Nem a crítica imbecil atinge o que é sagrado

Só em liberdade a imaginação funciona, diz Salman Rushdie. Mas o medo da ira religiosa obriga os criadores à autocensura. Um sacerdote católico, uma advogada muçulmana e um escritor judeu garantem que Deus e os seus profetas não são intocáveis. (Ler mais | Read more…)

Um vídeo colocado no YouTube, baseado num “filme” chamado Innocence of Islam, no qual Maomé, o profeta do Islão, é apresentado como “bandido, mulherengo e pedófilo” foi o detonador de uma vaga de ataques, visando sobretudo interesses norte-americanos, desde a Líbia ao Bangladesh (na foto, 13 Setembro 2012) © A.M.Ahad | AP

Um vídeo colocado no YouTube, baseado no “filme”  Innocence of Islam, no qual Maomé, profeta do Islão, é apresentado como “bandido, mulherengo e pedófilo” foi o detonador de uma vaga de ataques, visando sobretudo interesses dos EUA, da Líbia ao Bangladesh (2012)
© A.M.Ahad | AP

A 1 de Janeiro de 2006, em Santa Maria da Feira, Anselmo Borges ficou sentado ao lado de Salman Rushdie num seminário sob o tema Qual o Deus do Mediterrâneo? Ao remontar a esse tempo, numa entrevista que nos deu, o professor de Filosofia na Universidade de Coimbra lembra-se de o autor de Os Versículos Satânicos assumir que era ateu e ter ficado “muito admirado” quando ele, padre católico, defendeu “uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados, a separação da Igreja e do Estado, da religião e da política”.

Ainda sobre o escritor que publicou  em 2012 Joseph Anton: Uma Memória, sobre como foi viver ameaçado de morte por uma fatwa de Khomeini durante mais de uma década, acrescenta Borges: “Não fiquei com a impressão de arrogância; diria antes que tem consciência do seu valor.”

Em 2010, na mesma localidade, o sacerdote e académico voltou a participar num debate, intitulado Identidade, Liberdade e Violência, com outro “proscrito” Kurt Westergaard, que desenhou Maomé com um turbante em forma de bomba. Aqui, era evidente “a presença de muitos polícias”, talvez porque o caricaturista do jornal norueguês Jyllands-Posten, ao contrário de Rushdie, ainda vive, desde 2005, sob protecção para não ser assassinado.

“Penso que são intoleráveis condenações à morte, ameaças de morte, violência, tumultos e assassinatos por causa de um romance e alguns cartoons críticos”, sublinha Anselmo Borges, cronista e também autor de vários livros, que descobriu a vocação aos 19 anos, teve a primeira crise de fé aos 25 e ainda sente necessidade de “ajustar contas com Deus”, por haver “tanto mal no mundo”.

Rushdie, para quem “a imaginação só funciona quando é livre”, lamentou recentemente, em declarações à BBC Radio4, a censura que os criadores artísticos e seus editores se impõem pelo medo de ofender sensibilidades de determinadas culturas, em particular do Islão.

Talvez hoje, admitiu, não se tivesse inspirado nos Versículos Satânicos, expurgados do Corão, para publicar Os Versículos Satânicos. A sua ideia, garante, era mostrar um profeta que, perante a fraqueza (o demónio tentando-o a aceitar três deusas pagãs para poupar os crentes de Meca) se mostrou forte.

Anselmo Borges, padre católico, teólogo e professor de Filosofia: “Seja qual for o fundamentalismo, e venha de onde vier — esquece-se frequentemente que não é só islâmico, pois também há fundamentalismo judaico e cristão —, afirmo que ele só pode ser fruto da ignorância e da estupidez: de facto, quem somos nós, seres finitos, para poder dizer que possuímos o Fundamento?” © leduardolourenco.blogspot.pt/

Anselmo Borges, padre católico, teólogo e professor de filosofia: “Seja qual for o fundamentalismo, e venha de onde vier — esquece-se frequentemente que não é só islâmico, pois também há fundamentalismo judaico e cristão; e só pode ser fruto da ignorância e da estupidez”
© leduardolourenco.blogspot.pt

Sobre a “problemática da liberdade de expressão e respeito pela religião”, Anselmo Borges resumiu a sua reflexão nos seguintes pontos:

1) “Distingo entre a crítica inteligente, mesmo se mordaz e cáustica, e a crítica imbecil, de mau-gosto, soez;

2) A mim, mesmo esta não me incomoda enquanto crente. De facto, a crítica nunca atinge o Sagrado ou Deus em si mesmo, mas apenas as ideias e imagens que os crentes fazem do Sagrado ou de Deus, tantas vezes vergonhosas;

3) Considero uma aquisição saudável e irrenunciável a afirmação do filósofo Immanuel Kant: ‘O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado’, e isso ‘sobretudo nas coisas de religião’. Por isso, a própria religião, apesar da sua majestade, não pode considerar-se imune à crítica. Julgo que mostraria fraqueza, uma religião que não admitisse a crítica, mesmo quando é cáustica. Ai de nós, se não houvesse críticos da religião, que chamam a atenção para aspectos das religiões tantas vezes ridículos e supersticiosos;

4) Pergunta-se: e quem se sente ofendido? Resposta: não pode de modo nenhum recorrer à violência, mas deve ser-lhe garantido o direito de manifestação e de recurso às instâncias jurídicas adequadas;

5) Dito isto, acrescento que quem critica deveria evitar a crítica gratuita e ter em atenção a prudência, também a prudência política. Para lá de certos limites, a humilhação das pessoas, dos grupos e dos povos termina, inevitavelmente, em violência.”

O teólogo que frequentava o botequim de Natália Correia, fazia teatro no seminário, lia obras proibidas, tinha “cadastro” na PIDE e foi acusado de “herético”, em 1970, pelo Bispo de Portalegre e Castelo Branco adianta: “Eu compreendo, até certo ponto, o mal-estar e até o ressentimento dos muçulmanos em relação ao Ocidente, quando se pensa concretamente na guerra em curso no Afeganistão e, sobretudo, no Iraque.”

“Mas também penso que muitos desses países islâmicos não aproveitaram adequadamente a riqueza proveniente do petróleo para um desenvolvimento sustentável e democrático. Também tenho a convicção de que, em ordem à paz, é essencial o diálogo inter-religioso e este, entre outros pressupostos, implica a urgência de perceber que não se pode continuar com uma leitura literal dos livros sagrados. O Estado deve ser laico, portanto, não confessional, para poder garantir a liberdade igual de todos os cidadãos.”

“Quanto ao fundamentalismo, seja ele qual for e venha de onde vier — esquece-se frequentemente que não é só islâmico, pois também há fundamentalismo judaico e cristão —, afirmo que ele só pode ser fruto da ignorância e da estupidez: de facto, quem somos nós, seres finitos, para poder dizer que possuímos o Fundamento?”, acentuou.

Salman Rushdie, o autor de Os Versículos Satânicos, vivei vários anos sob ameaça de morte depois de uma fatwa emitida por Khomeini no Irão. A sua obra não gerou apenas manifestações de protesto (como na foto), mas ataques contra os seus tradutores. © Direitos reservados | All Rights Reserved

Salman Rushdie, autor de Os Versículos Satânicos, viveu vários anos sob ameaça de morte depois de uma fatwa emitida pelo Ayatollah Khomeini no Irão. A sua obra não gerou apenas manifestações de protesto (na foto), mas ataques contra os seus tradutores
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O “padre ateu”, como um dia o apelidaram sem que tomasse isso como ofensa, rejeita “um Deus que mete medo” e concluiu que “o inferno é uma invenção”, por isso, quando perguntamos sobre se alguma vez se autocensurou para evitar ser punido pela hierarquia da Igreja Católica, recomendou a consulta dos seus escritos.

Aqui, adianta, se encontram “afirmações explícitas a favor do fim da lei do celibato obrigatório para os padres; a favor da ordenação das mulheres e do uso do preservativo; nomeadamente quando, por causa da sida, está em perigo a vida das pessoas — neste caso, não só é permitido, mas obrigatório moralmente”.

Anselmo Borges frisa que condenou publicamente a pedofilia do clero, “ um crime hediondo e vergonhoso”. Quanto ao luxo ostensivo do Vaticano perante a pobreza de tantas comunidades cristãs, foi pertinaz: “Jesus não entraria lá e, possivelmente, a Cúria Romana é responsável por mais ateus do que Marx, Nietzsche e Freud.”

Sobre a caricatura de João Paulo II com um preservativo no nariz, desenhada por António para o semanário Expresso, Anselmo Borges não hesita: “O Papa tem de sujeitar-se à crítica e à caricatura como os políticos. Isso vai obrigar a pensar.”

E os filmes que irritam a Santa Sé, como A Vida de Brian, dos Monty Python, por exemplo, que a BBC recusou transmitir e foi interdito na Noruega e na Irlanda?

“Eu estava em Nova Iorque, quando apareceu o filme A Última Tentação de Cristo [de Martin Scorsese], e entrei no cinema ladeado por polícias. O filme [que levou uma multidão enfurecida a incendiar a sala onde se exibia em Paris e foi proibido e no México, Chile e Argentina] não me fez diferença nenhuma. Por que é que há-de ser condenável levantar questões, por exemplo, sobre a sexualidade de Jesus?”

Islamist bedroht Mohammed-Karikaturisten

Kurt Westergaard desenhou Maomé com um turbante em forma de bomba. Ao contrário de Salman Rushdie, que recuperou a liberdade (quando o Irão anulou a fatwa de morte de Khomeini) caricaturista do jornal norueguês Jyllands-Posten ainda vive, desde 2005, sob protecção para não ser assassinado
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Se, em 2005, os cartoons de Maomé indignaram o mundo islâmico, este mês um videoclipe, Innocence of Muslims, colocado no YouTube, injuriando o profeta do Islão, designadamente, como “bandido, mulherengo e pedófilo”, realizado e produzido por cristãos radicais, foi o detonador de uma vaga de ataques, visando sobretudo interesses norte-americanos, desde a Líbia ao Paquistão.

No entanto, para Ayesha Ijaz Khan, muçulmana paquistanesa residente em Londres, são mais políticas do que religiosas as razões do que alguns designaram como “a raiva muçulmana”.

O propósito, disse esta advogada, escritora e colunista, em declarações que nos fez, via Twitter e e-mail, “era provocar uma reacção violenta”, particularmente no Egipto, para afrontar a Irmandade Muçulmana, que triunfou nas legislativas e presidenciais.

Os autores do filme Innocence of Islam, que teve um só visionamento, com uma ínfima plateia, na Califórnia, “traduziram o trailer para árabe e enviaram-no a uma estação de TV dirigida por salafistas; foi como deitar gasolina a um fogo porque, tal como o produtor copta tencionava semear divisões entre cristãos e muçulmanos no Egipto, os salafistas daquele canal televisivo tinham, aparentemente, o mesmo objectivo. Em vez de ignorarem o filme, transmitiram-no, o que gerou o caos.”

“É muito importante notar aqui duas coisas”, constatou Ayesha Ijaz Khan. “Primeiro, o vídeo feriu os sentimentos de todos os muçulmanos praticantes porque mostrou o nosso profeta, que nós honramos, a uma luz negativa. Mas a maioria esmagadora dos muçulmanos, embora se tenha sentido ferida, não protestou.”

“Os mais violentos não estão tão preocupados com o profeta, mas em exibir o seu poder (por exemplo, como alguns partidos políticos marginais no Paquistão); e em explorar facilmente os sentimentos da população. Além disso, refira-se que, com uma elevada taxa de desemprego, uma inflação galopante e má governação, não é difícil levar as pessoas para rua, onde elas exprimem as suas frustrações de um modo violento.”

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Ayesha Ijaz Khan, advogada muçulmana paquistanesa, que viveu na Arábia Saudita antes de se mudar para Londres: “O vídeo Innocence of Islam feriu os sentimentos de todos os muçulmanos. Mas a maioria, embora ferida, não protestou. Os mais violentos não estão  preocupados com o profeta, mas em exibir o seu poder e em explorar facilmente os sentimentos da população”
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Outrora advogada em firmas paquistanesas e norte-americanas e agora colunista de “questões de significado político transnacional”, como a si própria se define, Ayesha Khan lamentou que o Governo em Islamabad tenha desempenhado “um papel muito irresponsável, ao declarar sexta-feira [passada] um feriado especial para os protestos.”

Em seu entender, “não havia necessidade disso e o único motivo foi político: vai haver eleições em breve e não há progressos. As pessoas chegam a estar 16 horas sem electricidade no pico do Verão em muitas regiões. Talvez os governantes quisessem tirar proveito de um tema que mexe com emoções.” Outro factor: “A percepção de que os Estados Unidos interferem na região iniciando várias guerras. Daí, também que a fúria dirigida contra a América seja encorajada por alguns líderes políticos.”

Anselmo Borges partilha a análise de Ayesha Khan: “Infelizmente, quem tem o poder exerce-o, e nem sempre a favor dos mais desfavorecidos e desprotegidos. Julgo que raramente se combate directamente por Deus e por motivos religiosos, mas por interesses outros que não os religiosos: interesses políticos, económicos, geoestratégicos.”

“Na maior parte das vezes, a religião é apenas invocada para legitimar a luta por esses interesses. E isso é assim de todos os lados e, infelizmente, em toda a parte. Devemos ser optimistas e combater pela liberdade e pela paz, mas não podemos ser ingénuos.”

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Uma cena de Innocence of Islam: Os autores do filme, que teve um só visionamento, com ínfima plateia, na Califórnia, traduziram o trailer para árabe e enviaram-no a uma estação de TV dirigida por salafistas no Egipto. Foi como deitar gasolina a um fogo
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Khaled Diab, jornalista egípcio e não crente, chamou a atenção, num artigo publicado no diário israelita Ha’aretz, para a Albânia, um país maioritariamente muçulmano, com “uma longa história de ateísmo” durante a ditadura comunista, onde “não há leis contra a blasfémia por insultos à religião e ninguém é perseguido por esse crime”.

Na Rússia, por outro lado, a banda feminina Pussy Riot foi condenada por “hooliganismo motivado por ódio religioso”, porque a sua “oração punk ofendeu o cristianismo”. Diab e a maioria dos analistas acham que foram castigadas por terem criticado “outra divindade”: o Presidente Vladimir Putin.

Tendo nascido no Paquistão e vivido na Arábia Saudita, que conselho daria Ayesha Khan para equilibrar a liberdade de expressão com a liberdade religiosa? “Não apenas nos países muçulmanos, mas também em grande parte do Oriente, e aqui incluo lugares como a Tailândia e a Índia onde a maioria das populações não é muçulmana, as pessoas são, de um modo geral, mais religiosas do que no Ocidente”, responde.

“Muita gente no Oriente respeita seriamente a religião, e muitos no Ocidente prezam seriamente os valores seculares, que incluem a liberdade de, por exemplo, troçar da religião. No Oriente, isto é uma irreverência e, de facto, existem até leis de blasfémia em muitos países. Creio que não podemos esperar que o Ocidente mude os seus ideais de liberdade de expressão do mesmo modo que não podemos esperar que o Oriente mude os seus valores religiosos. Hoje, e isso é evidente, o mundo é muito mais global.”

“No Ocidente”, continua “há também significativas populações migrantes que têm sistemas de valores ligeiramente diferentes. Por isso, a grande necessidade dos nossos tempos é construir pontes, tentar entender uma parte e outra, e procurar os valores universais. Por exemplo, creio que muitas pessoas concordarão que, talvez, não seja boa ideia ofender os outros sem razão e que, por outro lado, deve haver liberdade universal de religião.”

“As comunidades minoritárias, como os muçulmanos no Ocidente ou os cristãos no Paquistão e no Egipto, não devem ter medo de revelar a sua identidade e prática religiosa. No Ocidente, sei que há pessoas que atribuem todos os males ao Islão como “religião violenta” e que tratam os muçulmanos como “selvagens”; e nos países islâmicos também há pessoas para quem “a América é o demónio”. Este tipo de liberdade de expressão é, infelizmente, muito prejudicial para a harmonia e paz global.”

 

Um dos filmes que irritaram a Santa Sé foi A Vida de Brian, dos Monty Python. A BBC recusou transmiti-o e também foi interdito na Noruega e na Irlanda.

Uma das críticas que é feita aos líderes muçulmanos é, precisamente, a de que eles são rápidos a querer vingar-se dos que ofendem o Islão mas que também eles perseguem os cristãos ou os Bahá’ís (toda a liderança da maior minoria religiosa do Irão está na prisão), não permitindo a construção de templos ou incendiando os já existentes, negando o acesso a direitos básicos, imitando ou sendo ainda piores do que os que condenam.

“A lógica da vingança coloca-nos num beco de horror sem saída”, declara Anselmo Borges. “O perdão é um verdadeiro milagre, pois está para lá da justiça e do cálculo: nem a vítima é obrigada a perdoar nem o algoz tem direito ao perdão. O filósofo Derrida dizia que o pensamento da religião começa aqui: com o perdão. Mas, o diálogo não pode ser unidireccional. É necessário reconhecer que, ao contrário do passado, o cristianismo hoje é mais tolerante do que o Islão.”

“O Cristianismo é hoje a religião mais perseguida”, lamenta o padre e académico. “No Ocidente, de modo geral, os muçulmanos têm liberdade. No mundo muçulmano, pelo contrário, não sucede o mesmo com os cristãos, que se vêem mesmo impedidos de construir edifícios religiosos. No Médio Oriente, o cristianismo pode até desaparecer.”

Comenta Ayesha Khan: “Pessoalmente, sinto que há necessidade de conter os que promovem o ódio em ambas as partes. Não se trata apenas de comunidades minoritárias, como os Cristãos ou os Bahá’ís. Por vezes, o ódio também é pregado contra as mulheres. Isto tem de ser monitorizado pelos Estados, quer islâmicos como ocidentais.”

“Creio que, por vezes, no seu zelo pela ‘liberdade de expressão’, os países ocidentais permitem todo o tipo de prédicas mesmo que algumas delas violem totalmente as normas da sociedade ocidental, depois concluem que foram longe de mais e proíbem o que consideram ser símbolos como os minaretes na Suíça. Isto é contraproducente.”

 

O filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, onde se abordam questões como a sexualidade de Jesus, levou uma multidão enfurecida a incendiar a sala de cinema onde se exibia em Paris e foi proibido e no México, Chile e Argentina

“Há muitos muçulmanos, no Ocidente e nos países islâmicos, que interpretam a religião de modo a que seja totalmente compatível com a vida moderna, a democracia, os direitos das mulheres e ideais que todos partilham. São estes que deveriam ter o poder de dirigir as suas comunidades.”

“Mas isto só será possível se os sentimentos dos muçulmanos também merecerem respeito no Ocidente. Se assim não for, se eles estiverem constantemente a ser ridicularizados poderão não se sentir suficientemente fortes para liderar, porque facilmente serão renegados como traidores.”

Sobre as queixas de que o medo da ira dos muçulmanos, em particular dos muçulmanos, impele a autocensura, Ayesha Khan invoca de novo o Paquistão: “Enfrentamos aqui um gigantesco problema com os Taliban e grupos armados que operam com impunidade. Muita gente, incluindo políticos, tem perdido a vida por exprimir as suas convicções. Eu não me autocensuro demasiado, mas acredito que aqueles que discursam perante grandes audiências públicas sintam a necessidade de se retrair.”

Ayesha Khan acautela, porém, que “há também autocensura nos media mainstream ocidentais – o que aconteceu a Julian Assange [o fundador daWikiLeaks] é a prova disso”. É óbvio, reconhece, que “está ausente do Ocidente a situação débil em termos de lei e ordem que existe no Paquistão. E na Arábia Saudita, o controlo é ainda mais rígido, porque o Estado é que define o que se pode e não se pode dizer. No Paquistão, isso é imposto não tanto pelo Estado mas por grupos vigilantes que estão a conquistar o poder.”

Há um argumento que tem sido usado por vários analistas muçulmanos para que, tal como acontece em França, onde a negação do Holocausto e do genocídio arménio são criminalizados, os mesmos “peso e medida” sejam aplicados aos muçulmanos quando filmes (como Innocence of Islam) são, unanimemente, classificados de “incitamento ao ódio”.

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Roi Ben-Yehuda, judeu, israelita e americano: “A ofensa pessoal faz parte da nossa integração numa sociedade aberta. Se as pessoas são livres de criticarem também são livres de troçar”
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Roi Ben-Yehuda, escritor e jornalista israelita-americano, doutorado em Resolução de Conflitos na Universidade de George Mason, em Washington, observou: “Creio que leis contra a negação de qualquer coisa são erradas à partida.”

“Acabam por reforçar o poder ilegítimo ou tornar atraentes tabus estúpidos. Deixemos que o mercado das ideias afaste a obtusidade intelectual, a desonestidade e a falsidade. Se episódios históricos e reivindicações religiosas são tão frágeis que não podem suportar o escrutínio, então não há razão para nos exigirem autocensura.”

“Nunca me autocensurei conscientemente por medo de uma resposta inesperada contra mim”, disse-nos, por Facebook e e-mail, o autor do blogue Roi World e colunista de vários jornais e sites de referência. “No entanto, numa ocasião, na sequência de um pedido editorial, consenti com relutância em retirar conteúdo que poderia colocar os escritórios e o pessoal da publicação em risco. Dito isto, nunca me esqueço que tenho uma determinada audiência em mente, e gosto de pensar que as minhas palavras têm impacto nos meus leitores.”

Irmão de Yoni Ben-Yehuda, um rapper que agora actua a solo, como Sneakas, mas também fez parte de uma dupla (Most Hated) com o iraniano Mazzi Soul Purpose, Roi crê que a sua “audiência em mente, por mais fictícia que seja”, também o influencia. “Isso é óbvio na linguagem, no vocabulário e no estilo de escrita que uso.”

“É ainda visível na maneira como comunico e no contexto que apresento. Aprendi, ao longo dos anos, que a pior maneira de persuadir é atacar directamente as crenças e os valores mais íntimos dos outros. Posso autocensurar-me se acreditar que algo que escrevi vai impedir o debate e um nível elevado do discurso.”

Sobre se alguma vez o acusaram de ser self-hating Jew (judeu que se odeia a si próprio), acusação frequente, como a de anti-semita, geralmente para impedir críticas às políticas dos governos israelitas, Roi afirma: “A ofensa pessoal faz parte da nossa integração numa sociedade aberta. Se as pessoas são livres de criticarem também são livres de troçar. Esperamos sempre poder cultivar os media e a cidadania, e que se compreenda a diferença entre crítica e troça, mas isso é o papel da educação – no âmbito mais lato da palavra – e não do sistema legal.”

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Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Setembro de 2012 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 28, 2012

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