O tempo em que Salman Rushdie foi condenado a ser Joseph Anton

Durante 11 anos o autor de Os Versículos Satânicos vestiu a pele de uma personagem ficcional juntando os primeiros nomes de Conrad e Tchekov. Para celebrar a vida depois de uma fatwa de morte, publica agora as memórias desse tempo, que aqui reconstituímos. (Ler mais | Read more…)

Salman Rushdie, numa sessão fotográfica em 1 de Abril de 2009. © Luis Gene | AFP

Salman Rushdie, numa sessão fotográfica em 1 de Abril de 2009.
© Luis Gene | AFP

Em 1989, o octogenário Khomeini agonizava numa clínica nos arredores de Teerão, o coração ainda mais debilitado depois de “beber o cálice de veneno” do cessar-fogo numa guerra de oito anos com o Iraque de Saddam Hussein.

A 4 de Fevereiro, intrigado com as imagens que vira no noticiário da tarde, inquiriu o filho sobre o que se passava, e este informou o ayatollah de que muçulmanos estavam a ser mortos na Índia e no Paquistão em protestos contra Os Versículos Satânicos, um livro “insultuoso para o islão”.

“Poucas horas depois, um documento foi levado aos escritórios da rádio iraniana e apresentado como um édito [fatwa] de Khomeini”, relata o autor do “livro blasfemo” em Joseph Anton: Memórias, obra centrada no período em que deixou de ser Salman, estrela literária que, em 1981, ganhara o Booker Prize com Filhos da Meia-Noite, para se tornar apenas Rushdie, ser maldito que poderia render um milhão de dólares a quem o matasse.

A nova obra de Salman Rushdie em que revisita o seu tormento mistura, no título, os primeiros nomes de dois dos seus escritores favoritos, Joseph Conrad e Anton Tchecov –, a “personagem ficcional” que que inventou para se “tornar invisível” durante 11 anos. Embora o lançamento [estivesse] marcado para o próximo dia 18, a revista The New Yorker deu já a conhecer uma parte, The Disappeared – How the fatwa changed a writer’s life, que serviu de base para as citações usadas neste artigo (traduzidas pela editora D. Quixote, que detém o exclusivo para Portugal).

O édito do teólogo que, em 1979, derrubara o imperador Mohammad Reza Pahlavi instaurando a primeira república islâmica, “era apenas um pedaço de papel com um texto escrito à máquina”, observou Rushdie. Aparentemente, “ninguém viu jamais o documento formal, se é que ele existiu. O pedaço de papel foi entregue ao locutor da estação que o leu” ao país.

As palavras de Khomeini terão sido estas: “Informo o orgulhoso povo muçulmano que o autor deste livro, ‘Versículos Satânicos’, que é contra o islão, o profeta [Maomé] e o Corão, e todos os envolvidos na sua publicação e conscientes do seu conteúdo, estão condenados à morte, a partir de agora. Apelo a todos os muçulmanos zelosos que os executem rapidamente, onde quer que os encontrem, para que nenhum deles se atreva a ofender a santidade islâmica. Quem morrer a fazer isto será admirado como mártir e irá directamente para o paraíso.” 

Era Dia de São Valentim e, em Londres, Rushdie teve conhecimento desta “sentença” quando a BBC o contactou. Esqueceu-se do nome da jornalista que lhe dissera “que tinha sido posto um ponto final em toda a sua antiga vida e estava prestes a iniciar-se uma existência nova”. Mas recorda-se de ter pensado: “Sou um homem morto”, e de se ter questionado sobre quantos dias lhe restavam, “provavelmente um número de um só dígito”.

Como se “tivesse sido atingido por uma corrente eléctrica”, deambulou sem nexo pela casa, fechando cortinas, verificando as trancas das janelas, incapaz de explicar o que lhe estava a acontecer.

Rushdie 2

Uma edição ilegal de “Os Versículos Satânicos”, em farsi, língua oficial no Irão. A tradução do original, publicado em inglês em 1988, foi feita por uma mulher que assinou sob o pseudónimo de Roshanak Irani – todos os tradutores do livro foram, como o autor, condenados à morte por Khomeini.
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Naquele Dia dos Namorados, a crise no casamento com a romancista americana Marianne Wiggins, foi suspensa e adiado o divórcio inevitável, porque ela o alentou a ser corajoso.

Não desistiu, por exemplo, de dar uma entrevista à CBS anteriormente marcada, nem de estar presente na homenagem fúnebre ao seu grande amigo, o também escritor Bruce Chatwin. No entanto, quando saiu de casa, na 41 St. Peter’s Street, onde vivia “há mais de meia década”, teve a certeza que não regressaria tão cedo.

Na entrevista à CBS, na primeira reacção ao que lamentava ser “uma tentativa de apagar o seu passado”, enfurecido com a violência e as injúrias por porte muçulmanos extremistas, Rushdie declarou, com orgulho assumido: “Quem me dera ter escrito um livro mais crítico”. Mas, o medo criava raízes. Ele temia pela segurança da mãe e da irmã mais nova, que viviam em Carachi, no Paquistão – onde os protestos causaram dezenas de mortos e feridos –, e de outros familiares, mas sobretudo preocupava-o a protecção do filho Zafar, prestes a completar 10 anos e que residia com a mãe, Clarissa, perto de Clissold Park.

Foi para aqui que Rushdie se dirigiu depois das exéquias de Chatwin, na centenária catedral ortodoxa grega de Santa Sofia. À sua espera estava uma patrulha da polícia que o aconselhou a manter-se discreto até que responsáveis políticos e de segurança decidissem o que fazer. E Foi na casa de Clarissa que ele combinou com o Zafar ligar todas as noites às 19h00 e, se não mãe e filho não estivessem em casa, teriam de deixar mensagens nos gravadores dos telefones – num tempo em que “os termos PC, portátil, telemóvel, Internet, Wi-Fi, SMS e e-mail eram desconhecidos ou muito recentes.”

Voltaire, observa Rushdie em Joseph Anton, recomendava que os escritores vivessem perto de uma fronteira para que, caso irritassem poderosos, pudessem fugir – o que aconteceu ao grande pensador francês do Iluminismo quando importunou um aristocrata e se exilou na Inglaterra durante três anos. Só que, em tempos de “acção extraterritorial”, ninguém está a salvo.

A partir de agora, a vida diária de Rushdie seria regida segundo dois conceitos; “Segurança” e “risco”. Ou como ele explica: “o nível de ameaça era geral, mas o risco era específico” e, neste caso, cabia ao , unidade de elite da Polícia Metropolitana, avaliar a gravidade da situação.

Assim, a partir de 15 de Fevereiro de 1989, porque o nível de ameaça era “extremamente sério”, ou seja, “de grau 2”, passou a ser escoltado pelos polícias (ambos voluntários devido aos “imponderáveis”) Stanley Doll e Ben Winters (nomes fictícios). Teria ainda ao seu dispor dois carros (para o caso de um se avariar) e dois motoristas.

Embora se sentisse um prisioneiro a caminho da cadeira eléctrica, os serviços de segurança britânicos não olharam a meios para garantir que os executores de Khomeini não ganhariam o prémio pela execução de Rushdie. Levavam-no, por exemplo, ao cinema, quando a sala já estava escura para que não fosse reconhecido.

Um dia, quando lhe apeteceu ver Zafar, o filho, e Sameen, a irmã mais velha, foi transportado num Jaguar blindado que o impressionou pela estrutura sólida e elevado consumo de combustível. Na descrição, sobressai o prazer de uma conversa com Dennis, um dos condutores. “Sabe qual é o termo técnico para nós, motoristas do Special Branch? (…) É O.F.D.’s (…) Only Fucking Drivers.”

Como advogada, Sameen ofereceu-se para defender o irmão, mas este recusou que ela fosse igualmente vítima da fatwa que via como uma forma de Khomeini arregimentar de novo os fiéis após a derrota humilhante imposta ao Irão pelo Iraque (graças a satélites, fundos e armas dos EUA e Europa) num conflito que causou mais de um milhão de mortes. Rushdie tornou-se “o homem que ninguém amava e muitos odiavam”.

A 17 de Agosto de 2014, Salman Rushdie,  recebe  o Hans Christian Andersen Litteraturpris, um prémio bianual conferido a escritores que "partilham o amor  pela arte narrativa e  contos de fadas”. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

A 17 de Agosto de 2014, Salman Rushdie, recebe o Hans Christian Andersen Litteraturpris,  prémio bianual conferido a escritores que “partilham o amor [do poeta dinamarquês] pela arte da narrativa e contos de fadas”.
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Omid Memarian tinha 14 anos e vivia em Teerão quando Khomeini condenou o escritor que, em 2007, seria condecorado “Sir” pela Rainha de Inglaterra. “Foi a primeira vez que o ayatollah emitiu uma fatwa contra um escritor”, disse à revista ‘2’, em declarações por Facebook, o jornalista freelance que colabora com a agência IPS (Inter Press Service), o serviço persa da BBC, os jornais New York Times e Los Angeles Times, entre outras publicações.

“Os livros de Rushdie, antes de Os Versículos Satânicos, eram muito populares no Irão. A primeira reacção entre os leitores foi a de ir à procura das suas obras anteriores, e toda a gente esperava para ver quem iria fazer a primeira tradução para farsi, de modo a encontrar resposta para a questão: ‘porquê uma fatwa por escrever um livro?’”

Para Memarian, que teve de fugir do seu país em 2004, depois de ter sido detido numa cela solitária e torturado, de Outubro a Dezembro, por ter publicado artigos em vários jornais favoráveis reformistas, “o incidente” com Rushdie mostrou a muitos compatriotas “a verdadeira natureza do regime islâmico”.

Na mesma altura, ou seja, finda a guerra com o Iraque e na sequência de uma tentativa dos Mujahedin-e Khalq (Combatentes do Povo), principal organização de resistência armada de conquistar o poder, “milhares de dissidentes políticos foram executados nas prisões iranianas.”

A fatwa contra Rushdie, acrescentou Memarian, “foi uma forma de o os líderes religiosos no Irão mostrarem que controlam a vida de toda a gente. Foi também um forte sinal de que o sentido criativo e de imaginação de escritores, escultores ou outros não podiam ultrapassar os limites do islão. Recordo-me ainda de que havia uma ânsia enorme para ler o livro de Rushdie em farsi, mas quem podia correr esse risco? Essa pessoa, se a encontrassem, seria acolhida também com outra fatwa de morte. E, no Irão, não falta generosidade para emitir esses éditos absurdos.”

Omid Memarian não tem dúvida de que a sentença decretada por Khomeini “mudou o mundo para Rushdie e mudou a imagem do fundador da República Islâmica para milhões de pessoas – e, ambos os casos, para sempre.”

livro português

Nos primeiros dias de “clandestinidade”, Rushdie foi notificado por Stan e Benny de que a sua salvação poderia estar num pedido de desculpas sugerido por Ali Khamenei, na altura Presidente do Irão e futuro sucessor de Khomeini como Supremo Líder. Os polícias aconselharam que ele “deveria fazer qualquer coisa para baixar a temperatura”.

Entregaram-lhe um “texto aprovado” que poderia ser alterado, se “não lhe agradasse o estilo”. Só que, “assiná-lo seria admitir derrota”, e como poderia ele aceitar “abandonar os seus princípios e a defesa do seu livro em troca do apoio e protecção das autoridades britânicas?”

Havia outras vidas em jogo, como a do empresário Roger Cooper, preso na cadeia de Evin, em Teerão, desde 1985, condenado à morte e mais dez anos por espionagem. Também era preciso resgatar no Líbano 96 reféns, a maioria britânicos e americanos, sequestrados pelo Hezbollah, movimento xiita criado pelos Guardas da Revolução iranianos. “A situação deles é pior do que a sua”, disse Stan a Rushdie, pedindo-lhe que “fizesse a sua parte”.

Rushdie cedeu. E a sua declaração foi esta: “Como autor de Os Versículos Satânicos, reconheço que os muçulmanos em muitas partes do mundo ficaram genuinamente desgostosos com a publicação do meu romance. Lamento profundamente este desgosto que a publicação causou aos sinceros fiéis do islão. Vivendo nós num mundo de muitas crenças, esta experiência ajudou a lembrar-nos de que temos estar conscientes da sensibilidade dos outros.”

O futuro Comandante da Ordem das Letras e das Artes de França (1999) e membro honorário estrangeiro da Academia Americana das Artes e Letras (2008) interiorizou que se desculpara pela mágoa causada mas não pelo livro. O “texto subliminar” era: “Sim, devemos estar conscientes das sensibilidades dos outros, mas não devemos render-nos a elas.”

O gesto foi primeiro “rejeitado, depois parcialmente aceite e de novo rejeitado, quer pelos muçulmanos britânicos como pela liderança iraniana”, queixou-se o escritor.

Khomeini, que haveria de morrer, de paragem cardíaca, a 3 de Junho de 1989, manteve-se inflexível: “Mesmo que Salman Rushdie se arrependa e se torne no mais pio dos homens de todos os tempos, é dever de todos os muçulmanos retirarem-lhe tudo o que ele tem, a sua vida, e a sua riqueza, e enviá-lo para o inferno.”

Porque os seus tradutores foram assassinados, livrarias incendiadas e editoras recusaram imprimir a sua obra, Rushdie mostra-se também implacável na crítica aos responsáveis muçulmanos, em particular no Reino Unido.

Para isso, cita a sua irmã Sameen, que os ataca como hipócritas e oportunistas: “Quem é que, exactamente, eles lideravam? Eram líderes sem seguidores. (…) Durante uma geração, a política das minorias étnicas na Grã-Bretanha foi secular e socialista. Era a maneira de as mesquitas controlarem a religião. Os asiáticos britânicos nunca antes se haviam dividido em facções hindus, muçulmanas e sikhs.”

© Murdo Macleod | The Guardian

© Murdo Macleod | The Guardian

O actual presidente da Associação dos Muçulmanos Britânicos, David Rosser-Owen, foi um dos “envolvidos no Rushdie Affair”, como ele designou o processo do escritor de origem indo-paquistanesa num diálogo com a revista ‘2’ por Facebook e e-mail.

Na época, ele era apenas membro executivo, mas participou em reuniões com a sua mulher, Bashiera, que trabalhava para a Penguin Books, editora britânica de os Versículos Satânicos; com o seu antecessor, Rasjid Skinner; com Ayman Abdelkader Ahwal, um inglês já falecido, marido da cantora pop francesa Catherine [Aziza] le Forestier, e membro da World Muslim League em Londres.

“Temos de sublinhar, antes de mais, que a histeria à volta da publicação do livro surgiu quase exclusivamente da comunidade oriunda do Paquistão e do Bangladesh”, afirma o Shaikh David.

“Da comunidade árabe e da turca, a única observação foi do defunto Ramazan Güney, que disse: ‘Coisas piores foram escritas em turco por Ziya Gökalp’ [sociólogo, poeta e activista político que ajudou Kemal Atatürk a definir o nacionalismo do país que emergiu do Império Otomano] ou em árabe, por Taha Hossein [um dos mais influentes intelectuais egípcios do movimento modernista].”

Os jornalistas, segundo David, procuravam “comentários de loucos”, mas como as declarações que obtinham “eram demasiado razoáveis”, acabaram por citar apenas Yusuf Islam, o cantor que se chamava Cat Stevens até se converter ao islão. “Também não houve reacções da parte da comunidade da Malásia e da Indonésia, nem sequer dos cidadãos de origem na África Oriental e Ocidental.”

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É certo que, “em Bradford e em Burnley, as comunidades quiseram queimar o livro de Rushdie em público”, admite o Shaikh. “Advertimos contra essas acções, salientando que ninguém as iria compreender; que seriam actos comparáveis à queima de livros na Alemanha dos nazis nos anos 1930; e que seria um ataque ultrajante à liberdade de expressão. Fomos ignorados. Ayman Ahwal chegou a ir lá para os tentar dissuadir. Skinner foi pressionado a participar na fogueira em Breadford, mas conseguiu escapar.”

“Há muitos elementos que precisam ser levados em consideração, porque muitas pessoas, no jornalismo e nas editoras naquela altura pensavam, cinicamente, que enviar um exemplar de Os Versículos Satânicos a Khomeini seria uma forma de ganhar notoriedade e vender mais livros”, lastima-se David, evocando um episódio antigo para justificar o seu raciocínio.

“Em 1970”, conta, Auberon Waugh [escritor e jornalista britânico] publicou no semanário The Sunday Times um artigo jocoso, na realidade, bastante engraçado como a maioria dos seus textos, no qual chamava ‘apanhadores de Alá’ às shalwar, as calças largas usadas pelos turcos no passado e pelos paquistaneses na actualidade.”

“Isso gerou uma tumultuosa manifestação de cerca de 250 muçulmanos junto à sede da News International em Londres onde foram queimados exemplares do Times.”

“Foi exigido aos governos muçulmanos que boicotassem o jornal, que expulsassem os correspondentes do Times dos países islâmicos e um pedido de desculpas, na primeira página, por Waugh ter ‘insultado e difamado o Islão’. Ainda mais surpreendente, uma multidão enfurecida incendiou a biblioteca do British Council em Rawalpindi. Waugh foi despedido do Times – algo que os manifestantes nunca reclamaram.”

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Estes “250 muçulmanos” eram todos paquistaneses, realça David, que fazia a reportagem para o entretanto extinto Maida Vale and Bayswater News. “Isto é relevante, porque, depois daquela manifestação e do incêndio em Rawalpindi, subiram as vendas dos exemplares antigos que continham o artigo de Waugh e, durante algum tempo, a tiragem dos jornais The Times e The Sunday Times atingiram números recorde. A lição a tirar é que chatear os paquistaneses dá lucro.

A esta conclusão se chegou também em 1989, quando uma cópia de Os Versículos Satânicos foi enviada a Khomeini pela própria Penguin Books. E o representante da Penguin na Índia, um sikh, alertou contra a publicação do livro, quando o manuscrito ainda estava a ser revisto pela editora, porque iria provocar uma convulsão no subcontinente.”

David Rosser-Owen não esconde a antipatia por Rushdie: “É uma pessoa arrogante e bastante desagradável, que não é o típico paquistanês, quer no Reino Unido como na América. Ele provém de uma classe social bastante superior e, além disso, foi educado na Rugby School e na Universidade Cambridge.”

“Conheço muito bem alguns dos membros da sua extensa família. Um dos seus primos em primeiro grau é a filha de um general do Exército Indiano Britânico (mais tarde o Exército Paquistanês), por exemplo. A locutora da BBC Mishal Husain é uma prima distante. Por isso, a dedução que, devido ao seu livro Os Versículos Satânicos ele tem vivido um pesadelo não é credível.”

O presidente da Associação dos Muçulmanos Britânicos nota que, em Os Filhos da Meia-Noite, já adaptado ao cinema e com estreia para breve, Rushdie “enfureceu os indianos”, com o retrato peculiar da sua cultura, e com Shame, “irritou os paquistaneses”, numa sátira aos generais do país. Sendo que estas duas obras “antecederam Os Versículos Satânicos, em cinco ou mais anos”, David conclui que, “obviamente, Rushdie procura atrair notoriedade com os seus livros.”

Inquirido sobre se leu o livro que instigou a ira de Khomeini, o Shaikh britânico assegura: “Sim, eu li! Foi uma tarefa extremamente árdua, porque está muito mal escrito. Acho que o editor o devia ter devolvido para ser reescrito. Contudo, porque Os Filhos da Meia-Noite havia ganho o Booker Prize, presumo que Rushdie foi tratado com luvas de criança e que fosse qual fosse o lixo da sua autoria tudo seria bem recebido. Um dos polícias que o protegeu disse-me em tom jocoso que a recompensa oferecida por Khomeini teria valido a pena só pelos danos que Rushdie fez à literatura inglesa. Para mim, é lixo literário.”

Ao contrário de Khomeini, porém, David acha que “nem o islão – nem qualquer outra religião – pode ser insultado, seja por Salman Rushdie ou Dan Brown [o autor do Código Da Vinci, criticado pela Igreja Católica]. Aliás, ele “tem quase a certeza” de que Khomeini nem sequer leu Os Versículos Satânicos.

“Porque é uma leitura muito difícil até para os falantes de inglês e, além disso, um chefe de Estado teria outras coisas para fazer. Provavelmente, ter-lhe-ão dado uma sinopse e, como todos sabemos, as sinopses reflectem as opiniões dos burocratas que as redigem – portanto, suponho que a sua fatwa foi emitida a partir disso.”

Quanto ao édito, David dá a sua opinião como muçulmano sunita: “Não seria válido sem um tribunal e um julgamento, fosse o castigo o corte dos pulsos, uma multa ou a pena capital. Em todo o caso, provocar uma rebelião civil é inaceitável em qualquer civilização.”

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A explicação em termos de doutrina xiita é-nos dada, por Facebook, pelo perito na corrente islâmica seguida pela maioria dos iranianos e professor na Queen’s Foundation em Londres, uma faculdade teológica  das congregações Anglicana /Metodista /Reforma Unida.

“O que me foi dado a perceber na fatwa contra Rushdie, por parte dos meus orientadores próximos do ayatollah Khomeini naquele tempo, é que pessoas já ligadas aos protestos foram pedir-lhe uma opinião em abstracto, por exemplo, ‘se um homem faz isto e aquilo, qual é o castigo?’. A resposta foi então aplicada a Rushdie e uma associação privada de ‘caridade’ ofereceu uma recompensa.”

“A jurisprudência xiita”, especificou Amin, “é talvez mais formal na estrutura do que outras escolas islâmicas de pensamento. Estuda-se [no xiismo] o Corão, os hadith [tradições da era de Maomé], História, Direito, Filosofia, Línguas…, para receber o título que lhe permite ser designado por Alim.”

“Depois desse patamar, alguns estudiosos tiram o curso de Dars ak-Kharaj. Os que completam este processo com aprovação dos seus pares e teólogos mais veteranos tornam Mujtahids, podendo exprimir, a partir daí, pareceres legais e actuar como juízes. Só um pequeno número de Mujtahids é validado pelos seus pares e aceita a responsabilidade de publicar opiniões legais, agindo como guias em assuntos de direito religioso para quem escolha segui-los. Os que são reconhecidos são venerados como Marja al-Taqlid” ou Fonte de Emulação.

Ora, segundo o “Imã Evans”, guia espiritual que também pertence à Associação dos Muçulmanos Britânicos, o ayatollah que derrubou a monarquia e conferiu aos mullahs os poderes temporais que pertenciam aos reis persas, “nunca foi aceite como um jurisconsulto porque os seus estudos avançados tendiam para a espiritualidade, filosofia e política”. No caso de uma fatwa, esta “requeria um julgamento constitucional, como vários teólogos xiitas repetiram durante o ‘Caso Rushdie’”.

Amin-Evans não revelou se leu Os Versículos Satânicos, mas Daayee Abdullah, outro membro da Associação dos Muçulmanos Britânicos, não hesita em dizer-nos, também por Facebook, que comprou o livro a um colega recém-chegado dos EUA, quando vivia no Cairo em 1987-88, onde uma editora fazia cópias caseiras.

“Gostei da obra e não acho nada que seja um insulto ao islão”, frisou. “Algumas pessoas são demasiado rigorosas na expressão da sua fé. Quando os muçulmanos aceitarem que os hadith não são exactos nem a verdade absoluta, poderemos ter uma visão alternativa dos textos corânicos e acabar com a violência. Ao contrário dos cristãos, em situações semelhantes, os muçulmanos não seguem os padrões mais elevados dos seus ensinamentos religiosos.”

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Omid Safi, professor de Estudos Islâmicos na Universidade da Carolina do Norte (EUA), também nos diz, por e-mail, que leu Os Versículos Satânicos mas achou o livro “muito fraco para os padrões de Salman Rushdie” de quem se considera “um grande admirador”. Ao contrário de Abdullah, ele achou a obra condenada por Khomeini “deliberadamente insultuosa e ofensiva.” Cita, por exemplo, o facto de Mahound, um dos protagonistas, “ser a forma pejorativa que os cristãos medievais usavam para retratar Maomé como diabo.”

Em Joseph Anton, Rushdie insurge-se com “distorção subtil” do título completo do seu livro. Os Versos Satânicos. Perdeu o inicial “Os” e, com isso, “deixou de ser um romance” para se confundir com Satanic Verses, “versículos realmente satânicos”.

Trata-se de um episódio, fonte de discussão entre teólogos muçulmanos e expurgado do Corão, que terá sido uma tentativa de o demónio convencer Maomé a aceitar três deusas pagãs (al-Lat, al-Uzza e Manat).

Ele resistiu, mantendo-se leal a Deus, embora tivesse mais difícil enfrentar a hostilidade em Meca contra a Umma ou comunidade de crentes que os muçulmanos tentavam formar.

A inspiração, confessa Rushdie, surgiu em 1966, quando ele estudava História em Cambridge. “Aqui estava um paradoxo fascinante: uma teologia essencialmente conservadora que olhava para o passado (…) tornou-se numa ideia revolucionária, porque as pessoas que atraía eram, sobretudo, as que tinham sido marginalizadas pela urbanização – os pobres, a gente da rua. Talvez fosse assim porque o islão, a nova ideia, era tão ameaçadora para a elite de Meca.”

Omid Safi renega “os demagogos que pretendem ser teólogos e juristas para incitar a populaça a sublevações. Eles fingem que operam segundo a tradição islâmica, mas não se deve dar um pódio aos zelotas e idiotas, muçulmanos ou não. O mais importante a reter é isto: é falsa a dictomia entre islão e liberdade de expressão. Na verdade, isso coloca os muçulmanos ocidentais na posição insustentável de terem de escolher entre a sua fé – que eles prezam – e as suas liberdades políticas – que eles também valorizam.”

Quanto a Rushdie, adoptou os lemas de dois marinheiros. O de James Wait, personagem de O Negro do Narciso, de Joseph Conrad: “Devo viver até morrer”. E “as palavras imortais” de Popeye, que acompanham a sua conta de Twitter: I yam what I yam and that’s all that I yam.

© Salman Rushdie, numa pintura a óleo, 1992, colecção privada © tomphillips.co.uk

© Salman Rushdie, numa pintura a óleo, 1992, colecção privada
© tomphillips.co.uk

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 16 de Setembro de 2012 | This article was originally published by the newspaper PÚBLICO, on September 16, 2012

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