Agualusa vende passados em chinês

A mais importante obra na carreira do escritor angolano José Eduardo Agualusa foi publicada em Taiwan (e, segundo o contrato, em Macau e Hong Kong). Para 2014, estava prevista uma edição no continente.  (Ler Mais | Read more…)

© José Eduardo Agualusa

Em O Vendedor de Passados, José Eduardo Agualusa “fez um sonho”, ao abrigar uma osga de listras (Eulálio) na casa de um albino de pele “seca, áspera e cor-de-rosa” (Félix Ventura), para evocar “mentiras multiformes da memória” de Angola.

Este livro, que mereceu o prestigiado Independent Foreign Fiction Prize, está agora à venda em Taiwan, seguindo o título inglês, “Camaleões” (變色龍). O contrato prevê também a distribuição em Macau e em Hong Kong.

A primeira edição em caracteres tradicionais conta 2000 exemplares, com preço de capa equivalente a 60 patacas. A agência alemã que representa Agualusa reconhece que “são números modestos”, mas constata, na Ásia, “um interesse crescente” na literatura de expressão portuguesa e espanhola.

Sinal disso é que a editora Human Literature and Art Publishing House, no Continente, vai seguir o exemplo da taiwanesa Ye-Ren e lançará no mercado, dentro de 18 meses, O Vendedor de Passados, desta feita em caracteres simplificados. A tiragem será de 8000 exemplares, aproximadamente a 35 patacas cada um.

Como se explica a atracção pelos autores de língua portuguesa, quando um estudo da UNESCO, divulgado em Maio deste ano e citado pela agência Xinhua, indica que, sem incluir os manuais escolares, “os chineses não chegam a acabar de ler um livro por ano”?

Além de Agualusa, já antes foram traduzidas para chinês obras de, entre outros, Eça de Queirós, José Saramago, Fernando Pessoa (Livro do Desassossego) e Jorge Amado (Gabriela Cravo e Canela). Em breve, será a vez de Gonçalo M. Tavares (Bairro dos Senhores – Brecht, Henri, Calvino, três num só volume).

“Temos a impressão de que, principalmente na China [Continental], o desenvolvimento da economia e o aparecimento de uma nova classe média, com dinheiro e interesse pelo mundo exterior, fazem com que aumente a curiosidade pela literatura estrangeira”, informa-nos a agência do escritor que, este ano, recebeu o Prémio Literário Fernando Namora, com Teoria Geral do Esquecimento.

“Nas listas de livros mais vendidos, na China [Continental] e na Coreia [do Sul], os autores locais continuam a ser os mais importantes, mas de vez em quando aparecem nomes de outras literaturas.”

“Logicamente que a presença de títulos de língua inglesa é maior, como em todos os mercados, mas os editores andam também à procura de pérolas de outros espaços culturais para satisfazer a curiosidade cultural destes novos chineses.”

José Eduardo Agualusa, que considera Barroco Tropical a sua obra “mais complexa”, não vacila ao considerar O Vendedor de Passados “o livro mais importante” na sua carreira – “o carro-chefe”. O facto de ter ganho o prémio do Independent foi crucial para as várias traduções (cerca de 20), incluindo para coreano e bengali.

Neste caso, o escritor recorda, divertido, numa conversa telefónica a partir do Brasil, que a sua agente foi contactada com uma oferta de 100 dólares norte-americanos e a advertência: “Se não quiserem, publicamos na mesma”.

“Eu sonhei com Félix Ventura”, diz Agualusa sobre o vendedor de passados que se apaixona por Ângela, mulher que gosta de fotografar as nuvens.

“Começou por ser um conto publicado numa revista. O livro escrevi-o em Berlim, em 2001, durante uma bolsa de criação literária. A personagem tinha outro nome no sonho, mas nunca me abandonou.”

O resultado é uma sátira política brilhante e uma história de amor comovente. “O Vendedor de Passados foi imaginação pura; não tive de fazer qualquer investigação”, adianta o escritor.

Sobre os elogios unânimes da crítica e o êxito de vendas, tenta justificar: “Os livros são entidades caprichosas, mas acho que o facto de falar da fragilidade da memória e de identidade respondeu a uma necessidade do público.”

“Por exemplo, senti que na Alemanha de Leste e na Estónia as pessoas se reconheceram no livro porque estes países têm um passado que transitou do marxismo para o capitalismo. São lugares onde se procuram novos passados para justificar riqueza”.

© José Eduardo Agualusa

Chen Yihsuan, o tradutor da versão publicada em Taiwan, também se reviu na história narrada pelo réptil habitante das paredes do “genealogista” que fabrica novas vidas para os seus clientes: “empresários, ministros, fazendeiros, camanguistas, generais, gente, enfim, com o futuro assegurado”.

Chen, numa entrevista por e-mail: “Como taiwanês, pensei muito sobre o meu próprio lugar na mundo e na história da [ilha] Formosa. No passado, havia pessoas que disfarçavam a sua etnicidade (os povos aborígenes foram marginalizados no século passado e alguns fingiam que pertenciam à etnia Han); alguns tentaram inventar laços dúbios com famílias ricas e poderosas que vieram da China (havia até quem se considerasse familiar do general Chiang [Kai-Shek].

“Outros alegavam – e ainda o fazem – que são descendentes da dinastia Qing, os chamados clãs das Oito Bandeiras [elite militar manchu]; havia ainda os que tentavam esconder o facto de pais e irmãos terem sido presos políticos ou vítimas do ‘Terror Branco’ [período de repressão que o partido Kuomintang perpetrou em Taiwan durante a lei marcial, 1947-87] – muitas pessoas foram perseguidas devido às suas convicções políticas (independência, simpatias comunistas, posições dissidentes).”

“Sinto, portanto, em O Vendedor de Passados, uma grande empatia com os personagens e as suas histórias”, acrescenta Chen.

“Sendo eu um taiwanês de origem local (isto é, os meus antepassados vieram para esta ilha há mais de três gerações), tenho-me debatido com a minha identidade desde a infância. Quando estava na escola primária, éramos proibidos de falar taiwanês (ou outras línguas nativas).”

“Podíamos ser multados ou receber outros castigos se o fizéssemos. Eu exibia um grande orgulho no meu mandarim quase sem sotaque. Quase poderíamos dizer que, depois da guerra, os taiwaneses ainda vivem sob poder colonial, só que de pessoas diferentes (ou regime, se preferirem). Por isso, ainda não consigo falar taiwanês fluentemente.”

“Devido à situação complexa em Taiwan, eu próprio me sinto um camaleão. Tenho de mudar de cor consoante as pessoas que me rodeiam. É natural, para um taiwanês como eu, ter membros da família e amigos em todo o espectro político. “

A tradução demorou a Chen cerca de três meses. “Todo o processo foi uma alegria”, observou. “Embora a base tenha sido a versão inglesa, a linguagem de Agualusa é vívida e poética; a história é fascinante.”

“Talvez metade do tempo tenha sido para decifrar todos os factos ou mitos, mas valeu a pena, porque contribuiu para um maior conhecimento do país [Angola] e da sua história.” O título, 變色龍 (Camaleões), é “intencionalmente enganador”, nota Chen.

“O leitor poderá confundir os camaleões com a narração da osga, mas é isso que é belo. Todos os personagens são, de facto, camaleões; quer aquele que vende passados, quer os que procuram diferentes passados.”

“É difícil dizer qual a cor verdadeira de uma pessoa até ao momento em que tudo se define, quando se está à beira do precipício: do amor, da guerra, da traição, da vida e da morte.”

© José Eduardo Agualusa

O entusiasmo de Chen não combina com as estatísticas divulgadas em Abril pelo Ministério da Cultura em Taipé, uma cidade onde a cadeia de livrarias Eslite (megastore presente nas grandes cidades da ilha e agora também em Hong Kong) tem pelo menos uma loja aberta 24 horas por dia.

Os números mostram que “os taiwaneses lêem, em média, dois livros [impressos] por ano.” A média no Japão é de 8,4; na Coreia do Sul de 11”.

Em 2010, segundo o ministério, os taiwaneses dedicaram à leitura “4,7 horas por semana ou 40,3 minutos por dia”, um decréscimo em relação a 2008, que registou “5,1 horas/semana, 43,7 minutos/dia”.

No mesmo período, a percentagem dos que “nunca gastaram dinheiro em livros subiu de 45% para 47,5% ; e entre os que não compram livros, o número dos que justificaram “não estar interessados” aumentou de “33,7% para 35,1%”.

Uma das razões apontadas para o desinteresse é a mudança de hábitos, à medida que as editoras enfrentam uma grande concorrência por parte dos media digitais. No entanto, de acordo com a agência Reuters, os taiwaneses passam menos tempo online do que os vizinhos na China, Japão e Coreia do Sul.

O próprio mercado de e-books em Taiwan não tem vindo a crescer, “porque os editores evitam digitalizar as obras receando serem vítimas de pirataria”.

Ao procurar os títulos que mais têm cativado os leitores taiwaneses, a Reuters reparou que nos primeiros lugares do top 10 de bestsellers estão, respectivamente, um livro sobre saúde e outro de exercícios para melhorar a visão – nenhum deles de autores taiwaneses.

“Os restantes são romances ocidentais (a literatura traduzida representa 40 por cento de todas as vendas e 80% dos mais vendidos), incluindo dois volumes da trilogia 50 Sombras de Grey. A ausência de escritores taiwaneses deste tipo de listas preocupa as autoridades porque, nos anos 1980, autores como Huang Chunming, Wu Nien-jen, Zhang Dachun e Li Ao eram as estrelas mais populares de uma “sociedade reputadamente literária”, salientou a Reuters.

[Um filme – dirigido por Lula Buarque de Hollanda – que é uma adaptação livre do livro passou, em Abril de 2015, na sessão de abertura do FESTin, Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, em Lisboa. A estreia oficial, no Brasil, foi a 21 de Maio.]

© José Eduardo Agualusa

Na China Continental, com 580 editoras estatais avaliadas em 44 mil milhões de yuan [cerca de 6000 milhões de euros] publicaram-se mais de 400 mil livros em 2012, um aumento de 14,4%  em relação ao ano anterior, mas as autoridades consideram estes valores muito baixos, de acordo com o Wall Street Journal.

Os livros mais procurados são os de auto-ajuda, geralmente escritos por celebridades televisivas. Ou então bestsellers como A Rapariga com a Tatuagem do Dragão, do sueco Stieg Larsson, e O Código Tibete (que desvenda segredos budistas), ‘congénere’ de O Código Da Vinci, de  Dan Brown.

Em Agosto, a Administração Geral da Imprensa, Edição, Rádio, Filme e Televisão anunciou que iria apresentar, até ao final de 2013, uma proposta de lei para fomentar a leitura, com penalizações para quem não a cumprir.

Esta medida (vaga) foi, porém, olhada com cepticismo até pelo jornal do Partido Comunista Chinês, que sugeriu antes uma mudança no sistema de ensino.

“Uma competição feroz para obter as melhores notas nos exames faz com que sejamos obrigados a ler obras sem qualquer valor e antiquadas”, disse ao Wall Street Journal Kang Kai, director do CS-BOKY, empresa com sede em Pequim.

“Esta experiência penosa faz com que as pessoas interiorizem, mais tarde, que ler é inútil.” Há quem responsabilize, por outro lado, a censura, que é rígida em temas como política, religião e sexualidade.

“Os chineses querem ler, mas não querem ler o que o Governo publica”, comentou ao mesmo jornal Wang Xiadong, presidente da China Pioneer Culture & Media Ca, que adaptou ao cinema livros como As Flores da Guerra/ The Flowers of War, baseado no romance The 13 Women of Nanjing, de Geling Yan, sobre o massacre cometido naquela cidade pelas forças japoneses em 1937.

José Eduardo Agualusa também terá O Vendedor de Passados nos ecrãs, do Brasil, numa “adaptação livre”, sob a direcção de Lula Buarque de Hollanda. A estreia do filme, protagonizado por Lázaro Ramos e Alinne Moraes, está marcada para [21 de Maio de 2015].

Angola não está aqui presente. O enredo gira à volta de uma jovem misteriosa (Lara), que “encomenda memórias” a um “especialista em passados” (Vicente). A actriz principal resumiu assim a narrativa, em declarações ao diário O Globo: “É uma história de mentirosos que se encontram na verdade.”

“Até é possível que o filme venha a ter exibição comercial em Angola – não me admirava muito – porque a principal sala de cinema é de brasileiros”, ironiza Agualusa, num posterior contacto, por Facebook.

O autor não sabe, porém, se o seu livro agora em chinês tem uma edição angolana, à semelhança de O Ano em que Zumbi tomou o Rio (Ed. Chá de Caxinde). Outros títulos foram, entretanto, publicados pela chancela angolana do grupo LeYa, mas não O Vendedor de Passados.

Sobre esta obra, o escritor conta um episódio que o impressionou, no recente Festival de Literatura em Brazaville. “Fomos a uma escola muito pobre mas onde os alunos, de 14-15 anos, tinham sido preparados para ler três livros meus (em francês).”

“A certa altura, um dos miúdos perguntou-me: ‘O homem que muda de rosto é o Presidente da República?’ Eu fiquei espantado com a perspicácia do rapaz. Nem toda a gente entendeu isso. E, mais extraordinário, é que isto se passou no Congo, que está totalmente nas mãos dos militares angolanos.”

Agualusa, que se define como “afro-luso-brasileiro”, um homem que “não simpatiza com a ideia de nações com fronteiras, num mundo de múltiplas identidades”, garante que os seus problemas no país onde nasceu (cidade do Huambo, 1960) “são apenas políticos”, por ser crítico do regime.

Ele nada teme: “Não creio que o poder leia livros ou se preocupe com o conteúdo dos livros. Ao contrário do que acontece no mundo anglo-saxónico, onde a crítica é bem informada e dá ao leitor os instrumentos para entenderem os livros, em Angola não há sequer crítica literária; as pessoas não lêem; o que tem impacto são as entrevistas que eu dou – o dos livros é zero.”

“Na busca do passado – sonhar é o melhor caminho”

Luisa Shu-Ying Chang
© fichet.org.tw

Luísa Shu-Ying Chang, professora catedrática e directora do departamento de relações internacionais da Universidade Nacional de Taiwan, escreveu o prefácio da edição em chinês de O Vendedor de Passados. Os temas que José Eduardo Agualusa aborda nesta obra evocam a relação histórica entre a Ilha Formosa e a República Popular. (Ler mais| Read more…)

em Literatura Contemporânea da América Latina pela Universidade Complutense em Madrid em 1994, Luísa Chang Shu-Ying é, desde há duas décadas, professora e investigadora na Universidade Nacional de Taiwan. Aqui exerce o cargo de directora dos departamentos de relações internacionais.

O seu campo de acção inclui também, segundo diz, “literatura picaresca, de viagens e erótica”. Já traduziu mais de 20 romances de espanhol para chinês. Responde-nos  por e-mail.

Por que escreveu o prefácio do livro de José Eduardo Agualusa? Foi um convite ou uma iniciativa da sua parte?

Quando estudava em Madrid, vivia no  Colégio Mayor Casa do Brasil, e aprendi a  falar português. Em Taiwan, as pessoas pensam que espanhol e português são semelhantes, porque não há um departamento de português, por isso, é frequente encontrar pessoas que me pedem informações ou que escreva artigos sobre literatura espanhola e portuguesa.

Antes de 1998, quando José Saramago ganhou o Nobel, também já escrevia críticas a livros portugueses na China Times Weekly Book Review, onde tinha uma coluna. Durante sete anos, escrevi aqui mais de 350 artigos. Também escrevi uma coluna, durante quatro anos consecutivos na Eslite Monthly.

E o que escreveu no prefácio de O Vendedor de Passados?

O título é: Na busca do passado – sonhar é o melhor caminho. Eu mencionei a influência de [Jorge Luis] Borges na literatura contemporânea mundial, e o factor “sonho”, em particular. Ao sonharmos, podemos divagar pelo mundo real e pelo da fantasia, sendo ambos verdadeiros, de certa maneira.

Iniciei o prefácio com A Metamorfose, de Kafka, referindo transformação da identidade. Depois, comparei a obra de Agualusa com Axolotl, de Julio Cortázar, uma dupla identidade que mantém um diálogo entre si próprio e o seu alter ego.

Evoco, igualmente, o escritor brasileiro Augusto Cury (também escrevi o prefácio para a versão chinesa do seu livro O Vendedor de Sonhos: O Chamado).

Encontrei em ambos semelhanças, no uso do “sonho” como ligação entre o passado, o presente o futuro. Quanto à memória e identidade de alguém, cito Todos os Nomes, de Saramago.

Neste romance, só há uma pessoa chamada José; as restantes são anónimas. O meu argumento é o de que o “nome” pode ser uma identidade para alguns e não representar nada para outros. Creio que essa razão explica por que o título da versão inglesa do livro de Agualusa foi mudado para Camaleões.

O que foi, para si, mais interessante no livro de Agualusa?

Memória, identidade, diáspora e reconstrução da identificação cultural são tópicos importantes e dominantes no momento presente, em termos de estudos culturais e interdisciplinares. Na procura do passado, encontramos raízes e origens que ajudam a entender a situação actual.

O interesse e curiosidade na tradução deste romance de Agualusa não advém apenas da relação histórica entre Taiwan e a República Popular da China mas também do facto de o tema ser um dos que atrai mais escritores e leitores – nota-se muito essa tendência.

Que impacto teve a publicação deste livro em Taiwan? Houve recensões? Será objecto de estudo em universidades – na sua, em particular?

Em Taiwan, todas as editoras publicam todo o tipo de literatura, e fazem-se recensões quer a obras chinesas como estrangeiras. Uma razão é que o realismo mágico de García Márquez influenciou muito a literatura taiwanesa e chinesa, assim como obras dos prémios Nobel  Mario Vargas Llosa (2010) e Mo Yan (2012).

Quanto ao romance de Agualusa vir a ser ensinado nas universidades, isso dependerá dos currículos e das escolhas dos professores. Pode até nem ser estudado nas aulas mas é possível que venha a ser incluído em tertúlias literárias, fóruns ou seminários.

Que tipo de livros procuram os taiwaneses? Uma das principais atracções em Taipé, para um estrangeiro, é a livraria Eslite, aberta 24 horas por dia…

Sim, a Eslite Books Store é um símbolo intelectual e uma marca de referência em Taiwan. As pessoas vão à Eslite sobretudo à noite, aos fins-de-semana ou nos tempos livres. Deambular pela Eslite é um hábito da nossa vida diária. Talvez nem se compre nada, mas passamos ali um dia inteiro a ler muitos livros.

Na capital taiwanesa também há muitas actividades culturais centradas em Literatura. As pessoas mostram interesse em participar e em ouvir os oradores a dissertar sobre um romance, o seu autor e a sua história. No dia 25 deste mês, por exemplo, vou dar uma palestra sobre o ‘boom’ literário na América Latina.

É verdade que as pessoas lêem menos e compram menos livros do que outrora, mas há grupos que, unidos por interesses comuns, estão a promover a Literatura seja qual for a sua proveniência.

É difícil especificar o que os taiwaneses procuram. Geralmente, é o que lhes salta à vista, num determinado momento. Não há um apetite especial por um género específico.

O Vendedor de Passados, que José Eduardo Agualusa descreve como “o carro-chefe” da sua carreira, adoptou, em Taiwan, o título Camaleões (變色龍), à semelhança da edição inglesa

Estes dois artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente no jornal PONTO FINAL, de Macau, em 9 de Dezembro de 2013 | These two articles, now updated, were originally published in the newspaper PONTO FINAL, Macao, on December 9, 2013

Médio Oriente: Vários mundos em 20 livros

É complicada a tarefa de recomendar vinte livros sobre o Médio Oriente e Norte de África. Da política à poesia, da filosofia ao feminismo, das religiões às revoluções, há mais obras publicadas sobre os lugares onde o Sol nasce (Mashriq ou Mashreq/Oriente) e onde o sol se põe (Maghrib ou Magrebe/Ocidente) do que a água que corre pelo Mar Mediterrâneo e o petróleo que jorra no golfo Pérsico. Esta é também uma selecção sem mediadores e, por isso, naturalmente, subjectiva.

A escolha inclui obras recém-publicadas e outras antigas que permanecem actuais, não obstante a volatilidade e a inconstância dos cenários e temas que abordam. Muitas não têm, infelizmente, tradução para português.

1. Palestina
Autor: Hubert Haddad
Tradução: Ana Cristina Leonardo
Páginas: 144
Editor: Quetzal |Série Mediterrâneo, 2009

palestine

Se há um livro que deve ser lido e relido sobre um dos conflitos mais espinhosos do Médio Oriente (sim, não é o único contencioso regional) é este: Palestina.

No final, ninguém poderá dizer que é “pró-palestiniano” ou “pró-israelita, porque vai “atravessar dois espelhos” e ver como “somos todos iguais”, na dor e no amor.

É um romance e uma reportagem, para “acabar com o maniqueísmo”, diz o autor, Hubert Haddad. Prosa repleta de poesia onde há mais realidade do que ficção, é a história de um soldado israelita, capturado por um comando palestiniano.

Sem identificação (os seus documentos tinham sido roubados) e em estado de amnésia, o primeiro-cabo Cham é adoptado por uma família em Hebron, na Cisjordânia ocupada, e transforma-se no palestiniano Nessim. É este o nome do irmão desparecido de Falastin, filha de Asmahane, viúva depois de o Exército ter esmagado o crânio do marido numa emboscada.

A relação entre a pacifista Falastin e Cham/Nessim ultrapassará a fronteira da fraternidade. Quando a cega Asmahane morre e a anoréctica Falastin parte – simbólico que muitos personagens tenham deficiências físicas e mentais –, o protagonista recupera a consciência. O final é comovente.

Só um autor cujo nome – Hubert Abraham Haddad – não oculta múltiplas identidades (judeu, árabe, berbere, francês) poderia escrever este livro.

Em 2008, recebeu os prémios Cinco Continentes da Francofonia (um dos membros do júri era Le Clézio, que ganhou o Nobel da Literatura no mesmo ano) e Louis Barthou, da Academia Francesa.

Em 2009, foi o primeiro laureado com o novo Prix Renaudot de Poche. Haddad nasceu em 1947 – um ano antes da criação de Israel – filho de um judeu tunisino e de uma argelina. Reside em Paris. Com mais de 50 obras publicadas, é romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo, pintor, historiador de arte.

Depois de Palestina, leiam Our Harsh Logic: Israeli Soldiers’ Testimonies from the Occupied Territories, 2000-2010, compilado pela organização Breaking the Silence, criada por militares veteranos para mostrar à sociedade israelita a corrosão moral causada pela ocupação de 3,5 milhões de palestinianos.

2. Peace & its Discontents
Autor: Edward W. Said
Páginas: 240
Editor: Vintage/Random House, 1995

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Se Orientalismo (Editora Cotovia, 2004, 458 Pp.) é uma obra memorável  – e ainda controversa – de Edward W. Said (1935-2003) que marcou o século XX, ao questionar conceitos coloniais de “identidade”, “cultura” ou “civilização”, um outro livro, Peace & its Discontents: Essays on Palestine in the Middle East, merece ser destacado neste ano de 2013 em que se assinalam duas décadas da assinatura dos Acordos de Oslo (Setembro de 1993).

Peace & its Discontents é importante para perceber o fracasso da OLP quando aceitou, sem contrapropostas, toda as condições de Israel para pôr fim ao conflito.

É inegável que Oslo foi histórico, porque marcou o reconhecimento da existência de dois nacionalismos que até se negavam mutuamente, mas expôs, como explica Said a debilidade de Yasser Arafat depois de ter perdido o apoio dos árabes ao colocar-se ao lado de Saddam Hussein durante a invasão do Kuwait em 1990.

O mote fica dado logo no prefácio assinado pelo ensaísta anglo-americano Christopher Hitchens (1949-2011) com a frase mordaz: “…And they call it Peace/ “…E chamam-lhe Paz”, que denuncia: “Nem a palavra ‘bantustão’ descreve adequadamente o estado-gueto para o qual os palestinianos estão a ser encaminhados.”

Edward Said classifica as cedências de Arafat como “uma rendição”, porque este ofereceu tudo de início (como a renúncia à luta armada) enquanto Israel adiou os seus compromissos para o final (fronteiras, colonatos, refugiados, Jerusalém…).

Para vincar a sua avaliação, Said, que é também autor de outras obras “patrióticas” como The Politics of Dispossession: The Struggle for Palestinian Sel-Determination 1969-1994 e The Question of Palestine, cita a análise de um judeu israelita, Meron Benvenisti, que foi militante do partido Likud (a que pertence o actual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu): “Ao folhear centenas de secções ambíguas, subsecções, apêndices e protocolos dos acordos, reconhecemos com toda a clareza que foi absoluta a vitória de Israel e ignóbil a derrota palestiniana.”

3. Modern Arabic Poetry: An Anthology
Autor: Sob a direcção de Salma Khadra Jayyusi
Páginas: 410
Editor: Columbia University Press, 1987
poetry

Se fosse vivo, será que Nizar Qabbani (1923-1998) estaria ao lado do compatriota Adonis na oposição a uma intervenção militar estrangeira na Síria, desprezado por Bashar al-Assad e ameaçado de morte pelos inimigos do regime?

Qabbani, nativo de Damasco, a capital, e Adónis (pseudónimo “pagão” de ‘Ali Ahmad Sa’id Esbar), nascido no reduto alauita de Latakia, em 1930, são dois gigantes literários incluídos em Modern Arabic Poetry.

Editada pela escritora jordana Salma Khadra Jayyusi, esta é uma antologia onde deciframos o Médio Oriente nos versos de 93 autores, dos quais se destacam o nacionalista palestiniano Mahmoud Darwish e o maior poeta neoclássico árabe, o egípcio Ahmad Shauqi.

Prémio Goethe 2011, “eterno candidato ao Nobel”, Adónis vive entre Beirute (onde se exiliou em 1957 depois de preso pelos seus ideais socialistas) e Paris.

Uma antologia de Adonis em português foi publicada em 2012 no Brasil. Num debate na Festa Literária Internacional de Paraty, ele defendeu a separação total da religião e do Estado e uma sociedade imune à Shariah (lei islâmica) onde as mulheres serão livres.

O pensamento de Nizar Qabbani não era diferente. Este antigo diplomata, autor de Arabian Love Poems, Republic of Love e On Entering the Sea: The Erotic and Other Poetry of Nizar Qabbani (únicas obras traduzidas para inglês) escreveu um dos maiores libelos políticos contra os ditadores árabes, depois das guerras com Israel, em 1948  e 1967:

If I were promised safety, if I could meet the Sultan I would say to him: O my lord the Sultan! my cloak has been torn by your ravenous dogs, your spies are following me all the time. (…) O my lord the Sultan! you have lost the war twice because half our people has no tongue.
4. A Line in the Sand
Autor: James Barr
Páginas: 464
Editor: Simon and Schuster, 2012

Line in the sand

Há dezenas, senão centenas, de livros tentando explicar a divisão do Médio Oriente entre a França e a Alemanha quando chegou a hora de “partilhar” os despojos do derrotado Império Otomano. A Line in the Sand não é apenas mais um.

Merece atenção porque fornece novas provas sobre a rivalidade da França e Grã-Bretanha personificada em François Georges Picot e Sir Mark Sykes. Com base em documentos que deixaram de ser confidenciais, James Barr expõe, de forma brilhante, as “ambições imperiais” que conduziram aos Acordos Sykes-Picot.

O impulso para escrever este livro, explica o autor no prólogo, surge quando um documento do MI5 o deixa estupefacto: Quem é que, em 1945, estava a fornecer armas aos grupos judaicos Haganah e ao Lehi/Stern, na altura acossados como terroristas, de onde emergiu o Exército de Israel? A resposta é: “As autoridades francesas no Levante, com o objectivo de fomentar uma guerra civil na Palestina”.

Ou, como observa Barr: “Enquanto os britânicos lutavam e morriam para libertar a França [dos nazis], os seus presumíveis aliados franceses estavam secretamente a ajudar a campanha judaica para matar soldados e oficiais britânicos na Palestina”.

A única maneira de Sykes e Picot chegarem a um entendimento sobre o território que Londres prometera ao rei Abdullah da Transjordânia (avô do actual monarca jordano) foi dividir o que restava da Sublime Porta, após a derrota dos sultões turcos, traçando “uma linha diagonal na areia, da costa do Mar Mediterrâneo às montanhas na fronteira da Pérsia.

O território a norte da linha arbitrária ficaria sob domínio da França; a maior parte do sul ficaria sob domínio britânico. O compromisso, que nenhuma das partes gostava, era o de que a Terra Santa deveria ficar sob administração internacional.”

5. Not the Enemy: Israel’s Jews from Arab Lands
Autor: Rachel Shabi
Páginas: 320
Editor: Yale University Press, 2010

not the enemy

Em 2000, um artigo da revista Science anunciava os resultados de uma investigação conduzida por Ariella Oppenheim, geneticista na Universidade Hebraica de Jerusalém.

“Mais de 70% dos homens judeus [de um total de 119] e metade dos homens árabes [143] cujo ADN foi estudado herdaram o cromossoma Y dos mesmos antepassados paternos que viveram na região nos últimos milhares de anos”, concluiu Oppenhein.

Estes dados ajudam a contextualizar Not the Enemy: Israel’s Jews fom Arab Lands, da jornalista Rachel Shabi, que vive em Londres mas nasceu em Israel, para onde emigraram os pais, naturais do Iraque. Rachel não se faz o centro da história, mas conduz-nos a uma história que tem sido negligenciada e/ou distorcida.

Ela argumenta que o movimento sionista, no âmbito dos nacionalismos europeus, começou por desprezar as comunidades judaicas do Médio Oriente e Norte de África (Mizrachi ou Mizrahim) que “viviam em paz com os seus vizinhos muçulmanos”.

O primeiro chefe do Governo israelita, David Ben-Gurion, por exemplo, dizia que elas “não têm nada de judaico ou de educação humana”, embora Casablanca tivesse muitos académicos e Bagdad muitos médicos. P

osteriormente, quando os judeus foram expulsos ou obrigados a fugir de países árabes após a criação de Israel em 1948, “a ideologia sionista-askenaze” usou-os para negar o “direito de retorno” dos palestinianos  – como se as contas tivessem sido saldadas.

Rachel Shabi detalha como os judeus-árabes, à chegada a Israel eram colocados em “campos de transição”, obrigados a renunciar à sua língua e cultura nativas, para mais tarde serem alojados em áreas subdesenvolvidas, como Sderot, na “fronteira” com a Faixa de Gaza, uma cidade que só merece atenção dos políticos quando atacada com rockets do Hamas.

Para Shabi, a fractura Askhenazim-Mizrahim, estes ocupando um lugar indefinido, “nem judeus de primeira classe, nem árabes de segunda” contribui para o modo como parte significativa da sociedade israelita continua a lidar com os Palestinianos: “Se queres provar que és um bom judeu tens de odiar os árabes.”

6. A Grande Guerra pela Civilização
Autor: Robert Fisk
Tradução: Victor Silva e Miguel Mata
Páginas: 1230
Editor: Edições 70, 2008-2009
 

a grande guerra

O jornalista Robert Fisk não é uma figura consensual: uns idolatram-nos; outros odeiam-no e alguns continuam a respeitá-lo mais pelo passado do que pelo presente, que gera desconfiança.

Hugh Pope, antigo colega no jornal The Independent e autor de Dining with al-Qaeda: Three Decades Exploring the Mny Wolrd of the Middle East, acusa-o aqui de “inventar histórias” e de ser “um impostor”, mas não se pode negar a “Bob” o mérito de ter escrito uma obra extraordinária, tal como já havia sido Pity the Nation: Lebanon at War (Ed. Andre Deutsche, 1990).

A Grande Guerra pela Civilização, resultado de quase 20 anos de investigação, não é um livro para pessoas impressionáveis. Há crueldade, humilhação, sangue e dor nos detalhes com que o homem que detesta ser chamado de “repórter de guerra” evoca os conflitos que lhe povoam a memória.

O título é a inscrição no reverso da medalha com que o seu pai foi condecorado no final da I Guerra Mundial – a “guerra para acabar com todas as guerras” – e a partir da qual foram criadas as fronteiras da Irlanda do Norte, da Jugoslávia e da maior parte do Médio Oriente.

O que ele nos relata é a “fúria dos povos circunscritos por estas fronteiras” e que ele testemunhou de Belfast a Bagdad. Não é uma viagem cronológica.

Começa no Sudão, o primeiro encontro com Osama bin Laden, segue para a invasão soviética do Afeganistão e para a guerra Irão-Iraque (capítulo brilhante) de 1980-1988. Recua até ao genocídio arménio ( “o primeiro holocausto”), e avança de novo para a guerra do Golfo Pérsico em 1991, que forçou o Iraque a retirar-se do Kuwait.

Prossegue para “a última guerra colonial”, a de Israel na Palestina, e termina no Afeganistão e no Iraque de hoje.

A descrição das entrevistas com o líder da al-Qaeda, em 1993, 1996 e 1997, sobretudo da primeira, revela um Fisk deslumbrado com o milionário saudita que clama ter destruído a URSS e que não esconde a ambição de fazer o mesmo à América.

7. A Torre do Desassossego
Autor: Lawrence Wright
Tradução: Eduardo Veiga Coelho
Páginas: 480
Editor: Casa das Letras| LeYa, 2007

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O jornalista, escritor, dramaturgo, argumentista e pianista (na banda de blues Who Do) Lawrence Wright foi viver para um bairro na Arábia Saudita logo após os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2011. Queria decifrar a organização al-Qaeda, responsável pelo pior ataque à América desde Pearl Harbour, tão sinistra como a seita de Tom Cruise, sobre a qual acaba de publicar mais um bestseller: Going Clear: Scientology, Hollywood and the Prison of Belief, (Ed. Knopf, Janeiro, 2013).

Para retratar “A Base” – e desmontar o fracasso dos serviços de segurança americanos –, Wright entrevistou “mais de 600 pessoas”, de Espanha ao Afeganistão, de Paris ao Sudão, leu “centenas de livros e milhares de artigos” e o resultado de todo o seu labor é uma obra-prima ímpar: A Torre do Desassossego.

Ganhou um Pulitzer, foi nomeado para dezenas de outros prémios, a revista TIME classificou-o como “um dos 100 melhores livros de não-ficção de sempre” e está traduzido em 25 línguas.

A história só podia começar com Sayyid Qutb, o ideólogo da Irmandade Muçulmana egípcia, enforcado por ordem do Presidente Nasser, porque permite, por exemplo, “invadir” o espaço interno e externo de Ayman al-Zawahiri, o (sobrevivente) “número dois” de Osama bin Laden.

Co-fundador da Al-Qaeda, Zawahiri é uma das figuras centrais deste magistral thriller, a par de John O’Neill, chefe da unidade de contraterrorismo do FBI cujos alertas foram ignorados até à explosão das Torres Gémeas por pilotos suicidas em Nova Iorque.

Bin Laden foi morto, em Maio de 2011, no seu refúgio no Paquistão, durante uma operação lançada por uma força especial dos SEALs (United States Navy’s Sea, Air Land), mas a Torre de Wright ainda nos desassossega.

8. Os Bin Ladens
Autor: Steve Coll
Tradução: Paula Almeida e Paulo Salgado Moreira
Páginas: 653
Editor: Tinta da China, 2008

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Um outro jornalista norte-americano e Prémio Pulitzer, Steve Coll, escreveu a melhor biografia jamais publicada de Osama bin Laden.

Neste livro, ele oferece-nos a história completa de um clã oriundo de uma terra com nome árabe de “A morte está entre nós” e que o FBI descreveu como sendo “99,999999% de variante não-maléfica”.

Os Bin Ladens – Uma Família Árabe no Século Americano é, igualmente, o resultado de uma longa investigação que incluiu mais de 150 entrevistas nos Estados Unidos, Arábia Saudita, Iémen, Grã-Bretanha, Suíça, Alemanha e Israel, além da pesquisa de documentos judiciais e administrativos e correspondência original.

O objectivo, bem conseguido, foi o de retratar os Bin Laden no microcosmo da família real saudita e no macrocosmo das relações entre Washington e a Casa de Saud, antes e depois do 11/9. Em mais de 650 páginas, o autor de um outro bestseller e Pulitzer, Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan and Bin Laden, from the Soviet Invasion to September 10, 2011 (Penguin, 2004) expõe, de forma brilhante, a luta contínua dos 24 filhos e 29 filhas de Mohamed bin Laden, um pobre que se tornou milionário, para conciliar tradição, religião e modernidade, aversão e atracção pelo Ocidente, “num mundo sem fronteiras”.

Como leitura complementar, aconselha-se também Caça ao Homem: Os dez anos de caça a Bin Laden desde o 11 de Setembro até Abbotabad, de Peter Bergen (Dom Quixote, 2012, 388 pp).

Aqui, o repórter que fez a primeira entrevista televisiva a Bin Laden, em 1997, revisita todos os passos do terrorista apátrida, desde a queda dos Taliban no Afeganistão até ao seu assassínio no Paquistão.

Outras obras do director do Programa de Estudos de Segurança da New American Foundation que merecem destaque são Holy War, Inc. (2002), The Osama bin Laden I Know: An Oral Story of al-Qaeda’s Leader (2006); e The Longest War: The Enduring Conflict Between America and al-Qaeda (2011).

9. The Columbia World Dictionary of Islamism
Sob direcção: Olivier Roy e Antoine Sfeir
Páginas: 400
Editor: Columbia University Press, 2007

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Quem for à procura da entrada Al-Qaeda (neste caso, Al-Qaida) em The Columbia World Dictionary of Islamism ficará espantado, talvez, por encontrar a organização de Bin Laden “encaixada” entre Pearl (Daniel), o repórter do Wall Street Journal executado no Paquistão pelo grupo terrorista Jamaat al-Fuqara e Qaradawi (Yusuf Abdullah), um xeque egípcio venerado pela Irmandade Muçulmana.

Explicação: em árabe, o artigo definido –al, embora usado em muitos nomes e frases, é ignorado, de um modo geral, na ordem alfabética, como acontece neste monumental dicionário.

Com 2000 entradas, editado originalmente em francês (Dictionnaire Mondial de l’Islamisme, Ed. Plon, 2002, 518 pp.), apenas sob a direcção de Antoine Sfeir, director de Les Cahiers de l’Orient, trata-se de uma obra imprescindível para deixar de confundir Islão com Islamismo.

Este termo começou a ser usado em França, por volta de 1980, para descrever “os muçulmanos radicais para quem as suas acções sociais e políticas se baseavam no Islão”.

Americanos e britânicos seguiram depois essa terminologia, embora, “em francês, a palavra ‘Islamismo’ se tenha tornado quase sinónimo de ‘terrorismo’”, o que Sfeir e Roy lamentam. Também consideram inadequados as expressões “militância religiosa”, “tradicionalismo” ou “ortodoxia”.

Porque “nem todos os movimentos fundamentalistas são militantes, menos ainda terroristas; muitos radicais desconhecem Islão e outros estão longe de ser ortodoxos; nem todos os muçulmanos tradicionais são fundamentalistas; nem todos os muçulmanos conservadores são radicais.”

“(…) Não é possível estabelecer uma ligação entre o quão profunda é a sinceridade religiosa e a propensão para a violência.” Sfeir e Roy são, provavelmente, os maiores especialistas em islamismo.

O primeiro, jornalista e politólogo franco-libanês, é autor, por exemplo, de Les Réseaux d’Allah – Les Filières islamistes en France et en Europe (1997), Les Islamismes D’Hier à Aujourd’Hui (2008), e o segundo, professor no European University Institute, em Florença (Itália), escreveu, entre outros, de L’Échec de l’Islam politique (1992), Généalogie de l’islamisme (1995) e L’Islam Mondialisé (2002).

10. The Arab Uprising
Autor: Mark Lynch
Páginas: 304
Editor: PublicAffairs/First Trade Paper Edition, 2013

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Director do Instituto de Estudos do Médio Oriente na Universidade de George Washington, onde é professor associado de Ciência Política e Relações Internacionais, senior fellow no Center for a New American Security e editor do Middle East Channel for ForeignPolicy.com, Mark Lynch tem milhares de seguidores.

Porque é um académico e blogger com acesso a fontes privilegiadas, dos cafés de Alexandria ao corredores da Casa Branca. The Arab Uprising: The Unfinished Revolutions of the New Middle East, que publicou este ano, é como um “certificado de garantia” de que as revoluções no mundo árabe, iniciadas na Tunísia, em 2011, com a queda do Presidente Ben Ali, são apenas os primeiros sinais de um colossal tremor de terra.

No entanto, apesar de observador sábio e sagaz, Lynch ressalva que “ainda é cedo” para saber se este sismo conduzirá ou não a regimes democráticos.

O conselho que ele deixa aos Estados Unidos, numa altura em que a Administração Obama estava a ser empurrada para intervir na Síria, é a de que, “pela primeira vez na história, a América não poderá mais ignorar a opinião pública” nos países que se sublevam.

Como complemento deste livro, recomenda-se também The Struggle for Egypt: From Nasser to Tahrir Square (Oxford University Press, 2011). Esta obra de Steven A. Cook, que ganhou  a medalha de ouro do Book Prize do Washington Institute, em 2012, é um guia essencial para compreender a “revolução” que derrubou Hosni Mubarak, a “anti-revolução” militar que destituiu Mohamed Morsi e a subsequente “contra-revolução” da Irmandade Muçulmana.

11. Reset Middle East
Autor: Stephen Kinzer
Páginas: 288
Editor: I.B. Tauris & Company, 2010

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Autor de Os Homens do Xá: O golpe no Irão e as origens do terrorismo no Médio Oriente (Ed. Tinta da China, 2003), a admirável biografia de Mohammad Mossadegh, um dos políticos ainda hoje mais amados por ter ousado nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company,  Stephen Kinzer voltou a escrever um livro incómodo.

Em 2013, a CIA reconheceu, publicamente, o seu papel na queda de Mossadegh para reinstalar no Trono do Pavão o seu aliado Mohammad Reza Pahlavi.

Um erro estratégico que abriu caminho ao fim da monarquia e à instauração da primeira República Islâmica, fundada por Khomeini, em 1979.

Em Reset Middle East : Old Friends and New Alliances – Saudi Arabia, Israel, Turkey, Iran, Kinzer tenta explicar “os erros do Ocidente no Médio Oriente”, e deixa um conselho.

Em vez de se aliar a Israel e à Arábia Saudita, os Estados Unidos deveriam aproximar-se ainda mais da Turquia, país membro da NATO, governado por um partido inspirado no islão dos sufis, e restabelecer os laços diplomáticos com Teerão.

Esta obra parece uma utopia, mas certo é que, em Junho deste ano, os iranianos  elegeram (e, surpreendentemente, o Supremo Líder, Ali Khamenei, aprovou) um pragmático, Hassan Rouhani, para substituir o messiânico Mahmoud Ahmadinejad.

Num gesto simbólico, em vez de negar o Holocausto, como o seu predecessor, Rouani usou a sua conta de Twitter para desejar a todos os Judeus “um feliz Ano Novo” (Rosh Hashana).

Sobre esta área geográfica, leia-se também The International Relations of the Arab Gulf  (Cambridge University Press, 2009), de F. Gregory Gause III, um dos maiores especialistas no Golfo Pérsico e suas monarquias árabes.

Gause avalia, designadamente, “os imperativos de segurança” que impeliram as invasões do Irão (1980-88) e do Kuwait (1990) pelas tropas de Saddam Hussein; “a competição pela hegemonia regional” entre a Arábia Saudita, o Iraque e o Irão; e os interesses dos Estados Unidos nos Estados que produzem actualmente mais de 23 milhões de barris de petróleo por dia, com reservas confirmadas de 728 mil milhões (55% do total mundial).

12. Simon Wiesenthal: O maior Caça-Nazis da História
Autor: Tom Segev
Tradução: Marta Amaral
Páginas: 444
Editor: Matéria Prima, 2011

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A Shoah é um tema que  parece “perseguir” Tom Segev, incluído na categoria dos “novos historiadores israelitas” (tal como o conservador Benny Morris e o “pós-sionista” Ilan Pappé), desde que escreveu Soldiers of Evil: The Commandants of the Nazi Concentration Camps (baseado na sua tese de doutoramento na Universidade de Boston) e The Seventh Million: The Israelis and the Holocaust.

Este livro, em particular, deveria ser lido pelos que negam ou banalizam o Holocausto. Aqui se expõe e documenta o modo como os sobreviventes dos planos genocidas de Hitler começaram por ser recebidos com “condescendência e vergonha” pela Yushuv (comunidade judaica da Palestina histórica) obrigando-os “ao silêncio e à rejeição”.

Mais tarde, seriam “usados para efeitos de manipulação política”, sobretudo quando Israel estabeleceu relações com a Alemanha para receber indemnizações vitalícias. Com a biografia de Simon Wiesenthal (1908-2005), o homem que foi crucial para a captura de Adolf Eichmann e outras centenas de nazis, Tom Segev volta a mostrar o carácter independente que sempre marcou o seu trabalho, que inclui também o notável One Palestine Complete: Jews and Arabs Under the British Mandate.

Wiesenthal não deixa de ser um herói admirado por Segev, mas “é um anjo com asas sujas”, que cooperava com a agência de espionagem Mossad, era rival de outro caçador de nazis, Elie Wiesel, e amigo de um colaborador suspeito dos nazis, Kurt Waldheim (antigo secretário-geral da ONU).

Também era um homem que “tinha versões diferentes para acontecimentos iguais”. Por que mentia ele? Segev explica: “Sofria da síndrome do sobrevivente; só gostava de histórias felizes.”

13. As Cruzadas Vistas pelos Árabes
Autor: Amin Maalouf
Tradução: G. Cascais Franco
Páginas: 330
Editor: Difel, 1990-2007

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A primeira edição, em francês, remonta a 1983, mas 30 anos depois, As Cruzadas vistas pelos Árabes, livro de estreia do antigo jornalista Amin Maalouf, não pode estar ausente da bibliografia do Médio Oriente. Até então, esta “guerra santa”, iniciada em 1905 pelo Papa Urbano II contra “os infiéis, pagãos e hereges” muçulmanos tinha uma só versão: a dos cristãos europeus.

Com a obra do católico maronita Maalouf, que fugiu da guerra civil no Líbano, onde nasceu para se refugiar em Paris, onde é agora membro da prestigiada Academia Francesa, documentos até então desconhecidos permitiram outras narrativas.

No preâmbulo, Maalouf explica que não foi sua intenção escrever um livro de História, mas sim documentar “dois séculos movimentados que moldaram o Ocidente e o mundo árabe, e que ainda hoje determinam as relações entre anos”.

A simplicidade da escrita e uma imaginação prodigiosa sustentada por factos reais contribuíram, seguramente, para que todo o trabalho literário de Maalouf seja um conjunto de bestsellers. Desde o seu primeiro romance Leão, O Africano (2010, Quetzal), passando por Samarcanda, O primeiro século depois de Beatriz, O Rochedo de Tânios (Prémio Goncourt, 1996), Os Jardins de Luz, Escalas do Levante, O Périplo de Baldassare, O Amor de Longe (libreto), As Identidades Assassinas, Um mundo sem regras, Origens – todos editados pela Difel.

Voltemos às Cruzadas vistas pelos Árabes: no final, antes das notas, fontes e cronologia, Maalouf faz o diagnóstico da doença. “Num mundo muçulmano perpetuamente agredido, é impossível impedir a emergência de um sentimento de perseguição que adquire, em certos fanáticos, a forma de uma perigosa obsessão. (….) É óbvio que o Oriente árabe continua a ver no Ocidente um inimigo natural,

Contra este, qualquer acto hostil, seja ele político, militar ou petrolífero, não é mais do que legítima desforra. E não podemos duvidar que a fractura entre esses dois mundos data das cruzadas, ainda hoje encaradas pelos Árabes como uma violação.

14. Osman’s Dream: The Story of the Ottoman Empire
Autor: Caroline Finkel
Páginas: 720
Editor: John Murray, 2006

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O primeiro dos 16 capítulos de Osman’s Dream: The Story of the Otoman Empire, 1300-1923, intitulado “First among equals” (Primeiro entre iguais), começa assim: “The Ottoman Empire ended on a particular day, but its beginnings are shroured in myth”.  (O Império Otomano começou num dia determinado, mas o seu início está envolto num mito.”

O dia em que acabou foi 20 de Outubro de 1923, quando Mustafa Kemal Atatürk se declarou presidente da República Turca; mas também pode ter sido 1 de Novembro de 1922, quando o último sultão  foi privado de todos os poderes excepto o de líder religioso; ou 1 de Março de 1924, quando o califado foi totalmente abolido, para dar lugar a um Estado que “não deve nada a políticas dinásticas nem a direitos divinos”.

Investigadora da arquitectura militar e do exército otomano, Caroline Finkel vive em Istambul há muitos anos, e há muitos anos que queria escrever esta obra, para ajudar – os de fora – a compreender melhor um império que, no século XVI, se estendia a três continentes, “desde a Hungria ao golfo Pérsico, do Norte de África ao Cáucaso”.

Um império que marcou para sempre a história da Europa, onde a Turquia moderna reclama agora o seu lugar – em particular como país membro da UE.

Como complemento deste livro, recomenda-se também três obras fundamentais de Andrew Mango, escritor britânico nascido em Istambul: Discovering Turkey (1971) Atatürk: The Biography of the Founder of Modern Turkey (1999) e The Turks Today (2004), que ajudam a descodificar a complexidade da política e da sociedade turcas.

15. Blood and Belief: The PKK and the Kurdish Fight 
Autor: Aliza Marcus
Páginas: 1000
Editor: New York University Press, 2009

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Jornalista que segue, desde 1989, o Partiya Karkeran Kurdistan ou Partido dos Trabalhadores do Curdistão, Aliza Marcus colocou todo o seu saber em Blood and Belief : The PKK and the Kurdish Fight for Independence.

É uma análise objectiva da organização fundada em 1978 e do seu líder, Abdullah Öcalan, que envolveu a Turquia numa guerra com mais de 40 mil mortes, nos dois lados.

O livro, dividido em quatro capítulos, contém entrevistas com antigos guerrilheiros, alguns exilados na Europa, curdos que não apoiam o PKK e “activistas independentes” Turcos e Curdos.

Um dos grandes méritos da antiga correspondente dos jornais The Boston Globe e Christian Science Monitor é relatar sem complacência os actos bélicos de Öcalan e do exército turco (que praticou uma política de terra queimada para se ver livre do seu “inimigo número um”) e, ao mesmo tempo, instilar simpatia pelos 25 milhões de Curdos que – espalhados pela Turquia, Síria, Iraque e Irão – não têm uma pátria.

Em 2013, depois de capturado e condenado à morte (pena reduzida, por pressão da União Europeia, a prisão perpétua na ilha-fortaleza de Imrali, no Mar de Mármara), Öcalan anunciou um cessar-fogo. Desistiu da independência em troca de mais direitos políticos, sociais e culturais para o seu povo. Em Maio de 2013, os combatentes do PKK começaram a desmobilizar em direcção ao Norte do Iraque, que beneficia de um governo autónomo curdo.

Em Setembro, porém, perante o impasse no “processo de paz” a retirada foi “suspensa temporariamente”, embora a trégua se mantenha.

No final de Blood and Belief, a repórter que um tribunal turco acusou de “incitamento ao ódio” devido a um artigo enviado para a Reuters sobre a evacuação forçada de aldeias curdas, em 1995, resume: “Má ou boa, a luta do PKK colocou o problema curdo na agenda da Turquia e do resto do mundo. Ajudou os Curdos a definirem-se como Curdos. Deu-lhes sentido de honra”.

16. Memoirs from Women’s Prison
Autor: Nawal El Saadawi
Páginas: 204
Editor: University of California Press, 1994

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O feminismo árabe nasceu, oficialmente, na estação ferroviária central do Cairo, quando Huda Shaarawi (1879-1947), recém-chegada de uma conferencia na Europa, retirou o “véu” perante a estupefacção (inicial) e aplausos de centenas de outras mulheres que imitaram o gesto. Foi em 1923, ano da independência do Egipto.

Esta figura extraordinária, nascida num sistema segregacionista – imperdíveis as suas memórias, publicadas em 1987 (Harem Years: Memoir of an Egyptian Feminist, 1979-1924), conquistou a liberdade a partir do momento em que se separou do primo com quem se casou, aos 13 anos, quando ele violou um contrato-promessa ao manter uma escrava-concubina. Em 1910, a activista fluente em árabe, turco e francês abriu a primeira escola para raparigas seguirem um currículo académico, não lavores domésticos.

Em 1919, organizou a maior manifestação contra o poder colonial britânico. Para muitos, permanece incomparável, mas há outra egípcia que segue os seus passos: Nawal El Saadawi. autora de mais de 50 livros sobre a condição das mulheres no mundo árabe.

Entre as suas obras fundamentais está Memoirs from the Women’s Prison, escrita quando Anwar Sadata acusou de “crimes contra o Estado”, por se opor ao tratado de paz com Israel.

Foi libertada em 1981, após 22 dias de cárcere, quando o Presidente foi assassinado. Em Abril de 2013, numa entrevista que me deu, a octogenária que, dois anos antes, se juntara aos jovens na Praça Tahrir contra o regime de Mubarak, recordou:

– “Todos os dias a guarda prisional dizia: ‘É mais perigoso, para si, eu encontrar na cela papel e caneta do que uma arma.’ Não me rendi. Pedi ajuda a uma prostituta, ajudante da guarda e que nos trazia o pão. No dia seguinte e durante três meses, ela apareceu com rolo de papel e o seu eyeliner. Foi deste modo que escrevi ‘Memórias da prisão’ . Escondi tudo numa marmita colocada num buraco fundo escavado no chão. Os inspectores nunca descobriram. Salvei a minha vida.”

Sempre vigiada pelos serviços secretos, como Huda Shaarawi era controlada pelos eunucos do harém onde nasceu, Nawal El Saadawi insiste em viver no Egipto e não se exilar.

Sobre uma das suas várias obras, A Daughter of Isis, aconselhou Doris Lessing, Nobel da Literatura 2007: “Este é um livro que todos deveriam ler”.

17. O Harém e o Ocidente
Autor: Fátima Mernissi
Tradução: Maria Adelaide Cervaens Rodrigues
Páginas: 200
Editor: ASA, 2002

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Outra feminista célebre é Fátima (ou Fatema) Mernissi, professora na Universidade Mohammed V, em Rabat. Além de O Harém e o Ocidente, a socióloga marroquina tem também publicado em português Sonhos Proibidos: Memórias de um Harém de Fez (ASA, 1ª edição 1998).

Nestes dois livros, quase tratados antropológicos, ela desconstrói as “fantasias ocidentais” de que o harém é um lugar de sedução e luxúria. Pelo contrário, para os que nasceram e viveram aqui, como ela, “é uma prisão”, interna e externa.

De publicação anterior, mas a obra que deu popularidade internacional a Mernissi, The Veil and the Male Elite: A Feminist Interpretation of Women’s Rights in Islam (1991), com título original em francês de Le Harem Politique: Le Prophète et les femmes (1987), tem sido elogiada como “uma historiografia brilhante das mulheres de Maomé”.

Em contraponto aos olhares feministas, recomenda-se também Veil: Modesty, Privacy and Resistance (Dress, Body, Culture), de Fadwa El Guindi. Esta antropóloga egípcia (que não cobre o cabelo), doutorada na Universidade de Austin-Texas (EUA) e agora professora na Universidade do Qatar, em Doha, argumenta que o “véu” é a “afirmação de uma identidade” cultural e, acima de tudo “um símbolo de resistência”.

As mulheres que “escolhem” usar o hijab (lenço), “afastam-se voluntariamente” dos olhares masculinos, “mantêm-se fiéis a tradições sólidas” e “preservam a sua sexualidade”. É, seguramente, um livro provocador e controverso, que nem Huda Shaarawi, Nawal El Saadawi ou Fátima Mernissi subscrevem.

No caso da feminista marroquina, em The Veil and the Male Elite, onde arrasa com as interpretações masculinas e misóginas das tradições e textos sagrados islâmicos, ela conclui assim a introdução em que convida à leitura: “Que se levantem as velas e se retirem os véus do navio da memória.”

18. The First Muslim: The Story of Muhammad
Autor: Lesley Hazleton
Páginas: 336
Editor: Riverhead Hardcover, 2013

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Maomé, o profeta do Islão, tem muitos biógrafos, desde Tariq Ramadan, o neto do fundador da Irmandade Muçulmana egípcia (Hassan al-Banna), que escreveu In the footsteps of the Prophet: Lessons from the Life of Muhammad, até Karen Armstrong, uma antiga freira, autora de Muhammad: Prophet for our time: os dois livros saíram em 2007.

Em português, foram publicados, designadamente, Maomé, de Maxime Rodinson (Caminho, 1992) e Profeta Maomé: Uma biografia, de Barnaby Rogerson (Europa-América, 2003). Nem uma destas obras se compara, porém, à de Lesley Hazleton intitulada The First Muslim: The Story of Muhammad”, na qual revela “o homem completo, não o objecto de sublimação”.

A obra demorou cinco anos a concluir porque esta psicóloga de formação e antiga repórter em Jerusalém, que se define “judia agnóstica”,  recuou “até às fontes primárias, biógrafos dos séculos VIII e IX, sem interferência de séculos de interpretação”.

A nova biografia começou a ser redigida depois de a autora do blogue The Accidental Theologist (Teóloga por Acaso) terminado After the Prophet: The Epic Story of the Shia-Sunni Split in Islam, centrado no cisma que, após a morte de Maomé dividiu a comunidade do crentes em Xiitas e Sunitas”.

Em mais de 300 páginas, Lesley Hazleton conseguiu o que queria: “responder, o melhor que pudesse, a uma questão enganadoramente simples: quem foi ele’?”  Em The First Muslim, o que emerge é um homem cheio de dúvidas, longe do ser perfeito venerado pelos seus fiéis.  “Ele emergiu da impotência para o poder, de um ser estranho para um ser íntimo”, disse-me numa entrevista.

“Quando nos apercebemos como é que uma criança órfã empurrada para as margens da sua sociedade acabou a liderar essa sociedade; como é que um mercador desafiou a ordem estabelecida através de uma nova visão de justiça social, como é que um pregador expulso de Meca transformou o exílio num recomeço vitorioso – damos mais valor ao que ele conseguiu e ao quão difícil foi.”

19. The Oxford Dictionary Of Islam
Sob direcção: John Esposito
Páginas: 384
Editor: Oxford University Press, 2004

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As estatísticas mais recentes (Dezembro de 2012), recolhidas pelo Pew Research Center’s Forum on Religion & Public Life, indicam que o número de muçulmanos no mundo ascende a 1600 milhões. O Islão é, pois, a segunda maior religião do mundo depois do Cristianismo.

E se muita gente imagina que a maioria dos muçulmanos habita países do Médio Oriente e do Norte de África engana-se: “quase 2/3 (62%) vivem na Ásia-Pacífico – há mais muçulmanos na Índia e no Paquistão (344 milhões no total) do que em toda a região MENA (317 milhões), embora aqui esteja a maior concentração de muçulmanos: 93% dos 341 milhões de habitantes são muçulmanos; na África subsariana são 30% e na Ásia-Pacífico 24%.

Segundo o Pew Center, os muçulmanos também constituem a maioria da população em 49 países: a Indonésia ocupa o primeiro lugar com 209 milhões (87%), seguida da Índia (cerca de 176 milhões, ainda que sejam apenas 14,4% do total dos habitantes).

Face a esta realidade, o que sabemos do Islão e dos muçulmanos? John Esposito, professor de Relações Internacionais e Estudos Islâmicos na Universidade de Georgetown, em Washington, é um dos maiores especialistas nestes temas e The Oxford Dictionary of Islam, que ele dirigiu em conjunto com outras 15 académicos (crentes e não crentes), é uma obra de referência.

É, inquestionavelmente, das mais completas (2000 entradas e 300 imagens), para compreender uma religião que não é monolítica nem tem clero. Recomenda-se também Dictionnaire de l’Islam: Religion et Civilisation (Encyclopaedia Universalis | Albin Michel, 1997, 924 pp.).

Com a participação de 110 historiadores e investigadores, este dicionário foi dirigido por Ismail Kadaré, o escritor albanês que ganhou o primeiro Man Booker International Prize, em 2005, com o conjunto da sua obra (em português foram editados, pela Quetzal, O Acidente, em 2012, e Os Tambores da Chuva, em 2011).

Outro colectivo (27 autores) a ter ainda em conta é o Dictionnaire du Coran (Robert Laffont, 2007, 981 pp), dirigido por Mohammad Ali Amir-Moezzi, estudioso do Islão xiita, professor na Sorbonne e presidente da cátedra de Teologia Islâmica e Exegese Corânica Clássica, em Paris.

20. A Trilogia do Cairo

Volume 1: Entre os Dois Palácios (2007, pp. 508)

Volume 2. O Palácio do Desejo (2008, pp. 438)

Volume 3: O Açucareiro (2008, pp. 324)

Autor: Naguib Mahfouz
Tradução: Badr Hassanien
Editora: Civilização
 
entre os dois palacios

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Começámos com um romance de um judeu franco-tunisino (Palestina) e terminamos com mais três, os volumes que compõem a obra-prima do único árabe Nobel da Literatura: o egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006). Entre os Dois Palácios, o I volume da Trilogia do Cairo, chegou a Portugal em 2007, mais de cinco décadas depois de ter começado a ser escrita.

Mahfouz tinha 45 anos em 1956, quando deu vida a Sayyed (senhor ou patrão) Ahmed Abdel Gawwad, à sua mulher submissa, Amina, e aos 5 filhos: o idealista Fahmi, o libertino Yassin, o miúdo Kamal, a feia mas prendada Khadiga, a bela e sonhadora Aisha.

É a história de uma família muçulmana, prisioneira de tradições sociais e religiosas, na grande metrópole do Cairo, durante a ocupação britânica, após a I Guerra Mundial.

Em O Palácio do Desejo, o II volume, voltamos a casa do temido patriarca Gawwad, mas a tradição já não é o que era num lugar onde se confrontam nova e velha gerações – e essa transformação reflecte igualmente uma metamorfose no Egipto.

Em O Açucareiro, III e último volume, despedimo-nos de uma parte da família. Uns morrem e outros anseiam morrer. Uns são presos e outros teimam a não se deixar aprisionar. O Egipto entrou na modernidade sem deixar a tradição. O Egipto é irmão muçulmano, é comunista, é homossexual.

Diz-se que Naguib Mahfouz, leitor ávido de Dostoiévski, Dickens, Balzac e Zola,  “inventou o romance árabe”. A sua escrita cativa o leitor mas é difícil encontrar correspondência, noutras línguas, para o seu estilo clássico. Por isso, é de louvar a tradução competente para Português (a partir do Árabe) e as valiosas notas de rodapé de Badr Hassanein.

Este artigo foi publicado originalmente na revista LER, edição de Outubro de 2013 | This article was originally published in the Portuguese magazine LER, October 2013 edition

A rabbi and a Palestinian farmer are neighbors, partners – and friends

Israeli Shaul David Judelman and Palestinian Ziad Abed Sabateen plan to open an organic farm together that will sell vegetables and support families in need.  (Read more…)

Shaul Judelman and Ziad Sabateen plan to create the Heavens Field Farm, which will put "emphasis on belonging to the land, not ownership of it," according to their joint manifesto. Their idea is to run an organic farm that will sell vegetables in local markets, support families in need, and attract volunteers and tourists. Among their partners are a joint Israeli Palestinian journal, called Maktub, and other nonpolitical groups such as Eretz Shalom (Land of Peace). © Udi Goren

Shaul Judelman and Ziad Sabateen plan to create the Heavens Field Farm, which will put “emphasis on belonging to the land, not ownership of it,” according to their joint manifesto
© Udi Goren

Shaul David Judelman is an Israeli rabbi who moved from Seattle to Bat Ayin, a religious community in the occupied West Bank. Ziad Abed Sabateen is a Palestinian farmer who endured imprisonment during the first intifada against the Israelis more than 20 years ago and whose family was dispossessed of most of its land to accommodate Jewish settlers. The two men are good neighbors, friends, and business partners – not enemies.

Mr. Judelman and Mr. Sabateen are committed to “peaceful coexistence” between Israelis and Palestinians, whether they live together in one state or two separate states. The majority of those in both their camps may find it hard to understand the two men’s close relationship. But neither side repudiates them as traitors or collaborators.

“A few months ago, a Molotov cocktail was thrown at a Palestinian taxi; the client was burned very badly,” Judelman recalls, one hand clasping the zizit (knotted fringes) of his tallit (prayer shawl), the other curling hispeyots (sidelocks), all symbols of his status as an ultra-Orthodox Hasidic Jew.

“Afterwards, I went with my wife to visit them. It’s like God’s design that there would be a news camera while we were there. They’ve shown a clip of me praying with the brother, one of the kids. When people in Bat Ayin saw that, they’re like, ‘What are you doing? You’re claiming the guilt….’ “But at the same time a lot of people also came forward and said, ‘Shaul, right on that you went there. It was such a good thing to do.’ Some said they also wanted to go to the hospital. So, even within the [Israeli] settlement, you have lots of different voices.”

A similar episode happened with Sabateen, who lives in the Palestinian village of Husan. “Once a kid stabbed a [Jewish] settler, and I offered to be a mediator between the families of the attacker and of the victim,” he says, his Hebrew translated into English by Judelman. “It was possible to reestablish the harmony without calling [in] the [Israeli] army, which would make matters worse. This is a method of solving problems that we are now testing.”

Recently Judelman went to meet Sabateen to trade a big empty container for two filled with Sabateen’s olive oil. They shared wide smiles and a brotherly embrace. Afterward, they went off to inspect the soil and water of the green fields teeming with trees, flowers, herbs – and scenic hidden springs. The terrain they walked is difficult but of stunning beauty, almost like a metaphor of their comradeship.

It is here, on a mountaintop with a view of the Mediterranean Sea, that Judelman and Sabateen plan to create the Heavens Field Farm, which will put “emphasis on belonging to the land, not ownership of it,” according to their joint manifesto.

Their idea is to run an organic farm that will sell vegetables in local markets, support families in need, and attract volunteers and tourists. Among their partners are a joint Israeli Palestinian journal, called Maktub, and other nonpolitical groups such as Eretz Shalom (Land of Peace).

It will not be easy to surmount the bureaucratic and security obstacles enforced by both Israel and the Palestinian Authority. The latter discourages so-called normalization of relations before a political settlement is reached. So “teacher-ecologist-musician” Judelman and Sabateen are trying to present their dream as a “spiritual,” not a business, endeavor.

© Udi Goren

© Udi Goren

Bat Ayin, part of the Gush Etzion settlements bloc situated between Jerusalem and Hebron, was established in 1989. It is reputed to be “very aggressive toward the Arabs,” Judelman acknowledges.

Why, then, did this eldest son of “secular and leftish” parents who left South Africa “because they didn’t want to be a part of apartheid” decide to join it when he was 21 years old?

“I wasn’t religious, but my surname is Judelman, which means ‘Jewish man’; my Jewish identity was always part of me,” he explains. Born in London, he underwent a metamorphosis that included being deeply influenced by native Americans, with whom he worked on a Navajo reservation in Arizona.

Like native Americans, Palestinians claim to be the original owners of land taken by outside settlers. “I am torn,” he confesses. “It is very important that Jews and Palestinians engage each other, and they are not doing enough. I accept the Palestinians’ desire for self-determination and the right to achieve a national state. But I don’t know if that’s a road to peace or to war.”

For Judelman, the Israeli occupation creates a wall of separation, with checkpoints and soldiers who humiliate Palestinians trying to get to work by forcing them to wait in line for hours, even if that means they must get up at 3 a.m. to get to work on time. “We [Jews] died and bled and fought for the right to have a nation-state,” Judelman says. “Yes, there’s horrible stuff going on. I don’t always blame the other side. [But] we have to change attitudes among our own people, and that’s why I’m here.”

The settler and the former prisoner: an improbable friendship. © Udi Goren

The Israeli settler and the former Palestinian prisoner: an improbable friendship
© Udi Goren

Originally, he says, some 40 families were given large plots of land at Bat Ayin. It had dirt roads and no electricity “in order to support an agricultural vision respectful of nature.”

Now, he regrets that “only a few are supporting themselves like that. We have doctors, builders, plumbers, electricians, psychologists…. [T]here’s really a very distinct amalgamation of people that have come together. There are about 200 families right now. A lot of them are tenants.”

What did not change is the prohibition on hiring “non-Jewish laborers” or using pesticides, as well as the imposition of rigid social norms. Married women have to cover their hair; men wear beards. There are no television sets, only selected newspapers, and Internet service “ideally [has] a filter, so there are no pornographic sites and stuff like that.”

Isolated from the rest of the world, many young people leave; Judelman also wants to move in three years’ time. “The religiosity in Bat Ayin is a little bit too black and white,” says Judelman, a disciple of the late Rabbi Menachem Froman, who promoted dialogue and negotiations with Palestinians. “I want my two children to grow [up] around different people, religious and nonreligious people.”

Judelman wouldn’t reject a political solution that would allow Jewish settlers to vote in Israel and pay taxes to a Palestinian state.

And Sabateen is comfortable with the idea of Jews living in a Palestinian state, just as there are Arabs that live in Israel. “Yeah, sure, I accept them in Palestine, and I don’t call them ‘settlers,’ but neighbors, people like us,” Sabateen says with a laugh, putting an arm around Judelman’s shoulder. “We are Arabs, and we work in Israel; maybe Jews will serve our state, too.”

The father of three girls and two boys, Sabateen considers his past as a “security prisoner” in Israel for five years, from 1988 to 1993, to have been a “life lesson.”

“I used to throw stones against soldiers and was arrested the first time when I was 15,” he recalls. “I got married at 20, [but] after my kids were born I pray to God there will be peace.”

Close to Bat Ayin, part of the Gush Etzion settlements bloc situated between Jerusalem and Hebron, there is a supermarket where Jews and Arabs go shopping. It is a place of silence more than of dialogue. © Udi Goren

Close to Bat Ayin, part of the Gush Etzion settlements bloc situated between Jerusalem and Hebron, there is a supermarket where Jews and Arabs go shopping. It is a place of silence more than of dialogue
© Udi Goren

Sabateen says he lost “lots of land,” confiscated since 1985, “without financial compensation” to enlarge Israeli settlements. His sister “was deported to Jordan and can’t [come] back” to what was once the family properties.

 Why did he forgive the Israelis?

“I asked myself: Is this the right way or not? I went through difficult times. If I keep walking this path [of armed resistance], what am I going to get? If one bullet kills me, what do I give to my nation and to the world? I found that the way to peace is the best one. Blood just means blood. Revenge just means more vengeance.

“To change what one thinks is not easy,” Sabateen adds. “I thought that the uprising was the way, but it will only destroy us. I was among the first associates of Combatants for Peace [a group of former Israeli soldiers and Palestinian militants]. One day, I was told that a group of [Israeli] settlers was coming to protest [for peace] and ordered to check it out…. I never heard before of settlers wanting peace.

A Palestinian man in front of the Kiryat Arba settlement on the outskirts of Hebron, occupied West Bank, which was built “under false pretences to circumvent international law”, according to a secret document from 1970 released in 2016
© Getty Images | The Independent

This article was originally published in the newspaper The Christian Science Monitor, on October 4, 2013 (here)

Os novos pacifistas do Médio Oriente

Em Setembro de 1993, Israel e a OLP surpreenderam o mundo com o reconhecimento mútuo. A primeira Declaração de Princípios fez história mas fracassou. Duas décadas depois, fomos ouvir histórias de coexistência e co-resistência, de Telavive a Latrun, onde de uma terra de ninguém se fez um “oásis de paz”. (Ler mais | Read more…)

“Não considero os meus esforços a favor da paz como um emprego", sublinha Uri Savir, 60 anos. "Acredito que uma solução de dois Estados é possível no meu tempo de vida. Sou um optimista obsessivo. Não sei o que fazer com o pessimismo.” © Udi Goren

“Não considero os meus esforços a favor da paz como um emprego”, sublinha Uri Savir, 60 anos. “Acredito que uma solução de dois Estados é possível no meu tempo de vida. Sou um optimista obsessivo. Não sei o que fazer com o pessimismo”
© Udi Goren

Uri Savir e Oslo

Sentado a uma mesa de reserva vitalícia, no popular Café Michal, na Rua Dizengoff, em Telavive, Uri Savir não esconde que é um homem ocupado. O chefe dos negociadores israelitas dos Acordos de Oslo estava a preparar a festa do 90º aniversário do Presidente Shimon Peres e a dirigir o YaLa Young Leaders, movimento no Facebook que, em dois anos, já uniu 400.000 jovens, da Argélia ao Iémen.

Aos que o inscrevem nas categorias de professional peacemaker e normalizer – epítetos usados, quase como assassínio de carácter, pelos que advogam “boicotes culturais e desinvestimento económico contra um regime de apartheid” –, Uri Savir, 60 anos, defende-se.

“Não considero os meus esforços a favor da paz como um emprego. Acredito que uma solução de dois Estados é possível no meu tempo de vida. Sou um optimista obsessivo. Não sei o que fazer com o pessimismo.”

O YaLa nasceu em Maio de 2011 a partir do Peres Center for Peace, que Savir também preside. “O maior movimento online pela paz” apresenta-se como “agente de mudança positiva, em prol da liberdade, igualdade e prosperidade”. Entre os seus muitos “padrinhos” estão a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova e o antigo treinador de futebol do Barcelona Pep Guardiola; os vice-presidentes do Facebook, David Fischer, e da Microsoft, Dan’l Lewin.

Savir é o fundador e líder, mas quem integra o comité directivo são jovens de vários países, do Magreb ao Golfo Pérsico. Quando olha para os números que acaba de receber, o diplomata a quem Peres confiou a tarefa de “falar com o inimigo” em 1993, deixa-se extasiar: “O Egipto é o maior grupo, com 105.000 membros. Seguem-se a Argélia, Marrocos e a Tunísia. Os palestinianos totalizam mais de 23.000 e os israelitas são quase 15.000.”

“Vemos aqui o presente e o futuro da região”, acentua Savir, que parece um hippie, ostentando símbolos de paz num colar, em pulseiras, numa pregadeira com o rosto de John Lennon e a inscrição Give peace a chance.

Sobre o passado, o avô que aprendeu tudo sobre a Internet com um neto permanece comprometido com “os parâmetros de Oslo”, para assegurar “dois Estados”. O processo falhou, admite, mas nega o óbito. A “prova de vida” foi dada, em seu entender, com o reatamento das negociações sob impulso do secretário de Estado americano, John Kerry.

“Oslo foi uma conquista histórica porque o conflito deixou de ser existencial", exulta Uri Savir, que negociou os acordos. "Até 1993, os palestinianos nunca haviam reconhecido a legitimidade da existência de Israel, e Israel jamais havia reconhecido a legitimidade da identidade nacional palestiniana. Estabeleceu-se uma relação política, para o bem e para o mal.” © Udi Goren

“Oslo foi uma conquista histórica porque o conflito deixou de ser existencial”, exulta Uri Savir, que negociou os acordos. “Até 1993, os palestinianos nunca haviam reconhecido a legitimidade da existência de Israel, e Israel jamais havia reconhecido a legitimidade da identidade nacional palestiniana. Estabeleceu-se uma relação política, para o bem e para o mal”
© Udi Goren

Como é que tudo começou? Um impasse nas conversações entre árabes e israelitas em Washington, depois da Conferência de Madrid, em 1991, levou o chefe da diplomacia norueguesa, Johan Jorgen Holst, a abrir um canal secreto de negociações. Convidou um responsável da OLP, Ahmad Qurei (Abu Alaa), e dois académicos israelitas, Yair Hirschfeld and Ron Pundak.

Quando o Knesset (Parlamento) revogou uma lei de 1986 que criminalizava o diálogo com a “organização terrorista” de Yasser Arafat, Peres ofereceu-se para ir à Noruega.  O primeiro-ministro, Yitzhak Rabin, não autorizou.

Foi então que Savir, director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros tutelado por Peres, foi chamado por este a juntar-se ao grupo reunido “à beira de um lago” em Oslo.

“A ideia era manter confidencialidade, sem arbitragem internacional”, informou Savir, uma mão segurando o inseparável cachimbo, outra conferindo as mensagens recebidas no iPad e no iPhone. “Negociei  durante 3.500 horas com Abu Alaa e mais de mil com Arafat.”

Oslo foi um acordo assinado entre um Israel forte e uma OLP fraca, depois de Arafat ter sido abandonado pelos árabes por ter apoiado Saddam Hussein na invasão do Kuwait.

Os palestinianos tiveram de assumir os principais compromissos logo de início, como a renúncia da luta armada; os israelitas adiaram os seus para a etapa derradeira: fronteiras, colonatos, refugiados, Jerusalém.

“Ambas as partes aceitaram as condições”, reagiu Uri Savir. “Oslo foi uma conquista histórica porque o conflito deixou de ser existencial. Até 1993, os palestinianos nunca haviam reconhecido a legitimidade da existência de Israel, e Israel jamais havia reconhecido a legitimidade da identidade nacional palestiniana. Estabeleceu-se uma relação política, para o bem e para o mal.”

“É preciso muito tempo para chegar a uma solução, talvez mais uma década ou duas, mas isto é normal num conflito grave”, adiantou Savir. Nas transições do ódio para a coexistência, o problema está no meio, porque no meio não se obtém nada em troca.”

“O retorno só chega no fim. O mais importante é ter coragem, e hoje falta coragem aos líderes em Israel e na Palestina. Ambas as partes estão hipnotizadas pelas narrativas do passado. Achamos que somos as únicas vítimas e que todos estão contra nós.”

O que é que Savir mudaria se Oslo fosse negociado hoje? “Teria conduzido um processo mais democrático e mais inclusivo”, responde. “Em 1993, foram as elites que se sentaram à mesa e não as sociedades. Agora, eu chamaria os jovens.” E chamou-os, para o YaLa Young Leaders.

Os jovens do YaLa

Activistas do YaLa Young Leaders - da esquerda para a direita: Sarah Ben Azera, Ranya Fadel, Megan Hallahan e Lea Ledwon, em Telavive © Udi Goren

Activistas do YaLa Young Leaders – da esquerda para a direita: Sarah Ben Azera, Ranya Fadel, Megan Hallahan e Lea Ledwon, em Telavive
© Udi Goren

Em Telavive, caminhando 5-10 minutos desde o Café Michal, o “escritório” de Uri Savir, ponto de encontro de “malta nova” atraída pela comida veggie e música indie, entramos numa sala equipada com computadores e telefones, um frigorífico e um microondas, várias cadeiras de plástico e um sofá.

Formando um rectângulo, vários jovens fixam os olhos nos monitores à sua frente. Auscultadores nos ouvidos, nem desviam o olhar para retirar das embalagens batatas fritas, bolachas e chocolates com que saciam a fome.

Só se levantam para preparar chá e café, ou ir a casa de banho. Estão em linha com outros em vários pontos do Médio Oriente e Norte de África. Discutem tudo, em sinal aberto ou fechado – um dos fóruns requer registo.

Ranya Fadel, 34 anos, uma das líderes do YaLa, já sabia o que era “coexistir”. Em Daliyat al-Carmel, no Norte de Israel, onde nasceu, os drusos, como ela, e os judeus não apenas vivem lado a lado como partilham a cidadania e servem o mesmo exército.

Na sua comunidade, as mulheres comandam respeito a todos os níveis. Se forem casadas com chefes religiosos é imperativo que estes lhes ofereçam uma educação superior à deles.

Com um diagnóstico (inconclusivo) de esclerose múltipla, doença incapacitante, Ohood Murqatem perdeu o emprego em 2011, “por decréscimo de produtividade”, num ministério da Autoridade Palestiniana. Uma caixa de injecções para evitar crises que a paralisam custa, por mês, cerca de 1500 dólares. Mesmo quando não pode trabalhar, o YaLa, do qual é coordenadora em Ramallah (Cisjordânia não a deixa sem salário. @ Udi Goren

Com um diagnóstico de esclerose múltipla, doença incapacitante, Ohood Murqatem perdeu o emprego em 2011, “por decréscimo de produtividade”, num ministério da Autoridade Palestiniana. Uma caixa de injecções para evitar crises que a paralisam custa, por mês, cerca de 1500 dólares. Mesmo quando não pode trabalhar, o YaLa, do qual é coordenadora em Ramallah (Cisjordânia) não a deixa sem salário
© Udi Goren

Tal como Ranya, Ohood Murqatem, palestiniana muçulmana, nascida há 26 anos em Hebron e habitante de Ramallah, é uma mulher independente. Os pais, embora analfabetos, esforçaram-se para que os filhos tivessem formação universitária. Licenciada em Media e Televisão, foi no YaLa que a coordenadora para a Cisjordânia, juntamente com o cristão Thaer Abdallah, informático de 22 anos, descobriu o valor da palavra “solidariedade”.

Com um diagnóstico de esclerose múltipla, doença incapacitante, Ohood perdeu o emprego em 2011, “por decréscimo de produtividade”, num ministério da Autoridade Palestiniana. Uma caixa de injecções para evitar crises que a paralisam custa, por mês, cerca de 1500 dólares. Mesmo quando não pode trabalhar, o YaLa paga-lhe o salário.

A colega Megan Hallahan, que trocou a América por Israel, envolveu-se numa campanha para financiar os tratamentos e permitir que ela seja assistida “por um bom especialista”. Ohood exulta: “São a minha família!”

E desta família, onde se misturam humanidade e diversidade, também faz parte Sarah Benazera, “judia-árabe”, filha de argelinos, nascida em Paris há 30 anos. “Eu partilho a história dos muçulmanos em França, mas o anti-semitismo, numa parte da esquerda e nos filhos dos imigrantes magrebinos, obrigou a que viesse para Israel”, disse a coordenadora de blogue YaLa Cafe e de um novo projecto, YaLa Africa.

Para Sarah, que completou um mestrado em Filosofia Política na Sorbonne e viveu dois anos no deserto antes de decidir ser israelita, o YaLa “é um lugar onde cidadãos activos promovem a paz – mesmo sabendo que é morosa a transformação de inimigos em vizinhos.”

Tom Dolev, activista do movimento YaLa: “Não tenho a certeza de que ainda seja possível dois Estados. Ideologicamente, para mim, isso não é importante. Interessa-me apenas que o Estado, israelita ou/e palestiniano, seja democrático.” @ Udi Goren

Tom Dolev, activista do movimento YaLa: “Não tenho a certeza de que ainda seja possível dois Estados. Ideologicamente, para mim, isso não é importante. Interessa-me apenas que o Estado, israelita ou/e palestiniano, seja democrático”
© Udi Goren

Tom Dolev, 27 anos, não precisou de muito tempo para entender “o outro lado”. Um dia, contou este jovem baixinho, com um duplo mestrado em Física e Cinema, e divertido como o rosto trocista de Einstein estampado na sua T-shirt, combinou um encontro em Ramallah. Primeiro, ficou espantado quando se apercebeu que podia ir até lá de autocarro.”

“Depois, assustado quando quem esperava se atrasou e um estranho se aproximou. “Pensei: ‘vai matar-me.’, mas só veio pedir emprestado um isqueiro.”

O mais bizarro aconteceu quando  a mãe telefonou a perguntar se lhe tinham roubado o cartão de crédito. “Eu tinha levantado dinheiro numa caixa ATM, e o banco ligou para minha casa porque achava impossível que um israelita tivesse feito isto na Cisjordânia.”

Um dos líderes do YaLa desde há quase dois anos, Tom é mais céptico do que Uri Savir sobre uma solução para o conflito: “Não tenho a certeza de que ainda seja possível dois Estados. Ideologicamente, para mim, isso não é importante. Interessa-me apenas que o Estado, israelita ou/e palestiniano, seja democrático.”

Bassam e Rami, dois pais enlutados

“Acho que a paz ainda é possível após o fracasso de Oslo –dois Estados, um Estado ou os Estados Unidos do Médio Oriente. A chave está no respeito – pela narrativa, história e dor de cada um", diz Rami Elhanan (à esquerda). "Não me importaria que Bassam [Aramin à direita] fosse o meu primeiro-ministro.” © Udi Goren

“Acho que a paz ainda é possível após o fracasso de Oslo – dois Estados, um Estado ou os Estados Unidos do Médio Oriente. A chave está no respeito – pela narrativa, história e dor de cada um”, diz Rami (à esquerda). “Não me importaria que Bassam (à direita) fosse o meu primeiro-ministro”
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O sol despede-se de Jerusalém e é com a chegada do crepúsculo que o palestiniano Bassam Aramin evoca o dia 16 de Janeiro de 2007, quando um soldado matou Abir, a sua filha de 10 anos. À mesma mesa, no restaurante-terraço de um hotel, está o israelita Rami Elhanan, que perdeu Smadar, a filha de quase 14 anos, num atentado suicida, em 4 de Setembro de 1997.

Os dois pais, que se tratam por “irmãos”, pertencem ao Parents Circle-Family Forum, que une famílias enlutadas nos dois campos do conflito. Não procuram vingança, apenas justiça. Podem vê-los no documentário Within the Eye of the Storm  (http://withineyeofstorm.com), classificado pelo Sundance Institute como “uma história única, de amor e esperança”.

“Abir atravessava a rua pouco antes de um exame de Matemática”, conta Bassam, 45 anos. “Eram 9h30 da manhã. Não havia distúrbios em Anata, [na Cisjordânia]. Apareceu um jipe com agentes da Polícia de Fronteiras e um deles alvejou-a na cabeça. A caminho do trabalho, recebi um telefonema de Arin, a minha filha mais velha.”

“Ela chorava e gritava. Voltei para trás e vi Abir, gravemente ferida. Ficou dois dias no hospital, mas não sobreviveu. Preciso de perguntar ao assassino por que fez aquilo. Não me interessa se é judeu, druso ou beduíno. Não posso aceitar que esteja em liberdade.”

“Houve um grande julgamento e Bassam ganhou o processo civil, mas não o criminal”, interrompeu Rami. “As autoridades negligenciaram deliberadamente a investigação. Não recolheram provas. Não entrevistaram testemunhas. Por isso, o Supremo Tribunal concluiu que ‘nada pode ser confirmado’. A Polícia de Fronteiras fez tudo para que houvesse muitas dúvidas.”

Em 1993, o ano de Oslo, o pai de Abir foi libertado. “Parecia que a paz estava ao virar da esquina”, disse Bassam. “Quando vi crianças palestinianas, em Jenin, a oferecer flores a soldados israelitas, abandonei a luta armada. Não mudei o objectivo: pôr fim à ocupação. Sigo uma via diferente.” © Udi Goren

Em 1993, o ano de Oslo, o pai de Abir foi libertado. “Parecia que a paz estava ao virar da esquina”, disse Bassam. “Quando vi crianças palestinianas, em Jenin, a oferecer flores a soldados israelitas, abandonei a luta armada. Não mudei o objectivo: pôr fim à ocupação. Sigo uma via diferente”
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Bassam retoma a sua história: “Fui detido aos 17 anos, por lançar granadas contra uma patrulha do Exército. Condenaram-me a 7 anos de prisão. Aqui, pedi para ver  A Lista de Schindler. Nunca tinha visto um filme sobre o Holocausto.”

“Queria ver alguém torturar e matar judeus, e sentir-me vingado. Mas bastaram alguns minutos para começar a chorar. Aquelas crianças, mulheres e velhinhos a caminho da morte, só por serem judeus… Fiquei furioso. Por que é que eles não resistiram?”

Em 1993, o ano de Oslo, o pai de Abir foi libertado. “Parecia que a paz estava ao virar da esquina”, disse. “Quando vi crianças palestinianas, em Jenin, a oferecer flores a soldados israelitas, abandonei a luta armada. Não mudei o objectivo: pôr fim à ocupação. Sigo uma via diferente.”

Em 2003, casado, com seis filhos “e sem tempo a perder”, Bassam descobriu, “atónito”, que havia refuseniks. Um dia, juntamente com outros dois antigos prisioneiros marcaram uma reunião com alguns desses israelitas que recusavam o serviço militar nos territórios ocupados.

Um ano depois, vencido “o medo uns dos outros”, criaram a organização Combatants For Peace. “Quando Abir foi morta, o meu maior apoio foi Elik, a quem mataram a irmã.”

“Não esqueço nem perdoo, mas tive de me perguntar sobre as razões que levam alguém a fazer-se explodir e a levar consigo uma menina de 14 anos", frisou Rami Elhanan. "Teria eu contribuído, de alguma forma? A resposta foi sim – porque fechamos os olhos à opressão de 3,5 milhões de palestinianos. É um pecado, e pagamos pelos pecados.” © Udi Goren

“Não esqueço nem perdoo, mas tive de me perguntar sobre as razões que levam alguém a fazer-se explodir e a levar consigo uma menina de 14 anos”, frisou Rami Elhanan. “Teria eu contribuído, de alguma forma? A resposta foi sim – porque fechamos os olhos à opressão de 3,5 milhões de palestinianos. É um pecado, e pagamos pelos pecados”
© Udi Goren

Elik é um dos filhos de Rami, 63 anos. “A morte da minha filha deixou Israel em estado de choque, porque ela é neta do defunto ‘general da paz’, Matti Peled”, salientou o designer gráfico que combateu em três guerras (1967, 1973 e 1982). “Smadar, nome inspirado no Cântico de Salomão, com o significado de ‘fruto da vinha’, foi morta por um bombista suicida na Rua Ben Yehuda, em Jerusalém.”

“Eu ia a caminho do aeroporto de Telavive quando recebi uma chamada da minha mulher [Nurit Peled-Elhanan, Prémio Sakharov 2001], dizendo que Smadar estava desaparecida. Procurámos por ela de hospital em hospital; de esquadra em esquadra, até irmos à morgue. Tudo mudou naquele instante. Eu vivia numa bolha de vidro, e a bolha rebentou-me na cara.”

“Não esqueço nem perdoo”, frisou Rami, “mas tive de me perguntar sobre as razões que levam alguém a fazer-se explodir e a levar consigo uma menina de 14 anos. Teria eu contribuído, de alguma forma? A resposta foi sim – porque fechamos os olhos à opressão de 3,5 milhões de palestinianos. É um pecado, e pagamos pelos pecados.”

Foi Ytzhak Frankenthal, principal fundador do Parents Circle-Families Forum (PCFF) em 1995, quem convenceu Rami a juntar-se ao ao grupo, em 1998. “Assisti à primeira reunião com relutância, até ver famílias palestinianas que se dirigiam a mim, me abraçavam e choravam comigo. Até ali, os palestinianos eram apenas operários e terroristas – não seres humanos. Foi o ponto de viragem na minha vida.”

“Acho que a paz ainda é possível após o fracasso de Oslo – dois Estados, um Estado ou os Estados Unidos do Médio Oriente. A chave está no respeito – pela narrativa, história e dor de cada um. Não me importaria que Bassam fosse o meu primeiro-ministro.”

E ambos ficam a olhar para as fotos de Abir e Smadar no ecrã do telemóvel de Rami.

Sulha Project no Oásis da Paz

Anat Shuhman, que primeiro ponderou ser refusenik, diz a Noor que aceitou fazer “serviço cívico” para perceber “por que é preciso sacrificar três anos de vida no Exército”. Enquanto a palestiniana lhe afaga os longos cabelos vermelhos, a garota que vive no colonato, “apenas porque a renda de casa é mais barata”, adapta uma citação, de autor que não recorda, para resumir a missão de ambas: “Todas as mudanças começam com uma minoria que muitos consideram loucos, mas serão loucos a mudar o mundo.” © Udi Goren

Anat Shuhman, que primeiro ponderou ser refusenik, diz a Noor que aceitou fazer “serviço cívico” para perceber “por que é preciso sacrificar três anos de vida no Exército”. Enquanto a palestiniana lhe afaga os longos cabelos vermelhos, a garota que vive no colonato, “apenas porque a renda de casa é mais barata”, resume a missão de ambas: “Todas as mudanças começam com uma minoria que muitos consideram loucos, mas serão loucos a mudar o mundo”
© Udi Goren

Anat Shuhman é uma ruiva judia, filha de imigrantes russófonos que serve no Exército israelita e vive num dos primeiros colonatos, Ma’ale Adumin, nos arredores de Jerusalém. Noor Assi é uma morena muçulmana que reside em Kfar Bara, uma de três aldeias árabes no “Pequeno Triângulo da Linha Verde” que políticos extremistas querem transferir para um eventual Estado palestiniano em troca da anexação da Cisjordânia.

Ambas com 19 anos, Noor e Anat têm tudo, segundo os estereótipos no Médio Oriente, para serem inimigas, mas o Sulha Peace Project transformou-as em “melhores amigas”.

Os responsáveis por este afecto são um antigo comandante militar, Elad Vazana, e uma professora palestiniana, Nibal Raj. Ele ajudou a fundar o projecto; ela e a israelita Dafna Karta Schwartz são directoras.

Foi no auge da Segunda Intifada em 2000 que nasceu o Sulha. O nome deriva de um ritual de reconciliação entre os beduínos quando procuram pôr fim a contendas por vezes sangrentas. As tribos desavindas recorrem a uma terceira parte e marcam um ponto de encontro. Sentam-se em círculo, saboreiam a mesma refeição, bebem chá e café, indemnizam os queixosos e perdoam-se mutuamente.

Conhecemos Noor e Anat no “Oásis da Paz”: Neve Shalom, em hebraico; Wahat al-Salam, em árabe, são os dois nomes oficiais de uma “aldeia cooperativa binacional” com menos de 250 habitantes e 60 famílias, a meio caminho entre Telavive e Jerusalém.

Nibal Raj, palestiniana, 42 anos, viúva, uma só filha, formada em Sociologia da Educação, co-directora do Sulha Project, com a israelita Dafna Schwartz: “Às sextas-feiras, os soldados só nos deixam passar no checkpoint de Qalandiya - na foto - , que ela atravessa diariamente] depois das orações nas mesquitas em Jerusalém. Os militares têm medo da violência que escape ao seu controlo, e estão confusos. Não nos conhecem. É difícil destruir o muro interior que nos divide.” © Udi Goren

Nibal Raj, palestiniana, 42 anos, viúva, uma só filha, formada em Sociologia da Educação, co-directora do Sulha Project, com a israelita Dafna Schwartz: “Às sextas-feiras, os soldados só nos deixam passar no checkpoint de Qalandiya – na foto – , que ela atravessa diariamente] depois das orações nas mesquitas em Jerusalém. Os militares têm medo da violência que escape ao seu controlo, e estão confusos. Não nos conhecem. É difícil destruir o muro interior que nos divide”
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Este é o sonho ecuménico tornado realidade, em 1970, pelo frade dominicano Bruno Hussar (1911-1956), judeu egípcio que se converteu ao Catolicismo quando estudava Engenharia em França e a quem Israel concedeu cidadania em 1956.

Os 40 hectares que o Mosteiro de Latrun alugou a Hussar, para “quebrar as barreiras do medo, construir pontes de confiança – e se possível amizade”, como escreveu na autobiografia, When the Cloud Lifted, estavam classificados como “terra de ninguém”. Hoje, a melhor descrição da comunidade nomeada quatro vezes para o Prémio Nobel da Paz seria “Jardim do Paraíso”.

Um encontro do Sulha Project estava marcado para uma sexta-feira de manhã em Beit Dumia/Bayt Sakinah (Casa do Silêncio), uma das três escolas da aldeia. Elad foi até ao checkpoint de Qalandiya para trazer Nibal.

O Exército não a deixou entrar em Jerusalém, vinda de Ramallah. Ela tem um bilhete de identidade israelita, porque nasceu em Lod, cidade mista, mas só evitaria o posto de controlo se viesse de carro, e não sabe conduzir.

Numa posterior conversa, por Skype, quando perguntamos por que insiste em fazer parte do projecto vivendo sob ocupação, Nibal, 42 anos, viúva, uma só filha, formada em Sociologia da Educação, explica: “Às sextas-feiras só nos deixam passar depois das orações nas mesquitas em Jerusalém. Os militares têm medo da violência que escape ao seu controlo, e estão confusos. Não nos conhecem. É difícil destruir o muro interior que nos divide.”

Dafna Schwartz e Elad Vazana, dois israelitas que dinamizam o Sulha Project, numa das reuniões em Neve Shalom; ele é um antigo comandante do Exército e foi um dos fundadores; ela é agora co-directora e tem uma filha a cumprir o serviço militar. Também esta faz parte deste movimento que ajuda a "entender a humanidade nos dois campos". © Udi Goren

Dafna Schwartz e Elad Vazana, dois israelitas que dinamizam o Sulha Project, numa das reuniões em Neve Shalom; ele é um antigo comandante do Exército e foi um dos fundadores; ela é agora co-directora e tem uma filha a cumprir o serviço militar. Também esta faz parte deste movimento que ajuda a “entender a humanidade nos dois campos”
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Influenciada por Nibal e Elad, que enviou um e-mail para a sua aldeia a convidar jovens, Noor Assi aderiu ao Sulha Project em Abril último. “Sempre me interessei pela coexistência”, explicou a jovem que usa o hijab (lenço), sinal de devoção religiosa.

Mais de 90% dos cerca de 3000 habitantes de Kfar Bara são muçulmanos, e o partido dominante (e legal) é o Movimento Islâmico de Israel. “No primeiro encontro, estava nervosa”, disse Noor.

“Porque era muita gente junta durante quatro dias, não por ter de conviver com judeus. Ironicamente, conheço mais judeus do que palestinianos da Cisjordânia e de Gaza. Fiquei maravilhada com a experiência, porque as pessoas dizem mesmo o que sentem. Não camuflam a realidade. Sem falarmos de política, sentimo-nos próximos e não estranhos.”

Nem todos, no seu círculo familiar e de amigos, aceitam que Noor, aspirante a assistente social, esteja presente em actividades como “fogos tribais”, onde se canta e dança. Aconselham-na a desistir.

“Mantenho a chama acesa”, rejubila, para logo acrescentar: “Não é fácil. Como árabe de 1948 [os que ficaram após a criação de Israel] a minha situação é complexa. Em Israel, sou desprezada como ‘terrorista’; na Palestina, sou rejeitada como ‘israelita’.”

Anat Shuhman, que primeiro ponderou ser refusenik, diz a Noor que aceitou fazer “serviço cívico” para perceber “por que é preciso sacrificar três anos de vida no Exército”.

Enquanto a palestiniana lhe afaga os longos cabelos vermelhos, a garota que vive no colonato – “apenas porque a renda de casa é mais barata” – adapta uma citação, de autor que não recorda, para resumir a missão de ambas: “Todas as mudanças começam com uma minoria que muitos consideram loucos, mas serão loucos a mudar o mundo.”

Em Bi'lin, na Cisjordânia ocupada, todas as sextas-feiras, israelitas, palestinianos e outros activistas internacionais enfrentam soldados e colonos judeus. De um lado pedras; do outro gás lacrimogéneo, cartuchos de pólvora seca, balas de borracha e, ocasionalmente, munições reais. Esta a é a terra-natal de Emad Burnat, o cineasta nomeado para um Óscar, em 2013, com o documentário 5 broken Cameras, baseado nesta "luta pela existência". @Udi Goren

Em Bi’lin, na Cisjordânia ocupada, todas as sextas-feiras, israelitas, palestinianos e outros activistas internacionais enfrentam soldados e colonos judeus. De um lado, lançam-se pedras, num acto de protesto contra a expropriação de terras para expandir colonatos e alargar o “muro de separação”; do outro, disparam-se granadas de gás lacrimogéneo, cartuchos de pólvora seca, balas de borracha e, ocasionalmente, munições reais. Esta a é a terra-natal de Emad Burnat, o cineasta nomeado para um Óscar, em 2013, com o documentário 5 broken Cameras
@Udi Goren

Este artigo, aqui na íntegra e revisto, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 21 de Setembro de 2013 | This article, here in the expanded and updated version, was originally published in the Portuguese weekly newspaper EXPRESSO, on September 21, 2013.

“Oslo Peace” twenty years on

Are there any Israelis and Palestinians who still believe in peace between them?  Yes, there are, but they are implementing a different “process”.  The following stories are of coexistence. (Read more…)

@Udi Goren

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The atmosphere was hectic and festive, like a bazaar full of colours and scents when Israel and the PLO signed the Oslo Accords, in September 1993. These agreements were hailed almost as a revolution by negotiators on both sides, while critics dismissed them as, “a Palestinian surrender”.

I was there, at that time, in the land that some people venerate as holy and others fear as a hell on earth. One of the most memorable scenes was of schoolchildren, their backpacks decorated with a national (and illegal) flag, offering flowers to bewildered Israeli soldiers.

Twenty years later I went back to evaluate the so-called “peace process”. Is it alive or dead? Still capable of being reanimated? Or is it buried along with a “two-state solution”?

Oslo was a deal between a strong Israel, and a very weak PLO. It was a pact bonding a general, Yitzhak Rabin, who had conquered the West Bank and Gaza Strip in the 1967 war, and a guerrilla leader, Yasser Arafat, who had lost Arab support after siding with Saddam Hussein when Iraq invaded Kuwait in 1990.

Going back, one of the immediately striking features is the large concentration of Jewish settlements (about 40% of the West Bank where the number of settlers has increased from 105,000 to more than 550,000, including those in East Jerusalem) – Rabin did not freeze construction, and his successors are still expanding them.

There are also increasing numbers of military checkpointsas well as a 441 miles “separation fence” [it will run the length of 700 km when completed] also vilified as the “Apartheid wall”. This is a barrier which is taking over agricultural land and dividing villages. However I got the feeling that the majority of Israelis don’t even notice the occupation.

So, with this gloomy picture, 20 years after Oslo, are there any Israelis and Palestinians who still believe in peace?  Yes, there are, but they are implementing a different “process”.

The following stories are of coexistence – an idea and a practice repudiated by those who defend “co-resistance” against “normalization”, a concept adopted in 2007 by the Boycott, Divestment and Sanctions (BDS) movement, as “colonization of the mind whereby the oppressed subject comes to believe that the oppressor’s reality is the only ‘normal’ reality that must be subscribed to, and that the oppression is a fact of life that must be coped with.”

Uri Savir: from Norway to YaLa
At his “office, in a corner of Dizengoff Street, in Tel Aviv, Uri Savir does not mince words: “The occupation is immoral” and Israelis and Palestinians can not keep on living “hypnotized by the past as if we were the sole victims of this world.” @ Udi Goren

At his “office, in a corner of Dizengoff Street, in Tel Aviv, Uri Savir does not mince words: “The occupation is immoral” and Israelis and Palestinians can not keep on living “hypnotized by the past as if we were the sole victims of this world”
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If there is one organization that the BDS movement disqualifies as a “normalizer” it must be the Peres Center for Peace, led since its creation, in 1986, by ambassador Uri Savir. The Israeli chief negotiator of the Oslo Agreements is also the founder of YaLa Young Leaders, a Facebook movement that in just two years (from May 2011) managed to connect 400,000 people, from Algeria to Yemen.

“I don’t see my peace as a job; I pursue my passion”, Savir said, indifferent to criticism, as he sat at Cafe Michal’s reserved table, on a corner of Dizengoff Street, in Tel Aviv.

Constantly consulting the message boxes of a laptop and a mobile phone, collectively defined as his “office”, the diplomat that Rabin and Shimon Peres sent to Norway in 1993, adds: “Oslo was a peace framework. Until then, the Palestinians had never recognized the legitimacy of Israel’s existence, and Israel had never recognized the legitimacy of Palestinian national identity. This changed forever. The conflict is no longer existential. A political relationship was established, for better or for worse. It was a point of no return.”

Self-proclaimed “obsessive optimist”, 60-year old Savir is also realistic: “It is taking a long time, maybe another decade or two, but this is normal in such a deep conflict. I am sure that what began in Oslo will succeed during my lifetime.”

“Oslo was a tremendous historical breakthrough with serious disappointments, but it is not dead. In every transition from war to peace, the problem is in the middle. Because in the middle you don’t get anything in return; the return comes later. The most important thing is courage, and today courage is lacking in Israel and in Palestine.”

Jovens do YaLa em linha, a partir de um centro em Telavive. @Udi Goren

YaLa young people online from a Telavive center. On the left is Sarah Ben Azera, one of the coordinators who identifies herself as an  “Arab-Jew” due to her Algerian descent; on the right, with the red blouse, is Ranya Fadel, an Israeli-Druse
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Ohood Murqaten, uma palestiniana muçulmana, coordenadora do YaLa para a Cisjordânia. @Udi Goren

Ohood Murqaten, a Muslim Palestinian, Yala coordinator for the West Bank
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Thaer Abdallah, um palestiniano cristão, também coordenador do YaLa para a Cisjordânia @Udi Goren

Thaer Abdallah, a Christian Palestinia and a Yala coordinator for the West Bank
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“People are hypnotized by the past, yet it is impossible to agree about the narrative of the past”, Savir contended. “We need to create a narrative of the future.” What could have been done differently if Oslo were to be negotiated today? “I would make it more democratic and inclusive”, he replied. “In 1993 we had a process of elites. Now, I would attract young people – the ones who can make the change.”

And so he did, with the creation of YaLa Young Leaders, “the biggest online peace movement”, which is supported by politicians like Hillary Clinton and celebrities like David Fischer and Dan’L Lewin, vice-presidents of Facebook and Microsoft, actress Sharon Stone and Catalan football coach Pep Guardiola.

“This is the hope”, he underlines. “Their main demands are freedom, education, gender equality and jobs. There is a new generation out there that is much less ideological than the old ones. And their entry ticket into the world is the Internet and English. YaLa is a rebellion for peace.”

Gershon Baskin and IPCRI 
The office of Gershon Baskin, co-founder of IPCRI, who tirelessly worked to release Israeli soldier Gilad Shalit from long captivity at the hands of Hamas. The veteran peace activist is always working. If someone in distress calls him at dawn, for instance, he leaves everything behind and goes wherever he has to, with little sleep. @ Udi Goren

The office of Gershon Baskin, co-founder of IPCRI, who tirelessly worked to release Israeli soldier Gilad Shalit from long captivity at the hands of Hamas. The veteran peace activist is always working. If someone in distress calls him at dawn, for instance, he leaves everything behind and goes wherever he has to, with little sleep
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To Gershon Baskin, probably the most famous peacemaker in Israel, who became even more famous after he negotiated the release of soldier Gilad Shalit, kidnapped by Hamas, “Oslo was an historical agreement, but not in terms of how to make peace; the process was well intentioned – but very naive.”

Why? “Because Oslo assumed that in order to resolve the conflict, we had to develop trust beforehand”, clarified the founder of IPCRI (Israel-Palestine Center for Research and Information), of which he was co-Director  from 1988 until December 2011. Now he is co-chairman of the board.

“That was a nice assumption, but no one ever bothered to stop and think what happens if the trust is not created. What we ended up with was an interim agreement with no final resolution. And that interim agreement only increased opposition to the deal, because it did not confront, at any point, the real issues that bring conflict. “

“That’s essentially what happened to Oslo: cooperation failed, trust wasn’t built and violence increased”, Baskin summed up, as he received me in his house, in Jerusalem, full of African wood sculptures, musical instruments, books and papers dispersed from the living room to the basement (and bunker).

Here, he exhibits on a wall a framed letter that he believes was “reluctantly sent” by Prime Minister Benyamin Netanyahu, thanking him for freeing Shalit.

“The demand for Palestinians to fight against terrorism gave way to a sense that they were protecting the continuation of the occupation, while Israel was building more settlements”, Baskin analyzed.

“Rabin was assassinated [in 1995] and the new elected Prime Minister Netanyahu was not committed to the process. In fact, he was opposed to it. And the conflict exploded out of control.”

Gershon Baskin holding the original Hebrew copy of his bookThe Negotiator: Freeing Gilad Schalit from Hamas. @Udi Goren

Gershon Baskin, in Jerusalem, after the interview, holding the original Hebrew copy of his book The Negotiator: Freeing Gilad Schalit from Hamas
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Baskin looks, nowadays, relatively more confident: “As one of the last founding leaders of the Palestinian National Movement, Mahmoud Abbas is perhaps one of the last leaders who can sign an agreement. On the Israeli side, Benyamin Netanyahu is the person we need to make the agreement, because only his right wing camp can make the necessary compromises and not divide the Israeli public in half. “

To overcome the lack of mutual trust, Baskin advises: “The only way is secret back-channel talks. Netanyahu cannot go into a real negotiation with the Palestinians and keep his government. Abbas can’t go into a serious negotiation with Israelis and keep stability on his own side. We need the Americans – not at the beginning of the process but only at the end; to close the deal, bridge the gaps, give guarantees and put the final touches on an agreement.”

The Mejdi Tours of Aziz and Kobi
In Sderot, on the border with Gaza, and the last stop of a Mejdi agency tour: Aziz Abu Sarah's eldest brother was allegedly tortured in an Israeli prison and died at home, during the first Intifada. Kobi Skolnick (on the left) was an extremist settler and angry soldier, “an ex-fanatic”, as he calls himself. They overcame the temptation to seek revenge, studying conflict resolution, and are now best friends. @ Udi Goren

In Sderot, on the border with Gaza, and the last stop of a Mejdi agency tour: Aziz Abu Sarah‘s eldest brother was allegedly tortured in an Israeli prison and died at home, during the first Intifada. Kobi Skolnick  left) was an extremist settler and angry soldier, “an ex-fanatic”, as he calls himself. They overcame the temptation to seek revenge, studying conflict resolution, and are now best friends
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Outside the realm of institutions, there are others who engage publicly and openly in the politics of peace. One of the most outstanding examples is 33-years old Aziz Abu SarahNational Geographical Explorer Leader and co-founder of Mejdi Tours.

This is a unique travel agency that offers tourists a dual narrative (Jewish and Arab) of disputed sites, and also promotes the sustainable development of local communities: instead of checking into a hotel, for instance, one can choose to stay at family homes. I joined Aziz for one day, travelling from Jerusalem to Sderot, a city in the Negev, close to Gaza. The bus was full of professors and students from two American Christian colleges.

Aziz, who recently created a summer camp for Syrian war refugees in Turkey, spent part of the journey chanting biblical hymns to cheer up the guests. Nevertheless, he “resented religion and blamed God” when his eldest brother died, in 1990, during the first Intifada.

It has never been proved that Tayseer threw stones at soldiers, but he was jailed and “forced to confess under torture”. Released in a critical condition after 11 months of imprisonment, he only survived for three weeks in the hospital.

During a visit to Hebron, Palestinian Aziz Abu Sarah, co-founder of Mejdi Tours, that offers dual narrative tours (Israeli and Palestinian) of disputed places, talks about the complexities of this highly conflicted city, divided between Israel and Palestine. Behind him is Kobi Skolnick, the Israeli guide. @Udi Goren

During a visit to Hebron, in occupied West Bank, Palestinian Aziz Abu Sarah, co-founder of Mejdi Tours, talks to American tourists about the complexities of this highly conflicted city. Behind him, with a yellow shirt, is a former “enemy” and now one of his best friends, the Israeli guide Kobi Skolnick
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Anger led Aziz to enlist with the military activities of Fatah in order to avenge his brother. Being angry, however, did not eliminate his “sense of emptiness.” He then decided to learn Hebrew in an institute where he met Jews and Israelis who became good friends.

One of these is 32-year old Kobi Skolnik, former soldier and settler, and former member of the racist Jewish group Kach – “no longer a fanatic”, according to his own description. Both are now one of the teams of Mejdi Tours guides, sharing their experiences with strangers.

In a stopover in Hebron, pointing to a house where he used to do target practise (shooting at Palestinian targets when serving in the Army), Kobi is interrupted by an amused Aziz to remind him that this is also where his cousin lives.

This is a story repeated in every tour to demonstrate how committed they are “to raising awareness and changing mentalities”. Because “Israelis and Palestinians need a cultural not a nationalist revolution”, Kobi said.

To those who cry foul at “normalizing”, Aziz addresses a resolute message: “Writing about life under occupation in a magazine with Israeli writers is not normal. Speaking to classrooms about life in Palestinian cities is not normal. Meeting with Israelis in a dialogue group to discuss how to change the current status quo is not normal. Normalization best describes armchair critics who complain about the occupation without taking action. Normalization is pretending that Palestinians can end the occupation by ignoring Israelis.”

Aziz does not forget the year 2008, when he went to Egypt to receive the Eisenhower Medallion, bestowed by People for People International. Upon arrival, he was arrested as “a liar”. It was “impossible” for a Palestinian to be invited to a ceremony hosted by the then First Lady, Suzanne Mubarak – “I was left in a cell for one day, and the most embarrassing thing was that only an Israeli could get me out of an Arab jail.” 

Rami and Bassam: Bereaved Families
Israeli Rami Elhanan and Palestinian Bassam Aramin are more than friends united by grief. “We are a family”, says the son-in-law of late “peace general” Matti Peled (on the left), mentioning that one of his sons is a member of Combatants for Peace and the other wanted to go to the IDF but refused to serve at checkpoints, “to avoid searching and interrogating uncle Bassam”. @ Udi Goren

Israeli Rami Elhanan and Palestinian Bassam Aramin are more than friends united by grief. “We are a family”, says the son-in-law of late “peace general” Matti Peled (on the left), mentioning that one of his sons is a member of Combatants for Peace and the other wanted to go to the IDF but refused to serve at checkpoints, “to avoid searching and interrogating uncle Bassam”
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Rami Elhanan was that Israeli. Aziz Abu Sarah calls him “my brother”. Both are leading member of the Parents Circle-Family Forum (PCFF), an organization that unites bereaved relatives in both camps. He says that he “fully understands” those who condemn “normalizers”.

“There is frustration, because nothing happens on the ground”, Rami said, while dining in Sheikh Jarrah, a Jerusalem neighborhood where Jews and Arabs used to gather on Friday to protest against settlers evicting Palestinians from their homes.

“Some people consider that ‘normalization’ is worse than occupation, because it damages the struggle for freedom. We meet and hug each other. We eat humus together. But, at the end of the day, Palestinians go back to their everyday harassment, while we, Israelis, go back to our comfortable and easy lives.”

After this statement, the Israeli who lost his 14-year old daughter, Smadar, killed by a Palestinian suicide bomber on September 4, 1997, looks at his best friend, Palestinian Bassam Aramin, whose 10-year old daughter, Abir, was murdered by Israeli border police, on January 16, 2007, and emphasizes: “Nobody can recriminate against people like us who paid the highest price possible.”

On his mobile telephone, Rami Elhanan, an active member of the Parents Circle Forum Family, shows pictures of his 14-year old daughter (on the right), who was killed by a Palestinian suicide bomber, and of the 10-year old daughter of his Palestinian friend Bassam Aramin, murdered by Israeli border police. @ Udi Goren

On his mobile telephone, Rami Elhanan, an active member of the Parents Circle Forum Family, shows pictures of his 14-year old daughter  (right), who was killed by a Palestinian suicide bomber, and of the 10-year old daughter of his Palestinian friend Bassam Aramin, murdered by Israeli border police
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Bassam, 45-years old, a resident of Anata, in the West Bank, was arrested at the age of 17 for tossing grenades at a military patrol. During his 7-year jail sentence he asked if he could watch Schindler’s List.

“It was the first time I saw a movie about the Holocaust”, he said. “I wanted to see someone kill Jews, torture them. After a few minutes, I found myself crying in sympathy with the children, women and men who were being killed only because they were Jews. Then, I was very angry when I realized that they did not resist.”

Released in 1993, when Oslo was, in his words “a glimmer of hope”, Bassam gave up the armed struggle to “follow the path of justice.” He won a civil process in court and keeps up the pressure, “to put the killer behind bars”. In 2003, he co-founded Combatants for Peace with Israeli soldiers refusing to serve in the occupied territories.

“Dialogue is the real and most effective weapon”, Bassam asserts. “As fighters we know the meaning of fear and loss. When Abir was killed, it was one of the members of Combatants for Peace who had lost his sister who taught me how to be brave and deal with my pain, without more bloodshed.”

This brother is Elik, a member of Combatants for Peace, son of Rami and of Nurit Peled-Elhanan, an academic awarded with the 2001 Sakharov Prize and daughter of late General Matti Peled, “the peace warrior”.

After the killing of Smadar, which “left Israel in a state of shock”, her father started thinking about, “what happened and why”. He realized that had been hiding himself “in a glass bubble that has blown up”, and that he could never go back to the “normal life as a brainwashed Israeli.”

In 2008, he unenthusiastically accepted an invitation from Yitzhak Frankenthal, the leading founder of PCFF in 1995, to attend a meeting of the movement. “The decisive moment” which led to his becoming a member, he told me, was when Palestinian families shook his hands and cried with him. “I was so deeply moved, because we, ordinary Israelis, don’t grow up seeing Palestinians as human beings who share our grief.” 

Adi, Gil and Breaking the Silence 
Gil Hilel and Adi Mazor with Yehuda Shaul, (co-founder of Breaking the Silence (BS), an organization that tries to encourage Israeli society to set itself free from the occupation. They are explaining to border policemen on duty in Hebron that their testimonies are the way they have found to better express their “love for Israel”. @ Udi Goren

Gil Hilel and Adi Mazor with Yehuda Shaul, (founder of Breaking the Silence), an organization that tries to encourage Israeli society to set itself free from the occupation. They are explaining to border policemen on duty in Hebron that their testimonies are a way to better express their “love for Israel”
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If you ask Gil Hillel about the media frenzy generated by a certain video showing a group of Israeli soldiers filmed last August dancing at a Palestinian wedding in Hebron, she will say that the footage was not proof of “peaceful coexistence” in the largest city of the West Bank. Instead, it was more evidence of the bad habits of the occupiers, who “invite themselves” to whatever place or event they want.

Gil is a member of Breaking the Silence (BS), an organization created after the Second Intifada in 2000 by “veteran combatants who have taken it upon themselves to expose the Israeli public to the reality of everyday life in the occupied territories”.

I went with Gil to the city that Palestinians call by its Arabic name of al-Khalil (“Friend”) where she once served in the Sachlav (Orchid) combat unit of Israel Military Police.

Now a social worker and university student, she was accompanied by Adi Mazor, another former combat soldier with Infantry Caracal Battalion in Qalqilya, also in the West Bank. They are both 30-year-olds.

Hebron has been divided since 1997 into two parts – H1 and H2. The H1 area, under the nominal jurisdiction of the Palestinian Authority, is home to around 140,000 Palestinians. Another 30,000 Palestinians, plus 500 Jewish settlers, inhabit H2, under exclusively Israeli military control. Here, “77% percent” of the Palestinians “live below the poverty line”, according to the International Committee of the Red Cross.

This is a place venerated by the three monotheistic religions, as it holds sacred tombs of Abraham, a prophet common to all three, and his family. But only a short stroll is needed to convince us that here there is more sinning than sanctity. Recent and ancient massacres still haunt the population, especially the ones living in the Old Quarter, known as “Ghost Town”.

Gil Hilel (left) and Adi Mazor, former combat unit female soldiers, in Hebron, the "sin city". @Udi Goren

Gil Hilel (left) and Adi Mazor, former combat unit soldiers, in Hebron, the “sin city”
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In Hebron, Gil’s task was to control demonstrations by settlers. Protected by 2,000 soldiers – a ratio of 4:1 – they have total freedom. Palestinians have access only to 20-30 square km of the city. To enter the mosque, the faithful have to endure a strict security check. On the contrary, yeshivot  (Jewish seminars) students walk around freely and flamboyantly with their submachine guns and revolvers.

The order that Gil received from her commanders concerning Palestinians was “to instil fear”. She also mentioned shifts when soldiers were bored and would enter Palestinian houses, without any intelligence information.

An example: “One night, we shut the family into one room, conducted noisy searches and then left shooting stun grenades in the air. We needed action, and this became routine.”

On our way to Hebron, in a van shared with Yehuda Shaul and Yuli Novak, co-founder and executive director of BS, we stop at a village to buy sandwiches and water.

A group of young Palestinian boys approach Adi and Gil, asking for cigarettes. Gil, of Yemenite origin, refuses to speak Arabic, explaining that the words she learnt in the Army “are very aggressive, like ‘Give me your ID, now!’”

Hebron is a place venerated by the three monotheistic religions, as it holds sacred tombs of Abraham, a prophet common to all three, and his family. But only a short stroll is needed to convince us that here there is more sinning than sanctity. Recent and ancient massacres still haunt the population, especially the ones living in the Old Quarter, known as “Ghost Town”. @Udi Goren

Hebron is a place venerated by the three monotheistic religions, as it holds sacred tombs of Abraham, a prophet common to all three, and his family. But only a short stroll is needed to convince us that here there is more sinning than sanctity. Recent and ancient massacres still haunt the population, especially the ones living in the Old Quarter, known as “Ghost Town”
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Adi, whose grandparents are from Egypt, greets the teenagers in their own language: “Salam” (Peace). But she doesn’t share the tobacco leaves that she will revolve several times while touring Hebron, after crossing the Kiryat Arba settlement. We are about to sit down together at a stone table near Shuhada Street, where only two Palestinian shops are allowed to remain open, when she confesses:

“I don’t know what is the best solution to the conflict: one state or two states. My only belief is that the occupation is wrong and has to end. One Saturday, when my parents visited me, I was guarding a Palestinian man who was blindfolded and handcuffed. I don’t have memories of that moment, but my mother has. I could have prevented that humiliation – I was the gatekeeper.”

“I did nothing. Only after we leave the Army do we begin to understand our actions. As programmed soldiers, we learn to be good shooters and not to think – just how to obey. As women, we even adopt the mannerisms of men. We dress and act like them. I wanted so much to be feared that when young Palestinians tried to start a conversation, saying ‘Hi, pretty girl’, I always became furious and shouted at them: ‘I am a soldier!’ I did not want them to look at me as human, but as someone to be afraid of as they were of the men.”

Wandering through the almost empty and filthy streets of Hebron, Adi and Gil, who now have Arab friends in the mixed cities of Lod and Haifa, try to start a conversation with two Israeli border policemen.

They step outside the guardhouse for a moment, perhaps paying more attention to the good looks of both these women than listening to the message they are trying to convey.

All that breaks the ensuing silence is an old settler who, in an act of defiance, screams his gratitude to the Army, for “protecting the Jews”, and behind that a muezzin, his recorded voice chanting Allahu Akbar.

Israeli Minister of Foreign Affairs Shimon Peres puts his signature on the agreement during the signing ceremony of the Oslo 1 Accord at the White House on Sept. 13, 1993, in Washington, D.C.
© Arnie Sachs | AP

This article was published in the independent global media platform openDemocracy, on September 18, 2013 here and here

Maomé: O primeiro muçulmano como nunca o vimos

Judia agnóstica e “teóloga por acaso”, a anglo-americana Lesley Hazleton publicou uma biografia do profeta do Islão que mereceu aplausos de crentes e descrentes. É o retrato de um homem – não o objecto de sublimação. (Ler mais | Read more…)

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Lesley Hazleton diz que não tem “qualquer afinidade com religiões organizadas” apesar de, em criança, ter sonhado ser rabi ou freira, quando era a única judia na escola de um convento.

Mas, depois de escrever sobre a mãe de Jesus (A Flesh-and-Blood Biography of the Virgin Mary); sobre a rebelde fenícia que se casou com um rei de Israel (Jezebel: The Untold Story of the Bible’s Harlot Queen); e sobre o cisma que desuniu os muçulmanos (After the Prophet: The Epic Story of the Shia-Sunni Split in Islam), decidiu revelar Maomé – “o ser humano completo”.

 “A partir do momento em que acabei After the Prophet, tive a certeza de que iria escrever The First Muslim: The Story of Muhammad”, conta-me, numa entrevista por e-mail, a psicóloga de profissão, nascida em Inglaterra em 1945, com dupla cidadania (britânica e americana) desde 1994, repórter em Jerusalém de 1966 a 1975, estudiosa dos três monoteísmos e autora do blogue The Accidental Theologist  e de um total de dez livros.

“After the Prophet é a história épica do cisma sunitas-xiitas, que, de certo modo, começou após a morte de Maomé, mas cujas raízes remontam ao seu tempo de vida”, explica Lesley Hazleton.

“Sabia que tinha de explorar esse tempo em profundidade. Queria responder, o melhor que pudesse, a uma questão enganadoramente simples: quem foi ele’? Como é que tantos de nós sabemos tão pouco sobre uma personalidade tão importante da História?”

Em The First Muslim, o que emerge de mais de 300 páginas de uma edição requintada de capa dura é uma figura multidimensional que, embora os seus fiéis venerem como símbolo de perfeição, “teve dúvidas e se sentiu deprimido”, quando “o divino” o chamou a revolucionar a sociedade tribal do seu tempo, transformando-a numa gigantesca Umma (comunidade).

Hoje, com 1.500 milhões de fiéis, o Islão quase se aproxima do Cristianismo (2.100 milhões) como maior religião do mundo.

Lesley Hazleton, uma agnóstica estudiosa das religiões
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Para “fazer justiça a um homem que mudou radicalmente o seu mundo e, de certo modo, continua a mudar o nosso”, Lesley Hazleton recuou “até às fontes primárias, biógrafos dos séculos VIII e IX”, onde encontrou “a vitalidade e o ‘sumo’ de uma vida real, sem interferência dos séculos de interpretação, compreensão e escrita” do que, para ela, é “um estilo irresistivelmente do Médio Oriente”. Demorou cinco anos neste processo.

Escrever a biografia de Maomé “foi como servir de intérprete cultural, entre a Arábia do século VII e o Ocidente do século XXI”, congratula-se a antiga jornalista, que vive num barco em Seattle (EUA) e “está sempre a fazer perguntas, não para encontrar respostas, mas para saber até onde as perguntas nos conduzem”.

“Foi a tentativa de uma outsider de entrar no mundo em que Maomé viveu e recriar a sua vivência e o contexto político, social e cultural dessa experiência”, precisou a autora. “O meu objectivo foi dar-lhe a realidade na íntegra.”

“Naturalmente que muçulmanos conservadores discordaram da minha abordagem, mas a reacção da maioria tem sido positiva e de apreço.”

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Um dos capítulos que Lesley mais dificuldade teve em completar refere-se ao confronto de Maomé com os judeus de Medina – para onde ele emigrou quando o expulsaram de Meca. “É claro que me causou uma dor horrível”, confessa.

“Das três tribos judaicas na cidade, duas foram expulsas e, por fim, todos os homens da terceira e mais pequena foram massacrados. A questão é: porquê?”

“A religião e a política sempre estiveram intrincadamente ligadas em todo o Médio Oriente, por isso, se olharmos para todo o contexto político, vemos que, naquela época, o que estava em causa não era tanto animosidade contra os judeus na forma de anti-semitismo mas as exigências políticas de impor liderança”, explicou Lesley.

“As tribos judaicas aceitaram a liderança política de Maomé – não a liderança religiosa, quando a realpolitik desses tempos lhe exigia que impusesse essa domínio.”

“É inevitável que, actualmente, estes acontecimentos sejam usados, por extremistas em ambos os campos para alimentar a ideia de um conflito irremediável entre judeus e muçulmanos. Eles tentarão sempre manipular a História para a encaixarem nos seus desígnios.”

Sobre as crescentes divisões na Umma, como o ódio entre sunitas e xiitas, palpável no Iraque e no Bahrein; a permanente hostilidade em relação a minorias, como os cristãos e os bahá’ís, Lesley afirma: “É evidente que há uma luta em curso pela ‘alma do Islão’, entre uma minoria de radicais e uma maioria moderada.”

“Esta luta é agravada por muitos factores, incluindo o legado pós-colonial no Médio Oriente e noutras regiões.”

“É preciso, porém, sublinhar que não há um monólito chamado Islão. Tal como há diferentes correntes do Judaísmo e do Cristianismo, também há correntes diferentes de Islão. Nem uma só pessoa nem um só grupo pode clamar que representa os muçulmanos em toda a parte, embora alguns se considerem únicos representantes do que chamam ‘A Verdade’.”

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“Tendemos a classificar a religião como uma questão de crença mas mais do que isso”, realça Lesley. “Eu sou agnóstica, mas ser judia é parte de mim, tal como ser escritora, psicóloga, mulher. Tirem-me um desses componentes e serei diferente.”

“Tudo influenciou o que sou. A crença num ser divino é comum a todas as religiões, por isso, ser ‘um crente’ não faz de nós, especificamente, judeus, cristãos, muçulmanos ou outra coisa.”

“Ser judeu, cristão ou muçulmano deve-se ao facto de uma determinada religião ter sido a que ajudou a moldar os valores de alguém, o seu modo de pensar, os símbolos que mais lhe importam. Tudo o que permite um eu singular – ou seja, a identidade.”

O que esperava e o que surpreendeu Lesley ao escrever The First Muslim? “Não tinha expectativas, mas o sentimento de estar a explorar algo. A biografia é uma expedição – uma viagem ao que é, inevitavelmente, o território estranho da vida de alguém. Como empreender então esta viagem?”

“Podemos agir como turistas e tirar as fotografias da praxe ou podemos permanecer durante um período mais longo, para tentar compreender o interior. Eu segui este caminho.”

Questões controversas como a obrigação de as mulheres ocultarem o cabelo com o hijab e/ou todo o rosto com o niqab, a promessa de “72 virgens no Paraíso” que recompensarão os mártires pela fé e outros supostos “dogmas” são desqualificados por Lesley Hazleton.

“Não são ‘os fundamentos’ das revelações originais” de Maomé, mas sim “o resultado de um longo passado de interpretações misóginas e machistas do Corão e dos Hadith” (palavras e actos atribuídos ao “Mensageiro de Deus”), frisa a biógrafa.

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Sobre as crescentes divisões na Umma, como o ódio entre sunitas e xiitas, palpável no Iraque e no Bahrein; a permanente hostilidade em relação a minorias, como os cristãos e os bahá’ís, Lesley afirma: “É evidente que há uma luta em curso pela ‘alma do Islão’, entre uma minoria de radicais e uma maioria moderada.”

“Esta luta é agravada por muitos factores, incluindo o legado pós-colonial no Médio Oriente e noutras regiões.”

“É preciso, porém, sublinhar que não há um monólito chamado Islão. Tal como há diferentes correntes do Judaísmo e do Cristianismo, também há correntes diferentes de Islão. Nem uma só pessoa nem um só grupo pode clamar que representa os muçulmanos em toda a parte, embora alguns se considerem únicos representantes do que chamam ‘A Verdade’.”

“Tendemos a classificar a religião como uma questão de crença mas mais do que isso”, realça Lesley. “Eu sou agnóstica, mas ser judia é parte de mim, tal como ser escritora, psicóloga, mulher. Tirem-me um desses componentes e serei diferente.”

“Tudo influenciou o que sou. A crença num ser divino é comum a todas as religiões, por isso, ser ‘um crente’ não faz de nós, especificamente, judeus, cristãos, muçulmanos ou outra coisa.”

“Ser judeu, cristão ou muçulmano deve-se ao facto de uma determinada religião ter sido a que ajudou a moldar os valores de alguém, o seu modo de pensar, os símbolos que mais lhe importam. Tudo o que permite um eu singular – ou seja, a identidade.”

“A perfeição não é humana”, adianta a escritora que se tornou celebridade online graças a um vídeo colocado no YouTube em que ela, numa conferência TED destrói com sentido de humor os mitos sobre o Islão.

“As muitas lendas sobre a vida de Maomé são lindas em vários aspectos, mas fazem dele um ser distante, porque perfeito. E é precisamente por causa disso que considero a sua vida real muito mais extraordinária do que a que lhe foi atribuída pela lenda devocional.”

“Ele emergiu da impotência para o poder, de um ser estranho para um ser íntimo. Quando nos apercebemos como fez isso – como é que uma criança órfã empurrada para as margens da sua sociedade acabou a liderar essa sociedade; como é que um mercador desafiou a ordem estabelecida através de uma nova visão de justiça social, como é que um pregador expulso de Meca transformou o exílio num recomeço vitorioso – damos mais valor ao que ele conseguiu e ao quão difícil foi.”

No final, pergunto à mulher que nos anos 1990 escrevia notícias sobre automóveis e tem brevet para voar se continua agnóstica ou se imagina a imitar o judeu Leopold Weiss, que se converteu no muçulmano Muhammad Asad, primeiro embaixador do Paquistão na ONU em 1947 – um ano antes da criação de Israel.

Lesley Hazleton não tem dúvidas:É óbvio que permaneço agnóstica. De forma inabalável. Esta posição intelectual permite um olhar mais claro para uma arena vasta e volátil em que religião e política se intersectam.”

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 14 de Setembro de 2013 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on September 14, 2013

Três livros para entender o Egipto

As detenções são uma “moda” muito disseminada tanto nos dias de guerra como nos de terrorismo, diz um dos personagens de O Açucareiro (p. 259, Ed. Civilização, 2008), III volume da Trilogia do Cairo, obra-prima do único árabe Nobel da Literatura. O país de Naguib Mahfouz que, nos anos 1920, tentava libertar-se das tradições permanece dilacerado por demónios, agora os da modernidade. (Ler mais | Read more…)

Steve A. Cook: De Nasser a Tahrir

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Há um guia essencial para compreender a “revolução” que derrubou Hosni Mubarak, a “anti-revolução” militar que destituiu Mohamed Morsi e a subsequente “contra-revolução” da Irmandade Muçulmana.

Em The Struggle for Egypt: From Nasser to Tahrir Square (Oxford University Press, 2011), Steven A. Cook explica, com mestria, as muitas lutas do Egipto para identificar o seu lugar no mundo.

Este livro ganhou, em 2012, a medalha de ouro do Book Prize do Washington Institute. Lê-se como um romance de Mahfouz.

Um desfile de vitórias e fracassos. Dos Oficiais Livres que afastaram do trono o Rei Farouk; da Ikwan al-Muslimun, cujo ideólogo, Sayyid Qutb, foi enforcado por ordem do “pai do pan-arabismo”, Gamal Abdel Nasser.

De Anwar el-Sadat, o guerreiro que foi assassinado por assinar a paz com Israel. De Hosni Mubarak, “a esfinge” que, segundo uma anedota local, tendo de escolher, num cruzamento, a direcção a seguir, esquerda ou direita, dizia ao motorista que ficasse “parado”.

Na encruzilhada onde confluem forças internas antagónicas e interesses externos (dos EUA e Israel, em particular), Steve A. Cook, Senior Fellow de Estudos do Médio Oriente no Council on Foreign Relations, encontra também os liberais, eles próprios perdidos na busca de uma ideologia que ninguém conseguiu definir.

Adel Iskandar: A revolução inacabada

Adel Iskandar

De Adel Iskandar, sábio analista dos fenómenos políticos e mediáticos no mundo árabe, acaba de ser publicado Egypt In Flux: Essays on an Unfinished Revolution (American University in Cairo, 2013).

À semelhança de outras obras do mesmo autor, como Al Jazeera: The Story of the Network that is Rattling Governments and Redefining Modern Journalism e Mediating the Arab Uprisings, este livro é também um manual indispensável.

Ao abordar todos os ângulos relacionados com o levantamento popular, antes e depois da queda de Mubarak – da corrupção à religião, das fraudes eleitorais à violência no futebol – ajuda a descodificar uma transição convulsiva, não poupando, nas críticas, o Exército e a Irmandade.

Cidadão canadiano-egípcio, nascido na Escócia e doutorado em Comunicação nos EUA, onde é professor na Universidade de Georgetown, Iskandar assegura que a revolução “não venceu, mas também não falhou”.

Alaa al-Aswany: Nem Mubarak nem Morsi

 

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Odontologista de ofício (que ainda exerce), Alaa al-Aswany faz uma radiografia, de precisão cirúrgica, dos acontecimentos que conduziram, em 2011, à queda de Hosni Mubarak, em O Estado do Egito: O que tornou a revolução possível (Ed. Quetzal).

Fundador do movimento Kefaya (“Basta”), em 2004, ele condena, neste livro, de forma patriótica e universal (evocando, por exemplo, Camaleão, conto de 1884), de Tchekhov), um regime despótico que tudo corrompia.

Não admira, pois, que o escritor aclamado, pela revista Foreign Policy, como um dos “100 maiores pensadores globais” se encontrasse entre os milhões de manifestantes que encheram a Praça Tahrir, no Cairo, aspirando liberdade.

Mais surpreendente, porém, foi ver um opositor do estado policial juntar-se aos liberais e militantes de esquerda do Tamarod (Rebelde) que saíram à rua, em 2013, exigindo uma intervenção militar contra Mohamed Morsi, primeiro presidente democraticamente eleito.

Autor de Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian (Ed. Presença), obra traduzida para 27 línguas, e de Chicago (Ed. Quetzal), além de colunista de jornais influentes, como The Guardian, Le Monde e The New York Times, Alaa al-Aswany não partilha da opinião dos que  condenam “um golpe militar” que dividiu o país.

Em várias entrevistas que tem dado, o romancista-dentista defende a repressão da Irmandade Muçulmana ordenada pelos generais, e caracteriza Morsi como “terrorista fascista, que monopolizou todos os poderes e governava em nome de Deus, a favor dos interesses do seu gangue”.

E conclui: “O Egipto está a recuperar a sua revolução”.

© newyorker.com

Este artigo foi publicado originalmente na revista LER, edição de Setembro de 2013 | This article was originally published in the Portuguese magazine LER, September 2013 edition

A revolução de Maria

Ela tinha dez meses quando a enfeitaram de cravos para assinalar, no jornal PÚBLICO, um quarto de século do 25 de Abril. O que se segue são histórias de uma jovem e do pai que a inspirou; de uma imagem e do fotógrafo que a captou. (Ler mais | Read more…)

© Miguel Manso

© Miguel Manso

Terá sido “por volta dos seis anos” que a menina acarinhada como “o bebé do PÚBLICO” viu, pela primeira vez, a sua fotografia na capa do jornal evocativa do 25.º aniversário da Revolução de 25 de Abril. Depois disso, já folheou “algumas vezes” o exemplar que o pai guarda com zelo numa capa de plástico.

Do dia em que a despiram sobre uma espuma floral de cravos vermelhos, um deles na mão direita, Maria Oliveira Sobral Lopes não guarda memórias – tinha dez meses de idade. Mas guarda um conselho: “Não te deixes deslumbrar com elogios, e usa a liberdade para tomar decisões boas, sem magoar os outros.”

“Só na escola primária comecei a perceber o que era a revolução – Salazar, por exemplo, era um utensílio de cozinha que a avó usava para fazer bolos”, conta Maria, agora com 14 anos, longos cabelos castanhos que brilham e esvoaçam, em tarde de sol e vento num jardim de Lisboa.

Mantém o sorriso tímido, os olhos doces e o rosto sereno com que enfrentou a câmara de Miguel Silva.

A edição que teve Maria como capa (título: “A revolução hoje”) foi planeada e realizada, do princípio ao fim, pelos jornalistas, fotógrafos e designers gráficos do jornal nascidos a partir de 1970, com raras excepções ditadas pela actualidade.

A entrada para o Especial, primeira secção de um total de 80 páginas, abria assim: “25 anos depois do 25 de Abril, há novas tensões sociais em crescendo. Que afectam todo o mundo ocidental. A crise do capitalismo global, o declínio do Estado-providência e o desemprego estrutural. E à esquerda não há alternativa ao sistema neoliberal.”

Os textos seguintes, centrados no país, identificavam “as razões para uma nova ruptura”, mostravam “os caminhos que eventuais revolucionários trilhariam para conquistar o poder”; e interrogavam “25 jovens com as mesmas idades dos homens que fizeram a Revolução. (…) Para saber quais são as suas causas”.

Quanto ao resto do mundo, noticiava-se os funerais das vítimas do massacre no liceu de Columbine, nos Estados Unidos, e o Novo Conceito Estratégico da NATO, que permitia agir sem mandato da ONU, numa altura em que alastrava a guerra nos Balcãs. Enviados a Díli davam conta de um êxodo incessante de Timor-Leste antes da independência; um outro, na Albânia, fazia (para a revista desse domingo) o retrato de “um país governado pelas máfias”.

“Só na escola primária comecei a perceber o que era a revolução (na foto) – Salazar, por exemplo, era um utensílio de cozinha que a avó usava para fazer bolos”, conta Maria
© Alfredo Cunha

A escolha de Maria, filha de José Miguel Pessoa de Amorim Sobral Lopes, na altura gráfico no jornal, foi justificada por um colectivo de editorialistas deste modo: “Porque é à geração dela que queremos passar testemunho de uma revolução que, tendo apenas 25 anos, num país com mais de 800, é ainda uma criança, e porque queremos olhar para o futuro sem esquecer o passado.”

Deixaram também esta pergunta: “Será que se limitará a receber o nosso testemunho ou vai querer ser, ela própria, uma revolucionária?”

“Não me vejo como revolucionária, se isso significar ser uma radical”, assegura Maria, sem hesitação. “É bom sentir que sou livre. Não sou daquelas pessoas que estão sempre a queixar-se e a culpar os outros.”

“É certo que há quem tenha poder e não o esteja a exercer bem, mas acredito que encontrar uma solução para os nossos problemas não cabe apenas aos governantes.”

“Não estou a par dos programas dos partidos, mas acho que é preciso coragem para se ser político – um bom político, não aquele que prejudica os mais fracos, sem opções e alternativas.”

“Na aula de Geografia, o professor disse-nos que quando há défice democrático a tendência é para favorecer as classes dirigentes”, prossegue Maria.

“E um amigo meu, que é bastante activista, sugeriu que os políticos fossem voluntários durante um ano – bastava um ano sem receberem salário – para avaliar quem está, realmente, empenhado em mudar a sociedade.”

E Maria continua, voz firme: “Se eu tivesse de qualificar alguém de revolucionário, seria o meu pai. Ele tem imensas ideias boas. Defende, entre outras coisas, que os lares de idosos deveriam estar ao lado de infantários.”

“As pessoas mais velhas têm muita experiência e paciência; em troca disso, as crianças ajudariam a diminuir-lhes a solidão.”

Maria frequentou, até ao 5.º ano de escolaridade, o Colégio Moderno, fundado pelo pai do ex-Presidente da República Mário Soares, em 1935/36, e com alunos ilustres como o irreverente realizador João César Monteiro (que haveria de ser expulso), e professores regentes como o líder comunista Álvaro Cunhal.

“Foi aqui que comecei a ouvir falar da revolução, como um conto de fadas”, relata a jovem, com eloquente ingenuidade. “Salazar era o mau da fita, a liberdade era a princesa e o povo era o príncipe. Só que nem todos ficaram felizes. Tenho amigos com familiares que foram perseguidos depois de cair o antigo regime.”

“O que aconteceu em 1974 foi uma coisa boa”, acredita Maria. “Não vivi antes da revolução, mas imagino que devia ser difícil não poder falar com medo de ser preso. Por outro lado, se calhar, alguns também abusaram da liberdade e, por isso, é que há tanta gente egoísta. É cada um por si.”

“Estou consciente de que sou privilegiada, porque tenho apoio da família e amigos. Não me falta nada. O percurso escolar é bom. De 1 a 5 valores, não tenho menos de 4. Sou tão boa a Português como a Matemática. Mas também sei que já não basta empenhar-me e querer algo.”

“Quando ouço notícias sobre a taxa de desemprego, sempre a subir, reparo que nem tudo depende da minha vontade”, adianta Maria.

“Ainda não decidi, por isso, que curso superior seguir. Sinto-me inclinada para escolher Medicina, mas há hospitais a fechar. Já pensei em Enfermagem, mas depois vi na televisão enfermeiros a emigrar.”

“Quero viver e trabalhar em Portugal, mas as duas coisas parecem incompatíveis. Aspiro a ser independente, não viver em casa da mãe ou do pai, mas o país manda embora as pessoas mais inovadoras e criativas. Sair deixou de ser escolha individual e tornou-se obrigação.”

“Não vivi antes da revolução, mas imagino que devia ser difícil não poder falar com medo de ser preso”, admite Maria. (Na foto, uma escola no Bairro Alto, em Lisboa, antes de 25 de Abril)
© Alfredo Cunha

Relendo excertos da edição de 1999, Maria dá conta de progressos, como um maior acesso das mulheres ao mercado de trabalho, o surgimento de novas tecnologias e o princípio de mais tolerância (embora ainda envergonhada) à diferença, sobretudo no que toca à homossexualidade. O caminho a percorrer é longo, ela reconhece.

“Não se pode entregar às pessoas uma frigideira com azeite sem os ovos para fazerem omeletes. Não gosto do que vejo à minha volta. Vários colegas deixaram de poder ir a visitas de estudo porque os pais deles não têm dinheiro. Há mães que não conseguem alimentar os filhos.”

“Penso às vezes numa entrevista que fiz, para um trabalho da escola, ao meu avô materno”, continua. “Ele formou-se em Direito. No serviço militar obrigatório, dava assistência jurídica em Luanda, Angola, durante a guerra colonial.

“Nesta conversa, lamentou: ‘Perdi três anos da minha vida para nada; só sofremos.’ E nem sequer foi ferido. Eu quero contribuir para a mudança, não desperdiçar oportunidades. O mais importante, para mim é, um dia, poder sentir que mudei a minha vida e a vida de alguém.”

Maria, que leu Alice Vieira e Sophia de Mello Breyner na infância e é “obrigada” a estudar Os Lusíadas, prefere Stephanie Meyer (autora da saga Crepúsculo), Aprilynne Pike (O Beijo dos Elfos e Feitiço), Nicholas Sparks (Diário de Uma Paixão) e J. K. Rowling (Harry Potter), como a maioria dos adolescentes.

“Adoro histórias com vampiros, ficção científica e romances que fazem chorar – sim, sou sentimental. O pai insistiu em que eu pegasse em José Saramago, porque ele adorou A Viagem do Elefante e Ensaio sobre a Cegueira, mas a leitura era complicada.”

Sobre música a garota aprimorada em jeanssweat-shirt deslizando sobre o ombro, blusão e ténis – uma parte desta vaidade sustentada por uma mesada de 20€ – deixa claro: “Não pertenço ao clube de fãs de Justin Bieber. Os meus favoritos são Mumford & Sons, The Script, Maroon 5, Ed Sheeran, entre outros.”

Os veteranos Zeca Afonso ou Sérgio Godinho não fazem parte da sua playlist, tal como os mais jovens cantores e bandas portugueses, que desconhece.

Maria dá conta de progressos desde a Revolução de 25 de Abril (na foto), como um maior acesso das mulheres ao mercado de trabalho, o surgimento de novas tecnologias e o princípio de mais tolerância à diferença, sobretudo no que toca à homossexualidade. O caminho a percorrer é longo, ela reconhece
© Alfredo Cunha

Filha de um casal divorciado, Maria não poupa elogios ao pai. “Ele tem atitudes que às vezes não esperamos, mas são as correctas. Se eu tiver filhos, é assim que gostaria de os educar. Ele diz: “Vai, experimenta, aceita o que és. Abre e ouve o teu coração.”

Sempre foi permissivo, e nunca quebrei a sua confiança. Às vezes, quando eu e o meu irmão éramos miúdos, e o pai estava com amigos, nós podíamos ir explorar o lugar das nossas brincadeiras, mas bastava ele assobiar e nós aparecíamos – esse era o sinal. Ele via-nos e ficava descansado.”

Tenho muito orgulho no trabalho que ele está a desenvolver, em prisões, com pessoas que cometeram crimes graves, mas que estão a cumprir o castigo”, sublinha Maria, aludindo à iniciativa ricoxete.com, que fabrica almofadas com qualidades terapêuticas, a partir de caroços de cereja e de azeitona.

“Estas pessoas ganharam oportunidade de aprender e obter sustento para as suas famílias. O pai ajuda-me a ser responsável. Dou passos pequenos, e peço permissão. Vou a concertos (o último foi ao Rock’in Rio, o ano passado) mas sob vigilância, porque ainda não sou adulta, mas sempre me senti livre.”

Na companhia do filho Manuel, de 11 anos, que foi buscar à porta da escola, para o fim-de-semana que todos passam juntos a cada quinzena, é a vez de Zé Miguel (como ele gosta de ser tratado) contar como foi.

“A ideia que tenho é a de que, no jornal, andavam à procura de uma criança para ser fotografada e alguém veio ter comigo a perguntar se não me importava que fosse a Maria. Eu aceitei.”

“Sobre uma cama de cravos, espetados num rectângulo daquela espuma de cor verde para fixar flores, deitámos uma menina bem-disposta. Correu lindamente, e ela portou-se muito bem.”

“O mais incrível é que, no dia em que a foto da minha filha saiu na capa, na mesma edição, foi publicado [na página 76] um anúncio a participar o funeral da minha avó Maria Elvira.”

O pai de Maria tinha 10 anos no dia da Revolução. “Estava na escola e mandaram-nos para casa, com ordem para não sairmos à rua”, lembra.

“Os meus pais eram neutros, politicamente, mas recebiam visitas, como o historiador Cláudio Torres, que é comunista. Eu, gaiato e curioso, ouvia conversas, com sussurros sobre a PIDE.”

“Quando se deu o 25 de Abril, pensei: “As prisões vão encher-se de pides; agora é a vez de eles serem presos. Mas não foi assim. No dia seguinte, tudo parecia normal. Ninguém matou ninguém.”

“Foi gira, a liberdade, embora com ela chegasse também um inferno”, diz Zé Miguel, que não completou o 10.º ano de escolaridade, embora tenha concluído vários cursos técnicos e profissionais.

“No Liceu D. Pedro V, as drogas duras disseminaram-se a toda a velocidade. Nem os meus pais, nem os professores, nem a sociedade estavam preparados.”

“Hoje, eu pergunto à minha filha se lá na escola dela fumam charros e ela diz que sim. E eu digo-lhe: ‘Se queres fumar, pedes-me um cigarro, não tentes isso às escondidas.’ Quero que os meus filhos sejam coerentes e tenham a mente aberta. Se disserem que não, têm de saber explicar imediatamente a razão.”

“Foram mais de dez anos de calvário – dos 16 aos 28 anos – e a sofrer duplamente, porque ia trabalhar a ressacar”, vai revelando.

“Um dia dei-me um ultimato: ‘Se continuas assim é a tua desgraça, e morres sem ter filhos; tens de dar o salto, é agora ou nunca.’ Peguei num carrito que tinha e segui até Estugarda, para me encontrar com um amigo alemão.”

“Quando se deu o 25 de Abril, pensei: ‘As prisões vão encher-se de pides; agora é a vez de eles serem presos'”, diz José Miguel Amorim, o pai de Maria. “Mas não foi assim”
© Alfredo Cunha

“Foram 48 horas a conduzir sem consumir. Chorei durante metade do percurso. Desintoxicado em 15 dias, graças a saunas e banhos turcos, regressei a Portugal, mas ainda andei oito anos nos Narcóticos Anónimos.”

“Todos os dias, a qualquer hora, em diferentes pólos. Não mais tive recaídas. Não bebia nada que pudesse alterar o meu estado de espírito.”

“Conheci a mulher que seria a mãe dos meus filhos quando ela, estudante universitária, tinha 18 anos, menos dez do que eu. Para ter qualidade de vida, todas as manhãs, às 11h, eu entrava com a Maria na piscina de um ginásio ao pé de casa.”

Quando saiu do jornal, em Lisboa, Zé Miguel abdicou do subsídio de desemprego e formou-se, no Porto, em condução defensiva. Nessa qualidade, vangloria-se de ter ensinado Elizabete Jacinto “a conduzir camiões para o rali Paris-Dakar”. Seguiu-se uma breve carreira de actor no Teatro Trigo Limpo, em Tondela, em digressão por várias povoações, com a peça Num Abril e Fechar de Olhos.

Trabalhou, depois, como empregado de mesa num restaurante e tentou, sem êxito, gerir um bar. “Estava há um ano quase sem fazer nada – pratiquei a arte marcial tai chi e ioga, tive aulas de tango e abordei a técnica da cientologia”, continua o pai de Maria.

“Uma noite, apercebi-me de que os meus dois filhos disputavam um saco que a minha mãe fizera e lhes oferecera. Pensei: “Se estas crianças gostam disto, é porque isto é bom.” As crianças, creio eu, não se enganam.”

“Eu era pequenina”, precisa Maria, “quando a avó Luísa trouxe um saquinho do estrangeiro. Ela tentou fazer um igual, e ia guardando os caroços das cerejas que comíamos.”

“Quando ficou pronto, colocou-o no microondas, seguindo as instruções do que tinha comprado na sua viagem. E percebemos, eu e o meu irmão, que quem dormisse com aquilo ficava mais quentinho. Por isso estávamos sempre a reclamá-lo. Isso chamou a atenção do pai.”

Em 2007, Zé Miguel criou a ricoxete.com (escreve com “x” e não com “ch” porque, explica, “é mais fácil para os estrangeiros pronunciarem”).

O nome do que ele designa por “projecto”, porque “é mais dinâmico do que uma empresa”, tem a ver com o trajecto pessoal: “Se não vou por aqui, vou por ali; ora bato numa parede, ora bato noutra, mas resisto.”

Num folheto que acompanha as almofadas que comercializa, cada uma contendo “1500 caroços de cereja ou seja 350 gramas”, lê-se que “substitui o tradicional saco de água quente, sendo ideal para relaxamento muscular, massagens, alívio de dores, nas costas ou no pescoço, menstruais ou de menopausa, de amamentação ou de osteoporose”.

Outra qualidade é a de “reduzir a factura de consumo de electricidade”, já que “um a três minutos no microondas é suficiente para dormir uma noite inteira sem necessidade de ligar o aquecedor”.

“Foi um ano de planeamento”, especifica Zé Miguel. “Até as medidas das almofadas, 25×14,5cm, foram calculadas de modo a resultarem no chamado “golden number” ou número dourado, simbolizado pela letra grega phi, porque eu queria congregar tudo de positivo no Universo.”

Com o dinheiro resultante da venda da casa onde habitava com a ex-mulher, e evitando requerer financiamento externo, o pai de Maria mudou-se para Caxias.

Registou a patente, comprou tecido de algodão, e encomendou dez toneladas de caroços de cereja à Sérvia, na antiga Jugoslávia. Não havia quantidade suficiente em Portugal. Depois passou a importar de Espanha.

A mão-de-obra necessária para fazer 10 mil almofadas é onerosa cá fora. “Decidi ir bater à porta das prisões, onde as tarefas são pagas tendo como referência o salário mínimo nacional. Fui bem recebido e agora até sou conhecido como “O senhor do caroço” ou “do tremoço””, diverte-se.

Com a ajuda de uma betoneira, “onde apenas se misturam água e brita, sem produtos químicos”, reclusos no Estabelecimento Prisional de Sintra, lavam, tratam e secam os caroços ao sol. As almofadas, “100% naturais, recicláveis, biodegradáveis e hipoalergénicas”, são cosidas por mulheres na cadeia de Tires, em duas máquinas de costura que Zé Miguel comprou e colocou na prisão.

O orçamento inicial foi de cerca de 20.000 euros. Cada almofada custa 22,5€, mas, se for enviada pelo correio, o preço, com portes, ascende a 27,61€.

“O volume de negócios é residual”, reconhece o empresário, mesmo que se tenha internacionalizado. “Vendo para o Brasil, África do Sul, Rússia e outros países, mas ainda não esgotei o primeiro stock. Tenho um armazém cheio de almofadas.”

“Não me preocupa, porque não quero ser muito rico, ter uma casa de luxo ou um carro de milhões. Os meus produtos não são perecíveis. Eu vou vendendo e vou vivendo.”

“Se eu tivesse de qualificar alguém de revolucionário, seria o meu pai (José Miguel Amorim, na foto)”, diz Maria. Ele tem imensas ideias boas”
© Miguel Manso

Às almofadas térmicas, que venceram o 2º Prémio de Design Social num concurso em Tallinn (Estónia), Zé Miguel juntou, em 2010, um novo elemento com as mesmas propriedades: o Oliveira. Trata-se de um boneco feito com caroços de azeitonas, tendo como cliente-alvo as crianças.

Posteriormente, a Fundação Saramago adoptou o Oliveira, depois de ter cativado a atenção de Pilar del Río, a viúva do Nobel da Literatura 1998. Está agora à venda na Casa dos Bicos, em Lisboa, e em Lanzarote, residência-biblioteca nas Ilhas Canárias, onde o escritor viveu 18 anos.

Há duas semanas, o dono da ricoxete.com enviou um boneco ao neto de Manoel de Oliveira, com o pedido explícito de que o faça chegar ao cineasta de 105 anos. O próximo destinatário será o Papa Francisco. “Eu acho que ele vai achar piada”, confia.

Há um país que marcou Zé Miguel e Miguel Silva, o repórter que fotografou Maria: a Dinamarca, onde ambos trabalharam, o segundo para a organização não-governamental Humana-People to People, depois de um curso de instrutor de desenvolvimento e acção humanitária em África. “Há muito frio e pouca luz, mas ali tudo funciona bem”, destaca.

“Na Dinamarca, o poder respeita a sociedade e a sociedade respeita o poder – o que a revolução não conseguiu em Portugal”, aponta o fotógrafo de 42 anos que, ao serviço da ONG, esteve em Moçambique e na Roménia, depois de deixar o jornal.

“Os nórdicos gostam do nosso sol e da nossa comida, mas não querem investir aqui porque há muita burocracia e a justiça é lenta.”

“Naturalmente que valeu a pena o 25 de Abril, porque nos deu a liberdade”, sublinha Miguel Silva, lembrando que “o pai lavou pratos no exílio”, e lastimando que, na Madeira, de onde a sua família é oriunda, “ainda se vive numa ditadura onde as pessoas votam, porque toda a gente tem alguém a trabalhar para o governo de Alberto João Jardim”.

Na Dinamarca, realça, “chegar com dois minutos de atraso é como cometer um crime. Há um grande investimento na educação. As pessoas são realmente dedicadas ao trabalho – não bebem álcool à hora do almoço para não afectar o rendimento – e são muito competentes. Não têm a cultura do deixa-andar nem a da ostentação – esta é como se fosse pecaminosa”.

Aos 18 anos, Zé Miguel foi também até uma localidade nas proximidades de Copenhaga, no âmbito de um intercâmbio de jovens, semelhante ao actual programa Erasmus, através dos Serviços de Emprego Europeus, quando a sua mãe, agora reformada e com 71 anos, era ali funcionária. “Comprei uma viagem de InterRail e precisei de um visto, porque ainda havia fronteiras, e era preciso cambiar moeda”, explica.

“Fui integrado num grupo de várias nacionalidades, para tomar conta de alunos numa escola que ficou aberta porque os pais decidiram, nas férias, restaurar praças e jardins, e precisavam de manter os filhos ocupados, de preferência em contacto com outras culturas.”

“Havia ali uma sala para as crianças aprenderem a disciplina de Gestão Doméstica, que ensinava a cozinhar, a lavar roupa e louça. Extraordinário! Não me espanta que a Dinamarca seja considerada o país onde o grau de felicidade é maior.”

Zé Miguel amargura-se com “a fraca qualidade” dos dirigentes portugueses. “A maioria dos deputados é formada em Direito; talvez porque saem das universidades 4000 advogados por ano. Não faria mais sentido se deputados e ministros tivessem licenciaturas em História ou em Ciência Política?”

“Estes tipos é que pertencem à ‘geração rasca’, para usar a expressão do Vicente [Jorge Silva] usada num editorial, em 1994, motivado por uma imagem em que um rapaz despiu as calças numa manifestação contra as políticas educativas].”

“É bom sentir que sou livre”, diz Maria Lopes. “Não sou daquelas pessoas que estão sempre a queixar-se e a culpar os outros”
© Miguel Manso

Miguel e Zé Miguel, reconhecendo que são hoje “pessoas muito diferentes” graças ao conhecimento de outros povos que o 25 de Abril permitiu, coincidem na descrição de como foi o dia em que Maria se tornou capa do jornal.

“A ideia foi minha”, rejubila o repórter que agora trabalha para o semanário Sol. “Creio que gastei uns dois ou três rolos – ainda não era o tempo do digital. Demorei cerca de meia hora a preparar a menina e uma hora e tal a fotografar.

O pai brincava com a filha e ela nunca fez birras nem chorou. Tinha de ser tudo espontâneo, sem encenação, para ser simbólico e nada ordinário. Demorámos mais tempo porque era necessário preservar a intimidade da bebé, não a deixando demasiado exposta. Na última etapa, não havia cravos suficientes e tivemos de usar Photoshop para os duplicar.”

O fotógrafo não sabe explicar como lhe surgiu a ideia de colocar Maria sobre uma espuma de cravos semelhante às que as floristas usam para garantir a retenção da água e a fixação dos arranjos.

“Terei sido influenciado por uma cena de American Beauty?”, em que pétalas de rosa caem, sedutoramente, sobre a actriz Mena Suvari, cogita Miguel. Isso não era possível porque este filme, de Sam Mendes, teve estreia em 1999… mas em Setembro.

“São coisas que acontecem e não se explicam”, conclui Zé Miguel. “Aos 8 anos a Maria escreveu uma redacção que se chamava O Jardim das Oliveiras. Aproveitei o texto e mudei o título para O Jardim das Cerejeiras, e o texto [num livrinho bilingue, sobre a “marca/conceito, o produto e a Maria”] acompanha agora cada embalagem das almofadas.”

“Quem diria que eu haveria também de fazer bonecos com caroços de azeitonas? Já eu tinha os flyers prontos para a promoção, quando ela, aos 10 anos, me apresenta outra composição, “As cerejas da dona Amilda”, e não resisti a fazer tudo de novo para incluir o que ela escreveu. É tão bonito!”

(…) – Porquê Amilda, porquê cerejas, porque não cravos?

O que a dona Rosa não sabia é que o coração de dona Amilda era como um cravo, um cravo da liberdade, que lhe dava a liberdade de escolher cerejas, talvez para lhe lembrar a infância, quando punha um brinco de cerejas nas orelhas para mordiscar pelo caminho. (…)

O editorial de 25 de Abril de 1999 tem este final: “Os herdeiros de Abril, que muitos acusam de adormecidos, cinzentos, desinteressantes, acomodados, afastados das verdadeiras preocupações dos cidadãos, mostram (…) que talvez tenham guardado o melhor tesouro: a liberdade de escolher o seu caminho sem temer represálias.”

P.S. – No final da reportagem, seguindo o conselho citado no início deste artigo, “Usa a liberdade sem magoar os outros”, Maria pediu para ler o texto antes de ser publicado. Queria ter a certeza de que não magoara ninguém, sobretudo a sua mãe.

Maria Lopes na capa do jornal PÚBLICO evocativa do 25.º aniversário da Revolução de 25 de Abril
© Miguel Silva

Este artigo foi publicado no jornal PÚBLICO em 25 de Abril de 2013 | This article was originally published in the the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 25, 2013

Revolução cultural no Mali contra uma guerra profana

No património da humanidade de Tomboctu, Gao e Kidal, o terror calou o canto, a fúria desabou mausoléus e o fogo consumiu manuscritos. Na linha da frente contra a al-Qaeda mobilizaram-se militares, museus e músicos. Como o casal Amadou e Mariam, que veio actuar ao  Coliseu de Lisboa. (Ler mais | Read more…)

Não há no mundo um país como o Mali, onde “a música é parte intrínseca do tecido social e da vida política”, diz o britânico Ian Birrell, que co-fundou o Africa Express. Ele não se espantou que “tenham sido os músicos, e não políticos e generais sem escrúpulos, a posicionar-se contra os que queriam demolir séculos de tolerância do sufismo”
© unhcr.org

Au Roi du Café, em Paris, esvazia-se de clientes habituais e turistas ocasionais quando Fatoumata Diawara entra como um majestoso caleidoscópio, porte, pulseiras e piercings de multicores, tranças pintadas de vermelho soltando-se de um turbante florido.

Chega-se aqui, à Rue de la Chapelle, onde se cruzam negritudes, peles africanas e chapéus de judeus ortodoxos, e logo emerge o simbolismo do ponto de encontro.

O restaurant, brasserie e bistrot fica à saída da estação de metro que tem o nome de Marx Dormoy, resistente socialista, preso e assassinado em 1941 por se ter oposto, durante a ocupação nazi de França, a que o marechal Pétain e o governo de Vichy tivessem plenos poderes.

Fatoumata, 30 anos, actriz, dançarina, compositora e intérprete, decidiu resistir aos grupos, como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico (Aqmi), que tentam instaurar um califado no Norte do Mali, e formou uma superbanda.

São mas de 40 músicos a cantar: “Será que nos queremos matar uns aos outros? Queremos trair-nos uns aos outros? Vamos permitir que nos dividam? Somos todos do mesmo sangue!”

Um Estado da África Ocidental que, desde a independência em 1960, enfrentou quatro rebeliões no Norte, mergulhou no caos quando o Movimento de Libertação Nacional do Azawad (MNLA, tuaregues independentistas) atacou o exército maliano, a 18 de Janeiro de 2012, aliando-se à Aqmi e aos grupos Mujao e Ansar e-Dine, adeptos de uma “guerra santa”, que se apoderaram de dois terços do território.

Seguiu-se um golpe militar, a 22 de Março, que derrubou o Presidente Amadou Toumani Touré. A 11 de Janeiro deste ano, perante o avanço dos islamistas para Bamako, a capital, a França interveio militarmente.

A retirada dos mais de 3000 soldados mobilizados começou na semana passada, mas uma força de cerca de mil permanecerá na antiga colónia para apoiar uma missão africana sob mandato da ONU.

Enquanto subjugaram três províncias administrativas que a UNESCO classificou como Património Cultural da Humanidade – Tomboctu, Gao e Kidal –, os jihadistas arrasaram mesquitas e mausoléus de santos sufis (místicos do islão), queimaram, roubaram e contrabandearam valiosos manuscritos, chicotearam mulheres que não usassem véu, cortaram membros de presumíveis ladrões e dos que dedilhassem guitarras, apedrejaram suspeitos de adultério, impuseram segregação dos sexos…

“Encontrava-me em Bamako [a capital], quando comecei a ouvir que estavam a ser partidos koras e ngonis, n’jarkas e xalams, baras e balafons, sokus e shekeres, dununs e djembes e outros instrumentos musicais [de cordas e percussão]; mais grave, que impediam as pessoas de cantar”, relembra Fatoumata.

“’O que posso fazer?’, interroguei-me. Temos de nos rebelar em defesa da nossa cultura, das nossas raízes. Não sabia que a França já preparava a sua entrada, mas poucos dias depois de chegarem as tropas, decidi escrever uma canção que fosse um apelo à paz, à unidade e à reconciliação. Assim que a terminei, estive durante três dias ao telefone com artistas que conheço.”

“Foi surpreendente, a reacção positiva de todos. Seguiram-se mais três dias para gravar, para os arranjos e para a edição. Em pouco mais de um mês, estava concluído um vídeo, de sete minutos, Mali-ko (Peace/La Paix) [Paz].”

No esforço de propagar uma voz patriótica una, Fatoumata assegurou a presença de figuras amadas em toda a África Ocidental, designadamente, Khaira Arby, “a deusa de Tomboctu” e a quem os islamistas ameaçaram cortar a língua (ver último vídeo), ou o cantor de reggae Tiken Jah Fakoly, expulso da sua Costa do Marfim e declarado persona non grata no Senegal mas que enche estádios em Bamako.

Garantiu ainda a presença dos Tinariwen, tuaregues que ganharam fama no mítico Festival no Deserto/ Festival Désert (este ano cancelado devido à instabilidade regional), e do casal Amadou e Mariam, que venceu, em Fevereiro, o segundo “Victoire de la Musique”, equivalente francês ao Grammy, com Folila

Será este álbum, combustão de rock-blues-jazz- soul-pop-funk, no qual participam Santigold (da banda indie TV on the Radio), os rappers Theophilus London e Ebony Bones, o cantor francês Bertrand Cantat e o guitarrista norte-americano Nick Zinner (dos Yeah Yeah Yeahs), que marido e mulher vão oferecer, dia 25 [Abril de 2013] , aos espectadores no Coliseu de Lisboa.

Amadou Bagayoko, que conheceu Mariam Doumbia na orquestra do Instituto para Jovens Cegos em Bamako, em 1979, estava de partida para a terra natal, quando respondei às nossas questões, por telefone.

“Ficámos radiantes com o prémio porque, no contexto actual de guerra, foi também uma vitória para o povo do Mali”, exultou. “Quando se deu o golpe de Estado e começou a ofensiva dos islamistas, um país inteiro ficou em choque.”

“Embora, em Bamako e no Sul, a situação esteja calma, a proibição da música constituiu, para nós, a violação da identidade nacional”, frisou Amadou. “Apoiámos a intervenção francesa, porque ela permite que possamos continuar a lutar pelos valores da democracia e da laicidade.”

“Estamos empenhados em fomentar a compreensão e não o ódio. Podemos aceitar autonomia para os Imazighen [ou “homens livres”, que rejeitam o termo “berberes”] no Norte, mas jamais a independência. O país é indivisível!”

Era 11 de Janeiro quando, por ordem do primeiro-ministro François Hollande, foi lançada a Operação Serval. No dia 16, com infantaria francesa já no terreno, os jihadistas “vingaram-se”, sequestrando centenas de trabalhadores estrangeiros num gasoduto no extremo sudeste da Argélia.

A 19, depois de as tropas do Mali reconquistarem a cidade de Konna, forças especiais argelinas tomaram de assalto a central de gás: foram mortos 38 reféns e 29 raptores. A partir de 21, forças malianas e francesas (a que se juntaram, entretanto, uns 2000 soldados do Chade) recuperaram, sucessivamente, Douentza, Gao, Tomboctu, Kidal e Tessalit.

Fatoumata Diawara diz ter consciência de que a guerra “está longe do fim, embora seja mais fácil ganhá-la do que construir a paz”, num país com abundância de pobreza e escassez de justiça
© Samuel Kirszenbaum | Financial Times

Fatoumata Diawara diz ter consciência de que a guerra “está longe do fim, embora seja mais fácil ganhá-la do que construir a paz”, num país com abundância de pobreza e escassez de justiça. Ela não esconde “o desgosto” com as denúncias de “execuções sumárias”, em particular visando tuaregues, por parte das tropas malianas.

“É preciso compreender que os opressores eram mercenários vindos de fora, não o nosso povo. O disco e o vídeo que gravámos servem também para mostrar a importância de nos mantermos unidos.”

“Fiquei espantada com a receptividade, porque fui advertida por familiares para os riscos políticos, mas a canção passa dezenas de vezes, todos os dias, em várias emissoras de rádio”, salienta a activista dos direitos das mulheres, cujo álbum mais recente, Fatou, inclui um libelo contra a excisão genital feminina.

Na faixa Boloko, ela denuncia “Ils ont coupé la fleur qui faisait de moi une femme” [“Eles cortaram a flor que fazia de mim uma mulher”].

Para a rebelde que aos 18 anos fugiu, até Paris, do destino traçado pela família, “foi uma dádiva divina” a intervenção da França, onde a comunidade de malianos representa uma das maiores diásporas africanas (120.000 pessoas).

Nas casas que habitam, segundo o diário Le Monde, a cada andar, cada quarto, corresponde uma aldeia e/ou tribo no Mali – tal como as associações em que se inscrevem.

“Em espaços que raramente superam os 15 metros quadrados, chegam a viver durante anos pelo menos seis pessoas.” Os mais velhos têm o privilégio de dormir em camas; os recém-chegados encostam o sono a cobertores no chão.

Sem documentos, com vistos turísticos de apenas três meses, muitos ainda “alugam” cartas de residência a familiares com semelhanças fisionómicas. Trabalham, sobretudo, em restaurantes, construção civil, serviço doméstico, empresas de segurança privada e de limpezas.

Amadou, que forma um muito famoso duo de músicos cegos, com a sua mulher, Mariam, diz que apoiou a intervenção francesa no Mali “porque permite continuar a lutar pelos valores da democracia e da laicidade”
© The New York Times

Ian Birrell, que ajudou a fundar o projecto musical Africa Express (no qual Fatoumata, Ahmadou e Mariam e outros griots [“guardiões da memória”] do Mali têm participado, em concertos pelo mundo), não se admira que, “nas áreas libertadas, as pessoas tenham gritado Vive la France e festejado com a bandeira dos antigos colonizadores.”

Durante muito tempo, diz-nos, num telefonema de Londres, o ex-director-adjunto do diário The Independent e antigo autor dos discursos do primeiro-ministro britânico, David Cameron, “após o golpe militar e a ofensiva islamista, poucos no Ocidente, excepto a França, se importaram com a implosão do Mali, uma democracia corrompida.

Especulou-se que a guerra no Sahel era o legado do derrube de Khadafi na Líbia e que começara outro conflito semelhante ao do Iraque ou do Afeganistão. No entanto, o que se trava no Mali é uma guerra cultural, entre os que querem a modernidade e os que procuram impor uma teocracia.”

“Não há no mundo um país como o Mali, onde a música é parte intrínseca do tecido social e da vida política, por isso, não me espantei que tenham sido os músicos, e não políticos e generais sem escrúpulos, a posicionar-se contra os que queriam demolir séculos de tolerância do sufismo”, afirma Birrell.

“Após o fim do colonialismo, os cantores, com uma riquíssima tradição oral, usados para hinos de louvor e como mediadores, constituíram a argamassa que uniu comunidades díspares.”

“A música é uma força poderosa, mas em África é muito mais potente porque serve de protesto e esperança – Fela Kuti combateu uma ditadura militar na Nigéria e Miriam Makeba desafiou o regime de apartheid na África do Sul.”

Em Paris, fomos à sede da UNESCO, na Place de Fontenoy, tentar avaliar a destruição que os islamistas infligiram até serem despejados pelas tropas francesas. “As informações que nos chegam do terreno são assustadoras”, admite Karalyn Monteil, uma das especialistas do Centro do Património Mundial.

“Desde Maio de 2012, sobretudo em Tomboctu e Gao, repetiram-se ataques com danos brutais. Pelo menos 11 dos 16 mausoléus em Tomboctu são ruínas, dois deles na Mesquita de Djinguereber, a maior da cidade, e também o monumento de El Farouk. Em alto risco está também o Túmulo de Askia.”

Biblioteca Mamma Haidara, em Tomboctu, onde uma família do Mali compilou e preservou inúmeros manuscritos. Muitos foram pilhados, queimados ou vendidos pelos extremistas
© Xavier Rossi | inalj.com

Quanto aos manuscritos (cerca de cinco milhões só em Tomboctu), “crê-se que a maioria destes textos, desde tratados académicos a éditos religiosos, estão a salvo, mas mais de 2000 terão sido queimados, pilhados ou vendidos depois de um assalto à Biblioteca do Instituto Islâmico Ahmad Baba”, em Bamako, revela Karalyn Monteil.

“Estes compêndios de saber, de Astronomia ou Medicina, são a prova de que África já tinha uma história escrita antes da Renascença na Europa.”

“É agora maior do que nunca a urgência em obter apoios, de toda a parte e, em particular, dos países vizinhos do Mali, para garantir a preservação do que não foi aniquilado, e impedir a repetição destes crimes, incluindo o tráfico internacional, através de fronteiras porosas, que ascende a cerca de 8000 milhões de dólares por ano”, afirma Karalyn Monteil.

A ministra francesa da Cultura, Aurélie Filippetti que acompanhou o Presidente Hollande ao Mali, tal como a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova, garantiu que está já em marcha um plano, com envolvimento da União Europeia, para formar zeladores das jóias em perigo, sobretudo em Tomboctu, a milenária cidade que atraiu ilustres, como D.H. Lawrence e Leão o Africano.

Este lugar, fundado por nómadas Magcharen, por volta de 1100, foi durante dois séculos um centro importante nas rotas de sal e ouro. Quando os europeus aqui chegaram, em 1830, já estava, porém, em declínio.

Dia de mercado junto à Grande Mesquita de Djenne, cidade que a UNESCO classificou como Património da Humanidade e que foi um dos alvos dos rebeldes jihadistas. Foi outrora uma das atracções turísticas, no Norte do Mali. @ Joe Penney

Dia de mercado junto à Grande Mesquita de Djenne, cidade que a UNESCO classificou como Património da Humanidade e que se tornou num dos alvos dos rebeldes jihadistas. Foi outrora uma das atracções turísticas, no Norte do Mali
© Joe Penney

Se os manuscritos queimados “estão perdidos para sempre”, segundo Samuel Sidibé, o director do Museu Nacional do Mali, os mausoléus “ainda podem ser reconstruídos, porque há documentação sobre a sua estrutura e, sendo muitos deles de terracota, não será difícil reproduzi-los”.

Para já, diz-nos em entrevista, “a prioridade é fazer uma avaliação exaustiva e depois conceber um plano de acção que seja eficaz”. Os cálculos iniciais apontam “para a necessidade de 4 milhões de euros”.

Considerado por Karalyn Monteil, como “exemplar não apenas em África mas em todos os países onde o património está em perigo”, o Museu Nacional do Mali foi criado em 1954, refere Sidibé, mas só a partir dos anos 1980 “beneficiou do financiamento que o tornou num centro de arte, com grande profissionalismo e ambição, visível nas suas colecções e exposições, permanentes e temporárias.”

Sidibé não conhece, pessoalmente, nenhuma família que, para os proteger dos islamistas, tenha “enterrado” manuscritos que há séculos passam de mão, de pais para filhos e netos, e que têm sido “resistentes ao calor e à humidade, graças à qualidade da pele das suas capas, do papel, das cordas com que são cosidos e da tinta usada na caligrafia”.

Sabe, contudo que “muitas fizeram isso mas outras viram-se forçadas a vendê-los, para não morrerem à fome ou não serem mortas.”

“A crise no Mali”, conclui o director do museu em Bamako, “não é apenas cultural, mas a cultura deve ser usada pela comunidade internacional para nos ajudar a fomentar a coesão nacional. Não se pode apregoar a ideia de que este é um conflito intercomunitário. Somos obrigados a viver juntos. O jihadismo não é um problema local, mas uma ameaça global.”

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 19 de Abril de 2013 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 19, 2013