Palestina: O Estado pouco mais do que simbólico

Foi uma semana complicada para Netanyahu: o Parlamento Europeu votou a favor do reconhecimento de um Estado palestiniano. Os signatários das convenções de Genebra avisaram Israel de que tem de respeitar as leis humanitárias nos territórios ocupados. O segundo mais importante tribunal da UE retirou o Hamas da lista de grupos terroristas. (Ler mais | Read more…)

© Mohamad Torokman | Reuters

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A recomendação da Assembleia da República ao Governo para que Portugal reconheça a Palestina como Estado confundiu os sentimentos de Shahd Wadi. “Estou contente mas também desiludida”, diz-nos. “Foi uma pequena mudança, um sinal, um gesto simbólico mas ficaria mais feliz se tivesse sido aprovado um embargo de armas e um boicote económico a Israel.”

“Claro que é bom saber que o meu Portugal está a fazer algo pela minha Palestina”, explica a luso-palestiniana, nascida em 1983 em Alexandria, onde o pai, o escritor Farouq Wadi, conheceu a mãe, a egípcia Sana’a Moharram.

“A alegria inicial deixou-me depois angustiada: Que Palestina estamos a reconhecer? Um país dividido que não controla as suas fronteiras? Estaremos a negar o direito à autodeterminação, tendo em conta que muitos palestinianos não aceitam uma solução de dois Estados?”

O projecto de reconhecimento, aprovado no dia 12 deste mês pela Assembleia da República, foi apresentado pelo PS/PSD/CDS. Um outro, do Bloco de Esquerda – partido de cuja lista às mais recentes eleições europeias Shahd Wadi fez parte -, do PCP e dos Verdes, foi chumbado. Defendia que Portugal não deveria “estar dependente da coordenação com a União Europeia” porque “é um país soberano”.

Muitos parlamentares elogiaram uma decisão “histórica”, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, declarou que o Governo vai “escolher o momento mais adequado” para o reconhecimento. Shahd Wadi não esconde o desagrado: “Já se passaram 66 anos [desde que a Palestina foi dividida em dois Estados] e ainda temos de esperar?”

A independência foi oficialmente proclamada pela OLP em 1988, durante uma conferência em Argel. Nesta altura apenas 90 países apoiaram a declaração; hoje são 135. Na Europa Ocidental, o primeiro a reconhecer oficialmente um Estado Palestiniano foi a Islândia, em Novembro de 2011.

Em Novembro de 2014, esse reconhecimento foi oficializado pela primeira vez por um membro da UE – a Suécia. Com o mesmo propósito, votaram-se entretanto recomendações, não vinculativas, nos parlamentos do Reino Unido, Espanha, França e Irlanda.

© Mohamad Torokman | Reuters

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Na sexta-feira [19 Dezembro 2014], a pressão sobre Israel subiu de tom. O Parlamento Europeu, em Estrasburgo, votou esmagadoramente a favor do reconhecimento da Palestina, embora “no âmbito de uma solução negociada de dois Estados”. Na Suíça, numa rara sessão, boicotada pelos EUA, Canadá e Austrália, os signatários das várias convenções de Genebra advertiram as autoridades israelitas de que têm de respeitar as leis humanitárias nos territórios ocupados. E, em Bruxelas, o segundo mais importante tribunal da UE retirou o Hamas da lista de grupos terroristas.

Embora esta decisão dê tempo aos Estados membros para recorrerem, e se mantenham em vigor as sanções ao movimento que governa Gaza, o Governo de Benjamin Netanyahu reagiu enfurecido, voltando a invocar o Holocausto para lembrar a Europa das suas responsabilidades.

No campo árabe, a Jordânia iniciou negociações com os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU com vista à aprovação de um projecto de resolução que estipule Novembro de 2016 como a data limite para o fim da ocupação israelita da Palestina.

Em Washington, a porta-voz do Departamento de Estado Jen Psaki informou que a América, que várias vezes recorre ao seu poder de veto para proteger Israel, estaria disposta a apoiar uma proposta “sem medidas unilaterais que predeterminem resultado de negociações diplomáticas”.

Na voz e na história de Shahd Wadi há muita amargura. Os seus avós paternos foram expulsos do que ela identifica como al-Mizera’a-Lud, uma das “530 aldeias apagadas do mapa” após a criação de Israel em 1948. Refugiaram-se na Cisjordânia, onde o pai nasceu. Depois da guerra de 1967, a família foi de novo forçada a fugir, desta vez para a Jordânia.

O único irmão, mais velho, a residir na Itália, não teve direito a um passaporte palestiniano. “Este é um documento emitido pela Autoridade Palestiniana, desde os Acordos de Oslo de 1993, mas Israel, que tem de dar autorização prévia. Todos temos, menos o meu irmão, para que seja impossível a reunificação familiar na terra dos nossos antepassados.”

© Reuters

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Só aos 15 anos é que Shahd teve licença para visitar, pela primeira vez, a Palestina. Foi um momento emotivo que ela recorda em várias das suas intervenções públicas. Depois disso, voltou várias vezes, mas lamenta estar impedida de se deslocar à aldeia dos avós.

“Estou preocupada”, confessa a activista palestiniana que vive em Lisboa desde 2006. “Será que este gesto, por parte de Portugal e de outros países europeus vai tranquilizar a consciência da comunidade internacional e nada irá mudar no terreno? Estaremos a passar uma imagem errada de que existem progressos?”

Este é também o receio da judia Lisa Goldman, directora da Iniciativa Israel-Palestina na New American Foundation, em Nova Iorque. “O reconhecimento europeu da Palestina é apenas simbólico. A Europa é o maior parceiro comercial e um forte aliado de Israel. Talvez este gesto tivesse maior significado se a Europa deixasse claro que a contínua presença militar nos territórios palestinianos ocupados poderá ter consequências diplomáticas e económicas. Na forma actual, este reconhecimento só dá a ideia de que os europeus estão a fazer alguma coisa quando, na realidade, nada estão a fazer.”

“A solução de dois Estados parece estar ligada a um máquina de suporte de vida (alguns dirão em coma), mas o problema é que não há alternativas”, acrescenta Lisa Goldman, numa entrevista por e-mail. “Se o actual statu quo continuar por muito mais tempo, teremos um Estado único de facto com metade da população sem direitos, o que é moralmente inaceitável.”

Shahd Wadi, em Lisboa, fotografada por Beatriz Saraiva. © revistavialatina.com

Shahd Wadi, em Lisboa, fotografada por Beatriz Saraiva
© revistavialatina.com

Lisa Goldman @lisang Director of the Israel-Palestine Initiative at New America. Formerly in Jaffa, now in Brooklyn. @ Direitos Reservados | All Rights Reserved

Lisa Goldman; @lisang (Twitter)
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 20 de Dezembro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on December 20, 2014

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