O ponto de viragem na vida de um “skinhead”

Arno Michaelis livrou-se dos sinais do “poder branco” que tinha tatuados no corpo. E livrou-se de um dos movimentos mais racistas do mundo para fundar o projecto Life After Hate, A Vida depois do Ódio. (Ler mais | Read more….)

Dos 17 aos 24 anos, Arno Michaelis pertenceu ao que descreve como "a maior organização racista skinhead à face da Terra, "reverendo da Guerra Santa Racial" e vocalista da banda de heavy metal Centurion. © thirdcoastdaily.com

Dos 17 aos 24 anos, Arno Michaelis pertenceu ao que descreve como “a maior organização racista skinhead à face da Terra – que ele ajudou a fundar -, “reverendo da Guerra Santa Racial” e vocalista da banda de heavy metal Centurion
© thirdcoastdaily.com

Das múltiplas tatuagens que Arno Michaelis ostenta, há uma que se destaca. No pescoço gravou a palavra Dolor. Porque a dor ainda marca a vida deste norte-americano que, dos 17 aos 24 anos, foi um dos membros fundadores do que ele descreve como “a maior organização racista skinhead à face da Terra, “reverendo” da Guerra Santa Racial e vocalista da banda de heavy metal Centurion, que vendeu mais de 20 mil CD da música mais execrável e violenta em todo o mundo”.

Hoje, aos 41 anos, é o director executivo da Life After Hate (LAH, Vida Fepois do Ódio), que nasceu de uma transformação pessoal. Nascido em Mequon, vila de classe média-alta predominantemente habitada por brancos, a norte de Milwaukee, a maior cidade do estado de Wisconsin, Arno teve “uma infância privilegiada”, diz, numa entrevista por email.

“Comecei por me envolver com skinheads porque era um adolescente aborrecido, furioso e mimado, mas também porque vivia numa casa de alcoólicos, com os meus pais sempre a discutir. Sentia-me miserável. Procurava formas de me vingar. Tatuar uma suástica foi a primeira “coisa boa” que encontrei.”

O único irmão de Arno seguiu-lhe o exemplo, mas por pouco tempo. “Ele era mais inteligente e sensato, para se envolver como eu fiz”, admitiu. Arno pertenceu à antiga Church of the Creator (COTC), actual Criativity Movement, com sede em Riverton (Wyoming).

Os seus membros não acreditam em Deus, céu ou inferno. O objectivo primordial é “a sobrevivência e expansão, exclusivamente, da raça branca”. Rejeitam os judeus, os negros e asiáticos como “sub-humanos” e “parasitas”.

Enquanto adepto desta filosofia, Arno Michaelis atacou “todo o tipo de pessoas”, confessou. “Atacava-os pela cor da pele, pela religião, pela orientação sexual ou apenas por terem tido a infelicidade de se cruzarem no meu caminho. Só agredia quem fosse da minha idade ou mais velho, mas havia recrutas que também visavam crianças.”

“Esses incidentes incomodavam-me mas, naquela época, eu era demasiado cobarde para o reconhecer. Também bebia demasiado; estava quase sempre embriagado ou em ressaca. Que me lembre, nunca matei ninguém, mas fui detido várias vezes, embora nunca tenha sido preso.”

“A mudança começou quando pessoas que eu dizia odiar me trataram com afecto apesar da minha hostilidade em relação a elas”, revelou. “Esses actos de carinho não me transformaram imediatamente, mas ficaram as sementes que foram deixando cada vez menos espaço para o ódio. Também ocorreram incidentes violentos tão repulsivos que comecei a sentir vergonha de mim e das minhas acções.”

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Arno Michaelis junto de amigos para os quais, como supremacista branco, não havia lugar na sua vida. Ele era violento, quer em palavras como acções, contra todos os que excluía, apenas devido à a cor da pele, à crença religiosa e/ ou à orientação sexual
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Um “ponto de viragem”, ainda que também não repentino, ocorreu com o nascimento da filha em 1992 e a separação da companheira. Explica Arno: “Em poucos meses, tornei-me pai solteiro, e um segundo amigo foi assassinado numa luta de rua. Finalmente, tomei consciência de que tinha de seguir outro rumo, para que a prisão ou a morte não me afastassem da minha filha. Há uma tarde, em particular, que foi uma epifania.”

“Cheguei cedo ao jardim-de-infância para ir buscar a minha filha. Via-a a brincar com outras crianças. Fiquei impressionado, porque a primeira coisa que reparei foi que todos eram crianças; não eram brancas ou negras, mas filhos e filhas de mães e pais. “

“Um jovem negro da minha idade foi ter com a filha, ela agarrou-se ao seu pescoço e abraçou-o, tal como a minha filha fazia comigo. O sorriso no rosto dele enquanto ouvia a menina dar gritinhos de alegria era o mesmo sorriso que a minha filha me oferecia todos os dias.”

“Pensei em todas as pessoas que tinha magoado”, continuou Arno. “Essas pessoas tinham mães e pais, irmãos e irmãs. Como é que os seus entes queridos se sentiam quando viam pessoas que lhes eram especiais serem espancadas? Quão horrível seria ter a minha filha exposta ao mínimo desta violência?”

“O amor pela minha filha despertou uma empatia dormente pela humanidade da qual nunca tinha dado conta. A minha filha viveu comigo dos 2 aos 17 anos; depois mudou-se para casa de amigos, com a minha ajuda. Completa 20 anos este mês [Novembro de 2012] , e mantemo-nos muito ligados. Falamos diariamente; ela é a minha melhor amiga. Conhece o meu passado e tem orgulho no que eu faço agora com o Life After Hate.”

No seu novo projecto, lançado em 18 de Junho de 2010, Dia de Martin Luther King Jr., Arno Michaelis é agora receptor de mensagens de ódio dos grupos a que antes pertencia, mas o que mais lhe interessa é que “estas mensagens chegam em menor número do que as de pessoas que pedem conselhos para sair desses grupos”. Da pele, Arno já apagou todos os sinais do “poder branco” mas continua a tatuá-lo, agora com divindades do budismo, como um dragão que vai do peito ao tornozelo.

Os pesadelos do passado persistem: “Estão repletos do medo que eu antes infligia aos outros, embora sejam cada vez menos. Tenho passado a última década e penitenciar-me pelo mal que causei, mas sinto uma paz interior cada vez maior, por partilhar compaixão e responsabilidade, sobretudo, com jovens, no âmbito do Kindness Not Weakness, programa do LAH, que começou por ser uma revista mensal online, mas se tornou numa organização mais vasta, que interage com outras pela tolerância.”

“Com outros antigos extremistas, examinamos o nosso passado e mostramos que nada resulta para quem sente ódio, medo e ganância. Explicamos como é de solidão a vida de uma racista.”

Quanto à banda Centurion, “já não existe, felizmente”, congratulou-se Arno, autor do livro My Life After Hate, cujo PDF pode ser descarregado gratuitamente aqui. “Já nem sequer ouço as suas canções, só exibo um pequeno vídeo [de um concerto] durante as minhas intervenções.”

“Sempre que vejo aquilo, sinto-me desonrado mas, ao mesmo tempo, feliz porque posso mostrar o caminho que já percorri. Uma das maiores recompensas foi ter visto o comentário que um jovem colocou na sua página de Facebook.”

“Ele escreveu: ‘Hoje, na escola, tive uma fantástica conversa com Arno. Agora tenho de ir para a cama porque preciso de me levantar cedo para chegar a tempo às aulas.’ Que honra, poder inspirar estudantes a ir para a escola em vez de correrem o risco de abandonar os estudos ou irem para a prisão.”

Arno Michaelis (left) of Milwaukee, a former white supremacist now working to share how destructive his beliefs were to him and others, teams up with Pardeep Kaleka of Greendale, a Sikh whose father was killed in the Oak Creek temple shooting, to give an anti-bullying seminar Monday at Cudahy High School. © Michael Sears

Arno Michaelis descreve a sua transformação durante um seminário na Cudahy High School, em Wisconsin (Milwaukee) depois de um ataque contra sikhs, em Dezembro de 2012
© Michael Sears

Este artigo foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, edição de 11 de Novembro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 11, 2012

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