A vergonha escondida da Humanidade

Sabe de onde provêm muitas das decorações e os chocolates que iluminaram e adoçaram o seu Natal? Talvez da Índia e Costa do Marfim, onde crianças trabalham como escravos. Sobre este drama, entrevistámos Kailash Satyarthi, um dos dois laureados com o Prémio Nobel da Paz 2014, e Ayn Riggs, fundadora da ONG Slave Free Chocolate. (Ler mais | read more…)

Kailash Satyarthi diz que salvou “83.500 crianças” desde que, há quase três décadas, abandonou uma carreira bem sucedida como engenheiro electrotécnico para combater o tráfico, o trabalho forçado e a escravatura na infância.

Pergunte-se qual destas histórias mais o marcou e o indiano que dividiu o Prémio Nobel da Paz 2014 com a paquistanesa Malala Yousafzai evoca o seu primeiro dia de aulas.

“Tinha 5 ou 6 anos quando vi um menino da minha idade a engraxar sapatos na escadaria da escola”, conta Satyarthi, numa entrevista, por telefone, concedida em vésperas de uma campanha global sem precedentes para convencer a ONU a inscrever nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável a abolição da escravatura infantil.

A End Child Slavery Week decorreu de 20 a 26 de Novembro de 2014, em várias cidades do mundo.

“Fiquei chocado com o que vi”, lembra Satyarthi, um homem simples e generoso que tenta sempre responder às inúmeras mensagens enviadas para o seu endereço electrónico e telemóvel – acessíveis a todos. “Eu ia aprender ideias novas, e ali estava uma criança a trabalhar.”

“Contei isto ao meu professor e ele não se comoveu: ‘É gente pobre. Nada de novo.’ Senti-me desconfortável, e até furioso. Fui falar com o pai do menino, que parecia também conformado. Mas eu não.”

“Perguntei-me: ‘Por que é que algumas pessoas têm direito à educação e outras têm de desistir dos seus sonhos?’ Foi esta a primeira inspiração para a organização que dirijo.”

A organização, Bachpan Bachao Andolan (BBA, Movimento para Salvar a Infância), foi fundada, em 1980, quando Satyarthi tinha 26 anos. Além de crianças, o activista que tem dois filhos, tem resgatado também mulheres em risco, embora a sua missão dê prioridade aos menores vítimas de todo o tipo de abusos – da servidão doméstica ao recrutamento para conflitos armados.

“Salvar crianças é o que eu faço todos os dias”, afirma Satyarthi, com orgulho incontido. “Continuo a liderar, pessoalmente, milhares de operações para resgatar crianças. Às vezes somos contactados pelos pais, denunciando que os filhos são escravos.”

“Outras vezes obtemos essas informações por parte dos media. A nossa estratégia passa por delinear um plano, concertar as acções com várias organizações e autoridades, incluindo o Ministério do Trabalho, a Polícia e magistrados, porque estamos a lidar com situações de ilegalidade.”

“Depois, vamos buscar as crianças para as devolver às famílias. Neste processo, enfrentamos as máfias e outros criminosos. É indispensável usarmos o sistema legal, embora também utilizemos outros recursos, como centros de reabilitação, para que as crianças libertadas possam realmente recuperar a sua liberdade.”

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Desde 2001, a BBA transformou em “santuários” mais de 355 aldeias em 11 estados da Índia. “Eu olho para o sofrimento destas crianças, algumas retiradas aos seus pais, como um crime grave contra a humanidade”, sublinha o Nobel.

“Muitas delas não têm família ou as suas próprias famílias são escravas. Na maioria dos casos, são órfãos. São vítimas.”

O aumento da escravatura, de adultos e crianças, foi constatado pela Walk Free Foundation (WFF), com sede na Austrália, que no recém-divulgado The Global Slavery Index 2014, calcula em 35,8 milhões o número de escravos em 167 países – a Índia de Satyarthi no topo da lista (14,29 milhões). Isto representa um aumento de 20% em relação aos 29,8 milhões registados em 2013.

“Há 15-25 anos, o número de crianças a fazer trabalho infantil era de 250 milhões e agora desceu para 168 milhões”, especifica Satyarthi. “No que diz respeito a crianças escravas, o número era de 5,5 milhões, há 15 anos, mas segundo a Organização Internacional do Trabalho já subiu, em 2013, para 8,4 milhões. Isto é muito grave!”

“O trabalho infantil é a negação dos direitos das crianças e da sua infância, da sua educação, mas precisamos de nos concentrar mais na escravatura infantil, nos aspectos que continuam a não merecer a atenção devida”, sublinha o activista.

“São necessárias mais leis no Direito Criminal internacional. A escravatura infantil tem de acabar AGORA! Muitas crianças são obrigadas a trabalhar devido a situações económicas degradantes. Nesta condição, são abusadas a vários níveis: fisicamente; não podendo deixar os lugares onde trabalham… A escravatura é muito pior do que o trabalho infantil. Precisam de ser libertadas imediatamente – é uma emergência.”

“Não pode haver compromissos”, frisa. “Em qualquer país civilizado, a escravatura infantil é o crime mais hediondo. As crianças não têm um mínimo de liberdade. Sozinhas, facilmente são apanhadas por traficantes que as usam, por exemplo, em redes de prostituição.”

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Alguns dos números mais chocantes recolhidos pela Global March Against Child Labour, conglomerado a que preside Satyarthi e que reúne mais de 2000 associações em 140 países, dizem respeito precisamente à prostituição infantil na Índia. Aqui, “3,6 milhões de crianças” estão registadas como vítimas de trabalhos forçados em centenas de bordéis.

“Meninas, entre os 14 e 16 anos, são vendidas a preços mais elevados porque ‘podem’ trabalhar durante mais horas do que mulheres mais velhas. A exploração sexual no país rende o equivalente a 343 milhões de dólares anuais, ou seja 2,4 milhões por cada bordel.”

Uma das operações mais mediáticas que envolveu a Global March ocorreu numa madrugada de 2012. Catorze crianças forçadas a trabalhar quase 15 horas por dia, para satisfazer a procura de adereços de Natal, um negócio multimilionário de exportações para a Europa e América, foram libertadas do esconderijo onde eram mantidas como escravas. Duas delas tinham 8 anos de idade.

Maltratadas e malnutridas, estavam aprisionadas em quartos trancados, sem luz nem ar fresco. A maioria tinha ferimentos graves devido ao uso de vidro para confeccionar as decorações natalícias, mas também por serem agredidas pelos seus “donos”, que as “compraram” através de “intermediários”.

Os traficantes tinham sido avisados previamente de que haveria uma rusga e fecharam 12 das crianças num compartimento exíguo, de 2X2 metros. Agentes da polícia quebraram as correntes da porta e, uma vez livres, Satyarthi encaminhou-as para centros de apoio.

“A escravatura infantil não é apenas ‘a vergonha escondida’ da Índia, mas de toda a Humanidade”, acautela Satyarthi. “É um problema que existe noutros países na Ásia, na África e até na América.”

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Na África Ocidental, em particular, de onde é originário 70% do cacau mundial, um dos Estados onde mais se pratica a “escravatura moderna” é a Costa do Marfim, o maior produtor da principal matéria-prima do chocolate.

Para responsabilizar uma indústria avaliada em 110 mil milhões de dólares/ano, uma mãe de duas filhas, Ayn Riggs, criou a ONG Slave Free Chocolate.

“Pensávamos ter resolvido este problema quando o Protocolo Harkin-Engel foi assinado por todos os principais produtores e importadores de cacau, em 2001, com vista à introdução do selo de garantia No Child Slavery e, assim, contribuir para o fim do trabalho infantil forçado”, refere Ayn Riggs, numa entrevista que nos deu via Skype. “Infelizmente, pouco ou nada mudou.”

“Nos anos 1960”, explica a activista norte-americana, “a Costa do Marfim tinha um Presidente que encorajou o cultivo do cacau para diminuir a pobreza. Infelizmente, os preços não sobem há mais de 30 anos e o sustento das famílias é mínimo, obrigando-as a usar os filhos ou crianças escravos, sobretudo vindas do Mali e do Burkina Faso.”

“A situação destas crianças é terrível, porque muitas delas trabalham com materiais perigosos, como pesticidas”, refere Ayn Riggs. “Isoladas de tudo, têm acesso a clínicas para primeiros socorros. Não vão à escola. Os fabricantes de chocolate já admitiram que há escravatura infantil mas alegam que não têm culpa.”

“A Cadbury, por exemplo, investe 1,5 milhões de dólares em máquinas de relações públicas que, à semelhança de outros grupos, dificultam acções judiciais. Deveria haver maior mobilização. O mundo está mais atento desde que se fez um filme sobre os diamantes de sangue.”

Apesar de tudo, Ayn Riggs destaca o que considera um marco histórico na luta contra a escravatura infantil: a deliberação, em Setembro de 2014, de um tribunal de apelo nos EUA de permitir um processo-crime contra a Nestlé, a ADM e a Cargill. O juiz considerou que, “com o objectivo de reduzirem custos de todas as formas possíveis”, aqueles fabricantes “toleram e facilitam a escravatura infantil nas plantações de cacau da Costa do Marfim”.

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O processo foi instaurado em 2005 por três indivíduos do Mali, identificados apenas como “John Doe I, I e III”. Alegam terem sido vítimas de traficantes que os levaram para a Costa do Marfim nos anos 1990, forçados a trabalhar “14 horas por dia” no corte dos frutos do cacau, secagem, embalagem e transporte.

Contaram que algumas crianças que tentavam fugir eram obrigadas a beber urina. A outras seriam esquartejados os pés.

Ayin Riggs não defende boicotes, nem aos produtores de cacau (40-50 milhões de pessoas a nível mundial) nem aos fabricantes de chocolate, porque considera isso contraproducente. A formação de cooperativas pode ser uma alternativa, admite, mas também não as vê capazes de criarem infra-estruturas nem obter financiamento suficiente para retirar “cerca de 1,8 milhões de crianças” dos campos e colocá-las em escolas.

“A solução passa sempre pelo Protocolo Harkin-Engel, o único que pode aplicar práticas de comércio justo. Para acabar com a escravatura, a indústria do chocolate deveria pagar dez vezes mais do que os preços que actualmente pratica” – cada produtor ganha cerca de 80 cêntimos por dia.

Em Novembro de 2014, os gigantes Mars Inc. e Barry Callebaut anunciaram que “o consumo de chocolate irá exceder, até 2020, o fornecimento de cacau, gerando um fosso entre a oferta e a procura de um milhão de toneladas métricas”. Que impacto desta “escassez” no trabalho escravo?

Ayn Riggs não exclui a possibilidade de mais produtores de cacau – na Costa do Marfim, eles representam 40% da população, distribuídos por 800 mil plantações em 18 mil comunidades – desistirem desta actividade.

Ou porque condições atmosféricas adversas aumentam as doenças que afectam árvores já envelhecidas ou porque eles próprios não suportam a pressão dos compradores para baixar os preços.

Alguns estão a trocar o cacau pela borracha, na esperança de que seja um labor mais lucrativo. A fundadora do Slave Free Chocolate teme, porém, que a escravatura infantil se transfira para aqui.

Além disso, nota que a indústria do chocolate está a incentivar a produção noutros países, como a Indonésia, onde as crianças também não estão a salvo dos traficantes.

Por esta ser uma luta inacabada, Kailash Satyarthi não desiste de exigir à ONU a abolição da escravatura infantil. Até lá, espera que o seu Nobel da Paz ajude a despertar mais consciências. “Este prémio não é meu, mas de milhões de crianças desprotegidas.”

Kailash Satyarthi, Prémio Nobel da Paz 2014 pela sua luta contra a escravatura e o trabalho infantil © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Kailash Satyarthi, Prémio Nobel da Paz 2014 pela luta contra a escravatura e o trabalho infantil

Ayn Riggs, fundadora e director executiva da ONG Slave Free Chocolate © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ayn Riggs, fundadora e director executiva da ONG Slave Free Chocolate

Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Janeiro de 2015 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese magazine ALÉM-MAR, January 2015 edition

A woman’s world

O Presidente Recep Tayyip Erdogan declarou que “é preciso equivalência e não igualdade entre homens e mulheres”, mas a Turquia tem uma embaixadora em Lisboa. Nos Emirados Árabes Unidos, as mulheres ainda precisam de um guardião masculino, mas é uma sheika que representa o país em Portugal. O Paquistão enviou, nos últimos 20 anos, quatro embaixadoras para a capital portuguesa. E as que estão aqui colocadas são também as mais altas representantes diplomáticas da Argélia, da Tunísia e de Marrocos. O principal impulsionador desta mudança é um crescente investimento na educação. Fui ao encontro de Fatiha Selmane, Karima Benyaich, Leena Salim Moazzam e Saloua Bahri, diplomatas de carreira que marcam a diferença num mundo muçulmano que não é monolítico e é tantas vezes incompreendido. O poder destas embaixadoras não é meramente protocolar. As suas vidas, pessoais e profissionais, mudam a história dos seus países. * (Ler mais | Read more…)

This is a man’s world

This is a man’s world

But it would be nothing, nothing

Without a woman or a girl

(James Brown)

 Karima Benyaich

“Não houve mudança de regime em Marrocos mas houve uma evolução”
Embaixadora de Maroocos, Karima Benyaich Cortsia de | Courtesy of Pedro Bettencourt

Karima Benyaich, embaixadora de Marrocos
© Pedro Bettencourt

Há uma lágrima que ofusca momentaneamente um sorriso luminoso quando Karima Benyaich recorda o dia em que o pai, médico pessoal do Rei Hassan II, foi assassinado durante uma tentativa de golpe de Estado, em 13 de Julho de 1971.

“Eu tinha apenas 10 anos; é difícil não me emocionar”, diz a embaixadora de Marrocos, uma mão enxugando o rosto, a outra ajustando o gracioso caftan branco, bordados dourados a condizer com uma requintada pulseira que herdou da mãe.

“Tínhamos uma casa de praia perto do palácio de Verão de Skhirat. Saímos de manhã para ir ao cabeleireiro porque tínhamos um jantar. Ouvimos tiros mas pensávamos que era uma festa, até notarmos que havia muitos militares e que as ruas estavam fechadas. Fomos obrigados a fugir à pressa para Rabat [a capital], que ficava a 30 quilómetros de distância. Receávamos que nos matassem. “

“À meia-noite, o rei anunciou que perdera o seu médico. Nesse dia perdi também a minha inocência. Como filha mais velha, assumi a responsabilidade de ajudar a mãe, que se sentia perdida, por ser estrangeira.” Carmen, viúva de Fadel Benyaich, é espanhola, de Granada. Passou a chamar-se Karima quando se converteu ao Islão.

No dia golpe, Hassan II (1929-1999) preparava uma grande recepção para celebrar o seu 42º aniversário. Cerca de 250 soldados, a maioria da escola de cadetes de Ahermoumou, tomaram de assalto o palácio. Surpreendido pelos rebeldes, o rei foi implacável. Menos de 72 horas depois, sem julgamento, dez oficiais – quatro generais, cinco coronéis e um major – foram executados por um pelotão de fuzilamento.

Após a morte do pai, Karima e os três irmãos ingressaram a tempo inteiro no Colégio Real de Rabat, frequentada pelos príncipes. “Estudávamos das 7 da manhã às 8 da noite. Era uma educação rígida, com muita disciplina, mas o melhor investimento é a educação, e foi a educação que contribuiu para mudar a vida das mulheres marroquinas.”

O motor que “acelerou a história” foi o herdeiro do trono, Mohammed VI, amigo e colega de Karima. Foi ele que, em 2008, a enviou para Lisboa, o seu primeiro posto como embaixadora. E foi ele quem nomeou como embaixador em Madrid o irmão, Fadel Benyaich (homónimo do pai), em Fevereiro de 2014.

Não é de estranhar, pois, que nos salões da residência oficial, adornados com belíssimos zelliges, azulejos de padrões geométricos e multicoloridos típicos da arquitectura marroquina, fotos do filho-sucessor de Hassan II estejam presentes em quase todos os recantos.

“Sua Majestade sempre se mostrou interessado em aplicar reformas”, garante Karima, exprimindo-se num português fluente, prova de que seguiu o seu próprio lema: “é importante aprender a língua do país onde se vive e trabalha para o conhecer melhor”. Há obstáculos, admite, mas também progressos. “Basta olhar para Portugal e ver que há quatro embaixadoras de países árabes: Marrocos, Tunísia, Argélia e Emirados. Há dez anos isto seria impossível! Acima de tudo, é indispensável que haja vontade política.”

“Em Marrocos, foi aprovado, em 2004, o Código da Família [Moudawana], que assegurou igualdade de direitos, em particular no casamento e no divórcio”, destaca Karima. “Também foi aprovado o Código da Nacionalidade, que permite às mulheres casadas com estrangeiros conferir aos seus filhos a nacionalidade marroquina. No mundo árabe e muçulmano, somos o único país onde uma mulher preside à Confederação dos Empresários. Temos mulheres médicas, juízes, pilotos de aviação… No Ministério dos Negócios Estrangeiros, 40% dos funcionários são mulheres – e aqui os salários são iguais.”

“O Ocidente precisa de entender que o mundo árabe não é monolítico”, recomenda a embaixadora. “Cada país tem a sua história e os seus processos. Em Marrocos, depois da independência (1956), a partir de 1963, o rei Hassan II aboliu o partido único. É verdade que voltámos atrás com dois golpes militares [em 1971 e 1972] porque o Exército queria uma ditadura como outras na região.”

“Em 2011, coincidindo com a ‘Primavera Árabe’, houve manifestações e reivindicações legítimas em Marrocos, sobretudo da juventude que enfrenta um elevado desemprego. O rei respondeu, a 9 de Março, com um projecto de reforma constitucional, envolvendo partidos, sindicatos, ONG e outros. E assim se procedeu à quinta revisão constitucional. Somos um país apegado às tradições mas também virado para a modernidade. Não houve uma mudança de regime, não houve uma revolução, mas houve uma evolução.”

Outro motivo de orgulho para a embaixadora que nasceu na cidade de Tetuão, no Noroeste, onde segundo os últimos censos 1/5 dos mais de 320 mil habitantes são judeus, é definição constitucional do reino. “Somos um país aberto e tolerante, com influências distintas: africano, árabe, muçulmano, mediterrânico, atlântico e hebraico.”

Sobre o seu cargo, a mulher que ajudou a solidificar uma parceria estratégica entre Marrocos e Portugal sublinha: “Não é um função decorativa! É um privilégio representar o meu país – que tem 12 mulheres embaixadoras [Portugal tem nove no serviço activo]–, e também conhecer os actores políticos, económicos e culturais da sociedade portuguesa. O objectivo é criar pontes. Somos vizinhos e a capital mais próxima de Lisboa é Rabat.”

Leena Salim Moazzam

“No Paquistão, as mulheres são educadas para serem excepcionais”
Leena Salim Moazzam. embaixadora do Paquistão Cortesia de | Courtesy of © Pedro Bettencourt

Leena Salim Moazzam, embaixadora do Paquistão
© Pedro Bettencourt

Se pudesse, Leena Salim Moazzam teria viajado para Portugal com as montanhas do Paquistão, que constituem 1/3 do território. Mas se os muitos picos e cordilheiras do seu país não cabiam na bagagem a embaixadora conseguiu transportar até aqui algumas memórias desses lugares.

Uma dessas recordações, exposta numa parede central da residência em Lisboa, “veio da confluência montanhosa do Hindu Kush, onde Alexandre o Grande parou”, indica. É um shushut, pedaço de tecido ornamentado com búzios, botões e missangas, que as mulheres Kalash usam em forma de coroa, fazendo-a deslizar pelas costas como um véu.

Descritos por viajantes e antropólogos como “povo em vias de extinção”, os Kalash são pagãos de origem indo-europeia. Durante anos especulou-se que eram descendentes de Alexandre, cujo exército invadiu a região no século IV a.C., mas nunca foram apresentadas provas. Recentemente, porém, geneticistas citados pelo jornal The New York Times anunciaram ter encontrado ADN que parece indicar “uma infusão de sangue europeu” durante a época das conquistas do general macedónio.

O Paquistão é menos conhecido pelos Kalash, que contam com alguma protecção das autoridades, e mais pelos Taliban, os extremistas que, na fronteira com o Afeganistão, os perseguem como takfir (infiéis) por se recusarem a ser muçulmanos. Leena Moazzam, que antes de enveredar pelo serviço diplomático e se casar (o marido é embaixador na Holanda) participava em manifestações de rua do Fórum da Acção das Mulheres, deplora que o seu país seja “visto à luz do fundamentalismo islâmico”.

“Já perdemos mais vidas na guerra contra o terror do que nas guerras com a Índia”, lamenta a diplomata. “A invasão soviética do Afeganistão deixou para trás a ‘cultura da Kalashnikov’, afectando três áreas importantes, Peshawar, Quetta e Carachi. Hoje, a Europa vê-se ameaçada pelo chamado ‘Estado Islâmico’ mas o Paquistão há mais de 30 anos que sofre com o terrorismo.”

Para mudar a imagem negativa que outros construíram, Leena Moazzam, nascida na região montanhosa de Murree, a antiga capital de Verão da província do Punjab, quando o subcontinente era britânico, conta agora com ajuda de uma menina que estuda na cidade inglesa de Birmingham.

Malala Yousafzai ganhou o Prémio Nobel da Paz 2014 [dividido com o indiano Kailash Satyarthi] porque promove a educação”, diz a embaixadora, elegante no seu shalwar kameez, conjunto de túnica e calças tradicional. “Orgulhamo-nos muito que ela seja paquistanesa, e estamos a contribuir com donativos para a sua fundação. Na nossa região, as mulheres são educadas para serem excepcionais: antes de outros Estados, o Paquistão, a Índia e o Bangladesh tiveram primeiras-ministras”, e outras mulheres continuam a exercer cargos de poder”.

“Se Malala é famosa, há outra celebridade que pode também ajudar no nosso esforço de filantropia: Cristiano Ronaldo”, revela a diplomata, a sua alegria exuberante partilhada pela mãe, exímia jogadora de bridge, e pela filha, talentosa designer, recém-chegadas de Islamabad. “As bolas com que Ronaldo joga são fabricadas no Paquistão. Quero convidá-lo para uma visita, promover a sua marca, CR7 e organizar, com ele, uma cerimónia de angariação de fundos.”

Saloua Bahri

“A Tunísia é o único Estado árabe que oferece igualdade entre homens e mulheres” 
Saloua Bahri, embaixadora da Tunísia Cortesia de | Courtesy of © Pedro Bettencourt

Saloua Bahri, embaixadora da Tunísia
© Pedro Bettencourt

Saloua Bahri não se surpreendeu quando, em Janeiro de 2011, Zine El Abidine Ben Ali foi forçado a demitir-se, após um mês de protestos que se seguiram à imolação pelo fogo de um vendedor de rua, Mohamed Bouazizi.

“A situação era muito difícil, política e economicamente”, justifica a embaixadora da Tunísia. “O Presidente já estava no quarto mandato, aumentava a corrupção na família da sua mulher, a crise económica acentuava-se e o povo revoltou-se.”

“Na altura, eu era embaixadora na Roménia, e lembro-me que ficava perturbada quando me falavam em direitos humanos, porque sabia que não havia liberdade”, confessa a diplomata que, em criança, sonhava ser juiz.

“Era necessária uma revolução para completar a nossa história de sucesso. Hoje, sinto-me muito satisfeita porque temos um país moderno e desenvolvido. Há liberdade de expressão e de consciência. Há uma nova Constituição que garante a igualdade entre mulheres e homens – não há nenhum Estado árabe com este estatuto. E, na Europa, só os nórdicos se podem comparar à Tunísia.”

“É um orgulho dizer que nasci num país com 3000 anos de civilização, mas não tem sido fácil”, admite Saloua Bahri. A caminhada pessoal seria mais penosa, reconhece, sem o apoio do marido, um médico na reforma, e da mãe, professora jubilada que a ajudou a criar os filhos. “É como se vivesse um tsunami, de altos e baixos, mas finalmente chegámos a um consenso. Mesmo que haja discórdia continuará a haver diálogo”.

Nas eleições legislativas, em Outubro [de 2014], os islamistas do partido Ennahda foram derrotados pelos laicos do Nidaa Tounes, que ocupará 85 dos 217 lugares da Assembleia dos Representantes do Povo. Na primeira volta das presidenciais, em Novembro, nenhum dos candidatos obteve maioria. Uma segunda volta, entre Moncef Marzouki, chefe de Estado cessante, e Beji Caid Essebsi, candidato do Nidaa Tounes, [estava] marcada para 28 de Dezembro.

[Essebi, que foi presidente do Parlamento sob a liderança de Ben Ali, venceria com 55,6% dos votos, contra 44,3% de Marzouki. Na tomada de posse, prometeu aos tunisinos que a sua principal missão é fomentar a ‘reconciliação nacional’.]

“As eleições têm corrido bem, mas são mais um desafio”, exulta a embaixadora, enquanto acaricia o medalhão de filigrana que lhe enfeita o pescoço, e funciona, para os mais supersticiosos, como espanta-espíritos. “É certo que, na Tunísia, a sociedade civil é o grande regulador da democracia e vivo estes momentos com um sentimento positivo. No entanto, movemo-nos num contexto internacional, e nem sempre o destino é definido por nós.”

Fatiha Selmane

“A educação deu às mulheres na Argélia a liberdade de escolherem a sua vida”
Fatiha Selmane, Embaixadora da Argélia Cortesia de | Courtesy of © Pedro Bettencourt

Fatiha Selmane, embaixadora da Argélia
© Pedro Bettencourt

Na sala de visitas de Fatiha Selmane, o presente e o passado misturam-se. De um lado está a foto do Presidente Abdelaziz Bouteflika e dois exemplares do Corão. Do outro, cópias de um tratado de paz e amizade “ajustado em nome de Deus, Clemente e Misericordioso, entre S. A. R. [Sua Alteza Real], o Muito Alto e Muito Poderoso, Príncipe Regente de Portugal, dos Algarves, d’aquém e d’além-mar, em Africa de Guiné, e da Conquista, da Navegação, Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia, e da India; e o Muito Nobre e Honrado Sid Hage Aly, Baxá [otomano] de Argel e mais províncias sujeitas ao seu Dominio [sic].”

O quase octogenário Bouteflika é ele próprio uma mistura de passado e presente. Mujahid (combatente) desde os 19 anos na guerra pela independência, conquistada em 1962, mantém-se no poder desde 1999. Ultrapassou a longevidade política do mentor, Houari Boumediène, mas a sua governação não tem sido isenta de críticas. Para Fathia Selmane, porém, ele é um herói.

Nos anos 1970, diz ela, quando começou a carreira diplomática no Ministério dos Negócios Estrangeiros, “havia um tecto de vidro que impedia as mulheres de chegarem ao topo”. Sem esperança de progredir, muitas optavam por se juntar a organizações internacionais. A situação só mudou a partir de 2001, quando Bouteflika começou a nomear as primeiras embaixadoras.”

É a esta “primeira geração” que pertence a actual embaixadora da Argélia em Lisboa. Está em funções desde 2009. Anteriormente, representou o seu país na Holanda e na África do Sul. “Não nos foi dada uma quota mas reconhecida justiça”.

“Depois da independência, a educação da mulher democratizou-se na Argélia; até então só 10 a 20% concluíam o ensino secundário”, refere Fatiha Selmane, doutorada em Direito e Relações Internacionais.

“Entre a minha mãe e eu há um enorme salto qualitativo. Sou de uma família de 11 filhos – sete são mulheres. Todos temos estudos universitários. Todo o ensino é gratuito na Argélia. Todas as famílias têm os filhos na escola. Foi a educação que nos ofereceu a liberdade e a capacidade de escolhermos a nossa vida.”

Para a embaixadora, “há um princípio cardeal que tem de ser respeitado: para trabalho igual salário igual”. E ela garante que assim tem sido desde que a Argélia se libertou do poder colonial francês. Fatiha é um exemplo da igualdade de oportunidades: por ela ser embaixadora, o seu marido, que é auditor de profissão, teve de deixar de trabalhar para assumir a educação das filhas. Se fosse ao contrário, seria ela a acompanhá-lo.

“Claro que nem todos os casais aceitam estas condições, mas homens e mulheres são livres para escolherem entre a carreira e a família. Alguns divorciam-se.”

O caminho percorrido pela Argélia é, para Fatiha Selmane, tão extraordinário, que ela não aceita “a ideia errada do Ocidente de que a mulher tem um estatuto de inferioridade” nos países árabes e muçulmanos.

“No Mediterrâneo, o machismo nada tem a ver com o Islão, porque também o encontramos na Grécia ou na Itália. Em Espanha fiquei chocada com o nível de violência doméstica [na última década foram mortas 700 mulheres, segundo o diário El Mundo].”

Aos que apontam a aparente incapacidade de os Estados árabes renovarem as suas lideranças, Fatiha Selmane tenta explicar, num castelhano fluente, aprendido com a avó quando a guerra civil espanhola (1936-1939) levava muitos refugiados para o Noroeste da Argélia, e mais tarde aperfeiçoado no que é hoje o Instituto Cervantes.

“Os progressos acontecem ao ritmo de cada país, e não se deve impor mudanças a partir do exterior. Cada sociedade tem a sua história. Bouteflika foi eleito pelos argelinos [em 18 de Abril, obteve 81% dos votos]. Todos os povos aspiram à democracia, mas é preciso avançar por etapas, de uma forma interna.”

* Solicitei entrevistas às embaixadoras dos Emirados Árabes Unidos, Sheika Najla Mohammed Salem Mohammed Al Qassim, e da Turquia, Ebru Gokdenizler, mas as diplomatas invocaram falta de tempo nas suas respectivas agendas para aceitarem os pedidos

Shepard Fairey, OBEY MIDDLE EAST MURAL, 2009
© Obey Giant Art | theartblog.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi originalmente publicado na revista MÁXIMA, edição de Janeiro de 2015 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, January 2015 edition

“The struggle for Arabs in Israel is against everyday racism”

A Palestinian-Israeli writer and literary critic, Ayman Sikseck was born in Jaffa, a mixed city that inspired his popular Hebrew novel To Jaffa. On November 23 [2014], the government of Benjamin Netanyahu approved the latest draft of a contentious bill to declare Israel “the national homeland of the Jewish people.” To Sikseck, “the nationality law is dangerous not only for Arabs in Israel – it’s dangerous because it betrays Israeli society at large.“ (Read more…)

 A woman inspects the damage on the aftermath of an arson attack that targeted first-grade classrooms at a Jewish-Arab school in southern Jerusalem. Scrawled on the walls were offensive slogans in Hebrew reading 'Death to Arabs' and 'There's no coexistence with cancer'. © AFP

A woman inspects the damage on the aftermath of an arson attack that targeted first-grade classrooms at a Jewish-Arab school in southern Jerusalem. Scrawled on the walls were offensive slogans in Hebrew reading Death to Arabs and There’s no coexistence with cancer
© AFP

To readers not familiar with your work, would you please us give some details about your family background?

I was born in Israel, in the multi-national and multi-lingual city of Jaffa. Growing up as an Arab here, you speak both Arabic and Hebrew from childhood.

I don’t have any recollection of learning Hebrew – the way none of us remember learning our mother tongue. We just know that we’ve always spoken it. And though my mother tongue is Arabic, life in Israel in mixed cities marginalizes the Arabic language. Arabic has been controversial in the Israeli landscape in the past few years.

There are legal motions to erase Arabic from street signs and city signs. Arabic is no longer taught in schools to Jewish students. So there’s a real danger to the Arabic language within Israel, and a real sense of urgency for Arabs that our language is being lost.

What was (were) the main reason(s) that led you to write in Hebrew instead of Arabic?

Though it was a natural instinct for me to write in Hebrew at first, retrospectively it also became a political decision. The issues I want to discuss in my writing – questions of identity, nationality, individuality and race – are issues I want to communicate to the Israeli public at large.

In order to speak to the entire Israeli public- you must speak Hebrew, as both Arabs and Jews understand it. The same is not true, sadly, for Arabic.

Who are the Israeli and the Palestinian writers who inspire you, and influence your literary journey?

My personal favorite Palestinian writer is Ghassan Kanfani – an amazing writer. One of his most famous pieces deals with a Palestinian child who is left behind in Haifa when his parents are expelled by Israel. He is then raised by Jewish parents as a Jew. Kanafani was a controversial figure – and was ultimately killed by the Israeli security forces.

My favorite Israeli writer is David Grossman – who does not need my praise, he’s internationally renowned as a literary success, and rightfully so.

Mahmoud Mansour and Maral Malka celebrate before their wedding in Jaffa, south of Tel Aviv. More than 200 far-right Israeli protesters tried to disrupt the union of a Jewish woman and a Muslim man © Reuters | International Business Times

Mahmoud Mansour, 26, and Maral Malka, 23, celebrate before their wedding in Jaffa, south of Tel Aviv. More than 200 far-right Israeli protesters, shouting Death to Arabs, tried to disrupt the union of a Jewish woman and a Muslim man
© Amar Awad | Reuters | International Business Times

How do you perceive the recently approved nationality bill that threatens to deprive Israel’s minorities of their rights, one of them the Arabic as official language of the state?

The nationality law is dangerous not only for Arabs in Israel. It’s dangerous because it betrays Israeli society at large. What we’re seeing now in Israel is a multitude of backgrounds: Russians of Jewish and non-Jewish descent, Druze, Bedouins, Sudanese immigrants – all of whom are participating in Israeli society as active members.

The definition of what it means to be an Israeli is growing, it’s expanding to include more and more individuals. But the nationality law aims to reverse that. It aims to say that there is only one thing that defines an Israeli – and that is the Jewish religion.

Do you feel yourself more Israeli (citizenship) than Palestinian (nationality)?

Arab is a matter of national identity that surpasses geographic location. The Palestinians is the West Bank and Gaza are Arabs, so are the Arab citizens of Israel, and for that matter – Arabs all over the Arab World.

There is a difference between Arabs in Israel and the Palestinian Territories – in terms of everyday life. Arabs in Israel do not need to cross the checkpoints to get to school, or work, or hospitals. They are not under heavy military rule and attacks. They do not suffer the same hardship faced by Palestinians in the territories under the occupation.

The struggle for Arabs within Israel is a struggle for recognition, a struggle against everyday racism, against economic discrimination and for equal opportunities in the various areas of life.  As for me, my heritage is Palestinian. My culture is Palestinian.

My parents and the personal story of my family are all tied to Palestine. Nevertheless, I’m an Israeli author. I write in Hebrew. I create Hebrew literature. And with the nationality bill trying to take the Israeli identity away from me – there’s one thing it cannot take away from – my being an Israeli writer, if not an Israeli citizen in the way the new bill sees it.

You and your mother – probably your friends too – have been victims of vicious attacks. When did you notice that an “incitement atmosphere” was getting out of control? How do you explain it?

I’ve noticed racism throughout the years in Israel, but things have changed dramatically over the past year. We’ve seen protests in Jerusalem – the capital city – where people called “Death to Arabs”. This is something I cannot remember happening at any other point in my lifetime. Racism is no longer something to be ashamed of, it seems. People are proud to be racist – they confuse hatred towards non-Jews with Patriotism.

This was backed by silence on all the official government levels. There was no condemnation by the Prime Minister [Benjamin Netanyahu] and his coalition.

And if the Prime Minister does not condemn people who wish me and family death – and a few months later proposes a law that says that this country is the home of the Jewish people – in my feeling he’s hijacking Israel away from me, and away from its citizens.

srael's President Reuven Rivlin, (left) attends a memorial for Israeli Palestinians killed in 1956 by Jewish Israeli troops in the town of Kafr Qasim. © Ariel Schalit Associated Press | Los Angeles Times

Israel’s President Reuven Rivlin (left) attends a memorial for Israeli Palestinians killed in 1956 by Jewish Israeli troops in the town of Kafr Qasim
© Ariel Schalit Associated Press | Los Angeles Times

Why did you describe Jerusalem as the “capital city” of Israel?

The key to resolving the Palestinian-Israeli conflict is the recognition of East Jerusalem as the capital of Palestine. This is a crucial part of the Palestinian claim, and also the most problematic one for Israel.

Years of Israeli sovereignty in East Jerusalem, following the six-days war, have created a new status quo: Jerusalem is under Israeli rule. This may not be recognized internationally, but for Palestinians this is a reality – Israel exercises its control of Jerusalem on a daily basis.

In March there will be new elections in Israel. At what extent can a united Arab list be a game changer?

The issue of a possible unity between Arab parties has been discussed many times in the past. Sadly, it never materialized. Arab parties in Israel must realize that now more than ever, they are under threat to their very existence. Israeli society is growing increasingly intolerant to non-Jews, and the agenda of Arabs in Israel is becoming much more pressing. We have to fight for our civic rights.

With the Arab parties being separate they are forming small factions within the parliament, and this time around, they risk disappearing altogether.

They are doing a disservice to the Arab population by insisting on their egos and their inner politics, and refusing to unite and create a larger Arab front in the parliament. I cannot say I’m optimistic about this happening, but I do hope it will.

Israel suffers from the same problem it accuses the Palestinians of having – lack of visionary leadership. Our current Prime Minister [Benjamin Netanyahu] does not have a clear prospect for the resolution of the Israeli-Palestinian conflict, he’s a professional in avoiding talks and disregarding agreements, and the social well being of the Israeli public is the last thing on his agenda.

The same can be said for the Palestinian leader [Mahmoud Abbas] that he’s opposed to. [“Bibi”] is a Prime Minister who survives on wars and on threats to national security.

The goal of Haitham Khalaily, from Majd Al-Krum, a village in the Galilee, in northern Israel, was to win the Arab Idol contest, broadcasted from Lebanon. He went up to the finals. Back home, he faced the risk of being jailed
© deseretnews.com

Portugal is following the example of other European countries that are recognizing a Palestinian State. Some people consider this gesture merely symbolic. How effective can it be? 

Let’s journey back a few years, to the time when Yasser Arafat came to power. Yasser Arafat was an extremely controversial leader who made several historic mistakes. But he also completed one extraordinary mission.

Before Arafat came to power, the Palestinian people were dispersed, largely hopeless, and suffering the after effects of Israel’s wars with the neighboring Arab nations. Yasser Arafat brought the Palestinian cause to life. He tuned what used to the Palestinian people into a Palestinian Nation. For the first time, Palestinians felt like one nation.

Some people would say this is also “symbolic”. But because they perceive themselves as a nation – they now want a state for that nation. The national identity gave birth to the desire for a state. What seems symbolic at one point – becomes largely real later in history.

Therefore, I’m extremely hopeful and pleased at the European states’ recognition of Palestine. And I want to say to Portugal – history will remember your support for this state. Bu supporting it, you are helping to shape the future landscape of history.

What’s the viability of the two-state solution?

Here’s the bad news about the two-state solution: it’s flawed, controversial, and because of Israel’s continuously changing borders and expansion of settlements, it’s extremely difficult to achieve agreeable lines of separation.

Now, here’s the even worse news about the two-state solution: it’s the only solution we have to work with. At this point, it’s safe to say that anyone who supports Israeli and Jewish rule all over the West Bank and Gaza as well – is supporting the ongoing oppression of the Palestinian people, and therefore creating a long-term security issue for all Israeli citizens.

Anyone who supports Palestinian-Arab rule all over Israel as well – is an extremist who does not respect the reality within which we live.

The two-state solution, with all its faults, is the only solution we have left now, because after years of conflict and mutual hostilities, we have backed ourselves into a corner – and exhausted all other options.

Most importantly, it allows the Palestinian people the basic human privileged of no longer living under foreign military rule, and identifying with the state in which they live.

March 17, 2015: Ayman Odeh, head of the Joint List, an alliance of four small Arab-backed parties accompanied by his family, casts his ballot in Haifa, Israel
© Mahmoud Illean | Associated Press

Do you really believe that the creation of a Palestinian state, in a two-state solution, will change the second-class condition imposed on the Palestinians, the Druze or the Bedouins of Israel?  And do you believe that a Palestinian State will ever be sovereign?

I’m not a political analyst. I do not presume to have all the answers. But I do know that every nation of people deserves a state. And more importantly, no nation should be under aggressive and foreign military rule.

A Palestinian state is crucial not only because the people deserve it, but because, at this point, the Palestinian frustration with the occupation is so extensive, that the continuation of the occupation will only bring about tragedy for both Palestinians and Israelis.

What will the Palestinian state look like and how will it function? I cannot predict an accurate scenario. But I think every nation struggles at first.

Things will not be ideal, not for Palestinians and not for Israelis, for some time, even after the potential establishment of a Palestinian state. But Israel too was established less than 70 years ago.

Seven decades have gone by, and Israel is still struggling: it’s struggling in defining its borders, it’s struggling to meet the needs of the elderly, the poor, the Holocaust survivors, and the Arab population in the country – all of whom are suffering from a severe lack of state funds, because the country invests the vast majority of its money in military and security. If it’s taking Israel 70 years to stand on its feet – how can we judge Palestine before it’s even established?

A final question: in face of what seems to be a growing climate of incitement, have you ever planed to leave Israel, as did Sayed Kashua, the Israeli Palestinian author who also writes in Hebrew like you?

I do not see myself leaving Israel – at least, not for long. Despite the struggle with racism, the growing feelings of anxiety and desperation in light of the rise of the far right in Israel, and the hardship of dealing with Israeli extremism and seeing Israel’s brutality in Gaza this summer – this is my home. I will not allow for it to be taken from me.

The Palestinian people have already been through an expulsion. One cannot happen again. Despite the feeling that this country is becoming more and more foreign to me, I do not plan to leave. This is where I was born, and where my writing was born.

There is no other place in the world where my writing, which deals with the issues of racism and nationality, would be more powerful and controversial and prominent than right here, because of the volatile situation. So if I ever leave, it will be with full intention to one day come back.

[In July 2018, after years of delays and disputes, the Nationality Bill was passed after a stormy eight-hour debate in the Knesset. The vote was 62 to 55, with two abstentions in the 120-seat parliament. The Bill, pushed through by a right-wing and religious coalition, defines Israel as the “nation-state of the Jewish people”. The measure sets “the development of Jewish settlements nationwide as a national priority” and downgrades the status of Arabic from an official language to one with “special status”. Opposition lawmakers, human rights groups and diaspora Jewish organisations have criticised the Israeli government for passing the controversial law, which critics say discriminates against Arabs and other minorities. Source: Irish Times]

© Erez Kaganovitz, Humans of Tel Aviv

© Erez Kaganovitz, Humans of Tel Aviv | Courtesy of Ayman Sikseck

Parts of this email interview, edited for clarification and updated, were included in an article published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on December 20, 2014.

Palestina: O Estado pouco mais que simbólico

Foi uma semana complicada para Netanyahu: o Parlamento Europeu votou a favor do reconhecimento de um Estado palestiniano. Os signatários das convenções de Genebra avisaram Israel de que tem de respeitar as leis humanitárias nos territórios ocupados. O segundo mais importante tribunal da UE retirou o Hamas da lista de grupos terroristas. (Ler mais | Read more…)

© Mohamad Torokman | Reuters

© Mohamad Torokman | Reuters

A recomendação da Assembleia da República ao Governo para que Portugal reconheça a Palestina como Estado confundiu os sentimentos de Shahd Wadi. “Estou contente mas também desiludida”, diz-nos. “Foi uma pequena mudança, um sinal, um gesto simbólico mas ficaria mais feliz se tivesse sido aprovado um embargo de armas e um boicote económico a Israel.”

“Claro que é bom saber que o meu Portugal está a fazer algo pela minha Palestina”, explica a luso-palestiniana, nascida em 1983 em Alexandria, onde o pai, o escritor Farouq Wadi, conheceu a mãe, a egípcia Sana’a Moharram.

“A alegria inicial deixou-me depois angustiada: Que Palestina estamos a reconhecer? Um país dividido que não controla as suas fronteiras? Estaremos a negar o direito à autodeterminação, tendo em conta que muitos palestinianos não aceitam uma solução de dois Estados?”

O projecto de reconhecimento, aprovado no dia 12 deste mês pela Assembleia da República, foi apresentado pelo PS/PSD/CDS. Um outro, do Bloco de Esquerda – partido de cuja lista às mais recentes eleições europeias Shahd Wadi fez parte -, do PCP e dos Verdes, foi chumbado. Defendia que Portugal não deveria “estar dependente da coordenação com a União Europeia” porque “é um país soberano”.

Muitos parlamentares elogiaram uma decisão “histórica”, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, declarou que o Governo vai “escolher o momento mais adequado” para o reconhecimento. Shahd Wadi não esconde o desagrado: “Já se passaram 66 anos [desde que a Palestina foi dividida em dois Estados] e ainda temos de esperar?”

A independência foi oficialmente proclamada pela OLP em 1988, durante uma conferência em Argel. Nesta altura apenas 90 países apoiaram a declaração; hoje são 135. Na Europa Ocidental, o primeiro a reconhecer oficialmente um Estado Palestiniano foi a Islândia, em Novembro de 2011.

Em Novembro de 2014, esse reconhecimento foi oficializado pela primeira vez por um membro da UE – a Suécia. Com o mesmo propósito, votaram-se entretanto recomendações, não vinculativas, nos parlamentos do Reino Unido, Espanha, França e Irlanda.

© Mohamad Torokman | Reuters

© Mohamad Torokman | Reuters

Na sexta-feira [19 Dezembro 2014], a pressão sobre Israel subiu de tom. O Parlamento Europeu, em Estrasburgo, votou esmagadoramente a favor do reconhecimento da Palestina, embora “no âmbito de uma solução negociada de dois Estados”. Na Suíça, numa rara sessão, boicotada pelos EUA, Canadá e Austrália, os signatários das várias convenções de Genebra advertiram as autoridades israelitas de que têm de respeitar as leis humanitárias nos territórios ocupados. E, em Bruxelas, o segundo mais importante tribunal da UE retirou o Hamas da lista de grupos terroristas.

Embora esta decisão dê tempo aos Estados membros para recorrerem, e se mantenham em vigor as sanções ao movimento que governa Gaza, o Governo de Benjamin Netanyahu reagiu enfurecido, voltando a invocar o Holocausto para lembrar a Europa das suas responsabilidades.

No campo árabe, a Jordânia iniciou negociações com os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU com vista à aprovação de um projecto de resolução que estipule Novembro de 2016 como a data limite para o fim da ocupação israelita da Palestina.

Em Washington, a porta-voz do Departamento de Estado Jen Psaki informou que a América, que várias vezes recorre ao seu poder de veto para proteger Israel, estaria disposta a apoiar uma proposta “sem medidas unilaterais que predeterminem resultado de negociações diplomáticas”.

Na voz e na história de Shahd Wadi há muita amargura. Os seus avós paternos foram expulsos do que ela identifica como al-Mizera’a-Lud, uma das “530 aldeias apagadas do mapa” após a criação de Israel em 1948. Refugiaram-se na Cisjordânia, onde o pai nasceu. Depois da guerra de 1967, a família foi de novo forçada a fugir, desta vez para a Jordânia.

O único irmão, mais velho, a residir na Itália, não teve direito a um passaporte palestiniano. “Este é um documento emitido pela Autoridade Palestiniana, desde os Acordos de Oslo de 1993, mas Israel, que tem de dar autorização prévia. Todos temos, menos o meu irmão, para que seja impossível a reunificação familiar na terra dos nossos antepassados.”

© Reuters

© Reuters

Só aos 15 anos é que Shahd teve licença para visitar, pela primeira vez, a Palestina. Foi um momento emotivo que ela recorda em várias das suas intervenções públicas. Depois disso, voltou várias vezes, mas lamenta estar impedida de se deslocar à aldeia dos avós.

“Estou preocupada”, confessa a activista palestiniana que vive em Lisboa desde 2006. “Será que este gesto, por parte de Portugal e de outros países europeus vai tranquilizar a consciência da comunidade internacional e nada irá mudar no terreno? Estaremos a passar uma imagem errada de que existem progressos?”

Este é também o receio da judia Lisa Goldman, directora da Iniciativa Israel-Palestina no think tank New American Foundation, em Nova Iorque. “O reconhecimento europeu da Palestina é apenas simbólico. A Europa é o maior parceiro comercial e um forte aliado de Israel. Talvez este gesto tivesse maior significado se a Europa deixasse claro que a contínua presença militar nos territórios palestinianos ocupados poderá ter consequências diplomáticas e económicas. Na forma actual, este reconhecimento só dá a ideia de que os europeus estão a fazer alguma coisa quando, na realidade, nada estão a fazer.”

“A solução de dois Estados parece estar ligada a um máquina de suporte de vida (alguns dirão em coma), mas o problema é que não há alternativas”, acrescenta Lisa Goldman, numa entrevista por e-mail. “Se o actual statu quo continuar por muito mais tempo, teremos um Estado único de facto com metade da população sem direitos, o que é moralmente inaceitável.”

Shahd Wadi, em Lisboa, fotografada por Beatriz Saraiva. © revistavialatina.com

Shahd Wadi, em Lisboa, fotografada por Beatriz Saraiva
© revistavialatina.com

Lisa Goldman, directora da Iniciativa Israel-Palestina na New American Foundation
© New America

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 20 de Dezembro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on December 20, 2014

Ayman Sikseck quer continuar a viver em Israel

O testemunho de um israelita de ascendência palestiniana que escreve em hebraico para poder comunicar com todos (Ler mais | Read more…)

© mishkenot.org.il

Nascido na “cidade multinacional e multilingue de Jaffa”, o escritor Ayman Sikseck confessa angústia com as propostas de uma nova lei de nacionalidade em Israel e os crescentes ataques, físicos e verbais, de que ele a sua família têm sido vítimas.

Devias estar agradecido por te deixarem viver aqui, seu filho da p***”. Faremos crematórios para todos os árabes e queimá-los-emos vivos. (Excerto de um ‘post” que o autor colocou no seu mural, aberto ao público, no Facebook).

A lei da nacionalidade – várias versões propostas pela coligação de Benjamin Netanyahu e às quais que se opôs o presidente Reuven Rivlin – “é perigosa porque atraiçoa a sociedade israelita, em geral, não apenas os árabes”, afirma Sikseck, numa troca de mensagens por e-mail.

“Em Israel há uma multitude de origens: russos de ascendência judaica e não judaica, drusos, beduínos, imigrantes sudaneses – todos participam na sociedade israelita como membros activos. A definição do que significa ser israelita vinha a expandir-se para incluir mais indivíduos. A lei da nacionalidade visa reverter isto, ao proclamar uma só definição para israelita: a religião judaica.”

“A situação piorou dramaticamente no último ano”, lamenta. “O racismo parece já não envergonhar ninguém. Há pessoas orgulhosas por serem racistas. Confundem ódio aos não judeus com patriotismo.”

“Não houve qualquer condenação por parte do primeiro-ministro, e se ele não condena quem deseja a morte, a mim e à minha família – e meses depois propõe uma lei que considera o país o Estado do povo judaico – está a sequestrar Israel.”.

O que distingue Sikseck de outros escritores de origem palestiniana é a língua: exprime-se em hebraico. “Aprendi o árabe e o hebraico desde criança. Como? Não me recordo, tal como ninguém se lembra de como aprendeu a língua materna.”

“Escrever em hebraico foi um instinto natural e uma decisão política. As questões que abordo – identidade, nacionalidade, individualidade e raça – são as que me permitem comunicar com todos os israelitas.”

“Preciso de falar hebraico para me fazer entender por judeus e árabes. Se a lei da nacionalidade tenta retirar-me a identidade israelita, há algo de que não me pode privar: eu ser um escritor israelita.”

Tenciona Sikseck deixar Israel, à semelhança de Sayed Kashua, outro escritor palestiniano israelita que também escreve em hebraico e se mudou para os EUA? “Não”, responde o admirador de Ghassan Kanafani e David Grossman.

“Apesar da crescente ansiedade e do desespero face à ascensão da extrema-direita e de ter visto a brutalidade em Gaza no Verão passado [2014], esta é a minha casa. Não há outro lugar no mundo onde a minha escrita pudesse ser tão poderosa e controversa. Por isso, se alguma vez partir, será com a intenção de um dia voltar.

© pbs.twimg.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 20 de Dezembro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on December 20, 2014

“There is no political leader capable of brokering a permanent peace solution with the Palestinians”

Lisa Goldman is director of the Israel-Palestine Initiative at the New America Foundation, in New York City. Co-founder and contributing editor to +972, a progressive digital magazine that is based in Tel Aviv-Jaffa, her articles have been published in various publications, including Ha’aretz, Time Out Tel Aviv, The New York Times, Forward, Jewish Quarterly and the Columbia Journalism Review. Born and raised in Vancouver, Canada, she has spent most of her adult life in Israel and the United States. She kindly accepted to give me this short interview. (Read more…)

© pensivepost.com

Portugal is following the example of other European countries and took the first step to recognize a Palestinian State. Some people consider this gesture to be merely symbolic, considering the facts on the ground: continuous expansion of the settlements, political and geographical separation of the West Bank from Gaza, the failure of Hamas’ armed resistance and also the non-violent methods of the Palestinian Authority. How effective can be this recognition since the U.S. is not keen on pressuring Israel, and Israel looks immune to any international pressure?

European recognition of the state of Palestine is only symbolic. Europe is Israel’s biggest trading partner and a strong ally of Israel’s.

Perhaps if Europe were to indicate to Israel that there were economic or diplomatic consequences for continuing its military presence in the occupied Palestinian territories (oPt) the gesture would have a bit more meaning.

But as it is, it just makes people feel as though they are doing something when in fact they are doing nothing at all.

What’s the viability of a two-state solution? And is there an alternative?

The two-state solution seems to be on life support (some say it is comatose), but the problem is that there are no real alternatives.

If the current status quo continues for much longer, we will have a de facto single state with half the population completely disenfranchised, which is morally untenable. I do not know what will happen.

© Mussa Qawasma | Reuters

The recent Gaza onslaught has revealed, according to your own assessment, a more fractured Israeli society, with minimal tolerance for dissent. We have also been witnessing to several racist attacks and a lot of incitement to hatred. Fears are growing that the new nationality law proposals will deprive Israel’s minorities of their rights and destroy the democratic character of the state. Will the status quo change without Netanyahu? Is there any political leader brave enough to end the occupation? What can we expect of the next elections?

Last summer’s Israeli military assault on Gaza did not reveal a more fractured Israeli society. It revealed a huge chasm between the Jewish and Palestinian populations of Israel.

The Jewish population was very united, with 95 percent (or more) polling in favour of the army’s tactics and the Government’s policies regarding Gaza.

The Palestinian citizens of Israel, who are about 20 percent of the population, opposed the war strongly and demonstrated on the streets in areas like Nazareth and other parts of the Galilee, where Arab Palestinian citizens of Israel are concentrated.

It’s not clear what will happen in the next elections. There are those who say that Israel’s silent majority is sick of Netanyahu and worried about his poor relationship with the United States, which is of course Israel’s most important ally.

But the center-left is deeply divided and I’m not sure they would win enough seats to form a majority coalition even if they could find a way to cooperate.

It is also possible that [Benjamin] Netanyahu will be re-elected, but with a far-right coalition that replaces the religious parties with Yesh Atid, the centrist party that just left the coalition. In that case, the situation will only become worse.

But it’s impossible to predict these things, of course. One thing we can say for sure is that currently there is no political leader capable of brokering a permanent peace solution with the Palestinians.

Lisa Goldman © theglobeandmail.com

Lisa Goldman
© theglobeandmail.com

Parts of this interview, via e-mail and edited for clarification, were included in an article published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on December 20, 2014

Jesus de Nazaré: Pacifista ou revolucionário?

Queria Ele derrubar pela força um omnipotente exército ou inspirou os primeiros cristãos a recusarem alistar-se no exército romano? Dois biblistas, Joaquim Carreira das Neves e Simon J. Joseph, analisam a controversa biografia do “Nazareno da História” da autoria de Reza Aslan. (Ler mais | Read more…)

@Salvador Dalí

© Salvador Dalí

Reza Aslan não esconde que um dos objectivos da escolha de O Zelota, como título, foi promover as vendas deste seu livro (Ed. Quetzal).

O iraniano-americano Aslan admite, numa entrevista por telefone, a partir de Los Angeles (Califórnia, EUA), que podia ter escolhido “revolucionário” para descrever Jesus. No entanto, anota, na Palestina do século I, a palavra “zelota” não tinha conotação pejorativa.

Pelo contrário, era um elogio para os judeus. Para Aslan, que emigrou de Teerão para os EUA depois de Khomeini ter instaurado uma República Islâmica, escrever sobre o Jesus não divino tornou-se quase uma missão.

Diz ele, no início da obra: “Na América da década de 1980, ser muçulmano era como ser de Marte. (…) Jesus, por outro lado, era a América. (…) Fui presenteado com um Jesus que era menos ‘Senhor e Salvador’ do que um grande amigo, alguém com quem podia ter uma relação profunda e pessoal.”

“(…) Aconteceu, todavia, uma coisa inesperada na minha busca de salvar as almas do mundo. Quanto mais aprofundava a Bíblia para me armar contra as dúvidas dos não crentes, mais distância descobria entre o Jesus dos Evangelhos e o Jesus da História – entre Jesus, o Cristo, e Jesus de Nazaré.”

“Na faculdade, onde iniciei os meus estudos oficiais de história das religiões, o desconforto inicial depressa se transformou na minha dúvida total”. (pp. 16-17).

Joaquim Carreira das Neves, especialista em Estudos Bíblicos e Orientais, considera que o “ímpeto obsessivo” de Aslan em mostrar um Jesus que veio “trazer a espada e não a paz” talvez se deva ao facto de ter sido “um cristão evangélico ultraconservador”, antes de se reconverter às origens muçulmanas dos antepassados. “Jesus nada tem a ver com o cristianismo fundamentalista”.

Aslan confessa: “A base do cristianismo evangélico (…) é a crença incondicional de que todas as palavras da Bíblia são emitidas por Deus e verdadeiras, literais e isentas de erro.”

“A súbita compreensão de que essa crença é pateta e irrefutavelmente falsa, de que a Bíblia está repleta de erros e contradições mais flagrantes e óbvios (…) deixou-me confuso e espiritualmente à deriva. E, assim, como muitas pessoas na minha situação, descartei, zangado, a minha fé”. (p.17)

© Vincent Van Gogh

No trajecto de “duas décadas de rigorosa investigação académica das origens do Cristianismo”, Aslan deixou-se, então, seduzir por um outro Jesus: “O camponês e revolucionário judeu, que desafiou o regime do mais poderoso império que o mundo jamais conheceu e saiu derrotado”.

Porque lemos, em O Zelota (p.187), que os judeus do séc. I “já tinham decidido construir o argumento teológico de que que Jesus seria Cristo”, perguntámos a Aslan se, na sua investigação, se deixou surpreender pelo que foi “descobrindo”, ou se estava também determinado a desmontar, a qualquer custo, a “fabricação” de um “Jesus celestial” em que acreditou enquanto cristão evangélico.

Respondeu: “Em parte alguma digo que Jesus não é Deus. Como investigador, esta questão não me interessa. Não contradigo a divindade de Jesus. Só não acredito que Jesus seja a única divindade na Terra, que seja exclusivamente divino.”

“Não quis provar nada. O que digo é que a afirmação dos discípulos sobre a divindade de Jesus era invulgar, sem precedentes. Não é um facto histórico.”

“No que toca à investigação, o mais difícil de aceitar foi a decisão de Jesus ir até Jerusalém”, acrescentou. “Não há maneira de entender esta decisão excepto como uma decisão de morrer. Por que fez isso? Estava a ser bem sucedido.”

“Tinha seguidores. Evitara todo o tipo de sarilhos. Conseguira escapar às autoridades. E, no entanto, um dia, sem que ninguém esperasse, decidiu: ‘Chega! Vamos sacrificar-nos’. Há algo de profundo nesta declaração e precisamos de a compreender.”

Se Jesus tivesse sido apenas mais um zelota, e um zelota falhado, teria Aslan publicado este livro? “Bem, bem….”, replica o autor, hesitante. “Não considero Jesus um zelota falhado, mas um messias falhado. No século I, um judeu que proclamasse ser o Messias estaria a dizer que era descendente do Rei David… se não fizesse isso, não era o Messias.”

“Dezenas de judeus clamaram ser ‘messias’ mas eram ‘messias falsos’. Por alguma razão, todavia, Jesus é apresentado como o verdadeiro Messias, apesar de ter fracassado como os restantes.”

“Para 2000 milhões de cristãos em todo o mundo, e dois mil anos depois, Jesus é o Messias, mas não era este o significado de ‘messias’ no seu tempo.”

© Gauguin

© Gauguin

Numa conversa telefónica com Carreira das Neves, este professor jubilado da Universidade Católica, em Lisboa rebate: “Aslan concentra-se apenas no Evangelho de São João, capítulo II, que dá um grande relevo à chamada ‘limpeza’ do Templo.”

“Não está certo dizer que Jesus é um zelota só por causa daquele texto, mesmo que, aqui, Jesus tenha uma imagem de zelota. Noutros evangelhos, como os de Mateus e Lucas, temos apenas três ou quatro frases sobre a purificação do templo.”

“É de louvar o estudo que ele [Aslan] faz sobre os zelotas do tempo de Jesus, porque não há dúvida de que havia zelotismo”, refere o frade franciscano, autor de várias obras, designadamente, Jesus Cristo – História e Fé (1989).

“No tempo de Jesus, havia um messianismo zelótico, mas todos esses zelotas despareceram. Se Jesus tivesse sido apenas um zelota teria desaparecido completamente da História.”

“Por cada argumento bem atestado, profundamente investigado e eminentemente abalizado acerca do Jesus histórico, há um argumento igualmente bem atestado, igualmente investigado e igualmente abalizado que se lhe opõe”, reconhece Aslan no seu livro.

Carreira das Neves, mesmo que elogiando “uma história muito bem escrita”, é um dos críticos: “Os Evangelhos são estórias e não História. Quando Jesus prega o Reino de Deus, os cristãos entendem que este [Messias] é diferente do que era o do Antigo Testamento.”

@ Velazquez

@ Velazquez

“Quando Jesus começou o seu ministério, já tinha visto Roma destruir pelo menos meia dúzia de outros ‘messias’ e seus seguidores”, diz-nos o biógrafo Aslan.

“Faz sentido que Jesus tenha querido esconder a sua identidade messiânica entre os fiéis. Talvez tenha sido, por isso, que escolheu a expressão ‘Filho do Homem’, porque Roma não a entenderia. Esta ambiguidade era benéfica.”

“Após ter passado mais de 99% do seu tempo na Galileia, a decisão de ir até Jerusalém e de se proclamar Messias significa, basicamente, que Ele escolheu uma missão suicida.”

“Quando Jesus diz aos discípulos ‘Se alguém quer seguir-me, pegue na sua cruz e siga-me’, é como se dissesse ‘têm de estar preparados para se sacrificarem'”, opinou Aslan.

“A cruz significava crime por traição. Jesus disse ‘vou ser um traidor; se quiserem vir comigo, têm de estar preparados para também serem traidores. Há a tentação de se afirmar que Jesus foi um revolucionário violento OU um pacifista.”

“Não se admite que tenha sido as duas coisas ou nenhuma delas. Jesus estava consciente de que o seu grupo de seguidores não conseguiria derrubar o império que ocupava a Terra Santa. No entanto, como um bom judeu crente nas Escrituras, também sabia que só Deus poderia destruir os inimigos dos judeus. Sabia que a violência era necessária e inevitável – mas seria Deus a praticá-la.”

A interpretação de Simon J. Joseph, professor de Religião na Universidade Luterana da Califórnia (EUA) e autor do recém-publicado The Nonviolent Messiah (“O Messias Não Violento”) é totalmente oposta à de Reza Aslan. O Jesus dos seus estudos disse “Perdoai os vossos inimigos” e “Ofereçam a outra face”.

As frases que Aslan privilegia (“Não vim trazer a paz mas a espada”) provêm dos evangelhos de Mateus e Lucas, as primeiras fontes das tradições de Jesus, informa Joseph, em entrevista por e-mail.

“Embora possam ser atribuídas ao Jesus histórico, não há qualquer prova de que Jesus alguma vez recorrido a violência para magoar alguém, muito menos para iniciar uma campanha militar contra Roma.”

“O movimento cristão inicial ficou conhecido nos seus primeiros três séculos por ser pacifista. Os cristãos recusavam alistar-se no Exército romano porque, desse modo, tentavam seguir os ensinamentos de Jesus.”

@ Pablo Picasso

© Pablo Picasso

Para Joseph, o facto de, na epígrafe do seu livro, Reza Aslan “exacerbar o argumento de um Jesus zelota faz com que a sua interpretação seja enganadora e irresponsável”.

E prossegue: “O verdadeiro significado da frase é o de que a lealdade a Jesus causa a divisão – simbolizada pela espada – no seio das famílias. Não tem nada a ver com violência física ou revolucionária.”

“O seu contexto literário requer uma interpretação simbólica da palavra ‘espada’, e isso é algo que bem sabe qualquer estudioso sério do Novo Testamento – o que Aslan não é.”

“Amai os vossos inimigos” e “Ofereçam a outra face” são, segundo o biblista Joseph, “tradições de Jesus conhecidas e comprovadamente autênticas”.

Porque “pertencem às primeiras tradições de Jesus no [material] Q – habitualmente designadas como ‘Sermão Inaugural’. Amai os inimigos é um mandamento sem precedentes no Judaísmo original, e há consenso entre os historiadores de que se trata de um mandamento autêntico de Jesus”.

Simon J. Joseph lamentou, por seu turno, “a simplificação de um complexo trabalho académico, a não revisão interpares e o facto de [o livro de Aslan] não se basear em qualquer investigação original», considerando ainda que «é grave a interpretação errada dos conhecimentos dos especialistas nesta área”.

“Não há nada sobre a crucificação que ligue Jesus a violência política ou a uma revolução militarista. O ‘facto’ de só Jesus, e não os seus discípulos, ter sido preso indica que Pilatos sabia que os fiéis de Jesus não constituíam, para Roma, uma ameaça política ou militar.”

“Em resumo, nada sugere que Jesus advogou ou participou em qualquer actividade de tipo zelota contra Roma.”

@ Rembrandt

Este artigo foi publicado originalmente na revista “Além-Mar”, edição de Dezembro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese magazine “Além-Mar”, December 2014 edition

Reza Aslan e a “missão suicida” do “zelota” que desafiou Roma

O Zelota gerou controvérsia como biografia de um “messias falhado”, um “judeu analfabeto” que queria “derrubar pela força” o Império Romano. O autor garante a existência deste Jesus histórico sem questionar a sua divindade. Agora que o Médio Oriente é assolado pelos zelotas do “estado islâmico” e investigadores insistem em que Yeshua ben Yosef foi só um mito, revisitamos o livro que derrubou Harry Potter da lista dos bestseller. (Ler mais | Read more…)

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O Natal ainda estava longe quando 5 Reasons to Suspect that Jesus Never Existed (“5 razões para suspeitar que Jesus nunca existiu”) foi publicado, com grande destaque, por dois websites nos Estados Unidos, AlterNet e Salon.

O texto de Valerie Tarico, autora de Trusting Doubt: A Former Evangelical Looks at Old Beliefs in a New Light (“Confiar na Dúvida: Uma antiga evangélica olha para velhas crenças a uma nova luz”), atraiu elogio condenação.

Ateus e crentes brandiram argumentos em centenas de comentários nas redes sociais, e Reza Aslan não ficou surpreendido. Afinal, a biografia que o tornou famoso, O Zelota – A Vida e o Tempo de Jesus de Nazaré (Ed. Quetzal, 2014), continua a suscitar discussão e paixão.

Entre os cépticos que Valerie Tarico cita estão David Fitzgerald, que escreveu Ten Christian Myths That Show Jesus Never Existed at All (“Dez mitos cristãos mostram que Jesus jamais existiu”) Richard Carrier, Robert Price, Bart Ehrman e Joseph Atwill.

As cinco razões que ela aponta para a não existência do revolucionário retratado por Aslan podem ser assim resumidas:

  1. Não há quaisquer provas, seja o registo de nascimento ou a certidão de óbito, fornecidas por autores pagãos do século I, sobre Yeshua ben Yousef (Jesus filho de José); 2) Os primeiros escribas do Novo Testamento ignoram pormenores sobre a vida de Jesus, que só é detalhada nos evangelhos posteriores; 3) Os evangelhos do Novo Testamento têm os nomes de Mateus, Marcos, Lucas e João mas não foram escritos por eles; 4) Os evangelhos contradizem-se uns aos outros; 5) Os historiadores modernos não se entendem quanto à figura histórica de Jesus – “filósofo cínico, carismático hassidita [judeu ortodoxo de uma corrente mística fundada no século XVIII na Europa Oriental], fariseu liberal, rabi conservador, revolucionário zelota ou pacifista não violento….”

Nada do que Valerie Tarico enuncia no seu artigo é novo. Tal como não há novidades – mas sim interpretações das Escrituras diferentes das de outros estudiosos que o inspiraram e uma belíssima narração – no livro de Reza Aslan.

A popularidade de Reza e as vendas do seu livro subiram em flecha depois de uma entrevista à cadeia de televisão Fox, quando a locutora questionou a legitimidade de o iraniano-americano escrever sobre Jesus, uma vez que era um antigo convertido ao cristianismo evangélico regressado às origens islâmicas dos antepassados.

Segundo a informação disponível no seu site (rezaaslan.com), Reza fez um mestrado em Estudos Teológicos na Universidade de Harvard e completou o doutoramento em Sociologia das Religiões na Universidade da Califórnia. Aqui, é agora professor de Escrita Criativa, além de dirigir a sua rede noticiosa Aslan Media.

Para falar de O Zelota – a biografia que destronou Harry Potter da lista de bestseller – e também dos “novos zelotas” que ameaçam o Médio Oriente, como o “estado islâmico” (Daesh, acrónimo pejorativo em árabe com significado do “pisar”, “esmagar” ou “estado de ignorância”), Reza Aslan deu-me uma entrevista.

Era Agosto, 10 da manhã no seu gabinete, em Los Angeles, e 18h00 em Lisboa. A conversa telefónica durou precisamente os 45 minutos estipulados pela agente do autor.

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Comecemos pelo título do seu livro. “Zelo”, segundo diz, era como que “uma doutrina bíblica” no tempo de Jesus, quando os judeus se orgulhavam de ser chamados de “zelotas”. Hoje em dia, porém, “zelota” equivale a “fanático”, “extremista” e até “terrorista”. Como académico e especialista em media, por que escolheu “Zelota” e não uma palavra menos negativa para descrever o “Jesus histórico”?

Um livro sobre este Jesus histórico, particularmente, um livro como o meu, tem de o colocar no seu tempo e lugar, porque é a única forma de entender quem ele era e o que queria. Não se pode extrair as palavras ou ensinamentos de Jesus da era em que viveu.

Mais do que se justifica usar um título como “Zelota”. É obviamente provocador, porque o objectivo é chamar a atenção das pessoas. No entanto, o título é, em si próprio, uma explicação da metodologia do livro: a palavra “zelota” tem significados diferentes se colocada, ou retirada do contexto.

O mesmo se pode dizer em relação a Jesus. Retire-se Jesus do contexto da Palestina do século I e ele pode ser entendido de milhares de formas diferentes. No entanto, colocá-lo no contexto da Palestina do século I é a única maneira de o entender como um revolucionário que se revoltou contra os poderes do seu tempo.

Então, por que optou por “zelota” e não “revolucionário”?

Porque “revolucionário” não tem um contexto, ao contrário de “zelota”. Há uma distinção clara entre o Jesus da história e o Cristo da fé! O Cristo da fé pode significar o que quiserem, porque não tem contexto.

Quando um cristão lê as palavras de Jesus no Evangelho de Marcos, esse cristão acredita que Jesus se dirige directamente a ele como se fosse hoje. Mas Jesus não falava para si ou para mim, e sim para uma audiência de judeus há 2000 anos.

Se queremos entender o que Jesus realmente queria dizer com as suas palavras, é preciso primeiro compreender o que a sua audiência teria entendido. É isso que este livro trata.

Em algumas entrevistas admitiu que “não há muita coisa nova para se dizer (sobre o Jesus histórico) porque desde há 200 anos que académicos têm vindo a estudar este tema”. Em O Zelota, exprime gratidão e cita várias vezes o professor e padre católico John P. Maier, autor do épico A Marginal Jew. Assim sendo, o que distingue o seu livro de outras obras sobre o mesmo tema?

O que o distingue, acima de tudo, é a audiência para o qual foi escrito. Sim, é verdade que há 200 anos de estudos académicos sobre o Jesus histórico. No entanto, esses estudos foram escritos, exclusivamente, tendo em vista uma audiência erudita.

O meu livro é uma tentativa de traduzir esses 200 anos de estudos académicos para um formato popular, apelativo e acessível, de modo a tornar agradável a leitura às pessoas que não se interessariam por história religiosa.

Esta é uma das razões por que o livro tem tido tanto sucesso. Do ponto de vista académico, é verdade que não há nada de muito novo a acrescentar. Tudo já foi dito, mas foi dito a uma elite muito pequena e uma audiência exclusiva.

Eu tentei alargar essa audiência e tornar a informação acessível de uma forma atractiva. Aliás, esta é uma característica de todos, todos os meus livros [No god but God: The Origins, Evolution, and Future of Islam, traduzido para 17 línguas, e How to Win a Cosmic War: Confronting Radical Religions).

Foi para facilitar a leitura que separou a narrativa principal das notas? Por exemplo, se quisermos saber onde se inspirou para os detalhes minuciosos da “limpeza” do Templo temos de ir à procura num capítulo (pp 285-339) inserido entre os agradecimentos e a bibliografia…

Para alguns leitores, não interessa os detalhes nem a investigação [que deu origem ao livro]. Outros vão à procura da pesquisa e da erudição.

De certo modo, é como se [O Zelota] fosse dois livros. Um livro é a narrativa principal. Depois, em vez das tradicionais notas de rodapé ou notas finais, há uma outra narrativa que pode ser lida quase como que se fosse um livro diferente. Muitas pessoas acabam de ler um capítulo e seguem de imediato para as notas correspondentes…

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Esta opção tem a ver com o facto de o senhor ser um especialista em escrita criativa, não? E, de certo modo, é também uma forma de se defender contra os que o questionam as suas credenciais como “historiador das religiões”…

É verdade. Não sou apenas um estudioso das religiões, e o que procurei fazer foi escrever um livro acessível. Também quis mostrar que fiz uma investigação séria – por isso, era importante que esta parte constasse do livro para que os críticos confirmassem a minha absoluta qualificação.

Relativamente às fontes, quais foram as reacções por parte de dois dos principais académicos que cita, John P. Maier e Richard A. Horsley, por si descrito (p.286) como “o mais proeminente pensador sobre o tema do apocalipticismo do século I (autor de, entre outros, de Popular Messianic Movements Around the Time of Jesus e de Jesus and the Spiral of Violence: Popular Jewish Resistance in Roman Palestine)?

Nem John Maier nem Richard Horsley me contactaram, mas obtive reacções de outros académicos e, como era previsível, há partes do livro com as quais estão de acordo e outras sobre as quais discordam.

Como digo, logo no início, “por cada argumento bem atestado, profundamente investigado e eminentemente abalizado acerca do Jesus histórico, há um argumento igualmente bem atestado, profundamente investigado e eminentemente abalizado que se lhe opõe” (p.18).

Há centenas de livros sobre o Jesus histórico. Estamos a falar de uma era envolta num mistério denso. Por isso, há múltiplas maneiras de olhar para isto.

Por exemplo, embora eu seja um grande admirador de Richard Horsley e de John Maier, mesmo que eu use muitos dos seus argumentos, eu especifico os pontos sobre os quais eu estou em discordância com eles. John Maier diz que Jesus era alfabetizado; que sabia ler e escrever.

Eu pertenço ao grupo dos que discorda. Richard Horsley diz que alguns dos personagens messiânicos sobre os quais me debrucei não eram bem messias mas figuras apocalípticas, escatológicas – não concordo, porque a maioria dos judeus no século I não entenderia essa categoria definida por um académico.

Na academia, usamo-nos uns aos outros, discordamos uns dos outros. Não há um único estudioso bíblico que concorde com tudo o que está no meu livro. Mas também não há um único estudioso que discorde de tudo o que está neste livro.

O que tem gerado controvérsia é a sua apresentação de Jesus como alguém que defendia a violência. No entanto, parece haver uma contradição no retrato que faz. Numa página (124), diz que Jesus não era um revolucionário violento inclinado para a rebelião armada”; mais adiante (p. 171), escreve: “Não há provas de que Jesus tenha defendido pessoalmente acções violentas, mas certamente não era um pacifista.” Numa outra entrevista, o senhor diz que “a noção de um Jesus pacífico é tão incompleta como a de um Jesus revolucionário”. Pode clarificar?

É complicado explicar. Há a tentação de se afirmar que Jesus foi uma coisa ou outra: um revolucionário violento ou pacifista. Não se admite que tenha sido as duas coisas ou nenhuma delas. O maior império da história da Humanidade ocupava a Terra Santa.

O messias não podia simplesmente dizer a eles [romanos] que se fossem embora. Jesus sabia que força e violência eram necessárias. Sabia que o seu pequeno grupo de seguidores não conseguiria derrubar o império.

No entanto, como bom judeu que acreditava nas Escrituras, Jesus sabia que só Deus podia destruir os inimigos dos judeus. Para ele, por exemplo, foi Deus que massacrou os Cananeus. Jesus sabia que a violência era necessária e inevitável – mas seria Deus a praticar essa violência. Ele não era um defensor da violência mas também não defendia oferecer a outra face.

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No seu livro sugere um messias relutante. Veja-se esta passagem: “Jesus de Nazaré não se referia abertamente a si próprio como messias. Nem, a propósito, chamava a si mesmo ‘Filho de Deus’; era mais um título que outros pareciam ter-lhe atribuído” (pp 189-190). Como explica, então, a decisão de Jesus entrar em Jerusalém e “limpar” o Templo depois de ter passado “mais de 99% do seu ministério nas aldeias da Galileia, como um zelota obscuro”? 

Não é de estranhar que Jesus, durante a maior parte do seu ministério, tenha querido manter-se discreto quanto às suas ambições messiânicas. Quando Jesus começou o seu ministério, já tinha visto Roma destruir pelo menos meia dúzia de outros messias e seus seguidores.

Faz sentido que Jesus tenha querido esconder a sua identidade messiânica entre os fiéis. Eu digo que, talvez, tenha sido por isso que ele escolheu a expressão “Filho do Homem”, porque era ambígua e Roma não entenderia. Esta ambiguidade era benéfica para Jesus, no início do seu ministério.

Depois de ter passado mais de 99% do seu tempo na Galileia, a decisão de ir até Jerusalém e proclamar-se Messias significa basicamente que ele escolheu morrer.

Para os cristãos, convencidos de que Jesus está a falar para eles, quando ele diz aos seus discípulos, a caminho de Jerusalém, ‘se alguém quer acompanhar-me, pegue na sua cruz e siga-me’, é como se Jesus dissesse ‘vocês têm de desistir das coisas terrenas e estar preparados para se sacrificarem’. No contexto, no tempo de Jesus, a cruz significa crime por traição.

Portanto, Jesus disse aos discípulos: ‘Eu vou ser um traidor; querem vir comigo? Se querem, têm de estar preparados para também serem traidores.’

E é isso que acontece. Por que é que Jesus fez isto? Eu não quis especular. Deixo isso para o leitor decidir. Uns dirão que ele fez isso porque era mesmo o messias. Outros dirão que ele sabia, com toda a certeza, quais seriam as consequências dos seus actos; que ao entrar em Jerusalém e no Templo, seria condenado à morte.

O argumento é o de que Jesus foi para uma missão suicida. Porquê? Cabe ao leitor entender. Tinha ele uma missão divina, a de morrer pelos nossos pecados? Ou pensava que, a sacrificar-se a si próprio, conseguiria concretizar a revolução para libertar Israel? Incontestável e inegável, como facto histórico, é que Jesus foi a Jerusalém. Nada contraria isto.

Disse que escreveu para crentes e não crentes. Que reacção teve da parte dos dois campos? Há quem diga, como David Fitzgerald (autor de Ten Christian Myths That Show Jesus Never Existed at All), que o Jesus histórico nunca existiu, e que a única referência a esta figura é feita pelo historiador judeu Flávio Josefo.

Sim, há apenas uma só referência, que é a do historiador judeu Josefo, mas é preciso entender o quão significativa é esta referência. O facto de um historiador judeu que escrevia para uma audiência romana mencionar Jesus é extraordinário. Não é uma simples referência – é impressionante! É uma prova muito sólida de que Jesus existiu.

Sobre as reacções ao livro, recebei centenas de e-mails de cristãos, afirmando que este livro reforçou a fé deles. Que ficaram a saber mais sobre o mundo de Jesus, e que o seu triunfo sobre a morte comprovou que a missão de era mesmo divina.

Quanto aos ateus, disseram-me que adoraram o livro porque os fez compreender por que motivo Jesus é tão especial. Não importa se é ou não messias, é ou não deus. O facto básico da vida de Jesus é extraordinário.

© CNN.com

Um dos desafios de quem estuda religiões deve ser o modo como concilia fé (se a tem) e história. Sendo crente, primeiro cristão e agora muçulmano, como é que combinou ambas?

Não creio que seja um desafio. De modo algum!

O historiador John Maier, por exemplo, é um padre católico. Talvez o modo como ele estudou o Jesus histórico seja diferente do método usado por si…

Sim, isso é verdade. A propósito, foi com cristãos que aprendi muito sobre o Jesus histórico. Muitas das conclusões a que John Maier chegou contradizem a sua religião, mas ele continua a ser católico e a ser padre. John Maier dirá que não tem problema em conciliar fé e história.

A vasta maioria dos estudiosos dirá exactamente a mesma coisa. Há uma diferença entre religião e fé. A fé é indescritível, individualista.

Religião é uma instituição criada pelo homem. John Maier dirá que tem fé em Deus, fé de que Jesus é filho de Deus.

No entanto, como historiador, também dirá, com toda a confiança, que muitas das coisas que a sua religião ensina sobre Jesus não são historicamente correctas – e não parece haver nisso um problema. A minha fé não está na minha religião. A minha fé está em Deus.

Em O Zelota lemos (p.187): “Os Judeus do século I que escreveram acerca de Jesus já tinham decidido quem ele era. Estavam a construir um argumento teológico acerca da natureza e função de Jesus como Cristo, e não a compor a biografia histórica de um ser humano.” Neste seu livro, e em entrevistas que deu, confessa que se tornou quase uma obsessão, para si, estudar o Jesus histórico. Nesta investigação deixou-se surpreender pelo que foi “descobrindo” ou estava determinado a desmontar, a qualquer custo, a “fabricação” do Jesus celestial em que acreditou enquanto cristão evangélico?

Não tenho qualquer interesse em desmontar a fabricação do Jesus divino. Em parte alguma do livro digo que Jesus não é Deus. Esta questão não me interessa como investigador. Eu não contradigo a divindade de Jesus. Só não acredito que Jesus seja a única divindade na Terra.

Não acredito que ele seja exclusivamente divino. Não me interessa provar nada – nenhum tipo de fabricação. O que eu digo é que a afirmação dos discípulos sobre a divindade de Jesus era invulgar, sem precedentes. Não é um facto histórico. Se é verdadeira ou falsa, cabe aos leitores decidir.

No que toca à investigação, fiquei muito surpreendido sobre, por exemplo, o número de messias que havia no tempo de Jesus. Para mim, suponho que o mais difícil de aceitar foi a decisão de Jesus ir até Jerusalém. Tal como escrevi, não há maneira de entender esta decisão excepto como uma decisão de morrer, de se suicidar.

Por que fez isso? Estava a ser bem sucedido. Tinha seguidores. Evitara todo o tipo de sarilhos. Conseguira escapar às autoridades. E, no entanto, um dia, sem que ninguém esperasse, decidiu: “Chega! Vamos sacrificar-nos.” Há algo de profundo nesta declaração e precisamos de a compreender.

Se Jesus tivesse sido apenas mais um zelota, e um zelota falhado, teria o senhor escrito este livro?

Bem, bem….

© CNN.com

Pergunto isto porque há muito que se diz, e o senhor retoma esse argumento, de que o Cristianismo é uma invenção do apóstolo Paulo.

Sim, é correcto dizer que o Cristianismo, como o conhecemos hoje, tem mais a ver com Paulo do que com Jesus. Dito isto, não considero que Jesus tenha sido um zelota falhado. Acho que foi um messias falhado. Isto é um facto histórico, por mais que possa perturbar algumas pessoas.

Se um judeu no século I proclamava que era o messias, isso significava algo de muito específico: esse judeu estaria a dizer que era descendente do Rei David, que a sua missão seria a de recriar o Reino de David…. se não fizesse isso, não era o messias.

Dezenas de judeus clamaram ser o messias, mas como não fizeram nada do que um messias supostamente deveria fazer deixaram de o ser. Chamamos a essas pessoas messias falsos. Por algumas razão, todavia, Jesus é apresentado como o verdadeiro messias, apesar de ter falhado como os restantes.

O que é incrível é o modo como os discípulos de Jesus usaram a experiência da ressurreição para reinterpretar o significado de messias. Para 2000 milhões de cristãos em todo o mundo, Jesus é o messias, mas não era este o significado de messias no seu tempo.

Falando de zelotas e de contexto, assistimos neste momento ao que parece ser um crescendo de zelotas no Médio Oriente, em particular na Síria e no Iraque, onde o grupo “estado islâmico” [EI, ISIS, Daesh] está a semear o terror em nome de uma religião. Como avalia este fenómeno?

Não acho que se trate de um fenómeno novo. Desde o início que as revoluções têm sido usadas para fomentar revoluções, para o bem e para o mal.

Estamos agora talvez mais alerta graças às redes sociais, mas sempre existiu um grande zelotismo. Parece-nos que há mais zelotas porque temos mais informação – só isso.

A violência do autroproclamado “estado islâmico” (Daesh) não representa um zelo assassino sem precedentes?

Não creio. Sim, é horrível, absolutamente horrível que o ISIS [Daesh] tenha decapitado [o jornalista norte-americano] James Foley, mas será que alguém deu conta que três semanas depois a Arábia Saudita decapitou [outras] 19 pessoas.

Há obviamente razões, sobretudo na América, para não divulgar o que se passa na Arábia Saudita, porque é um país aliado dos EUA, porque nos fornece petróleo…

Parece que este fenómeno é novo, mas não é. Há milhares de anos que isto se repete. Agora, temos notícias 24 horas por dia e estamos mais atentos, mas a religião como instrumento de violência existe há muitos anos.

Última pergunta: Já está a escrever o próximo livro? Pode dizer-nos sobre o que trata?

Sim, será sobre a origem, a evolução e futuro de Deus. E, sim, está a ser uma tarefa assustadora.

[O livro a que Reza Aslan se refere é ‘God: A Human History’, publicado em 2017 e traduzido para português no ano seguinte como ‘Deus: Uma Biografia’ (Ed.Quetzal 2018)].

© Los Angeles Times

Este artigo, agora actualizado e com outro título, foi publicado originalmente na edição de Dezembro de 2014 da revista LER | This article, now updated and under a different headline, was originally published in the Portuguese magazine LER, December 2014 edition

Pais e Filhas do Irão: 10 retratos contra muitos preconceitos

A influente rede de fotografia LensCulture premiou Fathers & Daughters, de Nafise Motlaq, como “um dos melhores projectos de 2014”. Inspirada numa história de amor filial, a autora quis destruir esterótipos e restituir a humanidade tantas vezes negada às mulheres iranianas – como ela. (Ler mais | Read more…)

O pai de Newsha é engenheiro. “Ele está ausente de casa cinco dias por semana. Juntamo-nos, de um modo geral, aos fins-de-semana e aos feriados.” © Cortesia de Nafise Motlaq

O pai de Newsha é engenheiro. “Ele está ausente de casa cinco dias por semana. Juntamo-nos, de um modo geral, aos fins-de-semana e aos feriados”
© Cortesia de | Courtesy of  Nafise Motlaq

O pai de Fatemeh é empregado de escritório. “É um bom pai. Não sei o que posso adiantar mais.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Fatemeh é empregado de escritório. “É um bom pai. Não sei o que posso adiantar mais”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

Em 1999, no primeiro semestre de uma licenciatura em Jornalismo, Nafise Motlaq foi trabalhar em part-time para um diário de Teerão.

“Comprei uma câmara para que os meus artigos fossem acompanhados de imagens, e fiquei surpreendida quando os editores me disseram que gostavam mais das fotos do que dos textos”, disse-nos.

Quinze anos depois, um projecto desta fotojornalista iraniana intitulado Fathers & Daughters (Pais e Filhas), 10 retratos cada um com legendas curtas, foi premiado pela prestigiada LensCulture como um dos Top 50 Emerging Talents 2014 (“50 Maiores Talentos Emergentes de 2014”).

A LensCulture é das maiores redes mundiais de curadores de fotografia contemporânea, seguida por mais de meio milhão de pessoas.

Do júri que escolheu os vencedores de 2014 fizeram parte Jim Casper, director da LensCulture em Paris, Corey Keller, curadora de fotografia do Museu de Arte Moderna de São Francisco; Olivier Laurent, director da TIME Lightbox, em Nova Iorque; Sujong Song, da Bienal de Fotografia de Seul (Coreia do Sul); e Clare Grafik, responsável de exposições da Photographer’s Gallery, em Londres.

A série de Nafise Motlaq mereceu uma exposição, que decorreu em Outubro, em Barcelona (Espanha) e a LensCulture irá organizar outras, em datas a anunciar, em Nova Iorque e San Francisco, Tóquio, Seul e Paris. Aqui, foi igualmente seleccionada para o festival de fotografia La Quatrième Image.

Nafise deixou o Irão há uma década, para concluir, em Kuala Lumpur, um mestrado e o doutoramento em Comunicação Social, curso que agora lecciona na Universiti Putra Malaysia (UPM). Ser professora dá-lhe “flexibilidade necessária” para continuar a dedicar-se à fotografia.

“Depois de vários anos a viver fora do meu país, apercebi-me dos muitos estereótipos sobre os iranianos, em parte devido ao que a maioria dos media internacionais transmite”, explicou-me a premiada, numa troca de correspondência por e-mail.

“Com Fathers & Daughters tentei desconstruir uma concepção errada, mas também me inspirei numa história pessoal. Eu estava na Malásia quando fui informada de que o meu pai se encontrava em coma, com uma doença muito grave”, adiantou.

“Com base nos prognósticos dos médicos, restava-lhe pouco tempo de vida mas, felizmente, ele recuperou. Desde então, sinto que estabeleci uma relação de mais amor e maior proximidade com ele, apesar de eu continuar a residir no estrangeiro.”

O pai de Shadi é empresário. “Tem a alma de um rapazinho teimoso. É preciso saber lidar com ele.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Shadi é empresário. “Tem alma de rapazinho teimoso. É preciso saber lidar com ele”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Arezoo vende tapetes. “É um homem muito divertido. As pessoas riem-se com as suas piadas e brincadeiras nas festas de família.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Arezoo vende tapetes. “É um homem muito divertido. As pessoas riem-se com as suas piadas e brincadeiras nas festas de família”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

Assim que regressou ao Irão, após sete anos de ausência, Nafise dedicou-se de imediato à ideia que ambicionava concretizar. “O plano seria necessariamente simples, porque eu tinha apenas duas semanas para o concluir”, referiu.

As fotografias foram captadas em Teerão, a capital, em pequenas cidades e em duas aldeias, que a autora não identifica. “Isso não era importante. Crucial era que as imagens fossem a cores. Embora goste muito de fotos a preto e branco, não seria o estilo mais adequado a este projecto.”

Em vários países onde a população é maioritariamente muçulmana, ainda há quem acredite, sobretudo nas áreas rurais, que “a fotografia rouba a alma”. Foi difícil chegar a estes pais e filhas? “Não”, garantiu Nafise.

“A experiência em fotojornalismo ensinou-me como infundir confiança e a comunicar. O único problema, de facto, foi o tempo ser escasso, mas familiares e amigos ajudaram-me muito. Aos que se mostravam relutantes em se deixar fotografar mostrei-lhes imagens que já anteriormente havia recolhido, como prova de que os respeitaria como eles eram.”

O retrato “mais difícil” foi o do bibliotecário da mesquita, que aparece de túnica e turbante, porque os mais devotos “tendem a ser muito conservadores”, especificou Nafise.

“Desloquei-me a um centro de teologia, no sul de Teerão, e aproximei-me de algumas figuras religiosas até que um deles aceitou colaborar. Interessava-se pessoalmente por fotografia, elogiou o meu projecto e ajudou-me a contactar um pai e uma filha [Fatmeh] para esta série.”

Haverá quem se surpreenda com os retratos de filhas sem o tradicional hijab e algumas de mini-saia, mas quem visita o Irão comprova que longe vão os tempos castradores que se seguiram à Revolução Islâmica do Ayatollah Khomeini, em 1979, quando imperavam os longos chadores negros e o amor não se podia exprimir em público.

“Hoje, em centros comerciais, por exemplo, é vulgar encontrarmos raparigas como as gémeas numa das minhas fotos, com vestidos coleantes, ostensivamente maquilhadas e passeando de mãos dadas com os namorados” , exultou Nafise.

O pai de Zahra está desempregado. “Não sei o que dizer. Na verdade, não sei.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Zahra está desempregado. “Não sei o que dizer. Na verdade, não sei”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Katayoon é militar na reserva. “Os meus amigos acham que ele se preocupa demasiado comigo, mas eu vejo-o como um grande apoio na minha vida.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Katayoon é militar na reserva. “Os meus amigos acham que ele se preocupa demasiado comigo, mas eu vejo-o como um grande apoio na minha vida”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

Quem desafia os rígidos códigos puritanos não está ainda, todavia, isento de riscos. Desde o início de Outubro, na histórica cidade de Isfahan, “oito a nove mulheres” foram agredidas com ácido, lançado por homens que circulavam em motorizadas, informou um responsável local citado pelo diário The New York Times.

Os ataques seguiram-se à aprovação de uma lei que resguarda os “protectores dos valores islâmicos”. As motos são, habitualmente, usadas por elementos da temível milícia Basij, que reprimiu barbaramente os protestos de 2009 contra a reeleição do anterior Presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Um pragmático, Hassan Rouhani, ocupa, desde 2013, a chefia do Estado, mas as rédeas do poder absoluto continuam nas mãos do Supremo Líder, o ultraconservador Ali Khamenei.

Em Isfahan, um dos maiores centros turísticos, algumas das vítimas pulverizadas com ácido ficaram cegas ou desfiguradas.

No dia 20, mais de 2000 manifestantes (estimativas da agência semi-oficial Fars) saíram à rua protestando contra os atacantes, supostamente próximos da linha dura do regime, a que, supostamente, mais beneficiará com o isolamento do país.

Nafise não teme represálias pelo facto de algumas filhas em Fathers & Daughters (Newsha, Katayoon, Shadi, Shima e Lina) desatenderem as recomendações oficiais de “ocultar todas as formas do corpo”.

Para este projecto, a autora não achou que tivesse de pedir licença oficial, embora jornalistas precisem de autorização do Ministério da Orientação Islâmica, e acredita que, em 2015, quando voltar à pátria, manterá a liberdade de lhe dar continuidade.

O pai de Fatemeh trabalha na biblioteca de uma mesquita. “As pessoas pensam que não sou livre poro meu pai ser uma figura religiosa, mas isso não é verdade. Quando eu tinha 15 anos, ele autorizou-me a visitar a feira nacional do livro com os meus amigos.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Fatemeh trabalha na biblioteca de uma mesquita. “As pessoas pensam que não sou livre poro meu pai ser uma figura religiosa, mas isso não é verdade. Quando eu tinha 15 anos, ele autorizou-me a visitar a feira nacional do livro com os meus amigos”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Shima e Lina é gestor de projectos na área da construção civil. “O nosso pai estudou na Europa. Deu-nos toda a liberdade que os jovens ocidentais têm nas suas vidas privadas.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Shima e Lina é gestor de projectos na área da construção civil. “O nosso pai estudou na Europa. Deu-nos toda a liberdade que os jovens ocidentais têm nas suas vidas privadas.”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

Esta confiança pode ser explicada pelo facto de quer o projecto como o prémio da LensCulture terem sido ignorados pelos media nacionais.

“Nenhuma publicação no Irão fez qualquer referência ao meu trabalho, porque não é possível mostrar mulheres sem o hijab”, constatou. “No entanto, uma cadeia de televisão que opera a partir do exterior mas é vista por milhões de iranianos deu-me tempo de antena, e as reacções foram muito encorajadoras.”

“Por vezes, os artistas enfrentam dificuldades, sobretudo com os media ocidentais, porque títulos e imagens são escolhidos com o intuito de provocar e não de informar”, lamentou Nafise.

“Por exemplo, a foto das gémeas [Shima e Lina] tem merecido um destaque maior do que as restantes, mas o meu objectivo foi tão só o de mostrar a diversidade das famílias iranianas, sem valorizar umas mais do que as outras.”

O que encantou Nafise foi a “reacção maravilhosa” dos fotografados e dos que têm visto as fotografias “O impacto foi tremendo junto dos iranianos na diáspora, tantas vezes ostracizados devido aos estereótipos”, alegrou-se.

“O meu olhar não é positivo nem negativo. É apenas um espelho que reflecte uma parte do Irão. Tenho recebido, por via privada, não apenas mensagens a felicitar-me mas também fotos de outros pais e filhas. É comovente.”

“Os conceitos de amor, família, esperança numa vida melhor e mais estável são, seguramente, iguais em todas sociedades. Alimento o sonho de que o mundo possa vir a ser dirigido por artistas, porque eles sabem como unir as pessoas, ao contrário dos políticos.“

O pai de Mahsa é um veterano de guerra. “Sempre foi o meu ídolo, mas gostaria que fosse o pai que feliz e com esperança como era antes.” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Mahsa é um veterano de guerra. “Sempre foi o meu ídolo, mas gostaria que fosse o pai que feliz e com esperança como era antes”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Fatemeh é agricultor. “Ele trabalha muito. Ele trabalha tanto!” © Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

O pai de Fatemeh é agricultor. “Ele trabalha muito. Ele trabalha tanto!”
© Cortesia de | Courtesy of Nafise Motlaq

“O facto de ser mulher tornou este projecto mais fácil”, destacou Nafise, elogiando “o papel fundamental das fotógrafas iranianas, em número cada vez maior e a trabalhar em várias áreas”. No início da sua carreira, recordou, já havia mais mulheres jornalistas do que homens.

“Naturalmente, algumas ganharam notoriedade a nível internacional, como Newsha Tavakolian, mas há outras que se mantêm activas apenas no Irão, e isso não pode ser negligenciado. As mulheres que se dedicam à fotografia olham para o que as rodeia de uma forma especial.2

“A sua abordagem e perspectiva são, por vezes, diferentes das dos homens. No que toca a questões femininas, elas conseguem exprimir o que sentem de forma mais profunda.”

“Não gosto da divisão homens-mulheres”, ressalvou Nafise, “mas o Irão, como outros países em vias de desenvolvimento, ainda padece de um problema de machismo.”

“Felizmente, eu não seria o que sou hoje sem o apoio dos homens da minha vida: o meu pai, irmão, marido, amigos e colegas que são talentosos fotojornalistas. Trabalho numa área onde, a nível mundial, há mais homens do que mulheres, por isso é natural que o desafio seja maior para as mulheres.”

A iraniana que se define “uma autodidacta” experimentou mas não se deixou seduzir por outros meios visuais.

“Para ser honesta, há um poder mágico na fotografia que não se encontra noutras artes”, realçou. “Sinto uma enorme paixão pela fotografia de documentário, e adoro o papel do fotógrafo como narrador de uma história baseada na realidade.”

Um novo projecto está já em marcha, combinação de imagem e textos mais longos do que as legendas de Fathers & Daughters. Centrar-se-á na comunidade de invisuais da Malásia, país a que a iraniana dedicara anteriormente uma outra série, Islamic Fashion (“Moda Islâmica”), centrada numa indústria que vale quase 100 mil milhões de dólares por ano.

Depois da indumentária colorida de mulheres muçulmanas, porquê a escuridão da cegueira? “Interesso-me por aqueles que não conseguem ver o mundo em que vivem, porque é o oposto da fotografia, onde a luz é tudo”, justificou Nafise.

Nafise Motlaq espera continuar o projecto Fathers & Daughters quando regressar ao seu Irão natal
© thenutgraph.com

Este artigo foi publicado originalmente na revista VISÃO, em 27 de Novembro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on November 27, 2014