se entender como pessoa, como homem, como pai, como escritor, como judeu, como israelita”, Até ao fim da terra (“um épico doméstico” segundo o autor) foi também “uma escolha da vida”.

David Grossman, o “profeta secular” de Israel, escreve sobre existência e ameaças existenciais. A palavra “ficção”, como disse outro escritor, Amos Oz, não existe na língua hebraica.

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 1 de Agosto de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 1, 2012