Islão: Liberdade da fé e direito à sátira

O homicídio de três muçulmanos americanos reivindicado por um ateu que odeia todas as religiões e ataques de jihadistas contra cartoonistas e alvos judeus, em Paris e em Copenhaga, “para vingar Maomé”, intensificaram o debate sobre islamofobia, respeito pela fé e liberdade de expressão. Dois historiadores e um xeque sufi dão-nos a sua opinião. (Ler mais | Read more…)

Deah Shaddy Barakat, 23 anos, da sua mulher Yusor Mohammad Abu-Salha, 21, e da irmã desta, Razan Mohammad Abu-Salha, 19. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Da esq. a dir: Deah Shaddy Barakat, 23 anos, a sua mulher Yusor Mohammad Abu-Salha, de 21 (o casamento realizara-se há seis meses), e a irmã desta, Razan Mohammad Abu-Salha, de 19
© independent.co.uk

O fim da tarde de 10 de Fevereiro aproximava-se, quando agentes da polícia, alertados por um telefonema, apareceram no apartamento de Deah Shaddy Barakat, 23 anos, da sua mulher Yusor Mohammad Abu-Salha, 21, e da irmã desta, Razan Mohammad Abu-Salha, 19.

Os três jovens, muçulmanos americanos, foram encontrados mortos, cada um com vários tiros na cabeça. O agressor é um vizinho, Craig Stephen Hicks. Na sua página de Facebook, gabava-se de ser “um ‘anti-teísta’ [sic], que abomina todas as religiões”.

Inicialmente, a polícia local atribuiu o triplo homicídio a uma disputa sobre um lugar de parqueamento, num condomínio pacato a três quilómetros do campus universitário de Chapel Hill, na Carolina do Norte.

O psiquiatra Mohammad Abu-Salha, pai de Yusor (casada apenas há seis meses) e de Razan, tem a certeza de que se tratou de “um crime de ódio”. Há muito que a filha e o genro se queixavam de que Hicks os assediava, criticando o facto de ela usar hijab (lenço que cobre os cabelos das mais devotas).

O FBI só decidiu investigar depois de o Twitter ter sido inundado com as hashtags #ChapelHillShooting [Tiroteio em Chapel Hill] e #MuslimLivesMatter [As vidas muçulmanas têm valor], forçando também os principais media a reportar o sucedido.

O contraste na atenção ficou mais evidente quando, a 14 de Fevereiro, a maioria dos telejornais abriu os noticiários com um ataque em Copenhaga, visando o cartoonista sueco Lars Vilks que, em 2007, desenhou o profeta do Islão vestido como um cão.

Graças aos seus guarda-costas, Vilks escapou ileso ao atentado durante o qual foram disparadas cerca de 200 balas contra um centro cultural onde se celebrava a liberdade de expressão e demonstrava solidariedade com o semanário satírico francês Charlie Hebdo.

Há um mês, jihadistas ali assassinaram 12 pessoas – entre eles os mais famosos ilustradores do jornal (Charb, Cabu, Honoré, Tignous e Wolinski) – para “vingar Maomé”.

Seguiu-se, entretanto, um outro ataque a uma sinagoga quando decorria uma cerimónia religiosa. Foi morto um guarda de segurança. No centro cultural, perdeu a vida o realizador de cinema Finn Norgaard, e três agentes da polícia ficarem feridos

O casal de Chapel Hill nunca chegou a ver esta fotograia do seu casamento - chegou às mãos de familiares e amigos, que a partilharam no Facebook, depois de ambos terem sido assassinados. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O casal de Chapel Hill, Deah Barakat e Yusor, nunca viu esta fotografia do seu casamento. Familiares e amigos partilharam-na no Facebook, depois de ambos terem sido assassinados
© indianapolisrecorder.com

Os dois ataques em Copenhaga, onde há dez anos o jornal Jyllands-Posten causou furor ao publicar 12 cartoons de Maomé, um deles mostrando-o com um turbante em forma de bomba, foram obra de um só indivíduo [identificado como Omar Abdel Hamid El-Hussein, dinamarquês de 22 anos, que teria sido libertado semanas antes de uma cadeia onde esteve preso por ligação a vários “bandos extremistas”. Tinha em sua posse várias armas.]. A Polícia acabaria por o matar ao tentar capturá-lo [dois alegados cúmplices foram detidos].

Nos EUA, o assassino agiu sozinho. Craig Stephen Hicks, que a revista New Yorker descreveu como “fanático antirreligioso”, foi detido sem fiança.

Na sua casa as autoridades encontraram um pequeno arsenal. Era admirador dos “novos ateus”, como o escritor britânico Richard Dawkins, e citava-os muitas vezes. Acusado habitualmente de “fomentar a islamofobia”, Dawkins foi célere a condenar a mortandade.

A morte dos três jovens alarmou ainda mais os muçulmanos na América, que se queixam de serem, constantemente, “desumanizados como potenciais terroristas”. Mas também emocionou centenas de não muçulmanos que participaram em vigílias fúnebres.

Barakat, o marido de Yusor, tinha ascendência síria – organizara um serviço de voluntariado de apoio a refugiados. Estava no segundo ano do doutoramento em Medicina Dentária na Universidade da Carolina do Norte-Chapel Hill. A sua mulher deveria concluir este ano a licenciatura em Biologia e a cunhada sonhava ser arquitecta. Eram ambas alunas da Universidade Estadual da Carolina do Norte.

O cartoonista sueco Lars Vilks, aqui numa foto de Novembro de 2012, foi um dos alvos do ataque contra um café em Copenhaga. Ilustrador no jornal Jyllands-Posten, enfureceu muitos muçulmanos com a sua caricatura de Maomé vestido de cão. © Bjorn Lindgren | TT News Agency

O cartoonista sueco Lars Vilks (aqui numa foto de Novembro de 2012) foi um dos alvos do ataque contra um café em Copenhaga. Ilustrador no jornal Jyllands-Posten, enfureceu muitos muçulmanos com a sua caricatura de Maomé vestido de cão
© Bjorn Lindgren | TT News Agency

Nem o triplo homicídio na América [o Ministério Público decidiu entretanto pedir a condenação à morte do suspeito] nem o ataque na Dinamarca haviam ocorrido quando pedi entrevistas a dois historiadores e ao presidente da Associação dos Muçulmanos Britânicos (AOBM). No entanto, as suas respostas a várias questões, enviadas por e-mail, talvez ajudem a entender o debate sobre Islamofobia, liberdade de expressão e respeito pela fé dos outros.

Comecemos com o Xeque David Rosser-Owen, Amir (líder) da AOBM, a mais antiga organização de muçulmanos britânicos, criada em 1889.

“O desagrado em relação aos cartoons ridicularizando o Profeta foi expresso por todas as comunidades muçulmanas, e até por não muçulmanos, porque há o sentimento de que o Charlie Hebdo ultrapassou os limites do aceitável – mas nada justifica reacções violentas”, disse o galês de Swansea, que deixou a Igreja Cristã Presbiteriana para ser o Xeque Daoud, Califa Naqshbandi, a maior ordem espiritual do Sufismo.

“Não há no Islão um conceito de blasfémia como o do Cristianismo. A existência de uma Lei de Blasfémia no Paquistão, por exemplo, é um legado do mandato britânico na Índia que foi, posteriormente, incorporado no Código Penal indiano para evitar ou controlar revoltas intercomunitárias.”

“Também é discutível se as representações gráficas do Profeta são ou não permitidas. Deveria haver, contudo, maior consciência de que a liberdade de expressão não pode ser liberdade de incitar ao ódio. Muitos muçulmanos sentiram-se magoados com a natureza grosseira das caricaturas, mas é também sua convicção que ao rejeitarem [os cartoons] não estão a justificar ofensas corporais e homicídio.”

“Não nos esqueçamos de que há apenas uma geração os jornais em língua alemã Völkischer Beobachter e Der Stürmer publicavam cartoons igualmente instigadores de ódio”, refere o xeque Daoud. Der Stürmer, por exemplo, propriedade de Julius Streicher, destacado membro do Partido Nazi, publicou um número especial em 1934 com caricaturas de judeus a extraírem sangue de crianças cristãs para usarem nos seus rituais.

Streicher, que autorizou artigos a favor do extermínio da “raça judaica”, foi condenado por crimes contra a Humanidade e executado após a II Guerra Mundial.

People lay flowers outside a synagogue where an attack took place in Copenhagen, Sunday, Feb. 15, 2015. Danish police shot and killed a man early Sunday suspected of carrying out shooting attacks at a free speech event and then at a Copenhagen synagogue, killing a Danish documentary filmmaker and a member of the Scandinavian country's Jewish community. Five police officers were also wounded in the attacks. © Rumle Skafte | AP|DENMARK OUT

Flores depositadas junto à sinagoga de Copenhaga que, durante uma cerimónia religiosa, foi alvo de um atentado por parte do mesmo suspeito que disparou centenas de balas contra um centro cultural onde decorria um encontro de apoio à liberdade de expressão. Nos dois ataques foram mortas duas pessoas: um cineasta dinamarquês, no primeiro, e um membro da comunidade judaica, no segundo
© RumleSkafte | AP

O canadiano André Gagné, professor de História dos Primeiros Cristãos na Universidade de Concórdia, em Montreal, (Quebeque), é peremptório: “As ideias têm de ser abertas à crítica e ao ridículo”, frisa. “Não há nada sacrossanto nem intocável.”

“Numa sociedade secular, o limite à liberdade de expressão seria o incitamento a matar directamente outros indivíduos. Os que ameaçam a segurança de outrem devem ser denunciados às autoridades e presos – mas as suas palavras têm de ser inequívocas. Não contam questões sentimentalistas como ferir os sentimentos ou fazer troça de alguém.”

E Gagné sublinha: “Nada é sagrado em si próprio. Tradições e comunidades atribuem ‘santidade’ a livros, rituais, pessoas, seres sobrenaturais e lugares. O que é ‘sagrado’ para um grupo de indivíduos não é para outros.”

“Os que usam a sátira não consideram que o objecto da sua crítica seja de algum modo ‘sagrado’. É incorrecto que os muçulmanos vejam as caricaturas de Maomé como ‘incitamento à violência’, porque ninguém apelou a que fossem cometidas acções violentas contra eles.“

O historiador que também investiga a ascensão do “Novo Ateísmo”, adianta: “Ouvimos proponentes do ‘Islão moderado’ dizer que acções violentas não reflectem o Islão ‘verdadeiro’. Contudo, no que toca a ideologias religiosas, as pessoas gostam de escolher dos textos sagrados o que se adequa mais às suas necessidades e justifica o seu modo de vida.”

“Não é surpresa ouvir dizer que a religião é ‘pacífica’ e que os que agem violentamente interpretam mal a essência ‘pura’ das tradições. Mas os livros sagrados contêm bem e mal. No Médio Oriente, os muçulmanos que travam guerras uns contra os outros clamam agir de acordo com o Islão ‘verdadeiro’, mesmo que pertençam a facções adversárias no que diz respeito à tradição.”

Para que os muçulmanos possam libertar-se dos que aprisionaram o Islão como “religião de guerra e não de paz”, André Gagné considera que é obrigatório começar a educar os líderes das comunidades. “As sociedades ocidentais seculares têm de exigir aos pregadores em mesquitas e dirigentes de centros comunitários diplomas universitários reconhecidos”, defende.

“Por exemplo, em França, o antropólogo e filósofo Malek Chebel, no seu livro mais recente, Changer L’Islam: Dictionnaire des réformateurs musulmans des origines à nos jours (“Mudar o Islão: Dicionário dos reformistas muçulmanos das origens aos nossos dias”), destaca a importância de treinar imãs [os que conduzem a oração] “profissionais”.

Muitos grupos religiosos têm vindo a exigir líderes com diplomas universitários relacionados com a sua área de estudo. Sem formação não deve haver certificação nem reconhecimento!”

Omar Abdel Hamid El-Hussein, dinamarquês de ascendência palestiniana, 22 anos, que teria sido libertado semanas antes por ligação a vários bandos extremistas. Em sua posse foram encontradas várias armas]. © www.bt.dk

Omar Abdel Hamid El-Hussein, dinamarquês de 22 anos, autor dos dois ataques em Copenhaga, teria sido libertado semanas antes da cadeia onde esteve preso por ligação a vários “bandos extremistas” 
© http://www.bt.dk

Daoud Rosser-Owen já observa mudanças: “Muitos dos novos imãs e líderes comunitários no Reino Unido têm agora mais educação superior (incluindo em Ciências Islâmicas) do que tinham os primeiros; e num número crescente de mesquitas os sermões, nas preces de sexta-feira, passaram a ser feitos em inglês.”

“A maioria dos muçulmanos migrantes na Europa, América, Austrália e Nova Zelândia pertence a uma ou outra ordem sufi e alguns provêm de aldeias onde a cultura local está enraizada no Sufismo.”

“Assim”, acredita, “não há ligação às actividades de organizações radicais muçulmanas. O mundo árabe, pelo contrário, sofreu mais do que muitas áreas do mundo muçulmano das políticas dos poderes coloniais (em particular da França e da Itália) e dos regimes sucessores que eles deixaram e se perpetuaram. Associado a isto tem estado a propagação, facilitada pela riqueza petrolífera, do Wahhabismo da Arábia Saudita, um desvio extremamente herético do Islão.”

O alemão Reinhard Schulze, professor de Estudos Islâmicos e Filologia Oriental na Universidade de Berna (Suíça), também enfatiza a necessidade de os muçulmanos se interrogarem sobre o que estão a fazer ao Islão: “Antes de mais, as elites intelectuais devem reconhecer que são responsáveis, não pelos assassínios cometidos por terroristas, mas pelo facto de terem perdido o controlo sobre uma gestão pluralista do Islão.”

“Intelectuais muçulmanos têm de se esforçar por recuperar uma autoridade discursiva no contexto islâmico”, acrescenta.

“Como este problema também é, em princípio, relevante, para as instituições judaicas e cristãs pensadores e figuras públicas muçulmanas não devem ficar isolados mas ser integrados num debate geral sobre como lidar com a actual desintegração das tradições religiosas.”

© Associated Press

Schulze, autor de A Modern History of the Islamic World, alerta para uma “necessidade urgente de memória”, evocando os anos 1960, “quando havia um debate livre sobre o contexto histórico do Islão no mundo árabe-muçulmano.”

Ele responsabiliza Estados, como o Egipto de Nasser e a Síria do partido Baas, por terem dado demasiado poder a pregadores e mesquitas conservadoras, forçando ao exílio os pensadores livres e fomentando um vazio que tem sido preenchido pelo Wahhabismo.

“A ‘Primavera Árabe’ foi um ponto de partida”, acredita o historiador germânico. “Pela primeira vez em quase 50 anos, a nova geração em muitos países árabes tentou restaurar a hegemonia da sociedade civil sobre o Estado.”

“No âmbito desta aspiração, o movimento de protesto criou um novo público crítico e pluralista que permitiu liberdade de expressão e troca de ideias que até então haviam sido banidas da esfera pública. É aflitivo assistir como o entusiasmo esmoreceu devido a pontos de vista conservadores da geração parental para quem ‘lei e ordem’ estão acima de tudo.

“O vazio social criado pelas elites pró-Estado nos últimos 30 anos só pode ser preenchido por uma política que se centre na integração, oferecendo liberdade, escolha, segurança social e planos que valham a pena ser vividos”, concluiu Schulze.

“A justificação destes valores que certificam integração e solidariedade sociais podem, igualmente, basear-se em pontos de vista religiosos mundiais. E aqui entra de novo o Islão.”

“Intelectuais muçulmanos também serão confrontados com o problema de como justificar determinada ordem social, democrática, cívica e pluralista. E terão de aceitar o facto de tal como a justificação religiosa não legitimar qualquer forma de hegemonia discursiva, formas não religiosas de justificação desses valores poderem clamar por igual validação.”

Shaikh David Rosser-Owen, Amir da Associação dos Muçulmanos Britânicos ©

Shaikh David Rosser-Owen, Amir (líder) da Associação dos Muçulmanos Britânicos, pertenceu à Igreja Prebisteriana do País de Gales, Reino Unido, onde nasceu, até se converter ao Islão

André Gagné, professor de História dos Primeiros Cristãos e Literatura na Universidade de Concórdia, em Montreal, (Quebeque). Aqui estuda também o "Novo Ateísmo" e questões relacionadas com religião e violência. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

André Gagné, professor de História dos Primeiros Cristãos e Literatura na Universidade de Concórdia, em Montreal, (Quebeque)

Oalemão Reinhard Schulze, professor de Estudos Islâmicos e Filologia Oriental na Universidade de Berna (Suíça) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Reinhard Schulze, professor de Estudos Islâmicos e Filologia Oriental na Universidade de Berna (Suíça), é também autor do livro A Modern History of the Islamic World

Este artigo, com outro título e agora actualizado, foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Março de 2015 | This article, under a different headline and now updated, was originally published in the Portuguese magazine ALÉM-MAR, March 2015 edition

“Muslim intellectual elites lost the control over a pluralistic governance of Islam”

Reinhard Schulze is Professor of Islamic Studies at the University of Bern, Switzerland. His book A Modern History of the Islamic World got excellent reviews. The author has been praised for “avoiding Orientalism”, and for the ability to tell “a coherent and compelling story”. A scholar of Islam and Islamism, he gave me this interview, that was included in an article centred on religion, violence and freedom of expression. (Read more…)

Isaiah’s vision of Jesus riding a donkey and Muhammad riding a camel, al-Biruni, al-Athar al-Baqiyya ‘an al-Qurun al-Khaliyya (Chronology of Ancient Nations), Tabriz, Iran, 1307-8. © Edinburgh University Library | tarekfatah.com

Isaiah’s vision of Jesus riding a donkey and Muhammad riding a camel, al-Biruni, al-Athar al-Baqiyya ‘an al-Qurun al-Khaliyya (Chronology of Ancient Nations), Tabriz, Iran, 1307-8
© Edinburgh University Library | tarekfatah.com

The “Islamic world” has been under severe criticism since the 9/11 attacks and more recently the ones against a school in Pakistan and the Charlie Hebdo newspaper in France. Countless Muslim scholars and believers condemned these actions and their perpetrators, clearly distinguishing between terrorism and religion, but they always find themselves in a position of having to apologize. Their voices have not been heard. Why?

The simple reason is, that the Western non-Muslim public still expects that there should be something like an ex cathedra-opinion representing the totality of Islam.

The public considers these voices as individual statements that do not exercise any influence upon the Muslim communities. In addition, many of the voices of Muslim scholars and thinkers are framed in a language that does not met with the expectations of the non-Muslim public. And finally, the public often does not consider these statements to have any relevance.

The Koran, the Hebrew Bible or the New Testament have been presented (and used) as “war manuals”. Are they books that justify killings “in the name of God”?

Taken these texts as they are it is extremely difficult to use them as ‘war manuals’. They always have to be complemented by other exegetic texts or traditions in order to establish a discourse on justifying war. Here the Muslim jurists heavily relied on the Prophetic tradition and on ‘common law’.

The rules derived from that corpus constituted what Muslim jurists called siyar (warfare). They mainly describe the legal frame of justified warfare.

In Christianity Augustinus [also known as Saint Augustine] justified war also by using earlier traditions Cicero. Pope Urban II at the Council of Clermont 1096 defined a Holy War stating that killing in war is a religious act, in order to achieve indulgence of all sins and sin penalties.

Finally Thomas Aquino and Gratian codified the concept of a bellum sanctum. This again shows that all religious texts may be used to justify war.

Beheadings and limb amputations are still punishments performed in Saudi Arabia, women continue to be stoned to death for adultery in Nigeria, and in Iran gays risk to be buried alive in the desert… The so-called “Islamic State” has just set on fire a Jordanian pilot, generating a theological controversy over this “sentence”: was it was or not forbidden by Prophet Muhammad? While the brutal murder of the pilot generated an overwhelming condemnation, the attack on Charlie Hebdo divided the Muslim community, some of their members justifying that Muhammad’s representations are “blasphemous” in any form and even more as in “insulting cartoons”. What is your assessment regarding both cases?

The killing of the Jordan pilot Mu’adh Kasasbeh was seen as a result of a new dynamic of transnational violence in the Islamic world. The Charlie Hebdo-killing happened in Paris outside the nearer reach of a Muslim public.

Though nearly all important Islamic institutions condemned and deplored the Paris shootings they reviewed it as part either of a western home grown terrorism or of a murderous attack of al-Qa’ida on ‘the West’ (or both).

Kasasbeh’s killing, however, took place within the frame of an Arab Middle Eastern setting, acted out by terrorists grown ‘on the spot’. Thus the Arab public considers to be directly hit by the IS-terrorism and perceives IS [the so-called ‘Islamic State’] as a real threat.

Ka‘ba, al-Darir, Siyer-i Nebi (The Biography of the Prophet), Istanbul, Ottoman lands, 1595-96. © Istanbul Topkapi Palace Library | tarekfatah.com/

Ka‘ba, al-Darir, Siyer-i Nebi (The Biography of the Prophet), Istanbul, Ottoman lands, 1595-96
© Topkapi Palace Library | tarekfatah.com

You have been emphasizing the need of Muslims to ask themselves what they are doing with their Islam, but as Islam is not monolithic and does not have a clerical body to define a single interpretation of the sacred texts, how can this reflection be prepared?

First of all, Muslim intellectual elites should recognize that they have a responsibility not for the terrorists’ killings, but for the fact that they lost the hegemony or control over a pluralistic governance of Islam.

They will have to deal with the fact that ultra-religious forms of self-empowerment destroys the hitherto common hierarchical order of Islamic public which had privileged educated Muslim scholars and which had prevented that certain small sects could justify their ‘Islamicity’ without being controlled by a critical public discourse.

Having recognized that the coherence of the modern, yet old system of Islamic authority is vanishing Muslim intellectuals will have to struggle for winning back a discursive authority over the Islamic frame.

As this problem in principle is also relevant to Christian and Jewish institutions (churches, communities etc.), Muslim thinkers and public figures should not be left alone but integrated into a general debate on how to deal with the current disintegration of religious traditions.

There is an “urgent need of memory,” you said, evoking the 1960’s “when there was a free debate about the historical context of Islam in the Arab-Muslim world”. You blame states, like Nasser’s Egypt and Assad’s Syria, for giving too much public power to mosques and conservative preachers mosques, forcing to exile the freethinkers and fomenting a void that was fulfilled by Wahhabism. What can be done to revert this scenario?

The ‘Arab Spring’ was a starting point. For the first time sense nearly 50 years, the youth generation in many Arab countries tried to establish a new societal autonomy. The core meaning of their protest was to restore the hegemony of the civil society over the state.

As part of this aspiration the protest milieu created a new pluralistic and critical public, which allowed the free expression and exchange of ideas and ideals, and even ideas that hitherto had been banned from the national public.

I for example think of the TV late night show of the Egyptian comedian Bassem Yusuf (November 2011 – June 2014). It is bitter to watch the breakdown of the enthusiasm, which was mainly due to the etatist and conservative world’s view of the parental generation, which put “law and order” first.

The social void created by the etatist elites during the last thirty years can only be filled by a policy which focusses on social integration offering freedom, choice, social security and schemes of life worthy to live.

As we know, the justification of those values, which certify social integration and social solidarity, can also be based on religious world’s views.

Here Islam comes in again. Muslim intellectuals also will be confronted with the problem how to justify such a civic, pluralistic and democratic social order. And they will have to accept the fact that as a religious justification does not legitimize any form of discursive hegemony, non-religious forms of justification of these values can claim an equal validity.

The Prophet Muhammad receives revelations at Mount Hira, al-Darir, Siyer-i Nebi (The Biography of the Prophet), Istanbul, Ottoman lands, 1595-1596. © Istanbul Topkapi Palace Library | tarekfatah.com

The Prophet Muhammad receives revelations at Mount Hira, al-Darir, Siyer-i Nebi (The Biography of the Prophet), Istanbul, Ottoman lands, 1595-1596
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You do not appreciate the role of the Internet and the virtual debates in a “reform process”. But they have been a tool for many Muslims to denounce human rights violations in their own countries or, for instance, to assume themselves publicly as atheists. What would be the proper way to conduct the so-called Islamic exegesis? “The moral success of Islam depend on the education of elites and their capacity to find a consensus inside the societies,” you said. How do you envisage that endeavor?

Indeed, the Internet has a Janus-faced character. On the one hand, it has freed information from the control of states or governments; on the other hand, it has created a landscape of possibilities for self-empowerment, which is not framed anymore by a qualified intellectualism or a qualified world of knowledge. But one cannot, of course turn back the hands of time.

The post-modern forms of information distribution and consumption do exist also within the Islamic context. Yet it would be desirable that the intellectual standard of education, which also valorizes criticism and creativity, is brought back to the Islamic realm.

As long as Islam is considered just a set of traditions to be learnt there will be not effort to use Islam as a mean for justifying rational criticism.

Here again, the state comes in: as long as the state elites mistrust ‘their societies’ they will consider Islam as a fixed set of established traditions. But if the state elites take the responsibility to represent an ‘open society’ (Karl Popper) they will create a new educational realm which will be part of the socialization of the young generation and which will offer to them symbolic and cultural capital upon which they can build their plans of life.

As long as a teacher or an academic earns less than a taxi driver, these positions will not be attractive enough to earnestly work on the Islamic traditions.

The Prophet Muhammad sits with the Abrahamic prophets in Jerusalem, anonymous, Mi‘rajnama (Book of Ascension), Tabriz, ca. 1317-1330. © Istanbul Topkapi Palace Library | /tarekfatah.com

The Prophet Muhammad sits with the Abrahamic prophets in Jerusalem, anonymous, Mi‘rajnama (Book of Ascension), Tabriz, ca. 1317-1330
© Topkapi Palace Library | /tarekfatah.com

In your interview to the French newspaper Le Temps there are three statements that I found very interesting. Can you, please, clarify each one of them:

A) Jihad was an imported concept after the XIX century, following the standards of European ideas of that period”.

This touches the history of the jihad I cannot recount the whole story here, so I just want to point at some issues:

The early koranic tradition clearly saw the “struggle following the pass of God” as part of an apocalyptic aspiration to regain the sanctuary of Mecca. Semantically it was an opposite concept of hijra “emigration”. That is why in the Koran references to jihad and hijra are often put in a complementary form (“those who emigrated and struggled”). With the occupation of Mecca 630, this basic meaning of jihad became obsolete.

Muslim jurists of the 8th and 9th century preserved the notion jihad and derived its rules from the Prophetic traditions. It remained, however, a rather abstract concept and was seldom applied to justify actual forms of militant fighting. Mostly, it was used to legitimize fighting other Muslim communities (for example, by the Khawarij, later the Muwahhidun in the Maghreb).

Even during the crusades, Muslim elites did not use the term to define their fighting with the Christian conquerors. This fact was deeply deplored by some orthodox preachers in Egypt and Syria who criticized that no Muslim ruler ever called their fighting jihad.

From the early modernity on, jihad was just another term for ‘war’. That is why after the establishment of Cabinet governments in the Muslim world (18th/19th century) a war ministry was usually and simply called ‘ministry of jihad“’’. At that time, the term had lost all religious connotations. Symbolically, jihad referred to ‘a justified war’.

Puritan movements (for example, Wahhabi in Arabia, ahl-I hadith in India) continued to use the term jihad to interpret their wars against their enemies as a ‘war against idolatries’ (jihad), again addressing mainly Muslim communities (and Sikhs).

In the late 19th century, the Ottoman Empire reactivated the religious connotation of jihad in a nationalist sense: Now, jihad was the “holy war” to defend the Ottoman nation.

At the beginning of the 20th century, German advisors to the Ottoman government (Max von Oppenheim and others) urged the Ottomans to use jihad as a mean to mobilize non-Ottoman subjects in the European colonies to rise against the Powers [in the I World War]. For this they heavily stressed the Islamic religious idea and translated jihad as “holy war”.

Since this 1990s jihad was again reinterpreted by preachers like Azzam who maintained that jihad is part of the Islamic cult and that only jihad can establish the Islamicity of Muslims.

The Prophet Muhammad enthroned, surmounted by angels, and surrounded by his companions, Firdawsi, Shahnama (Book of Kings), probably Shiraz, Iran, early 14th century. © Freer/Sackler Museum of Asian Art | Smithsonian Institution | tarekfatah.com

The Prophet Muhammad enthroned, surmounted by angels, and surrounded by his companions, Firdawsi, Shahnama (Book of Kings), probably Shiraz, Iran, early 14th century
© Freer | Sackler Museum of Asian Art | Smithsonian Institution | tarekfatah.com

B) Sharia, a concept that engender a lot of fear in Western countries with Muslim communities, “is only the jurists’ interpretation of what can be the rule in certain societies and eras; an intellectual product but not a divine law”.

In the 9th and 10th century, Muslim jurists tentatively assembled their rulings under the umbrella term Sharia. For them it was evident that Sharia was nothing but the totality of their own interpretations of the religious and social order and oft its rules.

They never claimed that the Sharia is God’s law on earth. Early puritan (and nominalist) scholars like Ibn Taymiya stated that as the Sharia should be based on a more or less literal interpretation of the Koran and the Prophetic tradition the Sharia should come close to what God wants.

C) It is not possible an “Islamic democracy” even if some Muslim scholars admit a kind of “German secularism” that safeguard the respect of rule of law and of religion.

Democracy is an order of society, not of religion. Though some authors maintain that there were “democratic religions” (sometimes referring to American Baptists) and even that democracy needs religion (Brendan Sweetman) it is clear that no religion is inherently a liberal or democratic religion.

In fact, however, there seems to be a consensus among secularists (not laicists) that religion has to right to justify democracy by claiming that religion offers a positive genealogy of values closely linked to the democratic order.

In a secular order such claims are considered to be instrumental in order to certify social integration, though quite a lot of secularists stress that this validity claim is ahistorical.

The same, of course, is true for any claim for an “Islamic democracy”. Thus a democracy cannot be either Christian or Islamic per se, but can only be justified by referring to Christian or Islamic genealogies.

Professor Dr. Reinhard Schulze © wissenschaftsrat.de

Professor Dr. Reinhard Schulze, author of A Modern History of the Islamic World
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Part of his email interview was included in an article published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, March 2015 edition

There might be as many atheists as Christians in Egypt

A “Belgian-Egyptian journalist and writer who has been based in Cairo, Brussels, Jerusalem and Geneva”, Khaled Diab “has spent half his life in the Middle East and the other half in Europe. His blog is www.chronikler.com. Follow him on Twitter @DiabolicalIdea“. This is an interview (for a an article published in Portuguese) on the growing Arab atheist movement. (Read more..)

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Will you please detail your “conversion process” to be an atheist/agnostic?

It was not exactly a “conversion” since that tends to imply that someone won me over. It was more of a gradual evolution. Ever since I was very young, I’ve had doubts about religion. Rather than subsiding with time, as some predicted they would, they only multiplied.

I was never much of a practising Muslim and for years I deferred my doubts and escaped some of the dilemmas by describing myself in vague terms, like “secular Muslim” or “non-practising” or “progressive” or even “lapsed”.

But there came a time when these delaying tactics proved untenable and I decided to face up to the truth that I no longer believed in Islam or any other religion.

Have you ever been afraid of “coming out”? And when you did, what was the reaction in the Arab states?

No, I was never really afraid, but I was anxious and apprehensive about the reactions I would get, especially from family and friends. I first came out to friends, and they were generally understanding and supportive even if they didn’t share my convictions.

It took me longer to come out to family and I was sometimes nervous about how they’d react to my sceptical writings. Like with closeted gays, I think some in my family were conscious of my beliefs, especially my mother.

Even though some relatives have tried to guide me towards religion, my family has been sympathetic. Though it pains them that I don’t believe, they are enlightened enough to realise that my convictions don’t make me a bad person. And I’m very pleased that I remain on good terms with my family, despite my beliefs.

The public domain is where I feel the closest to being afraid. When I first started writing publicly about my atheism/agnosticism, I wondered wether any zealots would take me up as their cause. The first article I published on the subject, in The Guardian some years ago, received a surprisingly positive reaction.

A couple of years ago, I took the psychologically significant leap of writing about my convictions for an Egyptian newspaper. Despite the provocative title (Confessions of an Egyptian infidel), the reaction was again overwhelmingly positive, and the article was one of the most-read that year.

A long essay I wrote about Arab atheists for a Lebanese magazine won a major award. It probably helps that I write in English, as English-speaking Arabs tend to be less conservative and regimes care less about material written in English, but there is a definite shift in attitudes.

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Atheists (freethinkers or “heretics”) have been present throughout Islamic history but, nowadays, this “phenomenon” is being described as something completely unprecedented. Can you explain since when Arab atheists are becoming more visible and why?

In recent decades, the conservative current in the Arab world and Islamophobia in the West enabled the emergence of a narrative in which conservatives on both side promoted the idea that “they” are completely different to “us”.

Such simplistic and reductionist ideas led to a burying of complexity. In addition, the increasing vocalness of Islamists intimidated many atheists and sceptics, forcing the underground.

Even secular regimes, keen to boost their pious credentials and afraid of the subversiveness of free thought, crushed communists and other secular sceptics. In the years leading up to and since the Arab spring, atheists and secularists in general have been working in a number of Arab countries to reassert their presence.

What evidence do you have that Arab atheism is growing, mainly in Egypt, your home country? Are their numbers really increasing (any precise data?) or are they only more visible than in the past?

It is very difficult to answer this question, since no reliable statistics are gathered on the matter and Arab states demand that citizens be registered as members of a faith community, usually one of the Abrahamic traditions.

For Egypt, estimates have ranged from the ridiculous estimate of exactly 866 atheists to as high as 10-15% of the population, which would mean there are as many atheists as Christians [around 10%] in Egypt.

One surprising reality is the apparently large minority of atheists in the cradle of Islam, Saudi Arabia, which has prompted the fundamentalist government there to classify atheists as “terrorists” which is just totally surreal.

[Up to three million Egyptians are atheists, claim the Cairo-based newspaper al-Sabah newspaper. This implies that a significant proportion of Egypt’s 84 million population have no religion.]

What does motivate the abandonment of one’s faith in societies that we tend to characterise as deeply religious? Why some atheists openly admit that they are “un-believers” and others hide for years their convictions? 

Arab societies are deeply religious only in the sense that religion is very public. However, whether this reflects the entire population’s actual convictions is open to question. In such a context, openly admitting your scepticism or unbelief carries risks.

Even in the most secular Arab societies, atheists there run the risk of being ostracised or disowned by their families if they come out, so some keep quiet rather than face the prospect of being shunned or alienated from their families or communities.

There is also the risk of prosecution or persecution. [The most recent case was the one of an Egyptian university student, Sherif Gaber, 22. He had been originally arrested during a raid to his house in 2003 but later released on bail. On February 16, 2015, he was sentenced by a court on charges of “contempt of religion relating to activities on campus and atheists statements online”.]

In Egypt, though there is no law outlawing atheism and the constitution ostensibly guarantees freedom of belief, there are laws against “insulting” religion, which have been used to jail some atheists or to harass them. Then there’s the fear of upsetting violent zealots. In religiously conservative countries, there’s the fear of being tried for apostasy.

Is atheism exclusive of a disillusioned young generation and of the middle class? What are the main reasons – amongst Muslim and Christians alike – of the apparent disenchantment with religion?

There is  a myth that atheism is a middle- and upper-class phenomenon and mostly affects youth. But my research has shown these assumptions to be a fallacy. There are atheists of every social background, class, age and gender. The differences relate to the barriers against coming out and the varying social stigma attached to it.

"Atheism is a non-prophet organization" Quoting George Carlin

“Atheism (is) a non-prophet organisation”, George Carlin said.

In Brian Whitaker’ book Arabs without God, there is a very interesting argument: that while Western atheists are more engaged in a “science-vs-religion debate”, the Arab atheists tend to focus more on the “apparent unfairness of divine justice”. Do you agree, and can you elaborate?

Somewhat. There are huge variations in the West too. Northern and Western Europe are a lot less religious than the Americas and southern Europe.

I think the most important difference between the West and Arab countries is not in the nature of the debate but in the fact that Arab atheists must make a conscious decision to abandon their faith and yo s im against the current of society.

In the West, you have quite a number of people who are raised in atheist households. In addition, because religion has become private and often irrelevant many Westerners don’t give it much thought and can live their lives as vague believers or vague unbelievers.

The decline of public religion has enabled those atheists who actually think about such matters to engage in abstract intellectual debates. In addition, science is generally more important in the West.

That said, I know Arab atheists who abandoned religion due to its scientific and rational inconsistencies, rather than due to the unfairness of religion. It’s a complex picture.

Also, Arabs tend to be better versed in religion, so they have an better awareness of the internal inconsistencies of religion, whereas westerners often don’t get a religious education, so are more likely to focus more on scientific issues.

How do you explain what looks like a trend and an apparent contradiction that, while Westerners (Europeans and Americans) of Muslim origin or new converts to Islam are increasingly attracted to groups like ISIS/Daesh and Al-Qaeda, the number of atheists in Arab States is allegedly rising?

I’m not sure this is true. It is in some instances but not all. For example, France probably has the most secular Muslim population in the world, but anti-immigrant sentiment and the sensationalist media divert attention from this reality.

That said, there are conservative tendencies among western Muslims which relate to their marginalisation, a need to preserve their identity and traditions, which empowers conservatives, and a quest for “authenticity”, and a rejection of rejection.

In the Arab world, this search for authenticity is less pressing and many Arabs have been alienated by the stifling Islamism seeking to control their lives.

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Do you make any distinction between Arab atheists and the “new atheists” such as Sam Harris and Richard Dawkins who have been accused of Islamophobia?

Arab atheists tend to look at the Abrahamic religion as belonging to the same rotten apple cart, or have a soft spot for their Islamic heritage.

Many of the new atheists, especially Sam Harris, see Islam as being especially evil and Christianity as the lesser of all religious evils.

At what extent events like the recent attack against the French satirical magazine Charlie Hebdo will compel Arab atheist to be more reclusive, in order to better protect themselves?

Hard to say.

In a region, where religion, mainly Islam, permeates every aspect of human life, how do you compare the treatment reserved by society and the state to atheists compared with the one towards religious minorities or sects, like de Bahá’ís, for instance?

In general, Arab societies have an easier time handling people with a religion than those without.

Khaled Diab

Parts of this interview, now updated, were included in an article published in the Portuguese news magazine VISÃO, on February 5, 2015

Ateísmo: A nova “religião” no Médio Oriente

É provável que o número de ateus no Egipto possa ter ultrapassado o de cristãos. E que na Arábia Saudita eles sejam “a maior minoria”. Como explicar este fenómeno? Entrevistas com Khaled Diab e Brian Whitaker, autores de um ensaio e um livro sobre “os árabes sem deus”. (Ler mais | Read more…)

O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, está reflectido nos óculos de um crente, em Amã, na Jordânia. Um interesse crescente por obras não religiosas, de autores como Sartre e Camus, têm contribuído para que muitos no Médio Oriente questionem velhas crenças, tornando-se agnósticos ou ateus. E não é um fenómeno exclusivo de países árabes, onde predomina a ortodoxia sunita, mas sobretudo no, maioritariamente persa e xiita, Irão (onde o poeta Hafez é tão venerado como Maomé). © Mohammad Hannon | AP

O Corão, livro sagrado dos muçulmanos, está reflectido nos óculos de um crente, em Amã, na Jordânia. Um interesse crescente por obras não religiosas, de autores como Sartre e Camus, tem contribuído para que muitos, no Médio Oriente, questionem velhas crenças, tornando-se agnósticos ou ateus. E não é um fenómeno exclusivo de países árabes, onde predomina a ortodoxia sunita, mas sobretudo no Irão, maioritariamente persa e xiita
© Mohammad Hannon | AP

As dúvidas de fé começaram quando ainda era miúdo. Diziam-lhe que se dissipariam com o tempo, mas apenas se multiplicaram. Durante anos, escapou a alguns dos dilemas descrevendo-se, em termos vagos, como muçulmano “laico, não praticante ou progressista”.

Chegou, porém, uma altura em que as tácticas de estar sempre a protelar se tornaram vãs. O egípcio-belga Khaled Diab decidiu enfrentar a verdade: “Eu já não acreditava no Islão nem em qualquer outra religião.”

“É muito difícil dizer se o número de ateus está a aumentar no Médio Oriente, porque não há estatísticas fiáveis a este respeito e porque os Estados árabes exigem que os cidadãos se registem como membros de uma comunidade religiosa, geralmente das tradições abraâmicas”, diz Diab, em entrevista por e-mail.

“No que diz respeito ao Egipto, as estimativas variam entre o número governamental ridículo de ‘exactamente 866 ateus’ até 10 a 15% da população. Ou seja: poderá haver no país quase tantos ateus como cristãos.”

[Os ” 866″ ateus, ou 0,001% da população, foram calculados por uma instituição oficial, Dar al-Ifta, que acompanha as tendências religiosas no Egipto. Aparentemente, segundo notou o site da “Deutsche Welle“, “nenhum outro país no mundo árabe tem tanta gente sem deus”  Em segundo lugar estará Marrocos, com “uns 325”.  Acrescenta a dw.de que os números da Dar al-Ifta contradizem em muito uma sondagem conduzida em 2014 pela Universidade de al-Azhar, no Cairo, considerada bastião do Islão sunita ainda que tinha construída por uma dinastia xiita (os Fatimitas). Tendo inquirido 6.000 jovens, o resultado foi de 12,3% de ateus – ou seja “10,7 milhões dos of 87 milhões de egípcios.]

Jornalista que, em 2014, ganhou o prestigiado prémio de imprensa da Fundação Anna Lindh, pelo seu artigo Without a God (“Sem Um Deus”), publicado pela revista libanesa The Outpost [e republicado no seu blogue The Chronikler], Khaled Diab vive actualmente em Jerusalém, dividindo o tempo entre o Médio Oriente e a Europa.

Foi difícil assumir-se como ateu numa região onde apostasia equivale a morte? “Nunca tive medo, mas sentia-me ansioso e apreensivo quanto às reacções que poderia gerar, sobretudo de familiares e amigos”, admitiu.

“Os primeiros a saberem foram os amigos, que me apoiaram, mesmo não partilhando as minhas convicções. Tal como acontece com os homossexuais que ainda ‘não saíram do armário’, havia familiares a par da minha descrença, sobretudo a minha mãe. Alguns tentaram persuadir-me a voltar à religião, mas todos têm a certeza de que não me transformei numa pessoa má.”

A cruz e o crescente, símbolos do cristianismo e do islão, são erguidos por um manifestante, no exterior de uma academia de polícia, no Cairo, onde foi julgado o anterior Presidente Mohamed Morsi (afastado pelo Exército). A ascensão da Irmandade Muçulmana à chefia do Estado e o poder dos militares cada vez mais absoluto têm levado muitos egípcios a abandonar a religião. © Reuters

A cruz e o crescente, símbolos do Cristianismo e do Islão, são erguidos por um manifestante no exterior de uma academia de polícia, no Cairo, onde foi julgado o anterior Presidente Mohamed Morsi (afastado pelo Exército). A ascensão da Irmandade Muçulmana à chefia do Estado e o poder dos militares cada vez mais absoluto têm levado muitos egípcios a abandonar a religião
© Reuters

Ao escrever, há alguns anos, o primeiro artigo sobre o seu “ateísmo/agnosticismo”, no diário britânico The Guardian, Diab ficou surpreendido com as inúmeras reacções positivas. Em 2013, deu “o passo psicologicamente significativo” de se identificar como ateu num jornal árabe, o Daily News Egypt.

Apesar do “título provocador”, Confissões de um infiel egípcio, este artigo foi dos mais lidos e aplaudidos. “Talvez ajude o facto de escrever em inglês, língua que não preocupa os regimes, mas há, definitivamente, uma mudança de atitudes.”

Uma das “revelações” mais extraordinárias, para Khaled Diab, é “a larga minoria de ateus no berço do Islão – a Arábia Saudita”. Esta “aparente realidade” levou o governo fundamentalista do reino a classificar os ateus de terroristas, “o que é totalmente surreal”.

[Em 2012, uma sondagem Gallup revelou que “a proporção de ateus na Arábia Saudita é semelhante nos Estados Unidos e na Europa”. Esses ateus receiam cada vez menos expor-se, sobretudo nas redes sociais, em contas anónimas. A profanação do Corão, que tem sido defendida no Tweeter, com a hashtag #CampaigntoTearTheQuraninSaudiArabia (“Campanha para destruir o Corão na Arábia Saudita), é considera uma blasfémia punível com a morte.]

“O ateísmo numa geração mais nova pode ser, em parte, uma resposta às ideias reacionárias de muitos teólogos muçulmanos, especialmente na Arábia Saudita”, diz-nos, por seu turno, Brian Whitaker, autor de Arabs Without God, obra de grande erudição.

“Um outro factor é o das sublevações populares contra ditaduras: as pessoas tornaram-se destemidas e questionam mais. Ao questionar um sistema político também se questiona a religião – porque ambos estão estreitamente interligados no Médio Oriente.

É claro que, simultaneamente, há muitos para quem a solução é mais e não menos religião. A actividade ateísta na Internet ainda é mínima, se comparada com a vasta quantidade de material religioso que é colocado em árabe.”

Houve um período, a partir dos anos 1970, e que durou cerca de quatro décadas, quando os árabes ateus eram quase totalmente invisíveis – sendo a razão principal uma crescente religiosidade e a ascensão de movimentos islamistas”, explicou Whitaker, repórter britânico cujo blogue, al-bab.com, é uma das mais importantes fontes de informação regionais.

“Recentemente, os árabes ateus tornaram-se mais visíveis devido às redes sociais. A Internet deu-lhes voz. Há imensos grupos no Facebook – alguns públicos, outros fechados – e há os que partilham no YouTube vídeos dos seus debates.”

“Os media árabes tradicionais também fazem mais referências ao ateísmo, mas consideram-no ‘problema social, tal como a toxicodependência e a homossexualidade’, que necessita de atenção dos governos.”

Uma jovem de 23 anos que se identifica como @Hafsa é uma das que mais usam, no Tweeter, a hashtag #CampaigntoTearTheQuraninSaudiArabia ("Campanha para rasgar o Corão na Arábia Saudita). A primeira vez que foi usada, teve mais de 7800 partilhas numa só semana. No cartaz lê-se: Pelo menos a minha mente é livre. Orgulho em ser ateia! © vocativ.com

Uma jovem de 23 anos que se identifica como @Hafsa é uma das que mais usam, no Tweeter, a hashtag #CampaigntoTearTheQuraninSaudiArabia (“Campanha para rasgar o Corão na Arábia Saudita). A primeira vez que foi usada, teve mais de 7800 partilhas numa só semana. No cartaz lê-se: Pelo menos a minha mente é livre. Orgulho em ser ateia!
© vocativ.com

“As sociedades árabes são profundamente religiosas no sentido de que a religião é parte integral da esfera pública”, adiantou Khaled Diab.

“Neste contexto, admitir abertamente cepticismo ou descrença envolve riscos. Até nas sociedades árabes mais seculares os ateus são ostracizados ou desonrados pelas famílias se assumem [o seu ateísmo] publicamente. Alguns preferem, pois, manter-se na sombra para evitar perseguições.”

Brian Whitaker elogiou os que se declaram publicamente como ateus: “É um acto de bravura! Obviamente, cabe a cada indivíduo decidir e ninguém – seja ateu ou gay – deve sentir-se obrigado a uma exposição pública se não quiser. Dito isto, só quando números substantivos se assumirem é que os seus direitos começarão a ser reconhecidos.”

“No caso dos árabes ateus, ser preso ou não depende de alguns factores: quem são eles, o que dizem, como dizem, quem repara e quem se queixa”, explicou Whitaker. “Os julgamentos por blasfémia não envolvem ateus, na maioria dos casos, mas outras pessoas que disseram ou fizeram algo que acidentalmente ofendeu alguém, ou são vítimas de processos políticos.”

É o ateísmo exclusivo da geração mais nova e das classes média-alta? “Isso é um mito”, assegurou Khaled Diab. “Há ateus de todas as classes sociais, idades e género. As diferenças relacionam-se com as barreiras que se erguem contra os que querem assumir as suas ideias e o estigma social variável a elas associado.”

Brian Whitaker confirmou: “Os activistas ateus são, aparentemente, pessoas cultas, nos seus 20 anos, mas também há uma geração mais velha, talvez influenciada por ideias marxistas e de esquerda.”

Há milhões de ateus por todo o Médio Oriente, incluindo na Arábia Saudita e no Irão, países profundamente religiosos. Este artigo mostra como ateus e agnósticos estão a mudar o modo como muitos olham para a religião
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Em Arabs Without God, há um argumento interessante segundo qual enquanto os ateus ocidentais estão mais envolvidos num debate “ciência versus religião”, os árabes ateus tendem a centrar-se mais na “aparente injustiça divina”.

Khaled Diab concorda, com reservas. “A diferença mais importante não está na natureza do debate mas no facto de os árabes ateus terem de tomar a decisão consciente de abandonar a fé, ficando em contracorrente face à sociedade.”

“No Ocidente, a religião pertence, para muitos, ao foro privado e é até irrelevante. A ciência tem sido mais importante no Ocidente, embora eu conheça árabes ateus que abandonaram a religião devido à sua inconsistência científica e racional, e não por ser injusta.”

Brian Whitaker discordou: “Passei imenso tempo a tentar perceber por que é que alguns árabes se tornaram ateus. Muitos descreveram um afastamento gradual, e não uma súbita conversão ao ateísmo. A centelha era, quase sempre, determinado aspecto ilógico ou contraditório dos ensinamentos religiosos.”

“O que mais os incomodava é a imagem de uma divindade por vezes irascível e irracional que se comporta como os ditadores árabes – uma figura antropomórfica que toma decisões arbitrárias e parece ansiosa em castigar as pessoas à mínima oportunidade.”

Os “avisos assustadores repetidos no Corão” do que pode acontecer aos não crentes deixa cicatrizes profundas na infância. Na escola, Ahmed Saeed, um iemenita que Whitaker ouviu para a sua investigação, perguntou aos professores por que haveria Deus de castigar as pessoas só por não acreditarem nele.

As respostas desagradaram-lhe: “Diziam-me apenas que não podíamos questionar as palavras de Deus”. Saeed deduziu: “Se não tivesse nascido no Iémen ou noutro país do Médio Oriente, não seria muçulmano. Se tivesse nascido na Índia, haveria grande probabilidade de estar agora a adorar uma vaca. Ser educado como muçulmano não é escolha mas demografia da natalidade.”

Deus já não tem página no Facebook

O blogger ateu palestiniano Waleed al-Husseini, preso, torturado e forçado ao exílio em França por ter criado uma página de FB a que deu o nome de "Eu Sou Deus". © laregledujeu.org

O palestiniano Waleed al-Husseiniblogger “orgulhosamente ateu” , foi preso, torturado e forçado ao exílio, em França, por ter criado uma página de Facebook a que deu o nome de “Eu Sou Deus”
© laregledujeu.org

São ainda poucos os que se assumem publicamente como ateus no Médio Oriente, mas na sua investigação para o livro Arabs Without God, o jornalista Brian Whitaker encontrou histórias de grande coragem. Uma delas é a de Waleed al-Husseini, protagonista no primeiro capítulo.

Natural de Qalqilya, na Cisjordânia ocupada por Israel, Husseini, 25 anos, “decidiu que Deus deveria ter uma página no Facebook” [a exemplo desta, que se mantém activa]. Criou uma e chamou-lhe Ana Allah (“Eu Sou Deus”).

O jovem palestiniano anunciou também que “Deus passaria a comunicar directamente com o povo” através da rede criada por Zuckerberg porque, “apesar de há vários séculos ter enviado vários profetas, ainda não conseguira fazer passar a sua mensagem”.

Entre as instruções divinas que Husseini colocou no FB, uma delas, escrita no estilo dos versículos corânicos, proibia os fiéis de “misturarem whisky com Pepsi”. Deviam fazê-lo apenas com água.

A Autoridade Nacional Palestiniana não achou graça à paródia do informático desempregado desde que concluíra a universidade. Um dia, estava Husseini num café com amigos quando chegou a polícia secreta e o prendeu.

Passou dez meses numa cela, uma parte do tempo em isolamento. Agora, vive exilado em França, separado de familiares e amigos. Publicou um livro, Blasphémateur! Les prisons D’Allah, onde detalha a tortura a que foi submetido e outras condições humilhantes do seu cativeiro.

Khaled Diab

Brian Whitaker © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Brian Whitaker

 

Estes dois artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista VISÃO em 5 de Fevereiro de 2015 | These two articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on February 5, 2015

“For Arabs, coming out as an atheist is like coming out as gay”

Brian Whitaker is a journalist and former Middle East editor of the British daily The Guardian. His blog, http://www.al-bab.com, is one of the best informed on that region. He is author of several books, including Unspeakable Love: Gay and Lesbian Life in the Middle East (2011) and What’s Really Wrong with the Middle East (2009). The most recent – a must read – is Arabs Without God (2014). Part of his interview was included in an article about the new Arab atheists published in the Portuguese newsmagazine VISÃO. (Read more…)

© mimiandeunice.com/category/god

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Atheists (freethinkers or “heretics”), according to your book, have been present throughout Islamic history but, nowadays, this “phenomenon” is being defined as completely unprecedented. When did Arab atheists become more visible and why?

There was a period, starting in the 1970s and lasting for about 40 years, when Arab atheists were largely invisible – mainly due to the growth of religiosity and the rise of Islamist movements.

Recently, Arab atheists have become much more visible as a result of social media. The internet has given them a voice. There are numerous Facebook groups – some public, some private – and others make videos of discussions which they post on YouTube.

[On February 16, as Whitaker’s blog reports, Sherif Gaber, 22, a university student from Ismailia who had been initially arrested during a dramatic raid in October 2013 and afterwards released on bail, was given a one year prison sentence by an Egyptian court, on charges of “contempt of religion relating to activities on campus and atheists statements online”.]

Mainstream Arab media talk more about atheism too, though it is usually presented as a social problem needing government attention, along with drug-taking and homosexuality.

It’s likely, though difficult to prove, that Arab atheists are growing in numbers as well as becoming more visible. Again, the Internet is an important factor because Arabs now have online access to information about atheism that they didn’t have before. In addition to that, atheism among the younger generation seems to be partly a response to the reactionary views of many Muslim clerics, especially in Saudi Arabia.

Another factor is that popular uprisings against dictatorship have emboldened people and made them question things more. Questioning the political system leads some to question religion too – because politics and religion in the Middle East are so closely entwined.

At the same time, of course, there are many who think the solution is to have more religion, not less, and atheist activity on the internet is still tiny compared with the vast amount of religious material posted in Arabic.

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There is a perception that, while Westerners (Europeans and Americans) of Muslim origin or new converts to Islam are increasingly attracted to groups like ISIS and al-Qaeda, the number of atheists in Arab States is growing. How do you assess this trend?

This is one effect of what I call “the globalisation of ideas”. The development of global communications, including the internet, and international travel mean what ideas and ideologies are less restricted by geography than in the past.

National boundaries don’t obstruct their flow any more, and so they can find adherents in unlikely places. Whether we are talking about jihadists in Europe or atheists in Saudi Arabia, both are results of the same globalisation process.

How do you describe the attitudes of the Arab atheists who dare to speak freely, risking prison, torture, exile and even death, and of those who have opted to hide their convictions?

Publicly declaring yourself to be an atheist is a brave thing to do in most of the Arab countries, though the risk does vary according to local and personal circumstances.

For Arabs in particular, coming out as an atheist is similar to coming out as gay – and the consequences in both cases can be equally bad. Obviously, it’s up to the individual to decide and no one – either atheist or gay – should feel obliged to come out unless they want to. That said, it’s only when substantial numbers do come out that their rights start to be recognised.

Whether Arab atheists end up in jail is often a matter of chance. It depends on who they are, what they say, how they say it, who notices, and who complains.

Most blasphemy trials in the region do not actually involve atheists but people who have said or done something that accidentally caused offence, and some of the cases are brought for political reasons on in pursuit of grudges. 

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Is atheism exclusive of a younger generation and of the middle class? In which Arab state is atheism finding more followers? And which countries do you find the most ruthless and the more tolerant towards the “unbelievers”?

The activists seem to be mainly in their twenties and comparatively well educated. But there is also an older generation of atheists, probably influenced by Marxist and leftist ideas before they went out of fashion. As far as numbers are concerned, it’s impossible to say.

There has never been a survey covering all the Arab countries and in any case many Arab atheists would probably not admit their atheism to pollsters.

In Kuwait, Qatar, Saudi Arabia, Sudan, the United Arab Emirates and Yemen apostasy is a crime and in theory the death penalty can apply. However, no recent executions for apostasy have been reported in any of them and in Saudi Arabia there have been none for well over twenty years, according to the US State Department.

 There is a very interesting argument in your book: that while Western atheists are more engaged in a “science-versus-religion debate”, the Arab atheists tend to focus more on the “apparent unfairness of divine justice”. Can you detail the main reasons of a long and often painful process of abandoning their faith?

[I have just submitted an article to New Humanist magazine which talks about this and you are welcome to quote it. I interviewed a Lebanese woman who had been influenced by Sartre and Camus. That was the result of having a particular teacher who was interested in them. I don’t know if any broader conclusions can be drawn from it.]

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Do you distinguish between Arab atheists and the so-called “New Atheists” such as Sam Harris and Richard Dawkins who have been accused of Islamophobia? 

Ironically, Arab atheists living in the west sometimes become victims of Islamophobia because people assume from their appearance that they must be Muslims.

The New Atheists speak mainly to a western audience but where the Middle East is concerned their efforts are often unhelpful. I think the best way to improve the lot of atheists in the region is to make a strong case for freedom of thought and belief, on the grounds that this would benefit believers and non-believers equally.

At what extent events like the recent attack against the French satirical newspaper Charlie Hebdo will compel Arab atheists to be more reclusive, in order to better protect themselves?

It’s probably too early to comment on the effects of the Charlie Hebdo affair.

In a region where religion, mainly Islam, permeates every aspect of human life, how do you compare the treatment reserved by society and the state to atheists compared with the one towards religious minorities or sects, like de Bahá’ís, for instance?

Sectarianism is rife in many parts of the region, partly because it can be exploited for political purposes and also because there have been no great efforts to promote tolerance. There isn’t the kind of work done to promote community relations that we find in European countries, for example.

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There is of course sectarianism within Islam itself – Sunni versus Shia – which is often linked to international politics and relations with Iran. Christianity and Judaism are accepted to some extent by Muslims because they are monotheistic religions from the Abrahamic tradition.

Regimes under pressure often find it convenient to blame the country’s problems on an “enemy within” – which often results in attacks on the smallest and weakest minorities. Atheists and Baha’is both fall into that category.

In Egypt last year, a government-linked newspaper, Al-Shabab, declared that “atheists are the country’s second enemy after the Muslim Brotherhood”. And more recently the Ministry of Endowments claimed that the Bahá’í faith (which probably has no more than 3,000 followers in Egypt) “threatens Islam specifically and Egyptian society in general”.

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Brian Whitaker, author of Arabs Without God
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Parts of this email interview, now updated, were included in an article published in the Portuguese news magazine VISÃO, on February 5, 2015

Arábia Saudita: Este reino já não é só para velhos

Entre as nomeações mais emblemáticas que Salman fez após a morte de Abdullah está a de Mohammed bin Nayef, príncipe herdeiro adjunto. Pela primeira vez na história do país, um neto e não um dos filhos do primeiro monarca tem lugar na linha de sucessão ao trono. (Ler mais | Read more…)

FILE - In this Monday, Nov. 22, 2010 file photo released by the Saudi Press Agency, Saudi Arabia's King Abdullah, left, speaks with Prince Salman, the Saudi King's brother and Riyadh governor, right, before the king's departure to United States, in Riyadh, Saudi Arabia. On early Friday, Jan. 23, 2015, Saudi state TV reported King Abdullah died at the age of 90. ( © Saudi Press Agency, File)

22 Novembro de 2010: à esquerda, o rei defunto, Abdullah; à direita, o então príncipe herdeiro e actual monarca, Salman. A reestruturação governamental que afastou ministros e dois filhos do soberano que morreu aos 90 anos deixa à vista as divisões na Casa de Saud
© Saudi Press Agency| AP

O director executivo do Centro para a Democracia e os Direitos Humanos na Arábia Saudita (CDHR), Ali H. Alyami não guarda boas memórias de Abdullah nem deposita grandes esperanças em Salman, o anterior e o actual reis do maior exportador de petróleo e berço do Islão.

Abdullah ibn Abdulaziz al-Saud morreu aos 90 anos, no dia 23 [Janeiro 2015], aparentemente devido a uma pneumonia. Subiu ao torno em 1995 quando o predecessor, o meio-irmão Fahd, sofreu uma fatal embolia cerebral. Era monarca absoluto há duas décadas.

Anunciado o óbito, os principais aliados forem céleres nos elogios. Adularam-no como “reformador” e “fonte de moderação”. Esta lisonja irritou o fundador (em 2004) do CDHR, com sede em Washington. “O legado de Abdullah foi mais ilusão do que realidade”, disse Alyami, por e-mail.

“Uma coisa que fez e teve algum impacto psicológico duradouro foi, admito, permitir que alguns sauditas possam votar e concorrer a cargos, organizar campanhas, como as iniciativas em relação às lojas de cosméticos [onde só trabalhavam homens] e um maior acesso às eleições municipais de 2005.”

“Outro legado, social e psicológico, que deixou foi ter designado 30 mulheres pro-statu quo, cuidadosamente seleccionadas, para um Conselho da Shura inútil e impotente.”

Saudi Arabia's Deputy Interior Minister Prince Mohammed bin Nayef arrives for a combat skills demonstration by soldiers graduating from the Saudi Special Forces at a base in Riyadh © Reuters

Príncipe herdeiro adjunto e “protegido do Ocidente” pelas suas “políticas antiterrrorismo”, Mohammed bin Nayef (aqui de visita a uma base das Forças Especiais Sauditas em Riad, a capital) é o primeiro neto do rei fundador com possibilidade de chegar ao trono
© Reuters

Quanto aos fracassos de Abdullah, “são numerosos”, sublinhou Alyami. “Enganou-nos ao prometer incluir as pessoas no processo político mas fez tudo para assegurar que tal não aconteceria. Sob o seu reinado, foram aprovadas mais leis proibitivas e mais reformistas foram presos do que sob a liderança de qualquer um dos seus antecessores.”

Não é muito diferente o parecer de Murtaza Hussain, analista e comentador do website The Intercept, criado por Glenn Greenwald, jornalista que revelou as escutas secretas da National Security Agency (NSA) expostas por Edward Snowden.

“Abdullah tentou fazer progredir a sociedade, atribuindo mais direitos mulheres e construindo escolas, por exemplo”, afirmou Hussain, numa entrevista, também por e-mail. “Mas não cessaram actos como decapitações e leis humilhantes [como a do “guardião masculino”].”

“Objectivamente, o reino continuou a ser muito repressivo. Não houve qualquer reforma na política externa. Com Abdullah, a Casa de Saud causou imensa destruição em todo o mundo.”

Hussain disse que “não ficaria surpreendido se a maioria dos sauditas se sentisse relativamente satisfeita com o seu sistema”. Porquê? “Olham para os vizinhos em tumulto, enquanto eles gozam de estabilidade e prosperidade.”

“É inegável que muitos sauditas viajam e vivem no estrangeiro, e regressam ao país com planos de o reformar – mas não creio que arrisquem envolver-se numa revolução! A Arábia Saudita irá reformar-se, só que a um ritmo vagaroso.”

Para melhor entender este país onde a doutrina wahhabita despertou para o terrorismo com Osama bin Laden e a maioria dos bombistas suicidas do 11 de Setembro, pedimos um retrato a Ali H. Alyami, natural da região agrícola de Najran, no Sudoeste, antigo funcionário da Aramco, o consórcio petrolífero que lhe deu trabalho, em 1958, na Província Oriental, onde se situam as principais jazidas e vive a maioria da população xiita.

As suas ideias políticas tornaram-no impopular aos olhos dos patrões (que lhe haviam oferecido uma bolsa de estudos) e do regime, mas ele poupou o suficiente para completar um mestrado e um doutoramento em universidades americanas. Optou por ficar em Washington, “por ser mais fácil continuar a luta pelos direitos humanos.”

“Estamos a travar uma batalha de ideias saudável”, disse Alyami. “Os ‘sauditas’ são o único povo definido por uma família no poder. A Arábia Saudita é um país atrasado, social, política, religiosa, académica e – mais importante – cientificamente.”

“Nas redes sociais, há uma geração jovem que se compara com outros povos e vê um fosso gigante. Interroga-se sobre as razões e os responsáveis pela sua má sorte. A evolução mais promissora e extraordinária é a ascensão das mulheres, que reivindicam mais justiça e igualdade. Elas estão a mudar este país para melhor, sobretudo na luta contra os extremistas religiosos.”

Mohammed bin Salman, 35 anos, filho do actual rei, é agora uma das figuras mais poderosas e símbolo da nova geração. É ministro da Defesa. © Associated Press (AP)

Mohammed bin Salman, 35 anos, filho do actual soberano, é agora um símbolo da nova geração. Ministro da Defesa, continua a chefiar a Casa Real e vai também dirigir um novo Conselho para os Assuntos Económicos e de Desenvolvimento
© Associated Press

No que diz respeito ao novo rei, o director do CDHR, empenhado na sua “missão” apesar de receber “várias ameaças, verbais e físicas”, não lhe dá o benefício da dúvida.

“Salman é um zelota assumido para quem o wahhabismo é o verdadeiro Islão. Estou seguro de que os direitos humanos serão violados no seu reinado. É muito vulnerável a pressões estrangeiras, porque lhe falta apoio interno, e devido à incapacidade militar para proteger a família e o reino.”

Como observou Bruce Riedel, antigo agente da CIA, no passado de Salman incluem-se uma colaboração muito estreita com os teólogos wahhabitas e o  financiamento de extremistas. Um deles, Abdul Rasul Sayyaf, foi mentor de Bin Laden e artífice dos atentados de 11 de Setembro.

O novo rei ofereceria “20 a 25 milhões de dólares por mês” a antigos mjuhaedin nas batalhas que forçaram a retirada dos invasores russos do Afeganistão, em 1989. Também terá aberto os cofres (cerca de 600 milhões de dólares) aos combatentes muçulmanos bósnios nos anos 1990, durante a guerra na antiga Jugoslávia.

Prognósticos de Alyami: O sucessor de Abdullah poderá tentar reconciliar-se com a Irmandade Muçulmana egípcia e, talvez, com o Irão, que negoceia um acordo nuclear com os EUA, cobiça o Bahrain – de maioria xiita e para onde a Arábia Saudita enviou 1200 soldados –, e tem aliados a controlar capitais árabes como Sanaa, onde o movimento iemenita Houthi é agora dominante, Beirute, Damasco e Bagdad.

“Os governantes sauditas sempre dependeram de potências estrangeiras para se protegerem e, agora mais do que nunca, Salman necessita da América.”

“Ao suceder a Abdullah, Salman disse que daria continuidade às políticas delineadas pelo seu pai [Abdulaziz] – não ao legado de Abdullah, que sempre tentou boicotar”, concluiu o director do CDHR.

“Salman considera que o país pertencerá eternamente à sua família. Sendo um homem doente [alegadamente com Alzheimer], muitas das decisões de política interna e externa serão tomadas pelos seus filhos”, em especial o favorito, o actual ministro da Defesa Mohammed bin Salman, de 35 anos, que acumulará este cargo com o de chefe da Casa real.

Mas, sobretudo, pelo príncipe herdeiro adjunto, Mohammed bin Nayef, de 55, o primeiro neto do rei fundador a ganhar um lugar na linha de sucessão ao trono.

Conhecido pelos amigos como MBN, Bin Nayef tem, segundo o diário britânico The Guardian, “a reputação de ser um modernizador e conhecedor do Ocidente”, admirado por Washington e Londres no desempenho das suas funções como ministro do Interior. Declarou guerra à Al-Qaeda, e esta quase o assassinou numa operação suicida, em 2009.

[Depois de ascender ao trono, Salam emitiu vários decretos, afectando 13 ministérios. Uma mudança importante: o chefe dos serviços de espionagem, príncipe Khalid bin Bandar bin Abdulaziz Al Saud (o primeiro neto do rei fundador a governar Riade, a capital), foi substituído pelo general Khalid bin Ali bin Abdullah al-Humaidan.

De grande relevância foi ainda o afastamento de dois filhos de Abdullah: os príncipes Turki e Mishaal. Um outro príncipe, Faisal bin Bandar, sucede a Turki  como governador de Riade. Mishaal deixa de governar Meca, tendo sido transferido para al-Qassim, região menos importante do que a província que é dos maiores santuários do Islão.]

© John Moore | AP

O petróleo ainda é uma “arma”

Os preços do petróleo estão a cair há vários meses, prejudicando países como Angola, que deverá, este ano, perder mais de 10 mil milhões de dólares de receitas. A Arábia Saudita, maior exportador mundial, não parece, contudo, disposta a mudar de estratégia agora que tem um novo rei.

[Na remodelação que fez após a morte de Abdullah, em 30 de Janeiro, Salman manteve como responsável pelo Petróleo e Recursos Naturais  o ministro Ali Al-Naimi.]

“Os líderes sauditas não estão preocupados porque o reino tem gigantescas reservas financeiras [750 mil milhões de dólares] que servem de amortecedor”, observou o analista Murtaza Hussain, na entrevista que me deu.

Uma das explicações para não reduzir a produção, o que aumentaria o preço do barril/dia (este já ultrapassou os 120 dólares e agora está a menos de 50) “talvez seja uma tentativa de aniquilar a emergente indústria norte-americana de shale oil [petróleo de xisto], que não será economicamente lucrativa caso se mantenham os preços baixos.”

Este argumento ganhou consistência depois de o próprio director executivo da Saudi Aramco, a petrolífera estatal, ter dado conta, recentemente, de uma subida para 9,8 milhões de barris/dia extracção de petróleo. Um dos objectivos é o de recuperar receitas que iam para os cofres dos que não pertencem à OPEP, como os EUA e a Rússia.

Em Novembro, o cartel, por insistência da Casa de Saud, concordou em manter inalterável a produção de 30 milhões de barris/dia. Com isso gerou uma descida acentuada nos preços, que têm afectado duramente países dependentes da renda petrolífera – como a Rússia e a Venezuela.

© Fortune

Estes dois artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente no jornal EXPRESSO, em 31 de Janeiro de 2015 | These two articles, now updated, were originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on January 31, 2015

Boko Haram, Goodluck e a má sorte da Nigéria

A 14 de Fevereiro [de 2015], o “gigante de África” realizou eleições democráticas – as primeiras ganhas pela oposição na história do país mais populoso e maior economia do continente. Quatro analistas, três deles nigerianos, um investigador da Amnistia Internacional e o autor de um livro sobre o BH explicam a génese, os métodos e objectivos de uma seita que fez da guerra a sua religião. (Ler mais | Read more…)

– Et elle est comment, l’Afrique? – lui demandaient les gens.

– Fatiguée.

(In Soie, de Alessandro Baricco, Gallimard, Paris, 1997, p.13)

A Boko Haram member posing for a portrait in a working class suburb of Kano, Nigeria. © Samuel James for The New York Times

Um membro do Boko Haram posa para a fotografia, num bairro operário em Kano, na Nigéria
© Samuel James | The New York Times

Kyari Mohammed vive na cidade de Yola, capital de Adamawa – um dos três estados controlados pelo Boko Haram (BH) no Nordeste da Nigéria. “A insegurança, a tensão e o medo são permanentes”, diz-me por telefone, porque a Internet raramente funciona.

“Nunca sabemos se a morte chegará de noite ou de manhã. Há uma forte presença de tropas e comités de defesa civil. O problema é que, por falta de vontade política do poder central, o quinto maior exército de África tem sido incapaz de enfrentar uma milícia local – não global – que se transformou numa feroz máquina de guerra.”

Professor de História e director do Centro para a Paz e Estudos de Segurança na Universidade de Tecnologia Modibbo Adama, em Yola, Kyari Mohammed é especialista em grupos islâmicos radicais, conflitos comunais e etno-religiosos, relações inter-grupos e violência no Norte da Nigéria.

É também um dos académicos que contribuiu para Boko Haram: Islamism, politics, security and the state in Nigeria. Trata-se do primeiro grande estudo sobre “um movimento sectário que se tornou rebelião jihadista”, editado pelo Instituto Francês de Investigação em África (IFRA).

Para entender a seita que não hesita em raptar e decapitar crianças ou em usá-las como bombistas suicidas, que apaga do mapa povoações inteiras, que não distingue entre muçulmanos e cristãos nos seus massacres e ameaça desestabilizar parte de um continente, ouvi mais duas personalidades nigerianas: Henry Gyang Mang, residente em Jos, cidade no Centro, onde o BH tem cometido ataques bombistas, e um dos historiadores que também contribuiu para o estudo do IFRA; e Idayat Hassan, directora do Centro para a Democracia e Desenvolvimento da África Ocidental, em Abuja, a capital.

Contactámos igualmente Daniel Eyre, investigador da Amnistia Internacional, e Alex Perry, autor do livro The Hunt for Boko Haram: Investigating the Terror Tearing Nigeria Apart. Com a ajuda destes analistas – todas as entrevistas foram dadas por telefone –, tentamos responder às seguintes questões:

Quando apareceu o Boko Haram?
Terroristas do Boko Haram celebram depois de mais um dos seus ataques sangrento. © dailypost.ng

Terroristas do Boko Haram celebram depois de mais um dos seus ataques mortíferos
© dailypost.ng

Há três datas associadas ao aparecimento do Boko Haram: 1980, 1995 e 2002. A primeira liga-o a Mohammed Marwa, mais conhecido como Maitatsine (“aquele que amaldiçoa”), palavra do dialecto hausa que caracterizava os seus discursos políticos e religiosos. Maitatsine nasceu em Marwa, nos Camarões. Em 1945 mudou-se para o estado nigeriano de Kano.

Pregador controverso, recusava as tradições (Sunnah) islâmicas e considerava “paganismo” a leitura de qualquer livro que não fosse o Corão. Chegou a renegar Maomé e autoproclamou-se “annabi” (profeta).

Em 1972, comandava a milícia Yan Tatsine, composta sobretudo por jovens e migrantes desempregados. Constantemente a desafiar as forças militares, morreu em 1980, com outras 5000 pessoas, em confrontos armados.

A segunda data (1995), referida pelos serviços secretos nigerianos, enraíza o Boko Haram na Organização da Juventude Muçulmana (Ahlulsunna wal’jama’ah hijra ou simplesmente Shabaab), criada por “um tal de Abubakar Lawan”.

Lawan, que tinha base em Maiduguri, capital do estado de Borno, não advogava a violência. Quando foi estudar para Universidade de Medina, na Arábia Saudita, um outro pregador, Mohammed Yusuf, assumiu o seu lugar. Descreviam-no por vezes como um “guru lunático” que negava, designadamente, a rotação da Terra em redor do Sol.

Com a ascensão de Yusuf, em 2002, o Boko Haram declarou-se opositor do secularismo, do sistema bancário tradicional, da cobrança de juros, da jurisprudência e, acima de tudo, da “educação ocidental.” Para a advogada Idayat Hassan, ex-coordenadora do Movimento contra a Corrupção na Nigéria, este é “um grupo sem ideologia nem doutrina; não é uma organização religiosa, mas um projecto terrorista.”

Quem é o actual líder do Boko Haram?

Abubakar Shekau, líder do Boko Haram
© africanarguments.org

Em Julho de 2009, o comandante-chefe (amir ul-aam) do Boko Haram, Mohammed Yusuf, foi preso pelas forças de segurança durante uma rusga a casa de familiares. Entregue à Polícia Nacional, procurou evadir-se da cela onde o colocaram. O Exército voltou a capturá-lo. Seria executado, publicamente, em frente à esquadra de onde tentou fugir.

A “liderança espiritual” foi então assumida por um dos seus adjuntos, Abubakar Muhammad Shekau, que a BBC definiu como “uma mistura de teólogo e gangster”. Venerado pelos seguidores como “imã” (o que lidera a oração), Shekau escandalizou o mundo quando o BH raptou mais de 200 meninas, em Abril de 2014, prometendo-as vender como escravas sexuais. Fez isso e mais: tem vindo a usá-las também como bombistas suicidas.

Não se sabe exactamente a idade de Shekau. Este apelido é o nome da sua aldeia, no estado de Yobe, Nordeste Talvez esteja mais próximo dos 40 do que dos 30 anos. Uma das poucas certezas é a de que os Estados Unidos ofereceram uma recompensa superior a sete milhões de dólares por quem denunciar o seu paradeiro.

Segundo o académico nigeriano Freedom Onuhoa, um dos que colaborou no estudo do IFRA, Shekau “mantém uma estrutura de comando e controlo que lhe permite operar autonomamente. As unidades e células estão interligadas, mas estas só respondem às ordens de um comandante”. O mais alto órgão de decisão do BH é o Conselho Consultivo (Shura).

Shekau é o dirigente máximo que coordena e autoriza os atentados mais bárbaros, mas poucos têm acesso a ele, dado o seu carácter reclusivo e desconfiado. Quando Yusuf foi morto, Shekau ter-se-á casado com uma das quatro mulheres do seu mentor e adoptado os seus 12 filhos.

O que significa “Boko Haram”?
Rachel Daniel, 35, holds up a picture of her abducted daughter Rose Daniel, 17, as her son Bukar, 7, sits beside her at her home in Maiduguri in northeast Nigeria on May 21, 2014. Rose is one of the more than 200 of her classmates on April 14 by Boko Haram militants from a secondary school in Chibok, Borno state. © Joe Penney/Reuters

Rachel Daniel, 35 anos, mostra uma foto da filha Rose, 17, raptada pelo Boko Haram a 14 de Abril de 2014. Nesta imagem, datada de 21 de Maio do mesmo ano, a mãe está ao lado do filho, Bukar, de 7 anos, na sua casa em Maiduguri, nordeste da Nigéria. Rose foi uma das mais de 200 crianças sequestradas pelo BH numa escola secundária em  Chibok, no estado de Bornos
© Joe Penney | Reuters

O nome com que se apresenta “oficialmente” é longo: Jama’atu Ahlis-Sunnah Lidda’awati Wal Jihad, ou Povo Comprometido com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta [Maomé] e da Jihad. “Boko Haram foi um termo cunhado por alguns media nigerianos, sobretudo no Sul, maioritariamente cristão, com o propósito de retratar um bando de muçulmanos primitivos”, explica Alex Perry, que é também editor revista Newsweek para o Médio Oriente.

“Muitos têm, erradamente, traduzido ‘Boko Haram’ como ‘A educação ocidental é um pecado’, mas ‘pecado’ é um conceito cristão inexistente no Islão. Em árabe, haram é igual a ‘proibido’, o contrário de halal, que quer dizer ‘permitido’.”

Também não é correcto igualar “Boko” a “livro”, com origem na palavra inglesa “book”, esclarece o linguista Paul Newman, autor de uma obra de referência: o Dicionário Hausa-Inglês. “’Boko’ quer dizer ‘algo (uma ideia ou objecto) que envolve falsidade ou fraude’. O nome refere-se ‘a leitura ou caligrafia que não esteja ligada ao Islão. O termo é, de um modo geral, precedido de ‘Karatun’ (escrita/estudo). Portanto, ‘Karatun Boko’ será o equivalente a ‘Educação de tipo ocidental’.”

Porquê condenar a educação ocidental e usar o seu progresso?
Alunas de uma escola privada, de ensino primário e secundário, em Maiduguri, no Nordeste da Nigéria. O edifícioexibe as marcas de um ataque do Boko Haram, que proíbe a "educação ocidental" © AFP | New York Observer

Alunas de uma escola privada, de ensino primário e secundário, em Maiduguri, nordeste da Nigéria. O edifício exibe as marcas de um ataque do Boko Haram, o grupo que orgulhosamente proíbe a “educação ocidental”
© AFP | New York Observer

Para o professor Kyari Mohammed, “a rejeição da educação e civilização ocidentais são dois pilares inseparáveis que definem o Boko Haram”, e o distinguem de outros grupos congéneres, como a Irmandade Muçulmana egípcia, por exemplo. O fundador deste movimento, Hassan al-Banna (1906-1949), e o ideólogo, Sayyid Qutb (1906-1966), “frequentaram instituições seculares modernas e não madrassas [escolas] islâmicas”.

O prémio Pulitzer Lawrence Wright revela, em As Torres do Desassossego, que o fervoroso nacionalista e anticomunista Qutb nem sequer se considerava muito religioso quando foi estudar para os EUA depois de o Rei Farouk ter ordenado a sua prisão em 1948.

Havia muito de “ocidental” na sua maneira de ser e agir: “O vestuário, o gosto pela música clássica e filmes de Hollywood. Lera obras traduzidas de Darwin e Einstein, Byron e Shelley, e imergira profundamente na literatura francesa, sobretudo Victor Hugo.”

Em todo o caso, Qutb já se preocupava com “o avanço da civilização ocidental”, que via como entidade cultural única. “As distinções entre capitalismo e marxismo, cristianismo e judaísmo, fascismo e democracia eram insignificantes, comparadas com a grande divisão na mente do “Irmão Muçulmano”: o Islão no Oriente, de um lado; o Ocidente cristão, do outro”, sublinhou Wright.

De início, Qutb sentia-se atraído pela América, país que considerava “assente em valores”, e não nas “noções europeias de superioridade, classes e raças privilegiadas”, uma nação de imigrantes “permeável a relações com o resto do mundo”, incluindo os árabes. Isso mudou quando o Presidente Henry Truman decidiu apoiar a “causa sionista” e um “lar nacional” para os judeus na Palestina.

Nesta fotografia, datada de 15 de Setembro de 2016, mulheres e crianças fazem fila para entrar num dos centros de nutrição da Unicef, num improvisado campo que acolhe mais de 16.000 deslocados internos, nos arredores de Maiduguri, estado de Borno, nordeste da Nigéria, uma região fustigada pelo Boko Haram
© Stefan Heunis | AFP

Kyari Mohammed atribui, parcialmente, “a aversão” que o Boko Haram nutre pela educação ocidental à retrógrada doutrina wahhabita que moldou o pensamento do seu criador, Mohammed Yusuf, quando este regressou da Arábia Saudita. Para Yusuf, “a educação ocidental – na qual incluía a medicina, a tecnologia, a geografia, a geologia, a sociologia, a física e, obviamente, a língua inglesa” – é uma herança dos colonialistas europeus.”

Não será hipócrita esta interpretação, sendo que o Boko Haram usa o as tecnologias mais avançadas da civilização ocidental? “Ah sim”, responde Alex Perry, com uma gargalhada. “Estes tipos odeiam como hereges todos os que não adoptem o salafismo [extremo fundamentalismo], e rejeitam tudo o que tenha a ver com progresso, desenvolvimento económico ou científico. Não há razão ou lógica de pensamento e acção.”

“Querem recuar a um tempo em que os bens materiais não tinham qualquer valor e só Deus importava. Na sua arrogância e insignificância, não conseguem camuflar as contradições. Não lhes interessa filosofia e sofisticação, mas movem-se em carros de alta cilindrada (Mohammed Yusuf conduzia um Mercedes, tinha computadores e telemóveis), usam satélites para comunicar e colocam vídeos dos seus crimes no YouTube. Matar tornou-se, para eles, não um meio para atingir um fim, mas o objectivo final. Matar é a sua religião.”

É também esta a opinião de Henry Gyang Mang, investigador com dois mestrados, um em Estudos Africanos, pela Universidade de Oxford, e outro em Arte na História, pela Academia de Defesa Nigeriana, em Kaduna, capital do estado com o mesmo nome, no Nordeste.

“Quando perguntaram a Yusuf por que usava aparelhos de tecnologia moderna, ele respondia que eram produtos fabricados por Deus, porque Deus fornecia a matéria-prima”, afirmou o académico que habita e lecciona em Jos. “O Boko Haram não renega o conhecimento para o qual o Islão contribuiu, mas execra a educação ocidental porque não permite a criação de um Estado teocrático.”

O colonialismo britânico explica a hostilidade ao Ocidente?
Queen Elizabeth II chats with this pair of colonial students when she visited the British council?s student hostel in London on Dec. 13, 1955, where 350 colonial men and women are students. The occasion of her visit was to help celebrate the 21st anniversary of the council. The two students, dressed in their colorful native garb are, Flanlayo Williams. 22, of Lagos, left, and Miss R. Sekoni Williams, of Ibadan, Nigeria. Others are unidentified. © AP

Londres, 1955: a Rainha Isabel II de Inglaterra conversa com estudantes nigerianas durante uma visita a um centro de estudos do British Council que alojava “350 alunos e alunas coloniais”
© AP

Kyari Mohammed admite que a radicalização islâmica na Nigéria remonta ao período colonial, quando o Califado de Sokoto, “um dos maiores impérios muçulmanos do Sahel” durante o século XIX, se opôs à ocupação britânica, iniciada em 1902.

O país mais populoso de África (quase 175 milhões de habitantes), constituído por 36 estados e 250 grupos étnicos (os Hausa e os Fulani são predominantes, 29%), a mais pujante economia e o maior produtor de petróleo do continente, só em 1960 se tornou independente do Reino Unido.

Ainda que, a partir de 1906, vários emires (chefes religiosos) tivessem “colaborado” – de forma voluntária, compulsiva ou dissimulada – na “domesticação do Islão” e na “administração colonial indirecta” impostas pelos ingleses, a maioria dos cidadãos no Norte sempre demonstrou “desdém pela educação ocidental”.

Este desprezo “não era novidade”, salientou Mohammed. “O que surpreendeu foi o recurso à violência”, acentuado a partir de 1978-79, com o aparecimento, em Jos, da Izala (Jama’t Izalat al Bid’a Wa Iqamat as Sunna) ou Sociedade para a Extinção da Inovação e Restabelecimento da Tradição, rival das confrarias sufis locais. Posteriormente, Izala e Boko Haram tornaram-se arqui-inimigos.

Uma das divergências foi a instauração da lei islâmica (Shariah) em 11 estados, a partir de 2000. Zamfara foi o primeiro a implantar este código legislativo, mas apenas como complemento e não substituto da Constituição secular em vigor – o que enfureceu o Boko Haram.

No início de 2009, Mohammed Yusuf afrontou publicamente os Ulema (teólogos) da Izala, acusando-os de “pactuarem com o governador, autocrático e cleptocrático, do estado de Borno”. A Izala reagiu, acusando Yusuf de ser um “kharijita” (os primeiros dissidentes do Islão que mataram o califa Ali, antes do cisma sunitas-xiitas após a morte de Maomé).

Com esta acusação, a Izala “legitimou o assassínio” do líder do Boko Haram, apelando a que o Estado “exterminasse” o grupo. Dinâmicas externas, como a invasão do Afeganistão e a “guerra global contra o terror”, declarada pela América na sequência dos atentados de 11 de Setembro, agravaram também o radicalismo da seita.

Em todo caso, acrescentou Kyari Mohammed, os conflitos violentos foram instigados num período anterior, a partir dos anos 1980, devido a factores internos: “Programas estruturais que depauperaram o Norte, má gestão de recursos limitados e galopante corrupção das elites. Com a frustração cresceu o zelo religioso, um ciclo vicioso comum em tempos de crise e incerteza.”

mage Credit: . The Sokoto Caliphate was the region's largest empire. © Wikimedia Commons

O Califado de Sokoto era, quando começou a ocupação britânica, “um dos maiores impérios muçulmanos do Sahel” 
© Wikimedia Commons

O demagogo Yusuf começou por apresentar o Boko Haram como “movimento social ao serviço dos órfãos, viúvas e mais vulneráveis”. Apregoando “a irmandade de todos os muçulmanos”, também recrutava facilmente jovens desempregados que acorriam aos centros urbanos para poderem sobreviver.

Henry Mang, o historiador em Jos, adianta: “Há uma enorme fractura entre o Sul e o Norte, sofrendo esta região as maiores disparidades. A Nigéria não tem encorajado a educação dos jovens. Sem oportunidades de trabalho, sem indústria e comércio locais, são presas fáceis”.

O jornalista Alex Perry corrobora: “Qual o jovem que não se sente tentado a alistar-se no Boko Haram quando estes sociopatas lhes oferecem comida, armas e ‘prestígio’? E quem se arrisca a não ser ‘voluntário’ se o castigo será sempre impiedoso?”

“Convém sublinhar, porém, que não são apenas razões económicas que ajudaram a expandir o Boko Haram”, alertou Mang. “Há, nos seus membros, uma inegável atracção pelo restabelecimento, a qualquer preço, de um Estado islâmico – nostalgia pelos emirados do passado.”

As forças de segurança contribuíram para o terrorismo?
Masked assault: Nigerian police in Borno state prepare for a June patrol in the city of Maiduguri, where the Islamist militant group Boko Haram was founded more than a decade ago | © AFP-JIJI

Agentes da Polícia nigeriana, usando máscaras e capuzes par não serem identificados, patrulham a cidade de Maiduguri, onde nasceu o Boko Haram,  estado de Borno, nordeste do país, agora sob seu controlo
© AFP | Foreign Policy

De seita “mais interessada em derrubar o governo do que em eliminar a corrupção que afecta vários sectores da sociedade”, segundo Henry Mang, o Boko Haram tornou-se organização terrorista “em grande parte devido à ineficácia – e até cumplicidade – das forças de segurança.”

“O número de tropas tem vindo a diminuir”, refere, “muitos soldados deslocados para Norte não conseguem comunicar com as populações porque há uma barreira linguística – nem todos se exprimem em hausa. Quando há denúncias de ataques com centenas de vítimas, a tendência é para desvalorizar esse número, para não ‘baixar ainda mais o moral dos militares’ que estão muito mal equipados.”

In this photo taken Monday, Dec. 8, 2014, a Nigerian woman, Halima Ibrahim and her children sit at a camp for displaced people in Gagamiri, Niger, after her husband was killed by an Islamic extremist in Damassak. With a military escort instead of the usual pomp, the Emir of Mubi was reinstalled Friday in his palace, where until recently the black-and-white flag of Nigeria’s Islamic extremists, Boko Haram, flew. An army tank now guards Mubi’s town gate fortified by sandbags, as residents return from the mountain hideouts where they hid while their city was held for more than a month by the Islamic extremists. ( © Delafortrie Anouk | AP

I8 de Dezembro de 2014; a nigeriana Halima Ibrahim e os filhos vivem refugiados no campo de Gagamiri, no Níger, depois de o marido ter sido assassinado em Damassak
© Delafortrie Anouk | AP

Kyari Mohammed, por seu turno, enuncia três razões da fragilidade crescente do Exército: 1) Começou por lançar operações militares para provocar abertamente o confronto com os militantes do Boko Haram quando iam ou regressavam das suas prédicas (dawah) nocturnas; 2) em 2009, ao matar 17 membros do BH numa cerimónia fúnebre no cemitério de Gwange – isso precipitou a violência em Maiduguri. Ao verem negada a possibilidade de enterrarem os seus motos e de visitarem os feridos no hospital (na sequência de um acidente de viação), o BH decidiu que chegara a hora de declarar guerra ao Estado; 3)Uma ofensiva generalizada contra o grupo, incluindo a execução extrajudicial do líder Yusuf e a destruição total do seu “quartel-general”, consumido totalmente pelo fogo, forçou o BH a entrar na clandestinidade. Alguns membros fugiram para receber melhor treino paramilitar; outros esconderam-se em montanhas e florestas inacessíveis, na fronteira com os Camarões.

A perseguição por parte das forças de segurança não enfraqueceu o BH. Ao contrário do Exército, que tem uma fraca rede de informadores, o Boko Haram sabe tudo sobre todos. As suas primeiras vítimas foram os guardiões das aldeias que colaboravam com as autoridades, agentes prisionais que torturavam os detidos da seita e até destacados políticos do Partido Popular de toda a Nigéria, que é o mais influente no estado de Borno.

O “sucesso” dos ataques do BH na revolta contra os seus opressores fez com que alguns militantes que estavam “na sombra” voltassem ao activo, engrossando as fileiras da seita. Importante também realçar, segundo Kyari Mohammed, é que, enquanto o Boko Haram “só se vinga sobre aqueles que os antagonizam”, as forças de segurança não fazem esta distinção.

Por exemplo, se uma esquadra é atacada, e por não terem informação sobre os agressores, os militares da chamada Joint Task Force-Operation Restore Order (JTF) castigam implacavelmente todos os civis.

Em Abril de 2013, três meses após a instauração do estado e emergência em quatro estados, revela Mohammed, pelo menos 185 civis desarmados foram assassinados e mais de 2000 casas incendiadas pelos militares, depois de um veículo de patrulha da Polícia ter sido alvo de uma emboscada na cidade de Baga, em Borno.

“O Boko Haram provoca deliberadamente as tropas porque sabe que a retaliação recairá sobre os habitantes locais”, lamentou o académico nigeriano. Os próprios líderes tribais têm feito repetidos apelos à retirada da JTF, acusando esta força de “matar rapazes inocentes e de violar meninas e mulheres casadas.”

Onde vai o BH buscar armas e fundos?

Um soldado chadiano de guarda a um lote de armas confiscadas ao Boko Haram, em Abril de 2015, em Malam Fatori, no nordeste da Nigéria, depois de o grupo islamista ter sido daqui escorraçado am a ajuda de tropas dos vizinhos Chade e Níger
© Philippe Desmazes | AFP | Getty Images

O Boko Haram não tem escassez de fundos e armamento, garante Daniel Eyre, principal investigador da Amnistia Internacional para a Nigéria.

“Eles roubam famílias, quando atacam as aldeias; eles assaltam bancos; eles recorrem a todo o tipo de extorsão, seja políticos ou comerciantes; eles infiltram-se em esquadras e quartéis e apoderam-se de armas e munições. São autossustentáveis.”

“Na selecção dos alvos”, adiantou, “escolhem as comunidades que definiram como ‘não crentes’, e é aqui que têm levado a cabo raptos, em particular de crianças, que depois vendem e/ou sujeitam a violações. As mais recentes imagens de satélite que a Amnistia revelou expõem, de forma nítida, o nível de destruição que o BH pode causar.”

This satellite image shows the neighbouring towns of Baga and Doron Baga (named here as Doro Gowon) on 7 January 2015. The yellow indicates destroyed buildings following the Boko Haram attack. © Amnistia Internacional

Esta imagem de satélite mostra as vizinha localidades de Bagae Doron Baga (conhecidas como Doro Gowon) , a 7 de Janeiro de 2015. A cor amarela indica os edifícios destruídos depois de um ataque do Boko Haram
© Amnistia Internacional

A whole neighbourhood has been burnt down in Baga between 2 and 7 January, as the satellite images above demonstrate. © Am

Um bairro inteiro desapareceu do mapa, em Baga, entre 2 e 7 2de Janeiro, como mostram estas imagens de satélite que chocaram o mundo
© Amnistia Internacional

“Não é fácil recolher informações credíveis e independentes – basta referir que o Boko Haram tem destruído torres de telecomunicações para não ser detectado”, reconhece Daniel Eyre. “Confiamos, porém, nos testemunhos dos sobreviventes, ainda que alguns, demasiado traumatizados, optem pelo silêncio ou recalcamento das memórias.”

Eyre foi um dos responsáveis da Amnistia que alertou o mundo para um segundo massacre em Baga – cerca de 2000 mortos (um número que depois foi revisto para “várias centenas”, devido à impossibilidade de contar todos os corpos).

Foram seis dias de matança – sem precedentes – que a comunidade internacional ignorou, mais preocupada com o ataque de outros jihadistas ao semanário satírico Charlie Hebdo, em Paris, do qual resultaram mais de uma dezena de mortos. O BH atacou um quartel e as tropas bateram imediatamente em retirada. Logo de seguida, os terroristas cercaram as aldeias e “mataram tudo o que estava à vista”. Ninguém escapou: nem bebés nem idosos.

Na sua missão, Daniel Eyre confessa que uma das imagens que mais o perturba “é saber que, durante a noite, quando famílias inteiras se preparam para dormir, os fanáticos do Boko Haram sairão dos seus esconderijos atrás de árvores para dizimarem populações civis. São actos deliberados – mas não diferencio as acções dos insurrectos e dos militares: todos são culpados de crimes contra a humanidade. É preciso fazer mais para obter justiça.”

Henry Mang, por seu turno, lembra-se que, há cerca de três meses, uma aldeia vizinha de Jos, onde vive, foi atacada durante a noite. “Saquearam tudo o que havia de alimentos, mataram o gado e depois deitaram fogo às casas e colheitas. Não há dia nenhum em que não tenhamos notícias de civis mortos. Depois de queimarem tudo e içarem as suas bandeiras negras, os terroristas desaparecem.”

“Escondem-se nas matas, onde é quase impossível encontrá-los, devido à densa vegetação que os abriga. Outros atravessam fronteiras porosas, para se refugiarem no Chade ou nos Camarões. Infelizmente, as maiores vítimas são os milhões de refugiados e deslocados internos que continuam a chegar a campos de acolhimento provisórios.”

Como é que cristãos e muçulmanos encaram o BH?
Bridgette Kasa, a Christian, now sleeps on a church floor in a camp guarded by police. “It’s not safe to go home,” she said. © JESSE MCLEAN/TORONTO STAR

Bridgette Kasa, cristã nigeriana, passou a dormir no chão de uma igreja, num campo de deslocados internos. “Não é seguro voltar a casa”, atacada pelo Boko Haram, disse ela ao jornal canadiano Toronto Star
© Jesse McLean

Hundreds of Muslim residents of Kachia have been forced to move to a displacement camp after their homes, shops and mosques were burned © Jesse McLean

Centenas de muçulmanos residentes em Kachia refugiaram-se em campos de deslocados, depois de casas, lojas e mesquitas terem sido incendiadas pelos terroristas do Boko Haram
© Jesse McLean | Toronto Star

Divididos em subgrupos, quer cristãos como muçulmanos não têm, também, qualquer estratégia para enfrentar a ameaça que o Boko Haram representa. “Este não é um grupo que ataca apenas cristãos”, ressalvou Alex Perry. “Se um muçulmano não se conformar com as regras do grupo também enfrentará a morte. Não são apenas igrejas mas também mesquitas que têm sido reduzidas a cinzas ou escombros.”

O establishment religioso muçulmano renega o “Islão” do BH como sendo “uma aberração”. Já os cristãos, em particular, os pentecostais, parecem mais interessados em garantir os seu privilégios na CAN (Associação de Cristãos da Nigéria) do que em procurar uma solução pacífica.

A CAN existe desde os anos 1980 mas as divergências têm vindo a agudizar-se desde 2010. Quem mais tem perdido fiéis são as Igrejas Anglicana e Católica ao contrário da Evangélica, mais abertas ao diálogo com o “Islão moderado”.

Qual a área territorial controlada pelo BH e como a administra?
A screen shot of a video released by Boko Haram shows kidnapped Nigerian school girls. Read more: http://www.businessinsider.com/200-nigerian-schoolgirls-could-be-free-by-tuesday-2014-10#ixzz3PhKU50cm © Business Insider

Imagem de um vídeo colocado YouTube pelo Boko Haram mostra algumas das mais de 200 meninas raptadas de uma escola em Chibok, em Abril de 2014. Algumas foram vendidas como escravas sexuais e outras forçadas a casarem-se com membros do grupo 
© Business Insider

Neste momento, diz-nos Kyari Mohammed, com três estados à sua mercê – Borno, Yobe e Adamawa –, o Boko Haram ocupa cerca de 52 mil quilómetros quadrados, área territorial comparável à da Bélgica, à da Costa Rica ou à da Eslováquia.

“Não se confunda o BH com o chamado ‘Estado Islâmico’ ou com a al-Qaeda”, aconselha a advogada Idayat Hassan. “Nas zonas controladas pelo ISIS há, aparentemente, uma administração que fornece alimentos e outros serviços básicos.”

“No Norte da Nigéria, ao Boko Haram só interessa impor a sua perversa jihad. Nos ataques a escolas, por exemplo, o BH degola rapazes e rapta meninas [como as mais de 276 sequestradas em Chibok em Abril de 2014. A campanha #BringBackOurGirls teve impacto nas redes sociais mas os terroristas ainda só libertaram 21, em Outubro de 2016.]

Houve tentativas de o BH se aproximar de outros grupos extremistas, mas nem estes quiseram uma aliança. O Boko Haram até pode aspirar a ser uma organização terrorista global mas não passa de uma facção local.”

Alex Perry, o jornalista, enfatiza: “Até a al-Qaeda se deve sentir embaraçada por ter discípulos como estes, gente a quem políticos e militares vendem armas; tipos que beneficiam da corrupção mas se consideram puros.”

Henry Mang não desvaloriza a “gravidade da situação”, dado que o Boko Haram controla não apenas três estados mas também vários municípios. “Mesmo com aplicação da lei islâmica, eles não conseguem governar eficazmente. Sabem apenas demonstrar que detém o poder e a força.” 

Qual a política do Presidente Jonathan em relação ao BH?

Goodluck Jonathan (dir.) e o seu sucessor, Muhammadu Buhari
© Newsweek

Goodluck Jonathan é completamente inútil”, declara Alex Perry, sem qualquer hesitação. “Quando surgiram as notícias do massacre de 2000 pessoas em Baga, o Presidente demorou 19 dias a reagir – e foi para negar o que acontecera.”

A sua mulher, Patience, também desmentiu o sucedido. O casal presidencial [que saiu de cena, em 29 de Maio de 2015, quando Muhammadu Buhari tomou posse, depois de derrotar o adversário, assinalando a primeira vez na história da Nigéria que um líder da oposição venceu o partido no poder em eleições democráticas] apressou-se, no entanto, a enviar telegramas de condolências ao líder francês, François Hollande, após a tragédia na redacção do Charlie Hebdo, em Paris. “Esta gente vive alheada da realidade”, criticou Perry.

Goodluck Ebele Azikiwe Jonathan é um cristão do Sul, nascido há 57 anos, em Ogbia, estado de Bayelsa. Pertence ao grupo étnico Ijaw. A 14 de Fevereiro, candidata-se a um novo mandato como chefe de Estado. Foi governador do seu estado entre 2005 e 2007, e já havia sido vice-presidente de 2007 a 2010. Pertence ao Partido Democrático Popular (PDP), no poder.

O rival directo de Jonathan [e actual Presidente] é Muhammadu Buhari, muçulmano do Norte, nascido há 72 anos na cidade-estado de Katsina. General na reserva, de etnia Fulani, governou a Nigéria de 1983 a 1985, depois de um golpe militar. Perdeu as eleições de 2003, 2007 e 2011 (embora, neste último ano, obtivesse 96,9% dos votos no Norte). No dia 14 de Fevereiro, [foi] o candidato comum de uma aliança de partidos na oposição: o Congresso de Todos os Progressistas (APC, sigla em inglês).

Para Idayat Hassan, este escrutínio ajuda a “definir a unidade e identidade do país, seja qual for o vencedor que venha a formar um governo de união nacional.” A Nigéria, adiantou, “é, a partir de agora, graças ao APC, um país bipartidário, tanto mais que o apoio do APC não se limita ao Norte.” Se a advogada nigeriana parece simpatizar com Buhari, o jornalista Perry não lhe dá o benefício da dúvida: “É um homem respeitado e de acção – é certo. Mas é um déspota e não é um democrata.”

[Em 14 de Abril de 2015, num artigo de opinião publicado pelo jornal New York Times“, Buhari garantiu que tem uma estratégia para “destruir os terroristas do Boko Haram”, contando para isso com a ajuda dos Estados Unidos e dos vizinhos Chade e Níger.]

Nenhum analista ignora que o controlo que o Boko Haram exerce em três estados do Norte dificultará a votação. Aliás, muitos consideram a intensificação dos ataques do BH uma campanha de intimidação para que os nigerianos não votem “num sistema de infiéis”. 

A Nigéria corre o risco de desintegração?
© Wikimedia Commons

© Wikimedia Commons

“Não haverá desintegração! A coexistência é um valor que os cidadãos muito prezam e querem preservar”, assegura Idayat Hassan. “Este não é um país que se possa dividir em categorias – urbano/tribal; moderno/antiquado; cristão/muçulmano…”, comentou Alex Perry. “Acredito que os nigerianos conseguirão conciliar as suas diversas identidades e salvar a nação – mesmo que Goodluck e Buhari representem o passado, não o futuro.”

Kyari Mohammed concluiu: “A Nigéria sobreviverá, mas o Boko Haram ainda andará por aqui durante algum tempo. Até haver vontade política para o derrotar.”

 O homem deles em São Tomé

Saidu Pindar, primeiro embaixador da Nigéria em São Tomé e Príncipe, terá sido um dos patrocinadores do Boko Haram
© Nigeria News

O primeiro embaixador da Nigéria em São Tomé e Príncipe morreu em 2011, num misterioso acidente de viação. Os obituários elogiaram Alhaji Saidu Shettima Pindar como um “homem visionário e humilde”. O que poucos sabiam é que o diplomata com três décadas de carreira era um dos principais financiadores do Boko Haram.

A revelação foi feita por Sanda Umar Konduga (ou Usman Al-Zawahiri), membro do grupo terrorista, após a sua captura pelo exército, informou o website Safer Africa. O embaixador extraordinário e plenipotenciário, que havia sido designado em 2000 pelo antigo Presidente Olusegun Obasanjo, transportaria “mais de 3000 dólares” para o Boko Haram.

A viatura em que seguia despenhou-se na “mais perigosa estrada” que liga Kaduna, capital do estado com o mesmo nome, a Kano, cidade de outro estado homónimo.

Relatos de “media” e redes sociais nigerianos indicaram, citando “uma fonte”, que o acidente de Pindar terá sido causado “por más condições de alguns troços na via”. Ressalvaram, porém, que “nem isto pode ser confirmado.”

Saidu Pindar era uma figura política influente em Biu, onde nasceu em 1954, no estado de Borno, no nordeste, onde o Boko Haram vem intensificando a sua ofensiva, em particular em Baga. Organizações de direitos humanos denunciam que esta localidade, de 10 mil habitantes, “despareceu virtualmente do mapa” nas últimas semanas. Em Borno, autoridades governamentais e agências humanitárias não têm acesso a 20 dos 27 distritos locais.

Engenheiro de formação, Saidu Pindar pertenceu ao Partido Democrático Popular (PDP), que apoia, às presidenciais de 14 de Fevereiro próximo, o general na reserva Muhammadu Buhari, candidato (de fé muçulmana e etnia fulani) do Congresso de Todos os Progressistas e rival do actual chefe de Estado, Goodluck Jonathan (um hausa cristão).

Director executivo da Zona de Desenvolvimento Conjunto Nigéria-São Tomé e Príncipe que resultou de um tratado assinado em 2009, Pindar criou também uma fundação com o seu nome. Custeia, deste modo, mais de 3000 bolsas, para jovens de Borno estudarem no estrangeiro – e “transformarem a Nigéria”.

Que ironia: Saidu Pintar, que concluiu um mestrado na Universidade de Manchester, no Reino Unido, e foi embaixador em Roma, onde uma ONG cristã o homenageou pelos seus esforços contra o tráfico de seres humanos, apoiava uma seita cujo objectivo assumido é “destruir a “civilização ocidental”.

O nome Boko (em hausa, uma das línguas e etnias nigerianas) Haram (em árabe), significa “Educação Proibida”.bbog .#

Familiares das meninas raptadas pelo Boko Haram em Chibok continuam à espera que elas sejam libertadas – só algumas voltaram para as suas casas
© Wall Street Journal

Estes dois artigos, agora actualizados,  foram publicados originalmente no REDE ANGOLA, em 23 de Janeiro de 2015 | These two articles, now updated, were originally posted on the news website REDE ANGOLA, on January 23, 2915

Contra o terrorismo, sim. E a favor da liberdade?

Três analistas – uma marroquina, uma saudita e um israelita – comentam as razões dos que estiveram presentes e ausentes em Paris numa manifestação de solidariedade com as vítimas do ataque ao semanário satírico Charlie Hebdo. (Ler mais | Read more…)

World leaders and dignitaries, including, from left, Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu, Malian President Ibrahim Boubacar Keita, French President François Hollande, German Chancellor Angela Merkel, European Council President Donald Tusk and Palestinian Authority President Mahmoud Abbas, attend a unity rally Sunday in the wake of last week's attacks in Paris. ( © Dan Kitwood/Getty Images)

A partir da esquerda: Benjamin Netanyahu (Israel), Ibrahim Boubacar Keita (Mali), François Hollande (França), Angela Merkel (Alemanha), Donald Tusk (UE) e Mahmoud Abbas (Palestina), na “marcha pela unidade”, em Paris
© Dan Kitwood | Getty

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Rabat decidiu não se juntar aos líderes do Norte de África e Médio Oriente que acorreram a Paris para a “marcha da unidade”.

A jornalista e historiadora marroquina Hanane Harrath não contém a indignação: “Considero intolerável” que Salaheddine Mezouar tivesse condicionado a sua presença à ausência das caricaturas de Maomé. “Fica claro que não tencionava respeitar a memória dos jornalistas do Charlie Hebdo mas proibir o que provocou as mortes injustificáveis!”

“Homenagem digna seria sublinhar que os cartoonistas [assassinados por autoproclamados discípulos de Osama Bin Laden] tinham o direito, salvaguardado pela Constituição [francesa], de serem insolentes”, diz-me Hanane Harrath, numa entrevista.

“O papel de um responsável político não é definir o que pode ou não pode ser pensado, mas assegurar que todos os cidadãos podem pensar livremente. O ministro marroquino traiu esta exigência. É muito grave!”

Com um mestrado em Política do Mundo Árabe pelo Instituto Sciences Po, em Paris, estudiosa dos “usos da memória colonial, da memória emigrada e imigrada na construção da narrativa política entre os franceses de origem magrebina”, Hanane Harrath critica: “Os responsáveis muçulmanos não podem manter por mais tempo o fosso que é defender a modernidade tecnológica sem modernidade intelectual.”

“O desafio que enfrentam é o de dessacralizar crenças e dogmas. O nosso drama é que todos os dias eles impedem isso.”

Se Salaheddine Mezouar faltou à manifestação outros fizeram gala em desfilar. Um deles, Nizar Obaid Madani, ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita. Este é o país que, na semana da mortandade na redacção do Charlie Hebdo, aplicou uma dura sentença ao blogger Raif Badawi.

Fotos dos cartoonistas mortos pelos terroristas em Paris erguidas por manifestantes, que seguram também um cartaz com a palavra de ordem Je suis Charlie. © John Michillo | AP terroristas em Paris

Fotos dos cartoonistas mortos pelos terroristas em Paris erguidas por manifestantes, que seguram também um cartaz com a palavra de ordem Je suis Charlie
© John Michillo | AP

Na quarta-feira, o reino dos Saud qualificou o ataque levado a cabo por fiéis da sua implacável doutrina islâmica wahhabita como “acto terrorista cobarde”. Na sexta-feira, Badawi foi retirado da prisão de Jidá e conduzido a uma praça frente a uma mesquita para 50 chicotadas, “primeira fase” de uma flagelação pública. O castigo repetir-se-á durante 19 semanas. Arrisca-se ainda a permanecer dez anos na cadeia.

Uma activista saudita, que pediu o anonimato, “por questões de segurança”, disse-nos: “A liberdade de expressão nunca existiu neste país. É hipocrisia que as autoridades tenham condenado o ataque em Paris, mas também são hipócritas os líderes mundiais que se manifestam em defesa da liberdade de expressão e continuam aliados da Arábia Saudita.”

“Não é a defesa da liberdade que juntou todas estas personalidades e sim a condenação do terrorismo – o ponto comum”, admitiu Hanane Harrath.

“Também há, seguramente, razões eleitorais ou de comunicação política”, adiantou, citando os casos dos primeiros-ministros Benjamin Netanyahu (Israel terá eleições em Março) e Ahmet Davutoglu (a Turquia tem sido alvo de críticas por prender jornalistas).

© ixene.dessinateur

© ixene.dessinateur

Ao israelita Larry Derfner, colunista do Jewish Journal of Greater Los Angeles e do website +972, perguntámos as razões que levaram até França Netanyahu e o presidente palestiniano, Mahmoud Abbas. Respondeu: “Netanyahu foi tentar mostrar que nada distingue o Hamas e o Hezbollah, inimigos directos de Israel, do ISIS [chamado ‘estado islâmico’ ou Daesh] e da Al-Qaeda.”

“Esta é uma argumentação só aceite pelos líderes dos EUA, Canadá, Austrália e Reino Unido. Quanto a Abbas, suponho que foi tentar solidificar apoio e destacar – o que é verdade – que tem sido bem sucedido no combate ao terrorismo na Cisjordânia.”

Face à gigantesca manifestação em Paris – mais de um milhão de pessoas – houve quem se interrogasse, nas redes sociais, por que motivo não se viu este tipo de iniciativa quando, em 2011, Anders Behring Breivik, um “fundamentalista cristão”, matou 76 pessoas “para travar a islamização” da Noruega.

Conclui Hanane Harrath: “O problema estará na recorrência de ataques cometidos em nome do Islão. É claro que todos os muçulmanos não são terroristas mas, hoje, são muçulmanos a maioria dos terroristas. Estes são os factos.”

“Outro problema: quando se justifica um atentado com convicções políticas estamos no terreno da razão. Quando se evoca a religião passamos para o domínio do sagrado, o que não é questionável. É isto que provoca um bloqueio e condena o diálogo.”

Hanane Harrath
© aujourdhui.ma

Larry Derfner
© The Forward

Este artigo foi publicado originalmente no jornal DIÁRIO DE NOTÍCIAS, edição de 12 de Janeiro 2015 | This article was originally published in the Portuguese newspaper DIÁRIO DE NOTÍCIAS, on January 12, 2015

Tempestade eleitoral na Europa

Em 2015 haverá eleições legislativas em dez dos 28 Estados-membros da União Europeia: Croácia, Dinamarca, Espanha, Estónia, Finlândia, Grécia, Polónia, Portugal, Suécia e Reino Unido. Em pelo menos cinco deles, o modo como o poder passará a olhar a Europa pode mudar radicalmente. Os nomes a ter em conta neste novo xadrez político são: Alexis Tsipras, em Atenas; Pablo Iglesias, em Madrid; Nigel Farage, em Londres; Jimmie Åkesson, em Estocolmo; e Kristian Thulesen Dahl, em Copenhaga. Com eleições locais em março, Marine Le Pen promete dar ainda mais força ao grupo emergente dos eurocépticos. (Ler mais | Read more…)

© andydavey.com

© andydavey.com

Uma segunda votação no Parlamento helénico, a 23 de Dezembro, e Stavros Dimas, candidato presidencial do Nova Democracia (ND, conservadores) e do PASOK (socialistas), voltou a não ser eleito.

À hora do fecho desta edição, não se sabia ainda o resultado da última tentativa, no dia 29. [Falhou novamente.] Se o primeiro-ministro, Antonis Samaras, não convenceu 180 deputados a aprovar a sua escolha, a coligação de extrema-esquerda Syriza, liderada por Alexis Tsipras, poderá chegar ao poder, em legislativas antecipadas, em 25 de Janeiro de 2015.

Recentes sondagens dão Syriza 28,1% por cento de votos, contra 23,7% do ND. A 21 de Dezembro, quando Dimas, ex-chefe da diplomacia grega e antigo comissário europeu, falhou o primeiro escrutínio, Samaras tentou cativar o apoio, na terceira ronda, de alguns parlamentares independentes e do Esquerda Democrática.

Em troca de consenso, ofereceu-lhes postos ministeriais numa remodelação governamental. Prometeu antecipar as eleições para o final de 2015. Com uma condição: que antes fosse concluído um acordo com os credores internacionais sobre o resgate financeiro, muito impopular.

A progressão da Syriza preocupa os mercados tanto quanto a ascensão em Espanha do PODEMOS, chefiado por Pablo Iglesias Turrión, com um programa que exige a restruturação da dívida pública e o fim da austeridade imposta pela “troika” (UE, FMI e Banco Mundial).

Uma sondagem do diário El Mundo atribui ao partido nascido no início de 2014, e oriundo do movimento Indignados, 28,2% das intenções de votos nas eleições de 2015. Será, assim, a maior força política espanhola, ultrapassando o Partido Popular (PP), do actual primeiro-ministro, Mariano Rajoy (26,3%), e o PSOE (na oposição, 20,1%).

A queda das duas forças tradicionais ocorre apesar de o Banco Central ter revelado, no boletim de Dezembro, que o emprego aumentou em 2014, para uma taxa de aproximadamente 1%, em contraste com o decréscimo de 3,3% em 2013. Prevê também, para 2015, uma taxa de crescimento anual de 2%. No entanto, o supervisor avisa que uma subida de salários, como defende o PODEMOS, “travará a recuperação”.

À semelhança do grupo de Iglesias que desfez o tradicional bipartidarismo em Espanha, também o UKIP, em Londres, desequilibrou a alternância entre conservadores e trabalhistas.

Com a promessa solene de um referendo à permanência do país na UE, Nigel Farage, o líder do Partido da Independência do Reino Unido, obrigou o primeiro-ministro, David Cameron, a fazer o mesmo juramento e a endurecer as políticas contra a imigração.

[Em Junho de 2016, o referendo prometido por Cameron resultou numa maioria a favor do Brexit (62% votaram a favor de sair da UE), e o país mergulhou numa crise política e económica. Cameron demitiu-se; Theresa May ascendeu à liderança dos conservadores e à chefia do governo.]

A subida do partido de Farage faz-se também à custa dos liberais-democratas, de Nick Clegg, que foram prejudicados pela aliança com os Tories. Os LibDems poderão nem chegar à Câmara dos Comuns, enquanto os Verdes são colocados, pelas sondagens, em quarto lugar, atrás do Labour, dos conservadores e do UKIP.

eu puzzle

Em Estocolmo (Março) e em Copenhaga (Setembro), duas formações de extrema-direita, eurocépticas e xenófobas – os Democratas Suecos e o Partido Popular Dinamarquês –, constituirão também desafios às coligações no poder 

Outras cinco eleições legislativas importantes ocorrerão em 2015 no espaço Europeu, mas desta vez sem referência de risco para a UE que hoje conhecemos. Para além de Portugal, na Polónia deverá manter-se Ewa Kopacz, da Plataforma Cívica, e na Estónia, Taavi Rõivas, do Partido da Reforma, dará continuidade ao mandato de Andrus Ansip, o novo comissário europeu para o “mercado digital único”.

Já na Finlândia e na Croácia poderá haver mudanças, porque não se espera a revalidação das vitórias da Coligação Nacional e da aliança Kurikuru, respetivamente.

Em contrapartida, em França existem eleições locais – os primeiros testes da “longa corrida” que termina em 2017, com as legislativas e presidenciais. E também aqui, Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN), aparece muito bem posicionada para fazer tremer a UE, já em Março, e dar novo alento ao movimento político que se instala na Europa.

Como diz a revista The Economist, na sua edição de 20 de Novembro de 2014, “De todas as previsões feitas sobre 2015 nenhuma parece mais segura do que a ideia generalizada de que os povos nas grandes democracias se sentem profundamente traídos por aqueles que os lideram”. E as legislativas que e aproximam constituirão “uma oportunidade para os eleitores expelirem algumas dessas frustrações”.

O desencanto é evidente, em especial no que diz respeito ao “desperdício de inúmeras oportunidades” para resolver a crise do euro, que entra o seu sexto ano. “Vai falar-se muito do fracasso de liderança em 2015, porque é o 50º aniversário da morte de Winston Churchill e o 200º do nascimento de Otto von Bismarck.”

Alexis Tsipras: Perigoso ou poderoso?

Alexis Tsipras © koolnews.gr

Alexis Tsipras
© koolnews.gr

Syriza – Grécia

O semanário alemão Der Spiegel classificou-o de “homem mais perigoso da Europa”, mas Alexis Tsipras, o líder da Syriza, Coligação da Esquerda Radical, preferiu retirar a foto do seu ídolo, Che Guevara, da sede do partido do que dar razão aos mercados receosos de uma retirada da Grécia da zona euro e do regresso do dracma.

A princípio, o antigo militante da Juventude Comunista, que é, nas sondagens, o candidato favorito à chefia do Governo, prometia o “derrube do regime da ‘troika’”. Continua a advogar “o corte de grande parte” da dívida grega, “num gesto de solidariedade europeu, como o perdão concedido à Alemanha em 1953”.

No entanto, tem vindo a suavizar este discurso, sobretudo desde as eleições europeias de Maio de 2014, que a Syriza ganhou, relegando para segundo lugar o Nova Democracia, de Antonis Samaras.

Em Dezembro, enquanto o Parlamento helénico escolhia um Presidente da República, Tsipras deu uma entrevista à Reuters para esclarecer a política que pretende adoptar se chegar ao poder. “Uma vitória da Syriza acabará com a profecia de que a Europa será destruída, e servirá para criar um clima de segurança.”

Não interessam “medidas unilaterais” ao engenheiro de 40 anos que, aos 33, se tornou o mais jovem dirigente de um partido político em Atenas, quando foi chamado a presidir ao Synaspismos, principal membro da aliança Syriza. “Estamos preparados para uma negociação dura, e conscientes de que os nossos parceiros europeus irão adotar, igualmente, uma posição rígida, numa primeira fase, mas não pediremos nada que seja irrealista.”

“Este não é o Alexis Tsipras de 2010”, observou Blanka Kolenikova, analista do IHS Global Insight, em declarações à rede de media EurActiv. “Ele precisa de provar que é flexível.” A retórica sobre a nacionalização dos bancos, por exemplo, quase desapareceu, a favor de um papel mais activo do fundo de garantia do Banco Central, que controla três das quatro maiores instituições bancárias.

Independentemente das negociações, porém, “a austeridade e o plano de resgate serão cancelados”, frisou Tsipras, visto por muitos como um “populista” que se opõe ao capitalismo neoliberal e aos poderes da “oligarquia corrupta e parasita” na Grécia. “Eu acredito na força e no poder do povo!”, diz.

Pablo Iglesias: A luta de um “indignado”

Pablo Iglesias Turrión © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Pablo Iglesias Turrión
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

PODEMOS – Espanha

O seu nome é uma homenagem ao pai do socialismo espanhol, Pablo Iglesias, e o secretário-geral do partido PODEMOS mostra-se determinado a não desiludir quem fez dele um símbolo dos Indignados, movimento iniciado em 2011, quando o país enfrentava um elevadíssimo desemprego e a Puerta del Sol, em Madrid, se tornou centro de revolta por uma política alternativa.

Tal como Tsipras, na Grécia, também Pablo Iglesias Turrión, de 36 anos, é temido como “um gajo perigoso que pode transformar a Espanha numa nova Venezuela” e, simultaneamente, admirado como “um tipo que quer construir um país decente”.

O diário britânico The Guardian, que o entrevistou, adianta que ele tem sido “comparado a Adolf Hitler e a Fidel Castro, chamado de freak e extremista, e criticado por justificar o terrorismo da ETA, ao dizer que a violência da organização [separatista basca] precisa de ‘explicações políticas’ para se poderem encontrar soluções democráticas”.

Os ataques verbais não perturbam o neto de Manuel Iglesias, condenado à morte pela ditadura de Franco (a sentença, sob a acusação de ser um “marxista ortodoxo”, foi comutada em prisão). “O PODEMOS deixa nervosos os que estão no poder”, disse o seu líder ao Guardian, numa alusão ao Partido Popular (PP). “É por isso que me insultam e difamam. É um sinal de que estão preocupados”.

Nascido na capital espanhola – onde o PODEMOS ascendeu a terceira força política –, Pablo Iglesias considera-se “uma pessoa normal” que passou a maior parte da vida como investigador e professor universitário. Militante na União das Juventudes Comunistas, dos 14 aos 21 anos, o seu percurso académico é impressionante: licenciado em Direito e doutorado em Ciência Política; mestre em Humanidades e em Arte e Comunicação.

Já era um conhecido politólogo, com programas de debate na TV, quando as eleições europeias, em Maio de 2014, o fizeram entrar no Parlamento em Estrasburgo. Registado em março, o PODEMOS, herdeiro dos Indignados, conquistou 1,2 milhões de votos e cinco lugares. Nas legislativas de novembro próximo, as sondagens admitem que possa ganhar 30 a 58 assentos no Congresso dos Deputados.

Num país abalado por escândalos de corrupção que afectam até a família real, o partido de Iglesias apresentou um programa anti-austeridade que inclui aumento do salário mínimo e redução da idade da reforma, fim dos paraísos fiscais e dos controlos fronteiriços na UE, nacionalização de bancos e outros organismos resgatados com dinheiros públicos. “Temos esperança, porque pensamos que estamos a contribuir para algo histórico – uma mudança política.”

Nigel Farage: Um eurocéptico convicto

Nigel Farage © Matt Cardy |Getty

Nigel Farage
© Matt Cardy |Getty

UKIP – Reino Unido

Antigo membro do Partido Conservador, Nigel Farage abandonou os Tories, em 1992, quando o então primeiro-ministro, John Major, assinou o Tratado de Maastricht. No ano seguinte, fundou o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP, sigla inglesa), que tem como um dos objectivos primordiais retirar o país da União Europeia.

“Suspeito que todos os partidos vão para as eleições de 2015 com a promessa de um referendo [sobre a permanência na UE], mas acredito e espero que, entrando o UKIP na Câmara dos Comuns com número razoável [de deputados], esse referendo se realizará.”, declarou Farage.

Farage, que é eurodeputado desde 1992, não perde a oportunidade para expor o quanto despreza a burocracia da UE. Em 2005, embaraçou Durão Barroso, quando convenceu 75 deputados a apoiar uma moção de desconfiança que o forçasse a justificar despesas com férias.

A Comissão Europeia recusou, invocando protecção da vida privada, mas o jornal alemão Die Welt revelou que o ex-primeiro-ministro português passou uma semana a bordo de um iate de Spiro Latsis – um mês depois de a empresa do armador bilionário ter recebido do Estado grego 10,3 milhões de euros. A ajuda foi aprovada por Romano Prodi, o antecessor de Barroso. Este compareceu no Parlamento mas a moção de Farage foi rejeitada.

Opositor assumido do “projecto do euro”, por considerar que não se adequa a uma união com economias fortes, como a da Alemanha, e fracas, como a da Grécia, Farage também desaprova os planos de resgate financeiro de países como Portugal.

“Pagar dívidas com dinheiro dos contribuintes significa que a próxima crise não afectará um país mas o próprio Banco Central Europeu.”

Só abandonando a UE, Farage poderá ativar outro ponto controverso do programa do UKIP: proibir que os imigrantes (há cerca de um a dois milhões de ilegais) no Reino Unido usufruam de quaisquer benefícios durante cinco anos. Este período permitirá “aperfeiçoar uma nova lei que resolva o desastre das políticas trabalhistas desde 1997”, disse.

“A maioria das pessoas que tem vindo para a Grã-Bretanha desde 2004 não tem sido de grande utilidade para a sociedade.”

Embora Farage tenha “encantando muitos eleitores”, segundo o Daily Mail, uma série de gaffes parece contribuir para uma descida do UKIP nas sondagens. O declínio beneficia os trabalhistas, de Ed Miliband, na oposição a David Cameron. Uma sondagem, no final de Dezembro, dava ao Labour uma vantagem de 7 pontos percentuais.

Quanto ao partido que se proclama “centrista”, mas é considerado “xenófobo, homofóbico e islamófobo”, enfrentou recentemente um escândalo sexual, “o absurdo de um activista [suspenso por ‘blasfémia’] comparar Farage a Jesus” e foi alvo de troça depois de um candidato parlamentar ter afirmado, em público, que o seu cavalo “foi violado por um burro homossexual”.

Jimmie Åkesson: Ultranacionalista contra a imigração

Mattias Karlsson (o ideólogo, à esq.) e Jimmie Åkesson (o líder)
© Tomas Oneborg | SvD | TT

Democratas Suecos – Suécia

Seis meses após o país ter ido às urnas, o primeiro-ministro Stefan Löfven foi obrigado a marcar novas eleições para Março de 2015, depois de o partido de extrema-direita Democratas Suecos, liderado por Jimmie Åkesson e por Mattias Karlsson (o ideólogo), ter contribuído para o chumbo do Orçamento de Estado.

É a primeira vez em meio século que isto acontece, e Löfven admitiu que os Democratas Suecos exerceram efectivamente “um poder de veto” ao quebrarem a tradição de se absterem, optando por alinharem com a oposição de centro-direita para travar “leis fundamentais” apresentadas pela coligação minoritária sociais-democratas/Verdes.

Para os Democratas Suecos, a terceira maior força política nacional, o escrutínio em Março será “um referendo de facto” à imigração, a que se opõem, e que atingiu níveis recorde com a chegada maciça de refugiados dos conflitos na Síria, Iraque e Somália. A Suécia aceita duas vezes mais refugiados per capita do que qualquer dos 34 Estados membros da OCDE.

Não obstante serem marginalizados no debate público, por políticos e media, em geral, que os categorizam como “supremacistas brancos e neonazis”, os Democratas Suecos obtiveram, em Setembro, 13% dos votos (o dobro face a 2010). Sondagens admitem que poderão subir até aos 18%. Åkesson garante que purgou a organização de todos os seus elementos extremistas, mas Löfven não teve dúvidas em acusá-los de serem “neofascistas”, citando os laços com os partidos Manter a Suécia Sueca e Resistência Ariana Branca.

Em Agosto de 2014, Åkesson – temporariamente substituído por Karlsson, por estar “exausto” – explicou a doutrina que o rege: “O islamismo [a ideologia; não o Islão, a religião] é o nazismo e o comunismo do nosso tempo, e deve ser tratado com o mesmo desprezo e uma resistência mais forte.”

Henrik Arnstad, investigador sobre o fascismo, vê na política dos Democratas Suecos “um ultranacionalismo que é incompatível com a democracia”.

Kristian Thulesen Dahl: O “patriota” que desconfia da UE

Kristian Thulesen Dahl
© Martin Stampe

Partido Popular Dinamarquês – Dinamarca

À semelhança do Reino Unido, outro país que nunca integrou a zona euro é a Dinamarca. Se as sondagens estiverem correctas, o Partido Popular Dinamarquês (PPD), extrema-direita comandada por Kristian Thulesen Dahl, poderá ser o mais votado (21,2%), nas eleições de Setembro de 2015. Para trás arriscam-se a ficar os sociais-democratas (19,8%), que lideram a atual coligação, e os liberais (20,9%), que chefiaram a anterior.

Tal como os Democratas Suecos, observou o semanário The Economist, o PPD nutre uma “profunda desconfiança em relação à União Europeia e aos imigrantes”; e tem “uma grande admiração por símbolos patrióticos”.

Mas tem apoiado informalmente vários governos de centro-direita. Graças a esta postura, ganhou “uma influência desproporcionada durante as negociações para o orçamento anual”, exigindo leis mais restritivas da imigração em troca do seu apoio. Talvez por isso, mesmo em crescendo de popularidade, “ser-lhe-á mais vantajoso manter-se na oposição” do que formar uma aliança de governo.

As condições para uma parceria, definidas por Dahl, deputado desde 1994 e líder do PPD a partir de 2012, são mais despesa pública, maior controlo da imigração, reintrodução do controlo de fronteiras e salvaguarda das cláusulas de exceção de que a Dinamarca beneficia no Tratado de Maastricht. Os liberais não parecem receptivos e as perspectivas de acordo mútuo parecem diminutas.

Neste cenário, analistas em Copenhaga não excluem que a primeira-ministra cessante, Helle Thorning-Schmidt, famosa por uma selfie com Barack Obama e François Hollande durante o funeral de Nelson Mandela, se mantenha no poder.

A “grande corrida” de Marine Le Pen

Marine Le Pen deixou de estar à sombra do pai, Jean-Marie
© Pierre-Olivier Callede | Gamma-Rapho | Getty

Frente nacional  – França

A França não terá legislativas em 2015, mas nas eleições departamentais (provinciais) de Março, a Frente Nacional poderá ser novamente o partido mais votado. E a sua líder, Marine Le Pen, ganha fôlego para as presidenciais em 2017, partindo como favorita.

Em 1952, dois franceses, Robert Schuman e Jean Monnet, foram os inspiradores da Comunidade Económica Europeia do Carvão e do Aço (CECA), que precedeu, primeiro, a CEE (1957) e, depois, a UE (1993). Mais de 60 anos depois, a presidente da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, defende que a pátria abandone “gradualmente” moeda comum, para “recuperar a soberania económica”. Esta saída seria “negociada em grupo”, e incluiria outros Estados membros, como Portugal, a Grécia, Itália e Espanha.

Uma sondagem do Instituto Odoxa, divulgada em Dezembro, indica que, nas eleições departamentais (provinciais) de 22 e 29 de Março de 2015, a FN poderá obter 28% dos votos, repetindo o triunfo de Maio de 2014, nas europeias, quando quadriplicou o score de 2009, ganhando quase 25%. Este ano, ficará à frente da UMP (25%) e dos socialistas (17%).

Dos 120 conselheiros locais, a extrema-direita subirá para 400, segundo os prognósticos. Para 2017, ano de presidenciais, Marine Le Pen é igualmente a favorita. Numa segunda volta, terá hipótese de derrotar o anterior chefe de Estado Nicolas Sarkozy, que quer voltar ao Palácio do Eliseu.

Uma profunda crise económica ajuda a explicar porque, segundo a sondagem Odoxa, “58% dos franceses consideram a FN um partido como os outros e alternativa de governo”. Num ano, segundo o diário espanhol El País, fecharam 63.322 empresas e 3,5 milhões de pessoas estão no desemprego. O crescimento do PIB terá sido de 0,4% em 2014 e, para 2015, prevê-se 1%.

Face a este declínio, a “filha do monstro” (a expressão é dela) Jean-Marie Le Pen, o fundador da FN, disse numa entrevista à Der Spiegel.: “Eu quero destruir a UE – não a Europa. Há um aumento de hostilidade entre países. Os alemães são denegridos como cruéis, os gregos como fraudulentos e os franceses como preguiçosos. Isto não é uma irmandade.”

“Acredito numa Europa de Estados-nações, mas não quero esta União Soviética Europeia”, acrescentou a assumida admiradora de Vladimir Putin. Informações recentes indicam que um banco russo emprestou à FN cerca de 40 milhões de euros. Marine Le Pen confirmou apenas que pediu e recebeu nove milhões.

A militante que aderiu à FN em 1986 e sucedeu ao pai em 2011 não defende apenas que a França abandone o euro, “criado pela Alemanha para a Alemanha”. Vai mais longe, ao advogar o fim de “velhas instituições”, como a NATO, “que não faz sentido num mundo multipolar”, e o Fundo Monetário Internacional. O FMI, dirigido pela francesa Christine Lagarde, “é uma máquina infernal ao serviço da ideologia ultraliberal” – e Marine Le Pen recusa soluções como privatizações de empresas públicas.

Embora procure, em algumas áreas, distanciar-se do pai, condenado por “discursos de ódio e anti-semitismo”, a mulher que, segundo o New Statesman, transformou a FN de “partido pária em força do sistema”, continua fiel a Jean-Marie no que toca à imigração. A ênfase é agora no “Islão radical” e já não na raça.

A “burguesa de Paris”, onde nasceu em 1968, pretende a abolição da lei que regulariza a situação dos imigrantes ilegais e confere, designadamente, ajuda médica gratuita. O melhor remédio “é deportar para os países de origem todos os que entrarem clandestinamente no país.”

A FN anseia ainda pela reforma da lei da nacionalidade, visando o fim da dupla cidadania, “um dos principais fermentos da quebra da coesão republicana”. No que toca ao emprego, à habitação e à segurança social, o lema da “Margaret Thatcher francesa” (diz o pai) e “um dos cem maiores pensadores mundiais” (classificação da revista Foreign Policy) é: “Os franceses primeiro!”

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Este artigo foi publicado originalmente numa edição especial da revista VISÃO, em 1 de Janeiro de 2015 | This article was originally published in a special edition of the Portuguese news magazine VISÃO, January 1, 2015