Celebridades do novo Estado da ONU

Incomodada com a imagem do seu povo distorcida como a de refugiados e/ou terroristas, Sherri Muzher, filha de uma professora de Bir Zeit e de um químico de Taybeh, na Cisjordânia, criou o website Palestinian Surprises. Objectivo: destruir mitos e estereótipos. (Ler mais | Read more…)

Festejos na Praça Arafat, em Ramallah, Cisjordânia ocupada, o reconhecimento pela ONU da Palestina como Estado observador
© Atef Safadi | EPA

Há nomes famosos, como os do ensaísta Edward W. Saïd, que escreveu Orientalismo, de Hanan Ashrawi, a académica que foi serviu de ponte com a OLP na primeira conferência de paz israelo-árabe (Madrid 1991) ou do cineasta Elia Suleiman, que realizou Intervenção Divina.

Mas já ouviu falar de Dean Obeidallah, Mariam Tamari, John H. Sununu, Hiam Abbass, Hany Abu-Assad, Nathalie Handal ou Rami Kashoú, por exemplo? Também eles são célebres, mas ainda não apagaram a percepção de que os palestinianos são “apenas vítimas”. A activista Sherri Muzher deu a si própria “permissão para narrar” uma história diferente.

Filha de Afaf (Musallam) Muzher, professora em Bir Zeit, e de Ead Michael Muzher, um químico de Taybeh, duas cidades da Cisjordânia, Sherri nasceu há 42 anos [em 2012] em Michigan, nos Estados Unidos, depois de os pais se mudarem para aqui, “de modo a escaparem a uma ocupação [israelita] sufocante.”

A família procurava “um futuro brilhante”, mas não foi fácil para Sherri, crescer na América como “descendente de palestinianos”, apesar de, licenciada em Jornalismo (1991) e Direito (1999), ter trabalhado durante mais de uma década para o estado do Michigan, na área da comunicação.

“Só fui à Palestina uma vez, embora tivesse sido por um triz que não nasci em Jericó [cidade na fronteira com a Jordânia]”; mas guardo tantas memórias, desde uma visita inesperada a uma tia-avó até à humilhação que passei nos checkpoints” do exército israelita, diz-me Sherri, numa entrevista por Facebook, onde o seu blogue Palestinian Surprises [agora com novos administradores – Holy Land Christian Ecumenical Foundation, e com exposição no Museu de Belém, na Cisjordânia] tem uma página. “Fui educada num lar nacionalista e secular onde o orgulho pela herança palestiniana era importante. “

Com artigos publicados (e traduzidos para espanhol, alemão, francês e japonês) no USA Today, Baltimore Sun, Washington Times, Toronto Star, Jordan Times, Palestine Chronicle, Lebanon Daily Star e Middle East Affairs, designadamente, Sherri define-se como “alguém que escreve em defesa da justiça”, com o propósito de “desfazer estereótipos, clarificar mitos e apresentar a perspectiva palestiniana.”

Se esperavam dela euforia com a elevação da Palestina a Estado observador da Assembleia-Geral das Nações Unidas, depois de uma votação histórica no passado dia 29 de Novembro, ela justifica a apatia: “Apesar da retórica ocasional dos extremistas em ambos os campos, os palestinianos não vão abandonar a sua pátria e os israelitas também não. Partilham o mesmo território e os mesmos recursos naturais. As suas economias estão interligadas.”

“Os colonatos judaicos impossibilitam uma separação física. A única solução é um Estado democrático binacional em que Palestinianos e Israelitas vivam como iguais e sejam obrigados a fazer com que [essa existência] resulte.”

“O estatuto de observador na ONU não é, para mim, mais do que simbólico. Espero estar errada. Importa-me é que os Palestinianos avancem no sentido de uma verdadeira autodeterminação e de um futuro de segurança que dê uma esperança mais luminosa aos seus filhos.”

Sendo cristã, também se poderia esperar que Sherri Muzher se insurgisse contra a aparente islamização da sociedade palestiniana, mas ela não distingue religiões. Explica: “Na Palestina, os palestinianos cristãos e os muçulmanos estão unidos pelo objectivo da libertação. Há uma expressão hebraica, Aravi hu Aravi, que significa, basicamente, ‘um árabe é um árabe’. Não interessa se o palestiniano é cristão ou muçulmano- será tratado da mesma forma.”

“A limpeza étnica e o êxodo em 1948 devastaram TODOS os Palestinianos”, sublinha Sherri. “O mesmo se aplica à ocupação. Entendo o valor em termos de relações públicas de os israelitas ignorarem os palestinianos cristãos. Afinal, depois da de o islão ter sido barbaramente classificado como vilão depois do 11 de Setembro, por que deixar que os apoiantes [de Israel] saibam que os cristãos também estão a ser perseguidos?”

Sherri Muzher : Académica, jornalista, activista

A académica, jornalista e activista Sherri Muzher, criadora de Palestinian Surprises @DR (Direitos reservados | All Rights Reserved)

Sherri Muzher, a criadora do site Palestinian Surprises
© Cortesia de | Courtesy of Sherri Muzher

Nascido em Jerusalém, de uma família cristã, tendo vivido no Cairo e nos EUA, Edward Saïd “revolucionou os estudos do Médio Oriente com a sua obra-prima, Orientalismo, publicada em 1978”. Argumentava que “as percepções do Ocidente em relação à cultura do Médio Oriente estão repletas de estereótipos irracionais e violentos para justificar o colonialismo ocidental na região”.

Podem ouvi-lo aqui. Defensor de “um único Estado democrático com direitos iguais para os seus cidadãos”, Saïd formou, com o maestro e compositor israelita-argentino Daniel Barenboim a orquestra juvenil West-Eastern Divãn, que junta músicos de Israel, Palestina e vários países árabes, relembra Sherri.

“Ele falava frequentes vezes sobre como foi negada aos palestinianos uma voz para narrarem a sua história e contarem as suas vidas nos media e na cultura populares. As suas palavras tornaram-se conhecidas como ‘Permissão para Narrar’. E é essa permissão para narrar’ que o meu website quer ser.”

Vejamos então como Sherri Muzher narra as histórias de algumas celebridades que podem mudar a percepção do mundo sobre aquele que a antiga primeira-ministra israelita Golda Meir disse: “O povo palestiniano não existe!”

Dean Obeidallah : Comediante

@DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

© fanworld.com

Co-fundador do Arab-American Comedy Festival, que se realiza anualmente em Nova Iorque, Dean Obeidallah, filho de um palestiniano dos arredores de Belém (Cisjordânia) e de americana de origem italiana, costuma dar este conselho aos árabes-americanos: “Quando viajarem de avião, vistam-se de branco.”

Ele encara o seu papel como o de um “missionário da comédia”. O seu espectáculo Axis of Evil (Eixo do Mal) conseguiu fazer rir a América no período politicamente sensível que se seguiu ao 11 de Setembro, a ponto de ser convidado especial do canal Comedy Central, cujos astros maiores são Jon Stewart e Stephen Colbert.

Advogado de profissão antes de se dedicar exclusivamente à comédia, Obeidallah, que nasceu em Nova Jérsia, financia frequentemente os seus próprios shows com o objectivo de apresentar os árabes e americanos a uma luz positiva perante audiências americanas.

Em Agosto de 2011, por exemplo, levou o hilariante The Muslims are Coming ao Sul conservador dos EUA, oferecendo bilhetes grátis na rua a quem o quisesse ver. Obeidallah é também um dos criadores do Stand Up for Peace, uma itinerância que o faz viajar pelos EUA acompanhado do comediante judeu americano Scott Blakman, ambos determinados em fomentar uma solução para o principal conflito no Médio Oriente.

Mariam Tamari : Soprano

© mariamtamari.com

Filha de um artista palestiniano e de uma professora japonesa, a soprano Mariam Tamari nasceu em Tóquio. Membro da proeminente família Tamari, famosa pelo seu talento nas artes visuais e performativas, com um mestrado em música e filosofia, Mariam fez a sua estreia na ópera como Adina, em L’Eliser d’ Amore, no Teatro de Nissay, na capital nipónica.

Elogiada pelo seu “virtuosismo”, incarnou o papel de Kate, em Madame Butterfly, de Jeanne, em Joana d’ Arc, e de Maria, em West Side Story. Actua, de um modo geral, como solista e em recitais no Japão (deu um concerto para os imperadores), nos EUA, Europa e Médio Oriente (na Jordânia foi acolhida pelo rei Abdallah e rainha Rania, esta também de ascendência palestiniana).

Em 2011, Mariam, que reside em França, foi aplaudida por uma multidão em delírio quando foi a convidada de honra dos concertos da Palestine National Orchestra em em Ramallah, Jerusalém e Haifa.

 Hiam Abbass : Actriz

© The National

Nascida na cidade de Nazaré, em 1960, mas há muito a residir em França, Hiam Abbass cativou cineastas como Julian Schnabel (no filme Miral, 2010) e Stephen Spielberg, que a escolheu como consultora para o filme Munich, sobre o massacre de atletas israelitas por terroristas palestinianos nos Jogos Olímpicos de 1972.

Em 2008, com Lemon Tree (realizado pelo israelita Eran Riklis), ganhou o prémio de melhor actriz, nos Asia Pacific Screen Awards. O seu papel era o de uma palestiniana determinada a proteger os seus limoeiros apesar de ameaças de destruição. Antiga fotógrafa com base em Jerusalém, Hiam participou em cerca de 50 filmes, um deles, o premiado Paradise Now/ “O Paraíso Agora” (2005).

O que mais lhe interessa é a humanidade das personagens”, disse numa entrevista. “Elas podem ter qualquer identidade ou nacionalidade.” Entre esses papéis, estão o de uma viúva tunisina que descobre o desejo, em Satin Rouge, e o de mãe de um imigrante ilegal sírio, em The Visitor.

Como realizadora, Hiam Abbass é autora de duas curtas, Le Pain (2001), e Le Danse éternelle (2004). Este ano, com The Inheritance, estreou-se na direcção de uma longa-metragem.

Hany Abu-Assad : Cineasta 

© The National

Vencedor do Globo de Ouro para melhor filme em língua estrangeira com Paradise Now [e nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro, em 2014, com ‘Omar’, totalmente financiado por palestinianos e, pela primeira vez, apresentado como tendo origem na “Palestina”], Hany Abu-Assad nasceu em Nazaré, uma cidade mista de judeus e árabes de cidadania israelita, em 1960.

Emigrou em 1980, para Holanda (que lhe deu cidadania e onde estudou aerodinâmica). Ele diz que usa o cinema para “expor a humanidade dos palestinianos”. Paradise Now, que recebeu o maior prémio do cinema holandês, foi também nomeado, em 2006 para o Óscar de melhor filme em língua estrangeira, conta a história de dois amigos que planeiam um atentado suicida em Israel. [Lista dos prémios pode ser vista aqui.]

Numa entrevista, ao diário The Guardian, Abu-Assad declarou: “Mostrei a reacção humana perante uma situação complexa; quis que os espectadores tivessem a experiência da situação, de vários pontos de vista. É por isso que faço filmes.” Abu-Assad também realizou Rana’s wedding, ou um dia na vida de uma jovem de Jerusalém que tem de se casar até às 4 da tarde.

O filme foi escolhido para a Semana da Crítica 2002 em Cannes (França). Um outro filme, de 2002, Ford Transit, foi exibido no Festival de cinema independente de Sundance. Centrado na história de um motorista, foi premiado no Festival de Cinema de Salónica, na Grécia.

Nathalie Handal : Poeta  e dramaturga

© amazon.com

Natural de Belém, na Cisjordânia, Nathalie Handal é autora de quatro livros de poesia (onde explora, por vezes, as contradições entre moral e tradições árabes) e várias peças de teatro, além de editora de duas antologias. Uma escritora multicultural, tem vivido na Europa, nos EUA, nas Caraíbas, na América Latina e no mundo árabe.

O site ArabianBusiness.com qualificou-a, em 2011, “uma das 100 mulheres árabes mais poderosas”. Inspirada por aquele que é considerado o maior poeta palestiniano, Mahmoud Darwish (1041-2008), Handal é autora de The Poetry of Arab Women: A Contemporary Anthology, livro que foi bestseller da Academy of American Poets e ganhou o prémio Pen Oakland/Josephine Miles.

A sua colectânea de poesia inclui The Never Field, The Lives of Rain, que esteve na short list para o prémio The Agnes Lynch Starrett Poetry/The Pitt Poetry Series. A sua obra mais recente é Love and Strange Horses.

“Eu queria explorar o que Octavio Paz [escritor e diplomata mexicano, Nobel da Literatura em 1990] escreveu: ‘Há uma questão que todos os amantes colocam um ao outro, e ela contém o mistério erótico: Quem és tu? Uma questão sem uma resposta… os sentidos estão e não estão neste mundo.” Sobre si própria, Nathalie Handal disse: “Sinto-me em casa quando escrevo um poema – porque nesse instante estou em toda a parte.”

Rami Kashoú : Designer

© palestineinamerica.com

Os vestidos que Rami Kashoú desenha são exibidos por Rania, rainha Rania da Jordânia, por Penélope Cruz, Rihanna, Dita Von Teese, Christina Aguilera, Heidi Klum, Jessica Alba e muitas outras figuras públicas.

Nascido em Jerusalém, em 1976, Kashoú viveu em Ramallah até se mudar para os Estados Unidos, aos 18 anos. Trabalhou primeiro em armazéns e lojas a retalho, até ser contratado por uma boutique de luxo em Los Angeles.

Em viagens pela Europa, na compra de tecidos, o filho de uma ex-Miss Jordânia tornou-se num self-made man, criando a colecção para mulher One of a Kind. Numa entrevista disse: “Ter aprendido sozinho deu-me a liberdade de exprimir a minha visão como artista, sem me preocupar se estava certo ou errado.”

Devido à fama que conquistou, Rami aparece frequentemente nas capas da New York Times Magazine, Vogue, Women’s Wear Daily, Interview, Elle, In Style, entre outras. 

Sherri Muzher
© humanlifematters.org

[Este artigo é um tributo a Sherri Muzher, uma mulher corajosa que decidiu doar os seus órgãos ainda em vida, antes que a doença (esclerose múltipla) que a incapacitou desde os 27 anos a destruísse. Morreu em 2018. Ler aqui:

Este artigo, agora revisto e actualizado,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 4 de Dezembro de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 4, 2012

A Palestina ganha o estatuto do Vaticano

A Palestina – território ocupado por colonatos e governado por facções rivais – ganha na ONU estatuto igual ao do Vaticano. A data é simbólica: há 65 anos nascia Israel.

 

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, com o discurso que leu na ONU: Let us envision another future, in which Israel will gain the recognition of 57 Arab and Muslim countries and where the States of Palestine and Israel will coexist in peace, in order to realize each people’s hopes for progress and prosperity. (…) The quest to raise Palestine’s status does not aim at delegitimizing any existing state, that is, the state of Israel, but to consecrate the legitimacy of a state that must exist, which is Palestine
© Council on Foreign Relations

No dia 29 de Novembro de 1947, “o Estado de Israel foi criado através de uma guerra; em 29 de Novembro de 2012, o Estado da Palestina poderá nascer da paz”, exulta Gershon Baskin, o activista judeu que tem no seu telemóvel os números de Benjamin Netanyahu e do Hamas.

Hoje, “todos, incluindo Israel, deveriam apoiar a proposta de resolução que fará da Palestina “Estado observador não-membro” (e não apenas “entidade observadora”) da Assembleia-Geral da ONU, porque representará, também, a aceitação de facto do Estado de Israel”, disse-me, por telefone, o fundador e vice-presidente do Israel Palestine Center for Research and Information (IPCRI).

Para Baskin, que ajudou a libertar o soldado Gilad Shalit e estava a negociar uma “trégua de longa duração” com o comandante militar do Hamas (entretanto assassinado) que o sequestrara, “é preciso que Israel reforce a posição do presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas”, fragilizada depois de mais uma ofensiva que reforçou o poder dos extremistas na Faixa de Gaza.

O plano de Abbas, depois de uma tentativa fracassada junto do Conselho de Segurança em Setembro de 2011, visa reforçar o apoio internacional aos Palestinianos numa altura em que o processo de paz se encontrava quase em fase terminal.

O voto a favor de França, já garantido, e de outros países europeus, foi um ponto de viragem, uma vez que agrava o isolamento de Netanyahu e obriga os EUA a repensar a sua política externa face ao seu grande aliado.

Com o estatuto de “Estado observador” – até agora exclusivo do Vaticano -, a Palestina pode solicitar admissão noutras instituições da ONU e instaurar processos por crimes de guerra contra líderes israelitas junto do Tribunal Penal Internacional em Haia (TPI).

O Reino Unido prometeu abster-se na condição de Abbas não seguir para o TPI, não requerer adesão da Palestina como membro pleno da ONU e aceitar reatar as negociações com Israel.

Apesar do simbolismo que uma votação esmagadora possa representar, e mesmo que reconheça um Estado da Palestina nas actuais áreas A e B (sob controlo exclusivo palestiniano e sob domínio de ambas as partes, respectivamente), Israel continuará a ser, segundo as leis internacionais, uma “potência ocupante”.

A “ocupação” não se define, do ponto de vista legal, como “presença militar permanente” mas como “a capacidade de uma força estrangeira controlar efectivamente o território de outrem”, seja um Estado ou não. O mesmo se aplica a Gaza, de onde soldados e colonos judeus foram retirados em 2005, já que Israel continua a ter controlo absoluto por terra, mar e ar.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Numa avaliação da iniciativa de Abbas de (com o apoio do rival Hamas) pedir legitimidade à Assembleia-Geral, onde não há direito de veto como no Conselho de Segurança, Shmuel Rosner, editor de política do Jewish Journal e analista político ligado à direita israelita, escreveu:

– “Pode ser que os países europeus estejam cansados de Israel arrastar os pés; que os diplomatas decidiram que o único meio de avançar com um processo de paz saudável e frutífero, a única maneira de construir um Estado palestiniano viável é elevar o estatuto palestiniano na ONU”. Pode ser uma forma de “censurar Israel, envergonhar os EUA, abanar o barco e dar a Abbas algum progresso”.

No entanto, adverte Rosner, também pode significar que “o mundo está cansado do processo de paz”, que “os europeus já não querem gastar mais dinheiro com os palestinianos [em 2013, a Comissão Europeia ofereceu mais 100 milhões de euros] e que os EUA ficam sozinhos, porque são os únicos capazes de manter unidas ambas as partes”.

Em relação aos EUA, Rosner acredita que, após a votação na ONU, ficará mais exposta do que nunca “a dependência de Israel”, a partir de agora numa “posição muito dura quando a América exigir concessões”.

O “cálculo dos palestinianos foi correcto”, adianta. “É verdade que Israel pode dificultar ainda mais a vida à Autoridade Palestiniana, mas isso só ajudará forças mais extremistas, como o Hamas. Israel pode ficar furioso, mas não é (sempre) estúpido. Por isso, é provável que, desta vez, Abbas fique imune.”

Numa outra análise, publicada no New York Times, Yousef Munayyer, director executivo do Jerusalem Fund, organização não-governamental com sede em Washington, deixou um conselho à Administração de Barack Obama:

– “É preciso uma reavaliação das políticas da América que contribuem para o marasmo.” Mais de 160 palestinianos e cinco israelitas mortos depois de uma nova ofensiva em Gaza “não dão garantias” de que Israel ficará mais seguro ou que os Palestinianos conseguirão ser independentes.

“O fracasso” das políticas dos EUA, acrescenta Munayyer, deve-se ao facto de se basearem “na assunção de que que o hard power da América, através do apoio a Israel e a outros governos do Médio Oriente, pode abafar as queixas populares”. No entanto, a operação Pilar de Defesaem Gaza “mostrou uma vez mais que o uso da força é incapaz de garantir segurança porque a raiz das queixas não é entendida”.

“A paciência dos Palestinianos diminuiu à medida que o número de colonos triplicou entre o início do “processo de paz” em 1991 e o presente”, salientou Munayyer. Para os Palestinianos, a promessa de soberania subjacente ao processo de paz “foi feita ou de má-fé ou era uma mentira descarada”. E a política dos EUA levou a que o processo de paz fosse, igualmente, visto como “uma mera cobertura para uma infindável colonização por parte de Israel”.

Também o modo como os EUA lidaram com o Hamas enviou “uma mensagem errada”, sustenta Munayyer. “Em vez de promover a paz, apenas criou o incentivo para o uso de armas”, já que as sanções impostas após a vitória eleitoral [do movimento] em 2006 indicaram que os islamistas – curiosamente agora escolhidos como interlocutores favoritos de Washington, como a Irmandade Muçulmana no Egipto – seriam marginalizados, se não aceitassem duas condições: reconhecer Israel e renunciar à violência.

O que o Hamas demonstrou foi que estas condições, aceites pela Fatah, a principal facção da OLP, não travaram a expansão dos colonatos nem puseram ao fim a “um cerco brutal” à Faixa de Gaza, de onde 1,7 milhões de palestinianos não podem sair nem entrar, por terra, mar e ar.

A cadeia de televisão pan-árabe Al jazeera entrevistou Munib al-Masri, uma das mais influentes personalidades palestinianas. “Há 40 anos que eu apoio o processo de paz”, disse, enquanto guiava Sir David Frost, uma das estrelas do canal do Qatar, numa visita à Cisjordânia. “A Primavera está a chegar, e o tsunami está a chegar, e o vulcão está a chegar”, acrescentou o homem a quem chamam de “O Padrinho”, com uma fortuna avaliada em 1600 milhões de dólares.

“Vivemos numa grande prisão; Gaza é uma grande prisão, a Cisjordânia é uma grande prisão; Jerusalém é uma grande prisão – todos os lugares [na Palestina] são uma grande prisão”, lamentou Masri, presidente da Palestine Development and Investment Company (Padico) – representa ¼ de toda a economia palestiniana.

“Estes não são os valores da religião judaica. Eles [Judeus] têm bons valores e espero que respeitem esses valores em relação aos [Palestinianos]. Não podemos viver sob ocupação durante toda a nossa vida. Vamos sentar-nos, falar e ouvir as aspirações e necessidades de cada uma das partes.”

É isso que Gershon Baskin também deseja: “Que israelitas e palestinianos mantenham o diálogo, para que seja possível a solução de dois Estados”, evitando que Israel se torne num “Estado único com um regime de segregação, uma minoria governando uma maioria sem direitos”.

Celebração em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, depois da votação que ofereceu à Palestina o estatuto de observador na Assembleia-Geral das Nações Unidas
© Abbas Momani | AFP | Getty Images

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 29 de Novembro de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 29, 2012

Fahad Albutairi é o Seinfeld da Arábia Saudita

Aos 27 anos, ele é uma estrela de stand-up comedy na pátria de Osama bin Laden. Os seus vídeos no YouTube, com milhares de subscritores, quebram tabus sociais e políticos num reino onde o riso tem sido abafado por um Islão rígido. (Ler mais | Read more…)

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Fahad Albutairi é um geofísico saudita que fez do riso fonte de rendimento paralela ao seu emprego na petrolífera Aramco, a companhia mais valiosa do mundo

Em 2002, na América pós-11 de Setembro, um jovem subiu ao palco de uma pequena sala de espectáculos e apresentou-se: “Olá, o meu nome é Fahad, sou saudita, estudo aqui, em Austin-Texas, faço stand-up comedy e não, não é uma piada!”

Com gargalhadas e aplausos de uma audiência para quem saudita era sinónimo de terrorista (era esta a nacionalidade de 15 dos 19 suicidas que destruíram as Torres Gémeas em Nova Iorque), assim começou uma odisseia para o geofísico que fez do riso fonte de rendimento paralela ao seu emprego na petrolífera Aramco, a companhia mais valiosa do mundo.

Nascido há 27 anos, em Khobar, na província oriental da Arábia Saudita, onde a Al- Qaeda lançou o primeiro ataque bombista no reino (em 2006), obrigando as autoridades a admitirem que a organização de Osama bin Laden era uma ameaça real, Fahad Albutairi tornou-se numa celebridade em apenas uma década.

Comparam-no a Jerry Seinfeld, e o orgulho não o esconde: “Ele é uma das minhas grandes inspirações e sinto-me honrado por verem em mim um génio como ele”, diz-me, numa troca de emails, através da sua representante, Ibtisam Alsomali, directora executiva da Luxury Events, em Riade. “A única coisa que nos distingue é que eu sou árabe e ele é judeu americano.”

Tal como Seinfeld, que criou uma versão semificcional de si próprio, também Fahad, que tem em Woody Allen outro ídolo judeu, transpõe para os seus sketches situações hilariantes que ouve e vê no dia-a-dia, como incompreensíveis tradições familiares ou disparatadas decisões políticas.

Comparam Fahad Albutairi a Jerry Seinfeld, e ele não esconde o orgulho : “É uma das minhas grandes inspirações e sinto-me honrado por verem em mim um génio como ele”

A princípio, a stand-up comedy foi recebida nos países do Golfo [Pérsico] com um misto de entusiasmo e cepticismo”, recorda.

“Não é verdade, como tem sido noticiado, que os primeiros shows fossem clandestinos, para evitar a polícia [da promoção da virtude e combate ao vício]. O problema era a falta de apoio dos media tradicionais e ausência de promoção em outdoors, o que limitava o número de espectadores.”

Gradualmente, porém, o reino onde a música e os filmes se confinam aos lares e que segue a rigorosa doutrina islâmica imposta no século XVIII pelo teólogo Muhammad ibn Abd al-Wahhab começou a descobrir a alegria do entretenimento exterior.

Sobretudo quando, em palco, não se vêem mulheres nem homens disfarçados de mulheres. Agora, ironiza Fahad, “sou convidado para fazer comédia nos sítios mais incríveis, desde conferências para estudo do Corão até piqueniques com famílias em jardins – claro que não aceito, porque o cenário não é o mais apropriado”.

Neste momento, o programa de maior audiência de Fahad é La Yekthar, que se poderá traduzir como “Cala a boca”. Um dos vídeos de maior popularidade, com quase cinco milhões de visitantes, é o “episódio 14” (com legendas em inglês que têm de ser previamente activadas).

Neste “episódio 14”, ele fala de desemprego e de uma “comissão saudita anticorrupção”, sabendo que são graves problemas no mundo árabe e estão entre os factores que têm contribuído para a queda de ditadores.

Há referência a um agente artístico que garante ter produzido o polémico vídeo Bad Girls com que M.I.A., cantora britânica de origem tâmil, foi acusada de “perpetuar o estereótipo do árabe feio e mau do deserto”.

O mesmo agente vangloria-se de ter sido contratado por Lady Gaga – artista que, pela quase nudez das suas performances, jamais entraria na Casa dos Saud.

Há ainda referência aos estudantes sauditas que no estrangeiro frequentam clubes nocturnos, culminando com uma série de entrevistas de rua conduzidas por um jovem que tenta promover “a invasão cultural saudita” no Ocidente.

São hilariantes os encontros do “entrevistador” com um americano de kaffiyeh ao pescoço (ao inquirir sobre se ele é árabe, a resposta embaraça-o: “O lenço é moda, e eu sou judeu”); com uma mulher que se prepara para entrar no carro e que, perante a insistência de que ela não pode conduzir (como na Arábia Saudita), recusa grosseiramente que ele seja o motorista; e ainda com os ratos Mickey e Minnie (segue-se uma prece: “Que Deus lhes perdoe”, porque ambos estão de mão dada e ela cobre a cabeça apenas com um laçarote).

Fahad Albutairi aborda tudo o que pode ter piada excepto o Islão. “A maioria da população saudita não é muito política e não gosta que se brinque com a sua sensibilidade religiosa”, justifica o comediante.

“Evito, por isso, esses temas para não isolarmos a audiência nem perdermos milhões de potenciais espectadores. A reacção das pessoas às questões sócio-políticas que abordamos costuma ser mista, mas, felizmente, que a maioria é positiva.”

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Fahad aborda tudo o que pode ter piada excepto o Islão, “ para não isolar a audiência”, profundamente religiosa, nem perder milhões de espectadores

O investimento no YouTube em detrimento dos canais televisivos é assim explicado por Fahad, o único argumentista de uma equipa que inclui operadores de câmara, técnicos de som e de luz, produtores – uma verdadeira máquina profissional:

-“Não abandonámos completamente os meios tradicionais, porque temos projectos conjuntos com a MBC [a primeira estação independente por cabo saudita criada em 1991] e a Rotana [grupo que integra diversos canais de sinal aberto, disponíveis em vários países árabes].”

“Mas o formato do La Yekthar só se adaptava ao YouTube, porque os episódios são de curta duração e com uma mensagem imediata.”

Sobre as principais razões por que apostou no YouTube, Fahad enuncia: “1) o YouTube é muito barato; 2) o YouTube pode chegar a muito mais pessoas e pode ser visto em várias plataformas, como smartphonestablets, computadores pessoais, portáteis…; 3) o YouTube permite uma maior liberdade criativa.”

“Desde o lançamento de La Yekthar, em 10 de Outubro de 2010, temos mais de 340 mil subscritores, além de que contamos com o patrocínio e anúncios de numerosas empresas.”

Onde é que Fahad encontra tempo para conciliar a comédia com o trabalho na Aramco? “Geralmente, os espectáculos são ao fim-de-semana ou nas minhas férias”, responde, sugerindo que é organizado.

“Tenho participado em espectáculos internacionais, como o Stand-up Comedy Festival de Amã [Jordânia] e o New York Arab American Comedy Festival. Mais importante: já percorri um longo caminho para mudar a percepção do mundo em relação aos sauditas, em particular, e aos árabes, em geral.”

[Em 2018, a vida de Fahad Albutairi sofreu um duro revés: Em Março, segundo o diário ‘The Washington Post’, foi detido na Jordânia, vendado e transportado de avião para a Arábia Saudita. Desactivou a sua conta no Twitter, onde tinha milhões de seguidores. Não mais se ouviu falar dele.

A sua ex-mulher, a activista Loujain al-Hathloul, que tanto lutou pelo direito de as mulheres conduzirem e contra a lei do guardião masculino, foi deportada dos Emirados Árabes Unidos e continua presa. Já tinha sido detida em 2017. Os seus familiares denunciam que ela também tem sido torturada.]

Fahad e Loujain quando ainda eram casados e antes de um e outro terem sido deportados (ele da Jordânia; ela dos Emirados Árabes Unidos) para serem presos na Arábia Saudita
© Kirk Rudell

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, edição de 25 de Novembro de 2012; This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 25, 2012

Uma “banda sonora de guerra” para Nobel da Paz

São judeus israelitas. Tocam com músicos palestinianos, argelinos e tunisinos. Uma belly dancer libanesa arriscou a vida num dos seus concertos. Atraem milhares de fãs árabes e muçulmanos. Os Orphaned Land actuaram várias vezes em Portugal – e acreditam que estão a mudar o Médio Oriente. (Ler mais | Read more)

Os Orphaned Land (aqui com a cantora Shlomit Levi), diz Roi Ben-Yehuda, que os propôs para Prémio Nobel da Paz, “reconstroem uma memória colectiva – a da era dourada da coexistência entre judeus, cristãos e muçulmanos”

O lugar onde Kobi Farhi vive “é tudo menos uma terra prometida ou uma terra santa”, por isso, a sua banda descrita como de death/doom metal só podia chamar-se Orphaned Land.

E é uma terra órfã, diz o co-fundador, um judeu israelita, porque “desde há milhares de anos que apenas conhece destruição e conflitos, com três religiões a fazerem guerra em nome de Deus”.

“Como nada aqui é sagrado, decidimos mostrar um caminho alternativo”, explica Kobi, o vocalista, numa entrevista, por Skype. “Cantamos em hebraico e em árabe, em latim e em inglês. Não são histórias de amantes, é uma mensagem de paz.”

“Não temos intenção de provocar – quando entoamos versículos do Corão, por exemplo, em palco não há garotas em bikini. Há, sim, muito respeito da nossa parte, e isso é visível no modo como as pessoas reagem. Não queremos que ninguém tome partido por um campo ou por outro.”

“Não somos um grupo tradicional de heavy metal. Não quisemos copiar o que já havia na América e na Europa. Tínhamos de ser diferentes. Usamos instrumentos e sons do Médio Oriente para projectar os cheiros e a atmosfera da região. E muita gente identifica-se connosco porque sabe distinguir entre povos e governos.”

Foi isso que Roi Ben-Yehuda notou quando, um dia, leu a seguinte observação de um fã, na página de Facebook da banda: “Embora eu seja apoiante do Hezbollah [movimento xiita libanês que “ambiciona destruir Israel”, segundo Kobi], quero que saibam que adoro os Orphaned Land e que vos ouço todos os dias, no meu carro, quando vou e venho do emprego.”

“Não tinha a certeza se este era uma demonstração a favor ou contra o que os Orphaned Land faziam, mas sinto-me atraído pela ideia de que a banda está a criar um espaço para um tipo diferente de interacções, valores e identidades entre inimigos”, afirma Roi, um académico que se especializou em Resolução de Conflitos.

O comentário do admirador do Partido de Deus, criado e financiado pelo Irão, encorajou Roi, judeu israelita-americano, a escolher os Orphaned Land como peça central da sua tese de doutoramento. “Musicalmente, eles foram pioneiros e sempre adorei o que eles faziam”, salienta.

“Também temos uma história em comum. Nascemos em Israel e fizemos parte da cena metal dos anos 1990.”

“Mantivemo-nos em contacto, acompanhei o seu progresso e sucesso. Hoje, o meu interesse vai para além da música: sinto-me fascinado com o modo como a arte pode unir povos em conflito – e os Orphaned Land fazem isso extraordinariamente bem.”

Roi passou a olhar os Orphaned Land como “uma força social” que se transformou “numa ilha de coexistência no meio de um mar de conflitos violentos”.

E acrescenta: “Através da sua música, mas também da colaboração com músicos árabes e muçulmanos, e uma vibrante comunidade de fãs, eles foram capazes de inspirar e estabelecer um tipo de relações pacíficas que ainda é possível entre israelitas e os seus vizinhos.”

Kobi, relembrando que já deu vários espectáculos em Portugal (o último em 2019), exulta ao contar-me como, numa digressão europeia, a banda “viveu dias inteiros num autocarro de 20 camas” com músicos tunisinos e argelinos.

“Ainda não há muito tempo, tocámos juntos com um grupo palestiniano da Jordânia”, enfatiza. “Somos amigos e esta convivência mostra que não devemos julgar-nos uns aos outros sem primeiro nos conhecermos.”

“Não somos vozes solitárias. Todos compreendemos a realidade complexa da região em que vivemos. Posso garantir que os extremistas não são a maioria.”

 “O meu interesse pela música começou na infância”, conta Kobi Farhi. “Nasci em Jaffa, e a minha casa fica perto de uma sinagoga, de uma igreja e de uma mesquita. Numa cidade [a maior do Norte de Israel] com judeus, cristãos e muçulmanos, há muitos feriados religiosos, e eu aprendi aqui muito sobre a importância da paz.”

“Em miúdo, brincava com todos sem discriminação; o nosso único interesse era o futebol. Detestei quando fui mobilizado para a tropa.”

“Não servi nos territórios ocupados. Era mecânico e reparava veículos militares, mas uma vez fui ao gabinete do comandante e pedi-lhe que me dispensasse, porque precisava de gravar dois álbuns. Estávamos em 1994.”

“Ele expulsou-me da sala, dizendo-me que eu era ‘propriedade do Exército’, e mandou-me para a cadeia durante um mês. Recusei completar os três anos do serviço obrigatório, frisando que preferia a prisão. Libertaram-me, ao fim de um ano, invocando ‘razões psiquiátricas’.”

Kobi Farhi, vocalista dos Orphaned Land: “Não somos um grupo tradicional de heavy metal. Não quisemos copiar o que já havia na América e na Europa. Tínhamos de ser diferentes. Usamos instrumentos e sons do Médio Oriente para projectar os cheiros e a atmosfera da região. E muita gente identifica-se connosco porque sabe distinguir entre povos e governos”
© Courrier International

Uma das imagens de marca dos Orphaned Land, que conta com a voz celestial de Shlomit Levi (evocativa das baladas judaicas iemenitas entoadas por Ofra Haza), é a indumentária.

Kobi Farhi veste-se de Jesus Cristo, e os outros membros – Yossi Sassi (guitarra eléctrica e acústica, alaúde, saz, bouzouki, chumbush e piano); Uri Zelcha (guitarra eléctrica, acústica e baixo); Matan Shmuely (bateria e percussão) e Chen Balbus (guitarra eléctrica e acústica, bouzouki e vozes) – envergam trajes de judeus ultra-ortodoxos e de árabes com kaffyeh.

Ninguém se ofende, garante Kobi Farhi. “Muita gente me achava parecido com Jesus, e eu considero-o uma personalidade espiritualmente muito forte. As vestes – que já não usamos em palco – fazem parte de uma coreografia; e os fãs entendem, porque apenas lhes interessa as canções.”

E as duas canções mais amadas, revela Kobi, estão nos álbuns El Norra Alila (1996) e The Never Ending Way of ORwarriOR (2010). Este é o poder das suas letras (IN: SAPARI):

A most honorable god I shell greet him/With singing and glory I will greet his coming/And like Moses and Aaron he will lead me/To his land above/ He will lend his ear and hear my voice/ And will send from above and help me/ ‘Cause like Moses and Aaron he will lead me. (“El Me’od Na’Ala”); Into this world I was born – innocence scorned/ Oaths were broken and pain bestowed – innocence mourned/ Trust betrayed, smiles were faked/Desire turned hate, faces of loved ones are long decayed/ Alone in this world, alone and so cold (…). 

Kobi assegura que a banda “nunca recebeu ameaças”, mas Johanna Najla, a belly dancer libanesa que actuou com eles no Hellfest, festival que junta, anualmente, em França, grupos de heavy metal, hard rock e hardcore punk, foi alvo de um édito religioso (fatwa) condenando-a à morte. Também está proibida de entrar em Beirute.

Não terá sido fácil aos mais radicais verem uma mulher de vermelho, bustier elevando o peito, uma rede expondo o ventre, longos cabelos negros deslizando a cada contorção do corpo, numa dança de sedução, junto a Kobi, descalço e com uma túnica branca.

A afronta terá sido maior quando ambos trocaram um abraço, quase fugidio, e uniram as bandeiras dos seus países: o cedro do Líbano e a estrela de David de Israel.

O final do concerto, em Julho de 2011, foi apoteótico, com milhares de pessoas a saltar e a aplaudir, braços no ar. “Unimos culturas e nações”, proclamou Kobi, destacando que, na audiência, havia espectadores da Tunísia, da Síria, do Iraque, do Líbano… “A nossa religião é a música.”

Numa entrevista por e-mail, diz-me a bailarina: “Como artista árabe, dançar com os meus irmãos dos Orphaned Land é muito natural, dado o facto de vivermos na mesma zona do mundo. Erguer as respectivas bandeiras, lado a lado, foi um símbolo de paz e de unidade, porque não há nada que eu mais preze do que a vida.”

“Não imaginei, por um segundo sequer, que iria gerar controvérsia. É certo que, oficialmente, o meu país e o de Kobi vivem em clima de guerra, mas não tinha a ideia da gravidade da situação, mesmo que a minha infância no Líbano tenha sido vivida em ambiente de conflito.”

Johanna Najla – que começou a aprender jazz e ballet aos 6 anos de idade; aprendeu raqs sharqi (dança do ventre) e hip-hop “de estilo afro-contemporâneo”, na Costa do Marfim, Nova Iorque e Paris; é mezzo-soprano e dá aulas de belly dance a crianças e adultos – confirma que desde o concerto com os Orphaned Land não tem autorização para regressar ao Líbano.

“Já não me fazem ameaças, mas continuo a viver em França, onde estudo dança e porque também tenho nacionalidade francesa”, refere. “Espero regressar, num futuro próximo, sem medo, porque nunca foi minha intenção magoar ou insultar.”

Quanto a Kobi Farhi, está a preparar o que descreve como “o melhor álbum”, entusiasmado com as parcerias bem-sucedidas com bandas do Magreb.

Um dos momentos altos da sua carreira, confessa, foi quando tocou na Turquia com músicos palestinianos da Jordânia.

“Queremos manter esta ligação”, frisa, manifestando orgulho (“mas também embaraço”) na iniciativa do amigo Roi: “Já ganhámos quatro prémios por promovermos a paz; ser nomeado para o Nobel é o máximo!” 

Em Nova Iorque, onde reside, Roi Ben-Yehuda mostra-se, particularmente, interessado na comunidade de fãs dos Orphaned Land. “Há poucos espaços, virtuais ou reais, que facilitem a comunicação e o contacto entre judeus, árabes e muçulmanos na região”, refere.

“O facto de todos partilharem o amor pela música fornece uma identidade comum que liga as pessoas. Os laços que são criados dificultam a comunicação negativa. As discussões entre fãs revelam apoio à banda e à sua mensagem; em tempos de crise, os fãs interagem.”

Porquê propô-los para o Nobel? “Eles merecem”, responde Roi. “Dou um exemplo: no período em que a Turquia cortou relações políticas, diplomáticas e militares com Israel, os Orphaned Land fizeram questão em manter os laços, doando as receitas dos seus concertos [em Ancara, Istambul, Esmirna…] às vítimas do sismo em Van, e ao fazerem, corajosamente em público, uma declaração de paz entre as duas nações.”

“Os seus esforços têm sido reconhecidos não só a nível popular mas também institucional, por parte de académicos e políticos.”

“As pessoas que não estejam a par das crises entre os dois países talvez não se apercebam do significado de tudo isto, mas é incrível. Eles tornaram-se embaixadores culturais e merecem a mais alta distinção.”

A petição pelo Nobel, adianta Roi, tem também como objectivo ajudar os Orphaned Land “a fazer história, a atrair atenção para a sua causa”.

A composição dos Orphaned Land tem sofrido algumas alterações. Em 2019, mantém dois membros fundadores (Kobi Farhi, o vocalista) e Uri Zelcha (baixo). A eles se juntaram Matan Shmuely (bateria), Chen Balbus (guitarra e Piano, que substituiu o co-fundador Matti Svatizky, em 2012, e Idan Amsalem (guitarra e bouzouki), que substituiu outro co-fundador, Yossi Sassi, no início de 2014
© Zoharon Photography | loudersound.com

O passo seguinte será “a nomeação e já tenho personalidades de renome que aceitaram dar os seus nomes”. Uma delas é Yuli Tamir, co-fundadora do movimento Peace Now e ex-ministra da Educação de Israel (2006-2009).

“Acredito que o futuro desta região depende, em grande medida, das pessoas que têm a coragem de desestabilizar os padrões da separação, do ódio e da violência.”

“Ao contrário dos tipos que defendem boicotes a Israel, creio que é através deste tipo de colaboração que as relações entre antagonistas podem ser transformadas construtivamente. Johanna teve a ousadia de dar um primeiro passo.”

“Tenho entrevistado muitos fãs e todos eles admitem que os Orphaned Land mudaram as suas vidas. Até aparecer esta banda, alguns grupos, como os Led Zeppelin, os Iron Maiden ou os Metallica, usaram escalas e sons do Médio Oriente no seu heavy metal, mas só quando os Orphaned Land entraram em cena é que estes dois géneros se fundiram num estilo singular e autêntico.”

“Como todas as formas de metal”, adianta Roi, “a música dos Orphaned Land é agressiva e até brutal, porque espelha o ambiente duro em que é produzida – uma banda sonora de guerra.”

“Em paralelo, ao usar instrumentos, ritmos e melodias do Médio Oriente misturando-os com o metal do Ocidente, e colaborando com artistas árabes e muçulmanos, a banda conseguiu também criar uma harmonia regional que, de certo modo, representa a ideia sónica de coexistência.”

“Esta fusão de horizontes culturais tem um significado que ultrapassa a estética – o que é invulgar no metal.”

“No contexto do discurso israelo-palestiniano (a questão da legitimidade do povo judaico à autodeterminação nacional)”, enumera Roi, “a música dos Orphaned Land ressoa: ‘Também nós temos raízes nesta região’”.

Por outro lado, “o facto de uma banda israelita criar um ‘metal oriental’, mostra às pessoas que é possível participar no processo de globalização sem temer a eliminação da cultura de cada um”.

Finalmente, “os Orphaned Land reconstroem uma memória colectiva – a da era dourada da coexistência entre judeus, cristãos e muçulmanos. Como o musicólogo Keith Negus nos recorda, ‘o movimento dentro ou através de géneros musicais é mais do que um acto musical: é um acto social’”.

[Yossi Sassi abandonou o grupo em Fevereiro de 2014. Foi substituído pelo guitarrista e produtor musical Idan Amsalem. No mesmo ano, os Orphaned Land ganharam o Prémio Metal Hammer, consagrando-se como “Global Metal Band of the Year”.]

© Ha’aretz

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 12 de Novembro de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 12, 2012

O ponto de viragem na vida de um “skinhead”

Arno Michaelis livrou-se dos sinais do “poder branco” que tinha tatuados no corpo. E livrou-se de um dos movimentos mais racistas do mundo para fundar o projecto Life After Hate, A Vida depois do Ódio. (Ler mais | Read more….)

Dos 17 aos 24 anos, Arno Michaelis pertenceu ao que descreve como "a maior organização racista skinhead à face da Terra, "reverendo da Guerra Santa Racial" e vocalista da banda de heavy metal Centurion. © thirdcoastdaily.com

Dos 17 aos 24 anos, Arno Michaelis pertenceu ao que descreve como “a maior organização racista skinhead à face da Terra – que ele ajudou a fundar -, “reverendo da Guerra Santa Racial” e vocalista da banda de heavy metal Centurion
© thirdcoastdaily.com

Das múltiplas tatuagens que Arno Michaelis ostenta, há uma que se destaca. No pescoço gravou a palavra Dolor.

Porque a dor ainda marca a vida deste norte-americano que, dos 17 aos 24 anos, foi um dos membros fundadores do que ele descreve como “a maior organização racista skinhead à face da Terra, “reverendo” da Guerra Santa Racial e vocalista da banda de heavy metal Centurion, que vendeu mais de 20 mil CD da música mais execrável e violenta em todo o mundo”.

Hoje, aos 41 anos, é o director executivo da Life After Hate (LAH, Vida Fepois do Ódio), que nasceu de uma transformação pessoal.

Nascido em Mequon, vila de classe média-alta predominantemente habitada por brancos, a norte de Milwaukee, a maior cidade do estado de Wisconsin, Arno teve “uma infância privilegiada”, diz, numa entrevista por email.

“Comecei por me envolver com skinheads porque era um adolescente aborrecido, furioso e mimado, mas também porque vivia numa casa de alcoólicos, com os meus pais sempre a discutir. Sentia-me miserável. Procurava formas de me vingar. Tatuar uma suástica foi a primeira “coisa boa” que encontrei.”

O único irmão de Arno seguiu-lhe o exemplo, mas por pouco tempo. “Ele era mais inteligente e sensato, para se envolver como eu fiz”, admitiu.

Arno pertenceu à antiga Church of the Creator (COTC), actual Criativity Movement, com sede em Riverton (Wyoming).

Os seus membros não acreditam em Deus, céu ou inferno. O objectivo primordial é “a sobrevivência e expansão, exclusivamente, da raça branca”. Rejeitam os judeus, os negros e asiáticos como “sub-humanos” e “parasitas”.

Enquanto adepto desta filosofia, Arno Michaelis atacou “todo o tipo de pessoas”, confessou. “Atacava-os pela cor da pele, pela religião, pela orientação sexual ou apenas por terem tido a infelicidade de se cruzarem no meu caminho. Só agredia quem fosse da minha idade ou mais velho, mas havia recrutas que também visavam crianças.”

“Esses incidentes incomodavam-me mas, naquela época, eu era demasiado cobarde para o reconhecer. Também bebia demasiado; estava quase sempre embriagado ou em ressaca. Que me lembre, nunca matei ninguém, mas fui detido várias vezes, embora nunca tenha sido preso.”

“A mudança começou quando pessoas que eu dizia odiar me trataram com afecto apesar da minha hostilidade em relação a elas”, revelou.

“Esses actos de carinho não me transformaram imediatamente, mas ficaram as sementes que foram deixando cada vez menos espaço para o ódio. Também ocorreram incidentes violentos tão repulsivos que comecei a sentir vergonha de mim e das minhas acções.”

“A minha filha é a minha melhor amiga”, diz Arno Michaelis. “Conhece o meu passado e tem orgulho no que eu faço agora com o [projecto] Life After Hate”
© davidsacco.es | visura.co

Um “ponto de viragem”, ainda que também não repentino, ocorreu com o nascimento da filha em 1992 e a separação da companheira. Explica Arno: “Em poucos meses, tornei-me pai solteiro, e um segundo amigo foi assassinado numa luta de rua. Finalmente, tomei consciência de que tinha de seguir outro rumo, para que a prisão ou a morte não me afastassem da minha filha. Há uma tarde, em particular, que foi uma epifania.”

“Cheguei cedo ao jardim-de-infância para ir buscar a minha filha. Via-a a brincar com outras crianças. Fiquei impressionado, porque a primeira coisa que reparei foi que todos eram crianças; não eram brancas ou negras, mas filhos e filhas de mães e pais. “

“Um jovem negro da minha idade foi ter com a filha, ela agarrou-se ao seu pescoço e abraçou-o, tal como a minha filha fazia comigo. O sorriso no rosto dele enquanto ouvia a menina dar gritinhos de alegria era o mesmo sorriso que a minha filha me oferecia todos os dias.”

“Pensei em todas as pessoas que tinha magoado”, continuou Arno. “Essas pessoas tinham mães e pais, irmãos e irmãs. Como é que os seus entes queridos se sentiam quando viam pessoas que lhes eram especiais serem espancadas? Quão horrível seria ter a minha filha exposta ao mínimo desta violência?”

“O amor pela minha filha despertou uma empatia dormente pela humanidade da qual nunca tinha dado conta.”

A minha filha viveu comigo dos 2 aos 17 anos; depois mudou-se para casa de amigos, com a minha ajuda. Completa 20 anos este mês [Novembro de 2012], e mantemo-nos muito ligados. Falamos diariamente; ela é a minha melhor amiga. Conhece o meu passado e tem orgulho no que eu faço agora com o Life After Hate.”

No seu novo projecto, lançado em 18 de Junho de 2010, Dia de Martin Luther King Jr., Arno Michaelis é agora receptor de mensagens de ódio dos grupos a que antes pertencia, mas o que mais lhe interessa é que “estas mensagens chegam em menor número do que as de pessoas que pedem conselhos para sair desses grupos”.

Da pele, Arno já apagou todos os sinais do “poder branco” mas continua a tatuá-lo, agora com divindades do budismo, como um dragão que vai do peito ao tornozelo.

Os pesadelos do passado persistem: “Estão repletos do medo que eu antes infligia aos outros, embora sejam cada vez menos.”

“Comecei por me envolver com skinheads porque era um adolescente aborrecido, furioso e mimado, mas também porque vivia numa casa de alcoólicos, com os meus pais sempre a discutir”, diz Arno Michaelis. “Sentia-me miserável. Procurava formas de me vingar. Tatuar uma suástica foi a primeira “coisa boa” que encontrei”
© davidsacco.es | visura.co

“Tenho passado a última década e penitenciar-me pelo mal que causei, mas sinto uma paz interior cada vez maior, por partilhar compaixão e responsabilidade, sobretudo, com jovens, no âmbito do Kindness Not Weakness, programa do LAH, que começou por ser uma revista mensal online, mas se tornou numa organização mais vasta, que interage com outras pela tolerância.”

“Com outros antigos extremistas, examinamos o nosso passado e mostramos que nada resulta para quem sente ódio, medo e ganância. Explicamos como é de solidão a vida de uma racista.”

Quanto à banda Centurion, “já não existe, felizmente”, congratulou-se Arno, autor do livro My Life After Hate, cujo PDF pode ser descarregado gratuitamente aqui. “Já nem sequer ouço as suas canções, só exibo um pequeno vídeo [de um concerto] durante as minhas intervenções.”

“Sempre que vejo aquilo, sinto-me desonrado mas, ao mesmo tempo, feliz porque posso mostrar o caminho que já percorri. Uma das maiores recompensas foi ter visto o comentário que um jovem colocou na sua página de Facebook.”

“Ele escreveu: ‘Hoje, na escola, tive uma fantástica conversa com Arno. Agora tenho de ir para a cama porque preciso de me levantar cedo para chegar a tempo às aulas.’ Que honra, poder inspirar estudantes a ir para a escola em vez de correrem o risco de abandonar os estudos ou irem para a prisão.”

Arno Michaelis descreve a sua transformação durante um seminário na Cudahy High School, em Wisconsin (Milwaukee) depois de um ataque contra sikhs, em Dezembro de 2012
© Mark Seliger | lionsroar.com

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, edição de 11 de Novembro de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 11, 2012

Esquizofrenia: “Haverá várias curas – não uma cura”

A norte-americana Cyndi Shannon Weickert sonhava ser chef de cozinha. Mudou de rumo perante a doença que destruiu a vida do irmão gémeo. Como neurobiologista, lidera um dos maiores projectos de investigação, na Austrália. Este é o seu testemunho, pessoal e profissional. (Ler mais | Read more…)

Louis Wain was an English artist known for drawing cats, going crazy, and then drawing more cats. Later in his life he developed schizophrenia and psychologists believe that his descent into madness can be clearly seen in his cat drawings. © endofthegame.net

Louis Wain era um artista inglês, conhecido por desenhar gatos. Foi-lhe diagnosticado esquizofrenia, e psicólogos acreditam que a deterioração do seu estado mental pode ser observada no modo como evoluíram esses desenhos.” Esta é uma sequência antes e depois da doença
© endofthegame.net

Ao longo de três meses, Cyndi Shannon Weickert ditou as respostas às minhas questões (enviadas por e-mail) para um gravador, de onde a sua assistente, Inara Bebris, preparou um texto de 10 páginas.

Doutorada em Ciência Biomédica na Mount Sinai School of Medicine, dirigiu uma unidade de Neurobiologia no National Institute of Mental Health, ambos em Nova Iorque, até se mudar, em 2006, para Sydney (Austrália).

Aqui, detém o título de Macquarie Group Foundation Chair of Schizophrenia Research, joint venture da Neuroscience Research Australia, University of South Wales, do Schizophrenia Research Institute e do banco Macquarie Group.

A ambiciosa investigação que lidera tem ainda o apoio do governo estadual de Nova Sul de Gales (não do Governo federal australiano). Galardoada com vários prémios no campo da investigação no país que a contratou, divide o seu tempo entre o laboratório e conferências pelo mundo.

É autora de mais de 100 ensaios científicos, e há mais de duas décadas que anda “à procura de uma cura” para a esquizofrenia – a doença que contribuiu para a morte do seu irmão gémeo, Scott Shannon.

Comecemos com o seu sonho de ser “chef de cozinha famosa”…

Ser chef era uma das minhas opções. Queria fazer algo de criativo, mas poderia ter sido também, arte ou design. Sempre gostei muito de cozinhar, com a minha avó quando era miúda. Adoro fazer frango à moda de Kiev recheado de manteiga com ervas aromáticas e molho de queijo.

Gosto de pratos italianos, sobretudo lasanha e rigatoni no forno. Também aprendi a fazer gnocchi e outras coisas parecidas. Agora não tenho tempo para investir em receitas elaboradas; é mais pratos simples, que se aquecem rapidamente no forno.

Dedicar-se à neurobiologia foi uma decisão directamente relacionada com a doença do seu irmão?

Quaisquer decisões de vida, como a escolha de uma carreira, são complexas. Decidi ser médica porque o meu irmão sofria de esquizofrenia – foi essa a principal razão. Também queria estudar biologia porque me apaixonei por esta disciplina da faculdade. Achei muito interessante, quando o professor explicou como é que a diabetes se desenvolve.

Pensei que esta base biológica e molecular para entender uma doença como a diabetes poderia ser aplicada à esquizofrenia. Tinha igualmente aptidão para o pensamento analítico, e gostava de matemática. Seria natural eu gravitar à volta das Ciências. Tinha ainda paixão em aplicar tudo isso a uma doença que necessitava de respostas melhores do que as disponíveis quando o meu irmão foi diagnosticado.

Um desenho de Louis Wain, antes da esquizofrenia. © endofthegame.net

Desenho de Louis Wain, antes da esquizofrenia
© endofthegame.net

Fale-nos de Scott e da sua relação com ele.

Quando éramos crianças, a minha mãe lembra-se de nos passear num carrinho com dois lugares – uma tarefa difícil por ser uma mulher pequenina. Ela diz que muitos transeuntes nos saudavam com um “hi”, porque desde os anos 1960 que não nasciam gémeos por ali [em Shortsville].

A minha primeira palavra foi “hi”; a do meu irmão, que começou a falar logo a seguir, foi “mommy” [mãezinha]. Enquanto bebés, eu e Scott éramos muito desordeiros. Há fotografias nossas a retirarmos todos os tachos e panelas de um armário de cozinha e a tocar neles como se fossem baterias.

A minha mãe reteve na memória, por exemplo, que se Scott estivesse a beber um copo de sumo, perguntava “onde está o da Cyndi?”, o que mostra que fomos sempre muito amigos. Queríamos ter a certeza de que gostávamos e partilhávamos as mesmas coisas.

Havia sempre equilíbrio e igualdade. Nos dias de chuva, adorávamos ficar sentados em casa a fazer jogos de tabuleiro, como monopólio, porque tínhamos a mesma idade, os mesmos interesses, ambos éramos inteligentes e analíticos. Ele era mesmo muito bom a matemática, por isso, quanto mais complexo fosse o jogo, melhor.

Quando as coisas começaram a descarrilar, de certa maneira, foi quando outros rapazes se começaram a interessar por mim, e Scott era um bocadinho protector. Para dizer a verdade, não gostava que ele fosse assim; preferia que me deixasse sair com os meus namorados e fazer o que me apetecesse.

Mas ele preocupava-se que não me tratassem bem e, às vezes, envolvia-se em lutas. A adolescência foi um período tumultuoso. Separámo-nos um pouco.

Também éramos muito competitivos na escola. Embora gostássemos de brincar juntos, quando se tratava do desempenho académico cada um procurava ultrapassar o outro.

Em álgebra, fazíamos furiosamente os nossos trabalhos de casa de modo a sermos os primeiros a entregá-los na manhã seguinte, tentando responder a todas as questões.

No final de um exame anual, eu tive 100%, ou seja, todas as respostas certas, e ele ficou devastado por ter tido 98%. Em geometria, ficou transtornado por ter tido 98% e eu 96%. Ultrapassou-me, mas ficou desapontado por não ter conseguido os 100%. Ele queria ser o “craque”. Era o tipo mais inteligente da turma.

Sim, havia entre nós uma grande competitividade, mas também um enorme respeito mútuo. Achámos sempre que cuidaríamos um do outro. Não aceitávamos que outros nos pudessem magoar.

Wain was always fascinated by cats, but when his wife was diagnosed with cancer, he started drawing them in silly situations to amuse her. His drawings grew in popularity and were featured on greeting cards and in magazines and newspapers. Life was good, that is until his wife died of said cancer and he started to lose control of his mind. ©http://endofthegame.net

Louis Wain sentiu-se sempre fascinado por gatos. Quando a sua mulher sofreu um cancro, ele começou a desenhá-los de uma forma divertida para a animar. Os desenhos tornaram-se tão famosos que foram reproduzidos em jornais, revistas e postais. Quando a mulher morreu e devido à sua própria doença, Wain começou a perder o controlo da mente”
© endofthegame.net

Quando é que começou a notar que Scott agia de forma diferente?

Ele dizia coisas do tipo, “Ouvi um disco dos Beatles de trás para a frente e eles dizem-me que hoje não devo ir à escola.” Recebia mensagens particulares mas não me recordo do conteúdo exacto. Um dia, estávamos a jantar, virou-se para mim e disse que eu era “a filha do diabo”. E estava absolutamente convencido disso.

Outra vez, chegou a ameaçar a minha mãe, empurrando-a contra a parede. Foi nessa altura que chamámos a polícia. Ao chegarmos à esquadra, Scott disse: “A minha mãe é a Yoko Ono” Uma amiga dele também me contou que um dia estavam na beber cerveja e Scott exclamou: “Ele está aqui”. E ela perguntou: “Ele quem?” A resposta foi: “Jim Morrison”.

O vocalista dos The Doors era uma espécie de ídolo para o meu irmão, mas claro que essas estrelas do rock & roll não estavam na sala.

No seu quarto, o que Scott fazia era construir pirâmides com papéis coloridos, dando três dimensões, cores e sombras diferentes às faces das pirâmides, do género negro, azul e vermelho (as cores eram, geralmente, brilhantes). Colocava-as depois em lugares estratégicos, usando fios onde pendurava e interligava essas pirâmides.

Também colava coisas às paredes, e fazia desenhos geométricos no sítio onde o nosso gato comia. Para que o gato recebesse as mensagens, suponho eu, ou para proteger o gato. Não tenho a certeza do que pretendia. Nunca tentou suicidar-se. Só foi violento no episódio com a minha mãe.

O diagnóstico de esquizofrenia foi bem aceite?

A princípio, não. Acho que Scott ficou em estado de choque. Não entendia o que estava a acontecer-lhe. Nem ele, nem ninguém, viu sinais do início da doença. Foi internado numa instituição onde o injectaram com o que sentia ser um veneno.

Disse que preferia morrer a voltar para um hospital psiquiátrico e tomar antipsicóticos, os primeiros a serem receitados.

Creio que terá sido um derivado de Thorazine ou algo mais forte, porque foi horrível, para ele. Penso que começou a tomar consciência [da doença] ao iniciar a medicação.

Culpo-me por uma das suas recaídas porque, quando o vi a sentir-se tão bem, perguntei-lhe se ele precisava mesmo de continuar a tomar aqueles remédios. Ele desistiu e regrediu. Foi terrível ver regressar todos os sintomas, e vê-lo a lutar de novo.

Ainda me entristece, ter feito aquela sugestão. Fui muito ingénua em relação ao modo como a doença era tratada de uma perspectiva clínica, pois uma das piores coisas que se pode fazer é interromper a medicação. Hoje, recomendo a todos os pacientes em tratamento que não desistam de tomar os antipsicóticos.

Wain began using more vibrant colours and used sharp outlines for the fur. The outlines also became noticeably darker, especially around the head. Finally, the background of the portrait has shifted to an almost psychedelic pattern of abstract colours and shapes. © endofthegame.net

Wain começou a usar cores mais vibrantes e realçava mais o pelo dos gatos, com tonalidades mais escuras. O background do retrato ganhou uma forma quase psicadélica nas formas e cores abstractas”
© endofthegame.net

Que efeitos tiveram a doença e a medicação?

Scott tomava os medicamentos, mas exigia que lhe prescrevessem o tipo certo para o manter equilibrado. Insistia em que o médico não mudasse a terapêutica quando ele se sentia melhor. Só que os medicamentos contribuíram para que ele aumentasse de peso, talvez uns 20 ou 30 quilos. A obesidade é, por vezes, um dos efeitos secundários dos antipsicóticos.

Além disso, Scott também desenvolveu diabetes. Outra agravante: as pessoas com esquizofrenia não gostam muito de sair de casa nem de fazer exercício físico, o que acontecia com o meu irmão. Era obeso e diabético. Isso é fatal para qualquer coração; foi fatal para o do meu irmão.

A sua mudança, da América para a Austrália, agravou o estado de saúde de Scott?

O impacto da minha transferência para Sydney foi mais psicológico do que físico. Uma das coisas que o meu irmão gostava muito quando eu vivia nos EUA (é tão difícil para mim falar disto…) era, por exemplo, se havia um problema com a mãe ou o padrasto, se este o queria obrigar a aparar a relva e ele não queria, ou o padrasto achar que não havia nada de errado com o carro e Scott estar convencido de que havia um ruído persistente.

Quando o meu irmão precisava de falar disto comigo, chamava-me. Sabia que me podia telefonar a qualquer hora do dia e tinha o meu apoio. Podia ser só para dizer, “‘Os meus dentes estão a ficar amarelos e tenho de os tratar”, e eu garantia a consulta e o pagamento.

Eu era, para Scott, a sua rede de segurança, a melhor amiga, a pessoa que olhava para ele de uma forma positiva e incondicional, e acreditava nele sempre.

Por isso, quando me mudei para Sydney e ele precisava de me telefonar, eu estava a dormir ou ainda meio acordada [devido à diferença horária], e não entendia o que ele me dizia nem qual era o problema.

Nem tenho a certeza se me mostrava interessada, porque estava a meio de um sonho ou em sono profundo. Ele ficou perturbado, porque era mais difícil ligar-me, havia códigos de país e cidade complicados antes do número de telefone. Em situações de emergência, ele terá sentido que eu me estava a afastar dele.

“Characteristic changes in the art began to occur, changes common to schizophrenic artists. Jagged lines of bright color began emanating from his feline subjects. The outlines of the cats became severe and spiky, and their outlines persisted well throughout the sketches, as if they were throwing off energy.” © endofthegame.net

“Os desenhos de Wain começaram a sofrer acentuadas mudanças, características dos artistas portadores de esquizofrenia. Sobressaíam as linhas coloridas e com reentrâncias. A imagem dos gatos tornou-se mais austera e agressiva, como se expelissem energia” 
© endofthegame.net

Consegue falar da noite de Acção de Graças, em 2008, quando o seu irmão morreu? 

Começámos o dia com um jogo: adivinhar quem era a pessoa mais famosa que o outro havia imaginado. Pensa-se em alguém, fazem-nos perguntas e só podemos responder “sim” ou “não”. Basicamente, íamos descodificando deste modo quem era a pessoa imaginada.

Eu era a rainha de França e o meu irmão, naturalmente, era Jim Morrisson. Ele adorou a brincadeira e vestiu a melhor roupa que eu lhe oferecera no Natal do ano anterior. Estava lindo.

À hora do jantar, fizemos as nossas orações. O meu irmão disse que agradecia “a casa, o carro, o cão e a família”. Eu disse que estava grata por ele ter dado sentido à minha vida. Recordo que costumávamos falar em viajarmos juntos para vários pontos do mundo.

Naquela noite de Acção de Graças, perguntei a Scott que país queria visitar, depois de termos ido ambos a Inglaterra (um dos sonhos do meu irmão era “investigar” se os ingleses eram “melhores, iguais ou piores” do que os americanos porque tínhamos sido “uma colónia”). Ele respondeu-me: “Quem disse que vamos viajar pelo mundo?”

Repliquei: “Bem Scott, quando curarmos a esquizofrenia, toda a gente vai querer saber como é que conseguimos isso, e vai ser necessário viajarmos pelo mundo. Eu subo ao pódio e direi que foi por causa de ti que eu fiz isto”. Scott imitou-me e declarou: ‘Foi tudo por causa de ti, Cyndi.”

[Scott subiu, não ao pódio mas ao seu quarto, e Cyndi desceu as escadas para dar um recado à mãe. Quando voltou para junto do irmão, ele tinha morrido de ataque cardíaco].

Descreveu a cidade onde nasceu, Shortsville, como sendo “tão pequena que, ao passar por ela, quem piscar os olhos já não a vê”. Neste lugar de 2000 habitantes havia outros casos de esquizofrenia?

Não.

O caso do seu irmão é único na sua família?

Recentemente, descobri que um sobrinho meu tem mostrado sintomas semelhantes aos de Scott, e tive uma tia-avó que sofreu de alucinações e paranóia. Por isso, acredito que a doença está presente na minha família. Diria que todos os genes são importantes porque mesmo que a doença não esteja presente na família ainda pode ter uma base genética, porque cada um de nós tem alterações genéticas “ novo.”

By now the psychedelic patterned backgrounds have slipped into the cat itself, resulting in surreal patterns and colours enclosed in an outline of a cat’s body. This cat looks quite sad or depressed, in comparison to the above cats which look quite surprised or anxious. Depression and Anxiety are typical mental dysfunctions experienced by those suffering from schizophrenia, although in a much more extreme form. © endofthegame.net

“O padrão psicadélico de Wain já não é visível apenas em background mas na própria imagem do gato. Este felino parece triste e deprimido” 
© endofthegame.net

Qual foi o maior progresso registado desde que a doença foi diagnosticada pela primeira vez?

Provavelmente, o maior progresso foi a descoberta, por acaso, de que injectar cloropromazina ou o seu equivalente tinha um efeito ansiolítico nos pacientes quando vão para cirurgias e que a aplicação deste medicamento à esquizofrenia bloqueia as alucinações e delírios.

Este foi um achado casual, nos anos 1950, quando um médico astuto [o francês Henri-Marie Laborit] decidiu injectar tal substância nos seus pacientes da ala psiquiátrica e verificou que conseguia ‘acalmar’ os doentes com esquizofrenia.

Como explica o método e o principal foco da sua investigação sobre “desenvolvimento molecular, celular e cognitivo”?

O principal método consiste em usar os cérebros de pessoas com diagnóstico de esquizofrenia já falecidas e compará-los com controlos, sendo necessária a compreensão do ADN do genoma humano e da neuroanatomia celular.

Olhamos, basicamente, para os padrões da expressão génica no cérebro. É preciso ter um nível elevado de formação em biologia molecular e neuroanatomia para compreender as mudanças moleculares num contexto anatómico para que, dessa forma, seja possível reconhecer diferentes tipos de células no cérebro e [perceber] como é que elas podem ser insuficientes na comunicação de umas com as outras.

Não é um processo difícil; a teoria por detrás dele é que pressupõe uma certa exigência de estudo. Creio que existe também variabilidade de uma pessoa para outra.

Não é como uma investigação controlada [por exemplo, estudos de caso-controlo], portanto temos de ter em conta potenciais confundidores resultados que criam enviesamentos – se não houver separação por género em saúde mental, por exemplo, cria-se um factor de enviesamento] relativamente à estatística, quando se analisa e interpreta os dados.

Um dos problemas com a utilização de material do cérebro humano é o facto de haver falta de consistência nos achados de um laboratório para outro.

Tentamos agora ultrapassar isso, usando amostragens cada vez maiores [antes eram 2-3 casos] por exemplo ter 38 a 40 cérebros de pessoas com esquizofrenia, melhorando tanto quanto possível a qualidade dos controlos (controlando, por ex., para o factor idade).

“Soon the cats became abstracted, seeming now to be made up of hundreds of small repetitive shapes, coming together in a clashing jangles of color that transform the cat into something resembling an Eastern deity.” © endofthegame.net

“Não demorou muito até que os gatos de Louis Wain, portador de esquizofrenia, se tornassem figuras abstractas, compostas por centenas de pequenas formas repetitivas, num conjunto de cores que fazem com que  felino se assemelhe quase a uma divindade”
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Teorias mais modernas sugerem que o córtex cerebral, que normalmente controla os neurónios dopaminérgicos [associados ao neurotransmissor dopamina], é fraco e que a doença começa, efectivamente, no córtex.

No passado, os neuropatologistas olhavam para o córtex e não encontravam prova dessa fraqueza nem danos nas células do cérebro. Uma das descobertas mais extraordinárias da neuropatologia moderna é a de que, na realidade, existem células que estão danificadas, mas são pequenos neurónios inibidores no córtex que não foram detectados por anteriores investigadores. O facto de os neurónios inibitórios corticais estarem danificados é uma das descobertas mais consensuais até à data.

Examinámos sobretudo moléculas de modo a procurar uma neuropatologia mais específica, e tentando descobrir as causas possíveis da falência dos neurónios inibitórios.

Quisemos usar a tecnologia mais actual para examinar milhares de moléculas de uma só vez com extrema sensibilidade para ver o que os próprios cérebros podem dizer-nos sobre como o ambiente molecular do córtex pode ser diferente na esquizofrenia quando comparado com os controlos.

Reexaminámos uma velha teoria de que não havia gliose nos cérebros de pessoas com esquizofrenia (o que seria previsível se houvesse morte celular e lesão neuronal). Utilizamos abordagens modernas de coloração, e com o maior número de amostras jamais estudados levantámos a hipótese de que se investigássemos nesse sentido detectaríamos de facto gliose.

Descobrimos, primeiro, que havia evidência de gliose no córtex. Eram pequenas células da glia, a microglia, que estavam aumentadas nos cérebros de pessoas com esquizofrenia. Estas células da glia são as que, existentes, se associam à imunidade. E um aumento das células da glia sugere que estão a reagir a lesão neuronal.

Em segundo lugar, observámos que vários tipos de moléculas tipicamente produzidas por células imunitárias conhecidas como citocinas [ou citoquinas] estavam aumentados no córtex de pessoas com esquizofrenia.

Estas duas linhas de evidência sugerem que há um processo activo de lesão cortical que ocorre nos cérebros de pessoas com esquizofrenia. Verificámos que uma grande percentagem, cerca de 40%, de pessoas com esquizofrenia integram este grupo de inflamação “elevada”.

A esquizofrenia tem, de facto, uma base biológica. Os nossos achados significam que os aumentos nas citocinas registadas no sangue de pessoas com esquizofrenia podem estar associados a citocinas aumentadas e à activação imunitária no cérebro. Podemos, agora, ser capazes de tentar desenvolver um biomarcador sanguíneo para identificar as pessoas com neuro-inflamação como pertencendo à fisiopatologia desta doença.

Ainda mais importante: os tratamentos desenvolvidos para tratar a neuro-inflamação podem fornecer terapêuticas novas para pessoas com esquizofrenia.

Dado que a resposta às terapêuticas neuro-imunes pode ser enorme, talvez venhamos a assistir à restauração de funções neuropsicológicas superiores e ver algumas pessoas “curadas”.

At this stage the drawings become more disturbed; it is clear that Wain’s hallucinations are increasing in severity as these drawings look more like demonic oriental dragons on drugs than cats. © endofthegame.net

“Os desenhos de Wain revelam agora maiores distúrbios, sinal de que as alucinações são mais graves; os gatos parecem dragões demoníacos”
© endofthegame.net

Definiu um prazo para concluir a investigação?

O nosso trabalho, a nível clínico, terminou no final de Agosto quando atingimos o número pretendido de participantes. Estamos agora a analisar os dados recolhidos para garantir fiabilidade antes de revelar os resultados. Não há prazo para uma conclusão. A investigação tem o seu próprio tempo.

Quando fazemos uma investigação, levantam-se, geralmente, novas questões. Determinados projectos têm prazos para serem finalizados mas não é o caso desta investigação que, prevejo, continuará durante muito tempo.

Dito isto, embora existam objectivos de investigação a longo prazo na neurociência básica da esquizofrenia, creio que conseguiremos desenvolver novas terapêuticas a curto prazo – mesmo sem compreender o completo mecanismo etiopatogénico desta doença – que permitam uma maior eficácia do tratamento.

Temos a responsabilidade, para com os doentes, de aplicar terapêuticas agora, em vez de esperar 10 a 15 anos, até conhecermos os resultados finais da investigação.

Não diria que é [um processo] fácil, mas creio que é mais controlável porque temos mais instrumentos ao nosso dispor.

Por instrumentos, quero dizer que em vez de olharmos para uma única molécula às vezes podemos olhar para centenas de moléculas numa única investigação [e, eventualmente, observar como interagem umas com as outras].

Nos seus testes está a usar Raloxifene, que resultou noutras patologias. Por que é que, alegadamente, a indústria farmacêutica não investe mais em medicamentos para doenças mentais e, em específico, para a esquizofrenia?

Creio que o Raloxifene tem estado a ser usado no tratamento da osteoporose. Quando inquiri sobre a possibilidade de usar Raloxifene em casos de esquizofrenia, disseram-me que “é a droga dos ossos do povo” e não “a droga do cérebro do povo”.

Por isso, desconheço por que a indústria farmacêutica não está interessada. As decisões que estão por detrás das grandes companhias estão para além do meu entendimento e não as consigo comentar.

Quais os efeitos do Raloxifene no tratamento dos seus pacientes?

Nota importante: não esperamos que todos os pacientes com esquizofrenia melhorem com esta terapêutica – apenas temos a previsão de que um subtipo de doentes possa responder positivamente, cerca de 20 por cento, sobretudo a nível dos sintomas emocionais e cognitivos.

Por isso, os indivíduos com mais sintomas negativos e maiores dificuldades intelectuais serão os que mais beneficiarão. Vamos avançar no sentido de uma abordagem preventiva e mais personalizada no tratamento de problemas psiquiátricos.

À medida que cresce a compreensão biológica, seremos capazes de testar mais fármacos. Tentaremos desenvolver biomarcadores que ajudem no tratamento e, no final, seremos capazes de desenvolver não uma, mas “várias curas” para a esquizofrenia.

Acredita mesmo ser possível uma cura no seu tempo de vida?

Nunca haverá “uma só cura” para a esquizofrenia. Haverá “várias curas” para a esquizofrenia – e eu confio que irei descobrir uma no meu tempo de vida.

“The abstraction continued, the cats now being seen as made up by small repeating patterns, almost fractal in nature. Until finally they ceased to resemble cats at all, and became the ultimate abstraction, an indistinct form made up by near symmetrical repeating patterns.” © endofthegame.net

“o abstraccionismo de Louis Wain continuou: padrões repetitivos, uma natureza quase de fractura –  figuras que quase já não parecem sequer gatos” 
© endofthegame.net

A jornalista agradece o apoio precioso, na descodificação de termos científicos e médicos, do Sr. Doutor Rui Coelho, chefe do serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar de São João do Porto e professor de Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Esta entrevista serviu de base a uma reportagem publicada no jornal PÚBLICO em 11 de Novembro de 2012 | Parts of this interview were included in a feature story published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 11, 2012

O mundo invisível de mentes brilhantes

Um em cada cinco portugueses sofre de doença mental e, entre estes, haverá 10 mil portadores de esquizofrenia. Ignorância e medo contribuem para que sejam excluídos. Com a sociedade mais deprimida devido à crise, doentes, famílias e médicos recomendam: não digam que “esta é uma situação esquizofrénica”. É cruel e desumano usar a doença como metáfora. Porque ninguém está imune.  (Ler Mais | Read more…)

Celeste e Paulo

© Enric Vives-Rubio

Numa tarde de Setembro, em Lisboa, o sol tenta infiltrar-se no apartamento onde vivem Paulo Olavo e Maria Celeste Rola.

Ela baixa os estores, e ele chega, passo firme e um brilhozinho nos olhos, indeciso no cumprimento, entre um aperto de mão e um beijo. Dá um beijo.

Celeste sorri na sua direcção, como se fosse um código para ele se sentir tranquilo. E diz, envaidecida: “É um filho muito querido, uma bondade para com todas as outras pessoas.”

Maria Celeste, empresária luso-angolana, 72 anos, nunca eleva a voz, para não desestabilizar Paulo, de 53, que se recostou num sofá, escutando, com reverência e afeição, as palavras da mãe.

“Quando o meu filho está mais agitado, eu acalmo-o: ‘Tu ouves vozes; eu tenho dor numa perna.’ Nunca neguei ou desvalorizei o que ele sentia. Tento mostrar-lhe que as vozes, ou os discos voadores que ele dizia ver, fazem parte da doença.”

Paulo interrompe: “Oh mãe, mas as vozes incomodam-me. Perturbam-me e obrigam-me a fazer coisas que eu não quero, que vão contra a minha vontade. Agora, por exemplo, estou um bocado agitado. Apetece-me um copo de água.”

Enquanto o filho dá um salto à cozinha, Maria Celeste desabafa: “Deixei de ir a reuniões com mães que só se queixavam dos filhos e os queriam internar em hospitais psiquiátricos. Tenho procurado tudo de melhor para o meu Paulo.”

“Se ele faz algo de errado, eu desculpo, porque também eu erro. E fico revoltada quando alguém, ao ver portadores de esquizofrenia a falarem sozinhos, comenta: “Olha, lá vai o maluquinho.” É tão cruel, sobretudo porque a sociedade não tem vergonha dos ladrões e dos corruptos. O meu filho está mesmo a ouvir vozes. Elas estão lá. Não é por vontade dele. Ele sofre.”

Também não ajuda a frequência com que na rua se ouve o termo “esquizofrénico” para falar de situações com pouco sentido: “Tenho pena que abusem da palavra “esquizofrénico”, ignorando o que é esta doença, e o mal que o termo, usado pejorativamente, nos causa.”

Em Portugal, segundo várias estatísticas, haverá 1% de portadores de esquizofrenia [é esta a designação correcta – não a de “esquizofrénicos”], ou seja, cerca de 100 mil pessoas.

No mundo, há mais de 50 milhões. A dar relevância a estes indicadores, as conclusões do primeiro estudo epidemiológico nacional, divulgado este ano, de que um em cada cinco portugueses sofre de doença mental, sobretudo perturbações de ansiedade (16,5%) e depressão (7,9%), o que coloca o país em primeiro lugar a nível europeu e em segundo a seguir aos EUA.

Pedro Afonso, professor auxiliar de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa, explica que é difícil definir um diagnóstico, porque se trata de “uma patologia complexa” e pode ser “insidioso” o aparecimento da doença, que só no século XX, graças ao psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1911), passou a ser designada por “esquizofrenia”.

A palavra deriva do grego e corresponde, etimologicamente, a schizein (fenda ou cisão) e phrenós (pensamento). No século XIII, São Tomás de Aquino referia-se a esta patologia como a de “um estado animal perdendo a alma espiritual”.

Não existem “sinais claros de aviso que permitam antecipar o diagnóstico”, alerta Pedro Afonso, autor de vários livros, designadamente, Esquizofrenia, Para além dos mitos, descobrir a doença. Estes sintomas “passam frequentemente despercebidos ou variam ao longo da doença, o que dificulta a detecção”.

Pedro Afonso, que também exerce actividade clínica no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, refere que, para além das alterações cognitivas, como a atenção e memória de trabalho, estes doentes apresentam vários tipos de sintomas: delírios, alucinações, perturbações da forma do pensamento e comportamentos estranhos ou bizarros (“presentes habitualmente na fase mais aguda”); e ainda “isolamento social, falta de motivação e de iniciativa para planear tarefas, apagamento afectivo e do próprio conteúdo do pensamento, que fica mais pobre. Estes sintomas são mais difíceis de tratar e mais evidentes numa fase posterior da evolução da doença”.

Um diagnóstico precoce é dificultado porque “indícios esquizóides, como o isolamento, podem ser confundidos com crises de adolescência”.

Depois, o médico também não quer criar “falsos alarmismos” e opta pela prudência. Além disso, como a maioria dos doentes não procura ajuda médica de livre vontade e não aceita que a sua experiência psicótica é irreal, também isso atrasa o diagnóstico e limita o tratamento.

Schizo- photo 3

© Enric Vives-Rubio

Não é o caso de Paulo Olavo, embora a sua mãe atribua o “diagnóstico tardio” do filho à “indecisão” dos muitos médicos a que recorreu. “Eu devia ter uns 16 anos, quando comecei a ouvir vozes”, conta Paulo.

“Assustei-me, porque não entendia o que era. Sofri muito com a separação dos meus pais. Senti-me perdido, quando os meus amigos ficaram do lado do meu pai, porque eu escolhi a minha mãe.”

“As vozes massacram-me: “Eu domino-te! Não te respeito!” Isto altera-me o sistema nervoso. Mas fui eu quem primeiro pediu ajuda. Ninguém me obrigou. Gosto de tomar os medicamentos, porque só quero ficar bem.”

Celeste atalha: “Sim, o divórcio e também a guerra em Angola, onde o Paulo nasceu, podem ter contribuído para o desestabilizar, mas ele sempre manteve uma boa relação com o pai. Somos todos amigos.”

“O meu filho tem um grande autocontrolo. Quando as vozes são mais intensas, fecha os olhos e não entra em diálogo. Aos poucos acabámos por aprender a lidar com alguns destes sintomas e a viver com a doença.”

Paulo intervém de novo: “Eu controlo-me, mãe, mas sofro muito! Entro em pânico. São horas e horas com as vozes na minha cabeça. Às vezes estou a andar e elas perseguem-me. Outras, estou no autocarro, com o iPod mas acabo por desligar a música, porque as vozes são mais ruidosas. Venho para casa e fecho-me no quarto, até que elas desapareçam, mas isto pode durar dias.”

Celeste diz que não desiste de entender “a causa” da esquizofrenia de Paulo, mas os especialistas são claros a este respeito: não existe uma causa única.

Rui Coelho, chefe do serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar de São João do Porto e professor de Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, esclarece: “A esquizofrenia pertence a um grande grupo de doenças mentais com formas diferentes de expressividade. Cada paciente é um paciente.”

Quando se fala de esquizofrenia, explicita Rui Coelho, que é também director do Departamento de Neurociências Clínicas e de Saúde Mental daquela faculdade, “não se pode excluir o factor genético”, porque “ficamos mais vulneráveis se alguém na nossa família é portador de doença”.

Por isso, “é tão importante conhecer a história pessoal e familiar, ainda que isso seja muito difícil em psiquiatria, de modo a acautelar um diagnóstico correcto”. Há factores de risco que têm vindo a ser considerados, acrescenta Rui Coelho.

“A maior idade do pai [um recente artigo na revista científica Nature indica que homens com mais de 40 anos “têm maior risco de conceber um filho com esquizofrenia ou autismo, por causa das mutações aleatórias mais numerosas que acumulam”]; se há historial infeccioso durante a gravidez; se houve exposição pré-natal ao stress ou complicações obstetras; se houve abuso no consumo de substâncias como cannabis, anfetaminas ou cocaína… tudo isto vulnerabiliza para a doença mental.”

Antigamente, só se valorizava a componente genética ou a ambiental, mas não há uma sem a outra: “A predisposição/vulnerabilidade para a esquizofrenia, a herança genética, é fundamental, mas não chega”, continua Rui Coelho.

“Porque o ambiente poderá agravar ou proteger o portador da doença. Um dado relevante é o vínculo à mãe ou figura substituta. Quanto mais sólida for esta ligação, mais segura, coesa e identitária se torna a personalidade dos filhos, favorecendo potencialmente uma melhor saúde mental ao longo da vida.”

Neste aspecto, a boa relação entre Celeste e Paulo favorece o prognóstico. Pedro Afonso sublinha o facto de a família “ter um papel fundamental na reabilitação, permitindo uma melhor adaptação à doença, ao ajudar, designadamente, o psiquiatra a detectar e a intervir precocemente nos sinais e sintomas de recaída”.

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© Enric Vives-Rubio

Celeste, por seu turno, destaca a importância de fomentar a autonomia do filho: “O Paulo é uma pessoa muito responsável e com grande sentido de orientação, gentil com todos, cumpridor das rotinas, como se tivesse um relógio biológico.”

Acorda às 8h00, vai fumar o primeiro cigarro e beber um café, toma banho e depois o pequeno-almoço. A seguir, vai para a Associação para a Integração e Estudo Psicossocial (AIEPS), onde participa em várias actividades.

“É difícil, mãe”, volta a interromper Paulo: “Durmo muito pouco e custa-me a adormecer. Acordo muitas vezes durante a noite. Por isso, preciso de beber muito café para me sentir estimulado, de manhã e à tarde. Também fumo, uns seis, sete, oito cigarros por dia. Relaxa-me os músculos e tranquiliza-me.”

Uma das maiores queixas dos portadores de esquizofrenia relaciona-se, precisamente, com os efeitos secundários da terapêutica: sedação ou sonolência, aumento de peso e da produção de saliva, rigidez muscular, tremor nas mãos e inexpressividade facial, alterações hormonais, disfunções sexuais, como diminuição da libido e impotência, ou obstipação.

José Antunes, director médico da Jansenn-Cilag Farmacêutica, empresa que foi pioneira no desenvolvimento de medicamentos para esta doença, não nega esta evidência: “O medicamento actua sobre o mecanismo fisiopatológico mas, por vezes, há interacção com neuro-receptores que podem estar a actuar, sem distinção, noutras partes do organismo.”

As investigações em curso apontam para que, “no futuro, se encontrem biomarcadores que ajudem a adaptar o fármaco a cada doente específico”. O objectivo, precisa José Antunes, é “garantir um perfil de eficácia e de segurança”, para obter o equilíbrio.

“Importante é que o doente seja encorajado, pelos profissionais de saúde e pela família, a não interromper o tratamento. Na esquizofrenia, há uma maior relutância à adesão terapêutica, porque não há o insight, ou a consciência da doença, trata-se de uma psicose de ruptura com a realidade.”

Luís Laranjeira, director médico de outra farmacêutica que investiga a esquizofrenia, a Lilly, prefere enfatizar o progresso alcançado: “No passado, procurava-se sedar o doente, para o acalmar, o que o deixava inactivo e alheado; hoje o que se pretende é oferecer um maior autocontrolo, minimizando a descompensação, e assim facilitar maior integração social. O paradigma mudou: queremos que os doentes sejam menos doentes.”

O psiquiatra Rui Coelho não negligencia os avanços que se têm registado na área da terapêutica. “Até 1959 não tínhamos quaisquer psicofármacos”, sublinha. “Agora, temos quatro ou cinco grupos, desde neurolépticos a antidepressivos, de antipsicóticos a estabilizadores de humor e benzodiazepinas.”

A medicação é tomada, de um modo geral, na forma de comprimidos ou drageias, solução líquida e por via intramuscular. Um método que ainda assusta e escandaliza é o da electroconvulsivoterapia, vulgarmente designado por “choques eléctricos”.

O psiquiatra Pedro Afonso garante que só é aplicado “em casos extremos de esquizofrenia resistente à terapêutica”, nomeadamente, quando os doentes têm um delírio de envenenamento e recusam alimentar-se. “É um processo indolor, efectuado sob anestesia geral, e tem salvado vidas.”

Paulo Olavo é um doente “disciplinado”. Segundo a mãe, toma os remédios “à hora certa, nem um minuto a mais ou a menos”, num total de dez. “A partir das 18h já não pode comer, e agora está em abstinência de pão, para não engordar.”

Ele aceita as regras impostas por Celeste sem reclamar. Paulo, assumindo-se “muito ansioso”, porque “as vozes já estão a comunicar”, entrelaça os dedos, girando os polegares: “Tive muitos desgostos amorosos. Apaixonei-me por várias raparigas, mas os pais delas não me aceitaram. Desisti, com medo de ser rejeitado.”

“Dos 28 aos 30 anos, isolei-me muito. Senti uma depressão enorme, talvez por não ter namorada. Não me acho feio. Sim, gosto de perfumes e de andar bem vestido. Gosto de ouvir Deep Purple e Bob Marley. Gosto de ler, de ver filmes policiais. O problema é as vozes. Uma batalha que me esgota.”

O que lhe custa mais: não ter namorada ou ouvir vozes? “Não ter namorada”, responde Paulo. A sério? “Não!”, corrige-se de imediato. “É ouvir as vozes. Elas massacram-me. Acredito em Deus, e rezo muito, mas não acredito que me possa curar. Já ficava feliz se melhorasse.”

Cyndi e Scott

Cyndi e Scott, irmãos que só a morte separou
© Cyndi Shannon Weickert

 

A norte-americana Cyndi Shannon Weickert sonhava ser chef de cozinha mas mudou de rumo e, há duas décadas, procura “uma cura para a esquizofrenia” – desde que a doença começou a destruir a vida do irmão gémeo, Scott. Hoje, como neurobiologista, lidera um dos mais ambiciosos projectos de investigação, na Austrália.

“Queria fazer algo de criativo que poderia ter sido também, arte ou design”, disse-nos, depois de, ao longo de três meses, ter ditado as respostas às nossas questões (enviadas por e-mail) para um gravador, de onde a sua assistente, Inara Bebris, preparou um texto de dez páginas.

Doutorada em Ciência Biomédica na Mount Sinai School of Medicine, Cyndi Weickert dirigiu uma unidade de Neurobiologia no National Institute of Mental Health, ambos em Nova Iorque, até se mudar, em 2006, para Sydney. Aqui, lidera o programa de investigação de esquizofrenia no Macquarie Group Foundation.

Galardoada com vários prémios no campo da investigação no país que a contratou, divide o seu tempo entre o laboratório e conferências pelo mundo. É autora de mais de 100 ensaios científicos.

“Quaisquer decisões de vida, como a escolha de uma carreira, são complexas”, declara. “Decidi ser médica porque o meu irmão sofria de esquizofrenia – foi essa a principal razão. Também queria estudar biologia, disciplina pela qual me apaixonei na faculdade.”

“Achei muito interessante, quando o professor explicou como é que a diabetes se desenvolve. Pensei que esta base biológica e molecular para entender uma doença como a diabetes poderia ser aplicada à esquizofrenia…, uma doença que necessitava de respostas melhores do que as disponíveis quando o meu irmão foi diagnosticado.”

A relação de Cyndi e de Scott Shannon era tão interligada como a de Celeste e Paulo. “Queríamos ter a certeza de que gostávamos e partilhávamos as mesmas coisas”, orgulha-se a investigadora. “Embora gostássemos de brincar juntos, quando se tratava do desempenho académico, cada um procurava ultrapassar o outro.”

“No final de um exame anual, em álgebra, eu tive 100%, ou seja, todas as respostas certas, e ele ficou devastado por ter tido 98%. Em geometria, ficou transtornado por ter tido 98% e eu 96%. Ultrapassou-me, mas ficou desapontado por não ter conseguido os 100%. Ele queria ser o “craque”. Era o tipo mais inteligente da turma. Achámos sempre que cuidaríamos um do outro. Não aceitávamos que outros nos pudessem magoar.”

Scott e Cindy: a doença dele motivou-a a procurar uma cura
© Cyndi Shannon Weickert

Quando é que Cyndi começou a notar que Scott agia de forma diferente? “Ele dizia coisas do tipo: ‘Ouvi um disco dos Beatles de trás para a frente e eles dizem-me que hoje não devo ir à escola’.”

“Um dia, estávamos a jantar, virou-se para mim e disse que eu era “a filha do diabo’. E estava absolutamente convencido disso. Outra vez, chegou a ameaçar a minha mãe, empurrando-a contra a parede. Foi nessa altura que chamámos a polícia. Ao chegarmos à esquadra, Scott disse: ‘A minha mãe é a Yoko Ono’ [mulher de John Lennon].”

“No seu quarto”, adianta Cyndi, “o que Scott fazia era construir pirâmides com papéis coloridos, dando três dimensões, cores e sombras diferentes às faces das pirâmides, do género negro, azul e vermelho (as cores eram, geralmente, brilhantes). Colocava-as depois em lugares estratégicos, usando fios onde pendurava e interligava essas pirâmides.”

“Também colava coisas às paredes e fazia desenhos geométricos no sítio onde o nosso gato comia. Para que o gato recebesse as mensagens, suponho eu, ou para proteger o gato. Não tenho a certeza do que pretendia.”

“Nunca tentou suicidar-se. Só foi violento no episódio com a minha mãe.” A princípio, Scott não aceitou bem o diagnóstico de esquizofrenia.”

“Ficou em estado de choque”, recorda Cyndi. “Não entendia o que estava a acontecer-lhe. Nem ele, nem ninguém, viu sinais do início da doença. Foi internado numa instituição onde o injectaram com o que sentia ser um veneno. Disse que preferia morrer a voltar para um hospital psiquiátrico e tomar antipsicóticos, os primeiros a serem receitados.”

“Penso que ele começou a tomar consciência da doença ao iniciar a medicação. Culpo-me por uma das suas recaídas porque, quando o vi a sentir-se tão bem, perguntei-lhe se precisava mesmo de continuar a tomar aqueles remédios. Ele desistiu e regrediu.” “Foi terrível ver regressar todos os sintomas, e vê-lo a lutar de novo”, acrescenta.

“Fui muito ingénua em relação ao modo como a doença era tratada de uma perspectiva clínica, pois uma das piores coisas que se pode fazer é interromper a medicação.”

“Hoje, recomendo a todos os pacientes em tratamento que não desistam dos antipsicóticos”, ainda que os medicamentos tivessem contribuído para que Scott aumentasse de peso, talvez uns 20 ou 30 quilos. “A obesidade é, por vezes, um dos efeitos secundários dos antipsicóticos.”

“Além disso, Scott também desenvolveu diabetes. Outra agravante: as pessoas com esquizofrenia não gostam muito de sair de casa nem de fazer exercício físico, o que acontecia com o meu irmão. Era obeso e diabético. Isso é fatal para qualquer coração; foi fatal para o do meu irmão.”

O impacto da transferência de Cyndi dos EUA para a Austrália terá sido “mais psicológico do que físico”, considera a investigadora, admitindo: “É tão difícil para mim falar disto.”

O principal método de investigação de Cyndi Shannon Weickert consiste em comparar os cérebros de pessoas com diagnóstico de esquizofrenia já falecidas com os de pessoas que não padeciam da doença
©Cyndi Shannon Weickert

 

Ela era, para Scott, “uma rede de segurança, a melhor amiga, a pessoa que olhava para ele de uma forma positiva e incondicional, e acreditava nele sempre”.

Por isso, “quando me mudei para Sydney e ele precisava de me telefonar, eu estava a dormir ou meio acordada [devido à diferença horária], e não entendia qual era o problema.”

“Ele ficou perturbado, porque era mais difícil ligar-me, havia códigos de país e cidade complicados antes do número de telefone. Em situações de emergência, terá sentido que me estava a afastar dele.”

Em 2008, na residência da família em Shortsville, uma terra “tão pequena que, ao passar por ela, quem piscar os olhos já não a vê”, um lugar de 2000 habitantes sem registo de casos de esquizofrenia, Cyndi e Scott começaram o dia de Acção de Graças com um jogo: adivinhar quem era a pessoa mais famosa que o outro havia imaginado.

“Pensa-se em alguém, fazem-nos perguntas e só podemos responder ‘sim’ ou ‘não'”, explica. “Basicamente, íamos descodificando deste modo quem era a pessoa imaginada. Eu era a rainha de França e o meu irmão, naturalmente, era Jim Morrison. Ele adorou a brincadeira e vestiu a melhor roupa que eu lhe oferecera no Natal do ano anterior. Estava lindo.”.

“À hora do jantar, fizemos as nossas orações. O meu irmão disse que agradecia “a casa, o carro, o cão e a família”. Eu disse que estava grata por ele ter dado sentido à minha vida. Recordo que costumávamos falar em viajarmos juntos para vários pontos do mundo.

Perguntei a Scott que país queria visitar, depois de termos ido ambos a Inglaterra. Ele respondeu: “Quem disse que vamos viajar pelo mundo?”

Repliquei: “Bem Scott, quando curarmos a esquizofrenia, toda a gente vai querer saber como é que conseguimos isso, e vai ser necessário viajarmos pelo mundo. Eu subo ao pódio e direi que foi por causa de ti que fiz isto.” Scott imitou-me e declarou: “Foi tudo por causa de ti, Cyndi”.

Scott subiu, não ao pódio mas ao seu quarto. Cyndi desceu as escadas para dar um recado à mãe. Quando voltou para junto do irmão, ele tinha morrido de ataque cardíaco.

Cyndi descobriu, recentemente, não só que um dos seus sobrinhos tem mostrado sintomas semelhantes aos de Scott mas também que teve uma tia-avó que sofreu de alucinações e paranóia.

“Acredito que a doença está presente na minha família”, enfatiza. “Diria que todos os genes são importantes porque mesmo que a doença não esteja presente na família ainda pode ter uma base genética, porque cada um de nós tem alterações genéticas espontâneas.”

Hoje, o principal método de investigação de Cyndi Shannon Weickert consiste em comparar os cérebros de pessoas com diagnóstico de esquizofrenia já falecidas com os de pessoas que não padeciam da doença.

“Um dos problemas com a utilização de material do cérebro humano é o facto de os resultados de um laboratório para outro não serem consistentes”, revela. “Tentamos agora ultrapassar isso usando amostragens cada vez maiores, por exemplo de 38 a 40 cérebros de pessoas com esquizofrenia [antes eram 2-3 casos].

As teorias mais actuais sugerem que a doença começa no córtex cerebral. No passado, os neuropatologistas não tinham conseguido encontrar quaisquer provas de anomalias bioquímicas ou de danos celulares no córtex.

Mas, na realidade, existem efectivamente certos neurónios corticais que estão danificados e que só recentemente foram detectados. Essa foi uma das descobertas mais extraordinárias da neuropatologia moderna.”

Cyndi e a sua equipa procuram “uma neuropatologia específica que permita explicar a disfunção daqueles neurónios”.

Utilizando as tecnologias mais actuais e sensíveis, examinam “milhares de moléculas de uma só vez, para ver o que caracteriza o ambiente molecular do córtex cerebral na esquizofrenia quando comparado com controlos [designação para a pesquisa que compara, por exemplo, o nível de ansiedade num portador de esquizofrenia quando exposto a uma situação de stress com outro grupo sem esquizofrenia exposto à mesma situação].

“Os nossos resultados”, destaca, “sugerem que, em cerca de 40% das pessoas com esquizofrenia, existe um processo activo de inflamação no córtex. Podemos, agora, tentar desenvolver um biomarcador sanguíneo para identificar esse tipo de neuro-inflamação.

Mais importante: os tratamentos desenvolvidos para tratar a neuro-inflamação poderão fornecer terapêuticas novas. E, dado que as respostas podem ser notáveis, talvez venhamos a assistir à restauração de funções neuropsicológicas superiores e ver algumas pessoas “curadas”.

Temos de aplicar terapêuticas agora, em vez de esperar 10 a 15 anos, até conhecer os resultados finais da investigação.” Acredita mesmo ser possível uma cura no seu tempo de vida?, perguntamos a Cyndi Shannon Weickert. “Nunca haverá “uma só cura” para a esquizofrenia”, conclui. “Haverá “várias curas” – e confio que irei descobrir uma no meu tempo de vida.”

“Ice”
© Enric Vives-Rubio

© Enric Vives-Rubio

Em Lisboa, sem esperar por uma cura porque não aceita que está doente, “Ice” (é assim que pede que a identifiquemos) passa os seus dias na Associação para a Integração e Estudo Psicossocial (AIEPS), para onde foi encaminhada, por uma assistente social, em Fevereiro deste ano.

O rosto esguio, sorriso franco e porte nobre desta mulher de 48 anos não denunciam a sua idade nem o peso do sofrimento que desde os 23 a acompanha.

A esquizofrenia paranóide, diagnóstico de “Ice”, chegou na forma de uma depressão, por sua vez provocada pela percepção de que era “perseguida por uma professora, pela qual sentia paixão”.

Licenciada em Matemáticas Aplicadas, ela acredita ainda ter sido “vítima de uma tentativa de atropelamento”, e revê-se a si própria no livro A Explicação dos Pássaros, de António Lobo Antunes, ou na canção Estrela do Mar, de Jorge Palma, na poesia de Herberto Hélder ou nos sketches humorísticos de Bruno Nogueira, como se tivesse sido a musa inspiradora de todos eles. “Vêem-me por dentro e por fora; sinto que estou a ser vigiada; o que eu vejo e ouço, outros vêem e ouvem.”

“Ice” não aceita que sofre de “roubo e divulgação do pensamento”. Acredita sinceramente que lhe podem ler a mente, apropriarem-se e divulgarem publicamente as suas ideias, apesar de ter enfrentado crises psicóticas graves que obrigaram a família a hospitalizá-la. “Em 2011, foram cinco meses de internamento compulsivo e, depois, regime de ambulatório, de Junho a Dezembro”, recorda.

Só aceita tomar medicação (uma “camisa de força química”) por imposição do tribunal, para não ter de voltar ao hospital onde se queixa de ter sido “tratada com agressividade”. E também para não sentir novamente as “dores horríveis” das “lavagens ao estômago”, após duas tentativas de suicídio.

Há períodos dramáticos no percurso de “Ice” que contribuíram para que ela, às vezes, ainda se considere “um fracasso”: a incapacidade (involuntária) de manter um emprego, apesar de ter sido uma aluna brilhante; a dificuldade, a princípio, em aceitar a orientação bissexual; ter sido vítima de violação por parte de colegas de trabalho.

A primeira tentativa de suicídio, após o desemprego, também a frustrou. “Não consegui sequer pôr termo à vida”, lamenta. Pela segunda tentativa de suicídio não se responsabiliza, atribuindo a culpa a uma namorada com quem vivia e que, “no âmbito de uma conspiração nacional e mundial”, a incentivou a matar-se.

Schizo 9

© Enric Vives-Rubio

Na AIEPS – o espaço que Paulo, o filho de Celeste Rola, designa por “o meu trabalho” -, agora que já não considera “uma derrota” o regresso a casa dos pais em dependência total, “Ice” vai buscar ferramentas, jurídicas e legais, mas também apoio emocional.

O maior anseio é voltar a um posto de trabalho – tem perspectiva de um estágio profissional a curto prazo. “Começo a acreditar que sou uma sobrevivente; outros me dizem isso”, regozija-se.

A associação de “Ice” e Paulo foi criada em 1987 por profissionais, famílias e pessoas com doença mental e é dirigida pelo psicólogo José Ornelas, em colaboração com o Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), em Lisboa. A sua missão, declarada oficialmente, é a de “promover a recovery e a integração social através de processos de empowerment e participação social”.

“É um programa muito intenso, tendo em conta factores sociais e pessoais, com várias vertentes”, explica José Ornelas, numa entrevista concedida na sede da AEIPS, onde, nas suas várias salas, é visível o espírito de solidariedade e ninguém recusa um sorriso aos recém-chegados.

O custo desta assistência vai de 0€ (famílias sem meios) a 228€, o escalão máximo definido pela Segurança Social, de acordo com os rendimentos.

“Temos reuniões de ajuda mútua, grupos coordenados pelas próprias pessoas com experiência da doença que ensinam outros a gerir vozes, alucinações ou sentimento de perseguição”, refere o psicólogo que ajudou a delinear a nova política de saúde mental, recomendando o fecho dos hospitais psiquiátricos.

“Nestas reuniões cada um faz a sua narrativa. As pessoas são encorajadas a não desistir de procurar trabalho e a retomar os estudos, básicos ou universitários, para reconquistar independência.”

“Facilitamos o acesso a bolsas para estágios em empresas, com o apoio do Instituto do Emprego e Formação Profissional, encorajamos actividades junto das comunidades, para reduzir o isolamento e elevar a auto-estima; treinamos na área das leis do trabalho e da informática.”

“As pessoas com experiência de esquizofrenia”, sublinha ainda o presidente da AEIPS, “têm a lucidez de quererem ser iguais às outras. A doença mental não é a sua identidade.”

Confiante na possibilidade de “uma recuperação total”, Ornelas evoca o exemplo de John Nash, o génio matemático da Teoria dos Jogos que inspirou o livro e filme homónimo A Beautiful Mind (Uma Mente Brilhante): “Ele sofria de esquizofrenia e, no dia em que foi receber o Prémio Nobel [em 1994], admitiu que as vozes estavam a falar com ele.”

Perante a crise financeira que abala o país e o resto do mundo, com sinais alarmantes de tendência para o suicídio, estará a sociedade mais receptiva a respeitar os portadores de esquizofrenia? O psiquiatra Rui Coelho responde: “Sim e não. É verdade que estamos mais vulneráveis, porque em perda económica.

Há, claramente, um aumento de sintomas depressivos. Mas sendo este um tempo de incerteza, com um maior adelgaçamento das relações interpessoais, a sociedade também pode tornar-se mais narcísica, mesmo que possa ser solidária em contributos materiais.”

Se o suporte social se fragiliza, a saúde da pessoa pode também ter consequências negativas. A título de exemplo, menciona as campanhas sobre obesidade, diabetes, o consumo abusivo de álcool e tabaco, ou a sida.

Na opinião de Rui Coelho, “todos os hospitais gerais devem ter, desejavelmente, um serviço de psiquiatria (a lei já contempla tal) que integre a comunidade, as autarquias, ONG, centros de saúde locais, redes de cuidados continuados em saúde mental…”

“Se investirmos na prevenção, como se fez nas escolas primárias ensinando às crianças a importância de lavar os dentes, aumentando a qualidade de vida e a capacidade de resiliência, pouparíamos na intervenção.”

“É fundamental que esta sociedade, ainda com muita iliteracia, esteja preparada para a doença mental, porque continua a haver um enorme estigma social”, conclui o médico.

“A mensuração rigorosa ainda não é possível em psiquiatria, apesar de haver mais meios imagiológicos, como a ressonância magnética, para despistagem de organicidade cerebral. Não se consegue radiografar – nem palpar ou auscultar – um delírio, uma voz, uma alucinação.”

Patrick e Henry

O médico diagnosticou esquizofrenia e medicou Henry Cockburn (à dir.). Patrick, o pai, não notava melhoras no filho. Consciencializou-se de que estava perante “a luta de uma vida”, mas interiorizou: “É para isso que existem as famílias”
© Patrick Cockburn

 

Henry Cockburn, tal como “Ice”, não aceitava o diagnóstico de esquizofrenia. Para ele, as vozes no seu cérebro eram “uma viagem espiritual num mundo invisível”.

Foi em 2002, quando estava em Cabul a reportar a queda dos Taliban, que o jornalista britânico Patrick Cockburn, um dos mais premiados correspondentes de guerra, foi informado pela mulher, Jan, de que Henry, o filho mais velho, quase morrera afogado nas águas gélidas do estuário de Newhaven.

Foi socorrido por pescadores, e a polícia, chamada a intervir, concluiu que o jovem de 21 anos constituía um risco para a própria vida e levou-o para um hospital psiquiátrico.

A capital afegã era o pior sítio para estar em situação de emergência, mas Patrick, graças aos seus contactos, conseguiu atravessar a perigosa fronteira com o Paquistão, e apanhou um avião em Islamabad para Inglaterra.

Na viagem, foi-se lembrando dos “sinais de aviso” detectados anteriormente por Jan, como Henry andar descalço pela rua, ter sido detido como potencial suicida, quando escalava um viaduto ferroviário, ou a sua desconfiança em relação a objectos electrónicos e mecânicos – desmontava e destruía telemóveis e relógios. O pai achava que eram tão só excentricidades.

Os Cockburn são uma ilustre família com raízes na Irlanda. Francis Claud, o falecido patriarca (a quem é atribuída a frase: “Não acreditem em nada até haver um desmentido oficial”), tal como Alexander (que morreu este ano de 2012) e Andrew, irmãos de Patrick, foram e são grandes jornalistas.

Jan, por seu turno, é uma reputada professora de Literatura Inglesa, primeiro na Universidade de Liverpool e agora na de Kent. O casamento tem sido sólido apesar das longas separações, dado que Patrick, ao serviço do diário The Independent, passava grande parte do tempo em cenários de conflito.

Tão culto e sensível que num dos seus primeiros internamentos pediu à mãe que cantasse o hino de protesto Once to Every Man and Nation, de James Russell Lowell, um poeta anti-esclavagista da Nova Inglaterra do século XIX.

Os versos de Lowell, com o bem a vencer o mal, seriam compatíveis, segundo Patrick, “com o sentimento de Henry de que o que ouvia e via não eram delírios nem alucinações, e sim realidade e revelação”.

O filho foi-se tornando mais apático e circunspecto, avesso à ordem e à higiene. As “vozes que vinham das florestas” e os delírios, descrevia-os como “forças místicas”.

O médico diagnosticou esquizofrenia e medicou-o. Patrick não notava melhoras no filho. Consciencializou-se de que estava perante “a luta de uma vida”, mas interiorizou: “É para isso que existem as famílias.”

 

Em 2007, depois de várias crises que quase o conduziram à morte, mas já a melhorar por causa da medicação, o pai convenceu o filho a escreverem ambos um livro, revelando o que é viver com uma doença que encerra mistérios.

Em 2011, publicaram Henry”s Demons – Living with Schizophrenia, A Father and a Son”s Story (numa tradução literal “Os Demónios de Henry – Viver com a esquizofrenia, a história de um pai e um filho”).

Foi rápido o declínio da saúde mental de Henry (na foto), rebelde desde criança, “no sentido de furar as regras e não do confronto”, com um talento artístico que o pai elogia como “extraordinariamente elegante e original”, sempre com as notas mais altas nas melhores escolas que frequentou
© Patrick Cockburn

Num telefonema para Londres, Patrick diz-nos que Henry “está muito melhor do que quando terminou o livro” com a seguinte frase: “Tem sido uma longa estrada para mim, mas creio ter entrado na etapa final. Há uma árvore debaixo da qual me sento, no jardim de Lewisham, que fala comigo e me dá esperança.”

Na entrevista, o pai também exala confiança: “Estivemos recentemente num festival literário, no Soho, e fiquei fascinado porque a maior parte das perguntas da audiência era dirigida ao Henry. Os ouvintes revelaram-se muito compreensivos, o que ajuda na vontade de sobreviver.”

“O meu filho foi sempre um tipo divertido, que faz amigos com facilidade. Tem um poder de atracção que leva as outras pessoas a gostarem imenso dele, logo à primeira vista.” Henry, congratula-se Patrick, voltou para a Faculdade de Artes em Cantuária.

“O livro elevou a sua auto-estima. É claro que ainda sofre os efeitos secundários da medicação, dorme 11-12 horas por dia, como se andasse constantemente sob efeito de soporíferos, e engordou muito.”

“No entanto, já tem planos para iniciar uma dieta. Não desistiu de compor música rap, que eu detesto, mas continua a gostar de ouvir ópera.”

Escrever sobre “os demónios de Henry” foi, para Patrick, “um acto de coragem”, porque “muitos pais ainda têm medo que os filhos sejam tratados como párias”.

O repórter não tem “complexos de culpa” nem se arrepende de ter exposto as vidas de ambos, porque “é importante vencer tabus, para se agir com conhecimento”. É preciso saber, por exemplo, se há uma história de família – e havia casos de depressão do lado materno de Henry. Outro factor: quando era adolescente, ele “consumia doses excessivas” de cannabis.”

“Há sempre a possibilidade de, a qualquer momento, Henry desistir da medicação”, refere Patrick, “porque os fármacos só controlam a doença não a curam; por outro lado, ele resiste à tentação do abandono porque tem medo que os surtos psicóticos retornem.”

“Não é fácil depender financeiramente dos pais, e duvido que Henry seja integrado no mercado de trabalho, devido à idade, à doença e à crise financeira actual – acredito, porém, que se pode ser feliz, apesar de tudo isso!”

Lori e Steve

© thoughtcatalog.com

 

Lori dá um grito de surpresa quando ligamos uma primeira vez e explicamos por que a procuramos: “Uau, como é que me encontrou?” Foi difícil porque, apesar de vários pedidos, durante um mês, a editora do seu livro, The Quiet Room, não forneceu quaisquer contactos.

Lori abandonou o apelido de solteira, Schiller, e adoptou o de casada, Baach. Foi com este que chegámos a ela, fazendo uma pesquisa no Google.

O seu número de telemóvel constava de um anúncio de uma agência de viagens, onde ela fez um part-time mas da qual se desligou há dois anos. “Você teve sorte!”, exclamou, emocionada: “Obrigada por não ter desistido de querer saber mais sobre o meu tormento.”

O seu tormento começou assim: “Era uma noite quente de Agosto de 1976, no Verão dos meus 17 anos, quando, sem convite e sem anúncio, as vozes se apoderaram da minha vida.” Aos 15, Lori apaixonara-se por um rapaz de 23, charmoso e com sentido de humor.”

“Embora ambos soubessem que, no final das férias, cada um seguiria caminhos diferentes, ela sofreu um desgosto quando ele apareceu à sua porta para lhe apresentar a noiva. “Gradualmente, a luz do meu mundo começou a escurecer”, narrou Lori. “Surgiram pensamentos terríveis: “Por que me deixou ele? Talvez não fosse bonita e sedutora.”

Foi “no meio deste caos”, que irrompeu uma “voz potente”, gritando: “Tens de morrer!” Outras vozes, masculinas e femininas, juntaram-se: “Vais morrer! “Não vales nada!”” E Lori, apavorada, respondia: “Isso não é verdade! Deixem-me em paz!”

A partir do momento em que as vozes se instalaram, a vida de Lori e da sua família, unida e abastada (pai doutorado em psicologia clínica, mãe dona de casa “por vocação” e dois irmãos excelsos) nunca mais foi a mesma.

Todos, cada um à sua maneira, fizeram um pacto: “Guardariam um segredo terrível.” Lori, que frequentava a prestigiada Universidade de Tufts (Massachusetts) e estava em lista de espera para ser admitida em Harvard, temia que os pais não sentissem mais orgulho nela.

E tinha outro medo: “Não sabia se os outros em meu redor também ouviam as vozes, que me insultavam como whore ou fucking bitch.

Os pais receavam que a sua “menina perfeita e divertida” fosse “etiquetada e estigmatizada” pela sociedade. Os irmãos ficaram apreensivos com o próprio futuro. Em 1982, quando Lori foi internada após a primeira tentativa de suicídio, ninguém queria acreditar na gravidade do diagnóstico.

Marvin, o pai, questionou se a culpa seria dele: “Sempre exigi muito dos meus filhos. Sempre os ensinei a atingir a perfeição. Bom nunca era suficiente. Queria que eles superassem os limites das suas capacidades. A vida ensinara-me que a educação e a iniciativa eram chaves para o sucesso. Não contei a ninguém – e não permiti que contassem a ninguém”, lê-se no livro.

Na segunda tentativa de suicídio, de novo num hospital em Nova Iorque, Lori implorou: “Não quero ficar aqui. Não estou doente. Paizinho leva-me para casa.” Só que, minutos depois, ela estava a amaldiçoar o irmão Mark e a tentar arrancar a roupa que vestia. “Foi então que entendi como o seu problema era sério”, confessou Marvin.

O diagnóstico foi o de perturbação esquizo-afectiva, com sintomas maníaco-depressivos e de esquizofrenia. “A Lori que eu conhecia desapareceu quando, em tom de confidência, murmurou: “Eu posso voar. Se abrires aquela janela, eu mostro-te como posso voar”.

© steemit.com

 

A partir daqui, Lori tentou matar-se várias vezes e foi internada outras tantas, mas graças a um fármaco, então experimental, o perigo que ela representava para si própria foi diminuindo.

Com apoio médico e familiar e a sua determinação em sobreviver, Lori foi recuperando das alucinações auditivo-verbais. Reatou laços com amigos, deu aulas no hospital onde foi paciente e aprendeu a gostar de si.

Em 1994, publicou The Quiet Room, esperando que a sua experiência fosse inspiradora para os que experimentam a doença, e que a reacção dos que ignoram este suplício não fosse de terror mas semelhante à de um carteiro que, informado que ela ouvia vozes, se entusiasmou: Coooooool!

Nos quatro anos seguintes, como “embaixadora” da farmacêutica Sandoz (actual Novartis), Lori sentiu-se uma celebridade, depois de “tantos anos de invisibilidade”. Alojava-se em hotéis de cinco estrelas e era convidada de honra em conferências, mas as vozes, ainda que dormentes, não tinham desaparecido.

Quando o medicamento que ela promovia passou a genérico, Lori tornou-se conselheira no South County Mental Health Center em Delray Beach, na Florida. Em 1998, porém, teve uma recaída. Mergulhou num submundo de drogas e álcool.

“A 25 de Março de 2000, bati no fundo”, reconheceu. Estava numa casa de banho imunda a fazer linhas de cocaína. No dia seguinte, inscreveu-se nos Narcóticos Anónimos e cumpriu os três meses de programa de reabilitação até ao fim. Registou as palavras do pai quando a foi buscar à última sessão: “Se voltas a consumir, nunca mais te perdoo!”

Em 2001, o divorciado professor de golfe de Nancy, mãe de Lori, pediu-lhe ajuda para encontrar uma namorada. Nancy pensou na filha, mas antes ofereceu-lhe The Quiet Room, para poupar Lori a mais desgostos amorosos. Quando a autora estava numa sessão de autógrafos, ele aproximou-se e propôs um encontro.

Ela ficou estupefacta: “Você acabou de me ouvir durante mais de uma hora a detalhar o quanto sou doida e quer sair comigo?” Ele retorquiu: “Lido com pessoas mais doidas nas aulas de golfe.” E assim começou uma história de amor.

A 24 de Fevereiro de 2001, aos 42 anos, Lori casou-se com Steve Baach, “alma gémea de olhos azuis”. “Somos muitos felizes e estamos juntos há mais de dez anos!”, explode de alegria, ao telefone.

“Steve ama-me e aceita-me como sou. Ele [com 63 anos] já não dá aulas. Tem o seu próprio negócio, na área da optometria. Está sempre bem-humorado, e se nota que estou estranha, pergunta: ‘Os visitantes’, é assim que ele designa as ‘vozes’, estão a falar contigo?’ Digo que sim, ele pega na minha mão e vamos passear.”

Lori, 53 anos, pertence actualmente ao conselho de directores do South County Mental Health Center, onde já trabalhava em 2009.

“Gosto muito da minha função de peer-to-peer [interpares], trabalhando com psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais e outros técnicos de saúde”, salienta. “Sou aquela que está nos dois lados da vedação.

Quando um paciente diz: “Você não sabe o que é tomar 23 comprimidos por dia”, eu informo-o de que tomo 31; sei detectar quando alguém enrola o medicamento na língua para depois o cuspir; quando se queixam ‘Não sabe o que é ouvir demónios que lhe sugam a vida’, eu revelo que o meu último internamento, durante três anos num “quiet room“, foi precisamente por aquela razão. Eu era uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento”, observa Lori.

E confessa: “Ainda me sinto tentada a parar com a medicação, sobretudo quando me sinto bem, mas depois vejo o que a interrupção faz aos doentes – nunca mais recuperam – e ganho juízo. Além disso, ao contrário do que acontecia nos anos 1960, os efeitos secundários dos neurolépticos são cada vez menores.

É claro que há ainda um caminho longo a percorrer. Eu saí do armário: “Sou Lori Jo Baach que tem esquizofrenia; a minha doença não me define.” As vozes persistem, mas já não me dominam. Ao contar a minha história, quis provar que o milagre pode vir com a esperança.”

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A jornalista agradece o apoio precioso, na descodificação de termos científicos e médicos, do Sr. Doutor Rui Coelho, chefe do serviço de psiquiatria do Centro Hospitalar de São João do Porto e professor de Psiquiatria e Saúde Mental na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 11 de Novembro de 2012 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 11, 2012

Schizophrenia: “We will be able to develop not one, but many cures”

American neurobiologist Cyndi Shannon Weickert wanted to be a chef. When she found out that her twin brother, Scott, suffered from schizophrenia, she froze her cooking dream in order to be a doctor. In Sydney, Australia, she is now leading one of the most important research programs. And she is confident on a real breakthrough. (Read more…)

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Professor Cyndi Shannon Weickert is the Macquarie Group Foundation Chair of Schizophrenia Research, a joint venture of Neuroscience Research Australia, University of New South Wales, Schizophrenia Research Institute and Macquarie Group Foundation, supported by New South Wales.

Her research is focused on the molecular developmental neurobiology of schizophrenia. She earned a PhD in Biomedical Science at Mount Sinai School of Medicine, in New York City, and completed postdoctoral training at the National Institute of Mental Health rising to the level of Unit Chief of Molecules in the Neurobiology and Development of Schizophrenia Unit. She has lectured throughout the world and contributed to over 110 primary research publications.

Professor Cyndi Shannon Weickert gave me a lengthy interview, in two parts (personal and professional), via e-mail:

Let us begin with your dream of being a “famous chef”. Why this dream?  Being a scientist is such a demanding job – researching, addressing conferences, writing… – do you still have time to prepare meals for family and friends?

I think being a chef was among many options for me. I wanted to do something creative, but it could have easily been art or design. In terms of cooking in particular, yes I always loved to cook. I cooked with my grandmother growing up. My favourite dishes to cook are really simple but yummy things.

I love Chicken Kiev which is stuffed with herb butter and cheese sauce, Monterey Jack cheese actually. I like Italian dishes, I make a lot of Italian dishes particularly lasagne and baked rigatoni and I’ve taken gnocchi cooking classes and things like that so Italian is one of my favourites as well. 

In terms of eating I like a variety of foods. I especially like the fresh fish and fresh fruit here in Australia. Yes, being a scientist is a demanding job but I still have time to prepare meals, particularly for my husband. Sometimes, though, what I try to do is cook a dish on the weekend and cook it ahead and then just pop it into the oven when I get home from work or I try to make something simple like a grilled salmon or something that’s fairly quick.  

I don’t actually have a lot of time to invest in fancier recipes. I still do enjoy cooking and occasionally I will have friends from work over. Sometimes it could be for breakfast, you know on the weekend or dinner occasionally during the week.

The town where you were born was described as so small that “if you drive by it and blink you’ll miss it”. In this place of 2,000 people were (are) there other cases of schizophrenia?

No.

Was your brother’s case the only one in your family? Wy is it important the genetic aspect of this disease?

I don’t think that’s the case so I recently found out that a nephew of mine is showing similar symptoms to my brother and I actually had a great aunt that had very severe delusions and paranoia.

I definitely think that it’s in my family, I guess at what point of the genetic aspect is the disease important, I would say all genes are important, because even if the disease doesn’t run in a family it still could have a genetic basis because each one of us has a de novo genetic changes in our genes that means that we didn’t inherent the DNA from our father or mother but somehow it changed as it was passed down to the child. So you can have de novo changes in genes so I think the genes are always important to consider of course.

Cyndi and her twin brother, Scott, who made her "postpone" the dream of being a chef to be a doctor and "find a cure" to schizophrenia. © All Rights Reserved

Cyndi and her twin brother, Scott, who encouraged her “find a cure” to schizophrenia
© All Rights Reserved

How was your relationship with Scott? You defined him as a “pretty competitive, physically and academically”, always trying to get “the top scores in school”. According to your mother, he was “a happy, curious, adventurous and wonderful boy “…

When we were kids my mom remembers pushing us around in the baby carriage so of course we were twins, so she had one in one seat and one in the other and it was a big job as she was kind of petite woman.

And she said that a lot of passer byers would say ‘hi’ because we were a novelty there wasn’t IVF and a lot of twinning in the 60’s. And she said I was the first one to speak and my first word was ‘hi’ and my brother shortly followed after that with “mommy”. And I think Scott and I used to get into a bit of mischief together as toddlers.

There are pictures of us pulling all the pots and the pans out of the bottom cupboard and playing drums on them. My mom said that one of the things she remembered is that, for example if one of us got a glass of orange juice (say if Scott was given a glass of orange juice) he would say well where is the one for Cyndi so we always sort of looked out for each other growing up.

We wanted to make sure that we each got to enjoy things and to share things, that was really important for us. There was always this balance and sense of fairness.

And then we used to enjoy on rainy days sitting at home playing board games like monopoly and all that because we were the same age, with the same interests, both quite smart and analytical. He was really good in math and engineering as well, so the more complex the game, the better usually for us.

I think when things started to sort of diverge was when boys started to take an interested in me and Scott was a bit protective. I didn’t actually like the fact that he was protective.

I thought he should let me go out and hang out with my boyfriend or to do what I wanted, but he was always concerned that they wouldn’t be treating me properly and that he often would get into fights with them and then I would get into fights with my brother because of it.

I think adolescence was more of a tumultuous time for us and we kind of drifted apart a little bit. And we were very competitive in school so even though we wanted to play together when it came to sort of academic performance we each wanted to outdo one another.

I remember in algebra which is 9th grade mathematics we would both furiously do our homework and be the first one to hand it in the morning and try to answer all the questions the teacher asked. When it came to the end of the year exams I had scored 100% which is every single answer was correct and he was devastated as he scored a 98%.

The following year in the 10th grade mathematics we were competing in geometry and he was so upset because in the final grade as he got 98% and I had got 96%, although he still beat me he was disappointed that he didn’t get the 100%.

And I said but Scott, if you look at the average we were absolutely the same but somehow that wasn’t good enough for him, he wanted to basically be “top dog” I guess.

He was typically the smartest person in the room and yes we did have that sort of competitiveness with each other but also a lot of respect for one another too.

We always had this idea that we will look out for one and other we didn’t want anything bad to happen to each other and we always made sure that the friends wouldn’t talk behind our backs or say bad things about the other twin. Because you know adolescence can be a rough time for people.

So it was OK for us to pick on each other or to compete with each other but we didn’t want other people involved with that, we didn’t want other people to hurt or bad mouth the other twin.

© My schizophrenic brain | Guimarconi

© My schizophrenic brain | Guimarconi

How did you notice that he was acting and saying “strange” things? What kind of things?

Well he would say things like when “I play the Beatles record backwards they are telling me that I should not be going to school today” or something. They would be sending him particular messages I can’t remember the exact content of the messages, but they had messages for him.

And I think at one point around the dinner table he said to me that he knows that “I am the daughter of the devil’ and he was absolutely convinced of it.

I think one time he was threatening my mom and pressing her against the wall so he was not really violent against himself but he definitely turned his aggression towards my mother and that’s when I had to call the police.

When we got to the station, he said that’s not my mom, my mom is Yoko Ono (I think that’s in the documentary). It was very, very bizarre stuff, so it was really very strange stuff obviously Yoko Ono is not his mother.

I think his best friend said to me one night they were at the good friend’s apartment, they were maybe just out of high school and they were sitting around in the living room and they were drinking beer, Scott said “He’s here”. The best friend asked who’s here? And he said “Jim Morrison”.

One of their favourite singers was Jim Morrison from The Doors and they would listen to the Doors constantly. So it was a bit of an idol for my brother these rock and roll stars and obviously Jim Morrison wasn’t in the room. But he was convinced he was there with them partying away. So those were the kind of things, really strange things.

Was your brother ever violent against himself and other people? Who has diagnosed him with schizophrenia, in what circumstances, and based on which signals (hallucinations, delusions…)? You’ve mentioned “wires hanging everywhere in his room”, “playing records backwards (because) they were talking to him”, “trying to get in tune with the voices and messages that were coming on from outside him”…

No, he was never violent against himself. We talked about his violence against my mom. Yes, in terms of the wires hanging everywhere in his room, I think.

There were actually these coloured pyramids of construction paper that he would make. And he would make it 3-dimensional and colour the different faces of the pyramid in different shades like black and blue and red (it was usually bright colours) and then he would put them in strategic positions around his room.

Then he would take sort of hangers and unwind them like connect them from one pyramid to the next pyramid or you know one may be on the table top with the turntable where the record was playing and another one might be on his dresser and another one would be connected to his headboard, and you know there were things pasted on the wall and even had geometric designs over where our cat would eat his dinner.

I guess I don’t know if it was for the cat to receive the messages or to protect the cat. I ‘m not particularly sure what that was all about, but he definitely did a lot with shapes and wires and things like that.

© My schizophrenic brain | Guimarconi

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Did Scott ever realise that he suffered from this disorder? What was his reaction when he was informed? Did he accept the medication? How did the disease and the medication affect his body and brain? He did not die of schizophrenia but of “the cumulative effect of other conditions: diabetes, a weakening heart”, your mother said…

Yes, he realised, but not at first. I think his reaction to being informed was that he probably was in shock. He didn’t understand what was happening.

They didn’t have insight or he didn’t have insight in the beginning of the disease and I think that they hauled him off to a mental institution, a State hospital and they injected him with things he said felt like poison to him.

He said he rather be dead then go back to that State hospital with those kinds of antipsychotic medicines that were first available. I believe it was some kind of Thorazine derivative or really strong anti-psychotic that they injected him with and he said it felt like poison and it was awful.

I guess once he started the medicine he got some insight and one time I think I was to blame for one of his relapses because I thought that he was feeling so much better and doing so much better I felt well are you really sure you need the medicine? And so he went off the medicine but then he relapsed.

So that was bit of a shock just seeing all the symptoms come back and see him struggle with it again and it makes me really sad that I suggested that at the time. I guess

I was very naïve in understanding how the disease was managed from a clinical perspective and that one of the worst things you can do is actually come off the medicine and so I emphasise that to all the patients that are in the clinical trial now not to go off their antipsychotics.

He took his medications but he was very concerned that he got the right type of medication and he got the balance and that the doctor didn’t change the medicine once he found something that seemed to work for him.

But the medicine that actually he was on caused a lot of weight gain and so he probably was about maybe 20 kilograms to 30 kilograms overweight and obesity is often a side effect of the antipsychotics, plus he got diabetes.

Also, people with schizophrenia don’t want to go out of the house and don’t really want to exert themselves, so he didn’t have any exercise. He had obesity and diabetes that takes a toll on anybody’s heart and particular on my brothers.

© My schizophrenic brain | Guimarconi

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Your decision to move to Sydney had a seriou impact on your brother’s health condition. Because you were twins or because the disease aggravated his sense of loss? At what extend this separation hindered your mutual relationship?

I think that what happened with me moving to Sydney and affecting my brother’s health, I think it was more psychological health, if you will rather than physical health that was impacted.

I think one of the things my brother really appreciated when I was living in the US (it’s a little bit hard for me to talk about) one of the things he really appreciated when I was there is if he was having an issue.

Let’s say with mom, or with his step-father like the step-father wanted him to go out and mow the lawn, he didn’t want to do it or his step-father didn’t think there was anything wrong with his car but he was convinced there was a clacking noise and so he wanted to talk to me about it.

He wanted to get some support for whatever his issues may be with mom and the step-dad and he could call me. He knew he could call any time of day and will get my support.

Even if it was “I think my tooth is yellow and I need to get it fixed” or whatever he needed I would make sure that I paid for or covered it. So, if something was wrong with his car, he would take it in and whatever kind of cheque that he needed I would send it up right away in the mail really with no questions asked.

He might have to make a case for it, like he was convinced that the cushion on his chair that he was sitting on most of the time in the room was bothering his butt and giving him a rash so after he complained too much I said just go out and get another recliner chair so that was just $200.

So I think the thing about is it with Scott, is that I was his safety blanket, I was his sounding board, I was his best friend, I was the person who had unconditional positive regard for him and believed in him no matter what.

So the problem with moving to Sydney was when he wanted to call me I’d be sleeping and if he called me and I’d be in a daze I’d be half asleep, I couldn’t actually grasp what he was telling me about his current problem and quite frankly I’m not sure I really cared that much.

I was in a middle of a dream or sleep state, so I just actually think he got like upset because it was more difficult to call me when there was a complicated code that you had to put in front of all the numbers. And when he when he got the urge to call me I’d be sleeping and I think he just felt that he was drifting away from me.

© My schizophrenic brain | Guimarconi

I do understand how painful these memories are, but can you please tell us about that Thanksgiving night, when your brother passed away?

About Thanksgiving the things I remember we were playing a game actually in the beginning of the day and it was guessing a famous person. You get a famous person in your mind and people would ask you questions and the only way you can respond is to say “yes” or “no”. I think I was imaging that I was the last queen of France.

It might have been Marie Antoinette, anyway the last Queen of France as I just read a book about her. So the question you ask “Is this person dead” and I answer the question basically – “Yes”, and then you ask “Was the person famous – yes or no”, the answer is “Yes”. So you say “Were they were they in arts?” “No”. “Were they in sports?” “No”.

So you have to basically narrow down who the person is through a series of questions, one word answers and forced choices to figure out who the other person is imaging. So my person was the last Queen of France and my brother’s was of course Jim Morrison from the Doors.

That’s who he was thinking about. And so we enjoyed playing that game and then he dressed up in really nice in some of the best clothes I had given him for Christmas years before.

So he had on a really nice polo shirt on and a sweater over it with his docker pants and brown shoes and he looked really good. We had dinner and we actually sat around the Thanksgiving table saying what we were thankful for. I remember my brother saying he was “thankful for his home, thankful for his car, thank you for his dog and thank you for his family” and so it was like simple things in life that he was really thankful for.

I told him that “I was thankful for him because he has given purpose to my life”. I remember that we were talking about travelling to different places around the world together, because a dream of my brother was always to go to England.

He wanted to know what the English people were like (because we were from the “colonies” and we had to fight the English off).

He was wondering if the English people, because they have such a sophisticated accent to us (to our American ears) they sound so proper, he was wondering if the English people were actually better stock then the Americans, about the same stock, or that their actually somehow substandard to the Americans.

So ‘better, the same or worse” than us Americans is what he was going to try to determine and he was doing his “research”.

So finally his dream comes true, and I get my first chance to go overseas to go to England for work and tell him Scott you have to get your passport as you are coming with us and so he comes. We actually landed on 9/11 and this threw my mother into a hysterical fit because it was 9/11/2001 but we weren’t hurt in anyway.

Scott decides to go about his research and he does it at the pub, so his meeting English people at the pub and he’s kind of chit chatting away about English culture, customs, the history, different things that he can think about over beers and after a week-long of this “research” that he is doing and touring London on a double decker bus with us and going to see London Palace and different things in the area.

Walking around the streets of Oxford he concludes, at the end of trip, that he “thinks that the English people are just about the same as American people’.

On Thanksgiving what happened was I was saying where would you like to go in the world next and he said what makes you think we’re going to go touring the world? I said, well Scott you know when we cure schizophrenia; everybody is going to want to hear how we did it so, so we are going to be wanted to travel all around the world.

I’d said I’d get up on the podium and tell them it was all because of you that I did this. Then Scott followed and I am going up on the podium and say it was all because of you Cyndi.

© My schizophrenic brain | Guimarconi

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“We have to believe in things that are beyond science, beyond our human capabilities and take things on faith”, you said. Is faith important, and how do you combine it with science?

So I think that the issue about things that are beyond science has to do with the idea that we as human beings have a limited capacity to understand and reason.

We are limited based on the human brain that we have. And I think that you have recognise that there are forces that work in the world and the universe that is beyond our capacity to understand.

The way I reference this spiritual being, or this otherness, this force really that I consider the force of goodness is, is it embodies God and embodies something beyond our own limited human resources.

I think that you know the fact that Jesus walked on this Earth and tried to portray to humanity some semblance of what God was like with unconditional positive regard and this ability to sacrifice oneself in pursuit of others and to forgive others and to love one another.

All the emphasis is on things that are really selfless and that’s the kind of spirit I think that perhaps is like godlike or is Jesus like. And I realised when I was going to College that I wanted to be like Jesus and rather than me choosing my life path and saying what I wanted to do all the time and putting myself first.

I felt that I should let go of those desires and let God lead me in my path forward and I think that’s how I was driven to get a PhD perhaps instead of an MD, that’s why I went to New York City as opposed to going anywhere else for education because I prayed about these things.

That’s why I met my husband I said “God I have done a really bad job at picking out boyfriends and partners so could you help me with this one?” And I decided I wasn’t going to make judgements about the fellow that he presented to me, but yet I was going to try give him a chance.

My husband is very different than me, he’s very introverted and he’s very shy not someone that I would have gravitated towards naturally, but I felt like OK maybe this is the guy God thinks would be a good partner for me in my life.

I think if you sort of decide that your life is in God’s hands or is beyond your own control in a way there are forces at work that can guide and shape your life and that you realise that your mission is not about making yourself bigger and better but making the world a better place and showing compassion and love.

Those things are really important in terms of setting a moral compass for your life and recognising why you are doing the science, not just to be famous. Even though I said I wanted to be a “famous chef” I know but it’s not about really the fame, the most important thing is about making a difference in those lives of people that are suffering, that’s where the real importance lies.

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Why did you decide to become a doctor and was this decision directly related to your brother’s disease? Determined, as you said, “not just to write prescriptions but to understand schizophrenia at its root causes”, when did you find out that it would be a mission for “several generations”?

I think that any decisions, any life decisions, like what to do with your career is complex and I definitely decided to become a doctor because my brother suffered from schizophrenia that was the primary reason. Another reason I wanted to study biology is because I fell in love with biology at the Community College.

I thought it was really interesting when the instructor had explained to me how diabetes occurs in individuals. I thought the same kind of underlying biological and molecular understanding of a disease like diabetes could be applied to a disease like schizophrenia.

I think I also had an aptitude for analytical thought and I liked mathematics so it was natural I would gravitate towards the sciences. And I had the passion and the interest to apply it to a disease that I felt really needed some better answers than the ones that were available at the time that my brother first got diagnosed.

Well in terms of the contrast of becoming a famous chef I think that the idea that I was trying to portray there was that if I didn’t feel this compassion for my brother and this need to work on this disease that I might have been more inclined to being in a field that was creative that still involved or had a lot to do with interaction with people or making other people happy.

I really like cooking and food and sharing with other people. But it easily could have been fashion or architecture or something with a lot of design element to it, I think this creative potential is what I was trying to portray and I guess I do certainly have a love of good food and eating (laughing).

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“One of the things that we know about schizophrenia is there’s no culture, no gender, no IQ, no family that’s immune to it, it can strike anybody”, you said. What is the right definition of this disease? What do we know and not know yet?

Well, the right definition of the disease is one that’s been cultivated or refined by psychiatrists over the last 100 years.

And they have certain criteria you can look up in manuals like the DSMIV or the ICD10 and it needs to meet set of criteria like hallucinations and delusions or disorganised behaviour, thought disorder or negative social symptoms like withdrawal, lack of motivation so there is a whole combination of symptoms that is used to diagnose the disease. Usually are gleaned from clinical interviews, so with interviews between the doctor and the patient.

What is the main breakthrough since it was diagnosed for the first time?

Probably the first major breakthrough was the chance discovery that injecting Chlorpromazine or its equivalence would calm patients  going for surgeries and then apply this drug to schizophrenia and blocking the hallucinations and delusions.

I say this is a chance discovery because it was in the  1950’ s that they were actually using chemical dyes in surgical procedures and they noticed that it had an anti-anxiety effect and some astute doctor decided to inject it into the “crazy patients” in the hospital ward and found that it was actually a benefit.

It was because the patients with schizophrenia became more what you may call “manageable” that they able to really shut down a lot of the large psychiatric wards that they had especially in the United States and perhaps throughout the world. But, I am not really sure what the status is of with large institutions are in other countries.

Are the symptoms common to all patients or not? Please give us as much detail as possible about the process that leads to schizophrenia. When does the first episode usually occur? Is this a mental illness of young people in opposition to Alzheimer?

The symptoms are the same or overlapping or similar, certainly a core group of symptoms. I think that one of the first signs of schizophrenia is social withdrawal. You are asking if isolating themselves from relatives and friends is a signal is common and I think it is a very common first system.

What happens is that adolescents can also have mood swings and they can be actually be very distraught like if a boyfriend breaks up with them or they don’t make it on a baseball team so social issues are paramount to adolescents.

But this thing that sort of creeps up on people that then go to develop schizophrenia is lack of ability to want to socialise at all. To retreat into one’s bedroom to find it actually very intimidating to be around one’s peers.

And it is not just one night or a weekend it is actually something that lasts for months so it’s not like they can snap out of it necessarily and that is perhaps one of the differences, that it’s fairly persistent.

The first episode can usually occur around late adolescence so 18 to 22 so the disease can be first diagnosed when they are just finishing high school although the prodrome, this social withdrawal and the drop in scholastic scores or academic achievement, can happen 2 to 3 years earlier so we are talking 15 to 16 years of age but often times it is when a son or daughter will go away to college the first time that it first becomes manifest.

There is in rare cases of childhood onset of schizophrenia but that is thought to be less than 1% of the entire population of people with schizophrenia. And of course it’s a mental illness of young people as opposed to dementia which is usually going to strike in the later decades of life 60’s, 70’s, 80’s for example.

The difference is that an individual with schizophrenia is going to be robbed of their life potential after the family, the community, the government has put money into this individual in terms of education and socialisation and they are actually not able to use that investment to be able to go to college, gain a career, to hold down jobs to get married and to be a productive member of society, that then gives back.

So the real tragedy is actually the loss of potential for these people that are suffering from schizophrenia.

© Schizophrenia And Art

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How do you explain the method and the main focus of this “molecular, cellular and cognitive development” research? How hard is it to work with brain tissues? How many people are involved in the project (scientists, volunteers…)? How are patients reacting?

The main methods is that we use brains from people that have passed away and they have the diagnosis of schizophrenia compared to controls and it takes an understanding of the DNA the human genome and cellular neuroanatomy.

We basically look at the patterns of gene expression in the brain, so you have to have high level training in molecular biology and in neuroanatomy to put the molecular changes in an anatomical context and have to be able to recognise different cell types in the brain and how they may be failing to communicate to one another.

I guess that it is not that it is physically hard to do; it is the theory behind it takes a degree of study and I think there is also quite a bit of variability from one person to the next.

It’s not like a controlled experiment and so you have to take potential confounders into consideration with your statistics how you analyse and interpret the data.

I think one of the problems with using human brain material is that historically there has been a lack of consistency in findings from one laboratory to the next.

We are overcoming that now in the field by using larger and larger groups of subjects so that we may have in our collection 38 to 40 brains of people with schizophrenia and age-matched and quality-matched controls. So, I would say it is getting easier but I don’t think any kind of researchers ever would say it was particularly smooth sailing.

I wouldn’t call it easy, but I think it’s definitely more manageable now perhaps because we have more tools at our disposal then we used to.

By tools I mean things that we can do through a high put through way instead of just looking for example looking for one molecule  at a time, sometimes we can look at thousands of molecules at a time in a single experiment.

More modern theories suggest that the cerebral cortex, that normally controls the dopamine neurons, is weak and that the disease really begins in the cortex. In the past, neuropathologists looking at the cortex thought that there was no evidence of weakness or cell damage anywhere in the brain.

One of the most exciting discoveries of modern neuropathology is that there are in fact cells that are damaged, but they are small inhibitory neurons in the cortex and may have been missed by earlier investigators. The fact that cortical inhibitory neurons are damaged is the most agreed-upon finding in the field today.

We were drilling down and examining molecules made by cells to search for even more specific neuropathology, trying to uncover the possible causes of the demise of inhibitory neurons.

We wanted to use the most current technology to examine thousands of molecules at once with extreme sensitivity to see what the brains themselves could tell us about how the molecular environment of the cortex may be different in schizophrenia compared to controls.

We coupled this discovery-driven approach with a hypothesis driven approach. We re-examined an old theory that there was no gliosis in the brains of people with schizophrenia (as would be predicted if there was cell death and neuronal damage).

We used modern staining approaches and the largest number of samples ever studied and hypothesized that if we looked in the right way we would in fact detect gliosis.

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What have been the main findings of your research so far?

First, that there was indeed evidence of gliosis in the cortex. It was the small glia, the microglia, that were elevated in the brains of people with schizophrenia. These glial cells are the resident immune cells of the brain and an increase suggests that they are reacting to neuronal damage.

Second, we found several types of molecules typically produced by immune cells, known as cytokines, to be greatly increased in the cortex of people with schizophrenia.

Both these lines of evidence suggest that there is an active process of cortical damage occurring in the brains of people who suffer from schizophrenia. We found a large proportion, around 40%, of the people with schizophrenia fell into this high inflammation group.

Schizophrenia does indeed have a biological basis. Our findings mean that increases in cytokines reported in the blood of people with schizophrenia may be linked to increased cytokines and immune activation in the brain.

We may now be able to develop a blood based biomarker to identify those with neuroinflammation as part of the pathophysiology of this disease.

Importantly, treatments being developed to treat neuroinflammation may provide novel therapies for people with schizophrenia. Since the response to neuroimmune therapies can be dramatic, we may see restoration of function and some people “cured”.

It is also likely that there will be different reasons for neuroimmune dysregualtion in different people with schizophrenia and we should be thinking about developing ways to distinguish these and to target treatment.

I would suggest user a laser guided, instead of a sledge-hammer, approach. Also, we as people interested in treating those suffering from schizophrenia, have a lot to learn from other scientists and doctors who have already been treating neuroimmune disorders, such as neurologists and immunologists.

Why is Australia the centre of your research? When did the project begin and how do you get the necessary funding?

Well Australia is the centre of the research that I do because they recruited me here to Sydney to be a leader of schizophrenia research. And it’s not that research is not occurring in the United States or other countries it just has to do with you know I am only a small portion of all the research that is happening internationally and around the world.

So it is only the centre from the perspective of the work that we are doing and I was recruited in 2006 and the main contribution is from the NSW Government, I mean the State Government (not the Australian Federal Government) with contribution from the Macquarie bank, University of New South wales and Neuroscience Research Australia.

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Is there a deadline to reach a conclusion – and at what stage are you now [in 2012]?

Our clinical has actually just finished the end of August we had our last participant we reached our target number for our subjects and now we’re just checking all the data shoring it up to make sure it is accurate  before we break the blind.

There is not really a deadline to reach a conclusion. I think research has its own idea of when the deadline is going to happen.

Usually with research what you do is make a discovery and that usually leads to more questions. So I don’t think research ever really has a deadline per say. There are the project deadlines dates you know time points that we want to finish particular projects but the research itself I anticipate will be going on for a very long time.

However, I think that while that is the case and there will be long term research goals in the basic neuroscience of schizophrenia, but I think that we will be able to deliver new therapies in the shorter term perhaps without understanding the complete mechanism behind the way the treatments are working I think we have the responsibility to the patients to also apply therapeutics in the here and the now instead of waiting for 10 to 15 years for all the research findings to come out.

Why is the pharmaceutical industry not investing more on drugs for mental illness? Raloxifene, for instance, the drug that you have been using had positive effects on breast cancer, so it is not a medicine conceived specifically for schizophrenia.

I think that the Raloxifene is actually being marketed as an osteoporosis drug and when I asked them about their interest in Raloxifene for schizophrenia they said that’s the “bone peoples drug” not the “brain people’s drug”.

So I can’t really tell you why they are not interested in it. I think the decisions that drive a big pharmaceutical company or certainly the whole industry are really beyond my capacity to comment on.

Can you detail the effects of Raloxifine’s therapy on your patients? Is this therapy already being applied in hospitals?

That’s what our clinical trial is about. Is this therapy applied in hospitals? No it’s not currently being applied. Perhaps they are waiting on the outcome of our clinical trial and of others like it.

One thing important to consider is we do not expect every single person with schizophrenia to get benefit from this therapy, we only expect a subset to be true responders about 20% of people with schizophrenia we expect to get a beneficial effect particularly on cognitive and emotional symptoms of schizophrenia.

So the individuals with more negative symptoms and the more intellectual difficulties may benefit the most.

“I decided the best way to help was to understand what was causing the disease so that we could come up with therapies and treatments to deal with the root of the problem, rather than just treating the symptoms – that has been a quest that I have been on for the last 20 years”, you said. Are you confident that you will be able to find a cure in your lifetime?

We will move towards a more personalised, preventative approach to treating people with psychiatric problems. As our biological understanding grows, we will be able to reposition more drugs to trial in schizophrenia. We will develop biomarkers to help tailor treatments.

I think that the most important thing is that there is not going to be one cure for schizophrenia ever. There’s going to be cures for schizophrenia and I am confident that I will discover one of those in my lifetime.

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Your husband changed his medical interests (from animal social animal behaviour) to take the quest of your life – how is it to work as partners? 

Well sometimes it’s fantastic and we really feed off each other and at other times he drives me crazy. So, it feels that we are working non-stop of course through breakfast, lunch and dinner together where we just talk about work.

We currently don’t have children and I would say the work is definitely a cornerstone of our life together but we both really enjoy it and it’s something that sort of we see as a quest and as an interest.

It’s not only our work, it’s our life, it’s our hobby, it sort of consumes us we can spontaneously launch into some analytical conversation and then be talking about relatives or upcoming vacation the next minute, so it’s sort like weaved into our being. Then it’s good because it’s not like you really feel that work tears us apart from one another.

When he is doing work he is not taking himself away from me because when he’s doing work it’s actually work that we are doing together. So you know sometimes when you have a partner that’s working and you’re feeling oh he’s ignoring me.

I don’t feel like that with Tom, he is working for us or we are working together on a problem and I guess that it’s a different way to think about it.

Of course what we do take time out to relax a bit together is to either take a little trip, or we like to get massages or we like to do wine tasting or we like to visit the family. We used to canoe a lot when we were in the States but there are not a lot of places to canoe here in Australia. So some beach walking, we like that. Swimming, we do, Wi fitness we do, things that break the work up and we also either go shopping or go to the gym.

An Egyptian academic recently described the legacy of Mr. Hosni Mubarak as “schizophrenic”. I asked him to use another other word. At what extent the use and abuse of these metaphors affect patients and their families?

Well I think that with people with schizophrenia get a label and there is a lot of misconceptions about what schizophrenia is and schizophrenia isn’t.

I don’t really think we will get a better understanding of schizophrenia as a biological disease until we can really offer therapy and have the people be relieved from this terrible suffering and re-emerge as themselves then perhaps then we will understand that schizophrenia is really a biological disease like diabetes that needs to be treated accordingly.

I guess I would hope that the disease label is something that can be looked at differently in the future once we develop appropriate and life healing therapies.

Cancer and depression are not so “demonised” by society as in a recent past, but not yet mental illnesses such as schizophrenia, bipolar disorder or OCD (obsessive–compulsive disorder). What shall be done?

I think that one of the things you have to keep in mind is that people that suffer from schizophrenia don’t want to be integrated to society. They don’t really want to be integrated with people.

So I think you really have to cure the disease or cure the root cause and then try to rehabilitate people so they can re-enter and I think that’s an important part of any therapy.

A lot of times these people have been estranged from society for decades and if we are going to be able to offer therapies either pharmacological or through brain stimulation it’s going to repair their brain and repair their function that we may also need to support their social reintegration.

I think awareness that it is a biological disease can help with the stigma in a way because the people aren’t blamed for their disease, but I think that until we really have the answers, therapeutic answers they will be having a difficult time getting through the stigma or getting people with schizophrenia to want to be more social.

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Parts of this interview were included in an article published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 11, 2012

Sun Moon Lake e o saxofone de Chang

Na formosura de Taiwan, a ilha que deslumbrou os portugueses no século XVI, há um paraíso primoroso e imperdível. Um lago em forma de sol e de lua, pérola guardada por montanhas talhadas como dragões. Este é o território dos Thao e a nossa guia é Jennifer, orgulhosa aborígene. (Ler mais | Read more…)

Sun Moon Lake é “o lar” de Pashala, o “espírito” mais ancestral dos Thao, onde, segundo uma lenda, duas montanhas – a de Cinglong ou de Kunbariz e a de Lunlong ou de Tiatabu – estão face a face com a Ilha de Lalu no meio, “criando a imagem de dois dragões brincando com uma pérola”
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O dia mal despontou e o fulgor e mistério de Sun Moon Lake já entram pelo quarto do hotel que lhe copiou o nome. Afastamos a cortina, abrimos a janela e sustemos a respiração. A neblina não ofusca a beleza do lago que tem a forma do sol, a oriente, e a da lua, a ocidente.

Há pontos luminosos, num crescendo de intensidade, que salpicam as águas azul-verde-esmeralda, rodeadas por montanhas viçosas até 2000 metros de altitude. Não é por acaso que a terra da mais pequena tribo aborígene de Taiwan (enfeitiça todos os que a visitam, nas quatro estações do ano.

Sun Moon Lake , o maior lago (artificial) da República da China (ROC/Taiwan), 748 metros acima do nível do mar, situa-se no centro da Ilha de Lalu.

Este é também o território sagrado dos Thao, um grupo aborígene que nas primeiras décadas do século XIX detinha um poder considerável numa vasta área de seis comunidades (as actuais Yuchi, Maolan, Shuishe, Shiyin, Maopu e Tosuhe) mas que agora está reduzido a cerca de 500 membros.

Voluntária da Sun Moon Lake National Scenic Area Administration (uma extensão de 9000 hectares), com um uniforme que a faz parecer uma jovial escuteira, Jennifer (assim se identifica) sonoriza as gargalhadas ao microfone enquanto vai narrando a história do lago.

É o único capaz de armazenar água, porque se encontra a uma elevação superior face a todas as outras, o que limita a erosão causada pelos rios.

Originalmente, Sun Moon Lake era conhecido pelos Thao como zintun. Quando os chineses Han (actualmente 98 %da população de Taiwan; os aborígenes são agora apenas 2%) chegaram a Shueishalian, começaram a chamá-lo de Grande Lago Shueishe, Lago Shueili, Lago Shueilishe, Shueilishehaizih ou Bamboo Lake (Lago de Bambu).

Com os Qing, a última dinastia imperial da China (1644-1912) e a chegada de missionários ocidentais, surgiram outros baptismos. Como Ilhéu da Pérola, Lago do Dragão e Lago Candidius.

Para os invasores japoneses (1895-1945), foi Ilha de Jade ou Ilha na Água. Com o fim da ocupação, passou a ser Ilha de Guanghua (A Luz da China).

A partir de 1999, após um violento sismo que abalou a região, e por deferência aos Thao, o governo do condado local de Nantou reconheceu a designação oficial thao de Ilha de Lalu – e assim permanece.

Para a população nativa, e esse orgulho é indisfarçável no rosto de Jennifer, Sun Moon Lake é “o lar” de Pashala, o “espírito” mais ancestral dos Thao, onde, segundo uma lenda, duas montanhas – a de Cinglong ou de Kunbariz e a de Lunlong ou de Tiatabu – estão face a face com a Ilha de Lalu no meio, “criando a imagem de dois dragões brincando com uma pérola.”

Sun Moon Lake é também o território sagrado dos Thao, um grupo aborígene que nas primeiras décadas do século XIX detinha um poder considerável numa vasta área de seis comunidades (as actuais Yuchi, Maolan, Shuishe, Shiyin, Maopu e Tosuhe) mas que agora está reduzido a cerca de 500 membros.
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Uma das lendas que Jennifer nos conta é a de que as águas profundas de Sun Moon Lake foram encontradas, num tempo indeterminado, por um grupo de caçadores Thao que, “durante vários dias”, perseguiu um “veado branco e raro” pelos rios, vales e montanhas de Shuishalian, onde alojou toda a sua tribo.

Em 1945, Sun Moon Lake fazia parte do município de Taichung, onde se chega em pouco mais de uma hora num dos modernos comboios de alta velocidade que partem de Taipé, a capital.

A partir de 1949, depois de o governo nacionalista de Chiang Kai-shek se mudar da China continental para Taiwan, as áreas administrativas foram reorganizadas, e o lago dos Thao passou a fazer parte do município de Nantou.

Lutas pelo poder e subsequente estagnação económica afectaram profundamente as áreas onde os ocupantes japoneses (actuais aliados estratégicos) investiram muito, fosse em fábricas de chá (uma das indústrias locais mais importantes) ou na construção de barragens e centrais eléctricas (o que implicou a transferência de populações).

Assim que o governo nacionalista se estabeleceu em Taiwan, Sun Moon Lake foi escolhido pelo presidente Chiang como local favorito de férias.

A sua residência temporária era o Edifício Hanbi. Construído em 1916 com madeiras de cipreste chinesas, albergou inicialmente a realeza japonesa e, hoje, aqui funciona o requintado Hotel Lalu.

A norte de Sun Moon Lake há uma paragem obrigatória onde centenas (se não milhares) de pessoas quase se atropelam, na subida e na descida de 366 degraus (150 metros de distância) da “escada para o Céu”: trata-se do imponente templo de Wen Wu, dedicado a Confúcio
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Quando o Kuomintang começou a intervir em Taiwan, com projectos de construção de Estado, como a educação (impor o mandarim e proibir o japonês, por exemplo) e a reforma agrária (que permitiu expropriar grandes proprietários locais e partilhar as terras com os chineses que vieram em 1949), Chiang Kai-shek contribuiu também para que Sun Moon Lake e os seus aborígenes se transformassem numa das maiores atracções turísticas de Taiwan.

Há festivais de natação, de música e dança, de fogo-de-artifício, de artesanato; há passeios em embarcações de cruzeiro (e o que se vê em todas as direcções é deslumbrante.

Há trilhos sinuosos para caminhantes e aventureiros; há restaurantes onde mesas giratórias oferecem uma imensa variedade de peixes e mariscos, pescados directamente do mar ou provenientes de viveiros em montra – algumas espécies ainda lutando pela vida sobre chapas ardentes.

Um dos grandes eventos anuais realiza-se no Matchmaker Pavillion. Quando aqui cheguei, sexta-feira de manhã e um sol escaldante, o recinto estava engalanado com balões brancos e cor-de-rosa, noivos e noivas numa correria para celebrarem uniões financiadas pelo Estado.

O intuito? Promover o crescimento demográfico, segundo a guia Jennifer. Por todos os recantos de uma paisagem esplendorosa e resplandecente, havia casais (um total de 50) em pose para as câmaras, exibindo a beleza e originalidade de trajes e enteados.

Nada é deixado ao acaso: a maquilhagem e o catering, por exemplo, estão a cargo de jovens que estudam estas profissões – todos remunerados por cada rosto tratado, cada prato confeccionado.

A norte de Sun Moon Lake há uma paragem obrigatória onde centenas (se não milhares) de pessoas quase se atropelam, na subida e na descida de 366 degraus (150 metros de distância) da “escada para o Céu”: trata-se do templo de Wen Wu, dedicado a Confúcio.

É imponente a estrutura deste santuário colorido onde a imagem do filósofo chinês (e também dos seus discípulos Mêncio e Zisi) é venerada por não crentes e crentes de várias religiões que ali solicitam bênçãos e exprimem desejos.

Junto a dois leões gigantes de granito, e uma gigantesca taça para paus de incenso, na praça frontal, há uma longa fila de espera para tirar fotografias, com um fundo paradisíaco.

Fábrica-museu de saxofones Lien-Cheng, mundialmente famosa, em Taishung
© Radio Taiwan Internacional

 

Enquanto não se chega a Sun Moon Lake, há outro local que merece a atenção dos visitantes: Taichung, cidade no Centro-Oeste de Taiwan.

Aqui, o comércio tradicional e as pequenas empresas familiares, como a fábrica-museu de saxofones de Lien Cheng, coabitam com um dos maiores parques científicos do país, aqui reunindo companhias industriais e tecnológicas de alta precisão do mundo inteiro, atraídas pelos incentivos oferecidos.

A história dos saxofones Lien-Chen vale a pena ser contada porque simboliza a perseverança não apenas de um homem mas de Taiwan, a ilha que os portugueses designaram Formosa, quando a avistaram no século XVI, e que se apresenta como um baluarte de democracia numa região de muitos perigos e ambições.

Oriundo de uma família de camponeses, Chang Lien Chang nasceu em Houli (Taichung) e aqui viveu sempre. Interessado por pintura e música desde miúdo, no início dos anos 1940 formou a “Jazz Band” com alguns amigos, um dos quais tinha um saxofone, raro (e oneroso) instrumento ocidental naquela época em Taiwan.

O grupo de Chang fazia digressões por todo o país até que, um dia, o saxofone foi destruído durante um incêndio.

Ainda que destroçado, Chang decidiu desmontar todas as peças do saxofone e reconstruir os seus elementos um a um.

No museu dedicado à sua obra, ficamos a saber como ele retirou cobre de portas e o fundiu com moedas de prata para servir de material de soldadura. Neste processo criativo, perdeu a visão no olho direito após ter sido atingido por um pedaço de metal.

Nem isso o dissuadiu e, depois de muitos testes, conseguiu produzir “o primeiro saxofone taiwanês”, comprado por um músico filipino. A quantia foi tão generosa que permitiu a Chang tornar-se num fabricante profissional de saxofones – e também num professor rigoroso que não admitia falhas e só aceitava a perfeição.

A empresa, com seis décadas de vida, está a ser dirigida por Chang Tsung-yao, neto do fundador, pela sua mulher, Wang Tsai-jun, ambos músicos exímios
© smore.com

 

A indústria de saxofones em Taiwan prosperou nos anos 1970, com cerca de 30 centros fabricando anualmente mais de 30 mil instrumentos, ou seja, segundo estatísticas oficiais, cerca de um terço da produção mundial.

Os saxofones de Lien-Cheng eram tão famosos pela qualidade, dizem-nos no museu de corredores adornados com caricaturas de Count Basie, Dexter Gordon, John Coltrane, Stan Getz e Sonny Rollins, que os japoneses da Yamaha propuseram uma joint-venture. Esta fracassou devido a discordâncias sobre quem poderia deter a maioria do capital.

Em todo o caso, exultam os herdeiros de Chang, foi à fábrica deste que a Yamaha foi buscar o know-how para o seu saxofone “Jupiter”, marca famosa no mercado mundial.

O negócio começou a fraquejar a partir de 1980, à medida que a China continental se foi tornando num gigante económico.

As fábricas artesanais de saxofone em Houli, com seis a oito empregados, foram sendo incapazes de competir com a produção em massa e mão-de-obra barata oferecida no outro lado do Estreito da Formosa. De um total de 30, restam 13.

O Governo taiwanês não deixou, porém, morrer a fábrica de Chang, que agora coopera com um instituto de investigação para apoiar, a nível técnico e científico, a indústria de saxofones nacional.

Em 2009, foi apresentado um novo modelo, muito bem recebido na Europa – e também nos EUA, sobretudo depois de Bill Clinton receber um de presente quando visitou Taiwan enquanto Presidente.

A empresa, com seis décadas de vida, está a ser dirigida pelo neto do fundador Chang Tsung-yao, e pela sua mulher Wang Tsai-jun. Todos são músicos exímios. E Lien-Cheng é um ícone “glocal”.

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A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 10 de Novembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 10, 2012 

Taiwan quer ser um modelo para a China

Enviados de Taipé nunca foram recebidos em Pequim antes de um congresso do Partido Comunista. Em 2012, porém, em vésperas de eleger os seus novos líderes, a República Popular acolheu dirigentes a favor da reunificação e da independência da ilha que os portugueses designaram Formosa. Será uma nova era? (Ler mais | Read more…)

Celebrações do Dia Nacional em Taiwan: uma multidão usa chapéus com as cores da bandeira da República da China (nome oficial do país), em 10 de Outubro de 2012. REUTERS/Pichi Chuang

Celebrações do Dia Nacional em Taiwan: uma multidão usa chapéus com as cores da bandeira da República da China (nome oficial do país), em 10 de Outubro de 2012
© Pichi Chuang | Reuters

Nos primeiros nove meses deste ano, o número de turistas da China Continental em Taiwan atingiu o recorde de 1,45 milhões – uma subida de 73,6 por cento em comparação com o mesmo período de 2011.

Representando 30% do total dos visitantes da ilha, eles enchem lojas, restaurantes e hotéis de luxo, distinguindo-se pela sofreguidão com que compram produtos Chanel ou Hermès, mas também pela avidez com que visitam o National Palace Museum, em Taipé.

Tão ruidosa é a multidão de turistas da República Popular da China (RPC) que acorre ao museu para ver uma das maiores colecções de peças de arte do mundo – quase 700 mil –, que já não bastam os sinais à entrada do edifício pedindo silêncio.

Nas galerias com as diversas exposições, a permanente e as temporárias, funcionários erguem placards quase implorando que as vozes e gritos se abafem.

O National Palace Museum será, provavelmente, o lugar onde o conceito de “uma só China” não tem diferentes interpretações nos dois lados do Estreito da Formosa (Taiwan ser uma fracção da RPC; a China continental ser uma fracção da República da China/ROC).

Neste museu, concluído em 1965 e várias vezes ampliado, estão guardados mais de 8000 anos de história comum, desde o Neolítico à Dinastia Qing.

Seja na forma de artefactos de jade, que concentram todas as atenções; miniaturas esculpidas à mão e só perceptíveis à lupa; mapas de meticuloso detalhe, exibindo a preocupação com a estabilidade e a defesa internas do território; porcelanas e obras de vários estilos de caligrafia; ou caixas amovíveis que inspiram designers contemporâneos.

O museu original, na Cidade Proibida, em Pequim, foi aberto em 1925, mas, a partir de 1931, por ordem do general Chiang Kai-shek, os objectos mais valiosos foram transferidos para várias cidades, de modo a não serem pilhados pelo exército imperial japonês, invasor derrotado em 1945.

Depois, entre Dezembro de 1948 e Fevereiro de 1949, no auge da guerra civil chinesa, os mais importantes tesouros foram levados, por mar, de Nanjing para Taiwan, desta vez para não caírem nas mãos das forças comunistas de Mao Zedong, mas também porque eram formas de legitimar o Governo nacionalista de Chiang.

Se durante muitos anos a admirável colecção do National Palace Museum foi sendo reclamada pela República Popular como “propriedade roubada” que lhe deveria ser restituída, o degelo recente nas relações bilaterais permitiu, entretanto, que o Palace Museum em Pequim emprestasse as suas próprias peças a Taiwan, considerando que se trata de uma “herança partilhada”.

Guarda de honra em Taipé, na festa da fundação da ROC: as pessoas estão conscientes de que defender uma independência de jure levará a China a usar a força contra Taiwan e ninguém quer sacrificar vidas por soberania”, disse Chang Yu-tzung, professor de Ciência Política na National Taiwan University. AP Photo/Wally Santana)

Guarda de honra em Taipé, na festa da fundação da ROC:  As pessoas estão conscientes de que defender uma independência de jure levará a China a usar a força contra Taiwan e ninguém quer sacrificar vidas por soberania”, disse Chang Yu-tzung, professor de Ciência Política na National Taiwan University
© Wally Santana | AP

Assim, o museu usado pelo Kuomintang (partido de Chiang Kai-shek) para afirmar a ROC como “governo único e legítimo” é agora, com os nacionalistas de novo ao leme em Taipé, um ponto de união com a RPC.

“As relações mútuas são bastante estáveis”, garante-nos Su Chi, presidente do Taipei Forum e antigo secretário-geral do Conselho Nacional de Segurança de Taiwan (2008-2010).

“A China encontra-se numa transição de poder e Taiwan não tem interesse em afundar o barco. Os Estados Unidos, por seu turno, estão satisfeitos com a paz e estabilidade no Estreito.”

“Na realidade”, acrescenta, “Washington e Pequim esforçam-se por manter aqui o statu quo, numa altura em que ocorrem tempestades a Norte – a disputa das ilhas [Rochedos de Liancourt] entre o Japão e a Coreia e [Diaoyu/Senkaku] entre a China e o Japão – e a Sul, no mar do Sul da China [Ilhas Spratly].

“Nenhuma das partes quer arriscar um outro conflito no Estreito – porque Taiwan é o único problema que poderá arrastar as duas grandes potências [China e EUA] para uma guerra.”

No que diz respeito ao contencioso relativo às ilhas Diaoyu/Senkaku, Su Chi destaca o papel moderador que a ROC está a tentar desempenhar para diminuir a tensão.

“O Japão [antigo colonizador durante de 1895 a 1945 e hoje segundo maior parceiro económico, depois da China] já aceitou iniciar um diálogo sobre direitos de pesca, porque sabe que Taiwan é o seu único amigo na região – depois do tsunami em 2011, os donativos de Taiwan excederam a quantia total do resto do mundo.”

Su Chi, que permanece um dos principais conselheiros de segurança do presidente, Ma Ying-jeou, argumenta que, a partir do momento em que “começou a melhorar as suas relações voláteis com a RPC, Taiwan tornou-se num trunfo maior para os EUA e numa inspiração para as forças democráticas na China continental”.

Com trocas comerciais no valor de 130 mil milhões de dólares anuais, as economias de ambas as partes estão cada vez mais integradas, e Su acredita que Taiwan se tornou num “modelo para o futuro” da China continental, porque “deixou de ser uma ameaça para a unidade nacional.”

Ma Ying-jeou, do Kuomintang (aqui com o presidente chinês, Xi Jinping, antes de um encontro no Sangri-La Hotel, em Singapura, em 7 de Novembro de 2015), tudo fez para aproximar Taipé de Pequim até ao fim do seu mandato em 2016
© Roslan Rahman | AFP | Getty Images

A confiança expressa por Su Chi, na entrevista que nos deu, é partilhada por Shaw Chong-hai, decano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Cultura Chinesa de Taiwan e director do primeiro centro de investigação taiwanês em Macau.

“Havia melindre por parte da China quanto a encetar contactos com Taiwan, e até a manter um intercâmbio académico regular, antes de um importante congresso”, disse Shaw, citado por vários media em Taipé.

No entanto, agora que o Partido Comunista Chinês se prepara para eleger uma nova geração de líderes, a 8 de Novembro, não só o recém-nomeado presidente da Straits Exchange Foundation (SEF), Lin Join-sane, ligado ao Kuomintang, foi recebido em Pequim, como Frank Hsieh, antigo presidente do Partido Democrático Progressista (DPP, pró-independência) mereceu igual acolhimento caloroso.

A recepção a Lin e a Hsieh, ambos com agendas políticas antagónicas, mostra “uma crescente flexibilidade da China nas conversações com Taiwan”, declarou Shaw, que nasceu na província de Sichuan, mas vive em Taiwan desde 1949.

E acrescenta: já nem um regresso do DPP à chefia do Estado abalará, porventura, a política de desanuviamento empreendida por Ma Ying-jeou, reeleito [em 2012] para um segundo mandato. O anterior Presidente Chen Shui-bian (preso por corrupção) hostilizou Pequim e Washington com a sua retórica a favor de uma secessão incondicional.

Chiang Kai-chek, o nacionalista em Taipé, Taiwan
© LIFE

Um inquérito conduzido pelo think tank local 21st Century Foundation e publicado, em Maio, pelo jornal Taipei Times indica que embora 45,8% dos jovens nascidos depois de 1984 considerem Taiwan “uma nação independente da China continental”, quase 57% recusaria o recrutamento militar obrigatório na eventualidade de uma guerra com a RPC.

“A conclusão a que chegámos é a de que as pessoas estão conscientes de que defender uma independência de jure levará a China a usar a força contra Taiwan e ninguém quer sacrificar vidas por soberania”, disse Chang Yu-tzung, professor de Ciência Política na National Taiwan University e líder da equipa que efectuou este estudo em liceus e faculdades.

Ainda que as sondagens recentes indiciem apoio ao seu lema, “Nem independência, nem unificação, nem uso da força”, Ma (que desceu de 58 para 52% dos votos face a 2008) sabe que tem de ser cauteloso na aproximação à China com a qual já firmou 18 acordos em várias áreas.

Os taiwaneses não esquecem os mísseis que Pequim apontou à ilha após as primeiras eleições multipartidárias nos anos 1990.

“Todo o mundo de expressão chinesa está atento às conquistas democráticas aqui em Taiwan”, disse o Presidente Ma, nas celebrações do 101º Dia Nacional da República da China, num discurso para milhares de pessoas que assistiram, em Taipé, a um desfile de aprumados militares, acrobacias coloridas de jovens ginastas e actuação de uma banda pop.

“Taiwan demonstrou que a democracia pode criar raízes e dar frutos no âmbito da cultura chinesa. Estou convencido de que a relação entre Taiwan e a China continental não se limita a economias complementares e laços culturais proveitosos.”

“Também poderemos manter um diálogo sobre democracia e estado de Direito. […] Vamos encorajar a criação em ambos os territórios de centros [diplomáticos] que sirvam empresários, estudantes e o público em geral”.

Ma não mencionou, especificamente, um “acordo de paz”, mas, num encontro, na capital taiwanesa, com vários jornalistas e no qual estivemos presentes, Stephen Chen, investigador na National Policy Foundation, assegurou que “este é um objectivo muito importante” para a ilha que descreve como “um milagre” que “sobreviveu, prosperou e se democratizou”.

Mao Zedong, o criador da República Popular da China
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Há uma garantia que pode ser dada a Pequim, frisou Stephen Chen: “Taiwan não vai pedir nem pedirá reconhecimento da sua independência na ONU, porque a República da China [ROC] foi um dos países fundadores.”

“Se declarássemos a independência, seríamos um Estado separado e teríamos de mudar a Constituição. Por isso insistimos em afirmar que nós somos a China. Não reconhecemos a RPC como Estado independente: somos um país único temporariamente dividido.”

“O que mais atrai os visitantes da China continental é a nossa liberdade e democracia”, sublinha Stephen Cheng.

“Perguntaram uma vez a um chinês se podia criticar publicamente o regime, na rua ou nos transportes públicos, por exemplo. ‘Sim’, respondeu ele. ‘E pode escrever essas críticas?’ A resposta foi: ‘Sim, posso escrever, mas não publicar.’ Esperamos que a China seja um país livre e democrático que respeita os direitos humanos e não um Estado agressivo.”

Su Chi, o conselheiro do Presidente Ma, também acredita que “a democracia de Taiwan pode influenciar” a RPC, mas gradualmente.

“Em Dezembro último, quando o nossos três candidatos presidenciais debatiam entre si na televisão [a eleição foi em meados de Janeiro], calculamos que 200 milhões de pessoas dentro da China terão assistido a estes programas, através dos seus media sociais”, disse-nos.

“Isso não significa que a China vá seguir o mesmo caminho que Taiwan trilhou nas últimas duas décadas [da lei marcial à liberalização política], nem no formato nem no tempo”, sublinhou. “Razão? A China é demasiado grande, com um desenvolvimento irregular em várias partes de um vasto território.”

“Terá de encontrar o seu próprio caminho, por tentativa e erro. Esperamos que o processo de democratização seja sereno porque qualquer sobressalto afectará Taiwan, acima de todos. Por tudo isto, e mais do que nunca, é preciso manter uma relação estável com a China.”

A República da China, Taiwan ou Formosa tem cerca de 23 milhões de habitantes (censo de 2011). Com capital em Taipé (na foto, uma vista panorâmica), ocupa uma área geográfica de 36.188 km2
© Taiwan Tourism Board

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Outubro de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 21, 2012