O objecto sagrado do profeta secular

A imaginação de David Grossman é tão prodigiosa que confirma o aviso de Amos Oz: a palavra “ficção” não existe em hebraico. Tudo é existencial. (Ler mais | Read more…)

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(…) Arranca, disse quando se sentou ao lado de Sami.

Para onde?

Ela pensou durante um momento e, sem olhar para ele, disse:

Até onde o país acabar.

Para mim já acabou há muito tempo, silvou ele. (pág. 161)

Um livro que, no mesmo dia, em Israel, merece os elogios de um dos mais controversos activistas da esquerda (Gideon Levy) e de um dos mais acutilantes porta-vozes da direita (Effie Eitam) tem de ser universal. Ou como sublinhou Jacqueline Rose, académica judia britânica, “não fazemos nenhum favor” a David Grossman se transformarmos Até ao fim da terra num “objecto sagrado”.

É inegável que já atingiu um “estatuto mítico”, a partir do momento em que o processo de escrita foi interrompido pela morte de Uri, filho do autor. É deste destino que Ora, a protagonista comparada pelo romancista americano Paul Auster a Anna Karenina, de Tolstoi, e a Emma Bovary, de Flaubert, quer salvar o seu próprio filho, o soldado Ofer.

Ora é, pois, a força centrifugadora do monumental Até ao fim da Terra, 684 páginas na edição portuguesa Dom Quixote/LeYa), com uma brilhante tradução (e notas), a partir do hebraico, de Lúcia Liba Mucznik. Mulher de meia-idade (seca, murcha, varizes, verrugas, gordura, lábios, aquele seu lábio, seios, flacidez, manchas, rugas, carne, carne – pág.301), mãe de Ofer e de Adam, recentemente abandonada pelo marido, o advogado Ilan, Ora decidiu “fugir” de casa quando Ofer se ofereceu como voluntário para uma ofensiva na Cisjordânia.

Desiludida e desorientada por o filho ter preferido a adrenalina do combate à mansidão de um passeio pela Galileia, para celebrar a sua iminente desmobilização do exército, Ora arrasta consigo primeiro Sami, o taxista palestiniano (motorista era a profissão do pai de Grossman), empregado e amigo da família; depois Avram, o artista, antigo namorado e ex-prisioneiro de guerra do Egipto na guerra do Yom Kippur, em 1973.

Curiosamente, foi durante este período, numa base na Península do Sinai, que David conheceu a recruta Michal Eshel, psicóloga com quem haveria de se casar e que impediu que ele sucumbisse à “arrogância do conquistador”.

Não é de estranhar, portanto, o realismo com que Grossman descreve não apenas os dramas, físicos e psicológicos, de Avram, companheiro de Ora (e o pai relutante de Ofer), mas também a dor e o amor que unem todas as personagens.

Antigo jornalista que se alistou no Tsahal em 1971 e serviu numa unidade de espionagem por ser fluente em árabe, Grossman não esconde que, a partir de 1967, ficou inebriado com a ideia de Israel se ter tornado “um império em seis dias”, ao derrotar e humilhar os árabes.

Michal fez dele um “ateu esquerdista” e hoje – apesar de Uri ter sido morto no Líbano – toda a família se junta, às sextas-feiras, no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Leste, numa vigília nocturna em solidariedade com desalojados por colonos judeus.

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Em Até ao fim da terra, o autor de O Vento Amarelo (fruto de uma investigação que despertou os israelitas para o infortúnio dos palestinianos sob ocupação), de Sleeping on a Wire (a angústia dos palestinianos de cidadania israelita obrigados a ser leais a um Estado que se classifica como judaico) e Smile of the Lamb (a amizade entre um soldado, chamado Uri, e Khilmi, um árabe contador de fábulas) regressa assim, pela primeira vez desde há vários anos, à “situação” (ha-matsav), ou o conflito.

Neste romance, sem ordem cronológica, Grossman infiltra-nos na intimidade de núcleos familiares, fazendo-nos trepar penhascos e enredar nos espinhos; adivinhar pensamentos, dividir culpas, palpar cicatrizes, saborear desejos, gemer medos.

Como o pavor de Ofer, numa noite em que arde em febre e delira, “vendo um árabe no quarto”. Ora acende a luz e invoca Sami, o motorista, “que também é árabe e não é inimigo”. O rapaz não sossega.

Na manhã seguinte, ela leva-o até Latrun, monte estratégico anexado por Israel e que permitiu o livre acesso a Jerusalém, depois de arrasadas três aldeias palestinianas. Aqui, num museu militar, expõem-se dezenas de carros de combate.

E foi aqui que Ofer subiu a um tanque soviético para se sentir invencível. Porquê Latrun?, perguntou Avram. Pensei que o que é bom para um país inteiro, também é bom para o meu filho. (Páginas 451-453)

Ilan e Adam saíram do país em férias. Ofer foi para a guerra. Ora e Avram emaranham-se na Galileia – ela fala e ele ouve. Todos parecem em fuga e, ao mesmo tempo, todos são resistentes. É como um tributo de Grossman ao país que ele nunca considerou “um refúgio” mas “a casa” do povo judaico.

O lugar onde a sua avó paterna, um tenaz viúva polaca, se instalou com o filho e a filha, depois de uma viagem de autocarro, comboio e barco, no final da II Guerra Mundial – não por ser religiosa mas porque um polícia a insultou na rua.

Ela personifica uma citação da antropóloga americana Margaret Mead que David tem em destaque na sua secretária: Nunca subestimem o poder de um pequeno grupo de indivíduos de mudar o mundo; na realidade, eles foram os únicos que conseguiram.

Grossman é um sabra, como se designam os judeus nascidos em Israel, tal como a sua mãe, Michaella. O pai, Yitzhak (bibliotecário depois de reformado da empresa de transportes), foi quem lhe incutiu o gosto pelos livros.

E revelou-se fundamental quando chegou o momento de escrever aquela que é elogiada, por muitos, como a obra-prima, Ver: Amor.

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Yitzhak “apresentou” ao filho o ucraniano Sholem Aleichem, um dos maiores escritores em yiddish, dizendo-lhe: “Era assim que as coisas se passavam lá”.

Até ler Aleichem, cujas histórias inspiraram Um Violino no Telhado, David pensava que o Holocausto “pertencia aos adultos”. Durante duas gerações, a do seu pai e a sua, as conversas sobre campos de concentração eram desviadas quando crianças estavam presentes.

Indelével foi também o momento em que, no dia do casamento de David, uma tia, sobrevivente de Aushwitz, decidiu tapar com um penso rápido o número tatuado pelos nazis num dos seus braços. Ela não queria “atrair o azar”, e o sobrinho pensou: “Deve ser terrível sentir-se culpada pelo que lhe fizeram.”

Ao perder Uri, David tentou relativizar o sofrimento pessoal, lembrando-se que toda a família do avô foi dizimada no Holocausto. “Que coragem super-humana a de dar filhos ao mundo depois da Shoah!”

Por tudo isto, Grossman fez de uma criança, Momik, a figura central de Ver: Amor. Este miúdo investiga, clandestina e minuciosamente, “o país habitado pelo Mal nazi” e, mais tarde, já adulto e escritor, continua a descodificar o Holocausto, deixando-se “infectar pelo vírus da humanidade”.

O livro aplaudido como “de uma potente ressonância, beleza luminosa e visão excepcional”, termina com uma oração. Pedimos tão pouco: que um homem possa viver neste mundo da nascença até à sua morte e nada conhecer da guerra.

Se Ver: Amor já tinha sido “uma necessidade de se entender como pessoa, como homem, como pai, como escritor, como judeu, como israelita”, Até ao fim da terra (“um épico doméstico” segundo o autor) foi também “uma escolha da vida”.

David Grossman, o “profeta secular” de Israel, escreve sobre existência e ameaças existenciais. A palavra “ficção”, como disse outro escritor, Amos Oz, não existe na língua hebraica.

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 1 de Agosto de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 1, 2012

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