Entre os perigos do presente e os traumas do passado, ele escolheu a vida

Enquanto escrevia Até ao Fim da Terra, o mundo de David Grossman ruiu. Terminar o romance foi a maneira que o escritor israelita teve de reconstruir a sua vida – tijolo a tijolo, palavra a palavra – depois da morte do filho, num país às vezes errado. (Ler mais | Read more…)

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Quase conseguimos vislumbrar o sorriso tímido no rosto de David Grossman quando ouvimos a voz ternurenta do outro lado da linha.

O escritor – que uns veneram como “consciência de Israel” (ele prefere a expressão hebraica yafeh nefesh, significando “alma bonita” ou “coração que sangra”) e outros depreciam como “esquerdista ingénuo” – não esconde o quanto está feliz com a publicação de Até ao Fim da Terra.

Já traduzido para mais de 30 línguas, e agora em português, o livro começou a ser escrito em Maio de 2003, seis meses antes do fim do serviço militar do filho mais velho, Yonatan, e seis meses antes da incorporação do mais novo, Uri.

Em busca de inspiração para este romance, centrado naquela que é, provavelmente, a mais intensa das suas personagens ficcionais, Grossman caminhou durante 500 quilómetros ao longo do Israel Trail, do extremo Norte, na fronteira com o Líbano, até Jerusalém.

Era uma prenda que queria dar a si próprio ao completar 50 anos em 2004: impregnar-se do cheiro da terra e da cor do céu da “única casa do povo judaico”.

Mais importante, como refere na página 683: “Nessa época eu tinha o sentimento – ou, mais exactamente, o desejo – de que o livro que estava a escrever protegesse [Uri].” A história seria centrada numa mulher, determinou Grossman.

Porque ele considera o género feminino “mais resistente”. Ou como disse à New Yorker: se Deus tivesse pedido a Sara, e não ao submisso Abraão, que sacrificasse Isaac, ela teria respondido Fuck off!

E é assim que Ora, a protagonista, decide tornar-se na “primeira objectora da notícia” (p. 115) quando o filho Ofer se oferece como voluntário – do mesmo Corpo de Blindados a que pertenceram Yonatan e Uri – para uma operação militar nos territórios palestinianos ocupados, desistindo de acampar com ela na Galileia.

“Desceu as escadas à pressa, como uma fugitiva, as mesmas escadas que, daí a um dia ou a uma semana, ou talvez nunca, mas sabia que sim, não tinha dúvidas sobre isso, os mensageiros [do Exército] subiriam, em geral são três, é o que dizem, sim, subiriam em silêncio, seria possível acreditar que isso iria acontecer (…).”

“Quantas vezes se levantou para abrir a porta ao toque da campainha, ao mesmo tempo que dizia para si própria, já está, acabou-se tudo, mas agora aquela porta vai ficar fechada no próximo dia ou dois, e na próxima semana ou duas, e a notícia não será comunicada, porque para haver notícia são necessárias duas pessoas, pensou Ora, aquela que a entrega e aquela que a recebe, e essa notícia não terá quem a receba e por isso não será entregue.” (p. 114)

David Grossman confessa que “tinha o desejo” de o seu livro vir a proteger Uri (na foto), O filho morreu na chamada "Segunda Guerra do Líbano". © Direitos Reservados | All Rights Reserved

David Grossman confessa que “tinha o desejo” de o seu livro vir a proteger Uri (na foto), O filho morreu na chamada “Segunda Guerra do Líbano”
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Há algo de premonitório nestes excertos de Até ao Fim da Terra – ou não fosse o autor aclamado como o “profeta secular de Israel”. A caminhada de Grossman durou 28 dias.

Também Ora planeou lutar: “Durante alguns dias, não muitos, 28, menos do que um mês, para não receber a notificação” (p. 116). E às 2h40 de domingo, 13 de Agosto de 2006, também a campainha de David e Michal tocou. Pelo intercomunicador, uma voz anunciou: “É do gabinete do major”. Quando Grossman se encaminhava para a porta, disse para si próprio: “E pronto, a nossa vida acabou.”

O sargento Uri e a unidade que comandava foram mortos quando um míssil do Hezbollah atingiu o carro de combate em que seguiam, numa aldeia do Sul do Líbano. Faltavam duas semanas para que ele festejasse 21 anos e três meses para deixar a tropa. Planeava viajar pelo mundo e ser actor.

A 11 de Agosto, uma sexta-feira à noite, tinha telefonado à irmãzinha Ruti prometendo que passaria o Shabat com a família. Estava entusiasmado com a possibilidade de tréguas.

Na véspera, o pai e os escritores amigos Amos Oz e A.B. Yehoshua, que haviam apoiado o direito de Israel a defender-se após o ataque de Julho do Partido de Deus (cinco soldados mortos, dois raptados), exortaram publicamente o primeiro-ministro Ehud Olmert a aceitar um cessar-fogo negociado pela ONU. No fim-de-semana, porém, Olmert expandiu a frente de batalha.

No dia do funeral, David Grossman não aceitou as condolências do primeiro-ministro. Em 2007, quando recebeu um dos maiores prémios nacionais, recusou apertar-lhe a mão, mas fitou-o nos olhos e exigiu-lhe que reconhecesse o sofrimento dos palestinianos. Na altura, Ari Shavit, editorialista do jornal Ha’aretz, enalteceu-o como “o Martin Luther King de Israel”.

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Disse numa entrevista (The Paris Review) que leva “muito a sério” a literatura porque “é como lidar com explosivos”, e que os livros “podem e devem mudar não só a vida dos leitores mas do próprio autor”. Este livro, Até ao Fim da Terra, mudou a sua vida?

Se mudou a minha vida? (Um longo suspiro) Sim, acho que mudou a minha vida… (Suspiro) Esta é uma pergunta tão pessoal. Bem, quase todos os livros que escrevi mudaram-me um pouco, ensinaram-me coisas, amadureceram-me. E naturalmente que este livro, cujo título em hebraico é Uma mulher que foge das notícias, é muito íntimo. (Suspiro) Podemos avançar para a próxima pergunta? Voltamos aqui depois.

Fale-nos então do que se está a passar em Israel, porque este livro, depois de um longo hiato que a si próprio impôs, aborda claramente “a situação”. Dois homens (um deles veterano deficiente das forças armadas) imolaram-se pelo fogo; a paz com os palestinianos está moribunda; uma comissão oficial recomendou a legalização dos colonatos judaicos nos territórios ocupados; os imigrantes negros estão a ser alvo de agressões e comparados a cancro. Como vê a “situação”?

Eu vejo que Israel se encontra num estádio muito perigoso, por todos os aspectos que mencionou mas também porque permanece o perigo real de uma guerra com o Irão. Nesta região, a opção da guerra está sempre presente.

De momento, identifico dois problemas principais: o primeiro é a nossa relação com os palestinianos que se encontra num impasse muito bizarro. Há a ilusão de que nada acontece; parece que os palestinianos estão, de certo modo, a colaborar com a ocupação israelita, mas não há diálogo entre nós e os palestinianos.

Israel continua a expandir os colonatos nos territórios ocupados – ainda recentemente foi construída uma universidade [no colonato de Ariel], o que é perturbador.

O segundo problema é a situação económica, que é também um mistério porque, por um lado, Israel tem uma economia que prospera e escapou à crise mundial, e, no entanto, há tantas pessoas em Israel que são pobres e não têm meios de sustento; e as pessoas não estão a ver a relação entre a pobreza e o gigantesco investimento que é feito na colonização dos territórios ocupados.

Israel comporta-se como um lunático que, ignorando o perigo, caminha à beira de um telhado e aqui adormece, sem saber como vai despertar. Espero sinceramente que este despertar não surja sob a forma de um ataque ao Irão.

Porque isso terá graves consequências durante vários anos, não só para Israel mas para toda a nossa região, e para o futuro da paz entre nós e os nossos vizinhos. Mas sim, tentei desligar-me desta situação política. Sentia que não podia misturar a minha ficção com “a situação”, porque escrevi sobre ela durante muito tempo.

Fiquei com a sensação de que nada mudava e de que tudo o que eu escrevia soava a coisas que eu já dissera centenas de vezes. Cada palavra era como um cliché do discurso político. Não tive outra escolha a não ser seguir uma via só literária.

Claro que me mantive activo na política, assinando petições, participando em manifestações, em conferências, nos Acordos de Genebra… Fiz muita coisa. Mas não quis misturar isto com a literatura.

Uma parte tão grande da nossa vida interior já é confiscada pela “situação”, as nossas energias são tão esgotadas pelo conflito… Havia muitas outras coisas sobre as quais eu queria escrever para poder entender, como as relações entre homens e mulheres, ou entre país e filhos, ou entre amantes.

Por isso, durante anos concentrei-me em escrever livros sobre temas diversos, como adolescentes sem-abrigo em Jerusalém [‘Someone to run with‘]; sobre ciúmes [‘Be my knife‘]; sobre um herói banal [‘O Mel do Leão: O Mito de Sansão‘]…

Escrevia sobre tudo isto mas nunca deixei de procurar uma maneira de integrar as duas componentes: reflectindo sobre o dia-a-dia e, ao mesmo tempo, sobre “a situação”.

Como é que este conflito irradia para a vida de um indivíduo ou de uma família, e como é que os muda; como é que afecta as suas relações, os laços entre pais e filhos quando estes entram no Exército, a intimidade; como é que se lida com a negação da realidade, as verdades e as mentiras nos casais?

Ora, a protagonista do meu livro, é uma mulher que personifica isso e recusa colaborar com “a situação”. Eu tinha de escrever este livro quando a ideia surgiu.

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E como é que a ideia surgiu?

Eu demoro sempre imenso tempo a escrever. A história já existia, eu só tinha de me esforçar mais para ir desmontando as várias camadas, uma a uma, até à minha própria rendição. Às vezes, as personagens são difíceis e contraditórias para mim, mas eu tenho ceder perante elas. E quando isso acontece, é um prazer imenso.

No caso deste livro, por exemplo, eu sabia desde o início que a figura principal teria de ser mulher. E gostava da ideia de uma caminhada por Israel.

Queria fazer essa imersão e escrever sobre ela. Precisamos deste contacto físico com o país, porque é a maneira mais autêntica de apresentar a tragédia da nossa existência, a dificuldade, o perigo, a necessidade, como povo judeu, de preservar este lugar.Este é o país que amamos, mas não temos a certeza de que sobreviverá.

Queremos que este país seja a nossa casa porque é o único a que podemos chamar casa, mas somos incapazes, talvez devido a certas deformações históricas, de dar os passos necessários a transformá-lo numa verdadeira casa.

Uma grande parte do processo de escrita deste livro foi a minha caminhada pelo chamado Israel Trail. Andei cerca de 500 quilómetros, desde o extremo Norte de Israel até à minha casa em Jerusalém.

Andou durante quantos dias?

Toda a caminhada terá durado uns 28 dias. Caminhava todos os dias entre 15 e 20 quilómetros. Foi um prazer e uma experiência que nunca antes tivera, a de andar sozinho. Costumava passear com a minha mulher, mas é diferente quando se está sozinho.

A companhia de outra pessoa faz com que nos centremos nela, não nos dá a oportunidade de apreciar o que está à nossa volta.

Nessa caminhada encontrei muitas pessoas e, entre nós, surgiu desde logo um sentimento de companheirismo. É engraçado que, desde a publicação do livro, várias pessoas vão pelo Israel Trail com o livro e, às vezes, telefonam-me e dizem: ‘Hei David, estamos aqui no Monte Meron, de que falas na página X…”

Na natureza, até quando encontramos pessoas com diferentes posições políticas das nossas as discussões têm uma temperatura amena – o contrário do que acontece em Israel, onde o debate político é agressivo e hostil.

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Escolheu uma mãe e não um pai por achar que as mulheres “são mais resistentes do que os homens” e que se Deus pedisse a Sara, e não a Abraão, que sacrificasse o seu filho, ela talvez tivesse respondido Fuck off!. Ora, a protagonista, também caminha “até ao fim da terra”, mas acompanhada. Quanto é que de David Grossman existe em Ora?

(Uma gargalhada) De início, nem sempre compreendo porque me sinto tão atraído por algumas personagens, homens ou mulheres. No final, entendi o quanto de mim há em Ora; e também o contrário: o que há de Ora em mim. Escrever sobre ela permitiu que eu me tornasse nela.

Não foi fácil. Debati-me com ela durante mais de um ano. Depois, rendi-me – a partir daí foi mais fácil. Senti-me em casa com outro ser humano, o que é um deleite. Até as posições políticas de Ora, que são muito mais flexíveis do que as minhas, ela dá-se ao luxo de as exprimir de uma forma que eu jamais me permitiria. Ela tanto pode dizer as coisas mais ultrajantes de extrema-direita como coisas totalmente esquerdistas.

O que gosto nela é o facto de ser uma pessoa normal presa numa situação anormal. Portanto, ela age em conformidade. Não se prepara previamente. E isso foi uma parte do que ela me ensinou, porque tendo sempre a preparar as minhas posições.

É preciso sermos flexíveis, agir segundo as nuances da situação, porque a situação está repleta de contradições internas, de sombras, de dúvidas. Ora permite-se essas dúvidas, deixa-se atormentar e, por isso, ela é uma womensh – uma mulher autêntica.

Ora não deixa ninguém indiferente. O amor que ela exprime pelo filho Ofer faz com que olhemos para os soldados israelitas não apenas como “máquinas de matar o inimigo”, mas como jovens que deixam para trás famílias angustiadas e destroçadas…

Obrigado.

Será que Ora, cuja história é atravessada por conflitos pessoais interiores e exteriores, não apenas guerras, é um dos retratos de Israel?

De certo modo, sim. Mas não a escrevi para ser um símbolo. Se assim fosse, ela não seria uma pessoa real, muito concreta. Mas agora que o livro foi traduzido para 32 línguas apercebo-me de que, através dela, talvez seja mais fácil compreender Israel e entender a complexidade do conflito; ver o que acontece a um ser humano decente quando se vê prisioneiro dele.

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Quando estava a escrever este livro, nas suas caminhadas, costumava falar com o seu filho [“Uri conhecia bem o enredo (…). Sempre que falávamos ao telefone, e sobretudo quando vinha de licença, perguntava o que havia de novo na história e nas vida dos personagens. (‘O que é que lhes fizeste esta semana?’, era a pergunta invariável.) – p. 683] Depois dessas conversas, que partes adicionou ou alterou seguindo os conselhos de Uri?

Bem, isto é mesmo privado. Uri cumpriu serviço militar nos territórios ocupados e estava a par de toda a terminologia profissional e do que se passava nos checkpoints. Ele partilhava a dificuldade que era manter a humanidade ali, enfrentando camaradas mais agressivos para quem os palestinianos só eram inimigos.

Esteve em contacto com as contradições do conflito, e debatia-se para não ceder às pressões dos comandantes, ou dos seus próprios medos e suspeições. Tudo isto aprendi com Uri.

No início desta entrevista, perguntou-me se este livro mudou a minha vida e percebeu como foi difícil, para mim, responder.

Agora já posso dizer-lhe que (pausa), depois de Uri cair [morrer], há seis anos, voltei a pegar no livro para o acabar. E fi-lo porque para mim escrever é sempre uma maneira de compreender a minha vida e de exprimir o que eu sinto e como devo agir.

Há seis anos, só me restava uma opção: acabar este livro. Tinha de permanecer leal à história, sem a alterar devido ao que acontecera.

Havia uma lógica na história – uma lógica no final. E eu já tinha definido o final. Lembro-me de, após a partida do meu filho, eu estar sentado no meu estúdio à procura da palavra certa e, de repente, interpelar-me: ‘Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?’

Depois, percebi que estava certo – é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. Insisti em fazer estas pequenas coisas no caos que me rodeava.

Senti-me como uma pessoa cuja casa é destruída por um sismo, e que vai até aos destroços e tenta reconstruir a casa, colocando um tijolo sobre outro tijolo, sobre outro tijolo…

Para mim, cada palavra era um tijolo. Foi a maneira de eu regressar à vida. Após algumas semanas ou meses, eu já era capaz de fantasiar de novo, de infundir vida, amor e paixão nas minhas personagens. De sentir como elas estavam vivas.

Para mim, foi como escolher a vida, a partir da gravidade do desespero e da dor. Esta é a resposta à sua primeira pergunta.

Há uma parte do seu livro que parece reflectir os conselhos e a humanidade que atribui a Uri, quando Ora contrata Sami, o taxista árabe e amigo da família, para levar Ofer, o seu filho, ao ponto de encontro dos soldados que vão, provavelmente, matar palestinianos. Quem a desperta para a dolorosa realidade é o filho (“O que é que te deu? (….) E não pensaste nos sentimentos dele ao transportar-me para aqui? Imaginas o que isto significa para ele?” – p. 80)…

Sim é verdade. E há também a parte [pp. 163-167] em que, quando começam as operações militares, Sami e Ora estão no carro a ouvir duas estações de rádio, uma israelita e uma palestiniana, cada uma com a sua diferente narração dos acontecimentos. E, subitamente, vemos como duas pessoas gentis, que gostam uma da outra, se transformam em lobos.

Sei isto pela minha experiência: quando deixamos de ser nós próprios, tornamo-nos representantes de algo maior do que nós, seja uma posição política, religiosa ou nacional. Deixamos de ser humanos para nos tornarmos panfletos. E os panfletos são terríveis. Deixamos de ser nós próprios. “A situação” confisca-nos, usa-nos e abusa-nos.

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A amizade e a confiança entre Ora e Sami sofrem um duro abalo, quando ela o “força” a transportar Ofer com uma arma que lhe rasga os estofos do táxi. Isso leva-nos a perguntar-lhe se a coexistência, uma das suas causas, não é uma ilusão, um sonho, uma fantasia? Um activista palestiniano disse que recusava “continuar a ser vítima do medo dos israelitas”. Até que ponto é que o sentimento de vitimização, de um lado e do outro, inviabiliza a paz?

Eu quero distinguir entre sonhos e ilusões, porque as ilusões são perigosas na nossa região; os sonhos são legítimos e podem ser frutíferos. O Estado de Israel começou por ser um sonho em que muito poucas pessoas acreditavam.

Eu acredito em sonhos realistas. Neste momento, a realidade é que o movimento a favor da paz é muito fraco. Há grande apatia nas pessoas, que não sentem que algo possa mudar.

A culpa é lançada toda para o outro lado. “Paz” é uma palavra que desapareceu totalmente do vocabulário político. Já ninguém fala de paz, excepto algumas organizações marginais. “Paz’ tornou-se sinónimo de entregar Israel aos seus piores inimigos.

Precisaremos de muitos anos para de novo legitimar a palavra. É muito duro separar os perigos reais que Israel actualmente enfrenta e que não se podem ignorar, como o Irão – e isto não é uma paranóia, porque Israel ainda não é aceite no Médio Oriente onde muitos Estados árabes negam a legitimidade da sua existência -, dos ecos dos traumas do passado.

O senhor Netanyahu [primeiro-ministro] tem sido uma mestre de manipulação ao misturar ambos. Este nó é muito difícil de desatar. Mas se não soubermos desatá-lo vamos continuar a combater, a matar e a ser mortos.

É preciso distinguir ambos: sim, sofremos traumas no passado; sim, Israel não pode confiar na boa vontade dos árabes para sobreviver; sim, Israel precisa de um Exército forte para se defender – desculpe ser tão explícito, mas esta é a situação, e até os meus amigos árabes reconhecem isto. No entanto, a força e o poder militar não podem ser os únicos meios de garantir o nosso futuro aqui.

É preciso dialogar com os nossos vizinhos. Actualmente, a paz não tem agentes na nossa região; só a guerra e a beligerância têm agentes. Temos de criar uma atmosfera em que floresça a confiança mútua, para não nos rendermos aos estereótipos, aos preconceitos, ao ódio.

É tão tentadora esta rendição, porque torna tudo tão fácil, porque resolve os nossos dilemas morais. Mas é preciso encontrar uma forma de combater o fanatismo – religioso ou nacionalista. As pessoas estão confusas, e o fanatismo fornece-lhes respostas rápidas que satisfazem as suas frustrações. Infelizmente, o nosso governo está a seguir o caminho errado.

A situação em Israel está a deteriorar-se: não podemos ter um sistema de apartheid nos territórios ocupados (não tão severo como na antiga África do Sul, mas apartheid ainda assim) e democracia aqui. Não resulta – e estamos assim há 45 anos.

Isto vai explodir, se continuarmos na ilusão de que podemos ter ocupação e democracia. O que me aterroriza é que as pessoas estão a habituar-se. Este meu livro, Até ao Fim da Terra, pode ser um sinal de alarme que obrigue as pessoas a inverter a marcha.

Não lhe parece que um dos problemas entre israelitas e palestinianos é que uns e outros tendem a concentrar-se demasiado nos seus próprios traumas e recusam reconhecer o sofrimento do “outro”? A protagonista do seu livro, Ora, quando é conduzida por Sami para socorrer uma criança árabe (pp. 111-140), tenta compreender a dor de que está a ser testemunha; na vida real, todavia, parece imperar a cegueira. Sem este reconhecimento mútuo do sofrimento, a paz é possível?

Quando as pessoas se sentem aterrorizadas não têm a generosidade para ver os problemas dos outros. Isto é mútuo. O primeiro passo para a reconciliação tem de ser reconhecer o sofrimento do outro – e pedir desculpa. É um processo psicológico que tem de ser empreendido.

No final do seu livro, Ora pergunta a Avram: “Será que cometemos um erro? Que não percebemos nada desde o início? Todo este caminho, toda esta caminhada.” Para David Grossman, valeu a pena?

Os livros de que gosto mais são aqueles que são inevitáveis – e este era.

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 1 de Agosto de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 1, 2012

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