“O deus que os extremistas veneram tem medo”

O “pior vídeo do YouTube” incendiou o mundo islâmico. Porquê? Ignorância religiosa e ressentimentos políticos ajudam a explicar, dizem dois muçulmanos e um cristão copta. (Ler mais | Read more…)

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O palestiniano Aziz Abu Sarah ficou “magoado e ofendido” ao ver Innocence of Muslims, mas irritou-se mais com os actos de violência que “um filme medíocre” gerou.

O americano de origem iraniana Omid Safi sentiu repulsa por Maomé ser apresentado como “mulherengo, bandido, tarado, pedófilo”, mas acredita que, hoje, o seu profeta não se juntaria às multidões encolerizadas que atearam fogos pelo mundo islâmico.

Numa entrevista, por telefone, a partir de Washington, disse Aziz, director executivo do Centro de Religiões Mundiais, Diplomacia e Conflito de Resoluções na Universidade de George Mason: “Nem Maomé nem Deus precisam que os defendam; o deus que os extremistas veneram tem medo. Não é omnipotente nem confiante, o que prova o quanto eles ignoram a sua religião.”

“Olho para a TV, vejo autoproclamados ‘imãs’ [guias espirituais] a protestar – a atacar, a matar – e pergunto-me: porquê?”, adianta Aziz. “São eles que insultam o profeta e o seu legado. São eles que insultam o Islão! Há milhares de pessoas a morrer diariamente na Síria, numa guerra sectária que envolve sunitas e alauitas (esta sim, é uma ofensa a Deus!), mas não se vêem muçulmanos unidos a insurgir-se nas ruas contra estes massacres.”

“Alguém crê seriamente que Deus precisa de se defender de uma porcaria de um filme e que não gostaria mais de ver os fiéis a proteger vidas inocentes?”

Omid Safi, autor da biografia Memories of Muhammad:  Why The Prophet Matters Today, respondeu assim a questões que lhe enviámos por Facebook: “Não sou daqueles muçulmanos alheados da realidade que nos mandam ‘arrefecer os ânimos’ ou que deixemos de ser ‘tão sensíveis’. Longe disso.”

“Cada vez que aparece algo de ofensivo há a tentação de reduzir isso ao ‘direito à liberdade de expressão’, tido como absoluto versus a sensibilidade dos muçulmanos. Este quadro mental não ajuda nada ou, pelo menos, só ajuda parcialmente.”

“Na realidade, coisas como Innocence of Muslims deveriam ser classificadas como ‘discurso de ódio’, porque são do mesmo género dos filmes anti-semitas dos anos 1930 ou de Birth of a Nation, do Ku Klux Klan.”

“É falso que só os muçulmanos exprimam a sua sensibilidade religiosa”, frisa o professor de Estudos Islâmicos na Universidade da Carolina do Norte (EUA). “Os muçulmanos em sociedades relativamente livres, como a Turquia, ou sob regimes mais opressivos, como o Irão, têm uma tradição rica de cinema, cartoons políticos e sátira.”

“Muitos jornalistas e comediantes pagam o preço por defenderem a liberdade de expressão. São essas pessoas que merecem estar na ribalta e não os que fazem propaganda ao ódio.”

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Interrompemos aqui, e mais adiante retomaremos, os argumentos de Aziz e Omid, para explicar como as chamas se propagaram.

“O pior filme do YouTube”, segundo a revista The Atlantic, começou por ser atribuído ao “produtor e agente imobiliário Sam Bacile”, que se vangloriou à agência Associated Press de ter “angariado cinco milhões de dólares de ‘100 judeus americanos’”, alegada tentativa de “usar o anti-semitismo para se proteger”.

A BBC fez uma pesquisa mas não encontrou ninguém na Califórnia que correspondesse à descrição de Bacile. Notícias recentes dão conta de que o “incendiário” de Innocence of Muslims é um extremista copta americano, Nakoula Basseley Nakoula.

Esta figura, que inventou para si próprio 13 identidades irreais, já tinha estado detido por fraude financeira. Teria ligações a um “produtor obscuro” chamado Steve Klein, por sua vez, membro de uma milícia de extrema-direita, que não gosta de gays, imigrantes, muçulmanos… e mórmones, como o candidato presidencial republicano Mitt Romney.

O produtor terá dito que exibiu o filme “apenas numa sala de cinema, quase vazia”, em Hollywood. A distribuição terá ficado a cargo de Terry Jones, o pastor da Florida que, em 2011, exortara à queima de exemplares do Corão.

Excertos do filme, legendados em inglês, terão sido colocados no YouTube por grupos de coptas radicais, embora as principais organizações desta minoria cristã do Egipto tenham sido rápidas na condenação dos malfeitores.

Os primeiros protestos ocorreram no Egipto, com manifestantes a tentar escalar a Embaixada dos EUA no Cairo, mas o ponto de viragem foi a morte do embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, um diplomata amado e respeitado, durante um ataque ao consulado de Washington em Bengasi.

Este crime (atribuído a grupos próximos da al-Qaeda) foi condenado pelos novos líderes que ocuparam o lugar do coronel Muammar Kadhafi e por várias associações islâmicas na América.

Na Internet circularam também dezenas de imagens de líbios com cartazes, sublinhando a diferença entre Islão e terrorismo, exprimindo gratidão a Stevens e à comunidade internacional pelo derrube de um ditador.

Sept. 12, 2012 file photo, a Libyan man holds a placard in English during a demonstration against the attack on the U.S. consulate that killed four Americans, including the ambassador, in Benghazi, Libya. The attacks against U.S. diplomatic targets appear part of wider power plays by Salafis and other extremists to challenge the leadership struggling for stability in places such Egypt and Libya. ©Ibrahim Alaguri | AP

12 Setembro 2012:  Um líbio ergue um cartaz, num inglês imperfeito, pedindo desculpa pelo ataque ao consulado dos EUA em Bengasi, garantindo que a acção atribuída a salafistas “não é o comportamento do Islão e do Profeta [Maomé]”
©Ibrahim Alaguri | AP

Paul Sedra, cristão copta de origem egípcia, nascido em Toronto (Canadá), professor associado do Departamento de História da Universidade Simon Fraser (Vancouver) não esconde a inquietude. “A curto prazo, prevê-se que mais coptas venham a ser vítimas de agressão por parte de muçulmanos”, observou, numa entrevista, por e-mail.

“Desde a revolução no Egipto [em 2011] várias igrejas foram alvo de ataques e os perpetradores nunca foram punidos.”

Na quinta-feira da semana passada, por exemplo, o copta Albert Ayyad foi detido quando uma multidão se concentrou em frente à sua residência, no bairro de Marg, na capital egípcia, incitando a que fosse assassinado, por “ter difamado o islão” com um videoclip que, supostamente, colocou em redes sociais.

A mãe pediu protecção à Polícia, mas quando os agentes chegaram não dispersaram os agitadores. Pelo contrário, confiscaram o computador do filho e levaram-no para a cadeia, informou o diário Egypt Independent, citando a Association for Freedom of Thought and Expression. “Na esquadra, um responsável encorajou abusos físicos de outros reclusos contra Ayyad, que foi ferido no pescoço com uma lâmina.” Na sexta-feira, face a ameaças de que a matariam e incendiariam a sua casa, a mãe fugiu.

Os coptas (membros da Igreja Ortodoxa de Alexandria, na sua maioria, mas também católicos e protestantes) constituem ainda, apesar das perseguições, a maior comunidade cristã do Médio Oriente. Representam cerca de 10 por cento dos 82,5 milhões de habitantes do país mais populoso da região, e recusam ser descritos como “minoria”, porque antes da conquista islâmica eram dominantes no Egipto.

Inquirido sobre a aparente diferença entre uma nova geração de coptas egípcios, que rejeita o auto-isolamento (muitos estiveram da Praça Tahrir a exigir a queda de Hosni Mubarak e ofereceram-se como escudos humanos em mesquitas), e coptas na diáspora que perfilham facilmente o discurso islamófobo de cristãos fundamentalistas, Paul Sedra, que é também editor de Médio Oriente Moderno da revista académica History Compass, explica:

“É difícil fazer generalizações vagas sobre os coptas, seja no Egipto como na diáspora. Mas há razões para que alguns coptas, em particular na diáspora, usem uma retórica de islamofobia: 1) talvez estes coptas tenham deixado o Egipto por, sendo cristãos, terem sido discriminados, o que os fez adoptar uma atitude hostil em relação aos muçulmanos; 2) os coptas na diáspora podem falar abertamente desta discriminação, o que não é permitido no Egipto, e isso também contribui para as críticas aos muçulmanos; 3) os coptas na diáspora têm pouca ligação aos imigrantes egípcios muçulmanos, e este afastamento pode fomentar a intolerância.”

O facto de um extremista copta estar por detrás de Innocence of Muslims, adianta Paul Sedra, “levará a que, a longo prazo, os coptas temam uma maior marginalização e mais discriminação, não só da parte de muçulmanos egípcios mas do próprio Estado egípcio, agora que os pilares do poder são controlados, em larga medida, por islamistas”.

An Iranian Islamist female shouts anti-U.S. slogans while holding a copy of the Quran in front of the U.S. interest section within the Swiss embassy in Tehran, Iran, Sept. 13 2012. Reports state some 500 Iranian Islamists gathered to protest against an anti-Islam film made in the U.S. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Um Corão e slogans contra a América em frente à secção de interesses dos EUA na Embaixada da Suíça, em Teerão, a 13 de Setembro de 2012: protesto contra o filme Innocence of Islam
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Se na Líbia, o clamor popular contra os extremistas ajudou, parcialmente, a serenar o rancor político, sobretudo nos EUA, com o Presidente Barack Obama, em plena campanha eleitoral, a ser responsabilizado pelos adversários por aplicar “políticas falhadas”, o novo líder do Egipto, Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, também não se livrou de críticas ao seu silêncio inicial.

Paul Sedra analisa: “É difícil explicar o timing do filme – mas quanto à reacção das autoridades egípcias há duas possibilidades. A primeira, a mais plausível, para mim, é a de que o Presidente Morsi não estava preparado para esta crise, e foi apanhado desprevenido. Ele recebia, no Cairo, uma delegação americana quando os protestos começaram, e ficou, muito provavelmente, embaraçado com a tentativa de atacar a Embaixada dos EUA.”

“Morsi está apenas a começar o que irá ser uma prolongada batalha para assumir o controlo do gigantesco aparato estatal egípcio. E ainda se está a habituar a lidar com o protocolo e a forma de agir nestas circunstâncias. Afinal, ele é o primeiro Presidente democraticamente eleito desde a independência do Egipto.”

A segunda possibilidade, acrescenta Sedra, é a de que “o silêncio de Morsi foi deliberado, e que ele está a servir-se deste incidente para garantir ganhos políticos. Ninguém questiona que Morsi está envolvido numa luta séria pelo poder com várias forças políticas, mas o timing dos acontecimentos (coincidindo com a visita da delegação americana e os esforços subsequentes para melhorar as relações com os EUA e resolver o incidente da embaixada, sugerem que Morsi faz um esforço para evitar que os acontecimentos escapem ao seu controlo.”

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Alguns analistas, como Robert Wright, da Atlantic, ressalvando que não justifica a violência nem culpa a América, apontou pelo menos “três efeitos secundários” das políticas dos EUA que “têm sido ignorados” e contribuíram, presumivelmente, para a fúria gerada pelo filme.

Wright enuncia ataques com drones (veículos aéreos não tripulados) que têm causado numerosas vítimas civis em países muçulmanos; o apoio incondicional a Israel no conflito com os palestinianos; a presença de tropas ocidentais no Iraque e no Afeganistão.

“Tudo isto, que deixou muita gente melindrada, é interpretado como prova do desprezo americano pelo mundo islâmico, e o vídeo foi apenas mais uma confirmação”, comentou.

No caso do Egipto, um dos 40 países onde se registaram tumultos, o historiador Paul Sedra também encontra motivos para a animosidade que explodiu após a divulgação de Innocence of Muslims.

“Durante três décadas, o antigo Presidente Mubarak manteve uma paz fria com Israel e boas relações com os EUA, apesar de a maioria da população condenar os maus tratos aos palestinianos, por parte dos israelitas, e as repetidas intervenções militares americanas no Iraque”, constatou.

“Na sequência da revolução, os egípcios sentem que ganharam a liberdade que antes lhe era negada de se exprimirem sobre questões políticas. Não é, portanto, surpreendente que venha à superfície este ressentimento sobre os erros da América no mundo árabe, no passado.”

Até que ponto, no entanto, é que a ira contra um filme obsceno não serve também os salafistas intransigentes e a mais “pragmática” Irmandade Muçulmana em vésperas de novas eleições legislativas no Egipto? “É uma certeza que os salafistas estiveram inicialmente envolvidos na primeira vaga de protestos”, anuiu Paul Sedra. “Mas há dúvidas sobre se terão sido eles que instigaram um assalto à embaixada ou se encorajaram a violência.”

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Aziz Abu Sarah, designado National Geographic Emerging Explorer 2011 por dedicar a sua vida à tolerância e não à vingança depois de o seu irmão mais velho ter morrido, sob tortura, numa prisão israelita após ter alegadamente apedrejado soldados, considera que “o elemento político agravou uma situação delicada.”

“É tempo de eleições, nos EUA e Obama não pode baixar a guarda face a Romney, enquanto no Egipto, Morsi não pode mostrar que está ao lado do Ocidente para não afugentar votantes quando tenta uma maioria parlamentar”, disse o jovem natural de Jerusalém que criou uma agência de turismo em que dois guias, um judeu e um palestiniano, mostram os lugares disputados da “Terra Santa”, cada um com a sua distinta narrativa.

Inspirado pelas visitas em que leva judeus a campos de refugiados na Cisjordânia e palestinianos ao Museu do Holocausto de Yad Vashem, testemunhando o reconhecimento mútuo da dor, Aziz reprova a atitude dos media de “darem o pódio aos extremistas e não aos moderados.”

Cita um encontro que organizou com imãs defensores de uma “interpretação do Corão e dos hadith [tradição oral do tempo de Maomé], para ser alternativa e contrariar a doutrina exclusiva dos Taliban.”

Foi impossível reunirem-se em Cabul, no Afeganistão (teve de ser em Istambul, Turquia), por motivos de segurança: um dos convidados foi ameaçado de morte. Além disso, “nenhuma estação de televisão árabe fez a cobertura do acontecimento”, lamenta. “Também fomos ignorados no Ocidente, porque o que fazemos não é sexy! Para mim, é um quebra-cabeças.”

“Uma das histórias que aprendi na escola islâmica fala-nos de um vizinho de Maomé que detestava os muçulmanos”, conta Aziz.

“Diariamente, essa pessoa costumava deixar o lixo à porta da casa do profeta. Um dia, o vizinho ficou demasiado doente para despejar o lixo. O profeta, preocupado, foi visitá-lo para lhe oferecer assistência. É incrível, como a minha religião tem sido maltratada por muçulmanos que não são representantes de Maomé nem de Deus.”

Como biógrafo de Maomé, Omid Safi tentou imaginar como o “Mensageiro de Alá” agiria se tivesse visto Innocence of Muslims. “Convém não esquecer que o profeta e a sua comunidade sofreram insultos e perseguições durante pelo menos 13 anos na cidade em que ele nasceu, Meca”, recorda o académico que, embora tenha nascido nos EUA, tem vivido em vários países, de Marrocos à Índia, promovendo o misticismo sufi.

“Os mais fracos da comunidade foram espancados, torturados e até mortos. Depois de dez anos numa outra cidade, (Yathrib, renomeada Medina), Maomé teve a oportunidade de regressar triunfalmente a Meca. Poderia ter optado por se vingar daqueles que o maltrataram ou procurar outro caminho. E ele escolheu ser misericordioso.”

“Os extremistas que odeiam Maomé pretendem lançar-nos uma armadilha: que comecemos um novo ciclo de violência a terminar num banho de sangue para todos”, alerta Omid Safi.

“Não podemos cair nesta ratoeira. Naturalmente que todos os muçulmanos têm o direito de se sentirem ultrajados por mais esta provocação deliberada, mas sabemos que o profeta, tantas vezes alvo de troça, perdoou os inimigos para ser exemplo de moral elevada, mesmo nos momentos de glória quando tinha o poder de castigo.”

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Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 19 de Setembro de 2012 | This article, under a different title, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 19, 2012

 

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