Os novos pacifistas do Médio Oriente

Em Setembro de 1993, Israel e a OLP surpreenderam o mundo com o reconhecimento mútuo. A primeira Declaração de Princípios fez história mas fracassou. Duas décadas depois, fomos ouvir histórias de coexistência e co-resistência, de Telavive a Latrun, onde de uma terra de ninguém se fez um “oásis de paz”. (Ler mais | Read more…)

“Não considero os meus esforços a favor da paz como um emprego", sublinha Uri Savir, 60 anos. "Acredito que uma solução de dois Estados é possível no meu tempo de vida. Sou um optimista obsessivo. Não sei o que fazer com o pessimismo.” © Udi Goren

“Não considero os meus esforços a favor da paz como um emprego”, sublinha Uri Savir, 60 anos. “Acredito que uma solução de dois Estados é possível no meu tempo de vida. Sou um optimista obsessivo. Não sei o que fazer com o pessimismo”
© Udi Goren

Uri Savir e Oslo

Sentado a uma mesa de reserva vitalícia, no popular Café Michal, na Rua Dizengoff, em Telavive, Uri Savir não esconde que é um homem ocupado. O chefe dos negociadores israelitas dos Acordos de Oslo estava a preparar a festa do 90º aniversário do Presidente Shimon Peres e a dirigir o YaLa Young Leaders, movimento no Facebook que, em dois anos, já uniu 400.000 jovens, da Argélia ao Iémen.

Aos que o inscrevem nas categorias de professional peacemaker e normalizer – epítetos usados, quase como assassínio de carácter, pelos que advogam “boicotes culturais e desinvestimento económico contra um regime de apartheid” –, Uri Savir, 60 anos, defende-se.

“Não considero os meus esforços a favor da paz como um emprego. Acredito que uma solução de dois Estados é possível no meu tempo de vida. Sou um optimista obsessivo. Não sei o que fazer com o pessimismo.”

O YaLa nasceu em Maio de 2011 a partir do Peres Center for Peace, que Savir também preside. “O maior movimento online pela paz” apresenta-se como “agente de mudança positiva, em prol da liberdade, igualdade e prosperidade”. Entre os seus muitos “padrinhos” estão a directora-geral da UNESCO, Irina Bokova e o antigo treinador de futebol do Barcelona Pep Guardiola; os vice-presidentes do Facebook, David Fischer, e da Microsoft, Dan’l Lewin.

Savir é o fundador e líder, mas quem integra o comité directivo são jovens de vários países, do Magreb ao Golfo Pérsico. Quando olha para os números que acaba de receber, o diplomata a quem Peres confiou a tarefa de “falar com o inimigo” em 1993, deixa-se extasiar: “O Egipto é o maior grupo, com 105.000 membros. Seguem-se a Argélia, Marrocos e a Tunísia. Os palestinianos totalizam mais de 23.000 e os israelitas são quase 15.000.”

“Vemos aqui o presente e o futuro da região”, acentua Savir, que parece um hippie, ostentando símbolos de paz num colar, em pulseiras, numa pregadeira com o rosto de John Lennon e a inscrição Give peace a chance.

Sobre o passado, o avô que aprendeu tudo sobre a Internet com um neto permanece comprometido com “os parâmetros de Oslo”, para assegurar “dois Estados”. O processo falhou, admite, mas nega o óbito. A “prova de vida” foi dada, em seu entender, com o reatamento das negociações sob impulso do secretário de Estado americano, John Kerry.

“Oslo foi uma conquista histórica porque o conflito deixou de ser existencial", exulta Uri Savir, que negociou os acordos. "Até 1993, os palestinianos nunca haviam reconhecido a legitimidade da existência de Israel, e Israel jamais havia reconhecido a legitimidade da identidade nacional palestiniana. Estabeleceu-se uma relação política, para o bem e para o mal.” © Udi Goren

“Oslo foi uma conquista histórica porque o conflito deixou de ser existencial”, exulta Uri Savir, que negociou os acordos. “Até 1993, os palestinianos nunca haviam reconhecido a legitimidade da existência de Israel, e Israel jamais havia reconhecido a legitimidade da identidade nacional palestiniana. Estabeleceu-se uma relação política, para o bem e para o mal”
© Udi Goren

Como é que tudo começou? Um impasse nas conversações entre árabes e israelitas em Washington, depois da Conferência de Madrid, em 1991, levou o chefe da diplomacia norueguesa, Johan Jorgen Holst, a abrir um canal secreto de negociações. Convidou um responsável da OLP, Ahmad Qurei (Abu Alaa), e dois académicos israelitas, Yair Hirschfeld and Ron Pundak.

Quando o Knesset (Parlamento) revogou uma lei de 1986 que criminalizava o diálogo com a “organização terrorista” de Yasser Arafat, Peres ofereceu-se para ir à Noruega.  O primeiro-ministro, Yitzhak Rabin, não autorizou. Foi então que Savir, director-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros tutelado por Peres, foi chamado por este a juntar-se ao grupo reunido “à beira de um lago” em Oslo.

“A ideia era manter confidencialidade, sem arbitragem internacional”, informou Savir, uma mão segurando o inseparável cachimbo, outra conferindo as mensagens recebidas no iPad e no iPhone. “Negociei  durante 3.500 horas com Abu Alaa e mais de mil com Arafat.”

Oslo foi um acordo assinado entre um Israel forte e uma OLP fraca, depois de Arafat ter sido abandonado pelos árabes por ter apoiado Saddam Hussein na invasão do Kuwait.

Os palestinianos tiveram de assumir os principais compromissos logo de início, como a renúncia da luta armada; os israelitas adiaram os seus para a etapa derradeira: fronteiras, colonatos, refugiados, Jerusalém.

“Ambas as partes aceitaram as condições”, reagiu Uri Savir. “Oslo foi uma conquista histórica porque o conflito deixou de ser existencial. Até 1993, os palestinianos nunca haviam reconhecido a legitimidade da existência de Israel, e Israel jamais havia reconhecido a legitimidade da identidade nacional palestiniana. Estabeleceu-se uma relação política, para o bem e para o mal.”

“É preciso muito tempo para chegar a uma solução, talvez mais uma década ou duas, mas isto é normal num conflito grave”, adiantou Savir. Nas transições do ódio para a coexistência, o problema está no meio, porque no meio não se obtém nada em troca. O retorno só chega no fim. O mais importante é ter coragem, e hoje falta coragem aos líderes em Israel e na Palestina. Ambas as partes estão hipnotizadas pelas narrativas do passado. Achamos que somos as únicas vítimas e que todos estão contra nós.”

O que é que Savir mudaria se Oslo fosse negociado hoje? “Teria conduzido um processo mais democrático e mais inclusivo”, responde. “Em 1993, foram as elites que se sentaram à mesa e não as sociedades. Agora, eu chamaria os jovens.” E chamou-os, para o YaLa Young Leaders.

Os jovens do YaLa

Activistas do YaLa Young Leaders - da esquerda para a direita: Sarah Ben Azera, Ranya Fadel, Megan Hallahan e Lea Ledwon, em Telavive © Udi Goren

Activistas do YaLa Young Leaders – da esquerda para a direita: Sarah Ben Azera, Ranya Fadel, Megan Hallahan e Lea Ledwon, em Telavive
© Udi Goren

Em Telavive, caminhando 5-10 minutos desde o Café Michal, o “escritório” de Uri Savir, ponto de encontro de “malta nova” atraída pela comida veggie e música indie, entramos numa sala equipada com computadores e telefones, um frigorífico e um microondas, várias cadeiras de plástico e um sofá.

Formando um rectângulo, vários jovens fixam os olhos nos monitores à sua frente. Auscultadores nos ouvidos, nem desviam o olhar para retirar das embalagens batatas fritas, bolachas e chocolates com que saciam a fome. Só se levantam para preparar chá e café, ou ir a casa de banho. Estão em linha com outros em vários pontos do Médio Oriente e Norte de África. Discutem tudo, em sinal aberto ou fechado – um dos fóruns requer registo.

Ranya Fadel, 34 anos, uma das líderes do YaLa, já sabia o que era “coexistir”. Em Daliyat al-Carmel, no Norte de Israel, onde nasceu, os Drusos, como ela, e os judeus não apenas vivem lado a lado como partilham a cidadania e servem o mesmo exército. Na sua comunidade, as mulheres comandam respeito a todos os níveis. Se forem casadas com chefes religiosos é imperativo que estes lhes ofereçam uma educação superior à deles.

Com um diagnóstico (inconclusivo) de esclerose múltipla, doença incapacitante, Ohood Murqatem perdeu o emprego em 2011, “por decréscimo de produtividade”, num ministério da Autoridade Palestiniana. Uma caixa de injecções para evitar crises que a paralisam custa, por mês, cerca de 1500 dólares. Mesmo quando não pode trabalhar, o YaLa, do qual é coordenadora em Ramallah (Cisjordânia não a deixa sem salário. @ Udi Goren

Com um diagnóstico de esclerose múltipla, doença incapacitante, Ohood Murqatem perdeu o emprego em 2011, “por decréscimo de produtividade”, num ministério da Autoridade Palestiniana. Uma caixa de injecções para evitar crises que a paralisam custa, por mês, cerca de 1500 dólares. Mesmo quando não pode trabalhar, o YaLa, do qual é coordenadora em Ramallah (Cisjordânia) não a deixa sem salário
© Udi Goren

Tal como Ranya, Ohood Murqatem, palestiniana muçulmana, nascida há 26 anos em Hebron e habitante de Ramallah, é uma mulher independente. Os pais, embora analfabetos, esforçaram-se para que os filhos tivessem formação universitária. Licenciada em Media e Televisão, foi no YaLa que a coordenadora para a Cisjordânia, juntamente com o cristão Thaer Abdallah, informático de 22 anos, descobriu o valor da palavra “solidariedade”.

Com um diagnóstico de esclerose múltipla, doença incapacitante, Ohood perdeu o emprego em 2011, “por decréscimo de produtividade”, num ministério da Autoridade Palestiniana. Uma caixa de injecções para evitar crises que a paralisam custa, por mês, cerca de 1500 dólares. Mesmo quando não pode trabalhar, o YaLa paga-lhe o salário.

A colega Megan Hallahan, que trocou a América por Israel, envolveu-se numa campanha para financiar os tratamentos e permitir que ela seja assistida “por um bom especialista”. Ohood exulta: “São a minha família!”

E desta família, onde se misturam humanidade e diversidade, também faz parte Sarah Benazera, “judia-árabe”, filha de argelinos, nascida em Paris há 30 anos. “Eu partilho a história dos muçulmanos em França, mas o anti-semitismo, numa parte da esquerda e nos filhos dos imigrantes magrebinos, obrigou a que viesse para Israel”, disse a coordenadora de blogue YaLa Cafe e de um novo projecto, YaLa Africa.

Para Sarah, que completou um mestrado em Filosofia Política na Sorbonne e viveu dois anos no deserto antes de decidir ser israelita, o YaLa “é um lugar onde cidadãos activos promovem a paz – mesmo sabendo que é morosa a transformação de inimigos em vizinhos.”

Tom Dolev, activista do movimento YaLa: “Não tenho a certeza de que ainda seja possível dois Estados. Ideologicamente, para mim, isso não é importante. Interessa-me apenas que o Estado, israelita ou/e palestiniano, seja democrático.” @ Udi Goren

Tom Dolev, activista do movimento YaLa: “Não tenho a certeza de que ainda seja possível dois Estados. Ideologicamente, para mim, isso não é importante. Interessa-me apenas que o Estado, israelita ou/e palestiniano, seja democrático”
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Tom Dolev, 27 anos, não precisou de muito tempo para entender “o outro lado”. Um dia, contou este jovem baixinho, com um duplo mestrado em Física e Cinema, e divertido como o rosto trocista de Einstein estampado na sua T-shirt, combinou um encontro em Ramallah. Primeiro, ficou espantado quando se apercebeu que podia ir até lá de autocarro.”

“Depois, assustado quando quem esperava se atrasou e um estranho se aproximou. “Pensei: ‘vai matar-me.’, mas só veio pedir emprestado um isqueiro.”

O mais bizarro aconteceu quando  a mãe telefonou a perguntar se lhe tinham roubado o cartão de crédito. “Eu tinha levantado dinheiro numa caixa ATM, e o banco ligou para minha casa porque achava impossível que um israelita tivesse feito isto na Cisjordânia.”

Um dos líderes do YaLa desde há quase dois anos, Tom é mais céptico do que Uri Savir sobre uma solução para o conflito: “Não tenho a certeza de que ainda seja possível dois Estados. Ideologicamente, para mim, isso não é importante. Interessa-me apenas que o Estado, israelita ou/e palestiniano, seja democrático.”

Bassam e Rami, dois pais enlutados

“Acho que a paz ainda é possível após o fracasso de Oslo –dois Estados, um Estado ou os Estados Unidos do Médio Oriente. A chave está no respeito – pela narrativa, história e dor de cada um", diz Rami Elhanan (à esquerda). "Não me importaria que Bassam [Aramin à direita] fosse o meu primeiro-ministro.” © Udi Goren

“Acho que a paz ainda é possível após o fracasso de Oslo – dois Estados, um Estado ou os Estados Unidos do Médio Oriente. A chave está no respeito – pela narrativa, história e dor de cada um”, diz Rami (à esquerda). “Não me importaria que Bassam [à direita] fosse o meu primeiro-ministro”
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O sol despede-se de Jerusalém e é com a chegada do crepúsculo que o palestiniano Bassam Aramin evoca o dia 16 de Janeiro de 2007, quando um soldado matou Abir, a sua filha de 14 anos. À mesma mesa, no restaurante-terraço de um hotel, está o israelita Rami Elhanan, que perdeu Smadar, a filha de 14 anos, num atentado suicida, em 4 de Setembro de 1997.

Os dois pais, que se tratam por “irmãos”, pertencem ao Parents Circle-Family Forum, que une famílias enlutadas nos dois campos do conflito. Não procuram vingança, apenas justiça. Podem vê-los no documentário Within the Eye of the Storm  (http://withineyeofstorm.com), classificado pelo Sundance Institute como “uma história única, de amor e esperança”.

“Abir atravessava a rua depois de um exame de Matemática”, conta Bassam, 45 anos. “Eram 9h30 da manhã. Não havia distúrbios em Anata, [na Cisjordânia]. Apareceu um jipe com agentes da Polícia de Fronteiras e um deles alvejou-a na cabeça. A caminho do trabalho, recebi um telefonema de Arin, a minha filha mais velha.”

“Ela chorava e gritava. Voltei para trás e vi Abir, gravemente ferida. Ficou dois dias no hospital, mas não sobreviveu. Preciso de perguntar ao assassino por que fez aquilo. Não me interessa se é judeu, druso ou beduíno. Não posso aceitar que esteja em liberdade.”

“Houve um grande julgamento e Bassam ganhou o processo civil, mas não o criminal”, interrompeu Rami. “As autoridades negligenciaram deliberadamente a investigação. Não recolheram provas. Não entrevistaram testemunhas. Por isso, o Supremo Tribunal concluiu que ‘nada pode ser confirmado’. A Polícia de Fronteiras fez tudo para que houvesse muitas dúvidas.”

Em 1993, o ano de Oslo, o pai de Abir foi libertado. “Parecia que a paz estava ao virar da esquina”, disse Bassam. “Quando vi crianças palestinianas, em Jenin, a oferecer flores a soldados israelitas, abandonei a luta armada. Não mudei o objectivo: pôr fim à ocupação. Sigo uma via diferente.” © Udi Goren

Em 1993, o ano de Oslo, o pai de Abir foi libertado. “Parecia que a paz estava ao virar da esquina”, disse Bassam. “Quando vi crianças palestinianas, em Jenin, a oferecer flores a soldados israelitas, abandonei a luta armada. Não mudei o objectivo: pôr fim à ocupação. Sigo uma via diferente”
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Bassam retoma a sua história: “Fui detido aos 17 anos, por lançar granadas contra uma patrulha do Exército. Condenaram-me a 7 anos de prisão. Aqui, pedi para ver A Lista de Schindler. Nunca tinha visto um filme sobre o Holocausto.”

“Queria ver alguém torturar e matar judeus, e sentir-me vingado. Mas bastaram alguns minutos para começar a chorar. Aquelas crianças, mulheres e velhinhos a caminho da morte, só por serem judeus… Fiquei furioso. Por que é que eles não resistiram?”

Em 1993, o ano de Oslo, o pai de Abir foi libertado. “Parecia que a paz estava ao virar da esquina”, disse. “Quando vi crianças palestinianas, em Jenin, a oferecer flores a soldados israelitas, abandonei a luta armada. Não mudei o objectivo: pôr fim à ocupação. Sigo uma via diferente.”

Em 2003, casado, com seis filhos “e sem tempo a perder”, Bassam descobriu, “atónito”, que havia refuseniks. Um dia, juntamente com outros dois antigos prisioneiros marcaram uma reunião com alguns desses israelitas que recusavam o serviço militar nos territórios ocupados.

Um ano depois, vencido “o medo uns dos outros”, criaram a organização Combatants For Peace. “Quando Abir foi morta, o meu maior apoio foi Elik, a quem mataram a irmã.”

“Não esqueço nem perdoo, mas tive de me perguntar sobre as razões que levam alguém a fazer-se explodir e a levar consigo uma menina de 14 anos", frisou Rami Elhanan. "Teria eu contribuído, de alguma forma? A resposta foi sim – porque fechamos os olhos à opressão de 3,5 milhões de palestinianos. É um pecado, e pagamos pelos pecados.” © Udi Goren

“Não esqueço nem perdoo, mas tive de me perguntar sobre as razões que levam alguém a fazer-se explodir e a levar consigo uma menina de 14 anos”, frisou Rami Elhanan. “Teria eu contribuído, de alguma forma? A resposta foi sim – porque fechamos os olhos à opressão de 3,5 milhões de palestinianos. É um pecado, e pagamos pelos pecados”
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Elik é um dos filhos de Rami, 63 anos. “A morte da minha filha deixou Israel em estado de choque, porque ela é neta do defunto ‘general da paz’, Matti Peled”, salientou o designer gráfico que combateu em três guerras (1967, 1973 e 1982). “Smadar, nome inspirado no Cântico de Salomão, com o significado de ‘fruto da vinha’, foi morta por um bombista suicida na Rua Ben Yehuda, em Jerusalém.”

“Eu ia a caminho do aeroporto de Telavive quando recebi uma chamada da minha mulher [Nurit Peled-Elhanan, Prémio Sakharov 2001], dizendo que Smadar estava desaparecida. Procurámos por ela de hospital em hospital; de esquadra em esquadra, até irmos à morgue. Tudo mudou naquele instante. Eu vivia numa bolha de vidro, e a bolha rebentou-me na cara.”

“Não esqueço nem perdoo”, frisou Rami, “mas tive de me perguntar sobre as razões que levam alguém a fazer-se explodir e a levar consigo uma menina de 14 anos. Teria eu contribuído, de alguma forma? A resposta foi sim – porque fechamos os olhos à opressão de 3,5 milhões de palestinianos. É um pecado, e pagamos pelos pecados.”

Foi Ytzhak Frankenthal, principal fundador do Parents Circle-Families Forum (PCFF) em 1995, quem convenceu Rami a juntar-se ao ao grupo, em 1998. “Assisti à primeira reunião com relutância, até ver famílias palestinianas que se dirigiam a mim, me abraçavam e choravam comigo. Até ali, os palestinianos eram apenas operários e terroristas – não seres humanos. Foi o ponto de viragem na minha vida.”

“Acho que a paz ainda é possível após o fracasso de Oslo –dois Estados, um Estado ou os Estados Unidos do Médio Oriente. A chave está no respeito – pela narrativa, história e dor de cada um. Não me importaria que Bassam fosse o meu primeiro-ministro.”

E ambos ficam a olhar para as fotos de Abir e Smadar no ecrã do telemóvel de Rami.

Sulha Project no Oásis da Paz

Anat Shuhman, que primeiro ponderou ser refusenik, diz a Noor que aceitou fazer “serviço cívico” para perceber “por que é preciso sacrificar três anos de vida no Exército”. Enquanto a palestiniana lhe afaga os longos cabelos vermelhos, a garota que vive no colonato, “apenas porque a renda de casa é mais barata”, adapta uma citação, de autor que não recorda, para resumir a missão de ambas: “Todas as mudanças começam com uma minoria que muitos consideram loucos, mas serão loucos a mudar o mundo.” © Udi Goren

Anat Shuhman, que primeiro ponderou ser refusenik, diz a Noor que aceitou fazer “serviço cívico” para perceber “por que é preciso sacrificar três anos de vida no Exército”. Enquanto a palestiniana lhe afaga os longos cabelos vermelhos, a garota que vive no colonato, “apenas porque a renda de casa é mais barata”, resumie a missão de ambas: “Todas as mudanças começam com uma minoria que muitos consideram loucos, mas serão loucos a mudar o mundo”
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Anat Shuhman é uma ruiva judia, filha de imigrantes russófonos que serve no Exército israelita e vive num dos primeiros colonatos, Ma’ale Adumin, nos arredores de Jerusalém. Noor Assi é uma morena muçulmana que reside em Kfar Bara, uma de três aldeias árabes no “Pequeno Triângulo da Linha Verde” que políticos extremistas querem transferir para um eventual Estado palestiniano em troca da anexação da Cisjordânia.

Ambas com 19 anos, Noor e Anat têm tudo, segundo os estereótipos no Médio Oriente, para serem inimigas, mas o Sulha Peace Project transformou-as em “melhores amigas”.

Os responsáveis por este afecto são um antigo comandante militar, Elad Vazana, e uma professora palestiniana, Nibal Raj. Ele ajudou a fundar o projecto; ela e a israelita Dafna Karta Schwartz são directoras.

Foi no auge da Segunda Intifada em 2000 que nasceu o Sulha. O nome deriva de um ritual de reconciliação entre os beduínos quando procuram pôr fim a contendas por vezes sangrentas. As tribos desavindas recorrem a uma terceira parte e marcam um ponto de encontro. Sentam-se em círculo, saboreiam a mesma refeição, bebem chá e café, indemnizam os queixosos e perdoam-se mutuamente.

Conhecemos Noor e Anat no “Oásis da Paz”: Neve Shalom, em hebraico; Wahat al-Salam, em árabe, são os dois nomes oficiais de uma “aldeia cooperativa binacional” com menos de 250 habitantes e 60 famílias, a meio caminho entre Telavive e Jerusalém.

Nibal Raj, palestiniana, 42 anos, viúva, uma só filha, formada em Sociologia da Educação, co-directora do Sulha Project, com a israelita Dafna Schwartz: “Às sextas-feiras, os soldados só nos deixam passar no checkpoint de Qalandiya - na foto - , que ela atravessa diariamente] depois das orações nas mesquitas em Jerusalém. Os militares têm medo da violência que escape ao seu controlo, e estão confusos. Não nos conhecem. É difícil destruir o muro interior que nos divide.” © Udi Goren

Nibal Raj, palestiniana, 42 anos, viúva, uma só filha, formada em Sociologia da Educação, co-directora do Sulha Project, com a israelita Dafna Schwartz: “Às sextas-feiras, os soldados só nos deixam passar no checkpoint de Qalandiya – na foto – , que ela atravessa diariamente] depois das orações nas mesquitas em Jerusalém. Os militares têm medo da violência que escape ao seu controlo, e estão confusos. Não nos conhecem. É difícil destruir o muro interior que nos divide”
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Este é o sonho  ecuménico tornado realidade, em 1970, pelo frade dominicano Bruno Hussar (1911-1956), judeu egípcio que se converteu ao Catolicismo quando estudava Engenharia em França e a quem Israel concedeu cidadania em 1956.

Os 40 hectares que o Mosteiro de Latrun alugou a Hussar, para “quebrar as barreiras do medo, construir pontes de confiança – e se possível amizade”, como escreveu na autobiografia, When the Cloud Lifted, estavam classificados como “terra de ninguém”. Hoje, a melhor descrição da comunidade nomeada quatro vezes para o Prémio Nobel da Paz seria “Jardim do Paraíso”.

Um encontro do Sulha Project estava marcado para uma sexta-feira de manhã em Beit Dumia/Bayt Sakinah (Casa do Silêncio), uma das três escolas da aldeia. Elad foi até ao checkpoint de Qalandiya para trazer Nibal.

O Exército não a deixou entrar em Jerusalém, vinda de Ramallah. Ela tem um bilhete de identidade israelita, porque nasceu em Lod, cidade mista, mas só evitaria o posto de controlo se viesse de carro, e não sabe conduzir.

Numa posterior conversa, por Skype, quando perguntamos por que insiste em fazer parte do projecto vivendo sob ocupação, Nibal, 42 anos, viúva, uma só filha, formada em Sociologia da Educação, explica: “Às sextas-feiras só nos deixam passar depois das orações nas mesquitas em Jerusalém. Os militares têm medo da violência que escape ao seu controlo, e estão confusos. Não nos conhecem. É difícil destruir o muro interior que nos divide.”

Dafna Schwartz e Elad Vazana, dois israelitas que dinamizam o Sulha Project, numa das reuniões em Neve Shalom; ele é um antigo comandante do Exército e foi um dos fundadores; ela é agora co-directora e tem uma filha a cumprir o serviço militar. Também esta faz parte deste movimento que ajuda a "entender a humanidade nos dois campos". © Udi Goren

Dafna Schwartz e Elad Vazana, dois israelitas que dinamizam o Sulha Project, numa das reuniões em Neve Shalom; ele é um antigo comandante do Exército e foi um dos fundadores; ela é agora co-directora e tem uma filha a cumprir o serviço militar. Também esta faz parte deste movimento que ajuda a “entender a humanidade nos dois campos”
© Udi Goren

Influenciada por Nibal e Elad, que enviou um e-mail para a sua aldeia a convidar jovens, Noor Assi aderiu ao Sulha Project em Abril último. “Sempre me interessei pela coexistência”, explicou a jovem que usa o hijab (lenço), sinal de devoção religiosa.

Mais de 90% dos cerca de 3000 habitantes de Kfar Bara são muçulmanos, e o partido dominante (e legal) é o Movimento Islâmico de Israel. “No primeiro encontro, estava nervosa”, disse Noor.

“Porque era muita gente junta durante quatro dias, não por ter de conviver com judeus. Ironicamente, conheço mais judeus do que palestinianos da Cisjordânia e de Gaza. Fiquei maravilhada com a experiência, porque as pessoas dizem mesmo o que sentem. Não camuflam a realidade. Sem falarmos de política, sentimo-nos próximos e não estranhos.”

Nem todos, no seu círculo familiar e de amigos, aceitam que Noor, aspirante a assistente social, esteja presente em actividades como “fogos tribais”, onde se canta e dança. Aconselham-na a desistir.

“Mantenho a chama acesa”, rejubila, para logo acrescentar: “Não é fácil. Como árabe de 1948 [os que ficaram após a criação de Israel] a minha situação é complexa. Em Israel, sou desprezada como ‘terrorista’; na Palestina, sou rejeitada como ‘israelita’.”

Anat Shuhman, que primeiro ponderou ser refusenik, diz a Noor que aceitou fazer “serviço cívico” para perceber “por que é preciso sacrificar três anos de vida no Exército”.

Enquanto a palestiniana lhe afaga os longos cabelos vermelhos, a garota que vive no colonato – “apenas porque a renda de casa é mais barata” – adapta uma citação, de autor que não recorda, para resumir a missão de ambas: “Todas as mudanças começam com uma minoria que muitos consideram loucos, mas serão loucos a mudar o mundo.”

Em Bi'lin, na Cisjordânia ocupada, todas as sextas-feiras, israelitas, palestinianos e outros activistas internacionais enfrentam soldados e colonos judeus. De um lado pedras; do outro gás lacrimogéneo, cartuchos de pólvora seca, balas de borracha e, ocasionalmente, munições reais. Esta a é a terra-natal de Emad Burnat, o cineasta nomeado para um Óscar, em 2013, com o documentário 5 broken Cameras, baseado nesta "luta pela existência". @Udi Goren

Em Bi’lin, na Cisjordânia ocupada, todas as sextas-feiras, israelitas, palestinianos e outros activistas internacionais enfrentam soldados e colonos judeus. De um lado, lançam-se pedras, num acto de protesto contra a expropriação de terras para expandir colonatos e alargar o “muro de separação”; do outro, disparam-se granadas de gás lacrimogéneo, cartuchos de pólvora seca, balas de borracha e, ocasionalmente, munições reais. Esta a é a terra-natal de Emad Burnat, o cineasta nomeado para um Óscar, em 2013, com o documentário 5 broken Cameras
@Udi Goren

Este artigo, aqui na íntegra e revisto, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 21 de Setembro de 2013 | This article, here the uncut and updated version, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on September 21, 2013

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